Com verba cada vez menor para pesquisa, Brasil vê fuga de cérebros se intensificar e virar ‘diáspora’


De acordo com levantamento do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), há atualmente, pelo menos, de dois a três mil pesquisadores brasileiros no exterior

Bruno Alfano O Globo 09/02/2022 

RIO – Num cenário de restrições orçamentárias cada vez maiores para pesquisa, a fuga de cérebros já virou uma diáspora. É com essa expressão que o mundo acadêmico tem se referido ao aumento exponencial de mão de obra altamente qualificada de pesquisadores que têm deixado o Brasil em busca de melhores oportunidades, condições de trabalho e reconhecimento. Na bagagem, eles levam conhecimento de ponta e anos de investimento público. De acordo com levantamento do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), há atualmente de dois a três mil pesquisadores brasileiros no exterior.

O orçamento das duas principais agências federais de fomento à pesquisa indica como a capacidade de produção brasileira está mais restrita. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) informa que o orçamento para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) caiu de R$ 5,13 bilhões em 2012 para R$ 2,48 bilhões este ano. Além disso, o presidente Jair Bolsonaro bloqueou outros R$ 802 milhões. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) perdeu a metade da verba que teve dez anos atrás, passando de R$ 2,04 bilhões para R$ 1,02 bilhões.

— O Brasil, assim, está financiando os países ricos. Estamos entregando mão de obra altamente qualificada e nos privando do desenvolvimento que eles poderiam propiciar para o país — afirma Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC.

Greice Westphal, de 33 anos, está no Canadá, onde deve seguir a carreira de pesquisadora Foto: Arquivo pessoal

Greice Westphal, de 33 anos, está no Canadá, onde deve seguir a carreira de pesquisadora Foto: Arquivo pessoal

Realidades opostas

Greice Westphal, de 33 anos, pesquisa um modelo de tratamento multiprofissional da obesidade para que vire um serviço do SUS. Ela é doutoranda na Universidade Estadual de Maringá e, atualmente, está no Canadá, onde fez parte da sua pesquisa. Voltará ao Brasil apenas para defender a tese, mas o futuro como pesquisadora será em Ottawa.

— Aqui eles pagam até para os voluntários participarem da pesquisa. No Brasil, temos que implorar para os pacientes continuarem o tratamento para não perdemos os dados. Aliás, tive diversas vezes que tirar dinheiro do meu próprio bolso para comprar insumos ou consertar equipamentos. É tão parte da rotina que nem sei quanto já gastei — conta Westphal. — Trabalho com pesquisa científica há oito anos e nunca fui tão bem reconhecida como estou sendo aqui.

Coordenadora do Laboratório de Estudos de Educação Superior da Unicamp, Ana Maria Carneiro, que pesquisa a diáspora desde 2020, afirma que, apesar de não haver dados precisos, há fortes indícios de que esse movimento se intensificou por conta da queda brusca de financiamento nos últimos anos. No ano passado, o CNPq teve o menor orçamento deste século.

— Esse cenário é muito desanimador. Quem tem oportunidade de deixar o Brasil, vai — explica Carneiro.

Com apenas 22 anos, Mateus Silva já está saindo do país. Ele foi aceito para fazer doutorado em Yale e na Universidade de Nova York com uma bolsa do governo americano que financia novos cientistas. Aluno de mestrado em Neurociências e Biologia Celular da Universidade Federal do Pará, ele aponta o sucateamento da ciência brasileira como principal motivo da sua saída.

— O sucateamento começa desde a remuneração dos jovens pesquisadores. As bolsas infelizmente não são reajustadas desde 2013 e hoje limitam muito a qualidade de vida da maioria dos pós-graduandos, em especial dos que vivem sozinhos em outra cidade — explica Silva. — A situação já está ruim nos grandes centros de pesquisa no Sul e Sudeste, que recebem o grosso do investimento nacional. Agora, imagine como estão as regiões que recebem um financiamento muito menor do governo federal, como a região Norte?

