Conhecido por sua resistência em investir em tecnologia e nas novatas do setor, o bilionário americano e sua gestora Berkshire Hathaway começam a colocar esses ativos no radar. E o Brasil desponta como um das escalas nesse novo percurso
Moacir Drska – Neofeed . •18/07/21
Nesta sexta-feira, a startup indiana de pagamentos Paytm protocolou o registro para o seu IPO, no qual irá buscar uma captação de até US$ 2,2 bilhões. Uma das principais fintechs do país, a empresa tem entre seus investidores alguns gigantes ligados ao mercado de tecnologia, como o Softbank e o Alibaba.
O prospecto preliminar da oferta chama atenção, no entanto, por um outro nome que integra essa relação: a Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffett, que detém uma participação de 2,8% na operação, fruto de um aporte de cerca de US$ 300 milhões, realizado em agosto de 2018.
Na época, a entrada na Paytm significou o primeiro grande movimento da Berkshire Hathaway no mundo das startups e, mais especificamente, em uma novata de tecnologia.
Na contramão dos seus investimentos em companhias mais tradicionais e estabelecidas, Buffett é conhecido por sua resistência ao setor, segundo suas próprias palavras, por não entende-lo. Apple e IBM foram algumas das raras exceções dentro da tese do bilionário.
Pouco a pouco, no entanto, o “Oráculo de Omaha” começa a dar sinais de que as startups e, mais especificamente, as fintechs, como a Paytm, estão entrando no radar da atenção e dos cheques da sua gestora. E o mercado brasileiro já se destaca como uma das principais escalas dessa estratégia.
No início de junho deste ano, por exemplo, a Berkshire Hathaway anunciou um investimento de US$ 500 milhões no Nubank, como parte de uma rodada de US$750 milhões, que avaliou a fintech brasileira fundada por David Vélez em US$ 30 bilhões.
Antes, também em 2018, alguns meses depois do aporte na Paytm, a gestora americana desembolsou US$ 340 milhões em uma participação de 11,3% na também brasileira Stone, quando a empresa abriu capital na Nasdaq, em outubro daquele ano.
No primeiro trimestre de 2021, a Berkshire Hathaway informou que reduziu sua posição na Stone, em cerca de 25%. Na época, a companhia liderada por Buffett acrescentou que mantinha uma fatia de 3,4% no negócio, avaliada, na cotação atual da empresa, em cerca de US$ 608 milhões.
À parte dessa redução, os sinais emitidos por Buffett até o momento também simbolizam a preferência por países menos maduros sob aspectos como digitalização e bancarização. Mas que, em função desse panorama, trazem mais oportunidades que mercados já consolidados como Estados Unidos e Europa.
O megainvestidor Warren Buffett
Outro ingrediente recente, que também chama atenção, é o fato de que, nos meses seguintes à chegada da pandemia, a gestora reduziu ou mesmo zerou sua participação em grandes bancos, um setor que sempre foi uma das prioridades no seu portfólio.
A Berkshire Hathaway vendeu, por exemplo, suas ações em bancos como Goldman Sachs e J.P. Morgan, além de diminuir sua fatia no Wells Fargo, entre outras negociações nessa direção. O único ativo no qual a empresa manteve sua posição foi o Bank of America.
Apesar dos principais passos envolverem fintechs, a aproximação, mesmo que ainda tímida, de Buffett e companhia com o mundo das startups não está restrito a esse segmento. Em outra iniciativa, em setembro do ano passado, a gestora foi uma das “patrocinadoras” do IPO da Snowflake.
Na oferta pública, a empresa americana de gestão de dados na nuvem captou US$ 3,3 bilhões e foi avaliada em US$ 33 bilhões. O processo contou com a chancela da Berkshire Hathaway, que se comprometeu a investir US$ 570 milhões na companhia, avaliada, atualmente, em US$ 73,9 bilhões.
A diversificação rumo a novas frentes também passa pela corrida dos carros elétricos. Mas não pela Tesla, a grande vedete do setor. E sim, por sua rival chinesa BYD, na qual a Berkshire Hathaway mantém uma participação de 8,2%, acima, por exemplo, da fatia de 3,7% detida na General Motors. E assim, aos 90 anos de idade, Buffett prova que sempre há tempo de abrir os olhos para boas oportunidades – ainda mais quando se é um “Oráculo”.
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Nas próximas semanas será inaugurada a biofábrica da cadeia do cacau e do cupuaçu, com o objetivo de transformar os insumos em produtos de maior valor agregado e fomentar a bioeconomia
Por Vanessa Adachi Infomoney 16 de julho de 2021
Está começando a sair do papel o projeto liderado pelo climatologista Carlos Nobre, batizado de Amazônia 4.0, que quer instalar minifábricas no coração da floresta para transformar os bioinsumos em produtos de maior valor agregado.
É a grande aposta de Nobre para criar uma bioeconomia, com lógica de mercado, capaz de manter a floresta em pé.
O climatologista se tornou uma espécie de consciência nacional a respeito do risco de que a Amazônia atinja um ponto de não retorno, caminhando para a completa savanização, se o avanço do desmatamento não for detido a tempo. E o Amazônia 4.0, que começou a ser gestado em 2017, é a sua resposta ‘mão na massa’ para o problema.
“Propomos um novo modelo para a floresta, que não seja nem o da conservação estrita e nem o da liberação completa de qualquer atividade, como a pecuária, a mineração e a monocultura de grãos”, diz o biólogo Ismael Nobre, irmão de Carlos e que colidera a iniciativa.
“Os estudos que fizemos mostraram que a razão para existir tão pouca riqueza econômica ligada à floresta é porque nunca houve a agregação de valor. Todos os ciclos de desenvolvimento foram de commodities, como borracha, ouro e até energia elétrica.”
A partir dessa constatação, surgiu a ideia de criar os Laboratórios Criativos da Amazônia (LCAs) para as principais cadeias de insumos produzidos da região.
Trata-se de minifábricas móveis que se deslocarão entre as comunidades e que, como o nome sugere, servirão para treinamento e experimentação. Ou seja, serão o ponto de partida para disseminar o projeto.
A ideia é que, depois de serem capacitadas nos LCAs, cada uma das comunidades se organize para levantar os recursos necessários para instalar sua própria fábrica e estruturar seu negócio a partir dela.
Depois de quatro anos de pesquisas e trabalho, será inaugurado o primeiro LCA, entre o fim de julho e início de agosto, para a cadeia de cacau e cupuaçu.
A inauguração se dará em São José dos Campos, no Parque Tecnológico da Univap, onde as pesquisas têm sido desenvolvidas. A ideia é deixar a minifábrica — com projeto arquitetônico desenvolvido pelo croata naturalizado brasileiro Marko Brajovic — em exposição e fazer os testes e ajustes finais antes de encaminhá-la, de fato, à Amazônia.
Em fevereiro de 2022, o laboratório finalmente começará a circular entre as quatro primeiras comunidades produtoras escolhidas, todas no Estado do Pará e com perfis diferentes, uma de mulheres trabalhadoras rurais, uma de quilombolas, uma de ribeirinhos e outra numa reserva extrativista.
“A Amazônia é o maior produtor de amêndoa de cacau, já à frente da Bahia. Mas a produção é feita no modo commodity, em que o valor aproximado de 1 quilo da amêndoa gira em torno de R$ 10, enquanto o quilo do chocolate fino, de amêndoa fermentada, sai a R$ 200 a R$ 300. É uma agregação de valor de 2000% ou mais”, diz Ismael.
Indústria 4.0 na Amazônia
Quando pensaram em agregar valor aos insumos amazônicos, os irmãos Nobre sabiam que a ideia passaria pela industrialização, algo complexo numa região com condições desfavoráveis de logística, acesso a recursos e insumos.
“Mesmo quando há exemplos de tentativa de agregação de valor, há problemas sérios de qualidade dos produtos, o que não sustenta mercados bons e contínuos”, diz Ismael.
Tiveram, então, a ideia de incorporar tecnologias modernas da chamada indústria 4.0, como computação em nuvem, automação industrial e inteligência artificial, para viabilizar a bioindústria da Amazônia.
“Estudamos todos os passos com experts em chocolate, em engenharia mecânica, eletrônica, mecatrônica e programadores de computador e entendemos como pegar cada passo de um processo complexo e transformar em um passo facilitado pela inteligência de computadores dedicados à cadeia produtiva”, explica Ismael.
Na prática, a cada um dos maquinários usados na fabricação do chocolate foram acoplados pequenos computadores, com softwares especiais e sensores, capazes de cuidar do controle fino do processo.
“Dentro do paradigma da Amazônia 4.0, para a fabricação de chocolate, você interage com uma tela de controle, que é sensível ao toque. E qualquer pequena comunidade da Amazônia que tenha uma área de produção de cacau ou cupuaçu poderá facilmente ter um chocolate de altíssimo nível, fino, fabricado ali mesmo.”
