Brasil quer largar na frente na corrida mundial da ‘internet dos sentidos’. Conheça a sexta geração da telefonia

Analistas e governo já discutem padrões do 6G, que permitirá, por exemplo, sentir o peso e a força de uma bola de tênis em um jogo virtual

Manoel Ventura – O Globo – 06/03/2022 

BRASÍLIA – A implementação das redes 5G no Brasil ainda está no início, mas o governo, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e especialistas já se mobilizam para criar as aplicações e os padrões da próxima geração de redes móveis, o 6G

Essa nova tecnologia tende a ser ainda mais revolucionária que sua antecessora, abrindo possibilidades com ares futuristas. Os técnicos do setor querem que o Brasil tenha papel determinante na escolha das normas da rede, o que é considerado fundamental para colocar o país na linha de frente da sexta geração.

A supervelocidade do 6G e outras características vão permitir recursos até agora inexplorados, como holografia, aplicações táteis, maior integração de hardware com software, o uso da inteligência artificial e da virtualização de redes.

Também permitirão a maior possibilidade de comunicação sem fio intra e entre chips, além de novos formatos de wearables (como são conhecidas as tecnologias vestíveis), que poderiam até mesmo dispensar o uso de smartphones.

O professor José Marcos Câmara Brito, pró-diretor de Pós-graduação e Pesquisa do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), afirma que já há definições sobre como será o 6G.

Enquanto a quinta geração é voltada principalmente para aplicações corporativas, a próxima faixa será para os consumidores.

Além da supervelocidade, a tecnologia 6G vai permitir holografia, aplicações táteis e o uso da inteligência artificial, entre outros Foto: Fábio Cordeiro / Agência O Globo

Além da supervelocidade, a tecnologia 6G vai permitir holografia, aplicações táteis e o uso da inteligência artificial, entre outros Foto: Fábio Cordeiro / Agência O Globo

Maior integração

A possibilidade de aplicações táteis, afirma o professor, vai permitir a sensação do peso e da força de uma bola de tênis em um jogo virtual, por exemplo.

— A primeira coisa que aparece como um consenso entre diversos atores que estão pensando o 6G é que ele vai permitir aplicações que integrem o mundo físico, o mundo digital e o mundo biológico. Um exemplo disso é uma aplicação de gêmeo digital, ou seja, que você replica no digital tudo do mundo físico. Com isso, consegue ter uma infinidade de novos usos. Essa virtualização vai permitir a criação, para o ser humano, de um uma espécie de sexto sentido — afirma Câmara Brito.

Essa integração permitiria, explica o especialista, configurar aplicações para segurança e entretenimento, por exemplo. Como um mapa que replica em tempo real o mundo físico para avisar sobre riscos de segurança ou opções de música ao vivo.

— Passa a ter aplicações que são relacionadas ao humor das pessoas, ao sentimento. Com captação da imagem das pessoas se poderá fornecer aplicações casadas com o humor daquele momento— diz o professor.

O que faz cada geração da telefonia móvel

Multiplicação de antenas

Para toda essa modernidade, será preciso definir uma série de padrões, nos quais o Brasil tenta se inserir. O 6G vai atingir pela primeira vez a frequência do terahertz, ou THz — atualmente, as frequências operadas vão até o gigahertz (GHz).

Com uma largura de banda conhecida como “nova fronteira” de frequências, seria possível atingir velocidades na casa de 1 terabyte (TB) por segundo no pico, com média de 100 gigabytes (GB).

O 5G opera em outra escala, de cem megabytes (MB) a 1GB de taxa média, com 20GB de pico. Ou seja, o 6G tem cem vezes mais velocidade.

O problema é que, quanto mais alta a frequência, menor a distância que ela é capaz de percorrer. Como consequência, é necessário um número muito maior de antenas para vencer a barreira e assegurar a propagação do 6G. São desafios como esse que precisam ser superados nos estudos conduzidos no Brasil e no mundo.

A previsão é que a padronização para o 6G seja finalizada apenas em 2030. Mas isso será feito a partir de definições que já começaram a ser estudadas pelas multinacionais do setor, pela academia e pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência ligada às Nações Protagonismo na agenda

Para técnicos do setor, é fundamental que o Brasil tenha protagonismo nas definições das aplicações e dos padrões do 6G. Isso pode beneficiar, por exemplo, a indústria nacional, como empresas que produzem equipamentos voltados para as redes de comunicações ou para quem vai usar as ferramentas.

O país não teve papel decisivo no 4G e no 5G. Isso prejudicou, por exemplo, o desenvolvimento de aplicações para agricultura, setor fundamental para o PIB brasileiro. Nessas duas versões das redes móveis, não houve um foco para conexão em áreas remotas.

A Anatel avalia que o Brasil deve se engajar nas discussões sobre a tecnologia, bem como sobre as aplicações, equipamentos e espectro, se quiser protagonismo nessa agenda. Conselheiro da agência e indicado para a presidência da Anatel, Carlos Baigorri afirma que o Brasil perdeu participação na definição do 3G, do 4G e do 5G:

— A participação na definição das tecnologias é uma posição vantajosa na disputa desse mercado. O Brasil pode ser um player relevante na indústria de comunicações. Uma coisa é ver para onde a coisa está indo, outra é participar do debate — defende.

Para Baigorri, o maior valor do 6G, no entanto, está nas aplicações, e não nas redes. Por isso, argumenta, o país precisa desenvolver essa tecnologia:

— O valor para o consumidor e que o mercado percebe não está na rede, mas nas aplicações que rodam em cima dessa rede.

Países na corrida tecnológica

Globalmente, a corrida tecnológica já começou, com previsão de incentivos locais para a indústria no Reino Unido e na Índia e estratégias em curso em União Europeia, China, Japão e Estados Unidos.

Depois de a corrida pelo 5G apontar a proeminência da gigante chinesa Huawei nos mercados internacionais — apesar das sanções aplicadas por EUA e Reino Unido —, representantes americanos e japoneses firmaram um acordo este ano na tentativa de dominar as redes 6G.

Os dois países querem construir, juntos, equipamentos adaptados à tecnologia, em uma estratégia de minar a participação da China nesse mercado. Pequim também já tem anunciado conquistas na área, dando um indicativo de que essa guerra está só começando.

Os americanos pressionaram diversos países, inclusive o Brasil, a banir a Huawei na construção das redes 5G. A alegação é a de possibilidade de espionagem, sempre negada pela empresa. Em fevereiro, em evento do mercado financeiro, o diretor de Soluções e Cibersegurança da Huawei, Marcelo Motta, disse que a empresa já estuda o 6G do ponto de vista de investimentos:

— A gente começou a investir em 5G em 2009, para a primeira rede sair em 2018. Investimentos pesados em pesquisa e desenvolvimento, metade dos nossos funcionários estão nessa área. Estamos fazendo esses investimentos no 6G.

Enquanto isso, um ecossistema nacional para o tema já está em formação a partir do Projeto Brasil 6G, que foi iniciado no ano passado com liderança do Inatel e da Rede Nacional de Pesquisa e Ensino, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

O Projeto Brasil 6G é dividido em várias frentes de pesquisa e conta com a participação de seis universidades e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD).

Confira três aplicações futuras do 6G

Táteis

Será possível transmitir o toque, no que já é chamado de “internet tátil”. Permitiria, por exemplo, emular a força de uma jogada. O desafio é criar pressão contra a pele sem haver um objeto físico.

