Valor 1000: Régua das startups foge ao tradicional

Os modelos de avaliação de empresas ganham nova nomenclatura e não medem apenas geração de caixa, mas olham a capacidade de conexão

Por Danylo Martins, Valor 30/09/2021 

As métricas tradicionais de avaliação de empresas vêm sendo desafiadas pelos negócios da nova economia. Esqueça o lucro ou a geração de caixa no presente. Não à toa, é bastante comum que startups apurem perdas na última linha do balanço, mas seu potencial exponencial de receita futura e o relacionamento com os usuários fazem com que muitos negócios tenham “valuations” bilionários aos olhos de investidores de capital de risco, o chamado venture capital.

A queima de caixa – algo impensável para modelos de negócio tradicionais – deixa de ser vista como um problema e passa a ser encarada como parte do desenvolvimento e crescimento da empresa. A capacidade de conexão e engajamento com a base de clientes costuma ser mais relevante do que medir os ativos fixos, por exemplo. O que leva ao uso de novas métricas ou indicadores-chave de desempenho (os chamados KPIs) para entender como o negócio está crescendo, mas principalmente qual a expectativa de retorno no médio e longo prazos.

“Mas é importante que esse potencial tenha premissas que façam sentido e sejam factíveis para os investidores”, diz a economista Itali Collini, diretora de operações da 500 Startups no Brasil. Misto de aceleradora de startups e fundo de venture capital, a 500 Startups já aportou recursos em mais de 2,4 mil startups globalmente e soma 27 unicórnios na conta, entre os quais nomes como Canva, Credit Karma e Udemy. No Brasil, tem mais de 40 investidas, incluindo Conta Azul, Olist, Pipefy, entre outras.

As premissas se traduzem em indicadores variados. Um dos principais deles é o custo de aquisição de cliente (CAC), que basicamente mede o gasto da empresa para conquistar novos clientes ou usuários, dividido pela quantidade de novos clientes em igual período. Ou ainda o chamado lifetime value (LTV) – que pode ser traduzido como o valor do ciclo de vida – também varia conforme o setor ou tipo de negócio.

A relação entre LTV e CAC, ou seja, o lucro gerado pelo cliente dividido pelo seu custo de aquisição, é outra métrica bastante utilizada pelas startups. Na prática, quanto maior essa relação, maior será a geração de valor oriunda do investimento feito na aquisição de clientes. Normalmente, investidores esperam que essa relação seja de, no mínimo, três, isto é, o cliente traz R$ 3 de lucro a cada R$ 1 gasto para convertê-lo.

Outro indicador importante é o “cash burn rate”, ou queima de caixa, que mede a velocidade com que a startup gasta recursos financeiros, antes de começar a gerar ganhos. É o “cash burn rate” que vai ajudar a definir o “runaway”, também conhecido como pista de decolagem. “Significa quantos meses uma empresa tem até que acabe seu dinheiro e é calculado dividindo o valor que ela tem em caixa pelo cash burn rate.”

Todas essas métricas e outras fazem parte do dia a dia de startups e fundos de venture capital, um ecossistema que está passando por forte aceleração nos últimos anos. Em 2020, essas empresas nascentes captaram mais de US$ 3,5 bilhões em 522 rodadas, segundo dados da empresa de inovação Distrito. De janeiro a agosto deste ano, foram 457 aportes, que, somados, representam US$ 6,6 bilhões, volume que já supera em mais de 85% o acumulado de 2020. Nesta conta, estão “megarrodadas” realizadas por três unicórnios (startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão): Nubank, Loft e Ebanx.

Para discutir as métricas de avaliação de startups, o Valor procurou 16 unicórnios brasileiros. Apenas cinco deram entrevista. Creditas, C6 Bank, Gympass, iFood, Loft, Loggi, MadeiraMadeira, Nubank e Wildlife Studios não quiseram participar. Alguns alegaram dificuldade de agenda dos porta-vozes, outros disseram não comentar KPIs e métricas de desempenho. Hotmart e QuintoAndar não retornaram ao contato feito pela reportagem.

É importante ressaltar que alguns fizeram rodadas de captação recentemente – em junho, o Gympass levantou US$ 220 milhões e passou a ser avaliado em US$ 2,2 bilhões; em agosto, foi a vez do QuintoAndar captar uma extensão de US$ 120 milhões da rodada Série E, o que o levou a um valuation de US$ 5,1 bilhões. Há casos ainda de unicórnios que, embora não comentem sobre indicadores de desempenho, estão prestes a fazer abertura de capital nas bolsas americanas – o Nubank prepara seu IPO, com objetivo de levantar de US$ 3 bilhões a US$ 5 bilhões, com valuation que pode chegar a US$ 100 bilhões, conforme apurou o Pipeline, site de negócios do Valor.

A Movile – investidora de iFood, MovilePay, Mensajeros Urbanos, Moova, Sympla, PlayKids, Zoop, Afterverse e Sinch – atingiu o status mítico de unicórnio em 2018. Em agosto, a empresa recebeu um aporte de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão, no câmbio da época), liderado pelo grupo global de internet Prosus, principal investidor do negócio desde 2008. Com o recurso, a Movile planeja seguir investindo nas empresas do portfólio, com foco nas verticais de fintech, logística e games.

“Somos construtores de teses. Gostamos primeiro de olhar para potencial e aceleração de algum mercado e, em seguida, buscamos as empresas”, explica Rafael Lauand, head de estratégia e M&A da Movile, cuja receita teve crescimento médio anual de 80% nos últimos três anos. Feita a análise setorial, a empresa passa a analisar o potencial de geração de receita de cada negócio, naquele mercado em que atua, e o chamado “take rate” (percentual de quanto ganha a cada transação).

Para ele, embora as métricas de avaliação de startups mudem em relação aos indicadores utilizados por empresas tradicionais, a análise sempre vai retornar para a geração de caixa. “Não diria que é um novo jeito de analisar empresas, mas sim uma nova ótica. No fim das contas, estamos falando de geração de caixa, fluxo de caixa futuro, e o investidor vai sempre olhar para o retorno do investimento”, observa.

Lauand destaca que o comportamento da base de clientes é extremamente importante para a startup. Essa evolução pode ser medida por meio da chamada análise “cohort”. Por meio desta métrica, é possível avaliar se o tempo de conversão de um cliente diminuiu ou aumentou, ou ainda se houve alta no tíquete médio transacionado por determinado grupo de clientes.

Também avaliado em mais de US$ 1 bilhão desde 2018, o iFood tem como principais indicadores de desempenho LTV, CAC, taxa de retenção e frequência da base de clientes. “Diferentemente das empresas tradicionais, focamos no resultado que o cliente trará no médio e longo prazos, por isso o LTV, o crescimento da base de clientes e a frequência são extremamente importantes”, explica Douglas Kayassima, diretor de financial planning and analysis (FP&A) do iFood.

O aplicativo de delivery também mensura a mudança de segmentação dos clientes, de acordo com o maior engajamento que eles adquirem com o serviço. A empresa calcula, ainda, o volume transacionado em mercadorias (GMV, na sigla em inglês), além de indicadores financeiros, como receita líquida, margem de contribuição e margem Ebitda. 

Na visão de André Boaventura, chief marketing officer (CMO) do Ebanx, as métricas usadas por startups normalmente são criadas para medir alto crescimento em curto espaço de tempo. Daí a importância de mensurar quanto se pode investir mais agora para capturar valor o mais rápido possível. Se o custo de aquisição é substancialmente menor que o ciclo de vida, significa que se pode investir esse dinheiro, porque lá na frente mais receita vai voltar, aponta Boaventura.

