Robôs podem substituir cerca de 500 mil motoristas de caminhão nos EUA, aponta estudo

Maior desafio para as empresas está na automação da condução entre fábricas e depósitos até as estradas interestaduais, que são bem menos complexas e exigem menos dos engenheiros

Por Bloomberg/Valor 19/03/2022 

Os robôs farão os trabalhos mais tediosos e perigosos primeiro, na maioria das coisas. O transporte rodoviário não é exceção. Os engenheiros de direção autônoma estão focados no frete de longa distância. As estradas interestaduais dos Estados Unidos são quase sem complexidade, exceto por uma curva lenta ou um pedágio. Desta maneira, essas rotas são alguns dos desafios mais simples no espectro de direção autônoma.

O maior obstáculo pode ser a infraestrutura. A curta viagem de uma fábrica ou centro de distribuição para uma estrada interestadual é geralmente muito mais complicada do que as próximas centenas de quilômetros.

Uma das solução possíveis é que as empresas de caminhões instalem estações de transferência em cada extremidade, onde motoristas humanos lidam com a complicada primeira etapa da viagem e, em seguida, engatam sua carga em plataformas robóticas para a cansativa parte do meio. