Por que o design da Nike continua surpreendente após 50 anos

POR MARK WILSON Fast Company Brasil 03/03/2022

A Nike completa 50 anos em 2022 e seu design se mostra mais interessante do que nunca. Outro dia, visitando o site oficial, encontrei uma das inúmeras descrições já feitas de um tênis e tive um insight do porquê a marca se mantém em alta. Ela poderia ter se tornado mais uma grife descartável, mas continua pensando (até demais) em seus designs – e da melhor maneira possível.

Como afirmou recentemente o site de moda masculina Hypebeast, a Nike já está tendo um “grande ano”, cheio de lançamentos experimentais. E ainda estamos em fevereiro! A verdade é que, há alguns anos, as tendências lançadas pela empresa têm sido certeiras, além de anunciadas no timing perfeito – como quando a marca divulgou seus Space Hippies sustentáveis ​​​​ou seus Go Flyeases fáceis de calçar e descalçar.

Os tênis são a arte democratizada da nossa era, com a diferença de que seu dono não precisa desembolsar uma fortuna em edições limitadas para participar da brincadeira. Com um investimento a partir de cerca de US $ 75, qualquer um pode adquirir uma verdadeira escultura maximalista para ser usada nos pés.

Créditos: Nike/ Divulgação

Basta dar uma olhada na loja online da Nike. É impossível não se encantar por algum modelo, como pelos LeBrons, que remontam aos tênis criados para Michael Jordan usar nas quadras basquete nos anos 90. Ou por um tênis para trilhas feito em um tecido original, que poderia descrever como um “negativo” da estampa clássica de onça. Ou por um cano alto de material misto, cujo jogo de cores e estampas faz lembrar o design de interiores dos anos 80. Ou por tênis de corrida tão fluorescentes que você vai querer chupar como se fosse um picolé de limão.

Algum desses modelos bate com o meu gosto? Pelo menos durante os momentos em que olho para eles com curiosidade, sim. Não há como não admirar sua beleza ou estranheza como objetos individuais, cada um oferecendo aos olhos o seu próprio pequeno universo de design. Também reconheço que essa é uma das estratégias da Nike: lançar uma variedade tão grande de modelos que algum deles vai fazer com que seu coração dispare, a ponto de querer levá-lo para casa.  E imagino que isso acontece com quase todo mundo. 

Essa surra de design que salta aos olhos não é mero resultado de a Nike ser uma empresa de US$ 31 bilhões e a maior fabricante de calçados do mundo. Afinal, projetar objetos tão atraentes, e em larga em escala, é muito difícil. A Apple construiu seu império executando extremamente bem um número limitado de produtos, enquanto reduzia a expressão de seus designs físicos, para que a marca silenciosamente ganhasse lugar em qualquer momento da vida de seus donos.

A NIKE APOSTA EM UMA LINGUAGEM DE DESIGN VARIADA E EXPRESSIVA.

Adotando o caminho contrário, a Nike aposta em uma linguagem de design variada e expressiva. É claro que a marca precisa organizar seus lançamentos e dar alguma direção de cores sazonais para os produtos. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a estratégia de cores apostava em tons neons futuristas, cruzando essa paleta com o uso de materiais naturalmente coloridos e sustentáveis. De todo modo, a Nike lança inúmeros novos itens todos os anos, cheios de diferentes materiais e tecnologias. Ou seja, projeta muitos produtos, muito bem e de maneira muito diferente.

Mas como eles dão conta de fazer isso? Para responder a essa pergunta, é importante destacar seus principais investimentos, como o novo LeBron James Innovation Center, a instalação de pesquisa tecnologicamente mais avançada do mundo, onde designers e cientistas trabalham lado a lado. Quem visita esse centro, como eu fiz no ano passado, pode presenciar como a Nike testa as suas novas cores em uma sala que pode simular tudo, desde a luz do dia até a iluminação fluorescente de seu escritório, e como a marca pede aos consumidores que classifiquem como um determinado tom de branco se parece em cada contexto.

Mas, na verdade, foi visitando a própria loja online que obtive uma resposta mais clara para essa pergunta. Bem na parte inferior da página para os tênis Nike Air Zoom SuperRep 2 Next Nature HIIT – um modelo lançado em setembro do ano passado –, a Nike compartilha a “história por trás das cores” do produto. Até então, nunca tinha percebido que essas histórias estavam disponíveis no site, embora elas sempre estivessem bem abaixo de preços, fotos e descrições.

Das nove variantes deste sapato em particular – nove! – esta versão singular “leite de coco” contrasta tons de terra com um laranja neon. A combinação funciona muito bem na prática e, além disso, há uma descrição convincente sobre o motivo pelo qual as cores são apresentadas daquela forma.

“A escolha de cores, que infunde tons neutros e rosa com laranja fluorescente, é um aceno para o perigo que a natureza está correndo. O laranja faz referência ao estado de emergência em que a Terra se encontra, enquanto as cores suaves o equilibram com um tom mais calmo. As cores contam a sua própria história, como se dissessem: “sim, a Mãe Terra está enfrentando um grave problema. Mas podemos lidar com isso juntos.”

Você pode ter achado essa história de cores uma tremenda bobagem. Talvez, em um dia de mau humor, eu também implicasse com a descrição do tênis. Acontece que, por incrível que pareça, os designers da Nike estão sendo sinceros quando dizem que pensam assim! Na verdade, eles estão constantemente pensando demais, na tentativa de imbuir tudo o que criam com algum propósito maior.

Nesse caso, os designers estavam bolando uma paleta de cores para um cross trainer novo e mais sustentável, o SuperRep 2, e procurando a mistura certa de cores para aprimorar essa ideologia. Provavelmente, a ideia de reforçar a tendência de calçados de cores neutras surgiu enquanto pensavam nisso tudo. O que eles estavam criando não era apenas uma narrativa aleatoriamente atribuída a um objeto, mas um sapato autoconsciente, que reconhece sua própria pegada (com o perdão do trocadilho).

Pode-se até argumentar que é, no mínimo, um pouco hipócrita para qualquer empresa de vestuário fazer e vender produtos novos enquanto defende o meio ambiente. Ou que comprar um tênis novo sem precisar, mesmo o mais ecologicamente correto de todos, é muito pior do que…. não comprar nenhum tênis! São argumentos perfeitamente justos, não vou contestar. Ainda assim, quando me pergunto por que o design da Nike é tão bom ou como eles conseguem continuar fazendo produtos que sempre parecem estar dois ou três anos à frente de seu tempo, me parece que a resposta está bem ali: naquela pequena descrição.

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos

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De metaverso a biologia sintética: Amy Webb traz as tendências do SXSW 2022

O que se faz com uma tendência? A provocação da especialista é conseguir olhar para o futuro e ter fôlego para criar novas possibilidades

Por Camila Petry Feiler – Startse – 14/03/2022

Quando Amy Webb fala, o mundo para e escuta. Professora da NYU Stern School of Business e CEO do Future Today Institute,  há 15 anos ela lança o Tech Trends Report no South by Southwest (SXSW), festival de inovação e tecnologia que ocorre em Austin, no Texas. A atração, uma das principais do evento, trouxe o que Amy vê se desenhando para o futuro. Em 2022, ela olha para 2027, 2032 e 2037 e apresenta as principais tendências que vão afetar a sociedade, os negócios e o consumo neste e nos próximos anos. 

De metaverso, um dos grandes focos do festival, passando por trabalho e cultura, blockchain e biologia sintética, ela afirma que “você precisa usar as tendências para te ajudar a re-perceber o futuro. Para ajudar a influenciar o futuro.” Re-percepção, para ela, é a essência da criatividade, inovação e a qualidade essencial de bons líderes. Nesse contexto, unir tendências e re-percepção não é sobre prever o futuro e sim como lidar com as incertezas para tomarmos melhores decisões hoje. 

Com esse convite, para usar as tendências considerando resultados alternativos aos que imaginamos e também de reperceber a realidade, confira os destaques das projeções da pesquisadora para os próximos anos em três tópicos: inteligência artificial, metaverso e biotech.

Inteligência artificial

“Estamos nos aproximando do dia em que as redes de IA tomarão suas próprias decisões sem um humano no circuito”, disse Webb. “E se isso te assustou, você não é o único.”

A futurista destaca que a inteligência artificial vai remodelar a economia do conhecimento, desempenhando funções cognitivas tão bem ou melhor do que humanos. E por mais que estejamos em um momento de transição, ela lembra de um marco importante: em 2012, uma rede neural aprendeu a reconhecer um gato. Hoje, essas redes podem gerar clones de gatos que parecem idênticos ao real em questão de segundos.

Quer outra novidade? Não se trata mais apenas de reconhecimento facial: a IA pode reconhecer as pessoas por seus padrões de respiração ou batimentos cardíacos. “Se você não quer ser reconhecido, não é como se você pudesse parar de respirar ou ter seus batimentos cardíacos parados”, disse ela. “Os sistemas de IA não precisam do seu rosto para ver você e saber quem você é.”

Metaverso

Ela define o metaverso como um “termo guarda-chuva que define o conjunto de tecnologias que conectam o mundo físico ao mundo digital, parte da nova Web 3.0”, fragmentando nossas identidades. ”As pessoas criarão múltiplas versões de si mesmas, cada um adaptado para fins específicos. Isso vai levar à fragmentação – e a uma lacuna cada vez maior entre quem uma pessoa é no mundo físico, e quem ela projeta ser no mundo virtual.”

“Se você acha que gerenciar senhas é um desafio hoje, imagine ter que gerenciar diferentes versões de si mesmo espalhadas por todo o metaverso”, disse Webb. Eventualmente, todos terão uma identificação digital e isso exige formas de regulação, controle e transparência para garantir um futuro mais justo e menos aberto ao incerto quando o assunto é privacidade de dados e segurança digital. 

Afinal, Web3 é sobre transparência, interoperabilidade e confiança. Mas é preciso haver reguladores para garantir que o mundo virtual se desenvolva de maneira saudável, disse Webb.

De acordo com Webb, o movimento em torno dos NFTs começará a desaparecer. Os colecionáveis ​​digitais são valiosos por causa da escassez, mas agora o mercado está saturado deles, coloca a pesquisadora. Também são a parte visível do iceberg, ainda tem muito por vir.

Biologia sintética

“Precisaremos definir o que é “real”, disse Amy Webb.

Os avanços da biologia sintética passam por muitos avanços: microchips que estão sendo feitos com DNA para prolongar a vida, marketing exclusivo aos usuários com base no DNA e até a recomendação personalizada para o uso de drogas recreativas a partir do DNA. 

Agora, além de hardware e software, temos wetware (a parte biológica). Podemos usar isso para criar sonhos sob demanda e fazer com que as pessoas queiram comprar depois de dormir.

Também podemos usar bioreatores para criar carne de frango livre de hormônios e alimentar todo o mundo – Cingapura já está vendendo frangos criados a partir de células-tronco.  

As grandes empresas de tecnologia, Microsoft, Google e Facebook, estão trabalhando em biologia, disse Webb. Existe um potencial enorme de produtos que podem ser feitos a partir do DNA.

E o futuro?

Estamos em um período de aceleração, ela disse, e por isso precisamos agir. Depois de entregar o cenário, ela finaliza: “você constrói o futuro todos os dias com suas escolhas. E cada escolha é a oportunidade de fazer um futuro melhor.

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Open banking: O que é, como funciona e por que pode baratear produtos financeiros

O sistema parte da premissa de que os dados sobre sua vida financeira pertencem ao próprio cliente e, assim, podem ser divididos com quem ele autorizar

Por Mariana Ribeiro – Valor – 10/03/2022 

O “open banking”, ou sistema financeiro aberto, é uma das principais apostas do Banco Central (BC) para ampliar e baratear a oferta de produtos financeiros no país. O projeto ainda dá os seus primeiros passos, mas a expectativa é que aos poucos ganhe tração e comece a fomentar mudanças mais profundas no mercado.

Parte da “Agenda BC#”, conjunto de propostas de modernização do sistema financeiro em implantação pela autoridade monetária, o open banking foi lançado em 1º de fevereiro de 2021. Seu primeiro ano de existência foi bastante focado em implementação. O processo foi feito em fases e algumas delas seguem em execução.

Aqui, o Valor explica o que é open banking, quando ele se torna “open finance”, quais efeitos ele deve ter sobre instituições participantes e consumidores e os desafios para que se popularize no país.

O que é open banking?

O open banking é a possibilidade de clientes de produtos e serviços financeiros, sejam pessoas físicas ou jurídicas, permitirem o compartilhamento de suas informações entre diferentes instituições.

O projeto parte da premissa de que os dados sobre sua vida financeira pertencem ao próprio cliente e, assim, podem ser divididos com quem ele autorizar. O compartilhamento é gratuito.

Por exemplo, um cliente que queria contratar um empréstimo poderá enviar seu histórico de uma instituição com a qual já mantém relacionamento para outra com facilidade. A meta, no entanto, é que com o tempo o sistema vá além e que as possibilidades de troca de informações permitam o desenvolvimento de novos modelos de negócio no país.

O que o projeto promete?

O open banking parte de um diagnóstico: o fato de uma instituição não ter acesso ao histórico de determinado cliente com outra dificulta a oferta de produtos e serviços mais competitivos. Assim, entre as principais promessas do sistema está justamente o aumento da competição.

A ideia é que, com o compartilhamento das informações, instituições possam fazer diferentes ofertas para clientes de seus concorrentes. O objetivo é que isso se reflita em melhores tarifas e condições, por exemplo. É esperado que haja também aumento das ofertas customizadas, além do incentivo à criação de novos produtos e serviços.

A Estrutura de Governança do open banking, que reúne entidades de classe das instituições participantes, lista ainda vantagens como empoderamento do cliente; incentivo à modernização do sistema financeiro; garantia da padronização do compartilhamento de dados e serviços entre instituições financeiras e menores custos.

Quais são as fases do open banking e quando ele se torna open finance?

Por se tratar de um projeto complexo, o open banking está sendo implementado em fases. Dentro de cada uma das etapas há escalonamentos e algumas delas ainda não foram totalmente concluídas.

Fase 1: Foi lançada em 1º de fevereiro de 2021 e começou com os bancos disponibilizando informações padronizadas sobre seus canais de atendimento e as características de produtos e serviços bancários tradicionais. Dados de clientes ficaram de fora nesse primeiro momento.

Fase 2: Foi lançada em agosto de 2021 e deu início ao compartilhamento de dados cadastrais e transacionais de clientes, envolvendo contas, cartão de crédito e produtos de crédito contratados. A troca de informações entre instituições só pode ser feita sob expressa autorização do cliente.

Fase 3: Começou em outubro de 2021 e teve como principal novidade a implementação da figura do iniciador de transações de pagamento. Isso permite ao usuário fazer movimentações de sua conta fora do ambiente do banco, a partir de diferentes plataformas. A implementação foi gradual e começou com o Pix.

Essa fase também prevê a entrada em vigor da modalidade de encaminhamento de proposta de crédito em 30 de março de 2022. Por meio dela, clientes poderão solicitar propostas a várias instituições de uma vez.

Fase 4: É quando surge o conceito do “open finance”. Lançada em dezembro de 2021, essa etapa expande o compartilhamento de informações para produtos não bancários, como investimentos, previdência, seguros e câmbio. Primeiro, as instituições compartilharam informações padronizadas de seus produtos. A partir de 31 de maio de 2022, começa a troca de dados do cliente, também sob expressa autorização dele.

