Por que o design da Nike continua surpreendente após 50 anos


POR MARK WILSON Fast Company Brasil 03/03/2022

A Nike completa 50 anos em 2022 e seu design se mostra mais interessante do que nunca. Outro dia, visitando o site oficial, encontrei uma das inúmeras descrições já feitas de um tênis e tive um insight do porquê a marca se mantém em alta. Ela poderia ter se tornado mais uma grife descartável, mas continua pensando (até demais) em seus designs – e da melhor maneira possível.

Como afirmou recentemente o site de moda masculina Hypebeast, a Nike já está tendo um “grande ano”, cheio de lançamentos experimentais. E ainda estamos em fevereiro! A verdade é que, há alguns anos, as tendências lançadas pela empresa têm sido certeiras, além de anunciadas no timing perfeito – como quando a marca divulgou seus Space Hippies sustentáveis ​​​​ou seus Go Flyeases fáceis de calçar e descalçar.

Os tênis são a arte democratizada da nossa era, com a diferença de que seu dono não precisa desembolsar uma fortuna em edições limitadas para participar da brincadeira. Com um investimento a partir de cerca de US $ 75, qualquer um pode adquirir uma verdadeira escultura maximalista para ser usada nos pés.

Créditos: Nike/ Divulgação

Basta dar uma olhada na loja online da Nike. É impossível não se encantar por algum modelo, como pelos LeBrons, que remontam aos tênis criados para Michael Jordan usar nas quadras basquete nos anos 90. Ou por um tênis para trilhas feito em um tecido original, que poderia descrever como um “negativo” da estampa clássica de onça. Ou por um cano alto de material misto, cujo jogo de cores e estampas faz lembrar o design de interiores dos anos 80. Ou por tênis de corrida tão fluorescentes que você vai querer chupar como se fosse um picolé de limão.

Algum desses modelos bate com o meu gosto? Pelo menos durante os momentos em que olho para eles com curiosidade, sim. Não há como não admirar sua beleza ou estranheza como objetos individuais, cada um oferecendo aos olhos o seu próprio pequeno universo de design. Também reconheço que essa é uma das estratégias da Nike: lançar uma variedade tão grande de modelos que algum deles vai fazer com que seu coração dispare, a ponto de querer levá-lo para casa.  E imagino que isso acontece com quase todo mundo. 

Essa surra de design que salta aos olhos não é mero resultado de a Nike ser uma empresa de US$ 31 bilhões e a maior fabricante de calçados do mundo. Afinal, projetar objetos tão atraentes, e em larga em escala, é muito difícil. A Apple construiu seu império executando extremamente bem um número limitado de produtos, enquanto reduzia a expressão de seus designs físicos, para que a marca silenciosamente ganhasse lugar em qualquer momento da vida de seus donos.

A NIKE APOSTA EM UMA LINGUAGEM DE DESIGN VARIADA E EXPRESSIVA.

Adotando o caminho contrário, a Nike aposta em uma linguagem de design variada e expressiva. É claro que a marca precisa organizar seus lançamentos e dar alguma direção de cores sazonais para os produtos. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a estratégia de cores apostava em tons neons futuristas, cruzando essa paleta com o uso de materiais naturalmente coloridos e sustentáveis. De todo modo, a Nike lança inúmeros novos itens todos os anos, cheios de diferentes materiais e tecnologias. Ou seja, projeta muitos produtos, muito bem e de maneira muito diferente.

Mas como eles dão conta de fazer isso? Para responder a essa pergunta, é importante destacar seus principais investimentos, como o novo LeBron James Innovation Center, a instalação de pesquisa tecnologicamente mais avançada do mundo, onde designers e cientistas trabalham lado a lado. Quem visita esse centro, como eu fiz no ano passado, pode presenciar como a Nike testa as suas novas cores em uma sala que pode simular tudo, desde a luz do dia até a iluminação fluorescente de seu escritório, e como a marca pede aos consumidores que classifiquem como um determinado tom de branco se parece em cada contexto.

Mas, na verdade, foi visitando a própria loja online que obtive uma resposta mais clara para essa pergunta. Bem na parte inferior da página para os tênis Nike Air Zoom SuperRep 2 Next Nature HIIT – um modelo lançado em setembro do ano passado –, a Nike compartilha a “história por trás das cores” do produto. Até então, nunca tinha percebido que essas histórias estavam disponíveis no site, embora elas sempre estivessem bem abaixo de preços, fotos e descrições.

Das nove variantes deste sapato em particular – nove! – esta versão singular “leite de coco” contrasta tons de terra com um laranja neon. A combinação funciona muito bem na prática e, além disso, há uma descrição convincente sobre o motivo pelo qual as cores são apresentadas daquela forma.

“A escolha de cores, que infunde tons neutros e rosa com laranja fluorescente, é um aceno para o perigo que a natureza está correndo. O laranja faz referência ao estado de emergência em que a Terra se encontra, enquanto as cores suaves o equilibram com um tom mais calmo. As cores contam a sua própria história, como se dissessem: “sim, a Mãe Terra está enfrentando um grave problema. Mas podemos lidar com isso juntos.”

Você pode ter achado essa história de cores uma tremenda bobagem. Talvez, em um dia de mau humor, eu também implicasse com a descrição do tênis. Acontece que, por incrível que pareça, os designers da Nike estão sendo sinceros quando dizem que pensam assim! Na verdade, eles estão constantemente pensando demais, na tentativa de imbuir tudo o que criam com algum propósito maior.

Nesse caso, os designers estavam bolando uma paleta de cores para um cross trainer novo e mais sustentável, o SuperRep 2, e procurando a mistura certa de cores para aprimorar essa ideologia. Provavelmente, a ideia de reforçar a tendência de calçados de cores neutras surgiu enquanto pensavam nisso tudo. O que eles estavam criando não era apenas uma narrativa aleatoriamente atribuída a um objeto, mas um sapato autoconsciente, que reconhece sua própria pegada (com o perdão do trocadilho).

Pode-se até argumentar que é, no mínimo, um pouco hipócrita para qualquer empresa de vestuário fazer e vender produtos novos enquanto defende o meio ambiente. Ou que comprar um tênis novo sem precisar, mesmo o mais ecologicamente correto de todos, é muito pior do que…. não comprar nenhum tênis! São argumentos perfeitamente justos, não vou contestar. Ainda assim, quando me pergunto por que o design da Nike é tão bom ou como eles conseguem continuar fazendo produtos que sempre parecem estar dois ou três anos à frente de seu tempo, me parece que a resposta está bem ali: naquela pequena descrição.

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos

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