No caso do Ebanx, uma fintech de pagamentos, um dos principais indicadores é o volume total processado (TPV, na sigla em inglês), junto com taxa de conversão, taxa de aprovação de cartão, taxa de chargeback, além dos próprios CAC, LTV e “churn rate”, entre outros. O uso destas métricas varia conforme o porte do cliente que a fintech atende. Por ter um foco grande em clientes “enterprise”, o que pesa muito mais é a saúde do relacionamento e o quanto esses grandes clientes trazem de processamento para o Ebanx, do que a porcentagem de perda de clientes em toda a base.

Segundo Boaventura, para companhias do perfil “enterprise”, a mensuração de CAC e LTV é mais difícil, porque há casos de clientes que podem levar meses ou anos para fazer a integração com a plataforma da fintech. “Portanto, um CAC altíssimo”, diz. A fintech tem uma oferta de produtos e serviços que atende também pequenas e médias empresas (PME). Para estas, sim, CAC, LTV e MRR (receita recorrente mensal) são alguns dos principais indicadores.

Ao todo, a fintech tem mais de mil clientes, entre os quais AliExpress, Airbnb, Uber e Spotify. No total, mais de 70 milhões de consumidores latinos já compraram em sites globais com as soluções do Ebanx. Desde que foi fundado, já recebeu três investimentos – o mais recente deles, anunciado em junho, foi um aporte de US$ 430 milhões feito pela gestora de private equity Advent International.

Quem também recebeu um cheque recentemente foi a unico, startup com soluções de proteção de identidade digital. Com a rodada Série C de R$ 650 milhões liderada pelo SoftBank e pela General Atlantic (GA), a IDTech passou a valer US$ 1,1 bilhão, entrando para a lista dos seres míticos unicórnios. Com foco no B2B, especialmente grandes empresas, a startup tem como foco o indicador de receita recorrente anual (ARR, na sigla em inglês), além de margem bruta dos produtos.

“Temos um ‘churn’ zero, ou seja, não perdemos clientes ou, dependendo da interpretação, ele é negativo, ao olhar pela receita; o que implica que nossos indicadores de CAC e LTV não necessariamente refletem uma realidade que possa ser interpretada na íntegra”, explica Paulo de Alencastro Jr., cofundador e vice-presidente de relações com investidores da unico.

Em relação aos indicadores financeiros, a unico tem como prática utilizar margem Ebitda para acompanhar o quanto a companhia está consumindo de sua geração de recursos. Além disso, acompanha a satisfação dos clientes, assim como o Customer Satisfaction Score (CSAT) para mensurar a satisfação dos usuários com os produtos.

No primeiro semestre, a empresa mais do que dobrou de tamanho, em relação a igual intervalo de 2020. As vendas de produtos cresceram cinco vezes, na mesma base de comparação. De janeiro a junho, a unico barrou mais de 900 mil ações fraudulentas contra consumidores em todo o Brasil, por meio da sua solução de autenticação por biometria facial. Em valores, foram evitados R$ 22 bilhões em prejuízos, diz o executivo.

Primeira startup brasileira no mercado de criptoativos a ser classificada como unicórnio, a corretora Mercado Bitcoin alcançou o status também neste ano, ao receber um cheque de US$ 200 milhões (cerca de R$ 996,5 milhões, no câmbio da época), também do fundo japonês Softbank. Com o investimento, chegou a um valuation de US$ 2,1 bilhões e é mais um unicórnio que figura na lista de pretendentes a um IPO.

“Nosso negócio tem características bastante específicas, com perfis muito distintos de clientes, atividades relacionadas a variáveis externas de mercado”, destaca Daniel Cunha, diretor de desenvolvimento corporativo do Mercado Bitcoin, hoje a maior plataforma de negociação de criptomoedas e ativos alternativos da América Latina, com 2,9 milhões de  clientes e mais de R$ 40 bilhões negociados desde a criação, em 2013.

O executivo cita como métrica central do negócio o LTV. Dele, deriva uma cadeia de KPIs determinantes para a formação dessa métrica: custo de aquisição, frequência, mix de produtos, satisfação, além de alguns específicos à atividade. Os principais indicadores divulgados pela empresa apontam um crescimento acelerado e saudável, segundo Cunha. No terceiro trimestre deste ano, até 26 de agosto, o volume de “trading” no Mercado Bitcoin triplicou quando comparado ao volume total de 2020. Até agosto, a base de clientes saltou 50%, na comparação com o número apurado em dezembro do ano passado.

A nova economia trouxe, sem dúvida, um olhar diferente para como são avaliados os resultados de empresas. É possível notar que os conceitos tradicionais continuam sendo usados e, à medida que startups se transformam em negócios maiores e abrem capital, naturalmente passarão a divulgar dados financeiros periodicamente.

Como apontaram em seu artigo (página 66) os professores Claudia E. Yoshinaga, Ricardo R. Rochman e William Eid Junior, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), “as métricas antigas continuam a ser utilizadas, mas as novas é que governam os investimentos nas startups. O interessante é o foco recorrente dessas métricas no relacionamento com o cliente ou usuário”.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/09/30/valor-1000-regua-das-startups-foge-ao-tradicional.ghtml

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O Conectoma Improvável

Por Roberto Lent  – O Globo 24/12/2021 •

Antes que seu olhar fuja espavorido pensando em algum novo tumor, explico. “Conectoma” é o conjunto completo de conexões do cérebro. Semelhante ao termo “genoma”, que se aplica aos genes. Só que enquanto o genoma humano tem uns 25 mil genes, veja o caso do conectoma. Nosso cérebro tem cerca de 86 bilhões de neurônios. Se admitirmos que cada neurônio pode estabelecer conexões com 10 mil colegas, o número de conexões no cérebro humano chega perto do quatrilhão. E se colocarmos nesse espaço as outras células que povoam o cérebro e também participam das conversas, o número se torna impronunciável. Se ainda considerarmos que as conexões cerebrais não são fixas, mas mutáveis sob influência do ambiente que nos envolve, meu-deus, a ambição dos neurocientistas de revelar o chamado conectoma humano parece uma alucinação delirante.

Ainda que pareça inalcançável, a meta de decifrar todo o conectoma humano aparece com frequência na literatura especializada. Vários projetos internacionais recebem financiamentos bilionários para concretizá-la. Alguma coisa já se conseguiu, olhem só: revelou-se o conectoma de um pequeno verme que tem o estonteante número de 302 neurônios, e pôde-se propor modelos estruturais e funcionais para o funcionamento dessa mini-rede. O conectoma da drosófila, a mosquinha das frutas que fica borboleteando em torno da penca de bananas que guardamos em casa no verão, foi concluído em 2018 por um grupo de pesquisadores britânicos e norte-americanos. São cerca de 100 mil neurônios nesse caso, que geraram 21 milhões de imagens e um conjunto de dados que ultrapassou 100 terabytes, ou seja, 100 trilhões de bytes. Grande conquista, pois a mosquinha tem um comportamento bem sofisticado, que pode agora ser analisado com a minúcia necessária para revelar os seus determinantes neurais.

Cérebro

Cérebro | Unsplash

Agora vejam o tamanho do problema para chegar ao conectoma humano. A reconstrução 3D de apenas 1 milímetro cúbico do córtex cerebral humano foi publicada este ano e gerou um volume de dados de 1,4 petabytes (quatrilhões de bytes). Só que esse pedacinho do córtex representa 0,00007% do volume do cérebro, e ainda assim exigiu recursos de microscopia eletrônica de alta velocidade durante 326 dias para concluir as análises. Foram 57 mil células formando mais de 130 milhões de conexões naquele cubinho. A avaliação que se faz é que só será possível chegar perto da meta de revelar o conectoma humano por meio de tecnologias de computação de exascala, isto é, capazes de processar exabytes (quintilhões de bytes) em tempos razoáveis.

