O Brasil já tem mais de 800 startups de serviços financeiros. mas é só o começo: 34 milhões de brasileiros continuam desbancarizados e os serviços seguem concentrados
Por Cristina Junqueira – Exame – 15/07/2021
Não é novidade que a concentração bancária tem efeitos negativos para os consumidores e para toda a indústria. Por isso é interessante notar que o boom de fintechsestá contribuindo para melhorar esse cenário. A concentração de mercado tem diminuído — infelizmente, ainda em um ritmo lento — e as startups têm cada vez mais democratizado o acesso a serviços financeiros.
Para continuarmos vendo impacto na vida das pessoas, é preciso continuar estimulando a inovação financeira e a competição, como o próprio Banco Central vem fazendo nos últimos anos.
O Brasil contabilizou cerca de 800 startups de serviços financeiros em agosto de 2020 — um aumento de 28% em relação ao ano anterior. Essas centenas de empresas impulsionam a inovação e obrigam todas as instituições a oferecer melhores serviços e produtos aos clientes. E, de pouco em pouco, elas têm promovido a inclusão financeira.
Em uma pesquisa recente com 5.000 clientes do Nubank, descobrimos que 11% dos respondentes nunca haviam tido qualquer produto bancário. E mais do que isso: observamos que os serviços convenientes das fintechs têm ajudado as pessoas a se organizar melhor financeiramente. A mesma pesquisa mostrou que 68% dos clientes passaram a economizar mais dinheiro depois de se tornarem clientes do Nubank e 67% afirmaram que ganharam mais independência usando os produtos práticos. São dados muito promissores que mostram que as fintechs têm de fato impactado positivamente a vida das pessoas.
É preciso continuar estimulando a inovação financeira e a competição, como o próprio Banco Central vem fazendo nos últimos anos (Artur Debat/Getty Images)
As fintechs trazem benefícios reais para as finanças de seus clientes e os brasileiros estão notando seus impactos. Um estudo realizado pela consultoria Ernst & Young (Fintech Adoption Index 2019) mostra que o Brasil tem uma taxa de adoção de 64%, muito acima de países como Estados Unidos e Canadá. Isso quer dizer que cerca de seis em cada dez brasileiros com acesso à internet aderiram a produtos ou serviços digitais de alguma fintech desde 2017.
Além disso, ao analisar os downloads de apps da indústria financeira, nota-se que as fintechs foram responsáveis por 52% desses downloads em outubro do ano passado, segundo a idwall. Enfim, as startups de serviços financeiros têm quebrado paradigmas e vieram para ficar. É por isso que não se pode perder de vista a importância da promoção da concorrência e da inovação no setor financeiro, que permite o desenvolvimento cada vez maior de fintechs que, por sua vez, contribuem para a inclusão financeira e a democratização dos serviços financeiros.
Porém, é só o começo: 34 milhões de brasileiros continuam desbancarizados, segundo o Instituto Locomotiva, e mais de 80% do crédito continua nas mãos dos cinco maiores bancos do Brasil. Nos últimos três anos, mesmo com a profusão de fintechs, a redução na concentração de crédito foi mínima, de meros 4 pontos percentuais, segundo o Relatório Bancário Anual 2020, publicado algumas semanas atrás — passou de 85,5% em 2017 para 81,8% em 2020.
Nesse contexto, é interessante ver instituições que concentram mais de 80% do mercado protestando a favor de regras iguais. E mais interessante é analisar seus argumentos. Diretores e presidentes dos grandes bancos criticam os pequenos detalhes regulatórios que não lhes favorecem e se esquecem das complexas exigências que o regulador demanda igualmente de todas as instituições financeiras ou de pagamento, sejam elas pequenas, médias ou grandes.
Mesmo que algumas das normas sejam customizadas de acordo com o tamanho ou o tipo de operação, elas exigem, em todo o caso, a implementação de diversos mecanismos de controle e de uma estrutura compatível. Ou seja, as normas acabam sendo tão restritivas para fintechs, pequenos ou médios bancos quanto aquelas aplicáveis aos grandes bancos. Estou falando de regras de segurança cibernética, sigilo bancário, prevenção e combate à lavagem de dinheiro e identificação e conhecimento das necessidades dos clientes.
Há, claro, de se levar em conta a segurança num setor tão sensível. Mas essa discussão deixa de considerar essas outras tantas diferenças, ignorando que o sistema sempre se baseou, na verdade, no princípio da igualdade, que nada mais é do que tratar os iguais de maneira igual e os diferentes de forma diferente. No final do dia, as fintechs podem ter regras diferentes — e esse fato é positivo, porque favorece o aumento da inclusão financeira e a competição no setor, com a oferta de melhores serviços, produtos e tarifas mais baratas para o cliente.
O protesto dos grandes bancos tem de ser analisado dentro desse contexto. O risco é que regras rígidas garantam a perpetuação de um mercado concentrado e distorcido como historicamente vemos no Brasil. As queixas das instituições tradicionais não podem ignorar que, no fim do dia, o foco deve estar nos clientes. Para nós, no Nubank, o maior propósito da competição é melhorar a vida dos brasileiros. É nessa direção que concentramos nossas energias. Não tememos a concorrência e sabemos que, quanto mais houver competição, melhores serão os produtos e serviços oferecidos aos brasileiros — venham eles de instituições tradicionais ou de novas.
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A colunista Pilita Clark fala sobre experiências que favoreceram ou prejudicaram trabalhadores remotos
Por Pilita Clark – Financial Times/Valor – 26/07/2021
Trabalho remoto valoriza quem é mais ou menos empenhado? — Foto: Gaby Stein/Pixabay
Funcionários medíocres têm mais sucesso quando trabalham de casa ou quando estão no escritório? Esta é uma pergunta que eu nunca me fiz com frequência antes da pandemia, embora, poderia ter apostado que os funcionários de segunda categoria preferiam bater o ponto em casa.
Certamente é o que alguns executivos de primeiro escalão sugeriram, num momento em que o esforço para voltar a povoar escritórios esvaziados pela covid-19 ganhou força. Trabalhar de casa agrada aos “menos empenhados”, segundo o chefe do WeWork, Sandeep Mathrani. Não é boa coisa para pessoas interessadas em “malhar”, diz Jamie Dimon, do J.P.Morgan.
Mas, e se o contrário é que for verdadeiro? Max Thowless-Reeves, ex-dirigente de “private banking” do UBS, administra sua empresa de gestão de patrimônio em Stafford, Inglaterra, onde leciona na Faculdade de Negócios de Aston. Não muito tempo atrás, ele escreveu uma carta ao “FT” em que fazia uma afirmação espantosa. “A mediocridade se esconde nos escritórios”, disse, acrescentando ser mais fácil identificar qual é o membro da equipe que traz maior valor quando todos estão remotos.
Durante a pandemia, sua empresa começou a usar mais o Google Docs, o que significou que as pessoas trabalhavam no mesmo material ao mesmo tempo, a partir de suas respectivas casas. “Você pode ver todo mundo digitando”, acrescentando que podia ver quem respondia rápido a uma pergunta, fazia uma sugestão valiosa ou contribuía – e quem não.
“Ficou claro quem da equipe nos fazia avançar”, ele me disse. A empresa tem só 15 funcionários, mas vale levar a experiência em consideração. Só o fato de alguém estar no escritório, na sua frente, não significa que esteja fazendo algo tão útil quanto quem trabalha arduamente, mas está invisível, em casa.
Algumas semanas atrás, recebi um e-mail de um executivo aposentado que estava tentando finalizar três negócios imobiliários distintos. Seus pais tinham morrido, deixando dinheiro suficiente para cada um dos dois filhos dele comprarem a primeira casa em Londres. Estava tratando com avaliadores, bancos e advogados imobiliários, todos trabalhando bastante em casa e fornecendo o que ele considerou “um nível contínuo de serviço pouco profissional”: buscas realizadas no imóvel errado, preço de venda errado em um contrato fundamental, prazo errado em um pedido de crédito e nomes digitados errados em documentos. Para piorar, um advogado deixou de sacar a parcela dos recursos do crédito imobiliário a tempo de concluir a transação, o que fez com que um de seus filhos perdesse a entrada que tinha dado e ficasse sem casa para morar.
Diante disso, será que os trabalhadores eram medíocres ou outro fator foi responsável? “Acho que trabalhar de casa inclinou a balança na direção do caos”, disse, acrescentando que as pessoas poderiam estar sobrecarregadas e resolvendo tudo sozinhas. O trabalho de uma advogada que ele tinha usado por três vezes no passado sem qualquer problema – quando ela trabalhava em um escritório – “saiu cheio de erros” agora que ela estava em casa.
O caso dele, é claro, é isolado. Mas se alinha com descobertas de um estudo que examinou o desempenho de mais de 10 mil funcionários de uma grande empresa asiática antes e depois da covid-19. Pesquisadores detectaram que o total de horas trabalhadas cresceu cerca de 30%, mas a produtividade total caíra cerca de 20%. Isso não necessariamente dá razão aos que encaram com restrições o trabalho em casa. O estudo não mediu a qualidade. Tudo isso chama a atenção para a complexidade do grande experimento que foi o trabalho remoto instaurado pela covid-19 – e para o motivo pelo qual é cedo para tirar conclusões rígidas sobre ele agora.
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A posição do Brasil na economia global – e parte do futuro da Humanidade – depende de como iremos desenvolver produtos e negócios sustentáveis da floresta
Por Alexandre Mansur* – Exame 26/07/2021
A Amazônia não é apenas uma marca internacional. É a maior marca internacional que o Brasil tem. Se pensarmos em qualquer símbolo e emoção que o país desperta, passando por futebol, samba, caipirinha, alegria, calor, praia, com todo esse conjunto de imagens que o nosso país traz, hoje a Amazônia é o mais forte. No aspecto positivo e negativo.
No positivo pela potencialidade, pela riqueza. No negativo pela preocupação. Porque a Amazônia mal cuidada pode destruir a civilização, e cada vez mais gente no mundo sabe disso. Sendo assim, é inescapável que a gente use essa marca a nosso favor. Se isso não for feito, ela vai trabalhar contra a gente.
Como usar a marca Amazônia de forma inteligente? Antes de tudo, é fundamental usar e promover os produtos e negócios da floresta, promover a valorização dos indivíduos, ideias e cultura da floresta. Tem muita gente trabalhando nisso, mas o desafio atual é o de impulsionar uma cultura empreendedora na Amazônia para os povos que vivem lá e, após isso, ser possível investir no desenvolvimento da logística de cadeia desses produtos da floresta.