Como é feita a troca de informações?

A partir da permissão do cliente, as instituições se conectam diretamente às plataformas de outras participantes e acessam os dados autorizados pelos clientes. O BC afirma que todo esse processo é feito “em um ambiente seguro” e que a permissão poderá ser cancelada pela pessoa sempre que ela quiser.

A troca de informações pelas instituições participantes é feita de forma padronizada por meio de APIs (interfaces de aplicação). São o “idioma” por meio do qual elas conversam e compartilham dados entre si.

Quais são as medidas de segurança?

O primeiro ponto importante em relação à segurança é que o compartilhamento de dados do cliente entre instituições só pode ser feito com a sua autorização. Há etapas de consentimento, autenticação e confirmação. Além disso, as trocas são regidas pela lei do sigilo bancário e pela lei geral de proteção de dados (LGPD).

A Estrutura de Governança do open banking explica que as instituições participantes devem cumprir uma série de requisitos para garantir a autenticidade, a segurança e o sigilo das informações compartilhadas. Há regras específicas, por exemplo, para responsabilização da instituição e de seus dirigentes.

O BC, a quem cabe a supervisão do processo, destaca ainda que os compartilhamentos ocorrem em um ambiente “com diversas camadas de segurança”, com autenticação do consumidor e das instituições participantes.

Como está a adesão?

Até janeiro de 2022, a autoridade monetária havia registrado 3,3 milhões de consentimentos de clientes para compartilhamento de dados.

Desde o seu lançamento, tem crescido o número de APIs realizadas, ou seja, de interações de troca de informações entre as instituições. Em novembro, foram 12,7 milhões; em dezembro, 84,4 milhões; e em janeiro, 98,6 milhões.

Até o momento, são 821 instituições participantes, sendo 158 transmissoras e receptoras e 663 participantes de demais etapas.

Quais os desafios para a sua popularização?

O primeiro ano do open banking exigiu grandes esforços de implementação por parte das instituições participantes, principalmente na área de tecnologia. O cronograma precisou ser alterado algumas vezes e é possível que isso volte a acontecer em 2022, já que as fases continuam sendo executadas.

A expectativa é que efeitos mais concretos do sistema comecem gradativamente a ser sentidos daqui para frente, embora de forma ainda incipiente.

Para especialistas, um dos grandes desafios à frente é o de comunicação. Isso porque, para que a iniciativa tenha sucesso e possa incentivar a criação de novas soluções, é preciso que o cliente, a quem cabe autorizar o compartilhamento das suas informações, enxergue benefícios na adesão, confie no sistema e aprenda a usá-lo de forma segura.

Há ainda um desafio ligado ao desenvolvimento de produtos e serviços a partir o open banking. Ou seja, é preciso que o mercado se dedique à criação de novas soluções que tragam benefícios ao sistema e ao usuário.

O modelo brasileiro foi inspirado no desenho do Reino Unido, mas tenta evitar alguns problemas verificados lá. Aqui, por exemplo, há um padrão para as APIs. Recentemente, o modelo britânico foi criticado por Anne Boden, fundadora e CEO do banco digital Starling. Ela afirmou, durante audiência no Parlamento britânico, que a iniciativa fracassou porque não houve demanda de consumidores e nenhuma instituição conseguiu criar um modelo de negócios lucrativo.

https://valor.globo.com/financas/noticia/2022/03/10/open-banking-o-que-e-como-funciona-e-por-que-pode-baratear-produtos-financeiros.ghtml

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‘A economia prateada já move R$ 1,6 tri por ano’, diz presidente do Sebrae-SP

Em entrevista ao ‘Estadão’, Wilson Poit fala sobre o potencial econômico do grupo de pessoas acima de 60 anos

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo 19 de dezembro de 2021 

Apenas entre 2012 e 2021, 12,2 milhões de brasileiros ingressaram no grupo de pessoas com 60 anos ou mais. A expectativa é que esse crescimento seja ainda mais acelerado nos próximos anos com o maior envelhecimento da população brasileira. Hoje esse grupo soma mais de 37 milhões de pessoas. Mas, apesar do crescimento, essa população não tem sido atendida de forma satisfatória, diz o presidente do Sebrae-SP, Wilson Poit.

Hoje, afirma ele, a chamada “economia prateada” já movimenta R$ 1,6 trilhão por ano. Mas o valor poderia ser muito maior. “Temos pesquisas que mostram que esse grupo de pessoas está descontente com os produtos e serviços destinados a elas.” No caso da moda, exemplifica ele, ou as roupas são jovens demais ou velhas demais. Não há um meio termo. “Notamos que as empresas no Brasil ainda têm uma cultura muito baseada no culto à juventude, seja no comercial de TV, na propaganda ou nas mídias sociais. Veja a seguir, trechos da entrevista:

ctv-tcn-wilson-poitAs empresas ainda têm culto excessivo à juventude, afirma Poit Foto: Taba Benedicto/Estadão

O que é economia prateada?

Estamos falando de um mercado muito grande que envolve a população com mais de 60 anos de idade e não quer mais ser chamada de idosa. Trata-se da longevidade ativa, um mercado enorme e que não é muito explorado no Brasil, apesar do envelhecimento da população. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que desde a década de 50 essa faixa etária vem crescendo de forma importante (só entre 2012 e 2021, 12,2 milhões de pessoas entraram para esse grupo). E esse movimento vai continuar em alta. Aquela pirâmide que, nos meus tempos, mostrava um país jovem mudou. Agora é um país que está envelhecendo com pessoas que vão viver mais tempo. A longevidade não é só ter mais saúde e mais atividade. Esse público também consome produtos e serviços ligados à saúde e outras coisas.

Esse público não está sendo atendido?

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que essas pessoas – de um modo geral – têm poder aquisitivo um pouco maior. Pessoas com mais de 65 anos são 17% da fatia dos 5% mais ricos. E apenas 4% da grande fatia de 40% mais pobres. Temos estatísticas aqui no Sebrae que mostram que os mais velhos não estão satisfeitos com o mercado. Em São Paulo, vemos grandes shoppings para gatos, cachorros e pets em geral. Mas não há nenhum shopping center voltado para a economia prateada. Uma estatística da Hype60+ mostra que de cada 10 pessoas da economia prateada 6 estão descontentes com o mercado de moda. Ou elas acham as roupas jovens demais ou velha demais. Esse é um tipo de cliente que consome bem, tem autonomia de decisão e procura qualidade. Estamos falando de consumidores maduros, provedores de famílias, que definem um tipo de consumo e não gostam de ser tratados nem como millenials nem como idosos. É um mercado enorme para novos negócios e também para empresas já constituídas pensarem em produtos voltados para eles.

Não há iniciativa das empresas para atender esse mercado?

No Japão, onde tem muita gente com 100 anos ou perto de 100 anos, esse mercado é muito desenvolvido. Um exemplo prático é que há supermercados só para a economia prateada, com corredores mais largos e carrinhos com lupa. Precisamos de soluções para esses clientes. É preciso olhar as limitações desse público. Outra pesquisa da FGV mostra que 70% das empresas acham que os idosos não acompanham as transformações tecnológicas. No entanto, 90% desse pessoal tem smartphone e estão nas redes sociais. É uma oportunidade a ser explorada.

Qual o primeiro passo?

Acredito que é preciso pensar em programas de lazer, baseados em culturas, viagens e serviços para qualidade de vida. Esse pessoal é muito mais exigente quanto ao conforto na hora de comer, na hora de dormir, etc. São pontos de atenção para o setor empresarial, como alimentação fora de casa e turismo. Além das atividades físicas, é preciso pensar em serviços de acolhimento. Há o mercado de home care. Alguns fundos de investimentos compraram vários edifícios de flats em São Paulo para esse público específico, mas são poucas vagas. Hoje há pessoas que querem colocar o pai, a mãe ou querem morar num lugar com acesso à academia, tecnologia e fisioterapia, mas não conseguem vagas. Estão lotados. Acredito que também há espaço para negócios ligados à educação tecnológica desse grupo de pessoas. Às vezes eles têm um pouco mais de dificuldade para entender os aplicativos e acabam recorrendo aos netos. De novo, países como Japão e alguns da Europa são exemplos porque eles têm uma cultura voltada para esse público.

