Demanda por profissionais de experiência do usuário explode

Agora são as empresas que, diante da alta demanda por especialistas em experiência do usuário, entram em um rali por profissionais qualificados dentro – e fora — do Brasil

Por Gabriel Justo – Exame – 28/04/2022 

Apesar de antiga, a máxima do “servimos bem para servir sempre” nunca foi tão levada a sério como na última década. Nesse período, a popularização dos smartphones e o boom de empresas oferecendo serviços por meio de interfaces digitais — como chamar um transporte, pedir comida ou enviar dinheiro para alguém — inundaram o mercado com algo que, até então, era escasso: dados. Com eles, foi possível entender minuciosamente o comportamento dos usuários para entregar uma experiência muito mais agradável, valiosa e digna de transformar o cliente em um genuíno — e poderoso — influenciador.

Essa nova dinâmica, que coloca os consumidores no centro dos negócios, forçou uma transformação nas empresas, que precisam estar sempre atentas às necessidades de seus clientes, que mudam a cada dia. Para isso, estruturas verticais tradicionais e morosas dão lugar a squads ágeis e multidisciplinares, compostas de profissionais cujos cargos, até outro dia, mal existiam: UX/UI designer, UX writer, UX researcher, product owner, arquiteto de informação… E por aí vai.

“Quando eu comecei, em 2005, a atuação de um designer era restrita ao webdesign, quase sempre terceirizada e sem nenhuma visão de produto”, explica Bruno Canato, senior UX manager do Nubank, que hoje emprega quase três centenas de designers. “Com essa expansão do smart­phone, houve um deslocamento muito forte no mercado: designers e pesquisadores deixaram esse lugar de produtor terceirizado para trabalhar diretamente dentro das empresas.”

Quem também viu esse movimento acontecer foi Carolina Trancucci, diretora de clientes da Gol Linhas Aéreas. O departamento nasceu em 2015 com cerca de 20 pessoas e, em sete anos, se tornou a terceira maior diretoria da companhia, com 1.500 pessoas — número que inclui os profissionais de relacionamento com o cliente, mas dá ideia da importância que a experiência do cliente (customer experience, ou CX, na sigla em inglês) vem ganhando ao longo do tempo. Porém, mais importante do que isso, explica Trancucci, foi toda a governança consolidada durante esse período para que a voz do cliente fosse tão importante nas tomadas de decisões quanto as questões de viés operacional que normalmente norteiam uma companhia aérea. “CX não pode ser apenas uma fonte de indicadores para a empresa. É uma construção de governança em conjunto com as outras áreas, para que até mesmo aquelas menos óbvias, como a engenharia, possam agregar valor na jornada do cliente”, explica a diretora.

 (Exame/Eduardo Frazão)

(Exame/Eduardo Frazão)

A executiva destaca que, certa vez, deixou o escritório rumo aos hangares de manutenção para buscar uma solução para a sensação de calor excessivo da qual muitos clientes se queixavam. Depois de muito trabalho em conjunto, ela e os técnicos chegaram a uma solução relativamente simples: em dias muito quentes, o embarque seria realizado com as persianas das janelas fechadas, o que melhorou — e muito — a sensação térmica da aeronave no solo. “Como uma pessoa da área de clientes, eu nunca conseguiria definir esse processo sozinha. Mas o engenheiro, com o input que eu levei, chegou a esse resultado”, conta Trancucci. “Essa sinergia vai sendo construída de forma orgânica, com as lideranças mostrando a importância dos processos, estipulando metas, formalizando os combinados com a equipe. Cria-se um enredo dentro da companhia para que a máquina gire para o lado do cliente.”

Quem são esses profissionais

Justamente por essa característica transdisciplinar da experiência do usuário, os profissionais que hoje ocupam cargos nessa área têm diferentes backgrounds: muitos começam no design gráfico, na publicidade ou em áreas completamente exógenas e acabam transicionando a carreira para o UX. Como “experiência” ainda não é um campo de estudo nem possui, por exemplo, uma gradua­ção específica, movimentos como esse são comuns e têm ajudado o mercado a suprir uma demanda por profissionais que não para de crescer — em parte, pela própria expansão do mercado, mas também pela competição com empresas estrangeiras que, pagando em dólar ou em euro, encontram no Brasil uma mão de obra qualificada e relativamente barata, dado o câmbio atual.

“De tão aquecido que esse mercado está, hoje são as empresas que precisam se provar para o candidato, e não o contrário. Até mesmo profissionais com pouca experiência já têm salários muito alavancados”, conta a ­­coordenadora de recrutamento em tecnologia Yasmin Galvão, da Level Executive Search,­ consultoria especializada em fazer o “match” entre candidatos e vagas de tecnologia e marketing — que nos últimos dois anos ganhou uma pegada mais tech. “Apesar de ser historicamente ligado à publicidade, o marketing é um campo de atuação com tecnologias que colaboram muito com uma gestão data-driven, que é um caminho bastante assertivo para tocar uma companhia.”

Recentemente, Tiago Lessa, head de mar­keting, aquisição e engajamento do Globoplay, destacou durante um evento promovido pela Salesforce a importância da integração de times, como os de criação e tecnologia. “Precisamos estar o tempo inteiro medindo, propondo coisas novas, fazendo diferente”, disse. “O marketing hoje é uma área de exatas, com engenheiro de dados, matemáticos… Precisamos dessa galera conversando com os comunicólogos tradicionais da área para alcançar uma comunicação assertiva.”

Com a alta demanda por profissionais não só qualificados mas que conseguem transitar bem entre diferentes áreas, as empresas passaram a competir umas com as outras para não ficarem de mãos abanando. Uma maior participação nos lucros e até stock options são bons atrativos. Mas, como explica Galvão, abrir as portas para desenvolver profissionais mais juniores também é um caminho inevitável. “Perde-se um pouco de tempo, mas vale o esforço. Só querer gente pronta dificulta muito a composição das equipes.”

Alan Dantas, da Ebac: alunos recrutados antes mesmo de terminarem o curso (Eduardo Frazão/Exame)

Isso é maturidade

Nesse cenário, um fator específico é levado em conta pelos profissionais na hora de escolher (sim, escolher) um trabalho: o grau de maturidade das empresas em relação ao UX. Líder mundial desse mercado, o Nielsen Norman Group desenvolveu um modelo que mede essa maturidade em seis estágios, levando em conta diversos aspectos que refletem quão centrada no usuário uma empresa é. Sem benefícios e incentivos significativos, um profissional muito sênior pode se sentir subutilizado em uma empresa pouco madura em UX, enquanto os profissionais mais juniores podem levar algum tempo para se adaptar a equipes e empresas mais consolidadas na área.


76% dos trabalhadores em todo o mundo dizem não estar prontos para o futuro do trabalho

82% planejam aprender novas competências nos próximos cinco anos…

…mas apenas 28% estão ativamente envolvidos em programas de aprendizado e treinamento dessas capacidades

Fonte: Salesforce.


É por isso que, na Porto, segunda maior seguradora do país no Ranking MELHORES E MAIORES 2021 da EXAME, o processo de retenção de talentos começa já no momento da contratação. Há 77 anos no mercado, a empresa é uma das que têm se transformado para manter sua relevância diante das insurtechs que ganham espaço no mercado. O grande desafio, nesse caso, é encontrar profissionais que queiram atuar nesse movimento de transformação. “Se o cara for excelente, mas durante o processo nós identificarmos que ele quer trabalhar em um ambiente totalmente maturado, ele não será a pessoa para a nossa cadeira”, explica Deise Violaro, superintendente de CX e Growth­ da Porto, que recentemente reestruturou sua política de cargos e salários e implementou uma estrutura de Agile Transformation Office (ATO) — um time dedicado a desenvolver o mindset de agilidade nos indivíduos e na empresa como um todo. “Uma vez aqui dentro, esses profissionais não querem que indiquemos como fazer. Querem um propósito, uma missão e autonomia para se desenvolverem e chegarem lá.”

Apesar de ser um indicador da temperatura do mercado, a escassez de profissionais também é uma prova de que há um enorme gap de profissionais qualificados — e preenchê-lo é um desafio e tanto. Segundo um estudo da empresa de software Salesforce, 76% dos trabalhadores em todo o mundo dizem não estar prontos para o futuro do trabalho. E, embora 82% planejem aprender novas competências nos próximos cinco anos, menos de um terço (28%) está ativamente envolvido em programas de aprendizado dessas capacidades.

De olho nessa lacuna, a Escola Britânica de Artes Criativas desembarcou no Brasil em 2016 para sanar as demandas desse “novo” mercado de trabalho. Cinco anos depois, o faturamento da instituição saltou 250%, de 400.000 para 1,5 milhão de dólares. O segredo desse sucesso, diz Alan Dantas, head de educação da Ebac, está na empregabilidade — praticamente garantida. “Muitos de nossos alunos recebem propostas até mesmo antes de terminarem o curso, porque são uma mão de obra realmente em falta no mercado”, explica Dantas, que também vê a carreira de ex-alunos e professores sendo rapidamente alavancada pelo rápido crescimento do mercado. “No Brasil, vemos muitas pessoas trocando de emprego em um curto espaço de tempo, inclusive com promoções. E quem é muito bom acaba sendo cobiçado pelo mercado internacional, que adora a criatividade e o bom nível de inglês dos brasileiros, que, quando falam a língua, falam muito bem.”

Deise Violaro, da Porto: um time inteiro dedicado a métodos ágeis (Divulgacão/Divulgação)

Mas em um mercado ainda tão “em construção”, com profissionais vindos de tantas outras áreas, o que define um bom talento de UX? Para Canato, do Nubank, o principal é ter sensibilidade e empatia para entender quem é o usuário e qual é a dor que ele quer resolver. “Qualquer profissional precisa ter a capacidade­ de saber quem é o usuário final, entender seu problema, para decidir quais são os principais pontos a serem trabalhados, e enfim ter ideias para cada um deles e testá-las antes de lançar”, explica o executivo. “Em um horizonte de alguns poucos anos, todos vamos precisar, mais do que ter a base da nossa profissão, incorporar essa forma de endereçar os problemas, sempre focando o consumidor.”

Cena de O Dilema das Redes: o documentário chamou a atenção para o papel do designer ético (Expsoure Labs/Netflix)

Dilemas éticos

Em uma realidade data-driven, cada ação que você realiza na internet (e até fora dela) é cuidadosamente monitorada e registrada — o que pode levar a sérias consequências. Lançado em 2020, o documentário O Dilema das Redes, da Netflix, mostra como as redes sociais reuniram uma quantidade gigantesca de dados sobre o comportamento de milhões de pessoas — e acabaram fazendo uso deles para viciá-las ainda mais em suas plataformas. “As redes sociais funcionam como caça-níqueis de cassino. Todo o design é feito para viciar você”, explicou no documentário Tristan Harris, ex-designer ético do Google.

Harris é um tipo de profissional ainda raro, mas que em poucos anos deverá compor equipes em muitas empresas no mundo todo. Afinal, um aplicativo desenhado para levá-lo a fazer uma compra que você não quer (o que é chamado de “tecnologia persuasiva”) ou que faz dinheiro exibindo anúncios em meio a várias informações falsas pode até ser lucrativo, mas… No que ele está contribuindo para a sociedade? São preocupações que mesmo as empresas não tão grandes quanto o Google devem ter e que vão demandar profissionais que enderecem essas questões, como um especialista em ética do design ou em ética de dados — responsável por estabelecer um crivo ético acerca de como as empresas usam a tecnologia. “Precisamos de novos modelos e sistemas de responsabilidade para que, conforme o mundo fique melhor e mais persuasivo com o tempo, as pessoas no controle sejam responsáveis e transparentes com o que queremos”, pontuou Harris em um TED Talk.

https://exame.com/revista-exame/o-jogo-virou/

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Inteligência artificial vai da faxina à felicidade nas empresas

Tecnologia analisa dados para otimizar processos feitos há décadas da mesma forma

Correção do post de ontem sobre 5G: O Globo usou dados de reportagem antiga que falava em 9 capitais com legislação para rede 5G. Na verdade, hoje são 12 capitais com essa legislação e infraestrutura, incluindo Vitória no Espírito Santo.

Alexandre Aragão – Folha – 12.mai.2022 

Ao abrir a porta do banheiro da academia, a pessoa que vai tomar banho dispara um alerta para a equipe de limpeza —é hora da faxina. Os dados gerados, por sua vez, alimentam um algoritmo, que usa inteligência artificial para organizar a rotina dos trabalhadores e mensurar a sua satisfação.

Essa racionalização do dia a dia do cotidiano de empresas, que parecia uma realidade distante há pouco tempo, é a aposta de startups brasileiras, aproveitando-se da disseminação do 5G e do barateamento de sensores.

“Há décadas a limpeza é feita do mesmo jeito”, afirma Leandro Simões, CEO da Evolv, que oferece soluções para o mercado de manutenção predial.

 Leandro Simões, CEO da Evolv, que oferece soluções para o mercado de manutenção predial

Leandro Simões, CEO da Evolv, que oferece soluções para o mercado de manutenção predial – Divulgação

Segundo ele, a limpeza é “um processo muito importante, mas que é tão negligenciado que ninguém monitora direito”. Por isso, a startup atua junto aos clientes para definir quais são as métricas certas para acompanhar.

“É um mercado que no Brasil gira mais ou menos R$ 100 bilhões por ano”, diz. “Tem muito dinheiro na mesa para ganhar e muita água desperdiçada para economizar.”

O executivo viu a oportunidade após mais de uma década no setor de telecomunicações, quando atuou na aquisição da Telefônica pela Vivo e em uma startup de antenas, onde teve contato com investidores como a GP Investiments e o fundo Blackstone.

Na Tractian, a oportunidade de negócio foi percebida por uma equipe jovem e recém-saída da faculdade.

“A maioria dos primeiros funcionários se conheceu lá na Escola de Engenharia de São Carlos da USP”, conta João Vitor Granzotti, responsável pela área de dados da startup —ele concluiu o curso no ano passado.

A Tractian criou um hardware e um software capazes de prever, com alto índice de precisão, quando uma máquina industrial está prestes a quebrar, antecipando processos de manutenção e evitando que a linha de produção seja interrompida.

“A ideia da Tractian é dar poder às equipes de manutenção nos processos industriais”, diz Granzotti.

Ao monitorar e registrar em tempo real informações como frequência de vibração, temperatura e parâmetros da rede de energia elétrica, o algoritmo da startup detecta mudanças sensíveis, identifica padrões e alerta os clientes sobre possíveis problemas em uma interface amigável.

Os sensores são capazes de monitorar até 60 tipos de máquinas. Os clientes vão desde indústrias automobilísticas até uma fazenda de camarão, afirma Granzotti.

Fundada durante a pandemia, a startup já atende clientes em países como Argentina, Chile, Estados Unidos e México.

No caso da Fiter, o alvo de otimização não é um processo ou uma máquina, mas os próprios funcionários, por meio de um “índice de felicidade”.

Conheça a Fiter, startup que mede ‘índice de felicidade’ de funcionários

Escritório da Fiter no Centro de Inovação do governo do Estado de São Paulo, na escola Politécnica da USP; a startup mede o 'índice de felicidade' de funcionários   

Escritório da Fiter no Centro de Inovação do governo do Estado de São Paulo, na escola Politécnica da USP; a startup mede o ‘índice de felic 

A metodologia foi desenvolvida pelo CEO Sergio Amad, executivo e professor com mais de dez anos de experiência em recursos humanos e neuropsicologia.

O cálculo é feito a partir das respostas a oito perguntas, que em parte se repetem e em parte se renovam, uma vez por mês. Os trabalhadores respondem se quiserem.

As questões são de múltipla escolha e partem de afirmações como “sinto satisfação com o meu desempenho” e “vejo que o meu perfil é compatível com a função”, com as quais o funcionário pode concordar, discordar ou ser neutro.

Com as respostas de boa parte dos funcionários de uma empresa, o algoritmo é capaz de identificar padrões e perceber quando alguém mudou de humor em relação ao trabalho.

Segundo Amad, os principais resultados são redução de rotatividade e uma medida objetiva para saber se algum funcionário está próximo de ter burnout (esgotamento), situação que se tornou mais frequente durante a pandemia.

“Essa medição de felicidade dá a oportunidade de a gente prestar atenção naquelas pessoas para as quais estávamos um pouquinho distraídos”, explica Toni Gandra, fundador da academia EcoFit, que é cliente da Fiter.

Ele diz já ter revertido duas demissões em potencial graças à análise que o serviço oferece. Weverson Alves, supervisor de capacitação da Live One Trade, afirma que o sistema serve não só para entender a felicidade dos funcionários, mas “também o que a empresa pode oferecer para ele”.

NEGÓCIOS COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ATRAEM INVESTIDORES

A eficiência de empresas SaaS (sigla do inglês “software as a service”, ou “software como serviço”) que utilizam inteligência artificial para melhorar processos de outras companhias, vem chamando a atenção de investidores.

No mês passado, o Goldman Sachs liderou um aporte de R$ 625 milhões na unico, unicórnio brasileiro de identificação digital que hoje é avaliado em US$ 2,6 bilhões. Com mais dinheiro em caixa, a empresa tem investido na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias proprietárias.

Uma das frentes, em parceria com a Universidade Federal do Paraná, investe em biometria periocular (análise de dados da região dos olhos), com o objetivo de melhorar o reconhecimento e mitigar vieses algorítmicos.

“Muitas das tecnologias de reconhecimento facial hoje no mercado foram desenvolvidas em países do norte, baseadas em faces caucasianas e asiáticas”, diz a empresa.

“Nosso time investe no aprimoramento contínuo dessa tecnologia proprietária, justamente com foco em melhoria da experiência e do acesso de todas as pessoas.”

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2022/05/inteligencia-artificial-vai-da-faxina-a-felicidade-nas-empresas.shtml?origin=folha

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Redes 5G enfrentam dificuldade em 17 capitais e devem atrasar início da nova tecnologia. Entenda

País não tem, em ponto algum, a 5ª geração de celular ‘pura’. Previsão era implementá-la nas capitais até julho, mas técnicos da Anatel recomendam adiar inauguração

Manoel Ventura – O Globo – 12/05/2022

BRASÍLIA — Donos de smartphones mais modernos já veem, em seus visores, o símbolo do 5G como padrão de suas redes. Embora muitos acreditem que isso seja um presságio do que está por vir, ainda não é a tecnologia prometida para revolucionar a velocidade da comunicação. O país não tem, em nenhum ponto, a quinta geração celular “pura”.

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Embora ela seja prometida para inaugurar em dois meses, ainda há muitas dificuldades no caminho. Por isso, técnicos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já cogitam adiar em dois meses o prazo para o início da operação nas capitais.

Leiloado no ano passado, o 5G ainda não está acessível em nenhuma localidade do país, de acordo com dados da Anatel. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam dificuldades para instalar a tecnologia em 17 capitais do país, segundo levantamento feito pelas operadoras de telefonia no início do mês.

Pelas regras do edital, as vencedoras do leilão (especialmente Claro, Tim e Vivo, as maiores operadoras de redes móveis no país) devem colocar no mínimo uma antena de 5G puro para cada 100 mil habitantes em todas as capitais até o dia 31 de julho deste ano.

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Mas o prazo pode ser estendido em dois meses. Com 12,3 milhões de habitantes, por exemplo, a cidade de São Paulo precisará ter pelo menos 123 antenas de 5G neste ano.

As empresas devem oferecer o chamado 5G standalone (SA), ou o 5G puro. É uma tecnologia que oferece duas características fundamentais das redes móveis de quinta geração: altíssima velocidade e baixa latência (demora entre o envio e o recebimento de uma informação).

Essa versão é conhecida como “pura” por usar uma infraestrutura totalmente nova e dedicada ao 5G, sem aproveitar a estrutura usada até hoje pelo 4G. E esse 5G “impuro” que aparece nos visores dos celulares pelo país.

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— É graças ao 5G stand-alone que a inovação nas redes de quinta geração poderá acontecer. O 5G SA tornará possível o desenvolvimento de casos de uso de baixa latência; viabilizará a conexão de milhões de dispositivos por quilômetro quadrado e poderá realizar a agregação de diversas portadoras de 5G. Essas características trarão velocidades muito maiores do que as que atualmente temos nas redes de telecomunicações que utilizam redes sem fio — explica o Wilson Cardoso, Diretor de Tecnologia para a América Latina da Nokia, uma das três maiores fornecedoras de equipamentos para o 5G.