Governo após governo, os planejadores acreditaram , erroneamente, que era melhor ocupar de maneira destrutiva o território do que deixar abandonado, à mercê de fantasmas de ambições internacionais. Movidos por esses sentimentos paranóicos, o país partiu para um esforço monumental de financiar uma ocupação devastadora da região.
Coleta de cacau na Amazônia: a AMAZ é uma aceleradora de negócios da biodiversidade com atuação na região (AMAZ/Divulgação)
Todas as décadas de investimento predatório não foram capazes de criar condições de qualidade de vida adequadas para quem vivia lá e ainda levaram para a região um imenso contingente de população sem uma economia sustentável para mantê-la.
Depois de anos desse fracasso do projeto predatório, é preciso virar a chave e redirecionar os esforços para construir uma economia sustentável na floresta, para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Para se trabalhar uma marca Amazônia é fundamental entender que essa região não é formada por uma única imagem. A floresta não é uma só. A gente cria uma imagem homogênea da região, mas ela, que compõem metade do Brasil, é diversa. Tem: a Amazônia seca, a Amazônia úmida, a indígena, a branca, a ribeirinha, a de grandes cidades, a de cidades médias, a do interior, a de pecuária, a da agricultura. É muito difícil reduzir isso a uma expressão só. A construção de uma marca precisa respeitar a diversidade.
Potencializar os produtos que já existem na floresta amazônica envolve gerar qualidade de vida para a população que os produz. Para Mariano Cenamo, CEO da AMAZ e diretor de novos negócios do Idesam, a Amazônia tem uma importância enorme mundial. Atrai muito interesse pelo seu valor atrelado ao equilíbrio climático (seu papel na regulação da emissão de carbono e na regulação do regime hídrico), na proteção da biodiversidade global e pelo valor da Amazônia em riquezas inexploradas.
“É preciso desenvolver a cadeia de negócios da Amazônia gerando um impacto socioambiental positivo, gerando renda, prosperidade, emprego e melhoria na qualidade de vida das pessoas que estão na região”, diz. Esse é um caminho para que as comunidades possam ter um filho na escola, na faculdade, ter uma televisão um pouco maior na sala de casa. Se eles têm essa ambição, que todo o ser humano tem o direito de ter, eles vão encontrar o caminho que melhor leva eles para esse padrão que eles assistem na televisão todos os dias como um bom padrão de vida.
A AMAZ é uma aceleradora de negócios da biodiversidade com atuação na Amazônia que promoveu entre maio e abril deste ano uma Chamada de Negócios com o objetivo de investir na região. O resultado foi de 156 inscrições de negócios que, juntos, faturam anualmente R$ 32 milhões e têm como demanda de investimento R$ 218 milhões.
Um fator muito importante é que há diversidade nos projetos: 73,2% deles possuem mulheres na liderança e têm 68,6% pessoas não brancas na liderança. Dentre as cadeias de valor estimuladas diretamente pelos negócios inscritos estão açaí e outras palmeiras, turismo sustentável, castanha, artesanato, cacau, óleos e manteigas, madeira sustentável, guaraná, café, pirarucu e outros peixes da Amazônia. A maior parte dos negócios está em fase de organização e tração, mas se comprometeram a iniciar operação na região amazônica no prazo de seis meses a partir do início da aceleração.
A equipe da AMAZ vem analisando os negócios inscritos, e, do total, 12 serão selecionados para pré-aceleração, dos quais seis serão então classificados para o processo de aceleração, recebendo investimentos de até R$ 600 mil, e passarão a integrar o portfólio de negócios da aceleradora, que conta hoje com 12 negócios. Isso é só o exemplo do retorno possível quando se investe na economia que brota da floresta.
Com Larissa Magalhães
*Alexandre Mansur é diretor de O Mundo Que Queremos, organização que atua em causas para melhorar o mundo composta pelo Instituto O Mundo Que Queremos, pela agência Valor Compartilhado e pela produtora Um Novo
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Para atrair mais clientes, pequenos empresários viram influenciadores digitais e investem em conteúdo. Confira dicas para montar o conteúdo certo e se soltar na internet
Raphaela Ribas O Globo 25/07/2021
RIO – Patricia, Carolina, Katleen e Gleide são alguns dos muitos nomes que integram a legião crescente de influenciadores digitais, mas elas têm um detalhe em comum: são empresárias que põem o rosto nas redes sociais para promover suas marcas.
Elas representam um grupo de empreendedores que, em vez de pagar por “publis” em perfis populares, vendem eles mesmos seus negócios na internet.
A receita é antiga, mas repaginada pela tecnologia: investir no relacionamento com o cliente para vender mais. A pandemia aumentou a importância da internet para os negócios, mas, para conquistar, é preciso perder a vergonha e se tornar um “blogueirinho”.
A arquiteta Patricia Pomerantzeff: projetos de clientes geram histórias e atraem outros Foto: Mariana Orsi/Divulgação
Pesquisa do Sebrae mostra que 67% dos pequenos empresários apostam nas vendas por meio de redes sociais, aplicativos ou sites. Com tantas vitrines digitais, sai na frente quem se faz presente com conteúdo útil para o público-alvo. (Confira 8 dicas para se soltar nas redes, no fim desta reportagem)
Para cativar seus 815 mil seguidores do Instagram e mais de um milhão de inscritos no YouTube, a arquiteta Patricia Pomerantzeff aproveita ao máximo suas visitas às obras para captar imagens e dar dicas sobre todas as etapas de um projeto da Doma Arquitetura Foto: Mariana Orsi/Divulgação
Patricia Pomerantzeff, que lidera o escritório Doma Arquitetura (@domaarquitetura), em São Paulo, descobriu isso em 2017, quando começou um canal no YouTube mostrando suas obras. No ano seguinte, percebeu que mais clientes batiam à porta do escritório. Passou a atuar também no Instagram e virou fenômeno.
O perfil é do escritório, mas o rosto do Doma nas redes é o de Patricia. Para cativar seus 815 mil seguidores do Instagram e mais de um milhão de inscritos no YouTube, ela aproveita ao máximo suas visitas às obras para captar imagens e dar dicas sobre todas as etapas de um projeto de interiores, da demolição à marcenaria, da banheira ao interruptor.
A audiência também turbinou o serviço de projetos on-line criado em 2019, que se mostrou essencial na pandemia.
O arquiteto paranaense Mauricio Arruda é outro que ataca de influenciador digital para promover seu escritório, o Todos Arquitetura. Ex-apresentador do Decora, do GNT, ele usa sua experiência na TV para dar dicas sobre decoração de interiores usando seus projetos e apresenta produtos de marcas Foto: Eliana Rodrigues / ArquivoPara cativar seus 815 mil seguidores do Instagram e mais de um milhão de inscritos no YouTube, a arquiteta Patricia Pomerantzeff aproveita ao máximo suas visitas às obras para captar imagens e dar dicas sobre todas as etapas de um projeto da Doma Arquitetura Foto: Mariana Orsi/DivulgaçãoA dermatologista Katleen Conceição turbinou o negócio de consultorias on-line com ‘lives’ e passou a ser convidada por empresas para dar palestras. Foto: DivulgaçãoGleide Borges (@agleidequefez), de Brasília, fez o curso em 2017, quando decidiu tirar do papel sua confeitaria, que batizou de “A Gleide que fez”. Ela tinha acabado de ficar desempregada e vendia doces no boca-a-boca. Hoje, 80% do seu faturamento vem da internet Foto: Arquivo pessoalA estilista Carolina Etz (@carolinaetz) compartilha vídeos sobre o cotidiano, da viagem em família a um prato que arrisca na cozinha, sempre vestindo suas peças. Mistura fotos profissionais e amadoras com modelos, mas os garotos-propaganda que mais fazem sucesso em suas redes são os filhos pequenos. Foto: Acervo pessoal
— Quando estou na obra, faço imagens e vou gerando conteúdo para os stories, já pensando no tema para falar no Youtube, postar no feed do Instagram e fazer fotos com a fotógrafa profissional — detalha a influenciadora, que diz ainda ter de vencer a timidez. — Crio conteúdo nas redes que me trazem clientes reais. E dos projetos deles vem mais conteúdo.
Patricia também virou influenciadora dos colegas. Hoje, faz palestras para escritórios de arquitetura interessados em repetir a fórmula. Deu aula recentemente num curso on-line de redes sociais para arquitetos na companhia de Mauricio Arruda, outro arquiteto que ataca de influenciador digital para promover seu escritório.
‘Coach’ digital
Dona de uma marca de pijamas e lingerie que leva seu nome, a estilista Carolina Etz (@carolinaetz) compartilha vídeos sobre o cotidiano, da viagem em família a um prato que arrisca na cozinha, sempre vestindo suas peças. Mistura fotos profissionais e amadoras com modelos, mas os garotos-propaganda que mais fazem sucesso em suas redes são os filhos pequenos.
Carolina Etz e a família, vestindo os modelos de pijamas que ela cria Foto: Felipe Tavares/Divulgação
Ela começou a investir na estratégia digital em 2019. Contratou blogueiras de olho na chance de vender para todo o país pela internet. Com a pandemia, o funcionamento das lojas e da fábrica que mantém em Nova Friburgo (RJ) foi limitado e ela assumiu os canais digitais. Deu certo. As vendas on-line em 2020 saltaram 200%, diz:
— Quando veio a pandemia, estava preparada para o digital, o que ajudou a manter as lojas. A virada foi colocar uma agenda de conteúdo na rede social. Dá trabalho. Para uma história de 30 segundos, às vezes, levo duas horas.
Alternar entre vídeos e fotos profissionais e pessoais é uma boa estratégia, diz a especialista em marketing digital e Instagram para negócios Priscilla Azevedo (@soupriazevedo). Para quem tem receio de aparecer, a dica dela é ir aos poucos:
— Pode começar a gravar sem aparecer, só mostrando a loja. Depois, fala enquanto grava. Por último, vira a câmera para você, bem natural.
Priscilla lembra que há outro formatos para usar mas reforça também que os vídeos são importantes, não só pelo apelo positivo que tem com o público, mas porque há alguns dias o Instagram anunciou que em sua nova estratégia o algoritmo de leitura passará a priorizar vídeos. Ou seja, quem tiver mais, será mais visto.
A dermatologista Katleen Conceição turbinou o negócio de consultorias on-line com ‘lives’ e passou a ser convidada por empresas para dar palestras. Foto: Divulgação
A dermatologista Katleen da Cruz Conceição (@katleendermato), do Rio, aprendeu a se soltar em transmissões nas redes e usa posts pessoais para dar dicas e conquistar clientes para seu negócio de consultas on-line.
Especialista em pele negra, virou referência no assunto entre celebridades, mas tem o cuidado de não fazer propaganda de serviços e produtos para não contrariar orientações do conselho de medicina. Acabou se transformando numa espécie de palestrante.
— Comecei fazendo algumas lives e as empresas passaram a me procurar. Isso me levou a estudar mais. No início, foi exaustivo, mas ali eu validei que eu não era apenas uma médica de famosos, mas dominava o assunto — diz.
Na esteira da digitalização dos negócios — e de seus donos — um novo mercado se abre para mentores, que prometem transformar qualquer empreendedor num “blogueirinho”.
Quem se vende como uma espécie de coach digital usa as próprias redes para atrair discípulos prometendo que o investimento em cursos on-line dá retorno certo em seguidores e vendas.
Mas é preciso desconfiar de propostas milagrosas. Quem atua na área de forma séria ensina passos como criar uma conta específica para o negócio, organizar uma biografia completa com dados sobre horários, entregas, endereço e que deixe claro exatamente o que vende. O conteúdo, a forma e a frequência das postagens são outros segredos que ensinam.
Capacitação gratuita
Para estimular mais interação de empreendedores em sua plataforma, o Facebook, que também é dono do Instagram e do WhatsApp, oferece um curso on-line e gratuito chamado “Impulsione com o Facebook”.
O material ensina empresários a construírem suas páginas e a usarem ferramentas que aumentam a visibilidade, explica Leo Bonoli, líder de Marketing para Pequenas Empresas do Facebook para a América Latina.
Gleide Borges (@agleidequefez), de Brasília, fez o curso em 2017, quando decidiu tirar do papel sua confeitaria, que batizou de “A Gleide que fez”. Ela tinha acabado de ficar desempregada e vendia doces no boca-a-boca. Hoje, 80% do seu faturamento vem da internet, ela estima. Como não tem um canal próprio de vendas digitais, usa o marketplace do Facebook para oferecer bolos, suspiros, maçãs do amor e até cursos de culinária.
— Aprendi que, para ser influenciadora da sua marca. é importante ter uma linha editorial para o seu conteúdo. Eu, por exemplo, falo de confeitaria, empreendedorismo e autoajuda. Mesmo que sejam temas diferentes, estão dentro do mesmo escopo — diz ela.
A Gleide começou vendendo doces no boca-a-boca e ganhou repercussão nas redes sociais Foto: Acervo pessoal
No mesmo modelo do Facebook, começa em agosto o curso de capacitação Instagram Academy para empresários. Já o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que tem programas de fomento a pequenas e médias empresas, lançou na semana passada a websérie “Dicas BNDES”, que traz respostas a dúvidas de empreendedores sobre a atuação digital em vídeos curtos.
Raquel Abrantes, coordenadora de Mercado do Sebrae Rio, concorda que a presença digital é importante para os negócios hoje em dia. Não ter pode significar oportunidades perdidas. Para quem tem dificuldades com tecnologia ou teme a exposição nas redes, ela diz que a contratação de equipes para produzir conteúdo e gerenciar redes pode ser uma saída. O Sebrae tem programas que financiam esse tipo de investimento, diz:
— Sem isso, não significa que o negócio vai morrer, mas perdem-se muitas oportunidades. O cliente está mais exigente e digital.
8 dicas para se soltar na rede
Tenha uma conta do negócio separada da sua pessoal
Defina com clareza seu público-alvo e o conheça. Isso ajudará a criar peças e direcionar os anúncios
A biografia tem que ser clara e com informações completas sobre: o que o negócio faz, horários de funcionamento, endereço, contato e sobre entregas
Defina uma linha editorial sobre quais temas você vai abordar e como vai falar (se mais sério, mais leve ou divertido, por exemplo)
Seja você mesmo: quanto mais espontâneo, maior o engajamento
Teste as ferramentas e varie os formatos: stories, vídeos, reels, igtv, fotos, carrossel
Se se sente inseguro, use os filtros no Instagram
Não suma. Dê continuidade do conteúdo e poste com frequência
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A criatividade pode ser complicada. Precisa de disciplina e gerenciamento.
Gary P. Pisano HBR (janeiro a fevereiro de 2019)
Resumo. Culturas inovadoras são geralmente descritas como muito divertidas. Elas são caracterizadas por uma tolerância ao fracasso e uma vontade de experimentar. Elas são vistas como psicologicamente seguras, altamente colaborativas e não hierárquicas. E a pesquisa sugere que esses comportamentos … mais
Uma cultura que leva à inovação não é boa apenas para os resultados financeiros de uma empresa. Também é algo que tanto os líderes quanto os funcionários valorizam em suas organizações. Em seminários em empresas em todo o mundo, fiz uma pesquisa informal com centenas de gerentes sobre se eles desejam trabalhar em uma organização onde comportamentos inovadores são a norma. Não consigo pensar em uma única instância em que alguém tenha dito “Não, eu não”.
Quem pode culpá-los: culturas inovadoras são geralmente descritas como muito divertidas. Quando pedi aos mesmos gerentes que descrevessem tais culturas, eles prontamente forneceram uma lista de características idênticas às preconizadas pelos livros de administração: tolerância ao fracasso, disposição para experimentar, segurança psicológica, alta colaboração e não hierarquia. E a pesquisa apóia a ideia de que esses comportamentos se traduzem em um melhor desempenho inovador.
Mas apesar do fato de que culturas inovadoras são desejáveis e que a maioria dos líderes afirma entender o que elas implicam, são difíceis de criar e manter. Isso é intrigante. Como práticas aparentemente tão universalmente amadas – até divertidas – podem ser tão difíceis de implementar?
A razão, acredito, é que as culturas inovadoras são mal compreendidas. Os comportamentos fáceis de gostar que chamam tanta atenção são apenas um lado da moeda. Eles devem ser contrabalançados por alguns comportamentos mais duros e francamente menos divertidos. A tolerância ao fracasso exige intolerância à incompetência. A vontade de experimentar requer disciplina rigorosa. A segurança psicológica requer conforto com franqueza brutal. A colaboração deve ser equilibrada com a responsabilidade individual. E o nivelamento requer uma liderança forte. Culturas inovadoras são paradoxais. A menos que as tensões criadas por esse paradoxo sejam cuidadosamente administradas, as tentativas de criar uma cultura inovadora fracassarão.
1. Tolerância para o fracasso, mas sem tolerância para a incompetência
Dado que a inovação envolve a exploração de terreno incerto e desconhecido, não é surpreendente que a tolerância ao fracasso seja uma característica importante das culturas inovadoras. Alguns dos inovadores mais elogiados tiveram sua cota de fracassos. Lembra do MobileMe da Apple, do Google Glass e do Amazon Fire Phone?
Apesar de todo o seu foco na tolerância ao fracasso, as organizações inovadoras são intolerantes à incompetência. Eles definem padrões de desempenho excepcionalmente altos para seu pessoal. Eles recrutam os melhores talentos que podem. Explorar ideias arriscadas que acabam falhando é bom, mas habilidades técnicas medíocres, pensamento desleixado, maus hábitos de trabalho e gerenciamento deficiente não. As pessoas que não atendem às expectativas são dispensadas ou assumem funções que se adaptam melhor às suas habilidades.
Steve Jobs era famoso por demitir qualquer pessoa que considerasse não estar à altura da tarefa. Na Amazon, os funcionários são classificados em uma curva forçada e a parte inferior da distribuição é abatida. O Google é conhecido por ter uma cultura muito amigável aos funcionários, mas também é um dos lugares mais difíceis do mundo para conseguir um emprego (a cada ano, a empresa recebe mais de 2 milhões de inscrições para cerca de 5.000 cargos). Ele também tem um sistema de gestão de desempenho rigoroso que move as pessoas para novas funções, caso elas não se destaquem nas funções existentes. Na Pixar, os diretores de cinema que não conseguem colocar os projetos nos trilhos são substituídos.
Parece óbvio que as empresas devem definir padrões de alta qualidade para seus funcionários, mas, infelizmente, muitas organizações ficam aquém nesse aspecto. Considere uma empresa farmacêutica com a qual trabalhei recentemente. Fiquei sabendo que um de seus grupos de P&D não descobria um novo candidato a medicamento há mais de uma década. Apesar do fraco desempenho, os líderes seniores não fizeram mudanças reais na gestão ou no pessoal do grupo. Na verdade, sob o sistema de compensação igualitária da empresa, os cientistas do grupo vinham recebendo aproximadamente os mesmos salários e bônus que os cientistas em unidades de P&D muito mais produtivas. Um líder sênior confidenciou-me que, sem violações da ética, a empresa raramente demitia alguém em P&D por desempenho abaixo da média. Quando perguntei por quê, ele disse: “Nossa cultura é como uma família. Demitir pessoas não é algo com que nos sentimos confortáveis. ”
A verdade é que a tolerância ao fracasso exige pessoas extremamente competentes. As tentativas de criar novos modelos tecnológicos ou de negócios são repletas de incertezas. Freqüentemente, você não sabe o que não sabe e tem que aprender à medida que avança. “Falhas” nessas circunstâncias fornecem lições valiosas sobre os caminhos a seguir.
Mas o fracasso também pode resultar de projetos mal planejados, análises falhas, falta de transparência e gerenciamento incorreto. O Google pode incentivar a tomada de riscos e o fracasso porque pode ter certeza de que a maioria dos funcionários do Google é muito competente.
Criar uma cultura que valorize simultaneamente o aprendizado por meio do fracasso e o desempenho excepcional é difícil em organizações sem nenhum histórico. Um bom começo é a liderança sênior articular claramente a diferença entre falhas produtivas e improdutivas: As falhas produtivas geram informações valiosas em relação ao seu custo. Um fracasso deve ser comemorado apenas se resultar em aprendizado. (O clichê “comemorar o fracasso” não atinge o objetivo – devemos comemorar o aprendizado, não o fracasso.) Um protótipo simples que não funciona como esperado devido a um problema técnico anteriormente desconhecido é um fracasso que vale a pena celebrar se esse novo conhecimento puder ser aplicado projetos futuros. Lançar um produto mal projetado depois de gastar US $ 500 milhões para desenvolvê-lo é apenas um fracasso caro.
A construção de uma cultura de competência exige a articulação clara dos padrões de desempenho esperados. Se esses padrões não forem bem compreendidos, as decisões pessoais difíceis podem parecer caprichosas ou, pior, interpretadas erroneamente como punição por uma falha. Os líderes e gerentes seniores em toda a organização devem comunicar as expectativas de maneira clara e regular. Os padrões de contratação podem precisar ser elevados, mesmo que isso retarde temporariamente o crescimento da empresa.