Fazendo jus ao adjetivo ‘criativo’, a plataforma permite adicionar características autorais ao processo, com adição de outros ingredientes da biodiversidade à receita, escolha de pontos de fermentação e de torra e até impressão de formas com design próprio.
Um exemplo concreto de como o conceito é revolucionário para o processo está na definição do ponto de torra das sementes, que é decisivo para o sabor final do chocolate. Hoje, o controle é feito em fornos manuais. “É uma loucura. É cronômetro, prancheta e termômetro na mão”, diz Ismael.
Dentro do LCA, o forno é equipado com sensores de temperatura e um computador, com um programa que controla as resistências elétricas, o que permite desenhar uma curva de torra, com a temperatura variando ao longo do tempo.
“E basta apertar um botão para repetir essa curva que está na memória todas as vezes. Só isso resolve a principal dor de uma fábrica de chocolate que visitei.”
Todo o processo é rastreado de ponta a ponta e os dados são guardados em um banco de dados com tecnologia blockchain, que poderá ficar disponível publicamente através de um código de barras. “Esse fator será importante para a viabilidade desses produtos no mercado internacional, que se torna cada vez mais exigente em relação à origem dos produtos, às cadeias de fornecimento.”
Lógica de mercado
Embora tanta tecnologia de ponta embarcada possa sugerir que o custo de aquisição de equipamentos será alto demais para as comunidades conseguirem bancar, Ismael diz que não é por aí.
O custo de desenvolvimento, que é o mais caro, já foi bancado pelo capital filantrópico que financiou a empreitada até aqui. Com isso, as estimativas apontam que uma mini-fábrica 4.0 terá um custo apenas 10% superior ao de uma planta de mesmo porte sem os recursos tecnológicos.
Foram necessários R$ 5 milhões em capital filantrópico para concretizar o LCA do cacau e cupuaçu. Boa parte veio do BID Lab, o braço de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
E também contribuíram alguns dos institutos mais atuantes no desenvolvimento de alternativas econômicas para a Amazônia: Arapyaú, do fundador da Natura Guilherme Leal, Instituto Humanize e Instituto Clima e Sociedade (ICS), além do Good Energies Foundation (GEF).
Mais capital filantrópico será necessário para implantar os demais laboratórios criativos e o pipeline já inclui as cadeias da castanha do Pará, do açaí e de óleos gourmet (pataúa, buriti, tucumã e castanha).
Mas, na visão dos irmãos Nobre, o sucesso da empreitada será medido pelo grau de autossuficiência e inserção das comunidades numa lógica capitalista.
Como a estruturação do negócio é uma etapa igualmente complexa, para pavimentar o caminho para as primeiras comunidades foi firmada uma parceria com o Conexus, instituto voltado a organizar negócios de locais produtores e cooperativas rurais e florestais para serem viáveis economicamente.
“Seremos bem sucedidos se eles conseguirem prescindir de ONGs e de capital filantrópico. Nosso modelo muda o padrão dos exemplos tradicionais em que uma instituição se responsabiliza por uma área e ali tudo acontece, com recursos, tecnologia, assistência técnica, mas não consegue se reproduzir por todos espaços da Amazônia porque não existe dinheiro no mundo que vá dar tanta assistência a fundo perdido.”
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James Howells tenta encontrar equipamento desde 2013 e agora aposta em alta tecnologia para recuperar fortuna perdida, mas autoridades locais proíbem operação
James Howells ficou famoso em 2013, quando jogou fora um disco rígido (HD) que continha 7.500 bitcoins, à época avaliados em 7,5 milhões de dólares. Desde então, a fortuna se multiplicou e, depois de diversas tentativas para encontrar o equipamento, o britânico agora tem uma nova arma: a tecnologia. Para isso, entretanto, ainda vai precisar convencer as autoridades.
Em janeiro de 2021, com o preço do bitcoin já acima de 30 mil dólares e seu HD avaliado em quase 250 milhões de dólares – ou mais de 1,3 bilhão de reais – ele chegou a oferecer 75 milhões de dólares de recompensa para quem o encontrasse. Mas não teve sucesso.
Desta vez, segundo o jornal britânico The Sun, Howells aposta na tecnologia para encontrar sua fortuna perdida, que ele acredita estar em um lixão de Newport, no País de Gales, onde vive. Ele teria contatado engenheiros, ambientalistas e especialistas em recuperação de dados de diversas partes do mundo para realizar uma busca com esteiras de transporte, dispositivos de varredura de raios-X e inteligência artificial.
A ideia é tentar remover entre 300 mil e 400 mil toneladas de lixo para encontrar o valioso disco rígido. A operação custaria cerca de 800 mil dólares, que Howells afirma ter conseguido com um fundo de hedge bilionário disposto a bancar a missão em troca de uma parte da fortuna.
(Harald Freudenmacher/Getty Images)
As autoridades de Newport, entretanto, não gostaram nem um pouco da ideia, e rejeitaram qualquer possibilidade de aprovar a busca pelo equipamento. Recusaram inclusive a possibilidade de pagamento de parte do valor caso o HD fosse encontrado.
“A ideia é fazer uma busca profissional, não alguém entrando no lixão com um balde e uma pá”, disse Howells à publicação. “Seria uma operação delicada, porque não podemos danificar o equipamento durante o processo. Não dá para usar uma retroescavadeira”.
“O custo de escavação, armazenamento e tratamento do lixo seria de milhões de libras, sem a garantia de encontrar o equipamento ou de que ele esteja funcionando. Também explicamos diversas vezes que não temos licença para permitir esse tipo de escavação, que pode provocar enorme impacto ambiental nos seus arredores. Mesmo se pudéssemos aceitar seu pedido, ainda há a questão de quem pagaria esses custos caso o equipamento não fosse encontrado. Já fomos bastante claros de que não podemos ajudá-los com essa questão”, disse uma porta-voz da autoridade britânica.
James Howells jogou o equipamento no lixo por engano, quando fazia uma limpeza no seu escritório. Caso alguém encontrasse o equipamento, não poderia ficar rico sozinho, já que só ele tem a senha de acesso aos bitcoins. No entanto, quando oferecer a recompensa no início do ano, preocupou as autoridades pela possibilidade de causar uma corrida aos depósitos de lixo da região.
Se atualmente, com o preço do bitcoin em cerca de 33 mil dólares, o HD teria 1,3 bilhão de reais, há poucos meses, quando a criptomoeda chegou ao seu valor recorde de mais de 64 mil dólares, o equipamento perdido chegou a valer mais de 2,5 bilhões de reais.
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por Silvio Meira – dia a dia, bit a bit – 13/07/2021
Uma das fases mais perigosas e certamente mais danosas para analisar e|ou entender o nosso país é a de que “O Brasil é o país do futuro”. Imediatamente passamos a achar que esse futuro é, ou seria, de um Brasil que haveria de se comparar com a China, a Rússia, os Estados Unidos da América e a Europa. E não é.
Este blog tem um texto em 2018, absolutamente atual, de título “Uma Classe para o Brasil” no link bit.ly/2PUu0S1], onde se compara indicadores globais sobre educação, inovação, economia, violência e outros mais. Numa combinação de território, população e índices, descobre-se que não estamos na classe de nenhum país europeu, nem do Japão, ou China, Austrália ou da Nova Zelândia. O Brasil está na classe do México, da Malásia, Filipinas, da Indonésia, Tailândia,e da África do Sul. Essa é a, ou no mínimo uma, classe do Brasil.
Nessa classe, o Brasil tem futuro. Desta classe inteira, temos a segunda maior população. Mas quando a gente pega Malásia, Indonésia e Filipinas, esses países andaram fazendo coisas absolutamente miraculosas nos últimos 50 anos, enquanto basicamente andamos para trás. Ou ficamos parados. Nossa nação tem futuro não porque o futuro dela parece com a Europa. Não é porque vamos construir uma Paris no Recife, em Belo Horizonte ou em Taperoá, PB.
O Brasil tem futuro porque é grande. Tem futuro porque são 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Porque são 211 milhões de habitantes. Por ter o potencial de 211 milhões de pessoas. Se as pessoas aprenderem qualquer coisa que tenha um valor, algum tipo de valor, no grande encontro global de contas – seja de filosofia, sociologia, economia, tecnologia digital… Se tivéssemos 10 milhões de brasileiros que escrevessem software, hoje, e falassem inglês, certamente exportaríamos pelo menos US$ 100 bilhões em software para o mundo, por ano. Duas vezes e meia a exportação do complexo de soja em 2020. Sem derrubar uma só árvore.
Para fazer isso, no entanto, e mantendo só o fato pequeno, minúsculo talvez, desse espaço-tempo digital no qual estamos agora, precisamos enfrentar grandes desafios. Eu não vi e não conheço, na história da humanidade, até agora, nenhum mecanismo de auto-articulação em rede (e a internet que existe hoje não é exatamente uma rede como gostaríamos que fosse) de alguma coisa do tamanho do Brasil: 211 milhões de agentes independentes, contando só as pessoas.
Isso talvez queira nos dizer que, para formar redes que querem alguma coisa ou redes que serão alguma coisa, temos que nos articular de alguma forma. A melhor forma conhecida na história da humanidade desde sempre -e não há nenhuma inovação nisso- é estabelecer grandes desafios. O Brasil sabe fazer isso e já fez bem mais de uma vez. Podemos citar pelo menos cinco grandes desafios sociais com os quais lidamos nos últimos 50 anos e equacionamos e resolvemos todos. Isso é muito pouco reconhecido por nós, brasileiros, que somos sempre o país do futuro mas também, ao mesmo tempo, somos os derrotados do presente. Aí não dá: é megalomania associada a complexo de inferioridade, ao mesmo tempo; tenso demais.
Na década de 1970, o Brasil resolveu que iria domar a epidemia de pólio, porque na década de 1950 e 1960, em números absolutos, o país tinha tido mais casos do que a Índia. E a Índia já tinha uma população muitas vezes maior do que a nossa. Um conjunto de epidemiologistas, sanitaristas, agentes de saúde, políticos de todos os vieses -e estávamos numa ditadura militar- trabalhou em conjunto e resolvemos a questão em três décadas: 1970, 1980 e 1990. Não foi um milagre, apesar de parecer. Foi resultado de um grande desafio que tinha uma grande estratégia para ter grandes resultados.
Também na década de 1970, outro desafio real do Brasil era não ter moeda forte suficiente para comprar comida, que não conseguia produzir toda aqui, apesar de ter 8,5 milhões de quilômetros quadrados – do quais pelo menos 2 milhões são agricultáveis. Aí criou-se a Embrapa. Com o grande desafio de autossustentação e exportação alimentar, tendo a Embrapa como base uma estratégia para tal. Também demos conta disso, a ponto da exportação de soja ter chegado, em 2020, a US$43 bilhões.
O Brasil, hoje, é basicamente exportador de fragmentos de superfície: na forma de terra, mesmo, e como grãos e proteína animal. As minas, obviamente, não vieram da Embrapa, mas o agronegócio, que sustenta boa parte da dinâmica competitiva brasileira no mercado internacional, veio da Embrapa diretamente. A Embrapa custa ao Brasil, hoje, o equivalente a soma dos orçamentos das duas maiores universidades do país. E achamos isso muito, quando é mínimo. Se a Embrapa tivesse investimentos de R$ 30 bilhões por ano, quase 10 vezes mais do que investe hoje, talvez conseguíssemos, por exemplo, olhar para o futuro e dizer: “O Brasil não vai precisar transformar capim em picanha porque nós saberemos como (e em escala) transformar proteína vegetal em proteína “parecida com animal”, exportar isso globalmente e ainda por cima recuperar todo o ecossistema que destruímos para plantar capim”. Mas nós fizemos a Embrapa. É bom poder dizer isso.
Em saúde, fizemos três coisas que quase ninguém no mundo conseguiu na nossa escala. Primeiro, a partir da década de 1980, reduzimos em 2/3 o número de fumantes no país, reduzindo drasticamente o custo humano, social e econômico do tabagismo. Segundo, tratamos a epidemia de HIV/AIDS, para qual até hoje não existe vacina, com uma política pública que pouquíssimos países, mesmo os ricos, têm e, num país que teria o potencial de 10% da população com a síndrome, temos menos de 0,5%. Estes dois feitos tiveram na sua base o terceiro, um Sistema Único de Saúde, criado como instruído pela constituição de 1988. O SUS é único em mais de um sentido da palavra, é quase único no mundo em vários sentidos. No país que queria ser “do futuro”, mas não é, e é de terceiro mundo como somos, se o SUS não existisse, o sofrimento e mortes causados pela pandemia quase certamente teriam sido estratosfericamente maiores.
Pólio, Embrapa, AIDS, fumo e SUS. Nós conseguimos fazer isso porque nós nos impusemos os desafios. Construir um país do futuro, onde [só por exemplo] 10 milhões de brasileiros, daqui a 20 anos, programem computadores, falem inglês fluentemente e estejam inseridos no mercado de trabalho internacional da economia do conhecimento –que é deslocalizada e dessincronizada e independe de fronteiras–, vai depender, quase certamente, de nós nos impormos o desafio de criar e manter um sistema único de educação.
Um sistema único de educação que não esteja olhando para melhorar a nota da nossa própria avaliação –de 3,5 para 4,5 numa escala que vai até 10 pontos– e achar que foi um grande progresso global. Foi um grande progresso local. O que era horrível ficou muito ruim. Não é nem apenas ruim ainda. Mas precisamos nos avaliar, também, pelo nosso tamanho e complexidade. Aí, mesmo com todas as dificuldades que temos, muita coisa está acontecendo na educação, do ponto de vista estrutural. Por isso mesmo que, quanto mais articularmos as competências e habilidades que há no Brasil ao redor de grandes desafios estruturais, mais chance temos de, mais rápido, criar algum país do futuro.
Os grandes desafios que começam na educação se perpetuam em todas as facetas da sociedade brasileira. Cerca de 40% da força de trabalho do Brasil é informal. Como é que conseguiremos ser “o país do futuro” se nos mantivermos assim? Desde que se fundou o Brasil, o país tem problemas que são intratáveis, como esse, porque tentamos apenas tratar o emprego informal, que é apenas uma febre, sintoma de doenças muito mais graves e profundas na sociedade como um todo.
Na base de muitas das febres do Brasil, está uma causa-raiz que nos recusamos atacar como deveríamos, porque muitos, quase todos, acham muito complicado: educação. Ou nos impomos um desafio nacional de grande porte para resolver o problema da educação do Brasil -e não é com escolas piloto, não é com experimentos para ganhar prêmios que conseguiremos- ou não sairemos do lugar. Precisamos resolver o problema dos 85% dos alunos do ensino fundamental e médio que estão matriculados em escolas públicas. Elas custam muito caro e entregam muito pouco. Se quisermos resolver o Brasil e preparar o país para aquela economia que está logo ali na frente -onde digital vai ser só um suporte para fazermos engenharia genética, para fazermos tratamentos que são absolutamente ficção hoje- teremos que resolver a educação em escala e qualidade.
Aí seremos um dos países mais competitivos do mundo por uma razão única, básica e simples: temos muita gente. Mas já perdemos o bônus populacional que tínhamos. E não dá para recuperar porque não vamos recuperar as taxas de fertilidade. Para o Brasil dar um salto, tem que dar um salto de performance. E isso não vai acontecer aleatoriamente, esperando que uma coisa aqui e outra coisa ali se juntem por acaso. Claro que uma parte significativa das grandes estratégias é emergente e teremos que aproveitar muito do que já está acontecendo.
Mas outra parte, talvez maior, certamente muito maior, tem que ser determinada. Tem que ser escolhida, induzida. Porque, entre muitas outras coisas, há para isso. A Receita Federal acabou de recuperar créditos fiscais R$100 bilhões que eram dados por perdidos. Imagine se usássemos tal receita e investíssemos, nos próximos 10 anos, R$10 bilhões a mais, por ano, focados exclusivamente em educação, R$10 bilhões a mais, por ano, num sistema único de educação. Mas único mesmo. Com alta performance. Onde, por exemplo, todos os diretores de escola –que até poderiam ser indicação do prefeito, de quem fosse– teriam que ter as competências e habilidades de diretores de escola e serem certificados como tal. Teriam obrigatoriamente que entender o que é uma escola. O que é um projeto educacional. O que é um sistema educacional. O que são competências e habilidades e porquê as pessoas estudam. Que não é para fazer provas. É para resolver problemas.
Se criássemos, de verdade, um sistema único de educação, mudaríamos o Brasil para sempre.
E isso leva de 30, 50 a 100 anos para ser criado, escalar e se tornar sustentável, porque inquestionável. Mas, se não começarmos algum dia… todo dia em que não começamos perdemos dois dias. O dia em que não fizemos nada e o dia que teremos que fazer alguma coisa na frente. E o Brasil, se continuar assim, como vem sendo para tratar alguns de seus maiores problemas estruturais não há anos ou décadas, mas há séculos, pode até ser o país do futuro. Mas do futuro do pretérito.
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SOBRE O AUTOR
SILVIO MEIRA
silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org
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Claire Cain Miller The New York Times/Folha JULY 13, 2021
Quando o Yahoo proibiu seus empregados de trabalharem de casa, em 2013, foi por um motivo citado frequentemente pelas grandes empresas dos Estados Unidos: estar no escritório era visto como essencial para colaboração espontânea e inovação.
“É crítico que estejamos todos presentes em nossos escritórios”, escreveu Jacqueline Reese, então executiva do Yahoo, em um memorando ao pessoal da companhia. “Algumas das melhores decisões e insights que temos surgem de conversas nos corredores e no refeitório, de encontros com novas pessoas e de reuniões espontâneas das equipes.”