No Brasil, estamos distantes disso?

Notamos que as empresas no Brasil ainda têm uma cultura muito baseada no culto à juventude, seja no comercial de TV, na propaganda ou nas mídias sociais. Então o primeiro passo para qualquer empresa é olhar para esse público e descobrir o que pode oferecer para ele. Perguntar para essas pessoas, fazer pesquisa ou procurar pesquisas que estão sendo feitas sobre o assunto. É uma parcela da população que tem uma forte vontade de consumir. Guardou dinheiro e está aposentado. São pessoas que conquistaram coisas e querem desfrutar mais o momento. Lógico que o Brasil é um país de muita desigualdade. Estamos falando aqui daqueles que têm acesso e não são bem atendidos.

Além do Japão, que outros locais são exemplo na economia prateada?

Japão, França, uma pequena região da Costa Rica e Califórnia. Nesses países as empresas já têm um olhar mais profundo e percebem como atender as pessoas dessa faixa etária. Aqui temos um mercado que não conseguiu atender plenamente esse público e tem uma dificuldade em entender quem são essas pessoas e onde estão. São lacunas de mercado que podem virar oportunidades de negócios para satisfazer esse público.

O sr. disse que as empresas têm um culto à juventude…

Isso é bom também. Se vamos viver mais, os jovens têm de cuidar mais da saúde. Todos querem viver uma longevidade ativa. Mas é uma oportunidade a ser ocupada. Acabou aquela imagem de que esse público da economia prateada quer ficar em casa, aposentada e com pouca atividade. Isso está ultrapassado. Cada vez mais esse pessoal quer consumir produtos e serviços relacionados com os tempos atuais e querem se atualizar. Essas pessoas têm uma conexão com tecnologia, usam celular, computador e querem sair, querem ter uma vida social, querem ter lugar de encontro, querem se vestir bem. Podem consumir uma infinidade de produtos e serviços. Aqui no Sebrae estamos bem atentos a esse mercado. Temos vários cursos disponíveis e gratuitos para os 60+ que queiram virar empreendedores. Podem trabalhar em casa.

Qual o potencial desse mercado?

A economia prateada já movimenta no Brasil R$ 1,6 trilhão por ano. Esse mercado, por exemplo, está se duplicando. O Brasil está ficando mais velho. É um assunto que temos acompanhado bastante. Esse valor poderia ser muito maior porque há pessoas descontentes com os produtos oferecidos. Na retomada econômica, pós-covid, as empresas precisam e podem faturar mais.

Alguma empresa no Brasil já despertou para isso?

Já vi uma ou outra. Mas há até dificuldade para encontrar modelos para fazer fotos e propaganda. Tem gente muito bem de forma física. Muita gente correndo maratona.

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Urban living labs: quando a inovação aberta chega às cidades

Clayton Melo – Fast Company Brasil 03.03.2022

Na era da economia do conhecimento, não tem escapatória: é inovar ou inovar. E hoje essa busca passa, necessariamente, pela colaboração, pelo compartilhamento de experiências e por colocar o cliente no centro. Prova disso é que a inovação aberta conquistou o mercado nos últimos anos, com inúmeros programas que conectam empresas e startups para desenvolvimento de produtos e serviços.

O conceito de open innovation, criado por Henry Chesbrough, professor de da universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, já está bem amadurecido no setor privado. Mas tem um desdobramento relativamente novo que merece ser observado, especialmente por conta do impacto social e econômico que pode gerar. Estou falando da aplicação da inovação aberta no contexto das cidades por meio dos chamados urban living labs.  

Os laboratórios vivos urbanos são ecossistemas de inovação aberta centrados no usuário que têm a cidade como campo de testes. É mais ou menos como usar áreas urbanas para desenvolver MVPs de projetos pensados para resolver problemas diversos, como mobilidade, segurança, energia e meio ambiente. Da mesma forma que o conceito convencional de inovação aberta aplicado às empresas, ele acelera o desenvolvimento de tecnologias e reduz os custos dos projetos urbanos, com a vantagem de contar com a inteligência coletiva advinda da aproximação entre poder público, organizações, universidades, startups e cidadãos.   

OS LABORATÓRIOS VIVOS URBANOS SÃO ECOSSISTEMAS DE INOVAÇÃO ABERTA CENTRADOS NO USUÁRIO QUE TÊM A CIDADE COMO CAMPO DE TESTES.

O processo de um urban living lab cumpre algumas etapas. O ciclo começa com um diagnóstico dos desafios de inovação de uma determinada região. Após discussões entre os diversos atores sociais envolvidos, esses desafios são selecionados e abre-se uma chamada pública para inscrição de projetos que buscam solucionar os problemas listados. Geralmente, essas chamadas contam com a participação de startups, empresas e ONGs, por exemplo. Um ponto central em toda essa jornada é a participação efetiva da administração pública, pois a viabilidade de uma proposta depende de recursos e autorizações para intervenções no espaço público. 

A fase seguinte é a de desenvolvimento. É neste momento que as soluções são testadas na vida real – em um bairro, por exemplo, em contato direto com a população. Os projetos-piloto são monitorados e avaliados a partir de uma série de indicadores de desempenho. Os protótipos validados chegam à etapa final, que é a da escalabilidade. Nesta fase, são criadas estratégias para sua aplicação em mais áreas do município, ou até mesmo na cidade toda, dependendo do caso. 

Cases dentro e fora do Brasil

Existem experiências inspiradoras de urban living labs no mundo – e também no Brasil. No exterior, um dos cases mais reconhecidos é o do Barcelona Living Lab, iniciativa do conselho municipal que oferece a cidade para que startups e empresas apliquem projetos-piloto. Se validados, eles podem ser escalados em outros lugares. Entre as soluções testadas estão um método de gerenciamento de coleta de lixo, um mecanismo de iluminação inteligente e equipamentos para monitoramento e carregamento de carros elétricos. 

Outro exemplo é o Living Lab de Matosinhos, município que fica no norte de Portugal. O objetivo lá é criar um bairro carbono-zero, com a formação de um mercado local de carbono no qual os moradores são recompensados por terem hábitos de mobilidade mais sustentáveis. Pela iniciativa, a cidade se abre para testes de tecnologias inteligentes nas áreas de mobilidade, energia, construção civil e arquitetura. 

O LIVING LAB DE FLORIANÓPOLIS FOI LANÇADO EM 2018, COM METODOLOGIA DESENVOLVIDA PELO GRUPO DE PESQUISA VIA ESTAÇÃO DO CONHECIMENTO, DA UFSC.

“Este programa envolve o município, as empresas, os operadores de mobilidade, as comunidades e os cidadãos na construção de novos modelos de mobilidade que evitem emissões e que sejam adequados a quem vive e trabalha no município”, diz o site da prefeitura local. “Trata-se de um palco de cocriação e inovação aberta de produtos, serviços, software, hardware e intervenções urbanas de baixo carbono, onde interagem municípios, centros de conhecimento, empresas, empreendedores e cidadãos”. Em 2018, o projeto venceu o Prêmio Europeu de Promoção Empresarial, concedido pela Comissão Europeia.

No Brasil, uma das cidades que apostam nesse caminho é Florianópolis.  O living lab da capital catarinense foi lançado em 2018 pela Rede de Inovação de Florianópolis, uma parceria entre a prefeitura, a Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) e a Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (Acif). Entre as propostas selecionadas estão soluções voltadas a carros elétricos, hortas urbanas, automatização do fornecimento de energia e atendimento a combate a incêndios, entre outros. O programa contou com metodologia desenvolvida por um grupo de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, o Via Estação do Conhecimento. 

