Ferramentas como blockchain e NFTs já são usados em diferentes negócios e no setor público. Entusiastas veem revolução na economia e até na democracia
Rennan Setti – O Globo – 13/02/2022
RIO – Criadas por aficionados da tecnologia no pós-crise global, as criptomoedas saíram do casulo da utopia digital e começam a moldar o mundo real a sua imagem e semelhança. De lojas e até imobiliárias que aceitam pagamentos em moeda virtual às recompensas financeiras em bitcoin, de torcedores que financiam seus clubes comprando criptomoedas à febre dos NFTs (tokens não fungíveis, na sigla em inglês), a tecnologia está virando fato consumado do cotidiano.
Essas aplicações, porém, são tímidas perto das ambições de criptoentusiastas. Eles veem no blockchain — a arquitetura tecnológica por trás das moedas virtuais — o potencial de transformar radicalmente a economia e até a democracia.
Avaliadas atualmente num total equivalente a R$ 10,2 trilhões, as criptomoedas já são aceitas por mais de 15 mil negócios no mundo, segundo estimativa da fintech americana Fundera. Mas esse é apenas um naco de sua presença no dia a dia — e o fenômeno dos cashbacks em cripto atesta a popularidade da tecnologia, irresistível o bastante para servir de ferramenta de marketing.
No Brasil, usuários do app de pagamento InfinitePay recebem R$ 1 milhão por mês em criptomoedas como cashback quando quitam contas on-line. Já o 99Pay — que ofereceu compra e venda de bitcoin em plena Praia de Ipanema, no Rio, em ação publicitária no fim do ano passado — deu cashback na moeda virtual quando passou a permitir sua negociação na plataforma.
— Os nativos digitais têm interesse por criptomoedas, mas enxergam barreiras. Nosso plano foi democratizar. Além disso, como o preço do bitcoin flutua, ele acaba sendo um motivo para o usuário abrir várias vezes a carteira digital — disse a diretora de marketing da 99Pay, Clarissa Brasil. — O cashback acontece por meio de campanhas. É mais sexy dar bitcoin do que reais.
Tecnologia por trás de moedas virtuais avança em outras aplicações. Foto: Akos Stiller / Bloomberg
Embora a construtora Tecnisa aceite bitcoins desde 2014, só agora as criptomoedas estão se tornando mainstream no mercado imobiliário.
A Elite International Realty, corretora fundada por brasileiros em Miami, passa a aceitar moedas digitais neste ano. O clique veio quando o diretor Daniel Ickowicz soube que o empresário Roberto Justus recebeu moedas digitais na venda de um imóvel na cidade americana. Ickowicz procurou a paulistana Unblock Capital, que assessorou Justus na transação, e fechou parceria.
— O cara que comprou bitcoin lá atrás está cansado de ouvir da família que comprou vento. Ele tem ego. Quando ele aparece com um apartamento em Miami comprado com criptomoeda, enxerga valor — diz Ickowicz.
Mais do que as criptomoedas em si, o que agrada seus entusiastas é o blockchain. Ele é um banco de dados que guarda informações — como transações com criptomoedas — de maneira descentralizada.
Em vez de o registro ser operado por uma autoridade central, como uma empresa de cartão de crédito ou um governo, ele é administrado por todos os computadores que estão plugados à rede.
Todos os computadores têm uma cópia dos registros, impedindo adulterações. Isso pode permitir a eliminação de intermediários — cartórios, por exemplo — sem prejuízo da segurança.
Terrenos digitais
Loja em El Salvador: no mundo, 15 mil negócios aceitam Bitcoin Foto: MARVIN RECINOS / AFP
É por meio dessa arquitetura que start-ups exploram, no mercado imobiliário, soluções mais sofisticadas que a simples transação em si. Em novembro, a carioca Growth Tech estruturou a venda de um imóvel na planta por meio de blockchain em Minas Gerais.
O comprador pagará R$ 3 milhões em parcelas, mas a incorporadora RKM vai antecipar o valor emitindo criptoativos lastreados no fluxo de mensalidades. O dinheiro viabilizará a construção do empreendimento.
A tecnologia também torna o mercado imobiliário mais etéreo. A nova-iorquina Republic Realm comprou, em novembro, 800 hectares da Atari por US$ 4,3 milhões.
O terreno digital fica numa das áreas mais centrais do Sandbox, um jogo on-line. A transação imobiliária foi a maior já registrada no chamado metaverso, espaço que conecta mundos físico e digital e movimentou US$ 501 milhões em 2021.
Este ano, a venda de terras que não existem no mundo real deve bater US$ 1 bilhão.
O Sandbox faz parte do fenômeno dos NFTs, que são registros de propriedade para ativos digitais por meio do blockchain. É ele que distingue esse mercado dos gaiatos que vendem terrenos na Lua.
Como as informações registradas nele são imunes à adulteração, é possível provar quem é dono daquele pedacinho do metaverso. O blockchain inviabiliza “grileiros digitais”, portanto. Popular no mercado de arte digital, os NFTs vão valer US$ 35 bilhões este ano, segundo o banco Jefferies.
Metaverso: Ambiente que mescla físico e virtual é a nova aposta de Zuckerberg Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso idealizado por Zuckerberg, mundos virtuais em 3D poderão se conectar com experiências reais Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, corpos físicos se misturam com avatares e público poderá curtir um evento sem que o espaço físico limite o tamanho do público no local Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, fronteira entre o físico e o digital é interrompida Foto: Reprodução/FacebookNo novo ambiente ‘metaversal’, artes serão em 3D e poderão proporcionar experiência imersiva Foto: Reprodução/Facebook
No metaverso, ações do mundo físico podem ser reproduzidas no mundo digital e vice-versa Foto: Reprodução/FacebookExperiência imersiva deve mudar a forma como realizamos compras Foto: Reprodução/Facebook
Internet do futuro
As criptomoedas também invadem o esporte por meio dos fan tokens emitidos por clubes de futebol, que dão aos torcedores a chance de votar em decisões do time ou participar de promoções. Corinthians, Flamengo e Atlético Mineiro já lançaram os seus, e há vários outros na fila. Mas o fenômeno é global.
A corretora Mercado Bitcoin tem participado do lançamento desses tokens em parceria com a Socios, que já fez isso com times como o Paris Saint-Germain.
— O fan token é uma evolução do sócio-torcedor, com a vantagem de ser global. Você pode se beneficiar do token do PSG estando no Brasil, participar da escolha da nova camisa e de mensagens no vestiário do time, por exemplo — conta Reinaldo Rabelo, diretor executivo do Mercado Bitcoin.
NFT: Visitante fotografa obra de arte física para cópias digitais autenticadas Foto: Luke MacGregor / Bloomberg
O blockchain também dá à luz a internet do futuro. A Helium é uma rede de roteadores que compartilham conexão doméstica. O objetivo é proporcionar cobertura gratuita para objetos conectados, de sensores de iluminação pública a coleiras pet inteligentes. Em troca, quem compartilha sua internet ganha as criptomoedas HNTs, que já valem R$ 17 bilhões no mercado.
Há 560 mil roteadores da Helium no mundo, mas só algumas centenas no Brasil. Uma start-up do Porto Maravilha, no Rio, quer ocupar esse espaço. A Illios acaba de receber US$ 800 mil da gestora Fuse Capital para desenvolver seu próprio roteador e certificá-lo na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
— O plano é ter o roteador pronto este ano e espalhar pelo menos mil pelo Brasil — explica o sócio Lucio Netto.
Democracia participativa
A tecnologia blockchain pode, ainda, aprimorar a democracia, especulam pesquisadores. Um exemplo é o app Mudamos, que recolhe assinaturas para projetos de lei de iniciativa popular. Os apoios são registrados no blockchain, que garante que ninguém pode assinar o documento mais de uma vez e permite a verificação.
O app foi criado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS-Rio), que tem outro projeto mais radical: usar o blockchain para implementar o “voto quadrático”.
Esse modelo permite ao eleitor dividir suas preferências políticas entre vários candidatos e pune votos polarizados, diminuindo o peso dos que se concentraram numa única opção. No fim de 2021, o ITS-Rio testou a ferramenta na Câmara de Vereadores de Gramado (RS).
Ajudou na escolha das prioridades do ano legislativo e na destinação de emendas. O Tribunal Superior Eleitoral está atento e, no projeto Eleições do Futuro, realizado em 2020, fez testes com blockchain.
— O blockchain tem um potencial disruptivo para a democracia. Ele empodera os cidadãos, é radicalmente aberto à auditoria e elimina intermediários. Em tese, pode ser aplicado a qualquer eleição — diz Ana Carolina Benelli, pesquisadora do ITS-Rio.
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Uma das siglas mais famosas do Brasil e do mundo, o ESG se refere a questões ambientais, sociais e de governança corporativa. Entenda em detalhes por que ele ganhou relevância nos últimos anos
Por Naiara Bertão, Valor Econômico e O Globo — 21/02/2022
O interesse de busca pelo termo ESG no Brasil praticamente triplicou nos últimos 12 meses até fevereiro de 2022. As buscas pelo tema cresceram 150% na comparação aos 12 meses anteriores, de acordo com levantamento do Google Trends feito a pedido do Valor. O Brasil foi o país latino-americano que mais pesquisou pela sigla ESG nos últimos 12 meses e um dos 25 países no mundo que mais buscou pela temática no período.
Em 2021, o interesse em ESG bateu recorde no país; ou seja, nunca os brasileiros buscaram tanto pelo assunto quanto no ano passado! Mas será que todos sabem o que é, de fato, ESG, sua origem e importância, especialmente para empresas? Este artigo se propõe a explicar essas questões.
O que significa ESG?
Primeiramente, vale entender o que significa cada letra do acrônimo “ESG”. A sigla vem do inglês Environmental (Ambiental, E), Social (Social, S) e Governance (Governança, G). No Brasil, também nos referimos a ela como ASG. Conheça em detalhes:
Environmental ou Ambiental: refere-se às práticas da empresa ou entidade voltadas ao meio ambiente. Entram aqui temas como aquecimento global; emissão de gases poluentes, como o carbono e metano; poluição do ar e da água; desmatamento; gestão de resíduos; eficiência energética; biodiversidade; entre outros.
Social: relaciona-se à responsabilidade social e ao impacto das empresas e entidades em prol da comunidade e sociedade. Majoritariamente se refere a temas como respeito aos direitos humanos e às leis trabalhistas; segurança no trabalho; salário justo; diversidade de gênero, raça, etnia, credo etc.; proteção de dados e privacidade; satisfação dos clientes; investimento social; e relacionamento com a comunidade local.
Governance ou Governança: está ligado às políticas, processos, estratégias e orientações de administração das empresas e entidades. Entram no tema, por exemplo, conduta corporativa; composição do conselho e sua independência; práticas anticorrupção; existência de canais de denúncias sobre casos de discriminação, assédio e corrupção; auditorias internas e externas; respeito a direitos de consumidores, fornecedores e investidores; transparência de dados; remuneração dos executivos; entre outros. Está intimamente ligado aos dois outros termos (Social e Ambiental), por ser quem dita, orienta, fiscaliza e reporta as práticas sustentáveis (ou não).
Como surgiu o termo ESG
O termo foi cunhado em 2004 em um relatório feito pelo Pacto Global, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) que tem o objetivo de engajar empresas e organizações na adoção de princípios nas áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção, em parceria com o Banco Mundial, chamada “Who Cares Wins” (em tradução livre, “Ganha quem se importa”). Na publicação, o então secretário-geral da ONU Kofi Annan provoca 50 presidentes de grandes instituições financeiras sobre como integrar fatores sociais, ambientais e de governança no mercado de capitais.
No mesmo período também foi lançado o relatório Freshfield pela UNEP-FI, documento da Iniciativa Financeira do Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP FI) encomendado a um dos maiores escritório de advocacia do mundo, o Freshfields. A publicação analisa a importância da integração do ESG como uma forma de avaliar financeiramente uma empresa.
A sigla ESG passou, então, aos poucos, a ser usada no lugar do termo Sustentabilidade em diversos fóruns de discussão, relatórios e pesquisas. Tornou-se uma forma de se referir ao que empresas e entidades estão fazendo para serem socialmente responsáveis, ambientalmente sustentáveis e administradas de forma correta.
O que é ESG?
O ESG é muito mais do que a tradução de sua sigla. Tem se tornado sinônimo de responsabilidade socioambiental, reputação e credibilidade para as empresas. Além disso, os critérios ESG estão totalmente relacionados aos chamados ODSs (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), termo cunhado pela ONU para se referir aos 17 macrotemas que representam os desafios e vulnerabilidades que precisam ser endereçados por todos até 2030 para caminharmos no desenvolvimento sustentável do mundo.