Acho a estimativa otimista demais, mas tudo bem. Digamos que seja possível no futuro próximo produzir um atlas completo dos nossos circuitos cerebrais. Será um passo gigantesco, literalmente. Permitirá revelar detalhes da organização de microcircuitos, um a um, na saúde e na doença. É como se pudéssemos visualizar, do espaço, todos os insetos que habitam cada árvore amazônica.

Ainda muito longe, muito longe mesmo, de permitir-nos ascender com esse grau de detalhe da microescala dos neurônios para a mesoescala das redes neurais que promovem a interação entre áreas cerebrais. E ainda, relacionar as análises com a macroescala que revela como essa complexidade toda resulta em comportamentos, emoções, memórias, percepções. Nesse movimento do micro ao macro, só temos atualmente as ferramentas de neuroimagem para ganhar visão de conjunto. No entanto, perdemos o detalhe. O contrário acontece no movimento oposto. Como lincar esses diversos níveis de abordagem é o problema.

Pior: tudo se modifica com o transcurso do tempo. O circuito que existia deixa de existir, o que não se via no início do experimento aparece no final. O mundo em volta não perdoa: modifica as conexões neurais a todo momento. Olhando por esse ângulo, a conclusão é pessimista: o conectoma humano é de revelação improvável: um sonho inalcançável?

https://blogs.oglobo.globo.com/a-hora-da-ciencia/post/o-conectoma-improvavel.html

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Brasil ganha dez unicórnios em 2021 após recorde de investimento em startups

Até novembro, foram investidos US$ 8,85 bilhões (R$ 50,13 bilhões) em inovação e tecnologia, mais que o dobro do total de 2020: US$ 3,659 bilhões (R$ 20,726 bilhões)

Por Folhapress/Valor  29/12/2021

Após investimentos recordes em tecnologia, o Brasil fecha 2021 com o número inédito de dez novos unicórnios – nome dado a startups cujos valores de mercado ultrapassam US$ 1 bilhão (mais de R$ 5,6 bilhões), caso das conhecidas QuintoAndar e iFood.

É o maior número desde quando o aplicativo de viagens 99 virou o primeiro unicórnio do país, em 2017. O resultado desbancou com folga o ano-líder anterior, 2019, quando o rebanho brasileiro de bilionárias recebeu cinco startups.

Antes mesmo do fim de 2021, o volume de investimentos em inovação e tecnologia não tem precedentes no Brasil, segundo dados da plataforma Distrito. Foram US$ 8,85 bilhões (R$ 50,13 bilhões) até novembro, mais que o dobro do total de 2020: US$ 3,659 bilhões (R$ 20,726 bilhões).

Descontando as empresas de tecnologia listadas em Bolsas de Valores – como o Nubank, que após a estreia no mercado de ações se transformou em outro ser fantástico no jargão do setor, um “hipogrifo” –, o Brasil chegou a 18 startups bilionárias.

As empresas de tecnologia do setor financeiro, conhecidas como fintechs, são as mais comuns: somam 7 entre as 18.

Em 2021, porém, elas não foram as mais populares. Apesar de liderarem os investimentos, elas somaram duas entre as empresas mais valiosas, uma a menos que as da categoria de varejo – setor que inflou depois de as medidas de distanciamento da pandemia de coronavírus impulsionarem o e-commerce.

A predominância de São Paulo se manteve: sete das dez são do Estado mais populoso do país, duas são do Paraná e uma é de Minas Gerais. Ao longo dos últimos anos, a única fora das regiões Sudeste e Sul foi a cearense Arco Educação, que chegou ao bilhão em 2018, mesma época em que abriu capital na Bolsa de Valores de Nova York.

“É cada vez mais comum a startup virar um unicórnio rápido”, afirma o presidente-executivo da plataforma Sling Hub, João Ventura.

A rodada em que normalmente se vira um unicórnio no Brasil é a quinta, a E. No último ano, porém, cinco das startups alcançaram precificação de US$ 1 bilhão nas rodadas C e D. Duas delas, na B, ainda mais cedo, segundo a plataforma.

Na corrida para abocanhar o mercado, essas grandes startups têm comprado outras e formado holdings. “É uma avenida que o unicórnio vê para crescer”, diz Ventura.

O iFood é o maior exemplo: comprou 13 outras empresas de tecnologia ao longo da sua história. Das estrelas deste ano, alguns exemplos são Unico e Hotmart, que compraram três startups cada uma.

O crescimento do Brasil não é estranho a outros países do mundo. Foram 491 novos unicórnios ao todo este ano contra 110 em 2020, segundo dados da CBInsights.

Os números mostram que, assim como os seres que as batizam, essas startups parecem viver uma realidade paralela à da economia.

Desde o início do ano, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, caiu 11,43%, e a inflação superou os dois dígitos no acumulado de 12 meses. Nos EUA, apesar do crescimento de 21,79% do índice que monitora as 500 maiores empresas da Bolsa de Nova York, o aumento de preços é semelhante ao do início dos anos de 1990. No mundo inteiro, variantes do coronavírus seguem derrubando Bolsas de tempos em tempos.

O mercado de investimentos, porém, funciona em outros termos.

“Um ponto importante é a presença do investidor estrangeiro”, afirma Ventura. “É relativamente barato colocar dinheiro no Brasil.”

Desde janeiro de 2019, o dólar aumentou mais de 50%. Na casa dos R$ 3,70 no início daquele ano, a moeda fechou esta terça-feira (28) valendo R$ 5,64.

O mercado americano, de onde vem grande parte dos investidores, mostra mais sinais de excesso de capital e saturação de empresas do que o brasileiro. “As pessoas têm uma certa dificuldade em achar startups para investir. Começam, então, a destinar mais dinheiro a outros países”, diz Ventura.

Fundos estrangeiros normalmente estão presentes na captação em que a startup vira um unicórnio, por causa do alto volume de dinheiro. A japonesa SoftBank, por exemplo, investiu na rodada bilionária de cinco dos dez brasileiros deste ano.

“A gente pode mudar: vamos imaginar que o dólar cai muito. Aí começa a ficar mais atrativo para o investidor local”, diz Ventura. Em resumo, defende, instabilidades menos intensas afetam pouco as grandes startups, que dependem do dinheiro de estrangeiros e competem com outras nações em desenvolvimento.

A Selic e suas correspondentes mundo afora podem ser um desses pequenos abalos. Bancos centrais de quase todos os países reduziram as taxas básicas de juros na crise como forma de estimular a economia. No Brasil, a Selic chegou à mínima histórica de 2% ao ano e assim ficou por cinco meses. Os Estados Unidos seguem com o índice zerado.

Além de diminuir o custo da dívida pública, taxas de juros menores estimulam o investidor a se voltar para o mercado real, que, com rendimentos maiores, fica muito mais vantajoso. Com o aumento da inflação, o BC colocou os juros a 9,25% ao ano na última reunião, no início de dezembro. A expectativa é que o índice siga aumentando em 2022.

Os EUA preparam-se para despedir-se do período de estímulo econômico no ano que vem. O Fed (banco central do país norte-americano) encerrará em março o programa de compras de títulos em curso desde o início da crise sanitária, abrindo caminho para três aumentos de 0,25 ponto percentual nas taxas de juros até o fim do próximo ano.

Nem o cenário acima pintado nem as incertas eleições do Brasil no ano que vem tiram o otimismo de Ventura. “Se a economia for realmente mal, as pessoas não vão ter dinheiro para pedir refeições no iFood, por exemplo. Mas eu acho difícil acontecer uma catástrofe gigantesca em um período curto”, afirma.

“A expectativa é de crescimento, porque cada vez mais investidores estão entrando no Brasil. Pode acontecer de a gente superar o número de novos unicórnios em 2022 em relação a 2021”, diz o empresário.