Os gerentes ficam especialmente desconfortáveis em demitir ou mover pessoas quando sua “incompetência” não é culpa deles. A mudança de tecnologias ou modelos de negócios pode tornar uma pessoa muito competente em um contexto incompetente em outro. Considere como a digitalização impactou o valor de diferentes habilidades em muitos setores. Esse representante de vendas cujas habilidades interpessoais hábeis o tornaram um superstar pode não ser mais tão valioso para a organização quanto o engenheiro de software introvertido que desenvolve os algoritmos usados para prever quais clientes têm maior probabilidade de comprar os produtos da empresa. Em alguns casos, as pessoas podem ser retreinadas para desenvolver novas competências. Mas isso nem sempre é possível quando habilidades realmente especializadas (digamos, um PhD em matemática aplicada) são necessárias para fazer um trabalho. Manter as pessoas que se tornaram obsoletas pode ser compassivo, mas é perigoso para a organização.
Manter um equilíbrio saudável entre tolerar falhas produtivas e erradicar a incompetência não é fácil. Um artigo de 2015 do New York Times sobre a Amazon ilustra a dificuldade. A peça, que foi baseada em entrevistas com mais de 100 funcionários atuais e ex-funcionários, rotulou a cultura da Amazon como “contundente” e contou histórias de funcionários chorando em suas mesas em meio a enormes pressões de desempenho. Um dos motivos pelos quais é tão difícil encontrar um equilíbrio é que as causas do fracasso nem sempre são claras. O projeto de um produto acabou apresentando falhas devido ao mau julgamento de um engenheiro ou porque encontrou um problema que mesmo o engenheiro mais talentoso teria esquecido? E no caso de julgamentos técnicos ou comerciais inadequados, quais são as consequências apropriadas? Todos cometem erros, mas em que ponto o perdão se transforma em permissividade? E em que ponto o estabelecimento de padrões de alto desempenho passa a ser cruel ou a deixar de tratar os funcionários – independentemente de seu desempenho – com respeito e dignidade?
2. Vontade de experimentar, mas altamente disciplinada
As organizações que adotam a experimentação se sentem confortáveis com a incerteza e a ambigüidade. Elas não fingem saber todas as respostas de antemão ou serem capazes de analisar seu caminho para o insight. Elas experimentam mais para aprender do que para produzir um produto ou serviço imediatamente comercializável.
A vontade de experimentar, porém, não significa trabalhar como um pintor abstrato de terceira categoria que joga tinta aleatoriamente em uma tela. Sem disciplina, quase tudo pode ser justificado como um experimento. Culturas orientadas para a disciplina selecionam experimentos cuidadosamente com base em seu valor potencial de aprendizagem e os projetam rigorosamente para produzir o máximo de informações possível em relação aos custos. Eles estabelecem critérios claros no início para decidir se deve avançar, modificar ou eliminar uma ideia. E eles enfrentam os fatos gerados por experimentos. Isso pode significar admitir que uma hipótese inicial estava errada e que um projeto que antes parecia promissor deve ser eliminado ou redirecionado significativamente. Ser mais disciplinado para matar projetos perdedores torna menos arriscado tentar coisas novas.
Um bom exemplo de cultura que combina a disposição de experimentar com disciplina rígida é a Flagship Pioneering, uma empresa de Cambridge, Massachusetts, cujo modelo de negócios é criar novos empreendimentos com base na ciência pioneira. O Flagship geralmente não solicita planos de negócios de empreendedores independentes, mas, em vez disso, usa equipes internas de cientistas para descobrir oportunidades de novos empreendimentos. A empresa tem um processo formal de exploração por meio do qual pequenas equipes de cientistas, sob a direção de um dos parceiros da empresa, realizam pesquisas sobre um problema de grande importância social ou econômica – nutrição, por exemplo. Durante essas explorações, as equipes lêem a literatura sobre o assunto e envolvem a ampla rede da empresa de consultores científicos externos para conceber novos insights científicos. As explorações são inicialmente irrestritas. Todas as idéias – embora aparentemente irracionais ou rebuscadas – são analisadas. De acordo com o fundador e CEO Noubar Afeyan, “no início de nossas explorações, não perguntamos: ‘Isso é verdade?’ Ou ‘Há dados que apóiem essa ideia?’ Não procuramos artigos acadêmicos que forneçam prova de que algo é verdadeiro. Em vez disso, nos perguntamos: ‘E se isso fosse verdade?’ Ou ‘Se apenas isso fosse verdade, seria valioso?’ ”A partir desse processo, as equipes devem formular hipóteses de risco testáveis.
A vontade de experimentar não significa jogar tinta aleatoriamente em uma tela.
A experimentação é fundamental para o processo de exploração da Flagship porque é como as ideias são selecionadas, reformuladas e evoluídas. Mas a experimentação na Flagship difere fundamentalmente do que vejo em outras empresas.
Em primeiro lugar, a Flagship não realiza experimentos para validar as ideias iniciais. Em vez disso, espera-se que as equipes projetem “experimentos matadores” que maximizem a probabilidade de expor as falhas de uma ideia.
Em segundo lugar, ao contrário de muitas empresas estabelecidas que financiam pesadamente novos empreendimentos na crença errônea de que mais recursos se traduzem em mais velocidade e mais criatividade, a Flagship normalmente projeta seus experimentos matadores para custar menos de US $ 1 milhão e levar menos de seis meses. Essa abordagem enxuta de teste não apenas permite que a empresa percorra mais ideias com mais rapidez; também torna psicologicamente mais fácil abandonar projetos que não vão a lugar nenhum. Ele força as equipes a se concentrarem estreitamente nas incertezas técnicas mais críticas e fornece a elas um feedback mais rápido. A filosofia é aprender o que você errou cedo e então seguir rapidamente em direções mais promissoras.
Terceiro, os dados experimentais da Flagship são sagrados. Se um experimento produzir dados negativos sobre uma hipótese, espera-se que as equipes eliminem ou reformulem suas ideias de acordo. Em muitas organizações, obter um resultado inesperado é uma “má notícia”. As equipes geralmente sentem a necessidade de girar os dados – descrevendo o resultado como uma aberração de algum tipo – para manter seus programas ativos. Na Flagship, ignorar dados experimentais é inaceitável.
Por fim, os próprios membros da equipe de risco da Flagship têm um forte incentivo para serem disciplinados em seus programas. Eles não ganham nenhum benefício financeiro por aderir a um programa de perdedor. Na verdade, exatamente o oposto é verdadeiro. Continuar a perseguir um programa fracassado significa abrir mão da oportunidade de ingressar em um vencedor. Mais uma vez, compare este modelo com o que é comum em muitas empresas: Ter seu programa cancelado é uma notícia terrível para você pessoalmente. Isso pode significar perda de status ou talvez até mesmo de seu emprego.
Manter seu programa vivo é bom para sua carreira. Na Flagship, iniciar um empreendimento de sucesso, não manter seu programa vivo, é bom para sua carreira. (Divulgação: eu atuo no conselho de uma empresa emblemática, mas as informações neste exemplo vêm de um caso da Harvard Business School que pesquisei e sou coautor.)
A experimentação disciplinada é um ato de equilíbrio. Como líder, você deseja encorajar as pessoas a terem “idéias irracionais” e dar-lhes tempo para formular suas hipóteses. Exigir dados para confirmar ou eliminar uma hipótese muito rapidamente pode esmagar o jogo intelectual necessário para a criatividade. É claro que nem mesmo os experimentos mais bem projetados e bem executados sempre produzem resultados em preto e branco. Julgamentos científicos e de negócios são necessários para descobrir quais idéias avançar, quais reformular e quais eliminar. Mas os líderes seniores precisam modelar a disciplina, por exemplo, encerrando projetos que patrocinaram pessoalmente ou demonstrando disposição para mudar de ideia diante dos dados de um experimento.
3. Psicologicamente seguro, mas com franqueza brutal
A segurança psicológica é um clima organizacional no qual os indivíduos sentem que podem falar verdadeira e abertamente sobre os problemas, sem medo de represálias. Décadas de pesquisa sobre esse conceito pela professora Amy Edmondson da Harvard Business School indicam que ambientes psicologicamente seguros não apenas ajudam as organizações a evitar erros catastróficos, mas também apoiam o aprendizado e a inovação. Por exemplo, quando Edmondson, o especialista em saúde Richard Bohmer e eu conduzimos pesquisas sobre a adoção de uma nova tecnologia cirúrgica minimamente invasiva por equipes de cirurgia cardíaca, descobrimos que as equipes com enfermeiras que se sentiam seguras ao falar sobre os problemas dominavam a nova tecnologia com mais rapidez. Se as pessoas têm medo de criticar, desafiar abertamente os pontos de vista dos superiores, debater as ideias dos outros e levantar contra-perspectivas, a inovação pode ser esmagada.
Todos nós amamos a liberdade de falar o que pensamos sem medo – todos nós queremos ser ouvidos – mas a segurança psicológica é uma via de mão dupla. Se é seguro para mim criticar suas ideias, também deve ser seguro para você criticar as minhas – seja você em posição superior ou inferior na organização do que eu. A franqueza nua e crua é fundamental para a inovação porque é o meio pelo qual as ideias evoluem e se aprimoram.
Tendo observado ou participado de várias reuniões da equipe do projeto de P&D, sessões de revisão do projeto e reuniões do conselho de administração, posso atestar que o conforto com a franqueza varia dramaticamente. Em algumas organizações, as pessoas ficam muito à vontade para confrontar umas às outras sobre suas idéias, métodos e resultados. A crítica é aguda. Espera-se que as pessoas sejam capazes de defender suas propostas com dados ou lógica.
Em outros lugares, o clima é mais ameno. Desacordos são contidos. As palavras são analisadas cuidadosamente. As críticas são abafadas (pelo menos abertamente). Desafiar com muita força é arriscar parecer que você não é um jogador de equipe. Uma gerente de uma grande empresa onde trabalhei como consultora captou a essência da cultura quando disse: “Nosso problema é que somos uma organização incrivelmente boa”.
Quando se trata de inovação, a organização sincera sempre supera a boa. Este último confunde polidez e gentileza com respeito. Não há nada de inconsistente em ser franco e respeitoso. Na verdade, eu diria que fornecer e aceitar críticas francas é uma das marcas do respeito. Aceitar uma crítica devastadora à sua ideia só é possível se você respeitar a opinião da pessoa que deu o feedback.
Ainda assim, deixando de lado essa importante advertência, organizações “brutalmente honestas” não são necessariamente os ambientes mais confortáveis para se trabalhar. Para estranhos e recém-chegados, as pessoas podem parecer agressivas ou duras. Ninguém mede as palavras sobre filosofias de design, estratégia, suposições ou percepções do mercado. Tudo o que alguém diz é examinado (independentemente do cargo da pessoa).