5G: Redes enfrentam dificuldades em 17 capitais. Foto: Lionel Bonaventure / AFP

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Por enquanto, as empresas oferecem apenas o 5G DSS, uma combinação de frequências usadas no 4G que permite oferecer velocidades maiores, mas sem as mesmas qualidades da versão “pura”. Há 60 municípios com essa tecnologia, sendo acessada por 1,7 milhões de usuários, segundo a Anatel.

Enquanto não chega o prazo para a implementação definitiva de redes públicas de 5G, as empresas buscam driblar obstáculos para a instalação da tecnologia. O principal deles é a legislação restritiva de diversas cidades, que impede a instalação de um grande número de antenas.

No 4G, uma torre manda o sinal para um bairro inteiro, por exemplo. Já as ondas do 5G são mais curtas (quanto mais curta, maior a velocidade) e, por isso, serão necessárias dez vezes mais dispositivos.

Das 27 capitais, apenas nove já têm leis que permitem instalar os dispositivos em locais como alto de prédios e postes de iluminação pública, permitindo a implementação do 5G, de acordo com levantamento do Conexis, associação que reúne as empresas de telecomunicação.

Embora se precise instalar mais antenas, esses equipamentos são bem menores que as torres tradicionais de comunicação, o que afeta pouco a paisagem das cidades. 

O Ministério das Comunicações afirma que tem trabalhado apoiando as prefeituras para que reduzam barreiras sobre a instalação de infraestrutura necessária à oferta do 5G.

Leonardo Capdeville, diretor-técnico da Tim Brasil, diz que a empresa defendeu a adoção do padrão 5G standalone por acreditar que é o melhor modelo para o Brasil. Para a instalação, afirma, aguarda apenas a liberação da frequência pela Anatel 

— A operadora acredita que a chegada do 5G de verdade trará uma série de benefícios e soluções para a sociedade e para a indústria, sendo o mais relevante a habilitação do IoT de forma massiva e a geração de mais negócios e empreendimentos também em cidades inteligentes, saúde, educação, energia, logística e demais áreas — afirma.

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Samsung tem o S21 Ultra 5G. Modelo custa a partir de R$ 7.199,10 e é apto à nova frequência do 5G standalone Foto: DivulgaçãoSamsung tem o S21 Ultra 5G. Modelo custa a partir de R$ 7.199,10 e é apto à nova frequência do 5G standalone Foto: DivulgaçãoiPhone 13 5G da Apple é apto à nova frequência 3,5 GHZ do 5G e tem preço a partir de R$ 6.299 Foto: Jeenah Moon / BloombergiPhone 13 5G da Apple é apto à nova frequência 3,5 GHZ do 5G e tem preço a partir de R$ 6.299 Foto: Jeenah Moon / BloombergSamsung tem o Galaxy Z Fold3 5G, a partir de R$ 11,5 mil. Modelo vai funcionar na nova rede 5G standalone Foto: DivulgaçãoSamsung tem o Galaxy Z Fold3 5G, a partir de R$ 11,5 mil. Modelo vai funcionar na nova rede 5G standalone Foto: Divulgação

O iPhone 12 é habilitado para a nova rede 5G standalone (em 3,5 GHz) Foto: DivulgaçãoO iPhone 12 é habilitado para a nova rede 5G standalone (em 3,5 GHz) Foto: Divulgação

O Galaxy Z Flip3 5G, da Samsung, é apto à nova frequência standalone (em 3,5 GHz) do 5G e tem preço a partir de R$ 6.299 Foto: DivulgaçãoO Galaxy Z Flip3 5G, da Samsung, é apto à nova frequência standalone (em 3,5 GHz) do 5G e tem preço a partir de R$ 6.299 Foto: Divulgação

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O Realme 8 5G, com preço a partir de R$ 1.599, vai funcionar na futura rede 5G standalone (em 3,5 GHz), diz empresa Foto: DivulgaçãoO Realme 8 5G, com preço a partir de R$ 1.599, vai funcionar na futura rede 5G standalone (em 3,5 GHz), diz empresa Foto: DivulgaçãoA chinesa Realme tem o modelo GTME 5G,a partir de R$ 3.699. Modelo é habilitado na frequência nova do 5G standalone (em 3,5 GHz) Foto: DivulgaçãoA chinesa Realme tem o modelo GTME 5G,a partir de R$ 3.699. Modelo é habilitado na frequência nova do 5G standalone (em 3,5 GHz) Foto: DivulgaçãoO Motorola Edge 20 5G, a partir de R$ 3.999, já é apto a rodar na frequência nova do 5G standalone (em 3,5 GHz) Foto: DivulgaçãoO Motorola Edge 20 5G, a partir de R$ 3.999, já é apto a rodar na frequência nova do 5G standalone (em 3,5 GHz) Foto: DivulgaçãoO modelo Xiaomi11 Lite 5G NE tem a frequência da nova rede 5G standalone (em 3,5 GHz) e custa a partir de R$ 3.679,99 Foto: DivulgaçãoO modelo Xiaomi11 Lite 5G NE tem a frequência da nova rede 5G standalone (em 3,5 GHz) e custa a partir de R$ 3.679,99 Foto: Divulgação

O cronograma da Anatel determina a ampliação do 5G todos os anos até 2029, quando será preciso atender 100% dos municípios, inclusive aqueles com população abaixo de 30 mil habitantes.

A Claro afirma que já lançou redes standalone em São Paulo e em Brasília na frequência de 2,3 GHz (que não é a principal frequência do leilão). A empresa diz que tem feito testes aplicados à indústria, agricultura, saúde e entretenimento com excelentes resultados”.

A Claro reforça que está plenamente preparada para a implantação do 5G Standalone na faixa de 3,5Ghz e, para isso, aguarda as liberações das entidades responsáveis. A empresa informa ainda que irá cumprir os prazos de implementação do 5G determinados no leilão realizado pela Anatel”, diz a empresa.

Já a Vivo afirma que dedica todos os seus esforços para antecipar o lançamento do 5G, usando a faixa de 2,3 GHz. Para tal, está adequando sua rede e, desde o início de dezembro de 2021, seus clientes podem experimentar o 5G DSS, inicialmente em algumas regiões de bairros das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

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Nova frequência 5G Foto: Marcos Alves / Agência O GloboNova frequência 5G Foto: Marcos Alves / Agência O Globo

Para a faixa de 3,5 GHz, principal ofertada pela Anatel, a Vivo diz que seguirá o cronograma pós-leilão e está pronta para cumprir com o que está no edital, contemplando a cobertura das capitais, prevista para julho deste ano.

Sem redes públicas disponíveis, operadoras de telefonia e fornecedoras de equipamentos na implantação das primeiras redes 5G com foco empresarial. São redes privadas e dedicadas a um cliente.

Nesses casos, a tecnologia é utilizada para conectar máquinas, veículos, dispositivos, sensores e trabalhadores num ambiente onde o alto desempenho e a segurança são críticos. 

— Cada cliente tem seu próprio plano de como vai investir e monetizar o 5G, mas alguns pontos são comuns. O 5G vai melhorar o desempenho de metas, apoiar novos negócios e automatizar indústrias em áreas como agricultura, serviços públicos, saúde e educação, entre outros — afirma Rodrigo Dienstmann, Presidente da Ericsson para o Cone Sul da América Latina.

Metaverso:  Entenda por que alta velocidade e baixa latência do 5G são decisivos para a internet 3.0

A Huawei também tem aplicações privadas do 5G, como o projeto “Cidade 5G”, em Curitiba.

— Um dos objetivos é mapear oportunidades para aprimorar a experiência dos usuários por meio do desenvolvimento de equipamentos, soluções sustentáveis como estudos de casos de aplicação da tecnologia 5G, de baixo consumo de energia e custo, e que mantenham a alta qualidade de entrega de serviços — disse Gustavo H. Nogueira, diretor de vendas da Huawei.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/redes-5g-enfrentam-dificuldade-em-17-capitais-devem-atrasar-inicio-da-nova-tecnologia-entenda-25507137

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O metaverso já está entre nós. Terá o mesmo futuro do seu precursor Second Life?

O conceito do Second Life e do metaverso de um mundo virtual é muito semelhante. Mas para por aí. o Second Life é uma plataforma centralizada, desenvolvida e pertencente a uma empresa, com protocolos fechados. Já o metaverso é um ambiente digital de código aberto e descentralizado, desenvolvido em blockchain

Por Laelya Longo, Valor Investe — São Paulo 10/05/2022


O termo ganhou projeção mundial quando Mark Zuckerberg anunciou a mudança do nome de sua organização de Facebook para Meta, justificando que iria focar na criação do mundo virtual conhecido como metaverso. A ideia de um mundo virtual que reproduza nossa realidade existe há muito tempo e frequentemente está presente em filmes e séries de grande audiência e bilheterias e sua primeira versão nasceu ainda nos primórdios da internet.

No início dos anos 2000, o Second Life causou furor com sua proposta revolucionária de levar para o meio digital a rotina, atividades e relacionamentos que se tem na vida real. Teve recordes de acessos, girou milhões de dólares, empresas abriram “filiais”, tinha sistema financeiro, negócios imobiliários e até uma moeda digital própria. Até que, por diversos acontecimentos negativos, desregulação das transações financeiras, operações ilícitas e até crimes, o Second Life praticamente desapareceu. Paralelamente, o ritmo do desenvolvimento tecnológico e a ascensão das redes sociais, redirecionaram os usuários para outras plataformas.

Seria o metaverso, então, uma versão mais elaborada tecnologicamente do Second Life, mas com um destino igual? Especialistas ouvidos pelo Valor Investe concordam que o conceito do Second Life e do metaverso de um mundo virtual é muito semelhante. Mas para por aí.

A primeira – e fundamental – diferença entre ambos é que o Second Life é (sim, ainda existe e está em atividade) uma plataforma centralizada, desenvolvida e pertencente a uma única empresa, com protocolos preestabelecidos e fechados.

Já o metaverso é um ambiente digital de código aberto e descentralizado, desenvolvido em blockchain (uma espécie de banco de dados compartilhado e inviolável que utiliza criptografia para garantir a segurança e a confiança nas informações registradas). Ou seja, não pertence a uma única pessoa ou empresa e seu código de programação é aberto para todos que quiserem desenvolver aplicações diversas, complementares ou não.

O princípio básico do metaverso é o código aberto (‘open source’). Cripto é código aberto, blockchain é código aberto”, reforça Guto Martino, diretor de marketing da Hathor Labs, empresa de consultoria da blockchain Hathor Network. O código aberto permite que qualquer pessoa (com os conhecimentos necessários) acesse o código de programação de determinado software, leia e modifique seu conteúdo, otimizando ou criando novas funcionalidades, sem ter de pagar por licenças de uso ou direitos autorais. “A pessoa se torna um construtor dentro do ambiente digital”, explica Martino.

O código aberto, característico também dos chamados softwares livres, aqueles que são baixados de graça, já fazem parte do dia a dia de muita gente. O ‘pai’ do código aberto é o sistema operacional Linux, que nasceu para se contrapor ao monopólio do Windows, da Microsoft. Outros exemplos são o navegador Firefox, da Fundação Mozilla, o PDF Creator (concorrente da Adobe), o OpenOffice (concorrente do Office da Microsoft), o Gimp (conhecido como a versão gratuita do Photoshop), entre milhares de outros. Cada nova versão desses programas foi realizada de forma colaborativa, distribuída de forma gratuita, promovendo acessibilidade a recursos que seria permitida somente a quem pudesse pagar.

O metaverso são todos os mundos virtuais que visitamos on-line, que têm uma espinha dorsal econômica apoiada pelo blockchain”, afirma Gabby Dizon, co-fundador da Yield Guild Games (YGG). “Este não é apenas o futuro dos jogos, mas também o futuro do trabalho”, vislumbra. “Quando as economias subjacentes desses mundos virtuais são construídas no blockchain, com padrões ‘interoperáveis’, isso permite que ativos digitais e itens do jogo sejam transportados entre mundos.” Em tecnologia, a interoperabilidade permite que vários sistemas “rodem” com outros, por meio de padrões abertos, independentemente de qual linguagem de programação utilizem e de onde estão instalados. Segundo Dizon, esse conceito é imprescindível quando se trata de propriedade de ativos digitais.

Nesse contexto, Martino reforça que o metaverso é uma coisa muito maior do que o projeto da Meta Plataforms – a não ser que, depois de desenvolvido, Zuckerberg abra o código de programação para quem quiser desenvolver novas funcionalidades a partir dele.

 

Percepção, imersão e tecnologia

Além da parte conceitual e estrutural, diferentemente do Second Life, no qual a interface gráfica era basicamente uma figurinha animada, como um desenho, a experiência pessoal dentro do metaverso conta ainda com equipamentos tecnológicos – que também já foram itens de ficção científica -, como óculos de realidade virtual, holografia e realidade aumentada, que proporcionam uma interação 3D, como na vida real.

O fatigado ambiente 2D das reuniões virtuais, adotado por todas as empresas do mundo em função da pandemia, pode ser substituído por uma reunião 3D, em alta resolução. “Com um avatar e um óculos de realidade virtual, uma reunião poderá ser realizada em qualquer tipo de cenário, em uma sala virtual reproduzida com todas as características de uma sala normal da empresa – ou, em Marte”, ilustra Alex Buelau, diretor de tecnologia da Parfin.

Apesar de parecer algo além do alcance do cidadão comum, um óculos de realidade virtual já custa, no Brasil, praticamente metade de um iPhone recém-lançado.

“Nas plataformas tradicionais de reunião por vídeo, por exemplo, o que vemos basicamente é um álbum de fotos em que podemos ver e ouvir o outro”, descreve Buelau. “No 3D do metaverso, você vira a cabeça, você vê o corpo da outra pessoa sentada em uma mesa e você tem a sensação que está lá mesmo. Sensorialmente, isso faz uma diferença gigante.”

A tecnologia G5 vai permitir conexões ultrarrápidas, com capacidade de banda para uma quantidade muito maior de dados. Da mesma forma, a velocidade e a capacidade de processamento de dados dos computadores e celulares cresce exponencialmente.

Para Buelau, veremos uma “curva de adoção” em que o estranhamento da ideia vai dando lugar à aceitação, uso e consolidação, assim como ocorreu em tão pouco tempo com as plataformas de vídeo, como o Zoom, e até o próprio celular. “Quando o celular foi lançado, tinha um monte de gente falando que nunca iria ter ou precisar. Se você não tem celular, hoje, está fora do mundo.”

Mas essa aceitação não é para todo mundo. Os chamados “nativos digitais” já nascem sabendo. Eles cresceram com a internet, com os games, com a tecnologia como parte de seu próprio desenvolvimento. Os nativos digitais são os habitantes dos metaversos representados atualmente por games como Axie Infinity, Fortnite, Free Fire, Roblox, Minecraft, entre outros, tão populares e populosos que atraem outros tipos de atividades tão comuns no mundo real.

O cantor Travis Scott fez uma apresentação virtual no Fortnite, em abril de 2020, vista por pelo menos 14 milhões de pessoas. Além do entretenimento, toda uma nova economia começa a se desenhar dentro do multiverso, como o “play to earn”, pelo qual a pessoa é remunerada com tokens para jogar.

 

A “nova” nova economia

O conceito de Nova Economia surgiu com a digitalização de processos produtivos e atividades comerciais e da adoção da internet como instrumentos social e econômico no mundo. O metaverso vai criar uma nova economia dentro desse conceito. Uma loja on-line já está inserida dentro da nova economia digital. Poder entrar nessa loja com seu avatar (representação individual por meios virtuais), experimentar uma roupa ou testar um carro, e realizar a compra com uma criptomoeda vai ser a atualização da Nova Economia – e ainda transformar empregos e profissões.

A construtora Tecnisa inaugurou seu stand de vendas no Second Life em 2007. “Tínhamos um stand com apartamento decorado para visitar, onde o avatar de um corretor atendia os interessados – avatares também”, conta Joseph Nigri, vice-presidente do Conselho da companhia. “Instalamos um stand de um empreendimento localizado na Barra Funda [bairro da capital paulista], o Inovarte. Recebemos muitas visitas de curiosos e realizamos algumas vendas.”

“Antigamente, a pessoa que ia comprar um imóvel, comprava o jornal, abria os classificados, selecionava os anúncios, pegava o carro e ia até o local conhecer”, lembra Nigri. “Hoje, ninguém começa a buscar um imóvel sem entrar na internet. O Second Life foi uma forma de as pessoas que estavam buscando imóveis, conhecerem um stand sem ter que sair de casa.” Segundo o executivo, foi uma iniciativa pioneira que, por um custo muito baixo, gerou muita atenção e alguns negócios.

No entanto, a efetivação da compra propriamente dita não podia ser realizada dentro da plataforma do Second Life. “Com o blockchain, a efetivação da compra/venda vai poder acontecer diretamente no ambiente digital. Com o blockchain, você registra seus ativos, transfere a propriedade, tem as criptomoedas para comprar ou vender, transacionar valores”, descreve Nigri.

Mesmo ainda fora de uma blockchain, a Tecnisa já está aplicando os conceitos do metaverso em seus lançamentos imobiliários. O cliente que compra uma unidade de um empreendimento pode fazer a personalização do imóvel, com seu avatar escolhendo e testando acabamentos “dentro do apartamento”. “O projeto final é encaminhado para a obra e o cliente recebe o imóvel pronto do jeito que queria, sem pisar na obra real”, conta Nigri.

Nigri avalia que, para o mercado imobiliário, o metaverso pode significar uma grande transformação. “É possível que, no futuro, os imóveis sejam tokenizados e vendidos no metaverso. A partir daí, acaba a escritura de um imóvel como conhecemos hoje. O blockchain será o registro, o cartório.”

Dizon, da YGG, aponta que a nova economia do metaverso vai ainda transformar o trabalho e as profissões. “Os empregos já estavam se tornando cada vez mais baseados em computador, ou seja, não estão fisicamente vinculados à empresa, com equipes globais e remotas se coordenando em todo o mundo”, aponta. “Esses empregos poderão ser movidos para o metaverso”, afirma, acrescentando que novas profissões surgirão, como arquitetos de metaverso, designers de moda digital, criadores de avatares, moderadores de comunidades, e assim por diante.

 

Finanças e segurança

A nova economia que o metaverso vai gerar – já está gerando, na verdade – passa fundamentalmente pela adoção das criptomoedas para transações comerciais e financeiras. A mais conhecida é o bitcoin, mas já existem mais de 10 mil criptomoedas no mundo. É quase certo que, nos próximos anos, outras tantas irão ser criadas e muitas mais deixarão de existir, conforme essa nova economia for se consolidando e peneirando o joio do trigo.

No ambiente criptografado, descentralizado e sem fronteiras do metaverso, baseado em blockchain, não faria sentido pagar ou receber em dólar ou euro ou real. “Se você está no metaverso, monta uma galeria de NFTs de arte digital e cobra 1 centavo de entrada, não vai poder cobrar 1 centavo de dólar. Vai cobrar 0,000001 bitcoin. Dólar é a moeda do norte-americano. Se você está na Indonésia, você vai ter que comprar dólar para pagar o serviço?”, exemplifica Buelau, da Parfin.

No Second Life também havia um certo fluxo econômico em que, na maior parte das transações, quem faturava era a plataforma. “No dia em que a plataforma morreu, morreu a economia de lá”, diz Buelau. Justamente porque era uma plataforma centralizada, com um dono.

Dizon ressalta que, com a moeda virtual do Second Life, o Linden, podia se comprar ou vender itens, mas a posse dos ativos era “fictícia”. “O Second Life existia apenas no banco de dados do desenvolvedor, então seus residentes não possuíam verdadeiramente os ativos digitais que eles compraram. Com mundos virtuais baseados em blockchain, os ativos serão realmente de propriedade do usuário.

Com o desmantelamento do mundo no Second Life, até uma crise financeira aconteceu. O Ginko Financial, um “banco” não regulamentado que prometia a investidores retornos astronômicos, administrado por um proprietário cuja identidade ainda é um mistério, declarou falência em 2007, após a plataforma estabelecer regras mais rígidas sobre apostas em jogos.