Hoje, Reese é presidente executiva da Post House Capital, uma companhia de investimento, e tem posição diferente. “Se eu escreveria aquele memorando de um jeito diferente, agora?”, diz. “Sim”. Ela continua a acreditar que a colaboração pode se beneficiar da proximidade física, mas, ao longo dos últimos 12 meses, as pessoas descobriram formas novas e melhores de colaborar.
Sala de reuniões do escritório de advocacia Machado Meyer, na Faria Lima, vazia –funcionários estão trabalhando no esquema home office por conta da pandemia. 6.jun. 2020 – Eduardo Knapp/Folhapress
“A inovação nem sempre é uma atividade planejada”, disse Tim Cook, presidente-executivo da Apple, sobre o trabalho pós pandemia. “Às vezes envolve encontrar alguém por acaso durante o dia e levar adiante uma ideia que acaba de surgir”, afirma.
Jamie Dimon, presidente executivo do banco JPMorgan Chase, diz que trabalhar de casa “não funciona em termos de geração espontânea de ideias, não funciona em termos de cultura”.
Mas pesquisadores que estudam essa questão dizem que não existem provas de que trabalhar com os colegas em um mesmo local seja essencial para a criatividade e colaboração. E pode até prejudicar a inovação, dizem, porque a demanda por realizar o trabalho em um lugar e um horário predefinidos é um dos grandes motivos que fazem dos escritórios pouco hospitaleiros para muita gente.
“Isso levou a muitos dos resultados que nos acostumamos a ver em ambientes de escritório modernos –jornadas longas, esgotamento, falta de representação–, porque a cultura do escritório é estabelecida para vantagem de poucos e não da maioria”, disse Dan Spaulding, vice-presidente de pessoal do grupo imobiliário Zillow.
“A ideia de que só se pode colaborar criativamente face a face é um viés”, ele disse. “E eu questionaria sobre a criatividade e inovação que foram expulsas dos escritórios porque certas pessoas não eram parte das panelinhas certas, não eram ouvidas, não iam aos mesmos lugares que as pessoas que ocupam posições de poder frequentam.”
Ele e outros sugerem que é necessário remodelar o escritório e transformá-lo em um lugar ao qual as pessoas vão de vez em quando, para se reunir ou conviver socialmente, enquanto o trabalho do dia a dia é feito de forma remota.
Na Zillow, quase todos os empregados serão remotos ou irão ao escritório apenas de vez em quando, agora. Diversas vezes por ano, equipes irão a pequenos escritórios montados especialmente para que elas se reúnam.
“Há credibilidade por trás do argumento de que, se você colocar as pessoas em espaços nos quais haja oportunidade para que se encontrem ao acaso, é provável que conversem”, disse Ethan Bernstein, professor da Escola de Administração de Empresas da Universidade Harvard, que pesquisa sobre o assunto.
“Mas será que essa conversação será útil em termos de inovação, criatividade, ou útil de qualquer maneira? Não existe praticamente dado algum sobre isso.”
“E isso tudo me sugere que ideia de que as coincidências e encontros aleatórios sejam produtivos é mais conto de fadas do que a realidade”, acrescentou.
O conceito de que interações espontâneas no escritório possam promover o pensamento criativo foi a força propulsora por trás de um dos primeiros edifícios de escritórios de plano aberto, a sede da Johnson Wax, em Racine, Wisconsin, projetada pelo arquiteto Frank Lloyd Wright na década de 1930.
Quando a década de 1990 chegou, as companhias do Vale do Silício começaram a oferecer bufês de doces e salgados e serviços de cabeleireiro e barbeiro no escritório, para promover encontros aleatórios. As empresas passaram a pagar mais aos empregados que ficassem no escritório por mais do que as 40 horas da jornada semanal de trabalho padrão.
Mas Bernstein defende que os escritórios contemporâneos produzem 70% menos interações pessoais. As pessoas não viam utilidade em ter tantas conversas espontâneas e por isso passaram a usar fones de ouvido e a evitar contato com os colegas.
Ao mesmo tempo, a tecnologia –serviços como o Zoom, Slack e Google Docs– tornou a geração de ideias online igualmente efetiva, de acordo com pesquisadores.
Judith Olson, professora de ciência da computação na Universidade da Califórnia em Irvine, estudou o efeito da distância sobre as equipes de trabalho durante três décadas. A distância agora importa muito menos, ela disse: “Por causa da tecnologia atual, na verdade estamos nos aproximando cada vez mais de reproduzir o escritório [remotamente]”.
O trabalho criativo pode ser realizado, por exemplo, ao deixar o chat em vídeo ligado enquanto as pessoas trabalham remotamente, o que permite que elas troquem ideias sobre o que estão pensando ou que discutam enquanto trabalham simultaneamente em um documento no Google Docs.
Além disso, ficou mais fácil anotar ideias e observações sobre conversas, para que possam servir de referência a outros, e receber comentários.
O trabalho em escritório é essencial para algumas funções de inovação, como aquelas que envolvam objetos físicos, e beneficia algumas pessoas, como os recém-contratados que estão à procura de mentores.
Mas alguns profissionais criativos, como arquitetos e designers, se surpreenderam com a efetividade do trabalho remoto durante a pandemia, enquanto cientistas e pesquisadores acadêmicos estão acostumados há muito tempo a trabalhar em projetos de pesquisa com colegas distantes.
Isso inclui muitas mulheres, minorias raciais e pessoas que têm responsabilidades de cuidado com parentes ou portadoras de deficiências. O mesmo vale para as pessoas tímidas, aqueles que vivem longe de um escritório e os profissionais que são mais produtivos em horários excêntricos.
As mulheres, por exemplo, começam a ser penalizadas em termos de remuneração e promoções assim que se tornam mães, e a disparidade de remuneração entre os gêneros é maior nos trabalhos em que existe menos flexibilidade sobre onde e quando uma pessoa executa suas funções, constatou a economista Claudia Goldin.
Também é mais provável que mulheres sejam interrompidas ou que não recebam crédito pelas ideias que apresentam nas reuniões físicas e elas ainda podem ser penalizadas por serem assertivas.
Os trabalhadores de escritório não brancos enfrentam discriminação. Em um levantamento do Future Forum, uma organização de pesquisa da Slack, uma proporção maior de trabalhadores de escritório negros preferia o trabalho remoto, se comparados aos brancos, porque isso reduzia a necessidade de “mudança de código” (alterar comportamento de acordo com o contexto) e reforçava seu sentimento de inclusão no trabalho.
O trabalho remoto também pode permitir que ideias venham de pessoas de diferentes origens. Online, profissionais que não se sentem confortáveis falando em reuniões físicas podem se sentir mais encorajados a se pronunciar.
Sessões de “brainstorm” realizadas por meio de aplicadores como o Slack podem trazer à tona mais perspectivas ao incluir pessoas que não teriam normalmente sido convidadas para uma reunião, como estagiários ou pessoal de outros departamentos.
“Quando todo mundo ocupa uma caixinha do mesmo tamanho na tela, todos têm um assento igual à mesa”, disse Barbara Messing, cuja função é administrar as experiências dos empregados na Roblox, uma companhia de videogames online, que continua a trabalhar remotamente duas vezes por semana e permite que seu pessoal trabalhe de onde quiser dois meses por ano.
As empresas que optam pelo trabalho remoto também dispõem de um cardápio mais diverso de pessoal para contratar –trabalhadores que não poderiam realizar jornadas longas no escritório ou que vivem em outro lugar.
“Se você só recruta pessoas que morem a um máximo de 30 quilômetros do escritório, não vai obter diversidade”, disse John Sullivan, um consultor de recursos humanos.
Há riscos em permitir que certos trabalhos sejam realizados remotamente. Se algumas pessoas trabalham no escritório e outras não, quem fica de fora pode ser penalizado. Outra questão é que desenvolver ideias e colaborar em projetos requer confiança, e isso se baseia em relacionamentos pessoais.
É por isso que alguns especialistas estão sugerindo um novo conceito para o escritório: não uma sede para onde as pessoas vão todos os dias ou semanalmente, mas um lugar para onde elas vão ocasionalmente para encontros em grupo.
Companhias como a Ford, Salesforce e Zillow adotaram versões dessa ideia e estão reconfigurando seus escritórios para criar mais espaços de convivência e menos fileiras de mesas de trabalho.
“Um de nossos grandes medos é que, se errarmos, criaremos uma realidade em que existirão dois escalões de empregados –aqueles que estão na sala e aqueles que não estão, aqueles que estão envolvidos na política de escritório e aqueles que não”, disse Spaulding, da Zillow. “Acreditamos que as pessoas desejam se conectar e colaborar. Mas precisam fazê-lo cinco dias por semana ou basta uma vez a cada três meses?”
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Pesquisa global da ICTS Protiviti com foco em 2030 revela que mudança do modelo de negócios preocupa empresários no longo prazo; no Brasil, recorte mostra preocupação também com incerteza política e volatilidade da economia
Heloísa Scognamiglio , O Estado de S.Paulo 31 de maio de 2021 |
A crescente digitalização do modelo de negócios e suas consequências, como a demanda por novas habilidades de funcionários, a mudança do comportamento dos consumidores e a segurança cibernética e da informação, estão entre as preocupações dos executivos para o futuro.