Segundo o Pacto Global, o ESG nada mais é do que a própria sustentabilidade empresarial. “Uma empresa que está em conformidade com práticas ESG entende quais são seus impactos negativos e positivos na sociedade e consegue agir sobre eles. É necessário minimizar os negativos e potencializar os positivos, assim como equacionar os prejuízos já provocados.”
De um lado, há benefícios corporativos cada vez mais evidentes. Segundo uma pesquisa feita em 2017 pela consultoria The Boston Consulting Group (BCG), empresas com desempenho superior em áreas ambientais, sociais e de governança (ESG) apresentam margens de valorização mais altas do que as que não se preocupam muito em incorporar questões ESG em seus negócios.
Uma pesquisa realizada pelo Global Network of Director Institutes (GNDI) mostrou que 85% dos quase 2 mil conselheiros consultados acreditam que, no longo prazo, teremos maior foco em questões ESG, de sustentabilidade e de geração de valor para as partes interessadas (os “stakeholders”).
Já a consultoria McKinsey apontou em outra pesquisa que 83% dos líderes executivos e profissionais de investimento esperam que os programas ESG contribuam com o aumento de valor para os acionistas nos próximos cinco anos. De outro, as questões ESG passaram a ser consideradas essenciais nas análises de riscos e nas decisões de investimentos de bancos, fundos de pensão, gestoras de investimentos, investidores internacionais e até os pequenos bolsos, o que coloca forte pressão sobre o setor empresarial.
Segundo relatório da consultoria e auditoria PwC, 57% dos ativos de fundos mútuos na Europa estarão em investimentos que consideram os critérios ESG até 2025. Isso representa cerca de US$ 8,9 trilhões. Além disso, 77% dos investidores institucionais pesquisados pela PwC disseram que planejam parar de comprar produtos não ESG nos próximos dois anos.
O que se busca é uma incorporação de métricas ESG com as tradicionais, financeiras e operacionais, das empresas. Assim, é possível ver de forma holística o comprometimento da empresa com a temática e avaliar os riscos futuros do negócio.
O que é capitalismo de stakeholder?
O ESG é frequentemente ligado a outra expressão: o capitalismo de stakeholders. Este nada mais é do que a integração da geração de valor econômico com a preocupação com as questões ambientais, sociais e de governança corporativa.
O “capitalismo de stakeholders” é o modelo de negócio em que a empresa se preocupa em contribuir com o desenvolvimento de toda a sociedade e não apenas para seu resultado financeiro (lucro para os acionistas), que é o tradicional “capitalismo de shareholders”.
Isso deixa claro que o mundo vive o início de uma nova na forma de fazer negócios. Será cada vez mais necessário as empresas mostrarem sua responsabilidade e comprometimento com o mercado que atuam, seus consumidores, fornecedores, colaboradores, comunidades vizinhas, governos, mídia, organizações da sociedade civil e seus investidores (os “stakeholders”). Do contrário, poderão perder receitas, serem alvo de boicotes de consumidores, se tornarem menos competitivas e até virarem obsoletas.
Triple Bottom Up
Ter uma relação saudável e sustentável com recursos naturais e a sociedade, mas sem deixar de pensar no lucro é o principal desafio das empresas hoje que entendem que é importante aumentar o grau de engajamento ESG. Essa combinação é a base de outro conceito importante e muito discutido hoje: o Triple Bottom Line (TBL).
O TBL – também conhecido em português como Tripé da Sustentabilidade – foi criado pelo sociólogo britânico John Elkington em 1994 e ele estabelece que os desempenhos social e ambiental deveriam ser incorporados às demonstrações de desempenho financeiro das empresas. O método se baseia em três princípios: People (Pessoas), Planet (Planeta), Profit (Lucro) – conhecido como os “3Ps da Sustentabilidade”.
Cartas do Larry Fink
Larry Fink, presidente da gestora americana BlackRock, uma das maiores do mundo, é um dos protagonistas da agenda ESG para os investimentos. Foi em 2016 a primeira vez que ele mencionou a necessidade de as empresas olharem para fora de suas próprias paredes e levar em consideração fatores ambientais e sociais. Ao longo dos últimos anos vem trazendo argumentos de como a integração do E (econômico) com o ESG é relevante para quem quer ganhar dinheiro também.
A análise da evolução do tom e das questões levantadas em suas cartas mostram a evolução da própria temática ESG. Até poucos anos atrás, a questão da governança corporativa (G), respeito a investidores minoritários e corrupção eram prioritários. O meio ambiente (A) ganhou espaço à medida que o aquecimento global e seus impactos foram ganhando os holofotes para além da academia. Agora, a nova fronteira está no social (S), que precisa avançar para além dos temas de diversidade e inclusão e combate ao trabalho escravo.
Em agosto de 2019, a Business Roundtable, associação que reúne as maiores corporações dos Estados Unidos, lançou um manifesto assinado por 181 CEOs de grandes empresas americanas reafirmando o compromisso dessas companhias com todos os seus stakeholders e com o bem-estar social. Na Declaração sobre o Propósito de uma Corporação, eles afirmam que a era do lucro acima de tudo estava chegando ao fim e deveria dar lugar a um novo capitalismo, mais centrado nos públicos com os quais as empresas interagem. Isso mostra que há um movimento de engajamento voluntário das empresas e sociedade com um novo padrão moderno de responsabilidade corporativa.
Como medir padrões ESG?
Apesar de ser um tema guarda-chuva, ESG pode ser desmembrado em inúmeras outras questões e, nos últimos anos, diversas organizações internacionais se propuseram não só a detalhá-lo, como também compilar indicadores que possam medir o nível de engajamento de empresas de diferentes setores em cada item.
Para demonstrar suas práticas em ESG, as organizações precisam compilar, medir e divulgar essas informações, que, na maioria, são não-financeiras. O grande obstáculo hoje é como medir esse impacto e o avanço nas boas práticas ESG.
Dentre os principais “frameworks”, como são chamados os conjuntos de indicadores que se propõem a apresentar o nível de comprometimento ESG, estão: Global Reporting Initiative (GRI), Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD), Climate Disclosure Standards Board (CDSB), Sustainability Accounting Standards Board (SASB), International Integrated Reporting Council (IIRC), International Organization for Standardization (ISO 14001), The Prince’s Accounting for Sustainability (A4S), entre outros. Ainda se discute uma padronização única.
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Mais escolarizados, jovens produtores rurais investem pesado em tecnologia e inovações que vão da robótica à biotecnologia e fazem diferença na produtividade
João Sorima Neto – O GLOBO – 20/02/2022
SÃO PAULO — Uma geração mais jovem de agricultores acelera a digitalização no campo. Abertos às novas tecnologias, eles são mais instruídos — a proporção com ensino superior subiu de 23,6% em 2016 para 30,1% atualmente —, querem se fixar no campo em vez de migrar para grandes cidades e busca profissionalização em todas as áreas: da administração das fazendas à aplicação de defensivos.
Também são entusiastas da tecnologia e introduzem nas propriedades inovações que vão de robótica e drones autônomos a aprimoramento molecular de variedades agrícolas, passando por forte investimento em conectividade. E os efeitos já começam a aparecer em avanços na produtividade do campo.
Essas são algumas das conclusões de uma pesquisa inédita da CropLife Brasil, associação que reúne empresas de sementes, biotecnologia, defensivos e produtos biológicos, e da consultoria EY.
Ana Paula Franciosi, de 23 anos, mergulhou no cotidiano das seis fazendas de sua família na Bahia, para onde voltou após se formar em administração em Porto Alegre Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo
O levantamento, que ouviu 384 produtores, revela que mais de 94% têm a internet no cotidiano, com o WhatsApp como a principal ferramenta para gerir fazendas, fazer negócios e trocar informações com os pares.
— Nossa geração é mais aberta a essas novas ferramentas — diz Gilberto Fillipini, de 46 anos, que produz cana de açúcar na região de Holambra (SP). — Montamos um grupo de WhatsApp para monitorar as chuvas na região. Meu pai não teria condições de lidar com tantas tecnologias, mas, hoje, quem não se profissionalizar está fora do mercado.
Ele e o irmão Luiz Fillipini decidiram dar continuidade ao negócio do pai e se fixar no campo. Gilberto sempre trabalhou com a lavoura e acabou não fazendo faculdade na juventude. Em 2020, conseguiu realizar o sonho do diploma. Concluiu o curso superior de gestão do agronegócio.
O irmão, de 42 anos, estudou fisioterapia, chegou a atuar na área, mas desistiu da profissão e retornou à propriedade para trabalhar com a família atraído pelas oportunidades do agronegócio. Descobriu o que considera ser uma vocação.
produtores acelera transição tecnológica no campo
Mais escolarizados, jovens produtores rurais investem pesado em tecnologia e inovações que vão da robótica à biotecnologia e fazem diferença na produtividade
Os irmãos Gilberto Fillipini e Luiz Cesar Fillipini, diante o trator de pulverização via GPS: produtores de cana em Holambra, no interior de São Paulo, eles resolveram fazer faculdade, mas permanecer no campo, e se tornaram entusiastas de novas tecnologias Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo
Mais preparados e conectados
Desinteresse pela cidade
Sempre de olho nas novidades, os irmãos usam drones para detectar pragas na plantação e fazer uma pulverização cirúrgica, apenas nas áreas atacadas, reduzindo danos ao meio ambiente. Investiram em pulverizadores com GPS, mais eficientes, e buscam cada vez mais utilizar produtos biológicos para controlar pragas.
Mario Roberto Moraes, na porteira da propriedade em que cultiva laranjas: ele se tornou um especialista em pragas que atracam cítricos e, como a maior parte dos agricultores de hoje, usa o celular para se informar e gerenciar negócios Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo
A pesquisa mostra que, nas grandes propriedades, 60% dos filhos de agricultores não pretendem ficar no campo. Esse percentual é mais elevado que em outros países onde o agronegócio também tem peso forte na economia, como Austrália e EUA.
Também foram ouvidos trabalhadores operacionais, que estão no dia a dia das lavouras, e não apenas aqueles que tomam decisões. Nesse grupo, os que não pretendem migrar são 56%.
Transição familiar
Ana Paula Franciosi, de 23 anos, quer profissionalizar a administração das fazendas da família na cidade baiana de Luís Eduardo Magalhães. Ela se formou em administração em Porto Alegre e voltou à Bahia, onde já trilha o caminho para essa transição com a irmã e dois primos.
Os irmãos Gilberto Fillipini e Luiz Cesar Fillipini, no trator de pulverização via GPS: produtores de cana de Holambra (SP) são entusiastas da tecnologia no campo Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo
Eles mergulharam no dia a dia da produção de soja e algodão de seis propriedades. Introduziram novidades como monitoramento de chuvas, de solo e controle dos pivôs de irrigação por meio de plataformas digitais. Usam termômetros para medir a temperatura dos silos e assim evitam a perda de produtos.
A produtividade das máquinas colheitadeiras é avaliada por informações armazenadas num pendrive. Eles montaram um time de 14 pessoas, que inclui profissionais de TI e monitoramento, só para gerir toda essa tecnologia.
— Gostamos de testar novidades. Agora mesmo estamos utilizando um sistema de luz roxa nos pivôs de irrigação. A luz simula o sol e faz com que a planta continue fazendo fotossíntese à noite. É mais uma ferramenta para aumentar a produtividade — conta Ana.
A digitalização já é uma realidade em toda a cadeia produtiva do agronegócio, aponta a pesquisa. Novas tecnologias alteram o cotidiano não só nas fazendas, mas também em municípios que têm muitas atividades agrícolas.
A maior produtividade leva a salários mais altos e a demanda por serviços movimenta a economia local e também universidades, diz Roberto Araújo, Roberto Araújo, Gerente de Educação e Boas Práticas Agronômicas da CropLife Brasil:
— É um agricultor que busca a profissionalização em todos os sentidos e sempre está procurando novas ferramentas e treinamentos digitais. É um perfil que quer continuar tocando o negócio fundado pelo pai, diferentemente do filho de fazendeiro que, no passado, ia embora estudar na cidade.
Drones em toda parte
O engenheiro agrônomo Mário Moraes, de 54 anos, tem especialização e mestrado em citricultura. Participou de pesquisas sobre novas pragas e até se tornou consultor no tema.
Mario Roberto Moraes diante mapa realizado por drone para indicar forma mais produtiva para o plantio de laranjas Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo
Ele produz laranjas em Conchal (SP). Para o plantio numa nova área de 32 hectares, usou mapeamento feito por drones, para chegar à melhor forma de aproveitar a área.
— O drone sobrevoa o terreno e mapeia com precisão de centímetros a melhor maneira de fazer o plantio e aproveitar ao máximo a área — conta.
O levantamento da CropLife Brasil e da EY mostra que os drones estão em toda parte no campo. Os produtores também se interessam cada vez mais por conectividade.