Os residentes do Second Life teriam “depositados” cerca de 200 milhões de Lindens, algo em torno de US$ 750 mil, na época, ou mais de US$ 1 milhão, atualmente. A plataforma chegou a ter mais de uma dezena de “instituições financeiras” que operavam da mesma forma que o Ginko e que, na verdade, eram pirâmides.

Buelau lembra que ilícitos existem tanto na vida real quanto na digital e, talvez, cheguem ao metaverso. “A deep web e a dark web existem e provavelmente vão migrar para o metaverso, mas assim como as regras e leis foram se aprimorando para a internet, também vão acontecer coisas nesse sentido no metaverso.”

Em outra avaliação, Dizon acredita que a própria estrutura do metaverso vai minimizar a necessidade de “policiamento”. “No blockchain, se um ativo digital estiver na minha carteira, ninguém mais poderá tomá-lo. Seu registro é público e não há nada que alguém possa fazer para tirá-lo de mim, exceto roubar minha carteira.”

https://valorinveste.globo.com/mercados/cripto/noticia/2022/05/10/o-metaverso-ja-esta-entre-nos-tera-o-mesmo-futuro-do-seu-precursor-second-life.ghtml

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Entregas no mesmo dia? Como a tecnologia mudou a cara das empresas de logística

Setor investe em sistemas sofisticados e automação para dar conta de uma demanda crescente e cortar custos; avanço da internet tornou possível redução de estoques

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo 22 de abril de 2022 

A tecnologia e a inteligência artificial têm mudado a cara da logística brasileira, acompanhando uma tendência mundial. Se no passado o diferencial estava no tamanho da frota de caminhões e na área atendida, hoje as empresas precisam apostar em sistemas sofisticados e automação para dar conta de uma demanda crescente e, ao mesmo tempo, garantir maior eficiência para os clientes. Isso porque o setor virou peça-chave dentro do planejamento estratégico das companhias na redução de custos – os custos logísticos representam 12% do faturamento bruto das empresas. 

Além disso, com as transformações digitais e o avanço do e-commerce, a velocidade na entrega virou disputa no mercado para ver quem consegue chegar primeiro ao consumidor final. Para isso, é preciso muita tecnologia no rastreamento do produto e na separação dos pacotes, dando maior agilidade ao processo.

“Até certo volume é possível fazer na mão. Mas, quando a demanda aumenta, a tecnologia entra para resolver o problema e melhorar a operação”, diz Caio Reina, presidente e fundador da RoutEasy, uma startup que usa inteligência artificial em soluções de otimização e gestão de entregas. Ele diz que nos últimos tempos, sobretudo após a pandemia, a demanda mudou por causa da importância do comércio eletrônico.

O nível de exigência aumentou. O prazo de três a cinco dias, que antes era bom, está ultrapassado. “Hoje, o consumidor quer receber o produto no dia seguinte ou no mesmo dia”, diz Reina. Isso tem exigido novas fórmulas das empresas para atender aos novos requisitos. A Loggi, empresa que nasceu em 2013 e tem a tecnologia no DNA, já consegue fazer essas entregas no mesmo dia dependendo da região.

Mudanças avançam com redução de estoques

Mais da metade das empresas de logística acredita que a tecnologia é a chave para reduzir custos, oferecer novos serviços aos clientes e atender às exigências do mercado. Para alcançar esses objetivos, elas apostam na inovação de uma série de processos, como o rastreamento de cargas, na tecnologia de processamento de pedidos e de planejamento de demanda e na automação dos meios de distribuição, mostra um levantamento feito pela Fundação Dom Cabral com 275 empresas do setor.

O professor Paulo Resende, responsável pela pesquisa, diz que a tecnologia ganhou maior importância dentro das empresas depois que as cadeias produtivas começaram a trabalhar com menos estoques. Com o avanço da internet e o barateamento do acesso a informações e dados, as companhias começaram a questionar se deveriam estocar produtos ou apostar num sistema de fluidez e de informação.

“A partir do momento em que não há mais um colchão entre oferta e demanda, elas precisam da tecnologia da informação, de inovação nos equipamentos, veículos modernos e inteligência artificial”, diz o Resende. Além disso, completa ele, houve o empoderamento do consumidor final sobre a demanda. “Hoje, eles têm centenas de milhões de aplicativos à disposição para decidir sobre as compras.”

LogísticaEsteiras com leitor de código de barras da Loggi faz a separação dos pacotes por região do País e até por cidades Foto: Divulgação/Loggi

Nesse cenário, a Loggi já surgiu com o objetivo de usar a tecnologia para melhorar a logística. A empresa tem 10 centros de distribuição no País. O vice-presidente de Vendas, Comunicação e Marketing da companhia, Ariel Herszenhorn, afirma que há três anos a empresa atendia a 50 municípios no País. Hoje, são 4.200.

Algoritmos

Para manter esse crescimento, a saída foi apostar em sistemas automatizados e algoritmos que ajudam na operação. No centro de distribuição em Cajamar, em São Paulo, a empresa tem capacidade para processar 1,2 milhão de pacotes por dia. Numa esteira gigante, os pacotes são separados automaticamente – por meio do código de barras – por regiões e algumas cidades maiores, como São Paulo. A partir daí, os pacotes são transportados em caminhões de acordo com as rotas definidas.

As soluções tecnológicas da empresa são criadas por equipes dedicadas ao assunto no Brasil e em Portugal. No hub de tecnologia de Lisboa, cerca de 70 profissionais buscam aperfeiçoar as ferramentas e criar novas saídas para dar mais eficiência ao processo. Em 2020, a Loggi investiu R$150 milhões em automação e tecnologia. No ano passado, esse valor superou R$ 250 milhões.

Na JSL, uma das mais tradicionais empresas de logística do País, com mais de 1,3 mil clientes, a tecnologia e a inteligência artificial viraram estratégia indispensável para manter o negócio, diz o presidente da empresa, Ramon Alcaraz. “Estamos investindo muito dinheiro nisso. Ainda estamos longe dos objetivos, mas estamos no caminho.” Numa das áreas de atuação da empresa, que é a cadeia de matéria-prima, o uso de algoritmos para otimizar o uso de veículos tem sido muito importante para reduzir custos.

Na celulose, por exemplo, 30% do custo do plantio até a fábrica é logística. “Se conseguir ser tão eficiente que não pare nenhuma caminhão, vou conseguir fazer a mesma produção com menos veículos e terei um ganho gigante. É nesse ponto que uso a inteligência artificial, para encontrar essa equação”, diz ele.

O mesmo ocorre na indústria de cana-de-açúcar. A caldeira não pode parar, mas a usina não tem espaço para toda matéria-prima necessária. “Antes colocava um monte de caminhão para levar a cana até a caldeira, mas era custoso. Com a tecnologia, consigo fazer a mesma coisa com menos caminhão”, diz Alcaraz. 

Segundo ele, em algumas operações, o motorista do caminhão passa seu crachá e o sistema mostra a rota que irá fazer e em quanto tempo. “Se por algum motivo esse motorista parar, o sistema vai perguntar porque parou. Com mais tecnologia, precisamos de menos máquinas, menos gente e temos um ganho maior de eficiência.”

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,entregas-tecnologia-mudou-empresas-logistica,70004044810

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Produção de hidrogênio verde a partir do etanol e da água começa a sair dos laboratórios

Em questão de seis meses, uma máquina produtora do futuro combustível será instalada na Universidade de São Paulo (USP), afirma cientista

Eduardo Geraque, especial para o Estadão 02 de maio de 2022 | 

O mundo está aquecendo de forma perigosa e os combustíveis fósseis, além do desmatamento no Brasil, são os grandes vilões da história. É quando entra em cena o energético hidrogênio verde. O futuro combustível, que não é encontrado em grandes quantidades na natureza, precisa ser produzido por vias tecnológicas, o que faz com que cientistas de várias áreas e empresas do setor de energia passem a trabalhar em conjunto em busca do mesmo objetivo.

A busca pelo hidrogênio verde dentro dos laboratórios ocorre há algumas décadas, mas, no Brasil, um ponto de virada importante deve ocorrer nos próximos meses, mais especificamente dentro da Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (USP). Criado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estasdo de São Paulo (Fapesp) e pela empresa Shell, o Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa atua, desde 2016, em várias frentes. Uma delas está perto de ficar mais visível para as pessoas. 

Em questão de seis meses, afirma Marcos Buckeridge, cientista referência na área de bioenergia e um dos coordenadores do Centro, uma máquina produtora de hidrogênio verde será instalada na USP, perto da raia olímpica. “Essa é a primeira parte do planejamento. Em seguida, vamos preparar três ônibus que serão abastecidos com o hidrogênio produzido por nós”, explica o pesquisador.

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Um dos objetivos do centro da USP é zerar as emissões da cadeia produtora de cana-açúcar, aponta cientista Foto: TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO 02.02.2020

A grande inovação da iniciativa, explica o pesquisador da USP, é que o etanol será a matéria-prima usada para a obtenção do hidrogênio, que vai movimentar os ônibus pelo câmpus da Cidade Universitária, no Butantã, zona oeste paulistana. Essa trilha tecnológica desenvolvida na USP pode ser considerada pioneira em termos mundiais, segundo Buckeridge. “É uma pesquisa que faz parte de uma iniciativa maior. Um dos objetivos do centro é zerar as emissões da cadeia produtora de cana-açúcar ou até torná-la negativa em termos de emissões”, explica o cientista.

TRANSPORTE

Pode ser exportado em navios. Para isso, precisa ser transformado em barras de amônia, por exemplo, e reconvertido em hidrogênio no destino ou usado como amônia verde.

Tanto do ponto de vista científico quanto tecnológico, o chamado hidrogênio verde apenas recebe esse título quando a matéria-prima utilizada no início do processo vem de uma fonte renovável ou da biomassa, como no caso do etanol. Existem veículos em várias partes do mundo que já são abastecidos com hidrogênio, mas são combustíveis produzidos a partir do gás natural. É o que se padronizou chamar de hidrogênio cinza, por estar no meio do caminho entre as fontes limpas e os combustíveis fósseis. 