Holografia

Com técnicas de captura, transmissão e renderização 3D em tempo real, seria possível a criação de hologramas. A Samsung diz que para isso é necessária uma velocidade altíssima, não atingida no 5G.

De um chip a outro

A comunicação sem fio entre chips pode ajudar na criação de cidades inteligentes e abrir caminho para mais funcionalidades para a indústria, por exemplo. Isso só é possível com a faixa do THz, do 6G.

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De Vale da Rapadura a Ilha do Silício, cidades competem por título de polo tecnológico brasileiro

Apesar dos apelidos, entrevistados negam a possibilidade de repetir ecossistema americano

Daniela Arcanjo – Folha – 05/03/2022

Viajantes do início da década de 1940 que passavam pelas estradas adjacentes à cidade de Santa Clara, na Califórnia, se deleitavam com a paisagem bucólica da região. Uma vista repleta de pomares de damasco e árvores frutíferas era o que encontravam os que se aventuravam na costa oeste do país, oposta à que abrigava o centro financeiro da potência mundial.

“Era uma região agrícola que havia se especializado em produção e processamento de frutas”, afirma a historiadora americana Margaret O’Mara. “Era muito, muito rural.”

Santa Clara é o coração do icônico Vale do Silício, como ficou conhecida a região sul da baía de São Francisco após o jornalista de tecnologia Don Hoefler assim a nomear em uma série de artigos publicados no jornal Electronic News, em 1971.

A antiga cidade rural hoje é casa da Intel, a mais famosa fabricante de microchips do mundo, tem como vizinha Cupertino, onde está a sede da Apple, e fica a quase 30 km de Menlo Park, que abriga a gigante Meta, dona do Facebook, do WhatsApp e do Instagram.

Décadas depois da transformação da Califórnia, regiões do Brasil tentam repetir o feito. Em pelo menos 21 cidades, há comunidades de empreendedores ou gestores públicos que se reivindicam vales do silício brasileiros. A lista inclui locais improváveis e propostas curiosas, como Sandwich Valley, em Bauru, no interior de São Paulo, e Vale da Rapadura, em Fortaleza.

O Vale da Eletrônica, no município mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi um dos pioneiros na comparação, em 1985.

A fama da cidade remonta ao final dos anos de 1950, quando ela passou a contar com uma Escola Técnica de Eletrônica —uma grande novidade na época. Já em 1965, antes mesmo de a região começar a concentrar indústrias de microeletrônicos, o município inaugurou o Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações).

A mais recente investida ocorreu no Rio de Janeiro. A ideia de Eduardo Paes (PSD) é reabilitar a zona portuária da cidade, um projeto que havia sido colocado na gaveta após a euforia das Olimpíadas de 2016.

O plano do chamado Porto Maravalley, um balcão de 2,8 mil metros capaz de abrigar 144 startups que lá receberão mentorias, foi anunciado em 2019, e desde o meio do ano passado vem sendo alardeado pelo secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Francisco Bulhões. O espaço terá um coworking e receberá eventos.

A antiga promessa de um Vale do Silício na Floresta Amazônica também foi revivida por declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Durante participação na COP26 (26ª Conferência Mundial do Clima), no ano passado, o ministro defendeu isenção de impostos a big techs, como Google, Amazon e Tesla, e afirmou ser preciso transformar a vocação da região, para que ela se torne a “capital mundial da economia verde e digital”.

A proposta revisita a ideia da Zona Franca de Manaus, parque industrial no Amazonas que dá vantagens fiscais a empresas ali instaladas —​e ameaçada por Guedes desde 2018. O grosso da produção é de itens como computadores e tablets, embora as fábricas sejam essencialmente montadoras, e não produtoras de tecnologia.

Em 2021, o estado concentrou apenas 0,11% dos aportes de capital de risco, responsáveis por financiar inovação.

Empresa no polo Porto Digital em Recife – Leo Caldas/Folhapress

Para além de promessas e projetos, o Brasil já tem algumas cidades que entregam um ecossistema de inovação tecnológica robusto. Alguns exemplos são Florianópolis, com uma rede de inovação distribuída na cidade; Porto Alegre, com um parque tecnológico universitário; Recife, com um espaço de inovação na antiga zona portuária da cidade; e São José dos Campos, com alguns dos principais institutos de tecnologia do país.

A corrida pelo título de “vale do silício” tem causado a aprovação de uma enxurrada de leis do setor nas câmaras das cidades pelo Brasil. A reportagem apurou que ao menos 11 leis que se relacionam com o setor foram aprovadas em dez grandes cidades nos últimos cinco anos.

Há ainda os gestores que planejam novas legislações, como o Distrito Federal, que segundo a sua Secretaria de Inovação está trabalhando para “passar legislações que reduzam o imposto pago pelas startups”.

“Não estamos brincando quando falamos que queremos transformar o Distrito Federal no próximo Vale do Silício”, afirma a pasta por email.

No premiado livro O Código (Alta Books, 2021), a historiadora americana e professora da Universidade de Washington Margaret O’Mara destrinchou o papel decisivo que o Departamento de Defesa dos EUA desempenhou na ascensão do Vale do Silício.

“O principal fator foi o investimento dos Estados Unidos em tecnologia militar durante a Guerra Fria”, afirma O’Mara.

“Foi o começo da indústria de eletrônicos no Vale do Silício, porque havia instalações militares na região, e a Universidade Stanford era muito focada em construir seus programas de ciência e engenharia para conseguir parte do dinheiro que vinha de Washington.”

A microeletrônica, tipo de tecnologia desenvolvido ali, atendia perfeitamente os militares: permitiu que os computadores ficassem cada vez menores e mais potentes, base da revolução digital a que o mundo assistiria décadas depois.

As condições ali criadas abriram as portas para uma cultura empresarial muito específica. Por estar longe do grande centro financeiro do país, na costa leste, a região inteira tornou-se altamente especializada nesse tipo de negócio. Grande parte dos estabelecimentos focava no setor, de escritórios de advocacia a fundos de capital de risco —que, amparados pelo investimento e interesse do Estado, tinham mais confiança no investimento.

VIsta aérea da sede da Apple em Cupertino, na Califórnia – Carlos Barria – 28.out.2021

“Eu odeio a frase: ‘Quando o governo não atrapalha, ele já ajuda bastante’. Isso está completamente errado”, diz a secretária de Inovação de Curitiba, Cris Alessi. A cidade, que se destacou no início dos anos 2000 por iniciativas no campo da tecnologia, vem tentando retomar seu espaço.

“Só o poder público tem o poder de legislar. Se nós não tivéssemos um programa de incentivos fiscais, Curitiba não teria metade das startups importantes que tem hoje, porque essas startups estariam em outros lugares”, defende a secretária.

Em 2017, durante o primeiro mandato da gestão atual, foi criado o Vale do Pinhão, projeto que quer colocar Curitiba novamente no mapa da inovação. Em 2018, eles revisaram uma lei de incentivos fiscais de 2006, que abrangia apenas uma parte da cidade, para atender todo o território.

O caminho é oposto ao traçado pelo Porto Digital, parque tecnológico que há 22 anos restaurou a antiga zona portuária de Recife por meio de reduções fiscais.

  1. Porto Digital, parque tecnológico instalado no centro histórico de Recife
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Porto Digital, parque tecnológico instalado no centro histórico de Recife Leo Caldas – 4.mar.2022/Folhapress

A ideia de um parque do tipo era bastante inovadora para a época. “Os parques tecnológicos, que são engrenagens de transferência de conhecimento por meio do empreendedorismo, nasceram muito ligados à universidade”, diz Francisco Saboya, um dos acadêmicos que pleitearam o parque em Recife.

“[Ficavam] em um lugar relativamente distante dos centros urbanos, aquele lugar mais idílico, onde os passarinhos cantam, onde tem um laguinho, porque os gênios estão trabalhando.”

Nos anos 1990, Saboya e outras lideranças queriam estancar a fuga de cérebros que ocorria no estado com a quebradeira que o país vivia, recuperando o pioneirismo tecnológico que Pernambuco experimentara nos anos 1950 e 1960.

“Nos anos 1990 acontece um paradoxo daqueles que ou você enfrenta para resolver ou você perde a onda”, conta ele. “Ao mesmo tempo que a economia pernambucana tradicional realmente declinava, nasciam as bases de um novo ativo econômico chamado conhecimento. Capital humano qualificado, em especial na área de tecnologia da informação.”

Em destaque por seu tamanho, São Paulo não conta com parques tecnológicos tão reconhecidos como outros municípios do país —cidades do interior do estado, como São José dos Campos e Piracicaba, lembrado como o Agtech Valley, ficam com os louros.

Tentativas mais tímidas de união de empresários em um único local, como a Praça do Silício, na República, e o Potato Valley, no Largo da Batata, despontam na metrópole de tempos em tempos.

Luciano da Silveira Araújo, diretor do Conecta.Hub.SP —orgão da capital que visa integrar as iniciativas de inovação—, diz que classificaria o ecossistema paulistano como um cluster, uma concentração de empresas que guardam características semelhantes. “São Paulo precisa ter essa estrutura mais descentralizada como um organismo, um tecido urbano”, afirma.​

“São Paulo tem uma capacidade de criar propriedade intelectual de maneira incrível. Para o desenvolvimento de uma empresa, São Paulo tem absolutamente tudo para fazer essa parte humana de uma maneira exponencial”, afirma Araújo, referindo-se à diversidade da população e à quantidade de profissionais na cidade. “O que faz um ambiente inovador é a multidisciplinaridade.”

A despeito do poder de divulgação que um “valley” brasileiro pode ter, a maioria dos entrevistados rejeita a ideia de copiar o modelo do Vale do Silício, que deu luz às companhias mais ricas da história —mas atualmente em crise.

Mark Zuckerberg, dono da Meta, já depôs no Congresso americano quatro vezes em quatro anos, sob críticas de prejudicar da saúde dos jovens à democracia com seu modelo de negócios. Google e Twitter, também frutos da região, já estiveram na mesma posição. Há ainda as ameaças de regulamentação, especialmente na União Europeia, e do fenômeno das big techs chinesas.

O próprio vale já não é mais o mesmo, diz a historiadora Margaret O’Mara.

“Você tem de ser muito rico para comprar uma casa lá e viver confortavelmente. Há uma desigualdade econômica enorme, muitas pessoas sem-teto ou vivendo em trailers estacionados na rua”, afirma. “A região não funciona mais como funcionava, é mais difícil para pequenas empresas ganhar escala.”

“Construir um polo tecnológico deveria ser construir uma região dinâmica e que ofereça oportunidades para um grande número de pessoas. É aí que o Vale do Silício falhou. Tem seus benefícios econômicos, mas eles não foram compartilhados de forma suficientemente ampla”, diz a historiadora.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/03/de-vale-da-rapadura-a-ilha-do-silicio-cidades-competem-por-titulo-de-polo-tecnologico-brasileiro.shtml?origin=folha

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Miami está se tornando a capital da inovação e das criptomoedas

A atração pela cidade vai além das praias e incentivos fiscais: ela é parte de um fenômeno maior

 Por Maurício Benvenutti – O Estado de S. Paulo 23/02/2022

Completei 2 meses em Miami. O ambiente vibrante, repleto de pessoas do mundo inteiro interagindo entre si e criando coisas novas, me fez lembrar os 5 anos que vivi no Vale do Silício, de 2015 a 2020. A atmosfera pró-empreendedorismo do sul da Flórida está transformando a região.

Vale lembrar que a economia desse lugar já impressiona há décadas. A Flórida é o 4º estado mais rico dos EUA. Se fosse um país, seria a 17ª maior economia do mundo. Só a cidade de Miami, sozinha, ocuparia a 40ª posição desse ranking com um PIB anual de quase U$ 300 bilhões, na frente de Portugal e Chile, por exemplo.

Mas a pandemia colocou um novo ingrediente nessa receita: a tecnologia. Em dezembro de 2020, um investidor de São Francisco cogitou em seu Twitter que poderia se mudar para Miami. Imediatamente, Francis Suarez, prefeito da cidade, respondeu: “como posso ajudar?”.Depois disso, importantes nomes do venture capital californiano e do private equity nova iorquino se mudaram para a Flórida. E os bilhões que essa turma tem para investir acabaram atraindo milhares de empreendedores e startups.

Miami aos poucos se torna um grande polo da inovação 

Miami aos poucos se torna um grande polo da inovação 

Mais de 220 mil pessoas se mudaram para Flórida entre julho de 2020 e 2021. Ou seja, 605 novos residentes por dia. Isso supera os números de qualquer outro estado americano. Para atender a demanda, há pelo menos 22 arranha-céus sendo construídos em Miami no momento, algo também não visto em outro lugar.

Entre as tecnologias desenvolvidas na cidade, o universo das moedas digitais se destaca. Miami trabalha para ser a “capital mundial das criptomoedas”. Ela sediou o Bitcoin Conference, um dos mais importantes eventos dessa indústria. O ginásio local da NBA passou a se chamar FTX Arena, nome de uma das principais bolsas de criptoativos da atualidade. Além disso, o poder público entrou de cabeça nessa área. O município recém anunciou a MiamiCoin, a primeira CityCoin a ser lançada que reverterá 30% dos seus ganhos para o governo investir na região. O prefeito passou a receber 100% do seu salário em bitcoin. E, logo, os funcionários da prefeitura poderão receber também. Não é à toa que o Financial Times elegeu Miami como a cidade mais importante dos EUA atualmente.

Tudo leva a crer que o motivo da atração do mundo por Miami vai muito além das suas praias e incentivos fiscais. O que estamos vendo na Flórida é mais um capítulo desse fenômeno anywhere que está provocando uma verdadeira dispersão dos hubs de inovação pelo mundo.

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,miami-esta-se-tornando-a-capital-da-inovacao-e-das-criptomoedas,70003986316

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Pela primeira vez, energia solar no Brasil supera hidrelétrica de Itaipu

O Brasil acaba de ultrapassar a marca de 14 gigawatts (GW) de potência operacional da fonte solar fotovoltaica, segundo a ABSOLAR

Por Da Redação Exame 02/03/2022 

O Brasil acaba de ultrapassar a marca de 14 gigawatts (GW) de potência operacional da fonte solar fotovoltaica, somando as usinas de grande porte e os sistemas de geração própria de energia elétrica em telhados, fachadas e pequenos terrenos. Com isto, a fonte solar supera a potência instalada da usina hidrelétrica de Itaipu, segundo mapeamento da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR).

De acordo com a entidade, a fonte solar já trouxe ao Brasil mais de R$ 74,6 bilhões em novos investimentos, R$ 20,9 bilhões em arrecadação aos cofres públicos e gerou mais de 420 mil empregos acumulados desde 2012. Foi evitada ainda a emissão de 18,0 milhões de toneladas de CO2 na geração de eletricidade.

Para o CEO da ABSOLAR, Rodrigo Sauaia, o avanço da energia solar no País, via grandes usinas e pela geração própria em residências, pequenos negócios, propriedades rurais e prédios públicos, é fundamental para o desenvolvimento social, econômico e ambiental do Brasil. “A fonte ajuda a diversificar o suprimento de energia elétrica do País, reduzindo a pressão sobre os recursos hídricos e o risco de ainda mais aumentos na conta de luz da população”, comenta.

“As usinas solares de grande porte geram eletricidade a preços até dez vezes menores do que as termelétricas fósseis emergenciais ou a energia elétrica importada de países vizinhos atualmente, duas das principais responsáveis pelo aumento tarifário sobre os consumidores”, acrescenta Sauaia.

O setor espera um crescimento acelerado este ano nos sistemas solares em operação no Brasil, especialmente os sistemas de geração própria solar, em decorrência do aumento nas tarifas de energia elétrica e da entrada em vigor da Lei n° 14.300/2022, que criou o marco legal da geração própria de energia.

“Trata-se do melhor momento para se investir em energia solar, justamente por conta do novo aumento já previsto na conta de luz dos brasileiros e do período de transição previsto na lei, que garante até 2045 a manutenção das regras atuais aos consumidores que instalarem um sistema solar no telhado até janeiro de 2023”, explica Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho de Administração da ABSOLAR.

O Brasil possui 4,7 GW de potência instalada em usinas solares de grande porte, o equivalente a 2,4% da matriz elétrica do País. Desde 2012, as grandes usinas solares já trouxeram ao Brasil mais de R$ 25,1 bilhões em novos investimentos e mais de 142 mil empregos acumulados, além de proporcionarem uma arrecadação de R$ 7,9 bilhões aos cofres públicos.

Atualmente, as usinas solares de grande porte são a sexta maior fonte de geração do Brasil e estão presentes em todas as regiões do País, com empreendimentos em operação em dezenove estados brasileiros e um portfólio de 31,6 GW outorgados para desenvolvimento.

No segmento de geração própria de energia, são 9,3 GW de potência instalada da fonte solar. Isso equivale a mais de R$ 49,5 bilhões em investimentos, R$ 11,0 bilhões em arrecadação e cerca de 278 mil empregos acumulados desde 2012, espalhados pelas cinco regiões do Brasil. A tecnologia solar é utilizada atualmente em 99,9% de todas as conexões de geração própria no País, liderando com folga o segmento.

Ao somar as capacidades instaladas das grandes usinas e da geração própria de energia solar, a fonte solar ocupa o quinto lugar na matriz elétrica brasileira. A fonte solar já ultrapassou a potência instalada de termelétricas movidas a petróleo e outros fósseis na matriz elétrica brasileira.

Segundo Koloszuk, além de competitiva e acessível, a energia solar é rápida de instalar e ajuda a aliviar o bolso dos consumidores, reduzindo em até 90% seus gastos com energia elétrica. “Energia elétrica competitiva e limpa é fundamental para o País recuperar a sua economia e conseguir crescer. A fonte solar é parte desta solução e um verdadeiro motor de geração de oportunidades e novos empregos”, conclui o presidente do Conselho.

https://exame.com/esg/pela-primeira-vez-energia-solar-no-brasil-supera-hidreletrica-de-itaipu/

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Semana de trabalho de quatro dias conquista espaço na Europa

Empresas repensam semana de 40 horas, sem cortes salariais; na Bélgica, trabalhadores poderão pedir para condensar horas em 4 dias, mas semanas mais curtas têm desvantagens

Karla L. Miller, The Washington Post/Estadão 27/02/2022

Não sei para você, mas meus finais de semana de dois dias consistem em um dia para me recuperar da semana que passou e outro lutando para me preparar para a seguinte – não sobra muito tempo para o lazer de fato. Se você, assim como eu, acredita que dois dias não são suficientes para um fim de semana, ficará empolgado em saber que o conceito de semana de trabalho com quatro dias está se tornando popular.

Com a Grande Demissão ou Grande Debandada ainda em pleno curso e o esgotamento profissional provocado pelo trabalho tornando-se uma doença ocupacional oficial de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um número cada vez maior de empregadores – e países – está repensando a semana de trabalho padrão de 40 horas. A Islândia liderou o experimento com semanas de trabalho mais curtas, sem cortes salariais, ao longo de vários anos. A experiência foi amplamente aclamada como um sucesso, com aproximadamente 86% dos trabalhadores na expectativa de segui-la.

Agora, a Bélgica anunciou que deixará os trabalhadores solicitarem permissão para condensar suas horas de trabalho em quatro dias. Empresas na América do Norte estão seguindo o exemplo; uma coalizão de empresas do Reino Unido deve repetir o experimento neste verão. Nos Estados Unidos, o deputado democrata Mark Takano propôs um projeto de lei que reduziria todas as semanas de trabalho para o padrão de 32 horas, exigindo pagamento de horas extras para quem trabalhasse além disso.

Talvez o maior argumento a favor de uma semana de trabalho mais curta seja que isso não parece prejudicar a produtividade, por mais contraintuitivo que possa parecer. Parte disso se deve à tendência humana de alongar ou condensar o tempo necessário para concluir uma tarefa com base no tempo que temos disponível. Se sabemos que temos oito horas para preencher, nos controlamos para fazer as coisas de um jeito que não nos canse; a promessa de parar de trabalhar antes é um incentivo para botar a mão na massa e otimizar nossos hábitos no trabalho.

Outro fator é que as mentes e os músculos podem funcionar apenas por um determinado tempo até que a fadiga apareça e comece a afetar a saúde a longo prazo. Depois de um certo período de tempo, a maioria dos trabalhadores começa ter menores retornos de seus esforços. Após 50 horas em uma semana de trabalho, os danos induzidos pelo estresse começam a aparecer na forma de pressão alta, batimentos cardíacos irregulares, resistência à insulina e outros sintomas perigosos.

TrabalhoCargas de trabalho compartilhadas podem aumentar a camaradagem entre profissionais; além disso, o tempo ocioso costuma surgir quando o vínculo e a socialização ocorrem no local de trabalho.  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

E alguns tipos de trabalho são mais bem realizados em sprints com menor duração do que em expedientes de oito horas. A pesquisa descobriu que, para tarefas que exigem concentração profunda constante e um estado de “flow”, mais tempo não significa um pensamento mais profundo ou de melhor qualidade. Para esses tipos de trabalho, turnos de seis horas talvez sejam o ideal.

Trabalhar menos horas por dia tornaria os horários de muitos pais mais sincronizados com os de seus filhos em idade escolar, oferecendo-lhes oportunidades de estarem mais presentes e menos exaustos durante o tempo com a família. No geral, quatro dias de trabalho e três dias de lazer parece ser mais equilibrado do que o modelo vigente de cinco e dois.

Mas, é claro, semanas de trabalho mais curtas têm suas desvantagens.

Elas não funcionam igualmente bem para todos. Para aqueles cujo trabalho é baseado em tarefas, a quantidade de tempo gasto não importa tanto, desde que as demandas sejam concluídas e sigam um determinado padrão. No entanto, para trabalhos que giram em torno de agendas com clientes, processos cronometrados ou horas faturáveis, não há como reduzir o tempo de trabalho sem afetar a produção e a lucratividade.

Isso poderia deixar os colegas fora de sincronia uns com os outros. Os que conseguissem terminar primeiro suas demandas teriam pouco incentivo para apoiar seus colegas. Isso pode fomentar o ressentimento, considerando que as cargas de trabalho compartilhadas podem aumentar a camaradagem. Além disso, o tempo ocioso costuma surgir quando o vínculo e a socialização ocorrem no local de trabalho.

Condensar cinco dias de oito horas em quatro dias de expedientes de 10 horas, como a Bélgica está fazendo, talvez não ajude com o estresse, mesmo que tenha como resultado um fim de semana de três dias. Como observado acima, a produtividade e a qualidade, sem falar na saúde do trabalhador, podem se deteriorar durante esses turnos mais longos.

Semanas de trabalho mais curtas não ajudarão onde já se está trabalhando com equipes reduzidas. Uma das causas da “Grande Demissão” é que os locais de trabalho forçaram os trabalhadores a fazer mais com menos por muito tempo. Um local de trabalho que está continuamente com poucos recursos e sobrecarregado teria que contratar mais profissionais ou reduzir projetos e expectativas para tornar possível uma semana de trabalho mais curta.

No fim, sempre haverá exceções. Seja por meio de cláusulas legais, como a seção 7(k) que basicamente transfere o pagamento por horas extras trabalhadas para arcar com despesas de proteção dos trabalhadores em casos de emergência, ou as dispensas estabelecidas pela Lei de Padrões de Trabalho Justo (FLSA, na sigla em inglês) que permite aos empregadores pagar por 40 horas mesmo quando os trabalhadores estão trabalhando mais que isso.

A semana de trabalho de 40 horas não é adotada de forma homogênea e justa, então não há razão para esperar que isso aconteça com uma semana de trabalho mais curta. E, como acontece com a distribuição de renda, os mais necessitados provavelmente seriam aqueles com menor chance de desfrutar dos benefícios da semana menor.

Apesar dessas preocupações, está claro que precisamos repensar como dividimos nosso tempo, individualmente e como sociedade. Quando foi implementada pela primeira vez, a semana de trabalho de 40 horas era um grande avanço em relação às semanas de 80 a 100 horas de antes – a escola de gestão que pregava “trabalhar até cair morto”. Mas agora, depois de décadas de maior automação e inovações que nos permitem trabalhar de forma cada vez mais eficiente, por que ainda estamos tentando enfiar mais produtividade no tempo que supostamente economizamos?

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O voo de cruzeiro da Embraer, na contramão da indústria brasileira

Companhia apresenta bom desempenho na bolsa de valores, se destaca no mercado internacional e prepara produtos inovadores como o seu ‘carro voador’

Por Felipe Mendes – Veja – FEBRUARY 25, 2022

Em 2020, o céu parecia muito nebuloso para a fabricante brasileira de aeronaves Embraer. Enquanto se preparava para ter a sua operação de aviação comercial absorvida pela americana Boeing, fruto de um acordo de 5,2 bilhões de dólares, dois eventos de magnitude catastrófica colocaram nuvens bastante carregadas pela frente. O primeiro foi a chegada da pandemia de Covid-19, que afetou dramaticamente o setor de aviação. O segundo foi a crise interna da Boeing envolvendo seu modelo 737 Max, depois da queda de dois aparelhos, na Indonésia e na Etiópia. O resultado é que a fusão foi cancelada e a companhia brasileira teve de refazer seus planos para atuar por conta própria no cada vez mais competitivo setor de aviação, um segmento de alta tecnologia, dominado por Boeing e Airbus, e que tem a presença crescente de fabricantes chinesas.

A decisão foi se reestruturar e partir para metas ousadas, com produtos inovadores. Uma reformulação rápida e inesperada, num ambiente inóspito, é a receita para um fracasso retumbante. Mas as coisas têm dado surpreendentemente certo. Basta notar que a Embraer foi a empresa que mais se valorizou no Ibovespa em 2021: a alta de 180%, enquanto o índice da bolsa de valores brasileira caiu 12%. O bom humor dos investidores no ano passado foi justificado por números divulgados pela companhia na segunda-feira 21, os melhores desde 2018.

ELÉTRICO E SILENCIOSO - Novo projeto de veículo voador: 1 735 unidades já encomendadas -

ELÉTRICO E SILENCIOSO – Novo projeto de veículo voador: 1 735 unidades já encomendadas – Embraer/Divulgação

Com a pandemia ainda fazendo estragos mundo afora, a Embraer entregou 141 aeronaves, sendo 48 jatos comerciais e 93 executivos. A carteira de pedidos firmes no ano totalizou 17 bilhões de dólares, o maior volume desde o segundo trimestre de 2018. “Nós focamos três frentes e conseguimos obter os resultados. A primeira foi fortalecer a venda do portfólio anual de produto, que é uma carteira muito moderna e competitiva. A segunda foi ganhar eficiência operacional na companhia, com foco na redução dos inventários. Por último, reduzimos o tempo de produção dos aviões”, diz o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto.

Nada simboliza melhor o novo momento da empresa do que seu projeto de “carro voador”. Idealizado como algo que a princípio poderia soar como uma extravagância, o eVTOL é um veículo elétrico com pouso e decolagem vertical, capaz de se deslocar por distâncias curtas rapidamente. A ser produzido pela Eve Air Mobility, parte de uma subsidiária da Embraer, ele tem sido muito bem recebido pelo mercado.

REESTRUTURAÇÃO - Gomes Neto, presidente da Embraer: reformulação, corte de custos e novos produtos -REESTRUTURAÇÃO – Gomes Neto, presidente da Embraer: reformulação, corte de custos e novos produtos – Embraer/Divulgação

Em 2021, a Eve recebeu ordens de 1 735 aeronaves, com valores de cerca de 5 bilhões de dólares (ou mais de 25 bilhões de reais). E os pedidos continuam a chegar. Em fevereiro, uma encomenda de até noventa eVTOLs chegou de empresas australianas. Cerca de cinquenta deles devem ser usados em complexos turísticos, e o modelo teria sido escolhido devido ao baixo ruído emitido e por suas características ambientais. O produto da Embraer tem sido visto como uma alternativa mais barata, silenciosa e menos poluente que os helicópteros. “A distância que nós estamos trabalhando é de voos de 60 milhas, ou 100 quilômetros. O propósito do eVTOL é transportar pessoas nos grandes centros, como do Itaim Bibi, em São Paulo, até Guarulhos, ou de Guarulhos até o Aeroporto de Congonhas, por exemplo. Para essa distância, ele será muito eficiente. Seu nível de ruído é 80% menor se comparado a um helicóptero. Além disso, é 100% elétrico, com zero emissão de carbono”, diz Gomes Neto. Recentemente, a Eve formalizou o processo para a obtenção de uma certificação da eVTOL junto à Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac. “Como é uma certificação diferente, é difícil estipular o prazo que esse processo pode levar. Já a integração com o espaço aéreo deve ser definida com o Departamento de Controle do Espaço Aéreo”, explica o advogado Ricardo Fenelon Junior, ex-diretor da Anac. Antes mesmo disso, o próximo passo será levar a Eve à Bolsa de Valores de Nova York, a NYSE, o que pode acontecer no segundo trimestre.

A história recente da Embraer é um ponto fora da curva na indústria brasileira, que vem colhendo derrotas nos últimos anos, perdendo competitividade internacional e participação dentro da economia local. Projeções de bancos e do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas, dão conta de uma nova queda do PIB industrial neste ano, que seria a sétima em uma década. No sentido contrário, a empresa prepara, além dos eVTOLs, o lançamento do avião elétrico Ipanema. “É uma linha com aviões movidos a energias alternativas, como células de combustível a hidrogênio. É um passo importante no setor”, diz Gomes Neto. Depois do baque de 2020, a Embraer se prepara para atingir novas alturas.

Publicado em VEJA de 2 de março de 2022, edição nº 2778

 https://veja.abril.com.br/economia/o-voo-de-cruzeiro-da-embraer-na-contramao-da-industria-brasileira/

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No futuro, Petrobras quer substituir trabalho humano por robôs e drones nas plataformas

Petrobras tem investido em projeto de automação em busca de segurança e eficiência; norueguesa TotalEnergies já possui unidade sem presença humana

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo 27 de fevereiro de 2022 | 

Rio – Robôs e drones vão ocupar plataformas marítimas de petróleo, no lugar de seres humanos, na próxima década. No Brasil, a Petrobras se prepara para ter sua primeira embarcação sem qualquer pessoa a bordo em 2030, na região do pré-sal, segundo apurou o Estadão/Broadcast. A partir daí, o esperado é que a produção de petróleo passe, aos poucos, a ser comandada remotamente por profissionais especializados, que vão trabalhar em escritórios em terra firme. A “plataforma do futuro” da estatal, no entanto, ainda vai ser contratada. E esse será o grande passo da empresa rumo à era digital.

ctv-kew-petrobras-1Campo de Sépia, na Bacia de Santos; expectativa da Petrobras é por em prática planos de digitalização das plataformas em menos de 10 anos com o auxílio de drones. Foto: Agência Petrobras

A digitalização da operação é uma revolução perseguida pela indústria de petróleo no mundo todo. O experimento mais relevante é o da Equinor, em parceria com a TotalEnergies, na Noruega. Na primeira plataforma desabitada, a Oseberg H, não há banheiros, quartos, cozinha ou qualquer outro espaço necessário à presença humana. Um ou dois profissionais embarcam na unidade uma vez por ano. E só para checar se tudo está funcionando.

O esperado é que essa experiência se dissemine nos próximos anos. No futuro, toda plataforma terá sua versão “gêmea” no computador de uma sala de controle remoto. Qualquer movimento executado em uma se repetirá na outra. Em vez de pessoas, robôs vão circular pelas embarcações. Eles serão os olhos e ouvidos dos operadores em terra.

“Existe um processo tecnológico em andamento para diminuir as tripulações das plataformas, com a utilização de robótica, controle e técnicas de Inteligência Artificial. Outro esforço de inovação é o conceito subsea to shore (do fundo do mar à costa), no qual a produção submarina é transferida por dutos para a costa, sem o uso de plataformas”, afirma Segen Estefen, diretor de Tecnologia e Inovação da Coordenação dos Programas de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da UFRJ, e ex-membro do conselho de administração da Petrobras.

Na petrolífera, o programa de automação da produção foi batizado de POB0 (People On Board Zero, em inglês). O projeto está inserido num plano maior de eficiência da Petrobras, o EF100. A estatal se prepara para ser mais eficiente do que a média da indústria já em 2023 e estar entre as líderes do mercado em 2027. 

Operação remota

O POB0 foi divulgado pela Petrobras no evento virtual Offshore Technology Conference (OTC), no fim de janeiro. “Acreditamos que, num futuro próximo, teremos o uso intensivo de robôs em plataformas marítimas para fazer inspeções e alguns tipos de procedimentos de operação”, disse Marcelo Ramis, gerente-geral de Eficiência da Operação na Exploração e Produção da Petrobras. No início, as máquinas serão instaladas a cada ano nas atuais plataformas. O controle 100% remoto só será implementado em novas embarcações.

ctv-2ya-equinorPlataforma de petróleo da Equinor; a companhia norueguesa é uma das primeiras petrolíferas a testar sistema de operação digital. Foto: REUTERS/Ints Kalnins

A Petrobras informou que o programa de substituição dos trabalhadores por máquinas está em fase inicial. A estatal admite que há redução dos gastos com logística a ser considerada, mas o principal objetivo é diminuir a exposição de pessoas ao risco, com operações mais seguras e eficientes.

Rafael Costa, pesquisador-visitante do Núcleo de Estudos Conjunturais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pondera que deve ser levada em conta a realidade brasileira nos projetos. Os navios-plataforma usados no pré-sal, por exemplo, são maiores do que os dos pares internacionais, e há muitos trabalhadores envolvidos nas atividades. “Uma inteligência artificial está mais preparada para responder a certos padrões do que para lidar com eventos inesperados”, analisa Costa. l

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,plataformas-petroleo-futuro-drones,70003992360?utm_source=estadao:app

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Sabático remunerado vira investimento de empresas para reter talentos

De um mês a um ano, programas de sabático permitem que profissionais se dediquem a estudos; para especialista, investimento tem custo menor do que contratar novos talentos

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão 20 de fevereiro de 2022 | 

O cenário de alta competitividade do mercado e a necessidade cada vez maior de engajar e reter talentos posicionou a cultura de aprendizagem das empresas como peça-chave para aprimorar a experiência dos colaboradores — e, consequentemente, tornar as organizações mais atraentes aos olhos dos profissionais. É o que indica o relatório “Como a força de trabalho aprende” da plataforma de upskilling Degreed, que mapeou 15 pontos fundamentais para ter uma cultura de aprendizagem de sucesso.

De acordo com a pesquisa, feita com mais de 2,4 mil colaboradores em 15 países, os que acreditam que a cultura de aprendizagem da empresa em que trabalham seja positiva têm 199% mais chances de serem promovidos e 235% mais chances de irem para outras áreas da organização. O apoio à aprendizagem e ao desenvolvimento mostra-se, portanto, um braço fundamental para o crescimento das próprias organizações, fazendo com que algumas já apostem inclusive em programas em que o funcionário tira um período sabático, que pode variar de um mês a um ano, para estudar. E isso sem perder o cargo ou o salário. É o que especialistas chamam de sabático de aprendizagem remunerado

De acordo com Débora Mioranzza, vice-presidente para a América Latina e Caribe da Degreed, esse tipo de programa traz três vantagens para a empresa: desenvolvimento dos profissionais, maior retenção dessa força de trabalho especializada e economia, já que o custo de uma nova contratação é mais alto do que o custo do upskilling.

“Por mês, cerca de 500 mil pessoas pedem demissão no Brasil. Quantas delas não estarão fazendo isso para estudar e se aperfeiçoar? As organizações estão perdendo esses talentos”, ela observa. “Líderes que têm essa visão conseguem fazer movimentos internos para investir no desenvolvimento dos profissionais. Porque quem não investe nesse desenvolvimento contínuo não só perde os talentos como não consegue encontrar pessoas internamente para colocar no lugar.”

Gustavo Sousa, da SolutiNa empresa Soluti, Gustavo Sousa teve três meses para estudar; tendência de sabático remunerado ajuda a reter talentos.  Foto: Matheus Gama

A especialista fala que empresas que já têm uma cultura de aprendizagem positiva estabelecida possuem orçamento específico para a área de desenvolvimento. “A estratégia é transferir o valor investido em contratações externas para essa área”, explica. “E aí as empresas têm políticas diferentes sobre como é construída a remuneração de um período sabático de aprendizagem. Quando a duração é de dois meses, por exemplo, elas podem manter o salário integral; já em períodos mais longos, como um ano, algumas oferecem um percentual do salário.”

Débora diz ainda que a organização pode não pagar um salário, mas garantir uma ajuda de custo com a manutenção do básico para quem está estudando, como estadia, no caso de cursos em outra cidade ou país, custos com materiais, um benefício mensal pré-determinado, transporte e alimentação. “Certas habilidades as pessoas não vão conseguir desenvolver durante o período de trabalho ouvindo um podcast ou lendo um artigo. Elas precisam de programas mais robustos de aprendizagem, como um MBA”, sublinha.

Segundo ela, a Buffer, empresa canadense especializada em mídias sociais, é uma das que já têm um programa de sabático remunerado de aprendizagem sólido. Para que os membros do time possam desenvolver habilidades de acordo com as mudanças e novas necessidades da empresa, é concedido um período de três meses com 50% do salário e supervisão de um gerente direto, que faz check-ins regulares e acompanha a evolução do aprendizado. 

Já a consultoria global McKinsey patrocina programas de MBA full-time a funcionários que já têm um certo número de anos na casa em troca da garantia de que ficarão mais alguns anos após o sabático remunerado. Outras companhias estrangeiras que possuem políticas do tipo são Adobe Systems, Autodesk, VMware, Intel, e Goldman Sachs.

Capacitação remunerada e sabático para novos projetos

No Brasil os casos ainda são raros, mas já há alguns exemplos similares nascendo. Um deles é o da startup Soluti, empresa goiana especializada em identidades e assinaturas digitais. De acordo com a diretora de pessoas Nara Saddi, o projeto começou no ano passado devido à gigantesca necessidade de desenvolvedores capacitados. Batizado de Space Tec, o programa de especialização remunerado dura três meses e é direcionado aos desenvolvedores júnior, que se dedicam exclusivamente aos estudos ao longo do período. 

Além dessa iniciativa, a empresa acaba de lançar uma premiação que oferecerá um mês de sabático remunerado de aprendizagem no exterior com foco no desenvolvimento do projeto selecionado e outro mês de home office para que o profissional possa finalizar a ideia. “Como somos uma empresa de tecnologia e o Brasil passa por um apagão desse tipo de mão de obra, ficou mais urgente e clara para nós a importância de ter grandes talentos no time”, destaca a executiva. “Essa parceria com os sonhos deles faz com que eles tenham interesse em estar junto. A empresa que apoia o desenvolvimento acaba construindo uma relação de reciprocidade mais saudável, um vínculo mais forte com o colaborador, além de ficar menos aberta a leilões de contratação.”

Débora Mioranzza, DegreedDébora Mioranzza, vice-presidente da Degreed, acredita que o sabático remunerado ajuda numa maior retenção da força de trabalho especializada.  Foto: Kimberly Brooke

Para o desenvolvedor Gustavo Sousa, de 27 anos, que está cursando a distância o último semestre de ciência da computação pela Universidade Federal de Lavras (MG), a surpresa foi dupla quando recebeu uma proposta da Soluti. “Além de a proposta em si ser muito boa, saber que eu teria três meses remunerados só para estudar foi surpreendente. Eu nunca tinha visto uma empresa dar esse tipo de oportunidade”, justifica. “E foi um aporte muito valioso. A evolução que eu tive nesse período, se eu fosse fazer por fora, acredito que equivaleria a um ano de estudo.”

No caso da Ineos Styrolution, multinacional da área petroquímica que tem sede nos Estados Unidos e filiais ao redor do mundo, incluindo o Brasil, o programa de aprendizagem remunerado envolve a participação em projetos variados da empresa em outros países. Um colaborador, por exemplo, passou um ano fora pelo programa, participando inclusive de um projeto de reflorestamento em Londres por três meses.

“A iniciativa é para jovens que acabaram de se formar e ingressar na companhia”, diz Gilvan Righetti, que gerencia a área de RH no Brasil. “Junto à política de apoio ao MBA, que é aberta a todos e reembolsa o candidato anualmente de acordo com o desempenho, é uma política que atende a duas vertentes: dar oportunidade de desenvolvimento de carreira, porque muitos estão de olho em carreira internacional, e formar mais pessoas tecnicamente”, acrescenta. “O segmento (de petroquímica) é de longa duração e, à medida que as pessoas vão se aposentando, precisamos de outras já com formação técnica para cobrir essas vagas.” 

https://economia.estadao.com.br/noticias/sua-carreira,sabatico-remunerado-vira-investimento-de-empresas-para-reter-talentos,70003983991

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Guerra na Ucrânia afeta a economia digital do mundo

No mundo da tecnologia, país atacado pelos russos é uma potência

 Por Pedro Doria – O Estado de S.Paulo – 24/02/2022

Na segunda semana de fevereiro, os ucranianos tiveram dificuldade de acessar inúmeros dos sistemas bancários do país. Estava começando, ali, o maior ataque DDoS de sua história — não é pouco, a Ucrânia é um dos países com maior experiência em ataques cibernéticos no mundo. Este tipo em particular, de negação distribuída de serviço, é força bruta. Robôs fingem ser pessoas aos milhões tentando acessar sites e apps. O resultado é que, sobrecarregados, os servidores ficam lentos e caem. O que estamos assistindo naquele país, desde a madrugada de quinta-feira, não é apenas a primeira guerra de conquista em solo europeu desde que Adolf Hitler invadiu a Polônia, em 1939. É também a primeira guerra figital, física e digital.

O objetivo de uma guerra digital é desestabilizar a infraestrutura de um país nos momentos anteriores à invasão com tanques. Durante fevereiro, os ucranianos tiveram dificuldade de fazer transferências e sacar recursos. Pagamentos atrasaram ou não foram feitos. Já de cara, no momento em que os primeiros mísseis caíram sobre Kiev, a vida financeira do país não estava em dia. E não dará tempo para organizar.

Ataque da Rússia a Ucrania afeta economia digital

Ataque da Rússia a Ucrania afeta economia digital

Desde janeiro, circula nas empresas de eletricidade do país uma série de malwares do tipo wiper, espécie de vírus que apaga o conteúdo de discos. A informação que as empresas de segurança têm é de que não houve danos relevantes. Mas a apreensão é imensa. Por duas vezes, uma em 2015, outra em 2016, ataques das unidades digitais do exército russo deixaram centenas de milhares de ucranianos sem luz. O principal medo é de que, enquanto se distraíam na defesa contra os vírus, os especialistas em segurança das companhias de luz não perceberam a atividade dos russos em suas redes. Pode ser que estejam lá dentro, prontos para desligar as luzes quando convier.

Na indústria digital, a Ucrânia não é qualquer país. É a número um global em terceirização de serviços de TI. Todas as gigantes do Vale do Silício dependem de pessoas que vivem lá. Mais de cem, das 500 maiores companhias do ranking da Fortune, também dependem. Nas contas do governo ucraniano, o número de profissionais altamente especializados que trabalham para empresas de fora passa de duzentos mil. É gente que conhece nanotecnologia, blockchain, inteligência artificial e design de games.

Estas pessoas, nos próximos dias, estarão preocupadas em encontrar comida, buscar abrigo e, se der, fugir do país. Ou ingressar nas Forças Armadas como combatentes hackers. É impossível a economia digital do mundo não ser afetada. O mundo mudou.

https://link.estadao.com.br/noticias/geral,guerra-na-ucrania-afeta-a-economia-digital-do-mundo,70003990181

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Pesquisas confirmam que a maioria das pessoas não consegue dizer não

O problema pode afetar o desenvolvimento social

Por Matheus Deccache, Ricardo Ferraz -Veja – 18 fev 2022 

Dizer não com clareza é uma das primeiras habilidades adquiridas pelos seres humanos. No início da vida, muito antes de aprender a falar, os bebês já são capazes de deixar claro que estão descontentes com a temperatura da água do banho, ou que já saciaram a fome e não querem mais mamar. Correntes da psicologia enxergam, inclusive, uma correlação direta entre o fato de a criança afastar a boca do peito da mãe com um movimento lateral do pescoço e o gesto de balançar a cabeça para os lados — linguagem não verbal de negativa compreendida da mesma forma em quase todas as culturas ao redor do mundo. Nada disso, no entanto, impede que, quando cresçam, muitas pessoas sejam incapazes de negar um pedido, não importa de onde venha. A maioria, pelo jeito: estudo conduzido pelo departamento de psicologia comportamental da prestigiada Universidade Cornell, nos Estados Unidos, concluiu que as pessoas são mais afeitas a dizer sim do que não.

arte dizer não

Ao longo de quinze anos, a pesquisadora Vanessa Bohns realizou experimentos sociais com cerca de 15 000 pessoas, seguindo um mesmo roteiro: sua equipe abordava estranhos na rua e pedia que fizessem alguma coisa inesperada. Cada entrevistador tinha um número certo de indivíduos a interpelar e, antes de se pôr a campo, antecipava quantos achava que iriam atender à sua solicitação. Os resultados surpreenderam. Em uma situação, jovens pediam para usar o celular de um desconhecido, dizendo que a bateria de seu havia acabado. A expectativa era a de que 90% recusassem, mas metade aceitou ajudar.

CONTRA A VONTADE - Dilema: a maior parte das pessoas aceita fazer o que não quer para não desagradar aos outros -

CONTRA A VONTADE – Dilema: a maior parte das pessoas aceita fazer o que não quer para não desagradar aos outros – Serghei Turcanu/iStock/Getty Images

Em outro cenário, uma corrida de rua cujo objetivo era arrecadar fundos para uma instituição de caridade, a tarefa dos pesquisadores era se aproximar dos participantes e pedir doações até elas atingirem uma meta que ia de 2 000 a 5 000 dólares. A expectativa era precisar convencer 210 corredores, mas o objetivo foi alcançado com a abordagem de, em média, 122 deles. “É incrivelmente estranho, desconfortável e difícil encontrar palavras para decepcionar o outro, mesmo sendo alguém que não conhecemos e com quem não temos nenhuma relação afetiva”, disse a VEJA a pesquisadora Bohns, que reuniu os experimentos no livro Você Tem Mais Influência do que Pensa, ainda sem tradução no Brasil.

ALÉM DA CONTA - Valeska: sempre prestativa, “mesmo deixando minhas questões em segundo plano” -ALÉM DA CONTA – Valeska: sempre prestativa, “mesmo deixando minhas questões em segundo plano” – Ricardo Borges/.

A dificuldade de negar ajuda ou pedido tem raízes na pré-história, quando se percebeu que as chances de sobrevivência eram maiores se as pessoas se organizassem em bandos e colaborassem umas com as outras do que se vagassem sozinhas por ambientes inóspitos e cheios de perigo. A evolução do cérebro e o desenvolvimento do sistema límbico tornaram as interações cada vez mais complexas. “Agindo em conjunto, a humanidade se mostrou capaz de obter ganhos para sua sobrevivência. Por isso, se uma pessoa lhe pede um favor, a reação natural é colaborar com ela”, explica Ariovaldo Silva Júnior, neurocientista da UFMG. Nos tempos modernos, esse condicionamento virou, em algumas pessoas, motivo de enorme angústia, sintoma de um distúrbio conhecido como ansiedade de insinuação. O problema se manifesta cada vez que o indivíduo se vê, de alguma forma, forçado a fazer algo que não quer, apenas para não se sentir rejeitado pelos pares. Albert Einstein, um dos mais brilhantes angustiados, escreveu. “Toda vez que diz sim querendo dizer não, morre um pedaço de você” (veja o quadro).

arte dizer não

Pesquisas mais recentes que mapearam o funcionamento da mente encontraram outras explicações para a dificuldade em dizer não. As decisões mais banais e cotidianas ativam um sistema neurológico automático e intuitivo, principalmente quando não oferecem nenhum tipo de risco — daí ser comum a pessoa só parar para pensar depois de responder positivamente a uma solicitação. Em 1978, Ellen Langer, professora de psicologia de Harvard, conduziu um estudo em que um pesquisador pedia para furar a fila em uma máquina de fotocópias e constatou que a maioria cedia, mesmo quando a justificativa para passar à frente não fazia sentido. “A tomada de decisão racional e refletida depende do acesso a uma região específica do cérebro que precisa ser treinada”, ensina a neuropsicóloga Adriana Fóz. Sem ter passado por esse treinamento, todo ano a contadora Isabel Cristina faz o imposto de renda para amigos do trabalho, de graça, e não consegue se livrar dos pedidos. “Eu me sinto muito mal em negar ou cobrar pelo serviço porque acho que as pessoas vão ficar chateadas comigo. É uma bola de neve, porque o volume só aumenta”, desabafa.

Em que pesem as dificuldades, impor limites para si e para os outros é fundamental para a formação da identidade dos indivíduos e de seu posicionamento em sociedade. Em seus estudos, o pai da psicanálise Sigmund Freud postulava que a personalidade é moldada, entre outros fatores, por desejos e necessidades das pessoas mais próximas. “Receber aprovação é uma habilidade necessária para a vida social, mas quando isso se torna exagerado há o risco de alienação da realidade”, alerta Paula Peron, professora de psicologia da PUC-SP. “Mesmo que não tenha capacidade de resolver o problema dos outros, dou um jeito de ser prestativa e acabo deixando as minhas questões em segundo plano”, admite a estudante de enfermagem Valeska Castro, 22 anos. Duas recomendações valiosas para quem não consegue dizer não: 1) pare e pense antes de responder e 2) se já sabe que o pedido virá, planeje a negativa com antecedência. “Tenha um roteiro com as palavras corretas para não desagradar ao outro”, ensina Bohns. Negar o que não agrada, no fim das contas, fará bem a todos. Sim?

Publicado em VEJA de 23 de fevereiro de 2022, edição nº 2777

https://veja.abril.com.br/comportamento/pesquisas-confirmam-que-a-maioria-das-pessoas-nao-consegue-dizer-nao/

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