Estão ansiosos pela chegada do 5G, a nova geração de telefonia móvel, para ampliar investimentos em objetos conectados (internet das coisas) e robótica, entre outras aplicações. Tecnologias de descarbonização estão no radar pelo lado da sustentabilidade e as estratégias comerciais não dispensam o e-commerce e as fintechs.
As inovações da biotecnologia também atraem. Enquanto o Congresso divide opiniões com o avanço de um projeto de lei que libera a produção de defensivos agrícolas genéricos, a pesquisa revelou que os jovens produtores estão mais atentos às preocupações do consumidor mais informado sobre questões ambientais.
Enquanto velhas práticas ainda perduram, uma parte dessa nova geração do campo, mostrou o levantamento, já começou a incorporar o uso de defensivos biológicos e outras soluções da biotecnologia aliadas a melhores práticas socioambientais.
Números do Ministério da Agricultura mostram que, entre 2019 e 2020, o registro de defensivos biológicos avançou 135%.
Inovações ajudam país a atender alta demanda por alimentos
Digitalização do agro também chega pelas criptomoedas, e produtores facilitam captação de recursos para a produção Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo
Estimativas da agência da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO) mostram que o Brasil terá um papel central no atendimento à demanda global por alimentos, que deve aumentar em 50% até 2050.
Em quatro décadas, o Brasil se transformou em uma das maiores potências agrícolas do planeta, e a tecnologia teve papel fundamental.
Em 1980, o país produziu pouco mais de 52 milhões de toneladas de grãos. Em 2020, foram quase 257 milhões. No mesmo período, a área plantada cresceu só 56%. Para Daniela Sampaio, sócia da EY especializada em agronegócio, as inovações introduzidas pela nova geração de produtores já faz diferença na produtividade:
— Essa nova geração tem cabeça mais aberta para a tecnologia, sabe que traz melhores práticas e aumenta a produtividade. Isso favorece o posicionamento do Brasil no setor agora e nos próximos anos.
Quando o Talibã recuperou o controle do Afeganistão em 2021, a ONU afirmou que a crise provocara uma fuga de 3,5 milhões de pessoas, deixando os que permaneceram imersos no “colapso dos serviços de saúde”, conforme análise da própria OMS. Mas, enquanto muitos grupos de saúde deixavam o país, uma instituição de caridade com alguma experiência em tecnologia digital em saúde, continuou operando com serviços de telemedicina. Apesar da deterioração das redes de comunicação, o instituto Arian Teleheal ofereceu aos médicos locais acesso a teleconferências com 150 especialistas médicos espalhados por todo o mundo (voluntários). Mesmo usando tecnologia ‘cotidiana’, como canais de mídia social e smartphones, a instituição manteve-se no ar. Palwasha Anwari, médica nascida no Afeganistão e que deixou o país em novembro, expressa a importância desse ‘fio de esperança conectiva’: “A telemedicina não vence a guerra, mas traz uma vitória rápida, principalmente para os serviços de diagnóstico e para o primeiro atendimento de casos incomuns. Ela traz aos pacientes alguma esperança, mas, principalmente, mostra aos médicos que ficaram no país, muitos deles em estado de trauma, que não estão sozinhos, que não foram abandonados e que estamos mais perto deles do que imaginam”. A remotelização dos cuidados de saúde, principalmente no primeiro atendimento, é uma colossal conquista da prática médica neste século.
Nesse contexto, inúmeras organizações públicas e privadas emergiram à superfície dos Sistemas de Saúde, como, por exemplo, o serviço híbrido da Amazon Care, o braço de atendimento à saúde de uma das três maiores bigtechs do planeta. Ela anunciou em fevereiro de 2022 a sua expansão por todo os EUA. Seus serviços que já estavam em 20 cidades alcançam agora mais 20, caminhando para ser “on-demand em todos os 50 estados do país”. Lançado em 2019 como um programa piloto só para os funcionários da empresa, em março de 2021 foi aberto a todas as corporações empregadoras dos EUA, disponibilizando serviços de atendimento domiciliar virtual e presencial (este, já disponível em 9 cidades). Na trilha da Covid-19, os serviços de saúde da América do Norte passam por reformas. Todos aprenderam, erraram, acertaram e se preparam agora para garantir a sua fatia num mercado de “4 trilhões de dólares”. Quando escrevemos há oito anos que o setor de saúde “era inevitavelmente atrativo para os grandes players de tecnologia” houve descredito, principalmente por parte dos incumbentes do setor. Hoje, um usuário do serviço Amazon Care acessa seu aplicativo de atendimento digital, utiliza vídeo-consulta, recebe prescrições de medicamentos (entregues pela Amazon Pharmacy), pode ser atendido em sua residência, realiza testes domiciliares e já recebe até serviços de vacinação. Centrado na Atenção Primária, a empresa atende hoje mais de 1,3 milhões de usuários, oferecendo uma plataforma tecnológica (B2B) que além do Amazon Care inclui: (1) o Alexa Care Hub, uma assinatura que ajuda os cuidadores a fornecer suporte remoto à idosos (US$ 20/mês); (2) o vestível de pulso Halo, para rastreamento da saúde; e (3) o Amazon HealthLake, um serviço que oferece às empresas visualização de dados dos pacientes (anonimizados), além de health analytics e gestão de recursos.
É verdade que a Amazon fracassou de forma retumbante em 2021 no projeto Haven Health(em conjunto com a JP Morgan e Berkshire Hathaway, de Warren Buffett). Mas passado um ano da derrocada, a empresa caminha isoladamente buscando espaço no mercado global de telehealth, que atingiu US$ 70,5 bilhões em 2020, mas empina para US$598,3 bilhões até 2028 (CAGR de 29,2%). Nesse sentido, os que “achavam que ela não vinha”, depois do desastre da Haven, se abismaram: a empresa objetiva ser a “porta de entrada” da cadeia de serviços de saúde dos EUA. A pergunta poderia ser:mas o que diferencia a oferta Amazon Care de outras dezenas de empresas que oferecem as mesmas opções de serviço remoto? Vários traços ajudam a responder: a sua capilaridade; sua vasta concentração de expertise tecnológica (colaboradores); o fato de ser a maior provedora de cloud computing do mundo; a possibilidade de oferecer uma “cesta de insumos avançados” para saúde; mas, acima de tudo, sua principal força é um caixa de US$ 29,9 bilhões (contra US$ 823,8 milhões da Teladoc, uma de suas principais concorrentes). Lembra um pouco a velha piada do Rabino e do Padre que vão a uma luta de box e um dos lutadores entra e faz o sinal da cruz. O Rabino pergunta ao Padre: “o que ele está fazendo?” O Padre responde: “nada, se não souber lutar”. O novo jogo da cadeia digital de serviços de saúde exige uma incrível musculatura na prática de errar menos e ter condições ($) de lutar mais.
Bigtechs, como Google, Apple, Amazon, Microsoft, Oracle entre outras, investem cada vez mais em healthcare. Quase um jogo duplo: de um lado apoiam os players da saúde na sua transformação e expansão digital, do outro lado competem com eles. O exemplo da Amazon é poderoso: a empresa estabelece iniciativas para transformar o varejo farmacêutico, a cadeia de suprimentos médicos, o seguro de saúde e a prestação de cuidados remotos. Aproveita o seu “poder de entrega” e abre espaço no supply chain para inserir o seu “poder de venda”. Nada errado, se os clientes concordam. Na Índia, por exemplo, a Apollo Pharmacies Ltd (do grupo Apollo Hospitals, a maior rede de saúde privada do país) fez um acordo com a Amazon India para disponibilizar seus produtos farmacêuticos na Amazon Pharmacy, aprimorando o foco omnichannelde seu negócio varejista. Essa prática chama-se “coopetição”, um mix de “cooperação” e “competição”, onde vale a máxima: “ceder no contornável e ganhar no essencial”. O mesmo com a Apple, queinova cada vez mais em seus wearables de fitness, mas tem como ‘motor de arranque’ o Apple Health, um EHR interconectado a seus devices, já sendo utilizado por mais de 120 hospitais e laboratórios de análise nos EUA. Coopetiçãona veia!
Mesmo os fracassos do Microsoft HealthVault e do Google Health não desanimaram as bigtechs de transformar a saúde, mas agora o fazem pelo “lado de dentro” (M&A). Outro bigplayer mergulhando no oceano da saúde é a gigante Oracle, que em dezembro de 2021 adquiriu por US$ 28,3 bilhões a Cerner, uma das duas maiores provedoras de EHR dos EUA. A fusão foi acelerada por problemas que corroíam a Cerner: seu EHR é baseado em desenvolvimento desatualizado e código proprietário, que não funciona bem em nuvem. A Oracle deverá adicionar uma camada sofisticada de arquitetura de software para cloud, turbinando as soluções da Cerner (pelo “lado de dentro”). O alcance da transação tem um alvo: mover a Saúde para a nuvem. “Com essa aquisição, a Oracle assume a responsabilidade de fornecer aos profissionais médicos sobrecarregados de trabalho uma nova geração de ferramentas digitais fáceis de usar e que permitam o acesso a informações por meio de uma interface de voz hands-free, com a proteção segura de ter os aplicativos em nuvem. Essa nova geração de sistemas médicos promete reduzir a carga de trabalho administrativa dos médicos, melhorar a privacidade e os resultados com os pacientes, além de reduzir os custos gerais da saúde”, explicou um exultante Larry Ellison, co-fundador e CTO da Oracle. Não é uma tarefa fácil, mas é mais fácil quando o provedor de tecnologia é uma companhia com 400 mil clientes, presente em 145 países, avaliada em US$ 280 bilhões (Cerner não chega a US$ 5 bilhões) e que detém o maior ambiente de dados de terceiros do mundo.
A Alphabet, controladora da Google, tem boa parte de seu portfólio de negócios na Saúde. Desde 2020 a gigante de tecnologia detém investimentos em 25 empresas da área clínica, avaliadas coletivamente em mais de US$ 1,6 bilhão (fonte: Crunchbase). Perto de 17% de todos seus ativos está na carteira da Saúde, como as empresas: Treeline Biosciences, especializada em biomedicina de precisão em oncologia; Prime Medicine (genética); Leyden Labs, focada na prevenção viral; Brightline, provedora de cuidados para saúde comportamental de jovens; etc. Um passo decisivo foi dado em 2021 com a aliança da Google e a rede HCA Healthcare, que possui 185 hospitais, mais de 2 mil locais de atendimento e 250 mil profissionais de saúde em sua plataforma de serviços. Nessa aliança, a Google Cloud desenvolve algoritmos baseados nos EHRs da HCA.Coopetição em estado puro! Já a Verily Life Sciences, braço de life-science da Alphabet, se expande para o setor de seguro-saúde por meio da Coeficiente Insurance Company, uma subsidiáriafocada no modelo deseguro “stop-loss”, voltado a empregadores.
Ao contrário do que se possa imaginar, o avanço das bigthecs é um alívio para um setor que está 50 anos atrasado em produtividade. A Google anunciou em janeiro acordo com University of California(Santa Cruz Genomics Institute) para criar um método baseado em IA para acelerara análise do sequenciamento genético. O YouTube, também em 2022, fechou aliança com o New England Journal of Medicine para aumentar o acesso a informações precisas em saúde, reduzindo as falácias negacionistas. A Microsoft se juntou a Artificial Intelligence Industry Innovation Coalition numa aliança voltada a desenvolver práticas de IA para uso na saúde. São centenas de ações semelhantes das bigtechs que ajudam a desenvolver as tecnologias clínico-sanitárias, que ainda estão muito aquém das demandas de um mundo com 7,3 bilhões de pacientes. Todavia, não será desintrincado: os grandes players de tecnologia serão obrigados a se moldar ao ambiente sociocultural da saúde, onde “ser grande” importa, mas “ser ético” importa ainda mais. Nos últimos três anos, algumas dessas empresas se notabilizaram por criar problemas sensíveis dentro do universo digital: polarização política, manipulação do consumidor, discriminação por meio de algoritmos, quebra de privacidade, etc. Ardilosas e nem sempre bioéticas, algumas passaram a ser alvo de “ações-regulatórias-governamentais” para proteção do consumidor. A Comissão Europeia, por exemplo, está absolutamente antenada nos desvios de privacidade, investigando junto com a Radboud University, da Holanda, os riscos do envolvimento das bigtechs no ecossistema de saúde.