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Inovação é a soma de arte com tecnologia

Ada Lovelace, Cesar e o Porto Digital são algumas referências que revelam como ciência e inovação são articulações do exercício imaginativo e artístico; a tecnologia, desse modo, não deve ser vista como algo distante da arte

Eduardo Peixoto* MIT Sloan Review 23 de Dezembro 2021

Preciso começar dizendo que sou engenheiro de formação. Fiz engenharia eletrônica na UFPE. Conclui o curso em 1987. Por muito tempo atuei em telecomunicações, desenvolvendo produtos de hardware e software, e depois enveredei pelas TICs (tecnologia da informação e comunicação). Uma mudança natural, já que as telecomunicações estavam virando uma função das TICs.

No começo dos anos 2000, ingressei no Cesar. Conheci por lá alguns designers e aos poucos fui entendendo e me adaptando a outra forma de pensar, na qual conhecimento não é compartimentalizado e tecnologia e arte se fundem e dão em inovação.

E sempre assim foi: em maio de 1833, aos 17 anos, Ada (posteriormente Lovelace) estava sendo apresentada para a corte real britânica. A jovem tinha temperamento forte e independente. Naquela época, da era primeira revolução industrial, Lord Byron, pai de Ada, além de poeta, era um ativo loomista. Byron defendia veementemente a destruição dos teares automáticos, como forma de preservação dos empregos.

A mãe de Ada, preocupada com os destinos da menina, na tentativa de equilibrar a influência do pai, educou-a em matemática. Ada cresceu então com uma imaginação rebelde, e encantamento por números.

Artigo Inovação é a soma de arte com tecnologia

Um dos eventos da corte, fez ela conhecer Charles Babbage (de 41 anos), cientista e matemático renomado da época. Babbage havia conquistado a atenção de todos com sua máquina que resolvia equações polinomiais (expressões como 5+3+4): a Difference Engine. Para alguém curiosa e inquieta como Ada, a conexão foi direta. Babbage também era dado a grandes festas, nas quais circulavam escritores, poetas e atores, além de industriais e cientistas. Para o historiador britânico Richard Holmes, os dois estavam na the age of wonder.

Em 1823, o governo britânico concedeu a Babbage o capital inicial de £ 1.700 para aprimorar sua máquina. Ele afundou mais £ 17.000, o dobro do custo de um navio de guerra, sem obter sucesso. Eventualmente o fomento foi retirado e Babbage precisou buscar recursos noutras praças para dar continuidade ao projeto. Numa apresentação na Itália, Luigi Federico Menabrea registrou com precisão as palavras de Babbage e publicou em francês um artigo descrevendo a máquina. Os amigos de Ada logo a chamaram para traduzir para o inglês.

Ada não se limitou apenas a uma tradução; ela escreveu várias “notas do tradutor”, que acabaram totalizando 19.136 palavras, mais do que o dobro do comprimento do artigo original de Menabrea. Assinado como “A.A.L.,” por Augusta Ada Lovelace; e suas “Notas” se tornaram mais famosas que o artigo e estavam destinadas a torná-la uma figura icônica na história da computação.

Sensibilidade artística para a tecnologia

Ada foi uma aluna ávida de matemática, capaz de compreender a maioria dos conceitos básicos do cálculo, e com sua sensibilidade artística ela gostava de visualizar as curvas e trajetórias mutáveis que as equações descrevem. Ela percebeu que a matemática era uma linguagem adorável, pois consegue descrever as harmonias do universo e pode ser poética às vezes.

Ada, foi a primeira que percebeu que os dígitos nas engrenagens poderiam representar outras coisas além de quantidades matemáticas. Ela inaugurou, assim, o conceito central da era digital: qualquer pedaço de conteúdo, dado ou informação — música, texto, imagens, números, símbolos, sons, vídeo — poderia ser expresso em forma digital e manipulado por máquinas.

Tecnologia e arte sempre estiveram juntas. Nas palavras de Ada: “não acredito que meu pai tenha sido (ou pudesse ter sido) um poeta como eu serei uma analista; pois comigo os dois vão juntos indissoluvelmente”.

O espaço da arte

A história de Ada não é única. A inovação nunca acontece de apenas uma perspectiva. John Maeda, no Ted Como a arte, a tecnologia e o design formam líderes mais criativos, lembrou o quanto os pais se incomodam quando descobrem que os filhos são bons em arte e ficam felizes quando o mesmo ocorre com a matemática, como se os dois fossem separáveis.

No entanto, a história da computação, desde Ada, está intimamente ligada às artes. Os computadores, desde os mais remotos, são utilizados para manipular textos, sons, imagens e vídeos. Em síntese, são ferramentas a serviço das artes. Entretanto, qual seria a função das artes? Segundo Maeda, a arte funciona quando é enigmática, quando nos ajuda a derrubar certezas, quando nos provoca a fazer perguntas. E talvez, neste tempo de tantas incertezas, não deveria ser esse o papel da liderança?

A separação entre arte e tecnologia retoma ao século 19, com o artigo The Two Cultures, publicado em 1956 na revista New Statesman. E logo teve o reforço de uma palestra de 1959 em Cambridge, no qual o físico e novelista C.P. Snow apresentou sua hipótese de um mundo do pensamento dividido. De lá para cá, um menino arteiro, aquele que faz arte, é curioso e experimenta, tornou-se sinônimo de preocupação para os pais.

No Recife, na década de 1990, um olhar divergente, e unificado entre arte e tecnologia teve uma outra consequência. Segundo H.D. Mabuse, artes e ciências são separadas na cabeça de muitos, mas não deveriam. O polo de inovação que envolve Cesar e Porto Digital nasceu de um movimento sociocultural a que pesquisadores acadêmicos aderiram (veja mais neste artigo).

De Silvio Meira surgiu a interação com esse movimento cultural, e o redesenho que ele fazia das bases da música: a mistura do maracatu com rock e com música clássica nordestina. Essa perspectiva artística foi fundamental para vermos que era possível fazer alguma coisa de classe mundial a partir daqui, da capital pernambucana. E isso nos deu energia para tentar criar, com mais afinco, com mais determinação, o que viria a ser o Cesar.

Aprendi com a experiência, com o tempo, com a prática e com o Cesar. A inovação, tão fundamental nos dias de hoje, só ocorre em lugares que permitem ambiguidade, em lugares onde artistas, designers, matemáticos, físicos, engenheiros, industriais, entre outros, aprendam uns com os outros. Ambidestria, diversidade (de todos os tipos e formas), espaços para pensamentos abdutivos, dedutivos e indutivos, pluralidade de espaços, sobretudo inclusivos, são mais que necessários para a inovação, pois “toda criação científica é obra de arte, e toda criação artística é articulação de conhecimento”, como afirmou Vilém Flusser.

Assim, arte e tecnologia dá em inovação, que dá em Cesar, centro de inovação.

Gostou do artigo do Eduardo Peixoto? O mesmo tempo foi abordado por outro colunista da MIT Sloan Review Brasil, Gustavo Meirelles. Em coautoria com o Dr. Augusto César de Macedo Neto, o colunista propõe um futuro tecnológico que promova um reencontro da arte com a ciência, analisando a relação histórica entre medicina, ciência e literatura (entre outras formas de arte).

*Eduardo Peixoto

Eduardo Peixoto é chief design officer do CESAR, Centro de Inovação e professor da CESAR School. Mestre em comunicação de dados pela Technical University of Eindhoven-Holanda, MBA pela Kellogg School of Management, Evanston-EUA e pela Columbia Business School, atua há 30 anos na área de tecnologias da informação e comunicação (TICs), tendo trabalhado como executivo no exterior, na Philips da Holanda e na Ascom Business System AG (Suíça).

https://mitsloanreview.com.br/post/inovacao-e-a-soma-de-arte-com-tecnologia
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Onde estão os Ubers ?