Outra possibilidade de produção de hidrogênio, e que nutre um trilho tecnológico em franco desenvolvimento no Brasil e em todo mundo, é a partir da água. No Brasil, até o fim do ano, a empresa EDP Brasil, uma das líderes nacionais do setor de energia, vai abrir sua primeira planta-piloto de produção de hidrogênio a partir da quebra da água no Estado do Ceará.

O investimento previsto, que está sendo todo feito na cidade de São Gonçalo do Amarante, na Grande Fortaleza, é de R$ 41,9 milhões. O aporte de recursos econômicos tanto do setor privado quanto público em projetos que buscam a produção do hidrogênio verde é apenas parte da equação. A ciência e a tecnologia embarcada nos processos também estão longe de estarem totalmente dominadas. 

O projeto da EDP Brasil, realizado em conjunto com grupos de pesquisa e outras empresas do setor privado, é um dos 17 projetos de produção de hidrogênio verde no Ceará. A ideia do governo do Estado nordestino é, se todos os memorandos assinados virarem realidade, criar um hub para a produção de um dos chamados combustíveis do futuro atrelado ao porto de Pecém.

Em 2023, por exemplo, está previsto o início da construção da planta de produção de hidrogênio verde da Cactus Energia Verde. O investimento será de 5 bilhões de euros. A ideia tanto do governo quanto das empresas é que as linhas de produção do hidrogênio, principalmente a partir da eletrólise da água, estejam perto dos grandes parques eólicos e solares que também estão sendo planejados para a região.

No caso da máquina de abastecer hidrogênio da USP, explica Buckeridge, existe muito desenvolvimento científico ainda para ser desenvolvido. “Na verdade é um reformador de etanol como a gente chama. O etanol entra de um lado e sai hidrogênio do outro, mas no meio do caminho é preciso controlar muito bem todas as reações químicas do processo”, explica o botânico da USP. 

O controle das reações químicas que ocorrem no processo, além da escolha dos elementos químicos certos para que as reações catalíticas ocorram de forma precisa e eficiente, é o grande segredo da operação.  No caso do uso do etanol para a produção de hidrogênio, as reações químicas ainda vão produzir monóxido de carbono, que também não pode ser lançado diretamente na atmosfera, sob pena de sujar todo o processo de produção do ponto de vista ambiental.

“Em um segundo passo, estamos estudando onde aplicar esse carbono. Uma das possibilidades, por exemplo, é usá-lo nas hortas da universidade, que servem os bandejões da USP”, afirma Buckeridge. Os vegetais, pela fotossíntese, processam o carbono para crescer. 

No caso da quebra da água, tecnologia que será usada para a obtenção de hidrogênio no Ceará, um dos pontos importantes para a neutralidade climática do processo é o tipo de energia primária que será usada para movimentar os equipamentos que farão a hidrólise da molécula da água. Como a ideia, no caso, é usar energia solar, a conta fecha. O mesmo raciocínio é válido para a energia eólica. A tecnologia da quebra da água, em larga escala, está recebendo atenção em várias partes do mundo. Os chineses estão com vários projetos em andamento. 

Na prática, os dois processos, o que utiliza a biomassa como é o caso do etanol, ou o da quebra da água, estão usando uma molécula altamente energética (até quatro vez mais do que a do carvão) estocada na natureza a partir de ligações químicas com outros elementos da tabela periódica. Apesar dos resultados promissores, e de muitas associações internacionais promoverem o hidrogênio verde como uma solução milagrosa, ainda vão ser necessários muitos anos para a tecnologia, de fato, decolar. 

Dados da Agência Internacional de Energia Renovável indicam que em 2050 o hidrogênio verde deve ser responsável por 12% da necessidade global de energia. O que significa 409 milhões de toneladas produzidas todos os anos. E, se a neutralidade climática for realmente atingida em todas as cadeias de produção do novo tipo de combustível, o impacto sobre o aquecimento global poderá ser grande, da ordem de até 20% na redução das emissões globais, segundo o Hydrogen Council.

“No caso do carbono gerado pela reforma do etanol, uma das nossas outras linhas de pesquisas mostra que é possível enterrá-lo em áreas próximas das usinas (produtoras de açúcar ou de etanol) a até 4 quilômetros de profundidade. O carbono, neste caso, vai reagir com outras substâncias e ficar inerte”, explica Buckeridge. É desta forma que a cadeia da cana poderá até ficar com emissões negativas (mais absorção do que emissão de carbono) no Brasil. Outros países também pesquisam o enterramento do carbono sob diferentes caminhos.

https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,producao-de-hidrogenio-verde-a-partir-do-etanol-e-da-agua-comeca-a-sair-dos-laboratorios,70004054236

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Por que a arte de flanar na cidade está ameaçada pela tecnologia?

Como experimentar o que acontece ao redor quando nossos olhos estão sempre voltados para a tela do celular?

Por Marcela Marcos — Para o Valor, de São Paulo 07/05/2022 

“Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.” Este trecho de uma crônica de João do Rio, publicada originalmente em 1908, praticamente resume a ideia do próprio livro em que se encontra: “A alma encantadora das ruas”.

O autor, que tinha o hábito de perambular pelas vias do Rio de Janeiro e fazer uma espécie de “poesia do asfalto”, ficou conhecido como um “flâneur” brasileiro. O termo em francês tem sinônimos como “vadio”, “caminhante”, “errante”. É justamente a arte de ser não apenas espectador do que acontece na rua, mas de se integrar à paisagem urbana; de ser a própria cidade.

O hábito está na essência dos cronistas, por exemplo. Mas, na era da informação, em que o cotidiano é atravessado pela tecnologia, ainda é possível “flanar”?

Para o jornalista e escritor Xico Sá, entusiasta da “flânerie”, a prática, que já estava ameaçada pelos aparelhos celulares, levou um golpe adicional durante a pandemia. “Insistimos em ter a rua no horizonte, mas estamos bastante prejudicados a essa altura. O simples fato de checar mensagens enquanto caminhamos já muda a arte de flanar, que é estar totalmente entregue à observação mundana. O [escritor Honoré de] Balzac dizia que o ‘flâneur’ faz uma espécie de gastronomia do olhar, experimentando o movimento das esquinas, os bondes.”

Que o diga o poeta francês Charles Baudelaire, que definia o “flâneur” como alguém que anda pela cidade a fim, mesmo, de experimentá-la. Se é verdade que estamos mais atentos ao que acontece nas telas do que à vida passando fora delas, o isolamento social parece ter contribuído para aprofundar esse fenômeno. As lentes do cronista precisaram de ajuste.

“Lembro que, nos primeiros dias da pandemia, estava com algumas encomendas de crônica para atender e fiquei bloqueadíssimo porque perdi a calçada, o café numa esquina. Esse período tirou de nós nossa grande pauta”, conta o jornalista, que emenda: “Precisei escrever sobre o gato dentro de casa e muito mais sobre o que eu via da janela do que o que eu via da esquina.”

A doutora em geografia Maria Ester Viegas diz que o efeito da pandemia não é duradouro. “Os velhos hábitos voltam muito rapidamente. A interdição durou pouco tempo para que pudesse afetar práticas que são construídas durante toda uma vida, de pessoas, de gerações. No final do dia, já é possível retomar uma cerveja com amigos, um café no terraço, ou tomar uma água de coco na praia”, observa Viegas, que é coautora de uma pesquisa acadêmica que discute a “flanérie” em tempos pandêmicos.

Em uma perspectiva filosófica, é possível enxergar um caráter perene na figura do caminhante. “Diante das transformações constantes da vida nas grandes cidades, o ‘flâneur’ está ali para mostrar algo que permanece, algo que, pela fruição estética da vida, pode provocar a sensação de infinito”, explica Anderson Zanetti, formado em filosofia e docente da Faculdade Sesi-SP de Educação.

Essa infinidade, entretanto, é desafiada pela internet. “As movimentações, odores, texturas, ruídos e paisagens devem ser percebidas, sentidas e vividas no momento dos acontecimentos, de forma direta e única. No caso do ambiente virtual, há a mediação da tela e possíveis edições e direcionamentos de câmeras, ou plataformas digitais, às quais o indivíduo está submetido. O espírito livre e rebelde do ‘flâneur’ não pode se realizar em um mundo virtual que busca administrar seuolhar, sua escuta e todas suas sensações”, diz Zanetti.

Até faria sentido imaginar um “‘flâneur’ cibernético”, se a navegação pela web fosse livre – o que, por si só, já é um contrassenso. “A capacidade de ‘navegar’ livremente pelos sites, em um processo exploratório, de descobertas e surpresas, foi colonizada por corporações como Google e Facebook, que levam seus usuários a ficarem presos a seus ‘jardins murados’, onde tudo deve ser transparente, compartilhado e recomendado, sem as fricções do risco, da incerteza”, observa o sociólogo Liráucio Girardi Junior, professor na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade de São Caetano do Sul, ao citar o texto intitulado “A segunda morte do ‘flâneur’”, do bielorrusso Evgeny Morozov. “Como dizia Morozov: o traço que marca o passeio do ‘flâneur’ é o fato de ele não saber o que lhe interessa mais.”

Ele destaca, porém, as novas perspectivas que a internet tem trazido para essa experiência. “Muitas vezes a ‘flânerie’ foi considerada ‘morta’, uma vez que está entrelaçada com o ambiente da cidade moderna em constante transformação. Hoje, com a criação de novos espaços comunicacionais, a partir da integração dos mais variados dispositivos à rede e entre si, os deslocamentos estão sendo expandidos ou aumentados, particularmente, pelo turismo, gerando novos tipos de experiência para todos que se interessam pelo cotidiano da cidade e sua história.”

Nesse sentido, o sociólogo menciona a criação do Dérive App (disponível na Google Store e Apple Store), que, na própria descrição para download, é definido como “uma plataforma simples, mas envolvente, que permite aos usuários explorar seus espaços urbanos de maneira despreocupada e casual”. Funciona como um jogo em que o usuário se perde de propósito por determinada região e é estimulado a descobrir novos espaços. Isso ocorre por meio de cartões de tarefas, sorteados de maneira aleatória, que indicam iniciativas como sentar-se em um parque, mover-se na direção de um rio etc. Trata-se de uma forma, no mínimo, curiosa de integrar a geografia urbana ao universo digital.

Por outro lado, quando essa integração não acontece, podemos nos deparar com uma série de prejuízos da pós-modernidade, tanto físicos quanto emocionais. As mídias digitais contribuem para o combo.