As informações são da pesquisa anual Top Risks 2021, da consultoria ICTS Protiviti, que mostra quais os principais riscos para os negócios para o ano de 2030, apontados por empresários do mundo todo. O levantamento ouviu, no fim do ano passado, 1.081 executivos, entre membros de conselho e líderes de organizações de diversos setores.
Pesquisa mostra quais os principais riscos para os negócios nos próximos anos, segundo opinião de executivos do mundo todo. Foto: Pixabay
O ranking de riscos traz ainda itens como a competição por mercado com empresas nativas digitais, a incapacidade de inovação, o aumento do escrutínio regulatório e os desafios de sucessão. Confira a lista completa dos riscos apontados por executivos do mundo todo para 2030:
A adoção de tecnologias digitais pode exigir novas habilidades ou esforços significativos para aprimorar e requalificar os funcionários existentes;
Impacto da mudança regulatória e do aumento do escrutínio regulatório pode afetar a maneira como os produtos e serviços são oferecidos;
A velocidade rápida de inovação disruptiva pode superar nossa capacidade de competir;
Desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos;
Privacidade e gerenciamento de identidade e segurança da informação;
Possibilidade de surgir produtos e serviços substitutos que afetem nosso modelo de negócios;
Manutenção da lealdade e retenção do cliente pode ser difícil conforme as preferências do cliente e as mudanças demográficas evoluem;
Capacidade de competir com “nascidas digitais” e outros concorrentes;
Incapacidade de utilizar análise de dados e “big data” para obter inteligência de mercado e aumentar a produtividade e eficiência;
Ameaças cibernéticas.
Segundo Rodrigo Castro, diretor de Business Performance e Innovation na ICTS Protiviti, a digitalização das empresas vem ocorrendo há anos, mas a pandemia acelerou a transformação dos negócios, o que pode ter contribuído para a maior preocupação em relação ao futuro. “Muitas empresas aceleraram abruptamente a sua transformação digital. Tudo precisou ser feito tempestivamente para adequar as empresas ao trabalho remoto seguro e até mesmo para destravar plataformas de e-commerce, que no momento estão com grande relevância e participação na receita bruta das empresas”, diz.
Castro afirma que o momento é de escalada, já sendo possível observar alterações no modo de trabalho e no comportamento do consumidor. “Está surgindo uma nova forma de trabalhar, com o trabalho remoto, com mais tempo para atividades com a família. E o futuro do trabalho também será radicalmente impactado pelas novas tecnologias, a automação de processos e a inteligência artificial”, explica.
“Já o consumo está sendo feito todo de forma online. Até serviços. Também há uma migração para um modelo de compartilhamento ao invés de posse. Ao invés de ter um carro, as pessoas preferem alugar, compartilhar, usar um Uber. Todas essas mudanças trazem uma série de riscos, por isso a preocupação”, diz Castro.
Também entre as preocupações dos executivos, o aumento do escrutínio regulatório foi apontado como o segundo principal risco. Ele está ligado ao cumprimento de leis e outras regulações, o que pode tornar as operações das companhias mais caras. Para Castro, não somente houve um aumento desse arcabouço regulatório no Brasil e no mundo nos últimos anos, envolvendo temas como privacidade de dados e responsabilidade ambiental, como também o próprio consumidor passou a exigir a conformidade da empresa quanto a essas e outras questões. “E ultimamente, o ESG [aspectos ambientais, sociais e de governança de uma empresa] está sendo amplamente discutido e eu acredito que, no futuro, isso pode levar a outros aspectos regulatórios para as organizações”, afirma.
O especialista destaca que as empresas terão o desafio de se adaptar ao futuro, o que envolve investimentos, é claro – mas o principal, em sua opinião, é a questão cultural. “As empresas precisam criar uma cultura resiliente, precisam ter líderes autênticos que consigam engajar as equipes para essas mudanças rápidas. As empresas precisam dessa coordenação, desse senso de urgência e desses líderes inspiradores que consigam trazer algumas mudanças”, recomenda.
Rodrigo Castro, diretor de Business Performance e Innovation na ICTS Protiviti. Foto: Divulgação/ICTS Protiviti
A pesquisa também traz um recorte do Brasil, em que aparecem riscos adicionais relacionados a condições econômicas e ao cenário político. Veja abaixo:
A adoção de tecnologias digitais pode exigir novas habilidades ou esforços significativos para melhorar e requalificar os funcionários existentes;
Impacto da mudança regulatória e do aumento do escrutínio regulatório, afetando a maneira como os produtos e serviços são oferecidos;
As condições econômicas restringem as oportunidades de crescimento;
Mudança no ambiente atual da taxa de juros;
Desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos;
Possibilidade de surgir produtos e serviços substitutos que afetem nosso modelo de negócios;
Incerteza política;
Volatilidade nos mercados financeiros globais e taxas de câmbio;
Capacidade de acessar capital e liquidez suficiente;
A facilidade de entrada de novos concorrentes na indústria e no mercado pode ameaçar nossa participação no mercado.
Para Castro, a lista reflete a realidade do País. “Os riscos apontados trazem um pouco da bagagem histórica do Brasil. A questão da mudança no ambiente atual de taxa de juros, por exemplo, que não aparece na lista global, é um problema recorrente no País. A incerteza política também. O Brasil vive na incerteza política na pós-democratização. Tivemos renúncia do Collor, impeachment da Dilma, temos agora um governo com algumas características de divisão política. A lista reflete a experiência do executivo brasileiro no mercado onde ele atua”, explica.
O diretor da ICTS Protiviti ressalta que é praticamente impossível que as organizações antecipem todos os riscos. “O executivo não consegue antecipar, mas ele consegue estruturar uma cultura de mudança rápida. Sendo um líder engajador, ele consegue fazer com que a organização mude rápido. E, principalmente, ele precisa ter planos de continuidade de negócios e cenários de gestão de crise”, recomenda.
Presente
A pesquisa Top Risks também traz as preocupações dos executivos para 2021. O recorte global e o recorte do Brasil trazem em comum para este ano os riscos relacionados ao impacto econômico da pandemia, à implementação de novas tecnologias, aos desafios com a segurança da informação e com ameaças cibernéticas e ao aumento do escrutínio regulatório.
Quanto às diferenças entre as duas listas, o recorte mundial traz preocupações com a resistência à mudança de modelo de negócios e com a capacidade de competir com nativas digitais, enquanto o ranking do Brasil traz a preocupação com a manutenção da fidelidade do cliente e com a volatilidade nos mercados financeiros globais e taxas de câmbio.
Um dos riscos apontados nos dois recortes, “desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos”, aparece em uma posição bem mais alta no ranking do Brasil. Rodrigo afirma que isso está relacionado a uma falta de mão de obra qualificada no País em algumas áreas. “O mercado de tecnologia, com cientista de dados, programador, é extremamente escasso, porque está em uma ascensão muito grande. O setor de liderança das empresas também, o mercado demanda executivos mais seniores e há escassez”, explica. Veja abaixo as duas listas completas.
Riscos apontados por executivos do mundo todo
Políticas e regulamentações relacionadas à pandemia impactam o desempenho dos negócios;
As condições econômicas restringem as oportunidades de crescimento;
Condições de mercado relacionadas à pandemia reduzem a demanda do cliente;
A adoção de tecnologias digitais pode exigir novas habilidades ou esforços significativos para melhorar e requalificar os funcionários existentes;
Privacidade e gerenciamento de identidade e segurança da informação;
Ameaças cibernéticas;
Impacto da mudança regulatória e do aumento do escrutínio regulatório pode afetar a maneira como os produtos e serviços são oferecidos;
Desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos;
Resistência à mudança de operações e modelo de negócios;
Capacidade de competir com “nascidas digitais” e outros concorrentes.
Riscos apontados por executivos no Brasil
Políticas e regulamentos relacionados à pandemia impactam o desempenho dos negócios;
Desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos;
As condições econômicas restringem as oportunidades de crescimento;
A adoção de tecnologias digitais pode exigir novas habilidades ou esforços significativos para aprimorar e requalificar os funcionários existentes;
Privacidade e gerenciamento de identidade e segurança da informação;
Ameaças cibernéticas;
Condições de mercado relacionadas à pandemia reduzem a demanda do cliente;
Impacto da mudança regulatória e do aumento do escrutínio regulatório pode afetar a maneira como os produtos e serviços são oferecidos;
Volatilidade nos mercados financeiros globais e taxas de câmbio;
A manutenção da fidelidade e retenção do cliente pode ser difícil, pois as preferências do cliente e as mudanças demográficas evoluem.