Mas, até onde a Amazon está estabelecida para continuar a sua expansão na Saúde? Ela está pronta, por exemplo, para ser a maior operadora de serviços de entrega dos EUA, que tem um colossal impacto nos sistemas de saúde. Essa “máquina de entregas” possibilitou, por exemplo, que a empresa enviasse e recolhesse rapidamente testes próprios de PCR-RT na pandemia, ou seja, foi capaz de enviar produtos farmacêuticos para qualquer residência dentro da América do Norte. Uma estratégia da empresa já está clara: seu objetivo é “comer a sopa pelas beiradas”, ou seja, avançar sem espalhafato, sem publicidade, entregando um serviço de cada vez à medida que sente as brechas no mercado. “O movimento deles é grande, mas é também longo”, diz Robin Gaster, pesquisador da George Washington University Institute for Public Policy e autor do livro “Behemoth, Amazon Rising: Power and Seduction in the Age of Amazon”. Para ele, as mudanças na área da saúde da empresa serão sutis, delicadas e muito bem planejadas. O movimento da Amazon Care voltado à atenção primária, por exemplo, mostra essa preparação. Com baixo reembolso aos provedores de serviços, e poucos procedimentos a serem cobrados, os cuidados primários sempre foram um problema para a saúde dos EUA. Porém, quem pode oferecer um primeiro atendimento bem articulado, automatizado e remoto ganha espaço, sem falar na redução dos cuidados na média e até na alta complexidade.
No século XXI, os pacientes querem o trinômio conveniência, acessibilidade e preço. Quando a escala é pequena, entre 5 e 50 mil beneficiários, é complicado entregar esse trinômio. Mas para a Amazon, escala não é um problema, mas uma oportunidade. Um exemplo é o Halo, seu vestível de pulso para diagnóstico e rastreamento de condicionamento físico: em 2022 a empresa deve lançar um rol de novas funcionalidades, que ajudarão em muito aos usuários do Amazon Care. Hoje, um usuário-Halo pode achar que a maioria das funcionalidades oferecidas pela ferramenta são “desinteressantes”, mas para o usuário-AmazonCare é diferente: parte do circuito de controle de seus problemas de baixa complexidade pode ser controlado a distância por esses devices. Monitorar os níveis de atividade física, frequência cardíaca, sono, percentual de gordura corporal, tom vocal, entre outros elementos, pode ser de fundamental importância para quem já realizou uma consulta virtual, obteve um diagnóstico e precisa equalizar os sinais vitais com seus sintomas. Ou seja, saber que meu batimento cardíaco está alterado no jogging matinal pode não ter nenhum significado, mas se meu telemédico já identificou algum contorno de cardiopatia no primeiro atendimento, o batimento ganha relevância e pode fazer o Halo ser um importante suporte à decisão clínica.
Outro elo da cadeia Amazon na saúde é o Alexa, seu assistente digital residencial. Ele já possui uma biblioteca de conselhos para amamentação, primeiros socorros e gerenciamento de medicação. A empresa vê o Alexa como um “centro de atendimento domiciliar”, com potencial de uni-lo a Amazon Care e ao Halo. Em outubro de 2021, por exemplo, a empresa anunciou que o Alexa Smart Properties seria usado por provedores de serviços para idosos e hospitais, como Boston Children’s Hospital, Cedars-Sinai, etc. Eles usam o Alexa para conectar médicos e pacientes, sem precisar entrar no quarto de internação (ou de recuperação). Por outro lado, essa ferramenta complementa o Amazon Together, um serviço de assinatura que permite aos entes queridos verificarem remotamente os adultos que vivem isoladamente. “É uma solução bastante inteligente para um problema crescente, tanto para pais que vivem longe dos filhos adultos e vice-versa”, explica Gaster. Se no smartphone posso rastrear uma encomenda, ou uma entrega, vendo no aplicativo o mapa de sua localização e sabendo a previsão de entrega, por que a mesma tecnologia não pode ser utilizada no atendimento clínico domiciliar?
Para entender a estratégia do eixo Amazon Care é preciso não esquecer do Amazon HealthLake, lançado em meados de 2021. Trata-se de um serviço de armazenamento de dados realizado por meio da plataforma AWS, oferecendo às organizações de saúde um serviço de análise e visibilidade dos pacientes. Como explica Gaster: “No mundo de aprendizado de máquina e inteligência artificial, quem tiver mais dados corre na frente”. O Rush University Medical Center, por exemplo, utiliza o Amazon HealthLake para entender os gaps assistenciais da organização, dos pacientes e da doença. No fundo, a empresa está fazendo o que todas as empresas do setor de saúde já deveriam estar fazendo há décadas: produzir valor informacional e estrutural para que o primary care seja uma inesgotável fonte de redução de doenças, mitigação de custeio e melhoria da qualidade assistencial. Com ou sem coopetição.
É possível que no curto prazo os serviços da Amazon Care nunca cheguem ao Brasil, mas seu modelo já chegou. Basta olhar o relatórioStartup Scanner, realizado pela Liga Ventures com o apoio estratégico da PwC Brasil, que mapeia 489 healthtechs nacionais. Mais da metade das ferramentas oferecidas envolvem atuação direta em serviços de “cuidados primários”. Aliás, o “cuidado primário” transformou-se numdos maiores negócios globais em saúde. Nos EUA, por exemplo, investidores privados, varejistas e seguradoras de saúde estão injetando bilhões de dólares em empreendimentos do primary care, numa reversão histórica que transforma uma das áreas menos lucrativas da medicina num ‘tiro de retorno certo’. Empresas norte-americanas focadas em cuidados primários arrecadaram cerca de US$ 16 bilhões de investimentos em 2021. Isso é mais de quatro vezes o valor investido em 2020 e acima dos míseros US$ 15 milhões relatados em 2010. Análise publicada em 11 de fevereiro de 2022 pela Bloomberg(“Medicine’s Worst-Paying Specialty Is Luring Billions From Wall Street”), mostra como o primary care está mudando o contexto da cadeia de saúde e atraindo investimentos. “Os hospitais há muito procuram dobrar as práticas médicas para direcionar encaminhamentos ao atendimento especializado. Agora, eles enfrentam mais concorrência de seguradoras de saúde, redes de drogarias, empresas de investimento e startups focadas em tecnologia. Essa consolidação pode fazer com que o sistema de saúde americano, notoriamente fragmentado, funcione melhor para os pacientes que buscam custos mais baixos”, explica a análise.A CVS Health, por exemplo, controladora da seguradora Aetna e uma das gigantes do varejo farmacêutico, planeja colocar médicos em 350 de suas lojas de varejo. “O que estamos realmente tentando fazer agora é atenção primária, gerando uma influência significativa em toda a continuidade da atenção à saúde”, disse Karen Lynch, CEO da CVS.
Nosso Jorge Ben Jor profetizou em 1972: “Diziam que a Terra era quadrada, mas ficou provado que a Terra é redonda, caramba…!” Quem diria que 50 anos depois de compor “Caramba… Galileu da Galileia” o compositor ainda veria pessoas achando que a terra é quadrada! É redonda, as vacinas funcionam, a telemedicina venceu e o ‘patinho feio’ Amazon Care se expande, ao contrário dos céticos que achavam a iniciativa da empresa um total devaneio. Parafraseando a mesma canção do poeta Jorge: disseram que ela não vinha, mas olha ela aí.
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Em plataforma, um NFT de Elza Soares, por exemplo, vende 20% da gravação de ‘Drão’ e já está na casa dos R$ 20 mil
Matheus Mans, O Estado de S.Paulo 13 de fevereiro de 2022
Motivo de estranheza para alguns e febre para outros, o NFT (non-fungible token, ou token não fungível) movimentou o mercado de arte em 2021. Segundo a startup DappRadar, que monitora diversas plataformas blockchain, a tecnologia – na verdade, um código gerado em computador para autenticar um arquivo digital – fez girar cerca de R$ 130 bilhões no último ano, com celebridades como Justin Bieber e Neymar investindo alguns milhões de dólares em artes digitais. Agora, outros setores da cultura miram na tecnologia para abocanhar uma fatia desse montante.
Produtores, redes de cinema, músicos e compositores viram no NFT uma maneira de dar um fôlego a mais no caixa do setor. Como? Registrando seus produtos e vendendo também como NFT. Engana-se quem pensa que a tecnologia é só um nome bonito para venda e compra de obras de arte digitais. Por trás, há um sistema de registro na blockchain, onde se identificam as transações, propriedades e ativos.
Ilustração de Baptistão para o tema cultura e mercado digital Foto: Baptistão
Um verso de música, por exemplo, pode ser registrado na blockchain e vendido como NFT. O mesmo vale para um filme em produção ou uma cena marcante da história do cinema. Tudo, desde uma frase até uma série de TV, pode ser transformado em token não fungível. Abre-se, assim, um novo horizonte para o financiamento do setor cultural.
De um lado, as pessoas investem em tokens de filmes, músicas e livros para colecionar e criar uma relação mais próxima com empresa e artista. Do outro, produtoras, editoras e músicos encontram financiamento para seu trabalho, já que o dinheiro investido em um NFT vai, após descontos da plataforma que intermedeia a venda, direto para seu bolso.
Indústria musical
O mercado cultural hoje se expandiu – são filmes, livros, obras de arte, séries e músicas sendo normalmente vendidos no meio digital. A indústria musical, atualmente, é a que mais está mostrando versatilidade no uso dos NFTs. Afinal, um cantor, músico ou compositor pode pegar seu trabalho, registrá-lo na blockchain e depois vender aquela canção, letra ou melodia diretamente para investidores.
Nos Estados Unidos, isso já começa a acontecer com grandes nomes da indústria: o rapper Nas, por exemplo, transformou as músicas Ultra Black e Rare em tokens não fungíveis.
Em uma plataforma, uma NFT de Elza Soares, morta recentemente, vende 20% da gravação de ‘Drão’, e está na casa dos R$ 20 mil Foto: Werther Santana/ Estadão
Assim, de um lado, músicos colocam seus trabalhos em plataformas, oferecendo ao público a compra dos direitos autorais. Do outro, investidores apostam nas canções com potencial de valorização. O resultado é o financiamento de artistas e ganhos reais para os investidores.
No Brasil, artistas estão desbravando o NFT na indústria musical. Pabllo Vittar, por exemplo, não vendeu sua música como tokens não fungíveis mas colocou à venda obras de arte inspiradas em suas canções, numa maneira de atrelar dois universos em um só. Deu certo: a cantora arrecadou mais de R$ 500 mil com as vendas. Hermeto Pascoal, enquanto isso, está vendendo músicas na plataforma Phonogram.me, com leilões a partir de R$ 250.
No site em que as obras de Hermeto Pascoal estão sendo vendidas, ele explica que o dono do NFT pode gravar execuções da música, inclusive para fins comerciais em seu próprio disco, sem qualquer custo adicional, sempre com os devidos créditos ao autor. Na mesma plataforma, uma NFT de Elza Soares, morta recentemente, vende 20% da gravação de Drão. No momento, já está na casa dos R$ 20 mil.
Musical
O maestro Carlos Bauzys, que colocou à venda como NFT uma canção de um musical ainda inédito, diz ter gostado da experiência.
“Você consegue transformar qualquer obra artística em NFT para comercializar. É interessante, já que as pessoas compram, em qualquer lugar do mundo, e se tornam donas disso. É um sistema bem seguro, que lhe garante que você não vai perder aquilo”, conta o regente, que já decidiu que vai continuar a investir na tecnologia. “Fizemos o NFT com uma música do musical Escrava Isaura e tivemos alguns compradores.”
O maestro Carlos Bauzys colocou à venda como NFT uma canção de um musical ainda inédito Foto: Iara Morselli/ Estadão
Agora, quando Escrava Isaura chegar aos palcos do teatro, os donos do NFT dessa música que Carlos vendeu terão uma parcela em cima dos direitos autorais. “Quanto mais músicas elas comprarem, mais direitos elas vão ter. É uma maneira interessante para arrecadar fundos e conseguir fazer o musical”, conta o maestro, que agora faz mestrado nos EUA.
Já no cinema a coisa é um pouco diferente. Enquanto músicos, compositores e maestros registram sons e partituras na blockchain para vender como NFT, produtoras de filmes não conseguem seguir o mesmo caminho. Afinal, como vender os direitos de uma produção que ainda não existe? A resposta para essa dúvida foi respondida pela canadense Mogul Productions: eles criaram uma plataforma descentralizada em que o investidor compra as moedas digitais da empresa, a Star, e depois compra os direitos autorais de uma produção.
Decisões
Além disso, em um modelo que lembra o de tokens de times de futebol, o NFT dá ao seu detentor a possibilidade de participar de algumas decisões que envolvam a produção dos filmes. Como, por exemplo, escolher, por meio de votação, o projeto que receberá os recursos. Ou então opinar na construção de campanhas de marketing, no desenvolvimento de determinada película ou, até mesmo, na remuneração dos sócios da produtora.