Brasileiro vive primeira greve global da era digital

Mathias Alencastro – Folha 27/12/2021

Pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, ensina relações internacionais na UFABC

Tem sido um dos dramas leves das festas de fim de ano. Incapazes de encontrar um motorista por aplicativo, familiares são obrigados a procurar um táxi em plena rua ou a recorrer às caronas de amigos. Essa realidade inteiramente nova para uma sociedade que se acostumou a ter sempre um motorista à disposição tem sido tratada como mais um elemento insólito da pandemia. 

A ausência de veículos nas plataformas seria, segundo as principais empresas do setor, uma situação transitória devido a uma conjunção de fatores que desequilibraram o mercado, como o aumento dos passageiros e a alta de preços da gasolina.

Logo da Uber em sede da empresa em San Francisco, na Califórnia – Josh Edelson – 8.mai.2019/AFP

O caráter global da crise sugere que as razões são mais profundas. Alegando que o trabalho é financeiramente inviável, os motoristas estão aceitando um quinto das viagens que lhes são oferecidas pelo aplicativo em países com o Reino Unido. 

Viagens triviais a partir dos aeroportos de Los Angeles, Mumbai e Paris podem custar o preço de uma passagem aérea. O CEO da Uber Dara Khosrowshahi está sendo obrigado a abandonar os mantras da corporação, buscando diálogo com autoridades municipais, com quem a empresa sempre optou pela relação de força no passado, e até formando parcerias com os táxis amarelos de Nova Iorque, símbolos do “velho mundo” que ela tinha prometido transformar em relíquia de outro tempo.

O que explica esse movimento espontâneo e global iniciado pelos próprios motoristas, que poderá ser lembrado no futuro como a primeira grande greve da economia digital? 

Na última década a Uber transformou o mercado de transporte criando uma ilusão de modernidade para o trabalhador informal, elevado pela empresa à categoria inovadora e elegante de empreendedor digital. O ambiente político era particularmente favorável a essa revolução cultural. 

Em 2016, o governo Temer vinculava a reforma trabalhista às oportunidades da “uberização” enquanto o premiê indiano Narendra Modi fazia da Uber a principal parceira da Start Up India, um dos programas-bandeiras do seu novo governo.

Mas a pandemia expôs a dura realidade da servidão digital: Transformados à força em trabalhadores essenciais, os motoristas constam entre as principais vítimas econômicas e sanitárias da pandemia ao redor do mundo. O trauma levou-os a se aproximarem dos mecanismos tradicionais de contestação social. 

Na Índia, uma organização com milhões de motoristas forçou o governo Modi a votar um pacote de assistência social que inclui pensão e acesso a serviços de saúde. Em setembro, um tribunal da Holanda, onde a Uber tem a sua sede global, estabeleceu que os motoristas da empresa devem ser reconhecidos como trabalhadores da empresa, acompanhando decisões semelhantes em tribunais californianos e londrinos. 

Apesar das dificuldades, a Uber anunciou o seu primeiro lucro operacional em novembro de 2021. Mas o seu modelo de negócios, baseado no mito dos motoristas-empreendedores, poderá não sobreviver à pandemia.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mathias-alencastro/2021/12/onde-estao-os-ubers.shtml

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China passa EUA e lidera produção de ciência mundial pela primeira vez

Cientistas chineses publicaram uma soma de 788 mil artigos em 2020 em todas as áreas do conhecimento

Sabine Righetti e Estêvão Gamba – Folha 26/12/2021

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O conceito do “made in China” saiu da indústria e chegou às instituições de pesquisa. Levantamento inédito da Folha mostra que a produção científica chinesa atingiu a marca de maior do mundo —ultrapassando os Estados Unidos de maneira inédita.

​Cientistas ligados a universidades, institutos e hospitais da China publicaram uma soma de 788 mil artigos científicos em 2020 em todas as áreas do conhecimento. Isso significa 90 resultados científicos novos por hora, em média, publicados em trabalhos acadêmicos com a participação de chineses.

Bandeira da China vista em PequimBandeira da China vista em Pequim – Thomas Peter – 12.mai.2021/Reuters

A marca levou o país a ultrapassar o então líder Estados Unidos, com 767 mil artigos científicos publicados em 2020. Foi um número 2,4% maior em relação ao ano anterior; a questão é que a produção científica chinesa cresceu 10% no mesmo período —isso depois de aumentar sem parar nos últimos anos.

Os dados foram extraídos da plataforma Scimago, que inclui métricas de mais de 20 mil periódicos científicos de uma base chamada Scopus. Entram na conta os trabalhos acadêmicos publicados nesses periódicos após análise e aprovação dos cientistas (o que é chamado de “revisão dos pares”). São, portanto, publicações acadêmicas “oficiais”.

A China lidera em 2020 áreas do conhecimento como biologia molecular e farmacologia —ligadas mais diretamente a pesquisas de enfrentamento da Covid-19—, mas também está em 1º lugar no mundo em temas como astronomia, agricultura, ciências da computação e engenharias.

Cientistas na corrida contra o coronavírus

Também vai bem nos estudos em economia (2º lugar no mundo) e em artes e humanidades, na qual ocupa a 6º posição mundial.

Os números impressionam porque há duas décadas a produção científica chinesa era quase seis vezes menor do que a norte-americana. Em 2001, os EUA tinham publicado 373,5 mil artigos científicos —contra 65,6 mil na China.

Nessa época, ganhava força na China uma intensa política de incentivo ao ensino superior, que começou na década anterior e que mostra resultados agora. “A China tem investido muito em pesquisa e desenvolvimento”, diz a socióloga Adriana Abdenur. Ela é especialista em políticas públicas e relações internacionais, e já atuou em universidades chinesas.

Por lá, há várias políticas de promoção e de avaliação da carreira de pesquisa, muitas vezes de aumento de salário atreladas à produção científica. “De certa forma, é uma adoção do modelo ocidental de avaliação de performance dos acadêmicos”, diz.

O país também passou a investir pesadamente em um grupo de universidades chinesas de excelência em pesquisa —uma espécie de “ivy league chinês”. Hoje, duas dessas universidades estão entre as melhores do mundo: Pequim e Tsinghua estão empatadas em 16º lugar na última edição do ranking universitário global THE (Times Higher Education).

Há uma década, as universidades Pequim e Tsinghua estavam, respectivamente, em 46º lugar e 52º lugar no mundo na mesma listagem do THE.

A internacionalização do ensino superior também é um componente forte da política de Estado chinesa. “Há um envio de estudantes para o exterior com uma orientação muito bem delineada no sentido de aprender métodos e dinâmicas dos grandes centros globais”, diz Abdenur.

Esses estudantes, explica a especialista, acabam voltando para a China fluentes em inglês, a língua franca da ciência. Isso, claro, contribui para o aumento da produção científica daquele país.

De acordo com o último relatório do Instituto de Educação Internacional dos EUA (IIE, na sigla em inglês), 35% dos quase 1 milhão de estudantes estrangeiros matriculados nas universidades norte-americanas tinham vindo da China no ano letivo de 2020/2021. Na sequência está a Índia, com 18% dos estudantes estrangeiros daquele país.

Em termos de visibilidade, a produção acadêmica chinesa e a dos Estados Unidos estão praticamente empatadas. Uma das métricas para medir isso é a quantidade de vezes que um artigo científico é mencionado por outros trabalhos acadêmicos. Os trabalhos chineses e norte-americanos publicados em 2020 foram citados 1,2 vez cada um naquele mesmo ano.

Nos corredores acadêmicos, no entanto, fala-se em “fábrica de artigos científicos” na China como forma de inflar os dados. Já vieram à tona casos de produções acadêmicas baseadas, por exemplo, em dados falsos. As denúncias, no entanto, não foram exclusividade da China.

Os dados da Scimago mostram que a ciência brasileira também tem crescido —mas em ritmo muito mais modesto que o chinês.