Essas e outras iniciativas do gênero indicam um caminho promissor de modernização da administração pública. Valendo-se dos princípios da inovação aberta, os urban living labs colocam o poder público como um articulador e um fomentador dos stakeholders locais em busca de inovação para resolver problemas reais das cidades. E o principal: colocam o cidadão no centro do processo, testando, avaliando e ajudando a construir as soluções que afetam diretamente a sua vida. 

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Clayton Melo é jornalista, cofundador da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital em áreas como inovação, tecnologia, negócios sociais e cenários futuros. Foi curador do Festival Path, de inovação e criatividade, e atuou em redações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e Meio e Mensagem. 

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Mais do que comunicar, iniciativas de impacto à geração Z devem criar diálogos genuínos

Por Arthur Wong* diretor de marketing da Samsung América Latina

Composta por pessoas nascidas entre a segunda metade dos anos 1990 até 2010, a Geração Z tem se tornado cada vez mais importante na definição de novas tendências de consumo. Não à toa, produtos, campanhas e serviços são cada vez mais pensados com foco nesse público, que além de influenciar as pessoas ao redor, sejam elas mais novas ou mais velhas, também têm grande impacto no mercado. Por se tratar de uma geração nascida no universo digital, não há limites para criar novos meios de conexão com eles.

Além de se tratar de um público que começa a conquistar sua independência financeira, os GenZ, como também são chamados, têm um forte espirito de curiosidade, principalmente quando se fala em tecnologia, games, esportes, artes e cultura em geral, o que torna essas pessoas mais dispostas a experimentar o novo e o diferente. E por estarem sempre conectados, as experiências em âmbito digital não apenas os aproximam uns dos outros, como aumentam o engajamento com seus artistas, influenciadores e marcas favoritas.

Essa geração é muito atenta a posicionamentos relacionados aos seus princípios e valores, que em geral estão alinhados com ações de apoio a minorias e de sustentabilidade, para a redução de impactos ambientais. Por ser um grupo que luta pelo que acredita, observa-se um comportamento de consumo mais focado em empresas que defendem essas mesmas ideias e apoiam esses movimentos.

Pensando nisso, a Samsung criou o Future Generation Lab, uma área global estratégica para se aproximar das novas gerações, com foco inicial na Geração Z. Composta – até o momento – por 73 funcionários Samsung de todo o mundo, o grupo é formado por colaboradores na faixa dos 20 anos que fazem parte da Geração Z e, por isso, foram selecionados para guiar a empresa no desenvolvimento de novas ações, produtos e serviços voltados para esse público. Mais do que isso, essas pessoas têm a missão de criar diálogos genuínos em torno de seus interesses em comum de uma forma totalmente inovadora, divertida e criativa.

Do ponto de vista organizacional, trata-se de mais uma inovação da Samsung, desta vez para criar laços ainda maiores com as novas gerações, ouvindo ainda mais o que elas têm a dizer, entendendo seus valores e interesses e, principalmente, atendendo às suas necessidades. Para isso, as funções do Future Generation Lab vão desde a experimentação e apresentação de produtos Samsung em plataformas digitais, até a organização e realização de eventos e novas parcerias com marcas e formadores de opinião relevantes para esse público.

No caso do Future Generation Lab, até mesmo os gostos, hábitos e demais particularidades de cada membro são levadas em consideração, já que podem influenciar na tomada de nossas decisões. O grupo é formado por pessoas da Coréia do Sul, América do Norte, Europa, Sudeste Asiático, Oriente Médio, África, Índia, Rússia, China e América Latina, no Brasil. Dessa forma, além de acompanhar e se relacionar com seu público-alvo em âmbito global, as equipes também têm autonomia para desenvolver projetos e campanhas locais, levando em conta, inclusive, a bagagem cultural de cada região.

Ao criar iniciativas como essa, é importante definir objetivos que vão além do vender e comunicar. Entendendo que as próximas gerações têm muito a contribuir não apenas em questões de consumo, mas de inovação, sustentabilidade, tendências e novos modelos de interação, as empresas devem buscar implementar um ou mais canais de relacionamento em que o diálogo com esses jovens seja o mais aberto possível. Dessa forma, garantimos que suas vozes sejam ouvidas e que as grandes marcas acompanhem esse movimento de transformação de forma legítima e com toda a autenticidade característica da geração Z.

*Arthur Wong, diretor de marketing da Samsung América Latina

https://news.samsung.com/br/mais-do-que-comunicar-iniciativas-de-impacto-a-geracao-z-devem-criar-dialogos-genuinos#:~:text=OK%20Cancelar-,Mais%20do%20que%20comunicar%2C%20iniciativas%20de%20impacto%20%C3%A0,Z%20devem%20criar%20di%C3%A1logos%20genu%C3%ADnos&text=Composta%20por%20pessoas%20nascidas%20entre,de%20novas%20tend%C3%AAncias%20de%20consumo.

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Oportunidades do ‘nearshoring’

Vantagens comparativas não são destino e podem, sim, ser construídas

Por Jorge Arbache – Valor – 10/03/2022

O recente conflito no Leste Europeu deverá se somar à pandemia e levar a uma recuperação mais lenta da economia global. Deverá também ampliar a magnitude de um movimento que já estava em curso, qual seja, o de “geopolitização” do comércio e do investimento, que ganhou ímpeto com o tensionamento das relações econômicas entre os Estados Unidos e a China. Este movimento está na raiz de medidas de política como o nearshoring1.

Mas as medidas que emergiram têm sido ainda mais contundentes. Os Estados Unidos aprovaram pacotes de políticas industriais para substituir importações consideradas críticas e de controle das exportações de tecnologias e componentes e estão escrutinando fusões e aquisições. O Japão, por sua vez, submeteu recentemente ao parlamento um pacote de medidas para proteger as suas cadeias de suprimentos, promover a autonomia de setores e controlar fusões, aquisições e a exportação de bens e serviços selecionados. Outros países vêm adotando políticas similares, enquanto uns outros tantos instituíram margens de preferência para a produção nacional nas compras públicas e tarifas de exportação.

Os impactos dessas medidas serão devastadores para a globalização e, no horizonte previsível, teremos que conviver com uma economia global mais segmentada, com custos de produção mais elevados, com alguma ruptura nos mercados financeiros e de capitais e com mais intervenções públicas em mercados e na internet.

Vamos conviver com uma economia global mais segmentada, com custos de produção mais elevados

Tudo isto é negativo para a América Latina e Caribe, que sofreu com a covid e vem, a duras penas, promovendo políticas para impulsionar a reativação dos negócios e emprego. Ademais, também nos penaliza, posto que reduz a eficiência dos mercados internacionais dos quais a região se beneficia para abastecer as suas mesas com alimentos e as suas empresas com insumos, máquinas e tecnologias.

Se, de um lado, a região encontra-se bastante exposta aos efeitos da geopolítica nos mercados, de outro lado países da região poderão se beneficiar. De fato, México e países da América Central e Caribe parecem estar particularmente bem posicionados para tanto. Afinal, estão geograficamente próximos dos EUA, já têm experiências em investimentos industriais internacionais, tal como refletido na respeitável base de maquilas e zonas francas, e se beneficiam de tratados de livre comércio como o Acordo EUA, México e Canadá (USMCA) e o Acordo de Livre Comércio da América Central (DR-Cafta) firmado por EUA e República Dominicana, Costa Rica, El Salvador, Honduras, Guatemala e Nicarágua para acesso preferencial ao mercado americano. Também contam a favor estruturas demográficas jovens e custos laborais baixos, o uso do dólar como moeda oficial em alguns países, o emprego de padrões e metrologias americanas e a elevada integração dos mercados financeiros com o mercado americano.