Formado em fisioterapia pela Universidade Federal de Sergipe, Fernando Sousa, de 26 anos, desenvolve tratamentos para dor. No mestrado, ele investigou o efeito de dois programas simples de exercícios que os pacientes podem fazer sozinhos em casa para tratar a dor do ciático. No doutorado, desenvolveu um projeto para estudar a eficácia da telerreabilitação para pessoas com dores no ombro. Tentou bolsa três vezes no CNPq até desistir. Em janeiro desse ano, desembarcou em Melbourne, na Austrália, onde desenvolverá sua ideia pela Monash University.

— A fila de espera no hospital universitário da cidade em que eu morava no Brasil chegava a um ano e meio. São pessoas com dor sofrendo esse tempo inteiro sem assistência. A pesquisa que estou desenvolvendo aqui na Austrália seria útil para o aprimoramento do SUS, diminuindo essa fila — diz.

No entanto, segundo o pesquisador, o trabalho que ele desenvolverá precisará ser modificado para poder ser usado no Brasil.

— A realidade da Austrália é totalmente diferente. Existem fatores culturais e locais que influenciam o manejo da dor. Assim, é preciso investimento para desenvolver uma pesquisa similar aplicada ao SUS no Brasil — explica.

Na pandemia, importantes nomes no combate à Covid-19 acabaram deixando o país. Alvo de hostilidade de negacionistas, a microbiologista Natália Pasternak, por exemplo, foi para Columbia, nos EUA, pesquisar desinformação em ciência. Já Pedro Hallal, responsável pelos maiores inquéritos sorológicos no Brasil durante a pandemia, foi dar aulas na Universidade da Califórnia.

— O melhor aluno de doutorado que tive saiu do Brasil. Ele foi vendo que as oportunidades e o financiamento estavam cada vez mais difíceis no país, acabou aceitando um convite da Austrália e acho que nunca mais volta — afirma Hallal, que voltará ao Brasil ainda neste ano. — Além de todos os problemas, sofri ainda perseguição ideológica deste governo até no financiamento de projetos.

Falta de emprego

Na avaliação do presidente da SBPC, o Brasil vê se repetir um fenômeno do final dos anos 1990, quando o país doutorava pessoas que não conseguia empregar. Com isso, explica Renato Janine Ribeiro, esses profissionais acabam tendo renda incompatível com a formação de ponta que possuíram — e encontram oportunidades no exterior.

— Enquanto isso, algumas instituições de pesquisa sofrem com a falta de sangue novo. O Inpe, por exemplo, tem setores que estão muito desfalcados. O Brasil precisa contratar esses jovens. Não porque tem que dar emprego para eles, mas porque o país formou essas pessoas e as instituições precisam delas — diz.

Atualmente, um aluno de doutorado no Brasil recebe R$ 2.200 de bolsa com obrigação de dedicação exclusiva.

— Com esse dinheiro, não posso morar sozinha, não posso juntar dinheiro. Não estou mais jovem para ficar morando em república. Não quero mais ter essa vida de universitário. Quero começar minha vida. Não é nem o piso salarial de ninguém com graduação e não conta para aposentadoria, não tem férias, FGTS, nada — afirma Sabrina Paes Leme, mestranda do Inpe em sensoriamento remoto que já conseguiu financiamento para estudar em universidades na Austrália e na Holanda.

De acordo com Ana Maria Carneiro, o Brasil ainda pode reverter os danos causados pela fuga de cérebros se conseguir, no futuro, atrair esses profissionais de volta ou pelo menos fazer com que eles estabeleçam parcerias com universidades brasileiras. Segundo a pesquisadora da Unicamp, o Itamaraty já tem treinado seus diplomatas para eles conseguirem estimular os cientistas brasileiros no exterior a criarem pontes com o país.

— Esses pesquisadores têm intenção de manter laços com o Brasil, mas ainda há entraves aqui no país para que isso ocorra com mais frequência — diz.

https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/com-verba-cada-vez-menor-para-pesquisa-brasil-ve-fuga-de-cerebros-se-intensificar-virar-diaspora-25386290

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