O Brasil ocupa o 13º lugar no mundo no mesmo ranking de produção científica em 2020, com a marca recorde de 100 mil trabalhos acadêmicos publicados em periódicos científicos. Foi um aumento de 9,34% em relação ao ano anterior.

E como é possível que a ciência brasileira cresça se os investimentos em pesquisa estão se reduzindo?

“A produção científica de 2020 ainda reflete os investimentos feitos em 2019 para trás. Leva um tempo para cortes em financiamento à ciência terem um efeito forte sobre produção científica”, diz Leandro Tessler, físico da Unicamp que tem acompanhado de perto dados da produção científica brasileira.

Os recursos federais para ciência brasileiros —na contramão da China— têm sofrido cortes drásticos há alguns anos. O orçamento do CNPq, agência federal responsável pelo pagamento de bolsas a pós-graduandos (uma espécie de salário), por exemplo, passou de R$ 3,14 bilhões, em 2013, para R$ 1,21 bilhão neste ano —e pode ficar ainda menor em 2022.

“Os cortes em bolsas de pesquisa devem ter consequências na produção científica nos próximos anos”, diz Tessler.

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2021/12/china-passa-eua-e-lidera-producao-de-ciencia-mundial-pela-primeira-vez.shtml

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Quais vacinas protegem contra a Ômicron e quantas doses devem ser tomadas?

Pesquisas recentes mostram que reforço pode ser eficaz contra a nova variante do covid. Veja o que se sabe

Por Exame/Agência O Globo  23/12/2021 

Com o avanço da Ômicron pelo mundo, pesquisadores na área da saúde têm concentrado os esforços em avaliar a melhor forma de proteção contra a nova variante do coronavírus. Os estudos que avaliaram as diferentes doses de reforço da vacina (incluindo combinações entre as fabricantes) mostraram que todas apresentaram maior eficácia para a prevenção do que o uso de apenas duas doses. Mas em relação às variantes da doença, especialmente a Ômicron, o que se sabe até agora?

O projeto britânico CoV-Boost, um coletivo de pesquisadores, mostrou em estudo publicado na revista médica Lancet que, além do vírus original das amostras chinesas de Wuhan, o soro dos pacientes com dose de reforço foi testado contra as variantes Beta (descoberta na África do Sul) e Delta (descoberta na Índia). A linhagem específica de vírus porém, não afetou muito o resultado das doses de reforço.

Contudo, a proteção das vacinas oferecidas é um pouco menor contra a Ômicron em comparação com versões anteriores da Covid, mas a dose complementar ainda deve manter muitas pessoas fora do hospital.

A vacinação contra a Covid-19 começou no dia 19 de janeiro. (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Pesquisadores do Reino Unido analisaram o provável impacto que uma dose de reforço da vacina contra a Covid-19 terá na Ômicron, e dizem que ela pode fornecer cerca de 85% de proteção contra casos graves da doença.

Veja, abaixo, os estudos mais recentes sobre a variante.

AstraZeneca

Testes clínicos realizados pela Universidade Oxford, no Reino Unido, divulgados nesta quinta-feira, mostraram que a terceira dose da vacina AstraZeneca contra a Covid-19 aumentou significativamente a resposta imunológica à variante Ômicron em comparação com resultados de apenas duas doses.

Foi concluído que duas doses das vacinas contra Covid-19 de Oxford-AstraZeneca e da Pfizer-BioNTech induzem poucos anticorpos neutralizantes contra a Ômicron. A dose extra aumenta significativamente as concentrações de anticorpos.

Pfizer

As farmacêuticas Pfizer e BioNTech declararam no dia 7 de dezembro que duas doses da vacina podem não ser suficientes para proteger contra a infecção com a variante Ômicron, mas que três doses são capazes de neutralizar a nova cepa.

De acordo com os dados preliminares das empresas, uma terceira dose fornece um nível semelhante de anticorpos neutralizantes para a Ômicron ao observado após duas doses contra a cepa original ou as variantes anteriores.

Antes do surgimento da nova cepa, pesquisas apontaram que o imunizante foi capaz de reduzir o risco de internações em mais de 90%. A eficácia contra infecções em pessoas totalmente vacinadas ficou em torno de 33%.

Já um estudo da Discovery Health, em parceria com o Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul (SAMRC, na sigla em inglês), divulgado no dia 14 de dezembro, apontou que duas doses da vacina Pfizer contra a Covid-19 tiveram 70% de eficácia contra hospitalizações em meio ao aumento de casos da variante Ômicron da África do Sul. A pesquisa não analisou os efeitos da dose de reforço.

Coronavac

Um estudo realizado em Hong Kong, também divulgado nesta quinta, indicou que três doses da vacina CoronaVac contra a Covid-19 não produzem níveis suficientes de anticorpos para combater a variante Ômicron.

No entanto, a análise revelou que a dose de reforço da Pfizer-BioNTech forneceu “níveis protetores” de anticorpos contra a Ômicron para quem tinha completado o esquema com a CoronaVac. Segundo os pesquisadores, três doses da Pfizer também são suficientes para atingir a proteção.

A pesquisa mais recente foi conduzida por pesquisadores da Universidade de Hong Kong e da Universidade Chinesa de Hong Kong, e financiado pelo Fundo de Pesquisa Médica e de Saúde e pelo Governo de Hong Kong.

Contudo, outro estudo conduzido na China, liderado pelo cientista Xiangxi Wang, pesquisador do Laboratório de Infecção e Imunidade do Instituto de Biofísica da Academia Chinesa de Ciências, analisou mais de 500 unidades de anticorpos neutralizantes obtidos após a aplicação da terceira dose da Coronavac e concluiu que o reforço produz anticorpos capazes de reconhecer a variante Ômicron.

— Cerca de um terço dos anticorpos apresentaram grande afinidade de ligação com a proteína Spike das cepas de preocupação, incluindo a Ômicron, que tem mais de 30 mutações — afirmou Wang em um comunicado do Instituto Butantan.

Janssen

Os estudos da farmacêutica Janssen sobre a eficácia das vacinas contra a Ômicron ainda estão em andamento. A empresa informou que está fazendo análises em parceria com grupos de pesquisa da África do Sul, com amostras de soro de participantes obtidas em ensaios, sobre a dose de reforço.

Além disso, a Janssen informou que pretende buscar uma vacina específica para a Ômicron, que será desenvolvida, caso seja necessário.

Moderna

A Moderna, farmacêutica americana que desenvolveu uma das vacinas contra a Covid-19 atualmente em uso nos Estados Unidos, mas não no Brasil, afirmou na segunda-feira que o imunizante

aumentou a proteção contra a variante Ômicron do coronavírus, segundo testes clínicos realizados pela companhia. A dose de reforço da vacina pode aumentar anticorpos contra Ômicron em 83 vezes.

A farmacêutica deve desenvolver uma vacina específica para a variante Ômicron, e espera avançar em testes clínicos no início de 2022.

Intercambialidade de vacinas

A análise feita em Hong Kong revelou que a dose de reforço da Pfizer-BioNTech forneceu “níveis protetores” de anticorpos contra a Ômicron para quem tinha completado o esquema com a CoronaVac. Ou seja, quem está imunizado pela CoronaVac terá imunidade contra a Ômicron se tomar a dose de reforço da Pfizer, mas não apresentará a mesma resposta imunológica sem nenhum reforço ou com a terceira dose da mesma fabricante.

A cidade do Rio privilegiará a “mistura de vacinas”, esquema conhecido por especialistas como vacinação heteróloga, na aplicação da terceira dose do imunizante contra a Covid-19. A medida visa a promover uma maior resposta imunológica do organismo, como sugerem estudos internacionais.

Ainda há poucas informações sobre a intercambialidade de vacinas em relação à Ômicron, mas em relação à forma original do vírus, ela tem se apresentado como uma alternativa positiva.