Nos Estados Unidos, a cadeia AMC vendeu 90 mil ingressos para o filme ‘Homem-Aranha: Sem Volta para Casa’ atrelados a uma NFT Foto: Sony Pictures
“Esse mercado está apenas começando a se desdobrar”, diz a produtora Cindy Cowan, em entrevista por e-mail. “Mais pra frente, o NFT também pode tornar os investidores donos de outras propriedades intelectuais, seja o roteiro, um pôster, o traje original ou uma música. O uso de NFTs também pode trazer uma fonte adicional de receita após a conclusão do filme.”
Redes de cinema, enquanto isso, também já deixaram claro que não querem ficar para trás. Nos Estados Unidos, a cadeia AMC vendeu 90 mil ingressos para o filme Homem-Aranha: Sem Volta para Casa atrelados a uma NFT. Assim, a pessoa comprava, por um valor a mais, o token não fungível e ele servia como ingresso na hora de entrar na sessão. Depois, a pessoa pode vender para outras pessoas ou colecionar. Todos os 90 mil NFTs oferecidos ao público se esgotaram em poucos minutos.
Futuro
Agora, então, é natural que outras áreas e empresas comecem a se movimentar nesse mercado. A Disney, por exemplo, está estruturando um setor interno focado exclusivamente em NFTs, o que indica que podem surgir novidades inclusive na área de cinema e televisão. O metaverso, iniciativa de criar um ambiente social completamente digital, também deve abrir caminho para que empresas de entretenimento comecem a encontrar espaço para colocar NFTs na praça.
Na área de textos, a mesma coisa. Em novembro de 2021, a escritora japonesa Miyuki Ono transformou seu conto Pure em NFT – segundo ela, o dinheiro investido serviu para pagar o trabalho de seus tradutores.
“Acredito que o grande desafio seja se acostumar com a ideia. As pessoas ainda estão se acostumando a olhar para isso. Mas, no fundo, as pessoas estão investindo em arte, comprando arte”, contextualiza Tasso Lago, especialista em criptomoedas e fundador da Financial Move, portal de educação financeira. “Acho difícil que o mercado não olhe para isso em breve. Não tem mais volta. É algo que, uma vez que começou, vai acontecer.”
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Tobi Lütke, da Shopify, construiu um negócio bilionário ao vender produtos para pequenos varejistas online e agora desafia a Amazon
Por Por Brad Stone – Exame – 20/01/2022
Em fevereiro do ano passado, a empresa de comércio eletrônico Shopify substituiu a indicação geográfica “Ottawa, Canadá” de seus comunicados à imprensa por uma nova e estranha assinatura: “Internet, em todos os lugares”. A mudança veio por insistência do fundador e CEO da Shopify, Tobi Lütke. Em maio de 2020, no início da pandemia, ele tomou a decisão de rescindir os aluguéis dos escritórios da Shopify em Ottawa e em seis outras cidades e declarar home office a 7.000 funcionários — para sempre.
Para ele, a Shopify era onipresente. Os executivos da empresa ficaram perplexos, mas sabiam: era melhor não discutir. A questão da indicação geográfica pode ser pomposa, mas depois de transformar a Shopify de uma silenciosa companhia de tecnologia empresarial a uma potência global de e-commerce, Lütke merecia uma licença poética.
Desde a fundação da Shopify, há 15 anos, a empresa já vendeu softwares para 2 milhões de empreendedores mundo afora gerenciarem lojas online sem a complicada adoção dos sistemas da rival Amazon. De 30 a 2.000 dólares por mês, a Shopify oferece dezenas de recursos para gerir uma loja online — desde tecnologia para o próprio site até ferramentas para gestão de estoque ou processamento de pagamentos. Redes varejistas gigantes, como Staples e Chipotle, utilizam a ferramenta. Atividades de varejo de celebridades como Kylie Jenner, Taylor Swift e Lady Gaga, também. O maior impacto da companhia, no entanto, vem da constelação de empresas familiares, pequenas startups, gente do Twitter e influenciadores.
Na pandemia, a Shopify virou a única opção para muitos proprietários de PMEs, até então sem vendas online, permanecerem de pé. Na época, a Shopify tinha 1 milhão de clientes e ainda era confundida por muitos com o serviço de música Spotify. Ao fornecer ferramentas para abrir lojas online instantaneamente na pandemia, a Shopify virou aliada de empreendedores.
A quarentena incrementou a capitalização de mercado da empresa, de 46 bilhões em 2020 para 174 bilhões de dólares atualmente. Em 2020, as vendas saltaram 86%, para 2,9 bilhões de dólares. Na Black Friday de 2021, os lojistas da Shopify venderam 23% acima de 2020 — 6,3 bilhões de dólares. A empresa mais valiosa do Canadá foi responsável por 8,6% das vendas online nos Estados Unidos em 2020. Ficou atrás dos 39% da Amazon, mas à frente do Walmart e do eBay, segundo a consultoria eMarketer.
À medida que o sucesso de Zoom, Peloton e outros fenômenos da pandemia começa a desaparecer, a Shopify trabalha para manter o ímpeto. Recentemente, contratou um veterano da marca Yeezy, do cantor Kanye West, para tocar um programa de apoio a influenciadores, abriu um hub para empreendedores em Manhattan, juntou forças com o Spotify para dar treinamento de vendas a músicos e criou um recurso para vender obras de arte digitais.
Lütke: “A Amazon está tentando construir um império, e a Shopify está tentando municiar os rebeldes” (Alex Blouin e Jodi Heartz/Bloomberg)
“Estou criando NFTs [tecnologia para tornar mídias digitais produtos únicos e registrados por blockchain, um protocolo digital de segurança]”, tuitou em outubro a apresentadora de TV americana Martha Stewart, agora comerciante da Shopify. Pharrell Williams vende produtos para a pele por ali e também é fã. “Se você puder vir até aqui e fazer parte desta plataforma, você estará em ótima, ótima, ótima companhia”, disse o produtor-rapper-cantor-empresário numa conferência da empresa pelo Zoom.
Lütke desenvolveu as ferramentas para a construção de sites de varejo depois de fechar uma loja online de snowboard aos 24 anos. Agora é a segunda pessoa mais rica do Canadá, segundo um índice da Bloomberg. Nos círculos de empreendedores de tecnologia, ele virou uma figura popular e reconhecível. Com 41 anos, magro feito uma tripa, careca como Jeff Bezos e nunca sem boné (só abolido na quarentena). Em certo sentido, Lütke é o oposto do exército de tecnocapitalistas de Bezos. Desfrutando de um boom próprio causado pela pandemia, a Amazon corre o risco de alienar as pequenas empresas com táticas como eliminar os produtos delas em suas lojas ou encontrar novos concorrentes, tudo em troca de preços mais baixos ou entregas mais aceleradas ao consumidor final. A Shopify, ao contrário, tem uma visão romântica do lojista: os executivos da empresa falam em virtudes como “democratizar o comércio” e “tornar o empreendedorismo algo legal”.
Jeff Bezos: conflito de interesses entre a Amazon e os pequenos varejistas levou a empresa a sair desse mercado
Jeff Bezos: conflito de interesses entre a Amazon e os pequenos varejistas levou a empresa a sair desse mercado (Leonard Ortiz/Getty Images)
Labirinto de Lütke
Há alguns anos, Lütke percebeu uma vantagem na comparação da Shopify com a temida concorrente: “A Amazon está tentando construir um império, e a Shopify está tentando municiar os rebeldes”. Hoje em dia, é difícil associar uma força insurgente a uma empresa com capitalização de 142 bilhões de dólares. Para manter intacta a associação, Lütke quer tornar a Shopify mais útil aos maiores varejistas e também ajudar os menores a se livrar das garras da inflação e da escassez de suprimentos. Ao mesmo tempo, ele enfrenta as dores do crescimento, como a saída de executivos importantes e as dúvidas sobre a entrada da Shopify em atividades trabalhosas do e-commerce, como a logística. Conquistar os lojistas dando-lhes uma presença online de forma simples foi a parte fácil. “Passei 20 anos construindo a Shopify sendo nerd e programando o dia inteiro”, disse Lütke num encontro ao longo de 2 horas no escritório dele em Ottawa. “Tenho de me atualizar sobre como tudo se encaixa agora.”
Conversar com Lütke sobre qualquer coisa é uma jornada por um labirinto intelectual feito com livros de administração e pensamentos discursivos. As fixações atuais dele incluem um conceito para medir a lealdade de funcionários, chamado Bateria da Confiança, e a hipótese de como o navegador web poderia virar mico caso fosse desenvolvido hoje e em meio à pressão contrária de Apple, Google e outros proprietários de lojas de aplicativos. Numa discussão com Lütke é preciso estar pronto para ouvir frases como: “Eu sei como fazer um exoesqueleto do meu tempo” ou “Acho o não determinismo mais interessante do que o determinismo”. Antes da pandemia, ele leu Antifrágil, livro de Nassim Nicholas Taleb e ficou fascinado pela engenharia do caos — conceito para as calamidades imprevistas ou não e capazes de tornar pessoas e organizações mais fortes. “Nada pode virar resiliente quando tudo dá certo”, diz Lütke, que testou a teoria na própria empresa. Ele desconfia das reuniões desnecessárias e, periodicamente, exclui reuniões recorrentes da agenda de seus funcionários. Em 2017, decretou home office por um mês à empresa inteira, só para ver o resultado. Dependente do Skype, a experiência não deu muito certo. “As ferramentas não eram boas”, diz.
Finkelstein, presidente da Shopify: o home office ampliou os limites para o recrutamento de profissionais
Finkelstein, presidente da Shopify: o home office ampliou os limites para o recrutamento de profissionais (Alex Blouin e Jodi Heartz/Bloomberg)
A Shopify acabou se mudando para dez andares de um arranha-céu de Ottawa. Num andar havia uma pista de kart. Além disso, uma galeria de retratos mostrava Lütke e executivos em trajes militares da era Napoleão. Uma sala de jogos com realidade virtual, pingue-pongue e um estúdio de ioga completavam o cenário, descrito pelos funcionários como ótimo para trabalhar. Mas Lütke não superou a obsessão pelo trabalho remoto. Colaborador do Ruby on Rails, uma linguagem de computação, ele trabalhou por anos remotamente.
Quando veio a pandemia, Lütke resolveu seus problemas. Em maio de 2020, em meio ao disparo nas vendas do e-commerce na quarentena, Lütke decidiu fechar os escritórios luxuosos da Shopify para sempre. A decisão o deixou muito feliz. Ele alugou um apartamento perto de casa e transformou o espaço num escritório para uma pessoa só, com antigas pranchas de snowboard e um computador Macintosh original. O recrutamento de pessoal aumentou após a mudança.
A Shopify contratou um executivo do Facebook e outro do Slack — ambos permaneceram no Vale do Silício. Alguns recém-mudados para o Canadá para trabalhar na Shopify voltaram aos Estados Unidos para ficar mais perto da família — e da luz do sol. “Pela primeira vez em nossos 15 anos de história, nossa equipe global de talentos não se limitou a quem estaria disposto a se mudar para Ottawa, Toronto ou qualquer outro lugar do Canadá, e sim a quem queria participar e contribuir para o futuro do comércio”, afirma Harley Finkelstein, presidente da empresa.
Nem todos ficaram contentes. Alguns funcionários adoravam a confraternização no escritório. “Me opus frontalmente a isso e achei uma ideia idiota”, diz Kaz Nejatian, ex-Facebook contratado pela Shopify em 2019 como vice-presidente comercial. Nejatian acabou cedendo; outros, não. “Gostava de todo mundo e das pessoas com quem trabalhei na Shopify”, disse Craig Miller, ex-diretor de produtos. “Pensei que isso seria uma perda gigantesca.” A mudança causou consequências imprevistas. Estendendo o braço em discussões virtuais, e repreendendo subordinados com seu jeito franco de falar, Lütke ganhou o apelido de “Toby, o Tornado”. Para ele, o apelido é “um pouco irritante” e desafia qualquer um a “apontar o momento em que levantei a voz”.
A ida ao home office e as crises de 2020 fizeram Lütke exercer mais controle sobre a empresa, e não menos. Em setembro de 2020, Miller, o diretor de produtos, saiu depois de nove anos. Lütke assumiu suas responsabilidades. Quatro outros diretores executivos, incluindo o diretor de tecnologia e o principal executivo de RH, também se demitiram nos meses seguintes, à medida que os vínculos se quebraram e a camaradagem interna se desfez. Se a Shopify fosse navegar “em mares ainda desconhecidos”, como Lütke escreveu num memorando interno vazado para a imprensa, ele precisaria estar firmemente no comando.