Não por acaso, os manufaturados já representem nada menos que 79% das exportações do México, 73% de El Salvador, 57% da República Dominicana e Costa Rica, e 42% da Guatemala. Tudo isto torna aqueles países candidatos naturais ao nearshoring.

Por outro lado, países que pouco participam de cadeias de suprimentos dos Estados Unidos estão mais distantes de gozarem das mesmas condições de atratividade e devem buscar outros meios. O Paraguai, por exemplo, que está geograficamente distante dos Estados Unidos, está montando uma base de maquilas mirando os grandes vizinhos, Argentina e Brasil. Os benefícios potenciais do nearshoring são, portanto, assimétricos.

Embora o nearshoring ajude a promover o emprego e as exportações, maquilas e zonas francas não são panaceias e tampouco garantem um desenvolvimento econômico integral nem integração econômica sub-regional. As evidências empíricas sugerem que esse mecanismo deve ser visto como ponto de partida, e não de chegada de um processo de desenvolvimento econômico mais amplo.

Por certo, maquilas e zonas francas são mais que bem-vindas, ainda mais numa região com população tão urbanizada e com taxas de informalidade laboral que podem ultrapassar os 70%. Mas os países precisam ser mais ambiciosos e fazer de oportunidades como o nearshoring motores do crescimento com efeitos econômicos mais profundos e permanentes. Para tanto, são necessárias políticas públicas e privadas que capitalizem sobre aquela base de oportunidades.

Normas e mecanismos para regular a relação entre as zonas francas e o território aduaneiro nacional de forma a estimular uma industrialização mais abrangente e com sinergias e complementaridades com empresas locais; programas permanentes de capacitação da mão de obra; apoio das universidades locais para o desenvolvimento industrial; promoção da inovação e da tecnologia; promoção da formação de cadeias de suprimentos locais; diversificação de fornecedores; promoção da sustentabilidade como parte integral do modelo de negócio; programas de qualidade e competitividade; promoção de fatores habilitadores do e-commerce; promoção da infraestrutura; digitalização das empresas e das cadeias de produção; diversificação de mercados; acordos e facilitação do comércio; harmonização normativa; e fortalecimento das instituições públicas pertinentes estão entre as medidas para capitalizar o nearshoring como instrumento de desenvolvimento.

Por fim, o objetivo das políticas não deve ser apenas o de atrair empresas, mas o de criar as condições necessárias para que aquelas empresas finquem raízes, ampliem negócios e investimentos, atraiam fornecedores, agreguem mais valor e contribuam para a formação de clusters. É sempre válido lembrar que vantagens comparativas não são destino e podem, sim, ser construídas. China, Coreia do Sul e Cingapura estão aí para ajudar a contar esta história.

1 Nearshoring é uma política em que uma empresa, digamos, americana, transfere a sua produção que antes estava em terceiros países (ex: China) para países próximos ao país contratante (ex: México).

Jorge Arbache é vice-presidente de setor privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina – CAF e escreve mensalmente às quintas feira neste espaço.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/oportunidades-do-nearshoring.ghtml

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Os 4 vetores de transformação digital para empresas nativas analógicas

de Marcos Gouvêa de Souza – Mercado e Consumo  7 de março de 2022

Transformação digital só existe para quem não é nascido digital e tem sua lógica com DNA analógico. E se tornou mais fundamental priorizar esse tema para acompanhar ou se antecipar, se for possível, a velocidade de as todas as transformações que vivem a sociedade, o mercado e a realidade de forma abrangente.

Em especial no mundo do consumo e do varejo.

É cada vez mais difícil e desafiador transformar uma organização ou um negócio, nascido analógico, para incorporar valores, atitude, velocidade e, em especial, cultura digital.

Principalmente para lideranças e negócios com mais tempo de atuação.

Transformação digital significa um pacto com a inovação constante e focada em resultados, mesmo que, nesse aspecto dos resultados, num ritmo diferente do que o das empresas originalmente analógicas.

A evolução digital trouxe consigo uma reversão na lógica da atratividade dos negócios.

Na lógica analógica, melhor é o que gera receitas, rentabilidade, resultados e rápido retorno dos investimentos no prazo mais curto.

Na lógica digital, melhor é o que maximiza o valor do negócio pela atratividade e potencial de crescimento das receitas e ocupação de espaço no mercado. E que possa gerar resultados num momento futuro. Como é a história da Amazon e muitos outros negócios que demoraram para mostrar a que vieram.

Mas, ainda que desafiadora e complexa, a transformação digital se impõe para sobreviver e, se possível, liderar no cenário atual e futuro.

Nos últimos tempos, avançar no digital passou a ser condição necessária, mas não suficiente, para revitalizar negócios e assegurar um passaporte para o futuro.

Os vetores da transformação digital envolvem a integração de novos negócios digitais no conjunto dos negócios atuais, a incorporação de ferramentas e recursos digitais na gestão do conjunto de negócios, a incorporação de instrumentos digitais na execução dos negócios analógicos e, o mais desafiador, a evolução da cultura nascida analógica para uma cultura híbrida analógica com digital.

E tudo isso monitorado com metas pré-definidas que permitam o acompanhamento da evolução pretendida.

A medida da maturidade digital de um negócio se tornou um fator de avaliação efetiva das possibilidades estratégicas de curto, médio e longo prazo das empresas e passou a ser prioritariamente observada como decisiva na avaliação do potencial futuro dessa organização.

De forma habitual medidas possíveis envolvem a participação das receitas e dos resultados de negócios digitais, integrados ao longo do processo, no conjunto total dos negócios.

Vamos analisar cada um desses vetores para entender o processo de transformação de forma ampla.

1. Integração de novos negócios digitais no conjunto dos negócios atuais

Talvez a estratégia aparentemente mais simples, não fosse os desafios operacionais e culturais envolvidos no processo de transformação digital de uma organização.

Nas fases precursoras do e-commerce, muitas organizações globais, como Walmart, Carrefour e outras no Brasil, como Pão de Açúcar, optaram por desenvolver ou incorporar negócios nessa área numa operação apartada dos negócios tradicionais, com o argumento, aparentemente lógico, de que isso permitiria maior agilidade, autonomia e foco, sem comprometer os negócios existentes. Num primeiro momento até fez sentido separar estruturas, estoques, tecnologia e muitos outros recursos com a visão de que o foco e a velocidade compensariam a perda gerada pela desintegração.

No momento seguinte foi percebido que a lógica não se sustentava, pois o cliente era o mesmo, no digital ou no físico, e a falta da integração plena cobrava um preço alto pela experiência mais pobre oferecida por essa opção segmentada.

Na realidade atual, as empresas que têm buscado acelerar sua transformação digital têm usado e abusado das alternativas de incorporação de novos negócios nascidos digitais, startups ou mais maduros, e preferem integrar de forma plena aos negócios atuais, mais ou menos digitais, zelando para que essa integração ocorra da forma mais fácil possível. Cuidam dos temas de diferença cultural, valores e questões operacionais para tornar o processo o mais indolor possível sob o ponto de vista do omniconsumidor, que é o epicentro de tudo.

Esses são os bons exemplos da Magalu, Soma ou mais recentemente da Americanas e Arezzo por aqui, ou Ikea, Tesco e Walgreens, que evoluíram mais rapidamente na percepção da importância de transformar a organização de dentro para fora e de fora para dentro, simultânea e rapidamente.

2. Incorporação de ferramentas e recursos digitais na gestão do conjunto de negócios

Outro elemento importante da transformação digital das organizações e negócios envolve a necessária incorporação de ferramentas e recursos mais evoluídos e digitais para monitorar, avaliar e medir a evolução dos negócios e do desempenho do conjunto de todos os negócios de uma organização.