Conforme publicação da Universidade Oxford na revista Lancet, a combinação de uma dose de vacina anticovid da AstraZeneca ou da Pfizer com a 2ª dose do imunizante da Moderna ou da Novavax produz maior resposta imune do que se a 2ª dose for do mesmo imunizante para a forma original da Covid-19.

A proposta de vacinação heteróloga é promissora e vem sendo adotada como estratégia em países como o Canadá e alguns países europeus, como a Espanha. Pesquisadores concordam que a “mistura” de vacinas pode apresentar efeito positivo sinérgico na resposta imune, com reforço da resposta de células T de memória.

https://exame.com/ciencia/covid-variante-omicron-quais-vacinas-protegem-quantas-doses/

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O que os Beatles nos ensinam sobre o trabalho em equipe

Novo documentário sobre os “Fab Four” também é imperdível para gestores

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The Economist/Estadão 23 de dezembro de 2021

Paul está dedilhando seu baixo em um estúdio em Londres. George boceja e Ringo observa sem prestar muita atenção. John está atrasado, como de costume. De repente, a mágica acontece. Uma melodia começa a tomar forma, George acompanha Paul com sua guitarra e Ringo, batendo palma. Quando John chega, o mais novo single dos Beatles, “Get Back”, está incrivelmente reconhecível.

“Get Back” é a base tanto desse momento memorável como o título de um maravilhoso novo documentário de Peter Jackson, que mostra o registro dos dias que a banda passou junta em janeiro de 1969, escrevendo e gravando músicas para um novo álbum. Para os fãs de música, cultura pop ou criatividade, o filme é uma coleção de pequenos tesouros. Quando George está tendo dificuldades para compor o trecho após “Something in the way she moves” (Algo na maneira como ela se movimenta), John dá um conselho. “Basta dizer o que vier à sua cabeça toda vez – ‘attracts me like a cauliflower’ (Me atrai como uma couve-flor) – até encontrar as palavras certas.”

Os executivos também deveriam ver esse documentário. A questão do que faz uma equipe “cantar” é um ponto básico da pesquisa em gestão, e o documentário dos Beatles é uma chance única de observar uma equipe realmente de alto nível em ação. O filme reforça princípios conhecidos e oferece outros também.

Pense no papel de Ringo, por exemplo. Quando ele não está tocando de verdade, o baterista da banda passa a maior parte do tempo sonolento ou parecendo estar perdido. Quando os outros três músicos discutem, Ringo sorri contente. Para um observador desatento, ele talvez pareça não ser necessário. Mas, musicalmente, nada funciona sem ele e, como integrante da equipe, ele atenua conflitos e limita divisões.

A composição psicológica é importante para a forma como as equipes unem forças. Pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts descobriram que o desempenho dos grupos não está correlacionado com a média da inteligência de seus participantes, mas com características como sensibilidade e o quanto as equipes são boas em dar a todos tempo para falar. Ringo oferece apoio; a banda seria menos coesa sem ele.

Outro princípio reforçado pelo documentário: procure inspiração aqui, ali e em todos os lugares. Em um estudo da McKinsey, mais de 5 mil executivos foram solicitados a descrever o ambiente no qual tiveram suas melhores experiências como parte de uma equipe. Entre outras coisas, a consultoria identificou a importância da “renovação”, o hábito de evitar ficar ultrapassado correndo riscos, aprendendo com os demais e inovando.

“Get Back” mostra uma equipe de superstars adotando exatamente esse ethos: tocar as músicas de outras bandas, agarrar ideias como aves capturam suas presas e aceitar conselhos e ajuda de pessoas de fora da equipe com todo prazer. É a participação de um pianista chamado Billy Preston, conhecido do grupo desde os tempos em que tocou em Hamburgo, o que realmente faz as sessões de gravação começarem a funcionar. (Vamos fazer dele o quinto Beatle, sugere John. “Já é ruim o bastante com quatro”, suspira Paul.)

Uma terceira mensagem do filme diz respeito a quando e como deixar uma equipe trabalhar. Em uma iniciativa de 2016 chamada Projeto Aristóteles, o Google tentou definir as características de suas equipes mais eficientes. Uma de suas descobertas foi que os objetivos devem ser “específicos, desafiadores e possíveis”.

Quando os músicos se encontram pela primeira vez, no segundo dia de 1969, a banda tem uma tarefa que se encaixa perfeitamente nesses critérios: compor novas músicas dignas de um álbum em apenas alguns dias e apresentá-las em um especial de TV. Mas como alcançam esse objetivo fica, em grande parte, nas mãos deles. Isso nem sempre funciona. A certa altura, Paul anseia por uma “figura central paterna” para orientá-los em sua programação. Contudo, a combinação de prazo e autonomia produz resultados extraordinários.

Há limites para o que pode ser aprendido com “Get Back”. Os Beatles nem sempre apoiam uns aos outros – George, sentindo-se menosprezado por John e Paul, abandonou a banda durante alguns dias. As drogas tiveram um papel importante no que eles produziram: o LSD talvez seja algo inaceitável para alguns gestores. Embora a habilidade técnica não seja o único fator de sucesso, o enorme talento ajudou. Qualquer banda com um Lennon, um McCartney e um Harrison teria uma vantagem.

Mas uma lição maior aparece em alto e bom som. Os Beatles amam o que fazem para ganhar a vida. Quando não estão tocando, estão conversando sobre música ou pensando nisso. Eles tocam as próprias músicas cena após cena e improvisam constantemente. Os gestores que pensam que para construir espírito de equipe é preciso uma atividade separada do trabalho – aqui vai uma dica, deixem para lá os arremessos de machado, batalhas de gifs ou qualquer outra coisa igualmente abominável – estão perdendo de vista um ponto fundamental. As equipes com os melhores desempenhos alcançam maior satisfação não individualmente, mas pelo trabalho que realizam em conjunto. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,o-que-os-beatles-nos-ensinam-sobre-o-trabalho-em-equipe,70003934089

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Salários das big techs são revelados: DEVs ganham R$ 1,5 mi nos EUA

Os altos salários refletem a disputa contínua dessas companhias por estabelecer dominância sobre as demais em termos de oferta ao mercado

Por Da Redação Exame  22/12/2021 

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Já pensou em trabalhar num cargo que pague mais de R$ 120 mil ao mês? Pois esse emprego existe — só não está no Brasil. Um levantamento publicado pelo Business Insider mostra que grandes companhias de tecnologia, como Google e Amazon, aumentaram contratações e salários durante a pandemia. Nessas empresas, os cargos com a maior remuneração são aqueles, é claro, ligados à principal atividade dessas companhias: inovação e tecnologia.

De acordo com as informações, engenheiros de software no Google podem ganhar de 353 mil dólares até 650 mil dólares por ano, sendo este último o salário de um vice-presidente sênior de engenharia.

Na DoorDash, o cenário é similar: para o nível de entrada na mesma área, o salário é de 250 mil dólares por ano. Na Intel, gerentes de engenharia de software podem ganhar mais de 300 mil dólares por ano.

No Facebook, diretores de engenharia podem ganhar 360 mil dólares na mesma comparação. E na Amazon, cargos relacionados ao desenvolvimento de serviços na nuvem chegam a 185 mil dólares por ano.

E, por fim, empresas como UBer oferecem até 200 mil dólares por ano aos engenheiros e cerca de 150 mil dólares por ano aos cientistas de dados.

Programação, computador, profissional de tecnologia

De acordo com as informações, engenheiros de software no Google podem ganhar de 353 mil dólares até 650 mil dólares por ano (oatawa/Thinkstock)

Disputa acirrada

Os altos salários refletem a disputa contínua dessas companhias por estabelecer dominância sobre as demais em termos de oferta ao mercado. Com a competição contínua — e a mão-de-obra qualificada extremamente escassa — os altos salários entram em campo como fator de decisão para que colaboradores decidam para onde ir.