Inépcia dos gigantes
Em 2015, após dez anos de crescimento, dois marcos impulsionaram a Shopify para a estratosfera do varejo online: o IPO e uma decisão inexplicável da Amazon de vender a divisão de desenvolvimento de sites à Shopify por apenas 1 milhão de dólares. Até então, Lütke era reticente em levantar capital. No início da Shopify, ele dormiu em albergues e andou de bicicleta pelo Vale do Silício em busca de investidores. Nada mudou desde as primeiras tentativas. Por isso, quando Lütke e Finkelstein passaram a circular por Wall Street antes do IPO, poucos tinham ouvido falar na empresa. “A gente dizia: ‘Se você comprou algo na internet e não foi na Amazon, mas a experiência foi boa, então foi numa loja da Shopify’”, lembra Lütke.
Martha Stewart, personalidade da TV americana: a loja online dela tem suporte da Shopify
Martha Stewart, personalidade da TV americana: a loja online dela tem suporte da Shopify (Bennett Raglin/Getty Images)
Após o IPO, em maio de 2015, as ações foram impulsionadas pela inépcia dos gigantes no mercado de softwares para empresas. O Yahoo!, dono de ferramentas próprias, se perdeu em turbulências internas. Outro líder, o Magento, dono de softwares de código aberto para a construção de lojas online, foi adquirido pela varejista eBay e, mais tarde, desmembrado e vendido para a Adobe. IBM, Salesforce, Oracle e outras ofereciam serviços semelhantes, mas o foco eram as grandes empresas, e não as pequenas interessadas numa presença digital de forma rápida e barata.
A Amazon também tinha um serviço, chamado Webstore, para varejistas independentes operarem seus sites. Bang & Olufsen, Fruit of the Loom e Lacoste estavam entre as 80.000 empresas clientes. Se quisesse, Jeff Bezos certamente teria recursos e talentos de engenharia para esmagar a Shopify. Mas os executivos da Amazon daquela época admitiram que o serviço da Webstore não era muito bom e que as vendas desse serviço diminuíam outras oportunidades de negócio para a empresa, como a venda direta de produtos.
Na época, a Amazon estava desenvolvendo marcas próprias, como a Amazon Basics, e os clientes da Webstore precisavam sentir conforto no gigante de tecnologia, que poderia muito bem copiar boas práticas e lançar produtos melhores que os dos demais varejistas. Era um caso de raposa tomando conta do galinheiro. “Os lojistas dormiam com um olho aberto”, diz um ex-executivo da Webstore entrevistado sob anonimato.
No fim de 2015, Bezos fechou a Webstore e, num raro erro estratégico, a Amazon enviou clientes para a Shopify. Além disso, declarou publicamente que a empresa canadense era sua parceira preferida na diáspora da Webstore. Em troca, a Shopify concordou em oferecer o Amazon Pay (meio de pagamentos da varejista) a seus lojistas e deixá-los listar seus produtos no site da Amazon. A Shopify também pagou à Amazon 1 milhão de dólares. Bezos e seus colegas acreditavam que apoiar pequenos varejistas nunca seria um negócio grande e lucrativo. Eles estavam errados: pequenos varejistas online geraram 153 bilhões de dólares em vendas em 2020, de acordo com a consultoria AMI Partners. “A Shopify nos fez parecer idiotas”, diz o ex-executivo da Amazon.
O rapper Pharrell Williams: loja de produtos para a pele com tecnologia da Shopify e elogios abertos à empresa.
O rapper Pharrell Williams: loja de produtos para a pele com tecnologia da Shopify e elogios abertos à empresa. (Angels Weiss/Getty Images)
O negócio com a Amazon rendeu dividendos imediatos para a Shopify. No dia do anúncio, o valor da ação subiu de 7 para 23 dólares. O endosso da Amazon deu credibilidade. Somente mais tarde a Amazon perceberia o erro e veria a Shopify — e a tendência de marcas venderem diretamente ao cliente final — como uma ameaça à sua dominância. Só que os clientes da Shopify estavam contentes não apenas em pagar 30 dólares por mês por uma assinatura básica mas também pelas aplicações extras que os ajudavam a vender mais. Por exemplo, aplicativos de terceiros vendidos na loja de apps da Shopify com serviços como envio de e-mail marketing ou ferramentas para avaliação de clientes. A cada aquisição de um desses serviços, a Shopify fica com uma comissão. Em 2016, a Shopify lançou um serviço de crédito para socorrer pequenas empresas desatendidas em bancos tradicionais. O financiamento permitiu abrir negócios, comprar mercadorias e contratar funcionários. Em troca, os mutuários pagam uma porcentagem de vendas à Shopify até o fim do empréstimo. Até novembro de 2021, a Shopify Capital já emprestou 2,7 bilhões de dólares. O Shop Pay, um serviço de pagamentos concorrente do PayPal lançado em 2017, permite aos clientes armazenar dados de cartão de crédito e facilitar compras recorrentes entre os varejistas cadastrados na Shopify, que cobra comissão de até 2,9% de cada venda. Atualmente, o Shop Pay é uma das ferramentas de pagamento online que cresceram mais rapidamente nos Estados Unidos.
Com tudo isso, a Amazon perdeu acesso a um número grande de empreendedores prontos para colocar modelos de negócios em prática — e que sofrem mais com solavancos. “Cada vez que há uma crise, os maiores perdedores são as pequenas e médias empresas”, disse Lütke a funcionários no início da pandemia. “Eles são sempre eliminados porque não conseguem se adaptar.” A nova missão da empresa, declarou Lütke, era ajudar os vendedores a sobreviver ao tumulto.
Até aqui, a Shopify tem feito isso, mas agora os perigos são outros. Com os problemas de cadeias de suprimentos afetando a economia global, até mesmo grandes varejistas estão tendo dificuldades em levar mercadorias dos fabricantes às casas dos consumidores num tempo hábil. A Amazon, claro, tem como vantagem uma rede de logística aperfeiçoada de 930 armazéns ao redor do mundo. Os vendedores da Shopify parecem desesperados por um suporte desse tipo. “Não sei por que a Shopify não fez mais”, diz Patrick Coddou, cofundador da Supply, loja virtual de produtos para higiene masculina com 11 funcionários. “Seria bom se eles fizessem algo para nos ajudar a competir com a Amazon.”
Logística “osso duro”
Por anos, Lütke vem brincando com a ideia de entrar nesse negócio. Em 2019, a empresa lançou a Rede Shopify de Satisfação, conectando comerciantes a centros de distribuição privados com confiabilidade de entrega no nível da Amazon Prime, bem como a transportadoras, como a FedEx. Além disso, prometeu investir 1 bilhão de dólares em cinco anos para expandir o serviço e pagou 450 milhões de dólares numa startup de robótica fabricante dos robôs que percorrem os armazéns da Amazon. Para observadores, Lütke indicava com isso estar disposto a comprar depósitos, contratar funcionários e começar a movimentar paletes. Isso não ocorreu, e a Shopify segue deixando a última etapa da logística com varejistas clientes. Lütke diz que a logística “é um osso duro de roer para as empresas de internet” — o que significa empresas que se familiarizaram com a criação de software, sem nenhuma das dores de cabeça de acidentes com funcionários e campanhas sindicais.
Vista aérea de Ottawa, no Canadá: a Shopify abandonou o escritório na cidade em troca do home office total
Vista aérea de Ottawa, no Canadá: a Shopify abandonou o escritório na cidade em troca do home office total (Cavan Images/Bloomberg)
De volta ao mundo virtual, Lütke fechou acordos com empresas de mídia social, do Pinterest ao TikTok, permitindo aos lojistas anunciar e vender os produtos nos sites onde os usuários da internet passam mais tempo. Mas os comerciantes que anunciam nas redes sociais também estão se prejudicando. Com a Apple mudando as regras sobre rastreamento de dados e privacidade do usuário em iPhones, os anúncios do Facebook se tornaram mais caros e menos eficazes, espremendo as pequenas empresas. Por causa da troca, diz Coddou, da Supply, sua empresa não foi lucrativa neste verão pela primeira vez em seus seis anos de vida. A Shopify poderia diminuir o golpe se ajudasse seus varejistas a encontrar clientes mais diretamente — assim como a Amazon faz em cada busca em seu site. Mas nesse aspecto Lütke também tem sido muito cuidadoso. Se um concorrente descobrir como enviar enxurradas de compradores para seus vendedores e, em seguida, assumir a dor de cabeça da entrega assim que fizerem uma venda, os 2 milhões de usuários da Shopify poderiam facilmente desertar.
Um desses concorrentes poderia, de novo, ser a Amazon. Desde 2017, dizem os ex-executivos da empresa, ela está trabalhando num projeto, com o codinome Santos, para varejistas administrarem sites independentes fora da Amazon. Para eles, a divisão está tentando recuperar a oportunidade que a Amazon desperdiçou ao fechar a Webstore. Ela está abrigada na unidade de computação em nuvem da Amazon Web Services, chefiada por muito tempo pelo sucessor de Bezos, Andy Jassy. (A Amazon não comentou.) “Penso na Amazon como um nobre rival”, diz Lütke. “Se eles fizerem tudo muito bem e tornarem superfácil começar novos negócios, então, eu penso, realmente cumpri minha missão.” Ele diz que está pronto para ser um azarado derrotado — talvez para recuperar o manto da aliança de rebelde. É uma atitude que ele pode até precisar em vista da queda de 13% no preço das ações da Shopify no mês passado, enquanto investidores se preocupam com a perspectiva de vendas online lentas com a combinação de pandemia e inflação.
Por enquanto, Lütke está focado em continuar a construir uma empresa livre de amarras físicas, embora admita que o ano tumultuado da Shopify teria sido mais fácil com rituais após o trabalho, como sair para uma happy hour com a turma. “Depois de certo ponto, a internet ainda não descobriu como fazer com que as comunidades se recuperem”, diz. Ele também não descarta a possibilidade de um dia inverter sua posição, abrigando-se em novos escritórios e escrevendo “um divertido mea-culpa”. Mais urgente, porém, é reconectar-se com diretores executivos da Shopify, incluindo alguns que ele nunca viu pessoalmente. Neste outono, ele convidou uma equipe de gestão para o Opinicon, um hotel e resort rústico da década de 1880 que ele e a mulher, Fiona McKean, compraram e restauraram meticulosamente em 2015. No dia, os executivos da Shopify jogavam laser tag. À noite, eles conversavam ao redor de uma fogueira. E pela primeira vez em meses, como nos velhos tempos, a Shopify não estava em todos os lugares, mas em um local mais convencional: perto de Ottawa, no Canadá.
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Insônia, indigestão e dor de cabeça estão entre as manifestações da síndrome
Melinda Wenner Moyer, do New York Times/O Globo 17/02/2022
Jessi Gold, psiquiatra da Universidade de Washington, sabe que está próxima do esgotamento provocado pelo burnout quando acorda, sente raiva instantaneamente da caixa de entrada de e-mail e não quer sair da cama. Talvez não seja surpreendente que uma profissional de saúde mental, que está tentando conter a maré crescente de exaustão, também possa se esgotar às vezes. Afinal, o fenômeno praticamente se tornou onipresente na nossa cultura.
Em uma pesquisa de 2021 com 1.500 profissionais dos Estados Unidos, mais da metade disse que estava se sentindo esgotado com as demandas de trabalho. Além disso, 4,3 milhões de americanos deixaram seus empregos em dezembro, no que vem sendo chamado de a “grande demissão”. Quando as pessoas pensam em esgotamento, o que geralmente vem à cabeça são sintomas mentais e emocionais, como os sentimentos de desamparo e cinismo. Mas o burnout também pode levar a sintomas físicos, e os especialistas dizem que é importante ficar atento aos sinais e tomar medidas quando eles forem notados.
O burnout, em sua definição, não é uma condição médica, mas “uma manifestação de estresse crônico absoluto”, explica Lotte Dyrbye, médica que estuda o burnout na Clínica Mayo.
A Organização Mundial de Saúde descreve a síndrome como um fenômeno no local de trabalho caracterizado por sentimentos de exaustão, desânimo e eficácia reduzida.
—Você começa a não funcionar tão bem, perde prazos, fica frustrado, irritado com seus colegas— disse Jeanette Bennett, pesquisadora que estuda os efeitos do estresse na Universidade da Carolina do Norte.
Segundo Bennet, o estresse pode ter efeitos desgastantes no corpo, especialmente quando não diminui depois de um tempo. Quando as pessoas estão sob pressão, seus corpos sofrem mudanças que incluem níveis mais altos do que o normal de hormônios do estresse, como cortisol, adrenalina, epinefrina e norepinefrina. Essas mudanças são úteis a curto prazo — elas nos dão energia para superar situações difíceis — mas, com o tempo, começam a prejudicar o corpo.
Embora seja de origem emocional, o burnout tem diversas manifestações físicas Foto: Pexels
Veja como reconhecer o esgotamento em seu corpo e o que fazer a respeito:
O que observar
Segundo Dyrbye, um sintoma comum de esgotamento é a insônia. Quando pesquisadores na Itália entrevistaram os profissionais de saúde na linha de frente durante o primeiro pico da pandemia, descobriram que 55% deles relataram ter dificuldade em adormecer, enquanto quase 40% tiveram pesadelos.