Construir uma cultura de debate franco é desafiador em organizações onde as pessoas tendem a se esquivar do confronto ou onde tal debate é visto como uma violação das normas de civilidade. Os líderes seniores precisam definir o tom por meio de seu próprio comportamento. Eles devem estar dispostos (e capazes) de criticar construtivamente as ideias dos outros sem serem abrasivos. Uma forma de estimular esse tipo de cultura é exigir que sejam criticadas suas próprias ideias e propostas.
Um bom plano para isso pode ser encontrado no briefing do plano de batalha do General Dwight D. Eisenhower aos oficiais superiores das forças aliadas, três semanas antes da invasão da Normandia. Conforme relatado em Eisenhower, uma biografia de Geoffrey Perret, o general iniciou a reunião dizendo: “Considero dever de quem vê uma falha neste plano não hesitar em dizê-lo. Não tenho simpatia por ninguém, seja qual for sua posição, que não tolere críticas. Estamos aqui para obter os melhores resultados possíveis. ”
Eisenhower não estava apenas convidando críticas ou pedindo contribuições. Ele estava literalmente exigindo isso e invocando outro aspecto sagrado da cultura militar: o dever. Com que frequência você exige críticas de suas ideias de seus subordinados?
4. Colaboração, mas com responsabilidade individual
Sistemas de inovação que funcionam bem precisam de informações, contribuições e integração significativa de esforços de uma ampla gama de colaboradores. Pessoas que trabalham em uma cultura colaborativa veem a busca de ajuda de colegas como algo natural, independentemente de fornecer essa ajuda está dentro das descrições de trabalho formais de seus colegas. Eles têm um senso de responsabilidade coletiva.
Mas muitas vezes, colaboração se confunde com consenso. E o consenso é um veneno para a rápida tomada de decisão e navegação pelos problemas complexos associados à inovação transformacional. Em última análise, alguém precisa tomar uma decisão e ser responsável por ela. Uma cultura de responsabilidade é aquela em que se espera que os indivíduos tomem decisões e se responsabilizem pelas consequências.
Não há nada inerentemente inconsistente em uma cultura que é tanto colaborativa quanto focada na responsabilidade. Os comitês podem revisar as decisões ou as equipes podem fornecer informações, mas no final do dia, indivíduos específicos são encarregados de fazer escolhas críticas de design – decidir quais recursos vão e ficam, quais fornecedores usar, qual estratégia de canal faz mais sentido, qual plano de marketing é o melhor e assim por diante. A Pixar criou várias maneiras de fornecer feedback a seus diretores de cinema, mas como Ed Catmull, seu cofundador e presidente, descreve em seu livro Creativity, Inc., o diretor escolhe qual feedback obter e quais ignorar e é responsável pelo conteúdo do filme.
A responsabilidade e a colaboração podem ser complementares, e a responsabilidade pode impulsionar a colaboração. Considere uma organização onde você pessoalmente será responsabilizado por decisões específicas. Não há como se esconder. Você é o dono das decisões que toma, para melhor ou para pior. A última coisa que você faria é se desligar de feedback ou de obter a cooperação e colaboração de pessoas dentro e fora da organização que podem ajudá-lo.
Um bom exemplo de como a responsabilidade pode impulsionar o comportamento colaborativo é a Amazon. Ao pesquisar um caso para a Harvard Business School, aprendi que quando Andy Jassy se tornou chefe do então incipiente negócio de computadores em nuvem da Amazon, em 2003, seu maior desafio era descobrir quais serviços construir (dificilmente uma tarefa fácil, dado que os serviços em nuvem eram um espaço completamente novo para a Amazon – e para o mundo). Jassy imediatamente procurou a ajuda das equipes de tecnologia da Amazon, seus líderes comerciais e técnicos e desenvolvedores externos. O feedback deles sobre requisitos, problemas e necessidades foi fundamental para o sucesso inicial do que acabou se tornando o Amazon Web Services – hoje um negócio lucrativo de US $ 12 bilhões administrado por Jassy. Para Jassy, a colaboração era essencial para o sucesso de um programa pelo qual ele era pessoalmente responsável.
Os líderes podem encorajar a responsabilização, responsabilizando-se publicamente, mesmo quando isso cria riscos pessoais. Há alguns anos, quando Paul Stoffels chefiava a P&D na divisão farmacêutica da Johnson & Johnson, seu grupo experimentou uma falha em um importante programa clínico em estágio avançado. (Divulgação: Fiz consultoria para várias divisões da Johnson & Johnson.) Como Stoffels relatou em uma reunião de gerentes da J&J da qual participei, a liderança sênior e o conselho exigiram saber quem era o culpado quando o programa teve seu revés. “Eu sou responsável”, respondeu Stoffels. “Se eu deixar isso ir além de mim e apontar para as pessoas que assumiram o risco para iniciar e gerenciar o programa, criaremos uma organização avessa ao risco e ficaremos em situação pior. Isso para comigo. ” Stoffels, agora diretor científico da J&J, compartilha essa história com frequência com os funcionários de toda a empresa. Ele termina com uma promessa simples: “Você corre o risco; Eu vou assumir a culpa. ” E então ele incentiva seu público a difundir esse princípio por toda a organização.
5. Liderança plana, mas forte
Um organograma dá uma boa ideia do nivelamento estrutural de uma empresa, mas revela pouco sobre seu nivelamento cultural – como as pessoas se comportam e interagem independentemente da posição oficial. Em organizações culturalmente planas, as pessoas têm ampla liberdade para agir, tomar decisões e expressar suas opiniões. A deferência é concedida com base na competência, não no título. Organizações culturalmente horizontais podem responder mais rapidamente a circunstâncias que mudam rapidamente porque a tomada de decisões é descentralizada e mais próxima das fontes de informações relevantes. Eles tendem a gerar uma diversidade de ideias mais rica do que as hierárquicas, porque exploram o conhecimento, a experiência e as perspectivas de uma comunidade mais ampla de colaboradores.
A falta de hierarquia, porém, não significa falta de liderança. Paradoxalmente, as organizações horizontais exigem uma liderança mais forte do que as hierárquicas. Organizações planas freqüentemente se transformam em caos quando a liderança falha em definir prioridades e direções estratégicas claras. Amazon e Google são organizações muito planas nas quais a tomada de decisões e a responsabilidade são empurradas para baixo e os funcionários em todos os níveis desfrutam de um alto grau de autonomia para buscar ideias inovadoras. Ainda assim, ambas as empresas têm líderes incrivelmente fortes e visionários que comunicam objetivos e articulam princípios fundamentais sobre como suas respectivas organizações devem operar.
Aqui, novamente, o equilíbrio entre nivelamento e liderança forte requer uma mão hábil por parte da administração. O nivelamento não significa que os líderes seniores se distanciem dos detalhes ou projetos operacionais. Na verdade, o nivelamento permite que os líderes estejam mais próximos da ação. O falecido Sergio Marchionne, que liderou a ressurreição da primeira Fiat e depois da Chrysler (e foi o arquiteto de sua fusão) comentou comigo durante uma entrevista para um caso da Harvard Business School que escrevi: “Em ambas as empresas, usei os mesmos princípios básicos para a reviravolta. Primeiro, eu derrubei a organização. Tive que reduzir a distância entre mim e as pessoas que tomam decisões. [A certa altura, Marchionne tinha 46 subordinados diretos entre as duas organizações.] Se houver um problema, quero saber diretamente da pessoa envolvida, não de seu chefe ”.
Tanto na Fiat quanto na Chrysler, Marchionne mudou seu escritório para o andar de engenharia para estar mais próximo dos programas de planejamento e desenvolvimento de produtos. Ele era famoso tanto por ser orientado para os detalhes quanto por levar a tomada de decisões aos níveis mais baixos da organização. (Com tantos subordinados diretos, era quase impossível para ele não fazer isso!)
Conseguir o equilíbrio certo entre nivelamento e liderança forte é difícil para a alta administração e para os funcionários de toda a organização. Para os líderes seniores, requer a capacidade de articular visões e estratégias convincentes (coisas gerais) e, ao mesmo tempo, ser adepto e competente em questões técnicas e operacionais. Steve Jobs foi um grande exemplo de líder com essa capacidade. Ele expôs visões fortes para a Apple ao mesmo tempo em que se concentrava maniacamente em questões técnicas e de design. Para os funcionários, a uniformidade exige que desenvolvam suas próprias capacidades de liderança fortes e se sintam confortáveis para agir e serem responsáveis por suas decisões.
Liderando a jornada
Todas as mudanças culturais são difíceis. As culturas organizacionais são como contratos sociais que especificam as regras de associação. Quando os líderes se propõem a mudar a cultura de uma organização, eles estão, de certa forma, quebrando um contrato social. Não deveria ser surpresa, então, que muitas pessoas dentro de uma organização – particularmente aquelas que prosperam sob as regras existentes – resistam.
Liderar a jornada de construção e sustentação de uma cultura inovadora é particularmente difícil por três motivos. Primeiro, como as culturas inovadoras exigem uma combinação de comportamentos aparentemente contraditórios, elas correm o risco de criar confusão. Um grande projeto falha. Devemos comemorar? O líder desse programa deve ser responsabilizado? A resposta a essas perguntas depende das circunstâncias. A falha foi evitável? Foram conhecidos problemas com antecedência que poderiam ter levado a escolhas diferentes? Os membros da equipe foram transparentes? Houve um aprendizado valioso com a experiência? E assim por diante. Sem clareza em torno dessas nuances, as pessoas podem facilmente ficar confusas e até mesmo cínicas sobre as intenções da liderança.
Em segundo lugar, embora certos comportamentos exigidos por culturas inovadoras sejam relativamente fáceis de abraçar, outros serão menos palatáveis para alguns na organização. Aqueles que pensam na inovação como um vale-tudo verão a disciplina como uma restrição desnecessária à sua criatividade; aqueles que se consolam no anonimato do consenso não receberão uma mudança em direção à responsabilidade pessoal. Algumas pessoas vão se adaptar prontamente às novas regras – algumas podem até surpreendê-lo – mas outras não vão prosperar.
Essas culturas não são só diversão e jogos.
Terceiro, como as culturas inovadoras são sistemas de comportamentos interdependentes, elas não podem ser implementadas de forma fragmentada. Pense em como os comportamentos se complementam e reforçam uns aos outros. Pessoas altamente competentes ficarão mais confortáveis com a tomada de decisões e a responsabilidade – e suas “falhas” provavelmente resultarão em aprendizado em vez de desperdício. A experimentação disciplinada custará menos e produzirá mais informações úteis – então, novamente, a tolerância para experimentos fracassados se torna mais prudente do que míope. A responsabilidade torna muito mais fácil ser simples – e as organizações horizontais criam um fluxo rápido de informações, o que leva a uma tomada de decisões mais rápida e inteligente.