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Por Anu Madgavkar e Jaana Remes Valor Econômico 12/07/2021
Quando a covid-19 chegou, empresas, trabalhadores e consumidores tiveram de se adaptar rapidamente para continuar a operar sob as restrições que a pandemia impôs. À medida que as vacinas permitem a retomada de atividades mais “normais”, pelo menos em alguns países, uma das questões mais urgentes é até que ponto essas mudanças persistirão.
Nossa pesquisa constata que a persistência das mudanças comportamentais induzidas pela pandemia dependerá de uma combinação de decisões empresariais e de políticas governamentais que determinarão as escolhas de consumidores e funcionários. Por exemplo, pesquisas indicam que entre 30% e 50% dos consumidores pretendem comprar produtos sustentáveis. Mas esses produtos respondem por menos de 5% do total das vendas, em parte porque as empresas cobram mais por eles.
Os formuladores de políticas podem ajudar o mundo ao melhorar a infraestrutura digital e ao garantir que todos tenham acesso a ela. Se os benefícios forem generalizados, os ganhos de produtividade podem levar a uma recuperação robusta e equitativa
Em contraposição, a turbulência mundial desencadeada pela covid-19 criou um cenário poderoso em que certas alterações no comportamento do consumidor foram acompanhadas por mudanças nas operações comerciais e nas regulamentações governamentais. Na verdade, muitos desses comportamentos aceleraram práticas que eram promissoras antes da pandemia, mas não tinham conseguido ganhar força por causa de preocupações com custos ou de um ceticismo generalizado. O vírus, ao criar uma oportunidade de testá-las, tornou seu valor muito mais aparente.
Além disso, os avanços nas tecnologias digitais ajudaram a criar um amplo ecossistema para sustentar essas mudanças comportamentais. Algumas empresas combinaram as videoconferências com tecnologias de realidade aumentada pela primeira vez, para permitir que os técnicos em um local reparassem máquinas em outro. Já outras empresas intensificaram o investimento em processamento robótico e, assim, transformaram a gestão do trabalho administrativo rotineiro. A redução de custos e a conveniência resultantes do uso de tais ferramentas provavelmente reforçarão a continuidade do trabalho remoto e reduzirão as viagens de negócios, entre outras práticas que sofreram mudanças.
Para determinar se essas mudanças motivadas pela pandemia persistirão, examinamos uma ampla gama de comportamentos. Aplicamos um “teste de permanência” a cada um, que leva em consideração as preferências dos consumidores e dos trabalhadores, assim como as ações das empresas – entre elas a inovação revelada pelas ferramentas digitais – e as políticas governamentais.
Consideremos o comércio varejista na internet. Muitos consumidores que fizeram compras de mantimentos online por necessidade durante a pandemia acharam essa prática conveniente. Ao mesmo tempo, os varejistas ampliaram os investimentos nos meios eletrônicos e criaram mais opções de produtos e de entrega para os consumidores, o que inclui as do tipo compre online e retire na loja para aqueles que são avessos a pagar frete. Até agora, o aumento do número de usuários tem se mantido na maior parte dos casos. As mudanças nas políticas regulatórias também sustentaram o consumo pela internet. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, relaxou as restrições sobre onde as pessoas que recebem pagamentos para assistência alimentar podem usá-los.
Outros comportamentos novos podem não “pegar” se as ferramentas digitais e as práticas de mercado não se adaptarem o suficiente para fornecer uma experiência de usuário melhor. A educação online, por exemplo, especialmente para estudantes mais jovens, tende a declinar. A experiência frequentemente insatisfatória de alunos, professores e pais com o ensino a distância, em especial de famílias que não tinham ferramentas digitais ou conectividade adequadas, sugere que a educação remota só continuará de forma seletiva, e sobretudo no ensino superior e na capacitação profissional.
A permanência desses hábitos de consumo alterados é reforçada pelos investimentos iniciais das pessoas em novos padrões de consumo. Os consumidores que se engajaram em “reformas domésticas” durante a pandemia, por exemplo, fizeram investimentos em móveis, bens duráveis e equipamentos para jogos e ginástica. É provável que eles continuem a gastar mais tempo com atividades como cozinhar e assistir aos programas de sucesso mais recentes nas TVs de tela grande que compraram enquanto estavam confinados.
Um padrão de permanência semelhante se aplica a trabalhadores. Para alguns, trabalhar em casa durante a pandemia satisfez um desejo antigo de maior flexibilidade e de se livrar da necessidade de deslocamento físico, entre outros benefícios. Em uma pesquisa recente da McKinsey, realizada com mais de 5 mil funcionários que trabalham em tempo integral em nove países, 52% disseram que gostariam de um plano híbrido presencial e remoto no futuro, um aumento de 22 pontos percentuais em comparação com antes da pandemia, e 11% que preferiam um esquema de trabalho totalmente remoto. Nossa análise de 2 mil atividades distribuídas por mais de 800 ocupações sugere que até um quarto dos trabalhadores em economias avançadas poderia trabalhar remotamente de 3 a 5 dias por semana sem perda de produtividade.
Se essas mudanças nos padrões de trabalho e consumo persistirem, elas podem ter efeitos indiretos em outros comportamentos. Por exemplo, temos a expectativa de que a demanda por viagens aéreas de lazer volte às taxas de crescimento anteriores à pandemia. Os preços das passagens aéreas e dos quartos de hotel já começaram a subir, à medida que vários locais relaxaram as restrições relativas à covid-19 e os consumidores têm aumentado suas pesquisas na internet por locais de férias.
Mas o impacto de longo prazo da covid-19 no setor de viagens é menos claro. Antes, as tarifas aéreas mais altas para viagens de negócios subsidiavam os preços mais em conta para as pessoas que faziam viagens de lazer. Mas se o aumento do trabalho remoto e do uso de ferramentas de colaboração digital reduzir a demanda por viagens de negócios, o setor de lazer poderá se beneficiar menos.
As mudanças comportamentais que persistirem depois que a pandemia abrandar oferecerão novas oportunidades de negócios para empresas que avaliarem cuidadosamente as preferências do consumidor, as mudanças nas práticas do setor relativas a isso, as ações dos concorrentes e as políticas e regulamentações governamentais. Nossa análise sugere que o crescimento médio anual da produtividade pode aumentar em cerca de um ponto percentual até 2024 se as tendências de permanência de mudanças que identificamos persistirem.
Os formuladores de políticas podem ajudar o mundo a aproveitar esta oportunidade ao ampliar e melhorar a infraestrutura digital e ao garantir que todos os consumidores, trabalhadores e empresas tenham acesso a ela. Se os benefícios forem generalizados, os ganhos potenciais de produtividade podem levar a uma recuperação robusta e equitativa. (Tradução de Lilian Carmona).
Anu Madgavkar é associada do McKinsey Global Institute e está baseada em Mumbai
Jaana Remes é associada do McKinsey Global Institute e fica em San Francisco. Copyright: Project Syndicate, 2021.
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Segundo executivos, estilo de liderança do CEO Sundar Pichai tornou as decisões lentas e levou a uma estagnação na gigante de buscas
Do New York Times/O Globo 28/06/2021
OAKLAND, Califórnia – As sementes da queda de uma empresa, costuma-se dizer no mundo dos negócios, são plantadas quando tudo está indo muito bem.
É difícil argumentar que as coisas não estão indo bem para o Google. A receita e os lucros atingem novos máximos a cada três meses. A empresa controladora do Google, a Alphabet, vale US$ 1,6 trilhão. O Google se enraizou cada vez mais profundamente na vida das pessoas.
Mas executivos inquietos da gigante de buscas temem que a empresa esteja começando, aos poucos, a ruir.
Eles dizem que a força de trabalho do Google está botando, cada vez mais, a boca no trombone. Problemas de pessoal estão se espalhando para o público. Liderança decisiva e grandes ideias deram lugar à aversão ao risco. E alguns desses executivos estão saindo da empresa e deixando todos saberem exatamente o porquê.
“Eu continuo sendo questionado: por que eu fui embora agora? Acho que a melhor pergunta é: por que fiquei tanto tempo?”, escreveu num blog Noam Bardin, que ingressou no Google em 2013, quando a empresa adquiriu o serviço de mapeamento Waze, duas semanas depois de se demitir em fevereiro.
“Os desafios da inovação”, acrescentou ele, “só vão piorar à medida que a tolerância ao risco diminuir”.
Sundar Pichai, CEO do Google: lentidão nas decisões é criticada Foto: Tsering Topgyal / AP
Viés de inação
Muitos dos problemas do Google, disseram executivos atuais e ex-funcionários, derivam do estilo de liderança de Sundar Pichai, o afável e discreto CEO da empresa.
Quinze executivos atuais e ex-executivos do Google, falando sob condição de anonimato, disseram ao The New York Times que o Google estava sofrendo com muitas das armadilhas que surgem numa grande empresa em desenvolvimento : uma burocracia paralisante, um viés de inação e uma preocupação constante com a percepção da empresa pelo público.
Os executivos, alguns dos quais interagiam regularmente com Pichai, disseram que o Google não agiu rapidamente nas principais movimentações de negócios e pessoal porque ele ruminou as decisões e atrasou a ação.