Aparentemente é um caminho simples de ser trilhado até por conta da crescente oferta de alternativas que vão das plataformas e sistemas de conhecimento e monitoramento, combinando potencialmente elementos analógicos e digitais. Sistemas integrados globais como Oracle, SAP, Zoho, Salesforce e mais os de origem local como Linx, Totvs, Vtex, ClearSale e muitos mais.

Sem falar nas perspectivas que se abrem com as opções No Code, permitindo que empresas criem soluções customizadas para sua própria realidade de forma mais rápida e com menores custos envolvidos.

São todos recursos avançados em suas propostas e de alguma forma “forçam” a evolução e transformação das organizações, das suas lideranças e de suas equipes pela lógica de sua estrutura e flexibilidade de recursos oferecidos. Sem falar em todo o processo da implantação em si que, usualmente, exige uma reciclagem ampla dos processos e dos profissionais envolvidos.

De alguma forma essas plataformas transcendem em sua proposta de controlar, informar e monitorar no que se propõem seja feito, pois aceleram a transformação da própria organização e sua cultura e sua comunicação interna e externa ao incorporar linguagem, recursos e lógica digitais, obrigando uma natural evolução cultural associada à sua finalidade específica.

3. Incorporação de instrumentos digitais na execução dos negócios analógicos

Em muitas organizações nascidas analógicas, a maior parte dos processos e operações é apoiada por instrumentos analógicos ou até mesmo alguns poucos digitais.

Isso é particularmente presente no mundo do varejo e do consumo com as operações de lojas, especialmente nos formatos mais tradicionais como supermercados, conveniência, hipermercados, cash and carry, lojas especializadas em material de construção, eletrônicos, moda e mais farmácias e drogarias.

E podem sobreviver e até expandir com a mesma lógica que viviam anteriormente.

Mas irão perdendo relevância e participação de mercado à medida que as novas gerações, predominantemente com comportamento e cultura digitais, atinjam maior participação no processo de decisão ou compra efetiva, em canais físicos ou digitais.

Daí a importância de buscar a inovação constante por meio de novos recursos que, ao mesmo tempo que racionalizam e facilitam, criem a dimensão da desejável expansão da experiência para o omniconsumidor.

Exemplos dessa prontidão em buscar alternativas para inovar, diferenciar e amplificar a experiência podem ser vistos na Nike, Ralph Lauren, Sephora em âmbito global e, no, Brasil no Boticário, Carrefour e Reserva.

Sem dúvida os ecossistemas chineses como JD.com, Alibaba e Tencent em suas operações de varejo e mais as plataformas exponenciais como Amazon, com Whole Foods e Amazon Go, assim como Boticário, Natura e Cacau Show, são geradores de benchmarks importantes nesse aspecto, ao adotarem inovações que integram experiências analógicas e digitais para avançarem e se diferenciarem incorporando às suas marcas essa componente importante de inovação e atualidade.

4. Evolução da cultura nascida analógica para uma cultura híbrida com digital

Este é um dos temas mais desafiadores nas discussões que envolvem a transformação digital.

Simples de enunciar, diagnosticar e desenhar modelos, como se sabe, tudo que envolve cultura organizacional e mudança de comportamento humano é mais complexo e difícil de implementar, em especial quando pressupõe mudanças de visão e atitude. E são limitadas todas as outras alternativas se não houver a necessária, ampla e irreversível mudança de comportamento e atitude que é o elemento mais importante dentre os vetores relacionados.

Por mais sensível que esteja a liderança em relação ao tema, quem nasceu analógico enfrenta naturais dificuldades para liderar na cultura digital. E a recíproca seguramente também é verdadeira.

Nesse vetor, os elementos que podem reduzir o desgaste envolvem a mixagem de culturas, a valorização da diversidade em todos os seus aspectos, o estímulo à inovação como atitude, a condescendência com erro quando na tentativa de acerto e muitos outros elementos mais.

Inegável que o diálogo, a tolerância, a conexão constante e assídua aos eventos e atividades que possam sensibilizar e direcionar a transformação e até a resignação em alguns aspectos são necessários.

Mas essa transformação da lógica dos negócios em ambiente digital comparativamente com a lógica daqueles nascidos analógicos é um desafio que muitas empresas e lideranças estão enfrentando nesse momento no mundo e também no Brasil, aprendendo no processo e buscando caminhos que indiquem a melhor forma de evoluir.

Em âmbito mais global, entre organizações e negócios em movimento positivo de evolução nesse caminho, do analógico para o híbrido analógico-digital, podemos incluir Walmart nestes últimos anos depois de sua reconfiguração organizacional, Costco, Walgreens Boots, Tesco, Ikea, Loblaw e Sonae, entre outros.

Se olharmos na realidade brasileira, merecem destaque Magalu, Via, Boticário, Americanas, Natura, Arezzo, Petz e Raia Drogasil, para ficarmos com aqueles que estão entre os maiores nos seus setores e que, mesmo durante a pandemia, fizeram movimentos estratégicos decisivos para promoverem sua transformação digital.

O tema é ainda inesgotável em seu aprofundamento, pois esse processo transformacional digital ocorre de forma intensa e global, acelerado em muitos aspectos pela pandemia da qual recém emergimos, e os movimentos se sucedem contínua e permanentemente, redesenhando a realidade desses setores no Brasil e no mundo.

Até por falta de opção e absoluta necessidade.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo e este artigo foi escrito com apoio de líderes do Ecossistema Gouvêa, a quem agradecemos o apoio e sugestões

https://mercadoeconsumo.com.br/2022/03/07/os-4-vetores-de-transformacao-digital-para-empresas-nativas-analogicas/

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Quantidade de plástico nos oceanos vai quadruplicar até 2050, diz estudo

É necessário agir agora para evitar uma catástrofe irreversível

Por André Sollitto Atualizado – Veja – 4 mar 2022

Em meados de 2015, o mundo se comoveu com um vídeo gravado na Costa Rica que mostrava o sofrimento de uma tartaruga marinha enquanto um biólogo usava alicates de metal para extrair de seu nariz um canudinho de plástico. As imagens viralizaram graças à firme disposição dos ativistas ambientais, que alertaram sobre o risco do uso excessivo do produto e do descarte inadequado nos oceanos. A justa indignação estimulou o surgimento de um movimento global de proteção da vida nos oceanos. Algumas das maiores redes de alimentos e bebidas do planeta, como McDonald’s, Burger King e Starbucks, deram os primeiros passos e abandonaram as versões plásticas, que passaram a ser substituídas por alternativas feitas de papel. Nos anos seguintes, conglomerados empresariais se comprometeram a reduzir o uso do material nas atividades industriais e governos criaram leis que restringiram a sua adoção. Era de supor, portanto, que os mares estivessem irremediavelmente no caminho da salvação. A realidade, porém, mostrou um cenário bem diferente.

POLUIÇÃO - Tartarugas marinhas: ingestão de lixo industrial põe em sério risco a população da espécie – EyeEm/Getty Images 

Apesar das boas intenções, as medidas tiveram pouco efeito prático. Um novo relatório da organização WWF, centrada na conservação e recuperação ambiental, mostra que a situação é dramática — e pode piorar. A partir da análise de 2 590 estudos, o documento adverte que até o fim do século uma área marítima duas vezes e meia o tamanho da Groenlândia terá excedido os limites ecologicamente perigosos de concentração de microplásticos. O cálculo é baseado na projeção de que a produção de plástico dobrará até 2040 e, com isso, o volume de resíduos jogados no mar terá quadruplicado até 2050. Os efeitos já são sentidos: 2 144 espécies encontraram resíduos plásticos em seu hábitat e 88% dos animais marinhos são impactados negativamente pelo lixo jogado no oceano. A conclusão: o plástico continua onipresente e, se não for contido, provocará estragos ainda maiores no planeta.