“A alta demanda dos profissionais de tecnologia é global, não é só uma questão do Brasil. A pandemia acelerou ainda mais. Houve um crescimento da digitalização das empresas, que criaram produtos, investiram em vendas online, vendas de plataformas, etc. Todas tiveram que desenvolver isso”, explica Luana Castro, gerente de Tecnologia da Informação da consultoria Michael Page.

No Brasil, o cenário não é diferente. Dados de fevereiro deste ano mostram que há mais de 260 mil vagas em Tecnologia sem dono. De novo, desenvolvedores, cientistas de dados e programadores estão na mira de empresas como a Hotmart, que abriu mais de 400 vagas dedicadas ao setor.

De olho na mão de obra escassa, segundo a consultoria em recursos humanos Revelo, os salários oferecidos aos profissionais de tecnologia dispararam cerca de 20% em 2020, em média.

Entre as habilidades para os profissionais de tecnologia com mais destaque para 2021, segundo o LinkedIn, estão o domínio de linguagens como Git, Unity, JavaScript, React.js, Scrum.

As soluções para o déficit

Apesar de existirem ações pontuais que podem ajudar a contratar mais profissionais de Tecnologia da Informação, o Brasil vive um problema estrutural, na visão dos especialistas. 

Para resolver essa falta de profissionais, é necessário que as empresas entendam seu papel social e de treinamento de talentos na área em que atuam. “Qual é o papel da sua empresa na área em que ela atua?”, questiona Luana Castro, da Michael Page.

Além disso, políticas públicas de educação voltadas para tecnologia também podem contribuir para uma equilíbrio melhor entre oferta e demanda de profissionais no médio prazo.

Uma solução definitiva, contudo, depende de mudanças estruturais como mais cursos para formar esses profissionais disputados pelo mercado, como ciências da computação. Por ora, ao que tudo indica, a TI vai seguir sendo uma das poucas áreas em que, mesmo com a crise causada pela pandemia, sobram vagas de trabalho e faltam bons profissionais.

https://exame.com/pop/salarios-das-big-techs-sao-revelados-devs-ganham-r-15-mi-nos-eua/

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O que você viu, ouviu e comeu em 2021? Apps como Spotify, iFood e Instagram respondem

Febre de retrospectivas dos aplicativos de música, fotos ou entregas revela que eles sabem muito sobre sua vida. Compartilhamentos viram propaganda gratuita

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Letycia Cardoso  O Globo 17/12/2021 

RIO – Se alguém te perguntasse qual cantor você mais ouviu ao longo de 2021 ou por quantos minutos deixou rodar repetidamente a sua canção favorita, você saberia responder?

E se a pergunta fosse sobre qual o tipo de comida mais pedido por você nos restaurantes? Ou ainda quais os lugares você mais visitou este ano? Se as respostas não estiverem na ponta da língua, não se preocupe: os aplicativos respondem por você.

Nessa época do ano, cada vez mais aplicativos apresentam uma retrospectiva individualizada — que nada mais é do que uma ação de marketing disfarçada de conteúdo interativo. O conteúdo é baseado no monitoramento diário que os seus algoritmos fazem da forma como você os usa.

Uma das mais famosas retrospectivas é a do Spotify, disponibilizada desde 2013 para todos os usuários cadastrados em mais de 104 países.

A campanha deste ano, lançada no início de dezembro, ganhou as redes e até rendeu memes. Famoso pelo vídeo de comédia da Pfizer, o influenciador Esse Menino ensinou no Instagram como se assumir gay para a família e compartilhou a retrospectiva com Lady Gaga e Beyoncé no topo da playlist.

Retrospectivas dos Apps Foto: Arquivo

Rivais do Spotify são cobrados

No Twitter, usuários de apps concorrentes, como Apple Music e Deezer, cobraram ação semelhante.

Além de mostrar quais foram os artistas, gêneros, músicas, podcasts mais ouvidos e quantos minutos o usuário passou escutando música, por exemplo, a Retrospectiva 2021 do Spotify permitiu comparar a própria experiência com a de um amigo e criar uma playlist colaborativa com o gosto de ambos.

Os cartões de compartilhamento foram modernizados, podendo ser publicados no Snapchat, Twitter, Instagram, Facebook e, ainda, no TikTok.

“Estamos muito felizes com os resultados até agora. Sabemos que nosso público tem uma paixão por nosso serviço e quando lançamos a retrospectiva todo fim de ano isso fica cada vez mais claro ao ver o engajamento dos ouvintes, artistas e criadores ao compartilhar suas experiências na plataforma”, afirmou a empresa, em nota.

Retrospectivas viram mídias gratuitas

O Youtube Music realizou ação semelhante. Através da sua página personalizada do 2021 Recap no aplicativo do YouTube Music, os usuários podem conferir os artistas, canções, vídeos e playlists mais ouvidos no ano.

O especialista em branding, Galileu Nogueira, afirma que as retrospectivas se transformam em mídias gratuitas, ao passo que as empresas ganham espaço nas redes sociais sem ter que pagar qualquer tipo de anúncio. Os próprios usuários se encarregam de fazer a publicidade.

— A estratégia o tempo todo dá ‘call to actions’ (chamada para ação), ao dizer compartilhe com seus amigos, mostre para a sua rede, o que estimula a vontade de publicar mesmo. No caso do Spotify, o grande aliado para o sucesso é que o conteúdo é muito interessante, tem um envelope divertido. Se fosse um banco mostrando no que você mais gastou dinheiro, talvez ninguém quisesse compartilhar — sugere Nogueira.

Melhores momentos no Instagram

Instagram e Facebook, da Meta, também embarcaram nesse movimento. Em 2021, pela primeira vez, as redes sociais lançaram recursos para as pessoas compartilharem seus momentos significativos do ano.

No Facebook, será possível ver quais os amigos, reações, lugares e pessoas que mais se destacaram para cada um.

Em 2020, o Ifood também fez uma retrospectiva individualizada mostrando quais os tipos de comida mais pedidos pelo app e quais os restaurantes favoritos de cada cliente.

Eles sabem onde você esteve no verão passado

Já o Google Maps mostrou com precisão — até um pouco assustadora — quais lugares cada pessoa esteve, quantas vezes foi lá, quais distâncias percorridas de bike, a pé, de carro ou ônibus, além do tempo nos trajetos.

Neste ano, ambas as empresas ainda não divulgaram as retrospectivas às quais os usuários aguardam com ansiedade. O Waze, por sua vez, não fez uma retrospectiva individualizada. Porém, com a sua base de dados, monitorou o comportamento dos brasileiros.

Segundo o app de mobilidade urbana, as atividades que mais fizeram os brasileiros saírem às ruas e dirigirem em 2021 foram ir às compras (68%), ir ao trabalho (61%), visitar a família (53%) e os amigos (43%).

‘Dados são o novo urânio’, diz especialista

O levantamento ainda constatou que 30% dos motoristas só param para abastecer no momento em que o carro atinge menos de um quarto da capacidade e antes da luz de emergência acender, outros 18% só vão aos postos de gasolina quando já estão na reserva.

A diretora Jurídica do escritório Russell Bedford Brasil, Vitória Bernardi, afirma que “os dados são o novo urânio” — ou seja, o que se tem de mais valioso atualmente — e que as retrospectivas só são possíveis por causa da coleta de informações pessoais ao longo de muitos meses, o que permite entregar uma análise detalhada.

Por isso, alerta que é preciso ter atenção aos termos de consentimento:

— Muitas vezes, a gente não lê os termos de uso por preguiça ou por não fazer parte da nossa cultura, mas isso tem consequências. Aceitando o compartilhamento de dados estamos de acordo com essas consequências. O usuário tem que se educar a ler antes de clicar em ok.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/o-que-voce-viu-ouviu-comeu-em-2021-apps-como-spotify-ifood-instagram-respondem-25322682

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