Eles disseram que o Google continuou a ser abalado por brigas culturais no local de trabalho e que as tentativas de Pichai de baixar a temperatura tiveram o efeito oposto, permitindo que os problemas piorassem, ao evitar posições difíceis e às vezes impopulares.
Um porta-voz do Google disse que pesquisas internas sobre a liderança de Pichai foram positivas. A empresa se recusou a disponibilizar Pichai, 49, para comentar, mas conseguiu entrevistas com nove executivos atuais e ex-executivos para oferecer uma perspectiva diferente sobre sua liderança.
— Eu ficaria mais feliz se ele tomasse decisões mais rápido? Sim — disse Caesar Sengupta, um ex-vice-presidente que trabalhou de perto com Pichai durante seus 15 anos no Google. Ele saiu em março. — Mas estou feliz por ele acertar em quase todas as suas decisões? Sim.
Desafios regulatórios
O Google está enfrentando um momento perigoso. Ele está lutando contra os desafios regulatórios em casa e no exterior. Políticos de esquerda e direita estão unidos em sua desconfiança na empresa, tornando Pichai uma presença constante nas audiências do Congresso americano.
Interior da Google Store, em Nova York Foto: TIMOTHY A. CLARY / AFP
Mesmo seus críticos dizem que até agora ele conseguiu navegar nessas audiências sem irritar os legisladores ou fornecer mais munição para os inimigos de sua empresa.
Os executivos do Google que reclamam da liderança de Pichai reconhecem isso e dizem que ele é um líder atencioso. Eles reconhecem que o Google é mais disciplinado e organizado hoje em dia, uma empresa maior e gerida de forma mais profissional do que a que Pichai herdou há seis anos.
Durante seu tempo à frente do Google, ele dobrou sua força de trabalho para cerca de 140 mil pessoas, e o valor da Alphabet triplicou.
Não é incomum que uma empresa que cresceu tanto pareça lenta ou relutante em arriscar o que a tornou tão rica. Mas Pichai tomou algumas medidas para se opor a isso. Em 2019, por exemplo, ele reorganizou o Google e criou novos órgãos de tomada de decisão para que menos decisões precisassem de sua aprovação.
Mesmo assim, o Google, fundado em 1998, é perseguido pela percepção de que seus melhores dias ficaram para trás.
36 executivos deixaram a empresa
No Vale do Silício, onde o recrutamento e a retenção de talentos servem como referendo sobre as perspectivas de uma empresa, executivos de outras companhias de tecnologia disseram que nunca foi tão fácil persuadir um executivo do Google a abrir mão de um salário estável de sete dígitos por uma oportunidade em outro lugar.
Pichai, um ex-consultor da McKinsey, ingressou no Google em 2004 e rapidamente demonstrou um talento especial para navegar em uma empresa repleta de grandes egos.
Em 2015, quando o Google passou a fazer parte da Alphabet, Pichai assumiu como CEO da gigante de buscas. Ele foi promovido novamente para supervisionar a empresa controladora quando Larry Page, um cofundador do Google, deixou o cargo de chefe da Alphabet quatro anos depois.
Em 2018, mais de doze vice-presidentes do Google tentaram avisar Pichai em um e-mail que a empresa estava passando por dificuldades de crescimento.
Eletrocardiograma em relógio inteligente da Fitbit: decisão sobre aquisição levou um ano Foto: MICHELE TANTUSSI / REUTERS
Eles disseram que havia problemas para coordenar as decisões técnicas e que o feedback dos vice-presidentes muitas vezes era desconsiderado.
Os executivos, muitos dos quais passaram mais de uma década na empresa, escreveram que o Google demorava muito a tomar grandes decisões, tornando difícil fazer qualquer coisa, de acordo com cinco pessoas com conhecimento do e-mail. A mensagem era clara: o Google precisava de uma liderança mais decisiva no topo.
Desde então, vários dos executivos que assinaram o e-mail pediram demissão para aceitar empregos em outro lugar. Pelo menos 36 vice-presidentes do Google deixaram a empresa desde o ano passado, de acordo com perfis do LinkedIn.
Fuga de cérebros
É uma fuga significativa de cérebros, que totalizam cerca de 400 gerentes e atuam como a espinha dorsal da liderança em toda a empresa.
O Google disse que está confortável com as taxas de desgaste de seus vice-presidentes, que têm permanecido estáveis nos últimos cinco anos.
Uma crítica comum entre atuais e ex-executivos é que as lentas deliberações de Pichai muitas vezes parecem uma maneira de seguir o caminho mais seguro e chegar a um “não”.
Os executivos do Google propuseram a ideia de adquirir o Shopify como uma forma de desafiar a Amazon no comércio on-line há alguns anos. Pichai rejeitou a ideia porque achava que o Shopify era muito caro, disseram duas pessoas familiarizadas com as discussões.
Um ex-executivo disse que a aversão ao risco da empresa foi incorporada pela divisão de pesquisa e desenvolvimento, que só publica um novo produto se a concorrência aparecer com algo similar antes.
Pichai também costuma ir devagar nas decisões sobre pessoal. Quando o Google promoveu Kent Walker a vice-presidente sênior de assuntos globais em 2018, a empresa demorou mais de um ano para selecionar Halimah DeLaine Prado para substituí-lo. DeLaine já trabalhava há muito tempo na equipe jurídica da empresa.
Problemas de diversidade
A relutância de Pichai em tomar medidas decisivas sobre a volátil força de trabalho do Google tem sido notável.
Em dezembro, Timnit Gebru, uma de suas funcionárias negras mais conhecidas, foi demitida após criticar a abordagem do Google para a contratação de minorias e escrever um artigo de pesquisa destacando os preconceitos embutidos em sua tecnologia de inteligência artificial.
Inicialmente, Pichai ficou fora da briga.
Timnit Gebru foi demitida após enviar email a grupo de funcionários questionando ‘silenciamento de vozes marginalizadas’ Foto: Kimberly White / By TechCrunch
Depois que dois mil funcionários assinaram uma petição protestando contra a demissão, Pichai enviou um e-mail prometendo restaurar a confiança perdida, enquanto continuava a promover a visão do Google de que Gebru não fora demitida. Mas isso ficou aquém de um pedido de desculpas, disse ela.
David Baker, ex-diretor de engenharia da divisão de confiança e segurança do Google que se demitiu em protesto contra a demissão de Gebru, disse que a empresa deveria admitir que cometeu um erro em vez de tentar salvar as aparências.
— A falta de coragem do Google com seu problema de diversidade é, em última análise, o que fez evaporar minha paixão pelo trabalho — disse Baker, que atuou na empresa por 16 anos. — Quanto mais seguro o Google se torna financeiramente, mais avesso ao risco ele se torna.
Algumas críticas a Pichai podem ser atribuídas ao desafio de manter a cultura aberta do Google numa força de trabalho muito maior do que antes, disseram os executivos do Google que a empresa indicou para falar ao New York Times.
— Não acho que ninguém mais poderia gerenciar esses problemas tão bem quanto Sundar — disse Luiz Barroso, um dos executivos técnicos mais sêniores da empresa.
Pichai fez questão de não agir como um “messias” de escritório – um chefe autocrático e grandioso que é frequentemente romantizado na indústria de tecnologia, mas pode tornar um local de trabalho tóxico, disse Aparna Chennapragada, ex-vice-presidente do Google.
As discussões para adquirir a empresa de rastreamento de atividades físicas Fitbit, que foram concluídas em janeiro, levaram cerca de um ano. Sameer Samat, um vice-presidente do Google, disse que Pichai identificou problemas potenciais no negócio que ele não havia considerado a princípio.
— Eu pude ver como essas múltiplas discussões podem fazer alguém sentir que somos lentos para tomar decisões — disse Samat. — A realidade é que essas são decisões muito grandes.
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Uma enquete da EY com 3.300 consumidores em nove países descobriu que 32% das pessoas que não tinham veículos disseram que pretendem comprar um
Por Emily Cadman, Charlie Wells e Shamsiya Hussainpoor – Bloomberg – Publicado em: 04/07/2021
Apenas alguns anos atrás, as gerações Millennial e Z escreviam obituários para automóveis, seguindo o argumento de que se mudariam para cidades com mais opções de transporte público e serviços como Uber. Além disso, a preocupação com o impacto negativo ao meio ambiente impedia jovens de comprá-los.
Então veio a pandemia. Agora, à medida que o mundo se recupera, os preços dos carros usados e o tempo de espera para fazer test drives disparam. Busca por rotas de carro também aumenta, enquanto consultas para transporte público despencam. Uma enquete da EY com 3.300 consumidores em nove países descobriu que 32% das pessoas que não tinham veículos disseram que pretendem comprar um carro nos próximos seis meses. Cerca de metade desses compradores potenciais eram da geração Y.