Pesquisas sugerem que o estresse crônico interfere no complicado sistema neurológico e hormonal que regula o sono. É um ciclo vicioso, porque não dormir deixa esse sistema ainda mais fora de controle.
A exaustão física é outro sinal comum, assim como mudanças nos hábitos alimentares — comer mais ou menos do que o habitual. Em um estudo com profissionais de saúde italianos, 56% relataram esse tipo de mudança. As pessoas podem comer menos porque estão muito ocupadas ou distraídas, ou podem desejar aquelas comidas reconfortantes que todos gostam quando precisam de algo para se sentir melhor. Pesquisas também sugerem que os hormônios do estresse podem afetar o apetite, fazendo com que as pessoas sintam menos fome do que o normal quando estão sob muito estresse e mais fome do que o normal quando o estresse alivia.
Gold ainda destaca que dores de cabeça e de estômago também podem ser provocadas pelo esgotamento: estudo com pessoas na Suécia que sofrem de transtorno de exaustão — uma condição médica semelhante ao burnout — descobriu que 67% relataram sentir náusea, gases ou indigestão e que 65% tinham dores de cabeça.
Outra informação importante é que o esgotamento pode se desenvolver juntamente com a depressão ou a ansiedade, que também provocam sintomas físicos. A depressão pode causar dores musculares, de estômago, problemas de sono e alterações de apetite. Já a ansiedade está ligada a dores de cabeça, náuseas e falta de ar.
O que fazer
— Se você está experimentando sintomas físicos que podem ser indicativos de esgotamento, considere consultar seu médico ou um profissional de saúde mental para determinar se eles são motivados pelo estresse ou enraizados em outras condições físicas — disse Dyrbye.
Ainda de acordo com os pesquisadores, é importante que as pessoas não ignorem os sintomas imaginando que eles não importam.
Se for burnout, a melhor solução é abordar a raiz do problema. A síndrome é normalmente reconhecida quando é motivada pelo trabalho, mas o estresse crônico pode ter uma variedade de causas — problemas financeiros, de relacionamento e sobrecarga de trabalho doméstico, entre outras coisas.
— Pense nas pedrinhas no sapato com as quais você tem que lidar o tempo todo e procure maneiras de remover algumas delas, pelo menos algumas vezes. Talvez possa pedir ao parceiro para ajudar mais na hora de colocar as crianças na cama ou pedir comida quando estiver especialmente ocupado — disse Christina Maslach, psicóloga da Universidade da Califórnia.
No entanto, algumas escolhas de estilo de vida podem tornar o burnout menos provável. O apoio social, desde a conversa com um terapeuta à reunião de amigos, pode ajudar. Tente também dormir mais e melhor (nem que precise de tratamento contra insônia).
Quando o esgotamento decorre de problemas relacionados ao trabalho, pode ser útil solicitar melhores condições. Uma sugestão é fazer uma dinâmica em grupo com os colegas e apresentar ao empregador ideias que ajudariam — como ter áreas silenciosas para intervalos e telefonemas pessoais, criar dias “sem reuniões” ou garantir que haja sempre café na sala de descanso. Mesmo pequenas mudanças como essas podem reduzir o risco de esgotamento.
Apesar de não ser totalmente eficaz contra o esgotamento, os especialistas aconselham que é importante tirar folga regularmente.
— Por fim, mesmo que você não queira adicionar mais responsabilidade ao seu cotidiano, tente reservar um pouco de tempo todos os dias para algo que você ama — disse Dyrbye.
A pesquisadora descobriu em um estudo que os cirurgiões que reservam tempo para hobbies e recreação — mesmo que apenas 15 a 20 minutos por dia — são menos propensos a sofrer de burnout do que os cirurgiões que não o fazem.
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Tendências também incluem aluguel de produtos, pagamento por uso, personalização e serviço de assinatura, segundo levantamento da NielsenIQ Bases
Por João Luiz Rosa — Valor – 16/02/2022
Uma impressora que encomenda tinta quando o suprimento está para acabar, uma escova de dentes que coleta dados do dono e exibe um tutor on-line, uma lavadora que ajusta o volume d’água à sujeira da louça. Embora ainda não sejam comuns nas prateleiras, esses itens representam tendências de consumo que cresceram rapidamente na pandemia e devem se firmar no futuro, como mostra uma pesquisa feita pela NielsenIQ Bases com 3,1 mil consumidores de quatro países: Brasil, Alemanha, Estados Unidos e Índia.
Intitulado “Novos modelos de negócios em bens duráveis – os consumidores estão prontos?”, o levantamento identificou cinco grandes tendências: automação de produto, modelo de aluguel, pagamento por uso, personalização e serviço de assinatura.
Os brasileiros confirmaram a fama de “early adopters” e se mostraram os mais abertos às novidades: 93% das pessoas consultadas no país se mostraram propensas a experimentar algum desses modelos, bem acima da média internacional, de 75%. Mas isso não significa que o Brasil será o pioneiro nesses movimentos.
“Uma coisa é estar disposto a testar novos modelos e outra é enxergar seus benefícios e pagar por eles”, diz Teo Senna, líder para bens duráveis da NielsenIQ Bases na América Latina. Preço é um fator que os brasileiros levam muito em conta na hora de consumir, afirma o especialista. Por isso, as marcas precisam demonstrar com clareza as vantagens de um modelo comercial diferente para que sua aceitação não seja colocada em dúvida.
Novos modelos comerciais buscam criar mais pontos de contato com o cliente, mostra pesquisa da NielsenIQ Bases — Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo
É uma característica comum aos indianos, o que divide o universo da pesquisa em dois grupos distintos. Nos mercados mais maduros dos EUA e da Alemanha, a automação de produto aparece disparada na preferência do público, com o interesse de 40% dos americanos e 48% dos alemães. No Brasil e na Índia, embora a automação também seja o item que mais desperte atenção, os totais são menos representativos: 26% e 24% (ver infográfico).
Entre os brasileiros, em particular, as tendências aparecem bem embaralhadas: três delas empatam em segundo lugar, com 19% da preferência, e a última – o serviço de assinatura – não está muito distante, com 16%.
No campo dos bens duráveis, diz Senna, um exemplo de automação é uma lavadora de louça da Whirlpool que seleciona a temperatura e a duração do programa depois de avaliar o nível de sujeira das peças. Outro é o Next, termostato do Google que se ajusta sozinho à temperatura local. Com mais tempo em casa por causa da covid, o consumidor está à procura de conveniência, afirma o especialista.
Pagar pelo que se usa é outra tendência, diz Senna. Testado com sucesso no mercado de jogos eletrônicos, no qual já responde por 88% da receita global, o formato é caracterizado pelos micropagamentos. Por exemplo, de roupas e armas digitais que os jogadores compram para disputar partidas em comunidades virtuais. A cada item é desembolsada uma pequena quantia.
Na indústria automobilística, as montadoras têm seguido esse caminho com a oferta de aplicativos pelos quais o usuário pode acessar serviços, como abrir remotamente a porta do veículo, pagando uma taxa mensal. O carro permanece como o produto central, mas ao seu redor estão sendo acrescentadas outras fontes de receita.
Os serviços de assinatura, que passaram a ser feitos diretamente por meio dos dispositivos, apresentam uma oportunidade semelhante. A HP lançou uma impressora que verifica o nível de tinta e encomenda cartuchos novos, cita Sena. Outros exemplos incluem geladeiras que fazem pedidos ao supermercado e escovas de dente que providenciam refis.
As vendas de bens duráveis tiveram um “boom” por causa da covid, o que ajudou muitos segmentos. No Brasil, 85% das pessoas ouvidas pela NielsenIQ Bases disseram ter comprado mais aparelhos eletrônicos desde o início da pandemia; 42% das compras foram antecipadas em razão do isolamento social.
Agora, no entanto, a piora das condições econômicas e a pressão inflacionária em muitos mercados estão levando o consumidor a rever suas despesas, o que abre espaço para modelos capazes de aliviar os gastos domésticos.
Alugar em vez de comprar tem se tornado uma alternativa para o consumidor. No segmento de automóveis, por exemplo, o formato é cada vez mais disputado por empresas de locação e pelas próprias montadoras, que passaram a oferecer a modalidade.
Em outras áreas, os fabricantes experimentam maneiras de oferecer o serviço de acordo com a cultura local. Na Suécia, a Electrolux testa um aspirador-robô cujo aluguel é pago de acordo com a metragem percorrida pelo dispositivo na hora da faxina, conta Senna. Na China, onde a tradição é que os mais jovens cuidem dos idosos da família, o mesmo aspirador está sendo usado para limpar, a distância, a casa de pais e avós.
No Brasil, diz o executivo, a casa digital também está avançando, mas a expectativa é que equipamentos cuja praticidade seja mais evidente, como lavadoras de roupa programáveis, sejam adotados mais rapidamente que lâmpadas inteligentes ou dispositivos ativados por assistentes pessoais.
Há uma boa chance para aparelhos personalizados no país, em particular no segmento de beleza e cuidados pessoais – o Brasil é o quarto maior mercado do mundo nessa área. Com a digitalização crescente, as marcas estão investindo em dispositivos que colhem dados do usuário para oferecer uma experiência melhor. A Oral-B recentemente anunciou uma escova de dentes que avalia os hábitos de escovação e oferece um treinador virtual em tempo real.
Os brasileiros têm especial interesse na conexão social, mostra a pesquisa da Nielsen: eles querem eletrônicos personalizados capazes de conectá-los a outros consumidores ou profissionais, como numa rede social, para receber conselhos e trocar experiências.
Para as marcas, diz Senna, independentemente da velocidade de aceitação, os novos modelos comerciais são uma oportunidade de criar pontos de contato ao longo de toda a vida útil do produto e não apenas quando o consumidor quer comprar um aparelho novo. “É preciso, primeiro, entender a necessidade do consumidor e, depois, comunicar os benefícios do modelo”, afirma o executivo. O prêmio, para quem for bem-sucedido, é ter um cliente mais satisfeito – e mais fiel.
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A inteligência artificial, os algoritmos e os processos de tomada de decisão automáticos são a próxima fronteira regulatória
Por Jairo Saddi e Thoran Rodrigues – Valor 14/02/2022
Chegou a hora de indagar: as companhias conhecem os seus clientes, mas será que podem dizer o mesmo sobre os algoritmos que os selecionam?
Inteligência artificial virou, em todo tempo e lugar, e mais uma vez, o termo da moda. Hoje, todos, indiscriminadamente, afirmam que estão utilizando IA para gerar valor, seja ao negócio, seja ao acionista, seja ao consumidor. Do atendimento ao cliente à análise do risco de crédito, grande parte das decisões que são tomadas e das interações que acontecem são feitas de maneira automática por algoritmos que processam um dado conjunto de entradas e produzem um determinado output. As decisões de aceitar ou não que uma pessoa abra uma conta, dar-lhe ou não um cartão de crédito (com o respectivo limite), ou mesmo de rejeitar uma compra on-line por risco de fraude não são tomadas por indivíduos. São sistemas, que processam milhares de dados para tentar chegar a alguma conclusão.
A forma como esses algoritmos aprendem a tomar as decisões certas para as empresas se dá através de um processo chamado de aprendizado de máquina (ou machine learning). De uma forma bem simplificada, são apresentadas milhões de decisões históricas para o computador, cada uma delas marcada como “boa” ou “ruim”. O algoritmo então aprende quais são as características que levam a uma decisão boa e quais levam a uma decisão ruim. A partir desses exemplos, aprende a decidir sozinho.
Apesar do nome, não se trata de um processo de aprendizado no sentido tradicional de educação. Afinal, as “inteligências artificiais”, em geral, não são tão inteligentes assim. Quem trabalha com esse tipo de tecnologia há mais tempo sabe muito bem que esses algoritmos reproduzem e amplificam de forma significativa os vieses, distorções e erros contidos nos dados que foram utilizados no processo.
Algoritmos reproduzem e amplificam os vieses, distorções e erros contidos nos dados utilizados no processo
Dados históricos, especialmente os que tratam de decisões financeiras, tendem a incorporar preconceitos da sociedade mais ampla, mesmo que inadvertidamente. Quando a decisão futura é automatizada em função desses dados distorcidos, os problemas de informação se tornam critérios de decisão essenciais, aumentando as assimetrias.
Ilustremos com um exemplo: o processo de empréstimos de uma instituição financeira. Historicamente, grande quantidade dos empréstimos realizados por um banco se dava para trabalhadores registrados, aqueles com emprego formal, carteira assinada e um salário no final do mês. Na hipótese de se treinar um algoritmo para automatizar a decisão de conceder ou não o crédito, os atributos relacionados a “emprego formal” vão se destacar, e os algoritmos vão provavelmente “aprender” a só decidir emprestar dinheiro para quem está empregado.
Não é preciso muito para afirmar que, em qualquer mudança de realidade econômica (mais empreendedores individuais, freelancers e funcionários PJ etc), o banco não só estará perdendo boas oportunidades de mercado, como também deixando de cumprir a sua função econômica e social.
O risco da automação vai além do simples exagero dos problemas contidos nos dados. Na verdade, os algoritmos tomam decisões baseados na combinação e no cruzamento de milhares de informações diferentes, usando processos matemáticos tão complexos que é praticamente impossível explicar por que uma determinada decisão foi tomada. As decisões distorcidas ocorrem de forma oculta, sendo ao mesmo tempo amplificadas e ofuscadas. Com isso, identificar e corrigir problemas no processo de tomada de decisão fica muito mais difícil.
Esses dilemas ficam ainda mais agudos quando as empresas optam por utilizar sistemas de inteligência artificial desenvolvidos externamente, por consultorias ou mesmo por outras empresas de tecnologia. Nesse caso, quem está contratando a solução não tem nenhuma visibilidade sobre os dados de fato utilizados no treinamento dos algoritmos, nem sobre os vieses que eles incorporaram. Assim, a dificuldade de detecção e correção de falhas aumenta exponencialmente.
Qual é a solução? Será deixar de tomar decisões automáticas e ter sempre uma pessoa envolvida nos processos? Obviamente não. A digitalização dos processos corporativos traz ganhos de eficiência que ampliam o acesso da população a produtos e serviços, e retroceder nesse processo não é opção. As empresas precisam entender que, nessa nova realidade digitalizada, conhecer os seus algoritmos é tão importante quanto conhecer os seus clientes.
Da mesma forma que as empresas adotam processos de know-your-client para conhecer os clientes e evitar os riscos de um cliente usar indevidamente os seus produtos e serviços, são necessários processos completos e estruturados de know-your-algorithm, que permitam à empresa avaliar e entender se os sistemas de inteligência artificial utilizados podem representar algum tipo de risco estrutural para o seu negócio devido a erros e/ou vieses pouco transparentes.
A inteligência artificial, os algoritmos e os processos de tomada de decisão automáticos são a próxima fronteira regulatória. Para a sociedade, o impacto negativo da perpetuação de distorções presentes em dados históricos é um problema gigantesco, que só tende a piorar. Resolver tais questões vai representar a diferença entre mercados e sistemas mais inclusivos e acessíveis para todos e uma segregação e discriminação cada vez maiores da população. Em resumo: quanto mais transparentes as empresas forem sobre seus processos de tomada de decisão, menores serão os seus riscos.
Jairo Saddi, advogado em São Paulo, escreve mensalmente neste espaço às segundas.
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Movimento de demissões nos EUA, impulsionado pela base da pirâmide, tem reflexo no Brasil com contornos privilegiados; pesquisa aponta que 85% dos recrutadores têm dificuldade para achar candidatos
Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo 12 de fevereiro de 2022
Em 2021, os Estados Unidos bateram recorde de profissionais pedindo demissão – em novembro, foram 4,5 milhões, cerca de 3% da força de trabalho do país. O fenômeno, que se intensificou na pandemia, ganhou a alcunha de grande renúncia (ou grande debandada e grande migração). Movimentos parecidos foram observados em outros países, como Reino Unido e China, mas e no Brasil?
Não há um consenso entre especialistas se o Brasil pode reproduzir as mesmas características da grande debandada. Brasil e Estados Unidos já tiveram índices de desemprego parecidos: em abril de 2020, por exemplo, a taxa estava acima dos 14% nos EUA, enquanto no Brasil atualmente está em 11,6%, segundo o IBGE.
No entanto, as semelhanças param por aí. No País norte-americano, a maior parte da grande renúncia foi provocada por profissionais que ocupam a base da pirâmide. Por vários motivos intensificados na pandemia, incluindo a insatisfação com o empregador e a preocupação com a saúde mental, eles deixaram seus empregos.
O movimento ganhou até uma hashtag no TikTok, #Quitmyjob (larguei o meu emprego, em inglês), onde funcionários filmam o momento em que pedem demissão – em sua maioria, jovens. Empresas como Amazon e McDonald’s, por exemplo, têm tido dificuldades para encontrar funcionários nos EUA e oferecem até dinheiro para quem for à entrevista e iPhone grátis para contratados. Hoje, a taxa de desemprego nos EUA caiu para 4%.
Tania Casado, professora da USP e diretora do Escritório de Carreiras da USP (Ecar/USP). Foto: Werther Santana/Estadão
No Brasil, o mercado de trabalho começou a absorver talentos novamente, possivelmente para vagas que foram desocupadas com as demissões do início do isolamento.
“Em 2020, tivemos 15 milhões de admissões e 15,8 milhões de desligamentos. Em 2021, até novembro, foram 19 milhões de admissões e 16,1 milhões de desligamentos. Ambas as variáveis do ano passado são maiores do que o momento crítico da pandemia, então é um sinal de dança das cadeiras. As pessoas estão sendo realocadas porque o mercado de trabalho sofreu um grande choque”, explica Marcelo Neri, diretor do FGV Social, da Fundação Getúlio Vargas.
No entanto, por aqui, a movimentação de demissões tem ocorrido, segundo os especialistas, entre os profissionais mais qualificados, ou seja, aqueles que têm ensino superior completo e que estão trocando de empresa. Desde os primeiros dias de 2022, postagens anunciando mudanças de emprego surgiram aos montes no LinkedIn.
Profissionais mais qualificados
A taxa de desemprego dessa população foi de 6,3% no terceiro trimestre de 2021, segundo o IBGE. Números próximos a 5% são indicativos de pleno emprego, de acordo com especialistas. Mas, uma vez que apenas 17% dos brasileiros acima de 25 anos possuem o ensino superior completo, não há gente suficiente para que uma movimentação de demissões se equipare a um fenômeno como a grande debandada. Essa movimentação, em um País tão desigual como o Brasil, acaba ficando nas mãos de quem é privilegiado social e economicamente.
“Temos muitas questões culturais, tecnológicas, sociais, políticas e econômicas. Há desníveis muito grandes entre Brasil e EUA. Aqui, as pessoas estão buscando emprego. Claro que os profissionais altamente qualificados vão sempre ser procurados e sempre vão procurar novas oportunidades. Elas vão procurar uma vaga melhor, mas primeiro elas vão ver se há essa vaga melhor, antes de pedir demissão”, explica Tania Casado, professora da USP e diretora do Escritório de Carreiras da USP (Ecar/USP).
Para Lucas Nogueira, diretor associado da Robert Half, a flexibilidade passou a ser um dos requisitos dos profissionais durante a pandemia. Foto: Cássio Narciso
De acordo com a consultoria Robert Half, 51% das demissões de profissionais qualificados no terceiro semestre de 2021 ocorreram a pedido dos colaboradores. O índice foi obtido a partir dos microdados do novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que passaram por uma análise com metodologia própria da consultoria.
No entanto, para o professor da FGV Marcelo Neri, medir a autodemissão ainda é um desafio no Brasil, já que é comum as empresas fazerem acordos com os funcionários durante o desligamento.
A busca pelo novo emprego
O mundo não é o mesmo na pandemia nem será quando ela acabar. Nos dois últimos anos, muitas coisas mudaram, entre elas a forma que os profissionais encaram o mercado de trabalho, refletem os entrevistados.
“As pessoas que têm condição, porque não são todas elas e nem são todos os postos de trabalho que vão poder fazer essa transição (apenas 11% dos trabalhadores ficaram em home office na pandemia), já estão dando mais valor para coisas como o modelo híbrido. Então, é claro que essas pessoas vão tentar refazer seu planejamento da jornada de trabalho”, diz Tania.
Uma outra parte da pesquisa feita pela Robert Half com 1.161 profissionais constatou que 49% dos qualificados que estão empregados pretendem buscar um novo emprego neste ano. Entre eles, 61% querem mudar de empresa, mas continuar na mesma área e outros 39% planejam mudar de área de atuação.
A maior motivação entre os dois grupos de profissionais é a remuneração. Outras razões incluem o desejo de inovar ou aprender algo novo (19%), a busca por realização pessoal (17%) e a expectativa de uma melhor qualidade de vida (12%).
“Antes as empresas eram mais preocupadas em recrutar e oferecer bons salários, que, claro, é um baita motivo para os funcionários ficarem. Mas, com a pandemia, as pessoas passaram a olhar para outras coisas, como a flexibilidade – lembrando que ser só remoto ou só presencial não é flexível”, explica Lucas Nogueira, diretor associado da Robert Half.
“Se o empregado qualificado começa a observar que a empresa não oferece flexibilidade nem um modelo novo de trabalho, que o chefe não se atenta a novos modelos de gestão, essa pessoa vai sair, porque agora as possibilidades são maiores. Demitimos muita gente no começo da pandemia e agora estamos contratando mão de obra qualificada, sem mais limites de geografia, então a guerra de talentos ficou mais forte”, completa.
Ele aponta que as áreas onde há mais debandadas e consequente briga por talentos são: tecnologia (tanto atendimento quanto desenvolvimento), logística (desde manutenção e operação de novos equipamentos, como drones, à cadeia logística de compras online) e a área técnica do agronegócio (melhora de produtividade e distribuição de alimentos).
Na última semana, Felipe M., de 38 anos, pediu demissão da empresa em que trabalhava havia cinco anos. Com um cargo na área comercial, ele tinha, em suas palavras, “o emprego dos sonhos”: home office desde sempre, carro para se locomover e liberdade para escolher os dias e horários em que trabalharia. Solteiro e sem filhos, a demissão veio após uma crise de burnout e como um resgate de uma vontade antiga de sair do corporativo e se mudar para uma cidade do interior.
“Na pandemia, ficou tudo tão corrido no mundo corporativo, o trabalho e a pressão aumentaram. Eu cheguei a ficar de atestado médico, porque estou passando pelo burnout. Você não sabe o que fazer, fica sem reagir, a vida dá uma estagnada e você não consegue ir para frente nem para trás. Eu sempre quis morar no interior e comecei a ver que o trabalho que eu estava fazendo não estava trazendo nenhum bem para as pessoas”, conta.
Segundo Felipe, a empresa se surpreendeu com o seu pedido de demissão, mas compreendeu e fizeram um acordo para que ele fosse mandado embora.
“Mesmo não tendo filhos, tomar uma decisão dessa é muito difícil. Mas quando você pede para sair você tira um peso nas costas, dá uma sensação muito boa. Eu espero nunca mais voltar para o corporativo”, diz.
Ainda cumprindo aviso prévio, por enquanto ele pretende se sustentar com o dinheiro que juntou, o acerto da empresa e a receita que vem de um food truck que já tinha há algum tempo no interior, além de aprender novas habilidades. Nesta semana, começou a ter aulas de marcenaria.
“Como eu já venho pensando nisso há muito tempo, eu já vinha me programando, mas, do ponto de vista financeiro, eu gostaria de estar mais bem preparado. Para isso, eu teria que trabalhar mais um ano nesse emprego. Mas, se eu ficasse pensando nisso, eu ia adiar para sempre”, diz.
Dificuldade para encontrar profissionais
Se já faltava mão-de-obra qualificada e agora esses profissionais estão ficando mais exigentes aos olhos do mercado de trabalho, fica mais difícil recrutar. Uma pesquisa feita pela Heach Recursos Humanos, com 120 recrutadores do Brasil, em 2021, apontou que 85% deles dizem estar passando pelo pior momento profissional de suas carreiras, já que não conseguem encontrar candidatos.
“Em cada 20 candidatos convocados para um processo seletivo, dois ou três aparecem. Um número absurdo. As pessoas acabam desistindo antes mesmo de começar ou pouco depois que começam o processo. Em qualquer segmento isso vem acontecendo, até mesmo em grandes empresas que oferecem bons salários e pacotes de benefícios”, conta Mary Mendonça, líder de relacionamento da Heach.
Para atrair mais interessados nas vagas, 78% dos recrutadores disseram ter que reduzir os pré-requisitos constantemente. As expectativas dos candidatos, segundo quem recruta, têm girado em torno de flexibilidade no trabalho (44%), salários mais altos (26%), pacotes de benefícios (13%), plano de evolução de carreira (13%) e investimentos em formação (4%).
“Se as empresas não se adaptarem a essa realidade, elas simplesmente vão ter um nível de turnover elevado, o que implica em custo e em não manter a capacidade intelectual na própria empresa. A empresa vai ter que pensar em soluções para manter cada um de seus públicos no cargo”, diz Mary.
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