“Nós perdemos o que acontece à nossa volta, no presente. Muitas pessoas veem um show ao vivo por intermédio de sua câmera, mesmo estando lá. Ou, quando querem fotografar um evento, elas perdem o momento em que está acontecendo, para vivenciá-lo por meio de uma foto. Elas registram o que vão comer, o local onde estão, com quem estão. Com as redes sociais, gente passa a viver em uma sociedade muito mais do parecer do que do ser”, afirma a psicóloga Anna Lucia Spear King, doutora em saúde mental.

King fundou e coordena o Laboratório Delete – Detox Digital e Uso Consciente de Tecnologias, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela destaca, ainda, a falta de profundidade dos diálogos e a perda das minúcias do cotidiano, “das pessoas que a gente poderia conhecer e não conhece porque não tira a cara do celular”.

Dependendo da intensidade, os usuários de internet podem desenvolver a dependência patológica da tecnologia, que é chamada de nomofobia. Em geral, nesses casos, há um transtorno mental associado, como ansiedade ou depressão, quando a fixação pelo ambiente tecnológico compromete a vida acadêmica, pessoal ou profissional. A condição requer acompanhamento psiquiátrico.

Em que medida tudo isso se conecta à crônica? A chave (que precisa ser constantemente virada) está em não se fechar em si, sugere Xico Sá. “É como o corpo. O músculo atrofia, o olhar atrofia se a gente não voltar a observar a paisagem, o cara que chora no Metrô [de São Paulo] numa segunda-feira entre o Paraíso e a Consolação.”

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A competência tecnológica com maior demanda em cursos em 2022. Conheça

Levantamento da Udemy mostra o que profissionais de empresas estão mais buscando aprender para melhorar suas habilidades

Por Jacilio Saraiva, Para o Valor 07/05/2022

Infraestrutura de redes, certificação para profissionais de redes da fornecedora de tecnologia Cisco (CCNA, na sigla em inglês) e sistema operacional Linux. Esses foram os três cursos corporativos mais procurados no Brasil na plataforma de ensino on-line Udemy, no primeiro trimestre de 2022. Em comparação ao quarto trimestre de 2021, cresceram, respectivamente, 201%, 143% e 122%.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/01/14/estas-sao-as-habilidades-mais-buscadas-pelas-multinacionais.ghtml

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2021/08/02/quais-sao-as-habilidades-profissionais-mais-demandadas-no-brasil.ghtml

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/04/25/brasileiros-se-sentem-preparados-para-o-futuro-do-trabalho.ghtml

É o que revela o Workplace Learning Index, um relatório trimestral da Udemy que indica os cursos de habilidades tecnológicas mais consumidos por profissionais no mundo.

O estudo é baseado em dados do comportamento de aprendizado de funcionários de “milhares” de empresas que usam a plataforma. A Udemy, com 44 milhões de alunos e 183 mil treinamentos em 75 idiomas, não divulga o tamanho da base pesquisada nem o perfil de instrução dos usuários.

“As três principais tendências de aprendizado no Brasil estão relacionadas à tecnologia”, destaca Raphael Spinelli, diretor regional da Udemy para a América Latina. “Os especialistas dessa área precisam estar sempre atualizados e procuram cursos que ganham novas informações quase em tempo real.”

No mundo, a competência tecnológica com maior demanda está ligada a aplicativos para blockchain, com um avanço de 450% no mesmo período analisado — Foto: Pexels

No mundo, a competência tecnológica com maior demanda está ligada a aplicativos para blockchain, com um avanço de 450% no mesmo período analisado. Já entre as “power skills”, os destaques foram temas como eficiência no trabalho, com um salto de 98%, e “sucesso pessoal” (92%).

Em três países da América Latina citados no levantamento – Brasil, México e Argentina –, as práticas mais buscadas estão na área de tecnologia. Já na Europa, Estados Unidos e Japão, aparecem mais as “power skills” ou opções como o idioma espanhol, estatística, coaching, história da arte e recursos humanos. São programas que têm chamado a atenção de quem busca aprimorar características de liderança, explica Spinelli.

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Como o trabalho remoto ajudou startups de fora do Vale do Silício a crescer

Algumas empresas que contrataram funcionários em home office durante a pandemia dizem que voltar ao escritório não é uma opção

Sarah Kessler, The New York Times/Estadão 04 de maio de 2022 

Mais de dois anos depois de a pandemia mandar os trabalhadores empacotar suas coisas e trabalhar de casa, muitas empresas agora estão fazendo tudo o que podem para atrair os funcionários de volta aos escritórios – pelo menos alguns dias por semana. No entanto, algumas empresas que contrataram trabalhadores remotos durante a pandemia dizem que voltar ao local de trabalho anterior não é uma opção. O trabalho remoto, que se tornou mais comum devido à pandemia, mudou como as empresas funcionam, sobretudo quando se trata de contratação. As empresas de tecnologia fora do Vale do Silício, nos Estados Unidos, conseguiram crescer porque seu acesso a talentos aumentou.

É o caso de Craig Fuller, fundador de uma empresa de análise de dados de logística em Chattanooga, no Tennessee (EUA), que está acostumado a contratar engenheiros de software e especialistas em dados que moram fora da cidade. No passado, isso significava ter argumentos para convencê-los a se mudar para a cidade de médio porte do sul dos Estados Unidos. Ele destacava o baixo custo de vida e a convivência em comunidade ao ar livre. “Procurávamos pessoas com família”, disse ele.

Mas, durante os últimos dois anos, esse tipo de conversa não foi necessário. A empresa de Fuller, a FreightWaves, dobrou o tamanho de sua equipe ao implementar o trabalho remoto. E entre os 120 novos contratados, cerca de 60% vivem fora de Chattanooga. “De repente, as regras e as restrições para contratação não se tornaram mais um problema para nós”, disse Fuller. 

Craig FullerCraig Fuller, fundador da FreightWaves, nos Estados Unidos: escritório virtual fez a empresa crescer e contratar mais talentos.  Foto: Audra Melton/The New York Times

Esse também é o caso da Olive, empresa de automação no setor de saúde em Columbus, Ohio, que, durante a pandemia, foi de aproximadamente 200 para 1.350 funcionários. Os profissionais da empresa agora estão distribuídos em 47 estados do país. “Não conseguiríamos ter crescido como crescemos sem aproveitar o acesso aos mais diversificados talentos em todo o país”, disse Brian Rutkowski, responsável pelas contratações de profissionais da empresa.

Para algumas startups fora do Vale do Silício e outras em grandes centros tecnológicos metropolitanos, o trabalho remoto tem sido crucial para possibilitar o crescimento rápido. As empresas podem recrutar talentos de qualquer lugar sem precisar pedir aos candidatos para se mudar.

Isso faz com que muitas desejem continuar com o trabalho remoto depois da pandemia. A Revolution, empresa de investimentos com sede em Washington que foca em startups de fora do Vale do Silício, fez um levantamento informal com as 200 instituições em seu portfólio a respeito das políticas de trabalho remoto este ano. Cerca de 20% delas disseram que ofereciam opções de trabalho remoto antes da pandemia, e 70% disseram que permitiriam o trabalho remoto daqui para frente.

O trabalho remoto pode ser bom para ecossistemas de tecnologia fora do Vale do Silício, disse Steve Case, CEO da Revolution e cofundador da AOL. Quando ele criou a empresa em 2005, disse, “mesmo se um empreendedor estivesse ali, a questão era: será que eles poderiam construir uma equipe para estruturar a empresa e, de modo especial, construir uma equipe para fazer a empresa crescer?” Agora, segundo Case, “eles podem ficar onde estão”.

Vantagem competitiva das empresas

Mas, mesmo que o trabalho remoto tenha ampliado o leque de opções de profissionais para startups fora do Vale do Silício, isso não necessariamente facilitou a contratação deles. Isso porque essa possibilidade funciona para os dois lados: assim como uma startup em Chattanooga pode contratar um engenheiro de software em São Francisco, startups abastadas e gigantes da tecnologia em São Francisco podem contratar engenheiros de software que moram em Chattanooga.

Fuller disse que o trabalho remoto acabou com a “vantagem competitiva” em relação a sua empresa. “De repente, agora estamos competindo com empresas do Vale do Silício e de Nova York por funcionários equivalentes ou que já trabalham conosco; então elas estão começando a ficar de olho em nossas equipes”, disse ele. Para a Olive, competir em escala nacional significou que a empresa precisou ajustar sua tabela salarial, disse Rutkowski.

“Tivemos que ser criativos com as remunerações neste modelo”, afirmou. Os funcionários da Olive que moram em lugares com custo de vida maior ganham mais, e a empresa aplicou ajustes adicionais de inflação sobre suas faixas salariais.

freightwavesEscritório da FreightWaves, de Craig Fuller: agora vazio, com funcionários trabalhando de casa de outras cidades.  Foto: Audra Melton/The New York Times

A contratação de trabalhadores remotos durante os lockdowns causados pela pandemia também tornou mais difícil para as empresas exigir o retorno aos escritórios. Aquelas que impõem expediente em horário comercial teriam que voltar a ter acesso a um número mais limitado de talentos locais – mas que agora é mais competitivo do que antes da pandemia.

“Não acho que você possa reverter a situação”, disse Scott Siegert, diretor de operações da Buildertrend, empresa em Omaha, Nebraska, que fabrica software para empreiteiras de imóveis residenciais e adquiriu três pequenas empresas durante a pandemia, nenhuma delas na região. “Não acho que isso seja o que os trabalhadores esperam e nem acredito que seja o melhor para a empresa.”

Fuller disse que não ficou decepcionado pelo retorno total dos funcionários da FreightWaves ao escritório parecer improvável.  Seus negócios melhoraram quando a empresa mudou para o ambiente de trabalho virtual, afirmou, e ele não tem tido dificuldades para preencher vagas, mesmo que isso signifique pagar salários mais altos e contratar um recrutador pela primeira vez.

“Cada métrica com a qual você se importaria aumentou de verdade”, disse ele. “As vendas aumentaram. O ritmo aumentou.” A maioria de seus funcionários continua trabalhando de casa, mesmo aqueles vivendo em Chattanooga.