“Se não fosse pela pandemia, eu não teria pensado em comprar um carro”, disse Georgios Basdanis, um médico de 32 anos que mora em Londres e comprou um Mini usado com 10.000 milhas por £ 11.250, financiado ao longo de dois anos.
Sua visão mudou com a Covid-19, quando pegar o transporte público no auge do surto no Reino Unido era uma experiência que gerava ansiedade. Ser capaz de dirigir sozinho parecia muito mais seguro.
Carros: com a pandemia, o interesse por comprar carros cresceu entre os mais jovens. (Hollie Adams/Bloomberg)
Ele teria adorado ter um carro elétrico, mas diz que o veículo e o seguro eram muito caros. Ao contrário da China, onde você pode comprar um novo veículo elétrico básico por cerca de US$ 4.500, essa opção tende a ser mais cara nos mercados ocidentais do que carros a gasolina.
Agora totalmente vacinado, Basdanis diz que provavelmente voltará a pegar metrô diariamente. Mas isso não significa que ele venderá o carro.
No entanto, essa mudança também é um desafio direto para as políticas públicas pré-pandemia. Por décadas, as autoridades em todo o mundo têm pressionado para tentar tirar as pessoas de seus carros e colocá-las no transporte público, tanto para acomodar o crescimento da população da cidade quanto para reduzir a poluição do ar — ainda um grande problema de saúde mesmo em países desenvolvidos.
Não é apenas no Ocidente que as atitudes mudaram. No Japão, onde em tempos pré-pandêmicos mais de 10 milhões de pessoas por dia lotavam as linhas de metrô de Tóquio, o interesse por automóveis cresce. O número de novas carteiras de habilitação aumentou em 2020 pela primeira vez em oito anos, segundo a Agência Nacional de Polícia do país, grande parte desse crescimento veio de pessoas na faixa dos 20 e 30 anos. O tempo de espera para fazer um test drive mais do que dobrou.
Montadoras respondem às ansiedades da pandemia e degradação ambiental com reforços no marketing. Ford, por exemplo, apresenta seu Lincoln SUV como um carro que pode fornecer um “santuário” com iluminação serena, aromaterapia e o que um designer da empresa chama de “experiências no veículo que não envolvem dirigir”.
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Entenda como apps como o do Facebook rastreiam informações no seu smartphone. A prática está no centro da disputa entre a Apple e redes sociais
André Machado O Globo 05/05/2021
RIO – O universo das big techs ficou ainda mais tenso em abril com a decisão da Apple de incluir na nova versão do iOS 14.5, o sistema operacional de iPhones e iPads, uma funcionalidade que permite ao usuário bloquear o rastreio de suas informações pessoais.
A função desencadeou mais uma batalha entre as gigantes de tecnologia do Vale do Silício, dessa vez em torno de um tema caro a cada um dos usuários de smartphones: a privacidade.
A nova função do sistema operacional da Apple inviabiliza a indústria dos anúncios direcionados, que são a principal fonte de receita de redes sociais como o Facebook.
Pronto. Foi declarada mais uma guerra entre as big techs, que já vêm sofrendo uma crescente pressão de órgãos de defesa da concorrência nos EUA, na Europa e em outras regiões do mundo.
Afinal, é a partir do cruzamento das informações que os internautas deixam em sua navegação que Facebook, Instagram e outros vendem publicidade direcionada (veja quadro ao lado). Ou seja: os seus dados valem ouro para empresas como a liderada por Mark Zuckerberg.
Entenda como suas informações são capturadas no seu celular e usadas pelas big techs:
Dispositivos bisbilhotam o que você faz
. Foto: Editoria de Arte
O usuário entra na internet, por computador, tablet ou smartphone, e acessa diferentes sites, como redes sociais, faz compras on-line, executa buscas por assuntos diversos, interage no e-mail e serviços de mensagens, vê fotos, filmes e assim por diante.
Em cada uma dessas atividades, deixa rastros, em especial se estiver conectado ao e-mail ou ao webmail e a redes sociais, ou mesmo em sites de compra.
Desde quando a pessoa acorda e pega o celular, os dispositivos começam a informar o que chamamos de “conteúdo localizado”. Dados de produtos, serviços ou ofertas de acordo com sua localização via GPS e preferências pessoais.
Dados de diferentes acessos são cruzados
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Uma das primeiras coisas que as big techs já sabem de cara é de que aparelho você está acessando a internet. Não por acaso, quando acessa um serviço de um computador ou celular diferente, elas logo perguntam se foi você mesmo que acessou.
É uma medida de segurança, mas também uma forma de monitorar. O seu IP (endereço da máquina na internet) também é coletado, bem como o sistema operacional e o browser utilizados.
Aparelhos apontam por onde você anda
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Outro ponto importante é a localização do usuário, que muitos sites pedem para personalizar ofertas e serviços. O Google Maps, presente em todos os celulares Android, sabe de cada passo seu e até pode enviar no Gmail um resumo dos locais em que você esteve em determinado mês.
O mais interessante é que a localização pode ser compartilhada mesmo sem a sua autorização ou mesmo com o “locate” desligado – para isso, se utiliza uma triangulação entre as antenas que foram acessadas por um celular.
‘Cookies’ coletam pistas sobre você
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Na navegação simples pela web, um dos métodos mais simples de rastrear suas preferências são os cookies, pequenos arquivos que colhem dados e lembram o que você fez em determinado site.
Bem comuns na Amazon e outros portais de e-commerce, mas presentes em praticamente todos os sites. Nos últimos tempos, eles vêm colocando avisos de que fazem essa coleta para dar opção ao usuário de personalizar as informações.
Combinação de dados permite personalizar
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Mas, uma vez conectado a um e-mail e um perfil em redes sociais, é possível combinar esses dados com os do próprio perfil (nome, endereço, data de nascimento, histórico de trabalho, etc) e todos os textos, fotos e vídeos postados. Um verdadeiro manancial de dados.
E não podemos esquecer serviços como repositórios de fotos ou blogs que permitem identificação por vários métodos, desde o autor (forma mais simples) até mecanismos de inteligência artificial para biometria facial (como o que vemos no Facebook há anos indicando seus amigos nas fotos).
Até as SmartTVs podem entrar nesse circuito de aquisição e uso de dados de consumo e por isso dispõem de facilidades como interação por gestos e voz.
Diga-me o que buscas e te direi quem és
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As buscas feitas na internet também denotam suas predileções por assuntos, produtos e serviços.
Elas são igualmente coletadas (com exceção de serviços como DuckDuckGo). Bem como os dados gerados ao seguir perfis de diferentes assuntos no Instagram, curtir páginas de empresas no Facebook, participar de grupos de discussão em diferentes redes sociais…
Tudo isso dá pistas sobre quem é você e o que você gosta ou precisa. Tudo o que a publicidade quer saber.
Anúncios feitos sob medida
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De posse dos dados do usuário, as big techs podem, em parceria com terceiros, oferecer anúncios e serviços personalizados, que podem aparecer no resultado das buscas do Google, ou em sua timeline no Facebook e no Instagram, por exemplo.
Na Amazon, ao pesquisar por um produto, sempre aparecem aquelas sugestões do tipo “quem comprou esse também levou esse aqui”, e nos sites de streaming há aquela seção “Porque você viu o filme tal”, com indicações similares.
A distribuição rápida de conteúdo personalizado em anúncios é turbinada por redes de fornecimento especializadas nisso, conhecidas como CDN, via vários servidores.
Os anúncios, quando obtêm uma conversão (interação ou compra através deles), geram receita para a big tech e seus parceiros.
Só em 2020 o Facebook faturou com a publicidade US$ 84,1 bilhões, um aumento de 21% em relação a 2019. E o faturamento do Google Services, que inclui anúncios, no ano foi de US$ 168,6 bilhões (US$ 17 bi a mais que em 2019).
Já leu as letrinhas miúdas?
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Um modo de ficar mais atento a esse uso das informações pessoais pelas big techs é ler os termos da política de privacidade das companhias.
Lembre-se: se um serviço é gratuito, você na verdade paga por ele com suas informações.
É para coibir esse modelo de negócio invasivo que surgem pelo mundo as leis de proteção de dados, que exigem das empresas cada vez mais transparência no tratamento dos dados de seus usuários.
Entretanto, vemos cada vez mais serviços que orientam as pessoas sobre esse uso indevido de seus dados, mas ao mesmo tempo não permitem que você recuse tal procedimento, sob pena de não poder utilizar o dito serviço.
A atual briga entre Apple e Facebook tem a ver com isso, pois o sistema operacional dos iPhones, o iOS, permite em sua nova versão que os usuários escolham se um aplicativo pode rastrear seus dados ou não. E isso pode mudar o modelo de negócio da publicidade on-line, conscientizando os internautas sobre como suas informações pessoais são utilizadas.
Como se proteger
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(Com a consultoria de David Svaiter, especialista em criptografia e diretor da OaSys, e Alexandre Freire, responsável técnico pela operação da empresa de segurança cibernética Nozomi Networks na América Latina)
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