Além das coisas habituais que os líderes podem fazer para impulsionar a mudança cultural (articular e comunicar valores, modelar comportamentos-alvo e assim por diante), construir uma cultura inovadora requer algumas ações específicas. Primeiro, os líderes devem ser muito transparentes com a organização sobre as realidades mais difíceis das culturas inovadoras. Essas culturas não são só diversão e jogos. Muitas pessoas ficarão entusiasmadas com a perspectiva de ter mais liberdade para experimentar, fracassar, colaborar, se manifestar e tomar decisões. Mas também precisam reconhecer que essas liberdades vêm com algumas responsabilidades difíceis. É melhor ser franco desde o início do que correr o risco de fomentar o cinismo mais tarde, quando as regras parecem mudar no meio do caminho.
Em segundo lugar, os líderes devem reconhecer que não existem atalhos na construção de uma cultura inovadora. Muitos líderes pensam que dividindo a organização em unidades menores ou criando “skunk works” autônomas, eles podem emular uma cultura de start-up inovadora. Essa abordagem raramente funciona. Isso confunde escala com cultura. O simples fato de dividir uma grande organização burocrática em unidades menores não os dota magicamente de espírito empreendedor. Sem grandes esforços de gerenciamento para moldar valores, normas e comportamentos, essas unidades descendentes tendem a herdar a cultura da organização-mãe que as gerou. Isso não significa que unidades ou equipes autônomas não possam ser usadas para experimentar uma cultura ou incubar uma nova. Eles podem. Mas o desafio de construir culturas inovadoras dentro dessas unidades não deve ser subestimado. E não serão para todos, portanto, você precisará selecionar com muito cuidado quem da organização-mãe se juntará a eles.
Finalmente, como as culturas inovadoras podem ser instáveis e a tensão entre as forças contrabalançadoras pode facilmente ser desequilibrada, os líderes precisam estar vigilantes para sinais de excesso em qualquer área e intervir para restaurar o equilíbrio quando necessário. Descontrolada, a tolerância ao fracasso pode estimular o pensamento negligente e a criação de desculpas, mas o excesso de intolerância à incompetência pode criar o medo de correr riscos. Nenhum desses extremos é útil. Se levada longe demais, a disposição para experimentar pode se tornar permissão para assumir riscos mal concebidos, e uma disciplina excessivamente rígida pode esmagar ideias boas, mas mal formadas. A colaboração levada longe demais pode atrapalhar a tomada de decisões, mas a ênfase excessiva na responsabilidade individual pode levar a um clima disfuncional em que todos zelosamente protegem seus próprios interesses.
Há uma diferença entre ser sincero e simplesmente desagradável. Os líderes precisam estar atentos a tendências excessivas, especialmente neles próprios. Se você deseja que sua organização atinja o equilíbrio delicado necessário, você, como líder, deve demonstrar a capacidade de atingir esse equilíbrio por si mesmo.
Uma versão deste artigo apareceu na edição de janeiro a fevereiro de 2019 (páginas 62 a 71) da Harvard Business Review.
Gary P. Pisano é o professor de administração de empresas Harry E. Figgie Jr. e reitor associado sênior de desenvolvimento do corpo docente da Harvard Business School. Ele é o autor de Creative Construction: The DNA of Sustained Innovation.
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O exemplo mais recente de vigilância distópica no local de trabalho
Por James Vincent The Verge em 17 de junho de 2021
A empresa de tecnologia Canon criou uma maneira totalmente distópica de lidar com o problema do moral no local de trabalho: ela instalou câmeras com tecnologia de IA para “reconhecimento de sorriso” nos escritórios de sua subsidiária chinesa Canon Information Technology. As câmeras apenas permitem que funcionários sorridentes entrem em salas ou agendem reuniões, garantindo que cada funcionário fique 100% feliz o tempo todo.
Essa história deprimente foi destacada em um relatório do The Financial Times(FT) sobre como as empresas chinesas estão vigiando os funcionários em um grau perturbador com a ajuda de IA e algoritmos. As empresas estão monitorando quais programas os funcionários usam em seus computadores para avaliar sua produtividade; usando câmeras para medir quanto tempo demoram na pausa para o almoço; e até mesmo rastrear seus movimentos fora do escritório usando aplicativos móveis.
Reconhecimento de sorriso em ação. Imagem: Canon Information Technologies
“AS TECNOLOGIAS ESTÃO AUMENTANDO O RITMO PARA PESSOAS QUE TRABALHAM COM MÁQUINAS EM VEZ DO OUTRO CAMINHO”
Como disse o acadêmico Nick Srnicek do King’s College London ao FT: “Os trabalhadores não estão sendo substituídos por algoritmos e inteligência artificial. Em vez disso, a gestão está sendo meio que aumentada por essas tecnologias […] As tecnologias estão aumentando o ritmo para as pessoas que trabalham com máquinas, e não o contrário, assim como aconteceu durante a revolução industrial no século 18 ”.
A Canon Information Technology realmente anunciou suas câmeras de “reconhecimento de sorriso” no ano passado como parte de um conjunto de ferramentas de gerenciamento de local de trabalho, mas a tecnologia não parece ter recebido muita atenção. Na verdade, o fato de ter passado pelo radar é uma boa ilustração de como ferramentas de vigilância comuns como esta estão se tornando – e não apenas na China.
Embora os leitores ocidentais às vezes tenham a tendência de rejeitar o tipo de vigilância descrito pelo FT como um fenômeno estrangeiro, países como os EUA e o Reino Unido são igualmente culpados. A Amazon é talvez o principal exemplo dessa dinâmica: é conhecida por espremer cada grama de esforço de seus funcionários de depósito às custas de sua saúde e até mesmo classificar sua produtividade usando algoritmos antes de demitir os que estiverem no final da escala.
Esse taylorismo moderno também não se restringe a empregos de colarinho azul: muitos softwares modernos, como o Microsoft 365, vêm com ferramentas de vigilância integradas. E com mais pessoas trabalhando em casa por causa da pandemia, mais empresas estão implantando esses recursos por medo de perder o controle sobre seus funcionários. (Ou, para uma leitura um pouco mais cínica: eles sempre quiseram usar essas ferramentas e a pandemia fornece um pretexto útil.)
Em outras palavras: as câmeras de reconhecimento de sorriso habilitadas para IA são, de muitas maneiras, os tipos menos perigosos de tecnologia de vigilância. Eles têm a vantagem de serem óbvios. Outros sistemas de controle são muito mais sutis e provavelmente chegarão a um escritório perto de você em breve.
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Saiba por que o mercado de logística se tornou um diferencial competitivo para as empresas e qual é o papel das logtechs — startups que atuam no setor — neste cenário
Por Sabrina Bezerra – Startse – 20/07/2021
Logística se tornou um dos setores que mais se destaca na nova economia. O motivo é claro: o consumidor passou a comprar (cada vez mais) online e a preferência é por empresas que entregam melhor e mais rápido. Demorou? Perdeu a venda. De olho nisso, as companhias dos mais diversos segmentos estão investindo em tecnologias para melhorar o sistema logístico. E as inovações são as mais diversas: automação de sistemas, carros autônomos, drones, frota própria de avião, robôs e tantas outras (veja detalhes abaixo).
Neste cenário, além do consumidor, claro, quem também sai ganhando são as logtechs — startups que atuam no setor de logística. Atualmente, elas ocupam o 16º entre os 45 segmentos de startups mapeados pela Abstartups (Associação Brasileira de Startups) e grandes companhias estão desembolsando milhões para comprá-las ou fazer parceria. “E deve continuar neste ritmo. As empresas perceberam que fazer negócio com as startups se tornou uma necessidade. Isso porque, elas têm capacidade de criar soluções inovadoras e de forma rápida para a marca”, diz em entrevista à StartSe José Muritiba, diretor executivo na Abstartups.
Drone de entrega do iFood (Foto: divulgação iFood)
O QUE É LOGÍSTICA?
A logística atua em muitos nichos. É responsável por armazenar os produtos, controlar estoque e o transporte, entregar as mercadorias e planejar a execução. “O mercado de logística se responsabiliza por produtos e serviços de ponta a ponta e dos mais diversos segmentos”, afirma Muritiba.
COMO AS LOGTECHS PODEM BENEFICIAR O MERCADO?
Com soluções capazes de otimizar todo o processo da logística. Seja com o uso de inteligência artificial para melhorar os processos logísticos, diferentes modais de entrega, tecnologia de armazenagem nos centros de distribuição, marketplace de fretes, entre outros. E qual a diferença entre uma empresa tradicional de logística e uma logtech? “Todo o processo de tecnologia usado na sua oferta de produto e serviço”, diz Muritiba. “As logtechs têm o propósito de fazer algo melhor, mais rápido (por ser otimizado) e mais barato. Basicamente, o empreendedor entende a dor [não curada por grandes marcas] e cria uma solução que faça sentido e seja comercialmente viável”, completa o especialista.
COMO A PANDEMIA IMPACTOU O MERCADO DE LOGÍSTICA
A chegada da pandemia de coronavírus acelerou a digitalização das empresas. Na contramão de muitos setores, por exemplo, o e-commerce brasileiro cresceu em 2020 73,88% em comparação com 2019, segundo o índice MCC-ENET, realizado pelo Comitê de Métricas da Câmara Brasileira da Economia Digital (camara-e.net) em parceria com o Neotrust Movimento Compre & Confie. O que afetou diretamente o setor de logística — que teve de se adaptar com mais entregas e prazos desafiadores. Além disso, segundo a pesquisa Global Consumer Insights, realizada pela consultoria americana PwC, 40% dos consumidores estão dispostos a pagar um pouco mais para receber suas encomendas o mais rápido possível. Diante deste cenário, empresas passaram a investir pesado em tecnologia e em soluções capazes de entregar mais rápido (veja no próximo tópico).
Robô de entrega da Domino’s feito pela Nuro (foto: Divulgação/Domino’s)
COMO AS EMPRESAS ESTÃO INOVANDO NO SETOR
Se antes bastava ser um superapp para ser competitivo, hoje sai na frente as marcas que entregam mais rápido, melhor e que façam a diferença ao meio ambiente — a medida que cresce a importância da agenda ESG. De olho nisso, a Americanas vai compor a frota de entrega com mais de 500 veículos elétricos, 150 tuc-tucs e 170 bicicletas comuns e elétricas. O Magazine Luiza anunciou que as entregas feitas online serão feitas em até uma hora. Para isso, lojas foram transformadas em mini centros logísticos e também desembolsou dinheiro de seu caixa para comprar as startups de logística GFL e SincLog. O Mercado Livre tem a sua própria frota de aviões cargueiros. A MadeiraMadeira fez a aquisição da iTrack Brasil, startup de softwares para logística.