Robert Hatta, sócio da firma de capital de risco Drive Capital, que fica em Columbus, Ohio, e investe em empresas fora da costa, disse que antes da pandemia, quase 20% das cerca de 70 empresas do portfólio da empresa permitiam o trabalho remoto. Agora, aproximadamente 90% adicionaram alguma forma de trabalho remoto aos seus planos permanentes.

Mas ele não está convencido de que o trabalho remoto continuará sendo o padrão.

“Acho que a maioria das pessoas concordaria, considerando todas as características iguais, que uma equipe alocada no mesmo lugar é melhor que uma distribuída [por vários lugares], mesmo no setor de tecnologia, e isso continua sendo uma espécie de crença padrão no mundo das startups”, disse ele.

Hatta disse que era cedo demais para dizer qual modelo se tornaria o novo normal. “Neste momento, temos mais de 60 empresas, cada uma executando 60 versões diferentes de um experimento sobre o que funcionará do ponto de vista dos trabalhadores”, disse ele.

Case disse acreditar que, mais cedo ou mais tarde, os trabalhadores de fora do Vale do Silício que foram contratados para trabalhar remotamente durante a pandemia, provavelmente seriam recrutados por empresas locais. “Eles perceberão suas oportunidades nessas cidades e talvez até identifiquem chances para criar suas próprias empresas – e nessas cidades”, disse ele.

/ Tradução de Romina Cácia

https://economia.estadao.com.br/noticias/sua-carreira,trabalho-remoto-startups-fora-vale-silicio-home-office,70004055799

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Com novo surto de coronavírus e lockdown, China trava cadeia global de produtos

Lockdown em Xangai, cidade onde está instalado o maior porto do mundo, retarda a normalização na cadeia de suprimentos e pode agravar a inflação no Brasil

Luciana Dyniewicz e Renée Pereira, O Estado de S.Paulo 03 de maio de 2022 

A previsão de que a cadeia logística global estaria de novo regularizada ainda neste ano já foi descartada por especialistas da área. Com o novo surto de covid na China e o lockdown adotado em Xangai – cidade onde está instalado o maior porto do mundo –, a cadeia de suprimentos vive mais um momento de estresse que começa a causar atraso na entrega de mercadorias, deve impactar o Brasil sobretudo nas próximas semanas e pressionar a inflação ainda mais.

Desde o começo da pandemia, quando países adotaram medidas de distanciamento social que inviabilizaram a produção e o deslocamento de produtos, a rede global de logística enfrenta rupturas que causaram desabastecimento de alguns itens. Por outro lado, os estímulos fiscais implantados por diversos governos para amenizar a crise impulsionaram o consumo e a encomenda de mercadorias, aumentando a demanda por frete. Houve, assim, um descasamento entre oferta e demanda. 

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O preço do frete explodiu nesse período, com a média paga pelo transporte de um contêiner passando de US$ 1,4 mil, em fevereiro de 2020, para US$ 11,1 mil em setembro do ano passado. Hoje, o valor está em US$ 8,9 mil. Esse preço vinha em uma tendência de queda, e grande parte dos especialistas apostava em uma regularização do setor ainda neste ano. A diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, afirmou, no fim de fevereiro, ao Estadão, que acreditava que a situação seria normalizada no início de 2023, o mais tardar. Esse prazo, porém, agora é visto com descrédito.

O lockdown em Xangai deve causar um efeito cascata na rede de abastecimento mundial. O porto da cidade movimenta por ano 43 milhões de TEUs (medida equivalente a um contêiner de 20 pés, ou cerca de seis metros), é quase dez vezes o total que circula no porto de Santos – o maior do Brasil. 

O distanciamento social, inicialmente, limita a quantidade de trabalhadores no porto, reduzindo a eficiência no local. Em seguida, contêineres começam a se acumular, navios ficam congestionados e as empresas de navegação cancelam embarques, explica o especialista em políticas e indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Matheus de Castro. “Quando as medidas de lockdown forem suspensas, será preciso atender a demanda acumulada e a normal. É daí que vem o desequilíbrio de oferta e demanda (de frete). Até hoje, estão tentando corrigir esse desequilíbrio, causado no começo da pandemia, com preços (mais elevados)”, afirma Castro. 

Para o advogado especialista em transporte marítimo Larry Carvalho, a retomada e a volta à normalidade no porto de Xangai devem levar de três a quatro meses. “Um congestionamento desse tamanho não é fácil de ser regularizado.”

A regularização global, porém, levará meses, na avaliação de Castro. “O retorno à normalidade foi retardado. Se as condições permanecerem difíceis também na Ucrânia e nos Estados Unidos, o processo de equilíbrio vai ser jogado para 2023 e 2024.”

Guerra

Além da situação na China, os EUA continuam a registrar congestionamento de navios em suas costas, ainda devido à pandemia, e a guerra na Ucrânia também dificulta o escoamento no Mar Negro. O conflito no Leste Europeu tem ainda sido um entrave para o setor de transporte marítimo ao encarecê-lo devido à alta do preço do combustível. Por outro lado, lembra o especialista da CNI, se o desaquecimento da economia global se concretizar, a demanda por mercadorias deve arrefecer, reduzindo também a necessidade por transporte, o que pode ajudar na regularização da logística.

Até a última quinta-feira, apenas na costa chinesa, havia 412 navios aguardando para atracar. Em fevereiro, eram 260 – ou seja, um aumento de 58% –, de acordo com a plataforma Windward.

Outro reflexo desse problema é a falta de contêineres. Dados da Windward mostram que um em cada cinco navios porta-contêineres em todo o mundo está parado do lado de um porto congestionado, sendo que 24,3% deles estão na China. Isso também significa aumento de custos para importadores e exportadores que sofrem com a escassez de contêineres para embarcar seus produtos. Antes dessa crise, diz Carvalho, um contêiner de 40 pés fazia quatro viagens por ano. Hoje esse número é de 2,3 a 2,5 vezes.

porto xangai Xangai, onde fica o maior porto do mundo, está sob lockdown.  Foto: Aly Song/Reuters

De acordo com o diretor executivo do Centro Nacional de Navegação Transatlântica (Centronave), Claudio Loureiro de Souza, o congestionamento de navios na China reflete um problema que acontece em terra. O transporte terrestre no país também está travado devido ao lockdown, o que dificulta o deslocamento das mercadorias até os portos.

Brasil

Apesar de o maior impacto dessa nova onda de problemas no transporte marítimo ainda ser esperado para as próximas semanas no Brasil – dado que um navio leva cerca de 35 dias para viajar da China até aqui –, os primeiros sinais já começaram a aparecer. O preço do frete para exportar um contêiner aumentou 6% entre março e abril, quando o valor médio para envio de um contêiner ficou em US$ 2,5 mil. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o incremento chega a 70%.

Na importação, os preços seguem em queda e a média ficou em US$ 5,5 mil em abril. Castro, da CNI, no entanto, alerta que, a partir de meados de abril, começaram a ocorrer cancelamentos de embarques, suspensões de escalas e redução na quantidade de navios na rota Xangai-Brasil. A diminuição da capacidade é estimada em 10% e deve pressionar os preços a partir de maio. “Possivelmente, com o eventual retorno das operações em Xangai, os fretes devem voltar a subir”, diz Castro.

O represamento de navios na China também aumenta o risco de desabastecimento. Na indústria automobilística, neste momento, o problema logístico já é maior do que a falta de semicondutores – que também vem travando o setor nos últimos dois anos –, diz o presidente da Bright Consulting, Paulo Cardamone.

Um dos maiores centros populares de compras no Brasil, a Rua 25 de Março, em São Paulo, já tem falta de produtos. O diretor da Univinco, associação dos lojistas da região, Marcelo Mouawad, afirma que nas últimas semanas tem tido dificuldade para agendar a saída de produtos da China para o Brasil. “Não se consegue datas para o embarque e o resultado é a falta de produtos, como os populares carrinhos Hot Wheels, chupetas e mamadeiras.”

Segundo importadores, se o lockdown persistir, vários segmentos poderão ter problemas. O setor de energia solar é um deles. Hoje os fornecedores têm três meses de estoque em território nacional. “Mas, se perdurar essa situação, teremos problemas de falta de produto e aumento dos preços pelo desequilíbrio entre oferta e demanda. Esse impacto ocorreria no terceiro trimestre”, diz o presidente do Portal Solar Franquia, Rodolfo Meyer.

Situação semelhante vive a indústria elétrica e eletrônica. Depois das dificuldades enfrentadas durante a pandemia, algumas empresas elevaram seus estoques, mas ainda não em volume suficiente para aguentar muito tempo sem a chegada de novos componentes. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, afirma que as empresas estão preocupadas e discutindo alternativas para não parar a produção.

“Abril já foi um mês comprometido em termos de recebimento de insumos. Seguramente teremos problema no terceiro trimestre”, afirma. O executivo destaca que há um aumento de custo significativo em tudo que é movimentado em Xangai. Isso porque falta mão de obra para qualquer serviço de transporte, como motorista e operador de máquina.

De acordo com a Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol), seus associados já relatam atrasos na importação de produtos chineses, principalmente no setor automobilístico. “Outros clientes tiveram cancelamento direto de pedidos por parte de fornecedores chineses, o que vem trazendo descompassos nos processos produtivos das empresas no Brasil”, diz a diretora executiva da associação, Marcella Cunha.

Ela cita como exemplo o porto de Suape, onde operadores registraram omissão de 40% dos navios programados para abril – isso ocorre quando o armador decide não escalar o porto com o navio programado. “No que se refere às importações chinesas do Brasil, há operadores que relatam suspensão total das operações para Xangai, Jiangsu e Zhejang.”

A executiva diz que há uma preocupação crescente em torno da falta de componentes e insumos chineses que abastecem grande parte do mundo. Isso provocaria um novo aumento nos insumos básicos e, por consequência, na inflação global, em particular nos EUA e no Brasil.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), Fernando Pimentel, também diz estar monitorando a situação, mas destaca que, por enquanto, o quadro não se assemelha ao verificado no início da pandemia. “Não é verdade que está sendo indolor, mas não é uma situação dramática neste momento. Por enquanto, o mais complexo é o custo.” / COLABOROU CLEIDE SILVA

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,novo-surto-covid-china-lockdown-xangai-cadeia-global,70004055475

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