POUCO EFEITO - Canudo de papel em refrigerante do McDonald’s: medida louvável, mas ainda insuficiente – ./Divulgação 

“Eliminar a contaminação plástica do oceanos é muito complicado”, diz Heike Vesper, diretora do Programa Marinho da WWF Alemanha. “O plástico se degrada constantemente e, portanto, permanece nos mares por anos a fio.” A situação é dramática, mas nem tudo está perdido. Não há muito que fazer a respeito da degradação iniciada no passado, mas é possível criar mecanismos no presente que protejam o meio ambiente no futuro. 

Segundo especialistas, uma medida decisiva seria reduzir a zero a produção de plástico virgem a partir de combustíveis fósseis. O Brasil, contudo, parece ir na direção contrária. Um levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) aponta que, em 2020, o país concedeu 124 bilhões de reais, ou 2% do PIB, em subsídios aos combustíveis fósseis, 25% a mais do que em 2019.

Ninguém duvida da relevância do plástico na sociedade moderna — e seu uso hospitalar, durante a pandemia, tem se mostrado vital —, mas ele só poderá continuar a ser usado em larga escala se os efeitos deletérios não ameaçarem o ambiente. Um caminho possível é investir na produção de alternativas, como o bioplástico feito a partir de fontes renováveis de biomassa, mercado em que o Brasil tem enorme potencial. Iniciativas como a coleta, reciclagem e reintrodução de embalagens na cadeia produtiva também são louváveis. Tudo isso depende da boa vontade de governos, empresas e dos próprios cidadãos. 

A pressão pela mudança existe. Dois milhões de pessoas assinaram uma petição da WWF defendendo a adoção de um tratado global sobre o tema, e o documento recebeu apoio de 100 empresas multinacionais e 700 organizações da sociedade civil. A Assembleia da ONU para o Meio Ambiente se reuniu nesta semana em Nairóbi, no Quênia, para debater um acordo sobre a poluição plástica que pode definir os rumos da política ambiental. O futuro da vida nos oceanos depende de um compromisso imediato. As tartarugas agradecem — e nós, bípedes supostamente inteligentes, também.

Publicado em VEJA de 9 de março de 2022, edição nº 2779 

https://veja.abril.com.br/ciencia/quantidade-de-plastico-nos-oceanos-vai-quadruplicar-ate-2050-diz-estudo/

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Guerra torna ‘soberania digital’ mais relevante

“Internet paralela” e isolada do restante do mundo ajuda Rússia a enfrentar sanções, dizem especialistas

Por Denis Kuck — Valor 07/03/2022 

A Rússia construiu, principalmente depois das revelações do ex-agente americano Edward Snowden, um sistema de comunicações batizado de ru.net que pode funcionar desconectado da internet comercial global, o que permite ao país manter alguns serviços digitais aos cidadãos e se proteger de ataques cibernéticos. Essa rede independente, dizem especialistas, foi montada por questões estratégicas e de proteção em casos de conflito, como agora na guerra com a Ucrânia.

Luca Belli, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que as sanções internacionais impostas contra Moscou pela invasão à Ucrânia são mais fortes do que se imaginava, mas esse sistema de comunicações ajuda a Rússia a “sobreviver” ao isolamento, ainda que com dificuldade.

Para Claudio Miceli de Farias, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a questão da “soberania digital” terá que ser enfrentada nos próximos anos pelos Estados, inclusive o Brasil, tendo em vista a maior importância da conectividade no dia a dia e, até mesmo, nas crises geopolíticas.

“O Snowden não está de férias na Rússia”, diz Belli, que é professor da FGV Direito Rio e coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV. Após revelar, em 2013, segredos de espionagem dos Estados Unidos – que envolveria até mesmo a intercepção de comunicações da ex-presidente Dilma Rousseff -, o ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança (NSA) buscou exílio na Rússia.

“Os russos entenderam que eram vulneráveis e estão construindo, há pelo menos oito anos, a possibilidade de desconectar seu segmento da internet global”, diz Belli. “É questão de política pública de cibersegurança. A abertura da internet poderia causar vulnerabilidades, sobretudo em caso de conflito. No exílio, Snowden ajuda os russos a identificar esses riscos.”

Farias explica que a internet é uma “rede de redes”, com diversos provedores operando ao redor do mundo. “Países como Rússia e China, no entanto, têm controle maior do tráfego de sua rede e, caso se desliguem da internet, têm uma estrutura interna de comunicação, aplicativos e serviços”, diz o professor do Instituto Tércio Pacitti e do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da UFRJ.

A capacidade de se desligar da rede global garante a manutenção de alguns serviços em caso de sanções tecnológicas, aplicadas contra a Rússia desde 2014, após anexação da Crimeia. À época, o sistema Visa e Mastercard foi bloqueado na região, o que fez Moscou adotar um sistema de pagamento eletrônico próprio, chamado Mir.

“Imagina o imposto de renda. Se o cidadão quer entregar a declaração, isso não é afetado pelo fato de não haver internet externa. Não ter essa dependência de infraestrutura é algo muito poderoso”, afirma Farias.

Essa resistência, no entanto, não é ilimitada. Para Belli, as sanções internacionais contra Moscou podem ter sido mais fortes do que o presidente russo, Vladimir Putin, previa. “A Rússia se preparou para continuar a funcionar, diminuindo a dependência da tecnologia estrangeira. Porém, os russos estão vendo como fazer isso é difícil, eles não têm uma autonomia total, como a China”, diz. Belli pesquisa e organiza um estudo sobre cibersegurança nos países do Brics.

Para Farias, a digitalização de todos os setores da sociedade, inclusive de segurança, será aprofundada com o 5G e vai obrigar os países a elaborar políticas públicas de “soberania digital”. Segundo ele, os Estados Unidos também têm essa preocupação: “Apesar de [os EUA] serem superabertos e da disputa acirrada das operadoras, há um controle estatal sobre a infraestrutura de comunicação”, diz.

Integrantes das Forças Armadas do Brasil discutem o assunto, mas o tema não é uma questão de Estado, diz Farias. “Não vemos isso como um problema. Ainda. Essa pode ser uma das consequências desse conflito: os países olharem para sua infraestrutura de tecnologia da informação e enxergarem um desafio para as próximas décadas. Até onde vai a internet comercial e até onde vai uma internet de valor, estratégica para o país”, diz.

Farias ressalta que o Exército brasileiro tem uma rede separada da internet comercial. “Isso é o que podemos chamar de deep web, sempre associada a ataques hackers, a algo negativo, mas que, na verdade, pode ser apenas outro tipo de estrutura”, afirma.

Para Belli, na Europa, a questão da “soberania digital” passou a ser mais discutida recentemente. “Eles se deram conta de que são totalmente dependentes da tecnologia americana.” No Brasil, o pesquisador afirma que o assunto foi abandonado. “O país promovia a tecnologia de software livre, que evita a dependência tecnológica, é libertadora. Atualmente, há o uso maciço de softwares americanos.”

Danilo Bragança, doutor em ciência política pela Universidade Federal Fluminense e especialista em defesa, diz que o Exército brasileiro passou a desenvolver programas institucionais para garantir certa autonomia digital, sobretudo após o caso Snowden. “Foi criado um centro de defesa cibernética. Mas nosso sistema é frágil, os recursos são poucos. O país não se deu conta da importância do assunto, tanto no âmbito de governo civil, haja vista o vazamento de dados como os do Sistema Único de Saúde, como militar.”

Bragança diz que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ganhou proeminência sob o governo do presidente Jair Bolsonaro, assumindo funções de defesa cibernética que, segundo o especialista, deveriam ser do Exército, segundo a Política Nacional de Defesa (PND) e a Estratégia Nacional de Defesa (END).

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/03/07/guerra-torna-soberania-digital-mais-relevante.ghtml

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