Quanto o assunto é logtech brasileira, a Loggi, startup de entregas, se destaca por fazer parte do seleto grupo de unicórnios (empresas avaliadas em US$ 1 bilhão). A companhia atua em diversas frentes da logística: conecta usuários com entregadores por meio de uma plataforma, cria centros de distribuição estratégicos pelo país e otimiza rotas de tráfego a partir deles. A rede tem mais de 40 mil entregadores autônomos que fazem a entrega em diferentes tipos de veículos. Vale ficar de olho: outro potencial unicórnio, segundo Muritiba é a CargoX, startup focada em marketplace de fretes.
Outra logtech é o Melhor Envio,plataforma de cotação e geração de fretes que oferece condições mais competitivas para quem vende pela internet. A empresa foi fundada em 2015 pelo empreendedor Éder Medeiros. Hoje, trabalha com as principais transportadoras do país, como Azul Cargo Express, Buslog, Correios, Jadlog e Latam Cargo. Atualmente tem cerca de 300 mil clientes e possui mais de 40 integrações com plataformas do ecossistema do e-commerce, entre elas Amazon, Loja Integrada, Wix, entre outras.
A TrazFavela Delivery atua em regiões periféricas de grandes cidades e atuando em regiões que, muitas vezes, não são atendidas pelos principais serviços de delivery. A plataforma oferece benefícios para comerciantes, entregadores e consumidores das periferias.
A Carbono Zero Courier é uma empresa que oferece logística urbana de forma sustentável na Grande São Paulo e na Baixada Santista. “Substituímos veículos poluentes por bicicletas e veículos elétricos”, diz em entrevista à StartSe Leonardo Lorentz, sócio e gestor da Carbono Zero. A startup tem quatro tipos de modais: bicicleta tradicional e elétrica, motos elétricas, tuc-tuc e furgões elétricos. A cada serviço, o sistema calcula e exibe a emissão evitada de CO2.
Veículos de entrega da Carbono Zero (Divulgação site Carbono Zero)
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Estudo da EY-Parthenon traz exemplos de empresas que decidiram vender apenas no próprio e-commerce, e mostra por que tendência ganhou força na pandemia
Por exame.solutions 21/07/2021
Há pouco mais de três anos, a Nike decidiu mudar sua estratégia nos Estados Unidos, reduzindo o número de distribuidores de seus produtos (incluindo o gigante Amazon) de 30.000 para apenas 40. O foco no mercado de vendas diretas para consumidores (fenômeno conhecido como direct to consumer) foi a forma encontrada pela empresa para manter o controle sobre sua marca e se aproximar dos consumidores.
A Nike não está sozinha. Outras fabricantes como Adidas, Whirlpool e Nestlé, que antes dependiam de varejistas para chegar ao público final, vêm se esforçando para ter um contato mais próximo do consumidor, oferecendo a ele a opção de compra por meio de canais próprios.
“Esse movimento foi intensificado na pandemia por uma razão óbvia: a partir do momento em que os pontos físicos perdem relevância, atratividade e o público, pelas circunstâncias, é obrigado a comprar por outros canais, abre-se espaço para o contato direto entre as empresas e as pessoas”, explica Miguel Duarte, sócio da EY-Parthenon.
Adotar o modelo e eliminar intermediários significa estar no controle de tudo, da gestão dos fornecedores, da produção e distribuição, relacionamento com os clientes e produção de conteúdo. Tudo isso alimentado por muitos dados, de dentro e de fora da companhia. Os dados são a inteligência do mecanismo. Eles metrificam e materializam a eficiência e a experiência do consumidor. Tão importante quanto os dados são a flexibilidade e a agilidade para entender o que o consumidor está pedindo e, se preciso, adaptar processos internos e até produtos em questão de dias.
É claro que há setores menos sensíveis à tendência do direct to consumer, como é o caso de commodities, por exemplo, ou de marcas que combatem não pela diferenciação, mas sim pelo preço. Mas, em geral, quem busca por diferenciação e lealdade vai precisar criar uma conexão direta com o consumidor.
Loja conceito da Nike na Champs-Élysées, em Paris: espaço para conectar a comunidade esportiva a experiências digitais (EY-PARTHENON/Divulgação)
O futuro do consumo
Essa é uma das conclusões do EY Future Consumer Index 2021, estudo realizado pela EY-Parthenon – área de estratégia da EY –, para ajudar líderes de negócio do Brasil a compreender e acompanhar a evolução dos sentimentos e comportamentos dos consumidores durante a pandemia.
O levantamento, que traz um recorte local com 1.007 consumidores entre 18 e mais de 65 anos, destaca, por exemplo, a importância da coleta de dados no ambiente online (seja por meio de programas de fidelidade, aplicativos de descontos, ou outros benefícios) para conhecer o perfil e o comportamento dos consumidores e entregar a eles personalização e uma melhor experiência.
“Para criar valor agregado e diferenciação, as empresas terão de se movimentar da oferta de produtos para a entrega de serviços. Mas elas só conseguirão fazer isso com acesso e estruturação de dados”, diz Cristiane Amaral, sócia-líder do segmento de consumo, produtos e varejo para América Latina.
Para as empresas que seguem o caminho da inteligência de dados é preciso atenção à questão da privacidade, o que gera sentimento de insegurança para quase um quarto dos brasileiros. Mas há estratégias para resolver essa questão de forma benéfica para empresas e clientes. Setenta e dois por cento dos consumidores aceitam compartilhar algum tipo de informação que ajude na criação de novos produtos ou serviços e 69% para ter uma experiência de compra mais personalizada.
Existem dois modelos de experiência surgindo no mercado consumidor. Um – que chamamos de “experiência” – foca apenas na conveniência e na remoção do atrito do processo de compra. O outro – “experiência total” – se constrói em cima dessa fundação e busca fazer da marca uma parte indispensável da vida do consumidor.
As empresas que buscam este último modelo não podem mais contar com a simples venda de “coisas” para os consumidores de forma transacional. Elas devem desempenhar um papel enriquecedor ao longo de sua jornada – o que desbloqueia o potencial de valor adicional de vida dos consumidores.
Para chegar até aqui, os varejistas devem alcançar uma compreensão íntima do consumidor. O relacionamento começa bem antes de alguém entrar em uma loja ou em um site. Termina muito depois de uma venda ser realizada. Equipados com inteligência crescente em seus consumidores, os varejistas são capazes de fornecer interações significativas que são contextualmente relevantes, personalizadas e conectadas ao longo do tempo e entre canais. Mais de 60% dos entrevistados esperam ter uma experiência de compra melhor em função das transformações causadas pela pandemia.
Apoiados por uma cadeia de suprimentos confiável, operações adaptativas e função ágil de merchandising, os varejistas são capazes de dar vida à sua promessa de marca quando mais importa para seus consumidores.
“O desafio do varejista é aproveitar cada interação com seu consumidor e não ser somente transacional, que atenda às necessidades de seu público de forma relevante e funcional, tornando a interação enriquecedora, passando a ser desejável e impactante na jornada do consumidor”, ressalta Cristiane.
O novo papel das lojas físicas
Segundo ele, apesar de o e-commerce ter dado um salto na pandemia (44% dos consumidores esperam fazer mais compras online nos próximos dois anos, de acordo com o EY Future Consumer Index 2021), ao que tudo indica as lojas físicas seguirão tendo um papel importante, seja como showroom, para estabelecer uma nova forma de interação com o público, seja como ponto de venda. “A grande massa seguirá comprando no varejo físico. Por isso, será preciso buscar diferenciação também nesses pontos, buscando novos canais, novas formas de entrega”, destaca Duarte.
Ao ser perguntado sobre o recado que daria às marcas para que elas sigam no jogo, o especialista é categórico: “Não fiquem no meio. Movam-se se quiserem criar uma marca diferenciada e foquem mais em serviço do que produto”.
Duarte também ressalta como a polarização entre classes sociais muda o jogo para as marcas. “Uma massa da população fala em preço, preço, preço… outra em consumo saudável e consciente. São dois polos que ganharam mais relevância durante essa pandemia”. E aí, para qual direção caminha sua marca? Sua relação com o consumidor está sendo transacional ou realmente enriquecedora? Está fazendo uma transação, ou construindo um relacionamento? Uma coisa é certa: ficar no meio é arriscado.
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A computação de alto desempenho em nuvem permitiu que startups desenvolvessem protótipos e executassem simulações – até mesmo uma para a Lua – que até então eram feitas em supercomputadores
Craig S. Smith, The New York Times, O Estado de S.Paulo 20 de julho de 2021
A Firefly Aerospace, uma startup com sede nos subúrbios de Austin, Texas, está construindo um foguete para voar até a Lua.
Não, não é um remake do curta de animação A Grand Day Out With Wallace and Gromit, no qual a dupla de personagens vai à superfície lunar em busca de queijo; trata-se de uma empresa de verdade. E também de um exemplo de como a onipresente disponibilidade de computação de alto desempenho por meio da internet desencadeou uma onda global de criatividade. A “nuvem”, aquele eufemismo difuso para redes de grandes computadores servidores que qualquer pessoa pode acessar com um laptop e um cartão de crédito, colocou até os sonhos mais loucos ao alcance de pessoas com know-how suficiente.
Construir sistemas físicos complexos, como semicondutores ou submarinos, requer intensivas simulações de computador antes que se deva comprometer dinheiro para dobrar aço para um protótipo – isso para não falar na produção de uma espaçonave. Essas simulações requerem cálculos vastos que antes eram feitos em supercomputadores disponíveis apenas para governos ou para as corporações mais abastadas.
“Novas empresas de foguetes como Firefly, Virgin Orbit e SpaceX não conseguiriam prosperar quando eu era engenheiro na Boeing, quinze anos atrás”, disse Joris Poort, fundador e executivo-chefe da Rescale, uma empresa que orquestra a computação de alto desempenho na nuvem. “Naquela época, você tinha que levantar centenas de milhões de dólares só para construir a infraestrutura de computador necessária para executar as simulações”.
Os supercomputadores surgiram na década de 1960, quando os cientistas da computação começaram a dividir os problemas em partes e computar as partes simultaneamente, em vez de uma de cada vez em série. Para que a computação paralela funcione com eficiência, os dados precisam ser trocados entre os processadores do computador e, assim, as empresas começaram a construir “supercomputadores” com vários processadores de computador fortemente acoplados.
Os mais novos supercomputadores podem executar 1 quatrilhão de cálculos por segundo e já estão à vista 1 quintilhão de cálculos. Mas esses computadores são caros – até US$ 500 milhões – e exigem muito espaço e manutenção. Os clusters de computadores em rede, menos poderosos, mas mais flexíveis, agora podem fazer quase tudo isso e deram origem ao termo computação de alto desempenho.
Ilustração de James Yang/The New York Times.
Hoje, a maioria das empresas de computação em nuvem, da Amazon ao Google e à Microsoft, oferece acesso a hardwares de computação de alto desempenho, que são quase tão poderosos, mas muito mais versáteis do que os supercomputadores. Qualquer empresa agora pode controlar a computação em pé de igualdade com a Nasa ou a Boeing.
Apenas cerca de 12% da computação de alto desempenho ocorre na nuvem atualmente, mas esse número – cerca de US$ 5,3 bilhões – está crescendo 25% ao ano, de acordo com a Rescale.
Pesquisadores, cientistas e engenheiros podem usar qualquer computador desktop e navegador para acessar facilmente a supercomputação por meio de serviços em nuvem, onde os recursos são sob demanda e cobrados pelo consumo. Como a demanda por recursos de computação continua crescendo, os serviços em nuvem estão ganhando popularidade entre grupos de pesquisa e desenvolvimento e campos de ciência aplicada por causa de sua acessibilidade, flexibilidade e mínimo custo de investimento.
Uma única carga de trabalho de computação de alto desempenho para otimizar o projeto de uma asa de aeronave pode custar US$ 20 mil, enquanto as cargas de trabalho de aprendizado de máquina usadas nas fases anteriores de desenvolvimento costumavam ser muito mais caras. A Firefly diz que normalmente gasta de milhares a dezenas de milhares de dólares por hora em seus cálculos – ainda muito menos do que o custo de construção e manutenção de um computador de alto desempenho.
Os desenvolvedores de software já vêm usando a computação em nuvem há algum tempo, mas engenheiros e cientistas estão apenas começando a aproveitar o poder da nuvem – transformando sonhos em realidade para empresas movidas pela ciência, como a startup de transporte HyperXite, a inovadora empresa de energia Commonwealth Fusion Systems e a fabricante de carros autônomos voadores Kitty Hawk (que prefere o termo “veículos elétricos de decolagem e pouso vertical”).
A Firefly, por exemplo, foi fundada em 2014 e hoje conta com cerca de 350 funcionários. No entanto, eles estão construindo tudo, desde os motores do foguete e o corpo de fibra de carbono até um módulo de aterrissagem lunar – que hoje é apenas um projeto conceitual mas será uma missão para a Lua em 2023. O programa Apollo da Nasa no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, em contraste, empregou centenas de milhares de pessoas e contratou dezenas de milhares de empresas externas.
“Novas startups espaciais com mil funcionários ou menos dependem muito dessa computação em nuvem”, disse Brigette Oakes, diretora de design e análise da Firefly. Seu pequeno tamanho contrasta com suas finanças: a empresa recentemente anunciou que havia levantado US$ 75 milhões em capital privado e estava avaliada em cerca de US$ 1 bilhão.
Os principais componentes dos supercomputadores foram gradualmente transformados em mercadoria e simplificados para facilitar e agilizar o uso. Na década de 1990, muito antes do surgimento da computação em nuvem, era possível remendar um supercomputador comum usando servidores de última geração e equipamentos de rede especializados. Com o tempo, esses clusters de computação de alto desempenho ficaram cada vez melhores e, por fim, as empresas de computação em nuvem os disponibilizaram em suas redes.
Antes da ampla disponibilidade desse tipo de computação, as organizações construíam protótipos caros para testar seus projetos. “Na verdade, íamos lá e construíamos um protótipo em escala real e o executávamos até o fim da vida antes de levá-lo a campo”, disse Brandon Haugh, engenheiro de projeto, referindo-se a um reator nuclear em que trabalhou com a Marinha americana. “Foi um teste multibilionário de vinte anos”.
Hoje, Haugh é o diretor de modelagem e simulação na startup de engenharia nuclear Kairos Power, com sede na Califórnia, onde ele aprimora o projeto de reatores acessíveis e seguros que a Kairos espera que ajudem a acelerar a transição do mundo para a energia limpa.
A energia nuclear há muito tempo é considerada uma das melhores opções para a produção de eletricidade com carbono zero – o problema é seu custo proibitivo. Mas os reatores avançados da Kairos Power estão sendo projetados para produzir energia a custos competitivos com o gás natural.
“A democratização da computação de alto desempenho agora chegou até as startups, permitindo que empresas como a nossa trabalhem rapidamente e passem do conceito à implantação de campo em tempo recorde”, disse Haugh.
Mas a computação de alto desempenho na nuvem também criou novos desafios.
Nos últimos anos, tem havido uma proliferação de chips de computador customizados, construídos para tipos específicos de problemas matemáticos. Da mesma forma, agora existem diferentes tipos de memória e configurações de rede na computação de alto desempenho. E os diferentes provedores de nuvem têm diferentes especializações: um pode ser melhor em dinâmica de fluxos computacionais, enquanto outro é melhor em análise estrutural.
O desafio, então, é escolher a configuração certa e obter a capacidade quando você precisa – porque a demanda aumentou drasticamente. E embora os cientistas e engenheiros sejam especialistas em seus domínios, eles não necessariamente o são em configurações de servidores, processadores e coisas do tipo.
Isso deu origem a um novo tipo de especialização – especialistas em computação em nuvem de alto desempenho – e novas plataformas de nuvem cruzada que atuam como espaços onde as empresas podem escolher a combinação certa de software e hardware. A Rescale, que trabalha em estreita colaboração com todos os principais provedores de nuvem, é a empresa dominante neste campo. Ela combina problemas de computação para empresas, como Firefly e Kairos, com o provedor de nuvem certo para fornecer computação que cientistas e engenheiros podem usar para resolver problemas mais rápido ou com o menor custo possível.
O custo de execução de uma simulação na nuvem pode ser inferior a um décimo do custo de uma empresa construir seu próprio computador de alto desempenho, e os provedores de nuvem atualizam continuamente seus chips de computador, algo que as empresas com seu próprio hardware são menos propensas a fazer.
A Firefly, que se baseou fortemente em simulações para projetar seu foguete, está planejando enviar suas primeiras cargas ao espaço dentro de alguns meses e, em seguida, em alguns anos, enviar seu módulo de pouso à Lua para ajudar a Nasa a se preparar para futuras missões tripuladas. O desenvolvimento total do foguete levou menos de quatro anos, tempo notavelmente curto para um foguete desse tamanho.
“Após nosso primeiro pouso lunar, esperamos enviar uma série de missões de reabastecimento à Lua, tanto para a Nasa quanto para clientes comerciais”, disse Oakes. “Se você conseguir fazer seu preço chegar a US$ 15 milhões ou menos por lançamento, terá mais clientes do que conseguirá atender”.
Trazer a computação em nuvem para os engenheiros muda a dinâmica da inovação. O projeto aeroespacial normalmente depende de testes em túnel de vento, por exemplo, mas o tempo de espera para entrar em um túnel de vento é de até dois anos – muito tempo para uma startup como a Firefly. Mas as simulações mais rápidas feitas em nuvem podem fazer o mesmo trabalho.
“Estamos trabalhando tão rápido no foguete que, quando chegar o momento do túnel de vento, teremos um foguete completamente diferente”, disse Oakes. “Estamos contando com a computação em nuvem, em vez de testes de hardware caros”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU
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A críticas à AmaZen não ajudaram a melhorar a imagem da empresa, abalada nos últimos meses por questões de direitos trabalhistas.VIDEO AMAZON
Anda estressado no trabalho? O que acha de fazer uma pausa e entrar numa espécie de cabine telefônica, onde poderá se sentar e assistir a vídeos de relaxamento? Essa é a nova proposta do gigante Amazon para reduzir a carga de estresse e cansaço de seus funcionários. As cabines se chamam AmaZen, e sua instalação ocorre num momento em que a empresa recebe uma enorme quantidade de críticas pelas condições de trabalho que oferece.
Segundo a companhia, o AmaZen ―cujo nome original era “sala de prática de mindfulness”― é parte do projeto Working Well, que a Amazon lançou em 17 de maio. O programa é descrito como “uma combinação de atividades físicas e mentais, exercícios para o bem-estar e apoio para uma alimentação saudável a fim de ajudar os funcionários a se recarregarem e revitalizarem”. As cabines de relaxamento seriam uma das várias estratégias desse projeto.
Dentro das cabines, instaladas nos edifícios da empresa, há plantas em um suporte e um ventilador, assim como folhetos e cartazes de relaxamento e nutrição nas paredes. Um vídeo publicado pela Amazon mostra que também há um computador com uma espécie de lista de reprodução de vídeos de relaxamento e meditação.
Nesse vídeo, a criadora da AmaZen, Leila Brown, explica que se trata de “um quiosque interativo onde [o funcionário] pode navegar por uma livraria de produtos de saúde mental para recarregar suas baterias internas”. Mas nem todos parecem ter abraçado o conceito com tanto entusiasmo.
“Caixão zen”
De fato, o vídeo foi retirado da conta oficial da Amazon no Twitter poucas horas depois de ser publicado, por causa da avalanche de críticas que começaram a chegar por diversas plataformas. As cabines AmaZen receberam todo tipo de apelido por parte dos usuários. Alguns as descreveram como “caixões zen”, “espaços para chorar”, “quartos do desespero”, “frigoríficos zen” e até “manicômios individuais”.
Um dos críticos foi o deputado espanhol Iñigo Errejón, do partido Mais País. “Um armário do desespero para ir chorar quando você for consumido pela falta de direitos. A alternativa ao futuro verde é o futuro Black mirror”, tuitou o político em sua conta oficial.
As críticas não ajudaram a melhorar a imagem da companhia com relação aos direitos trabalhistas. Em abril, a Amazon aumentou o salário mínimo de seus funcionários e aceitou conceder um aumento salarial para 500.000 de seus trabalhadores. A empresa também foi duramente criticada por suas práticas monopolísticas e por pagar “poucos impostos” em comparação ao seu enorme faturamento.
Até o momento, não houve uma resposta da Amazon sobre o futuro de suas cabines de relaxamento, embora a publicidade da AmaZen tenha sido retirada. O que é certeza é que, para evitar mais críticas, o gigante tecnológico deverá rever o conceito de “atividades físicas e mentais e exercícios de bem-estar” que define em seu programa Working Well.
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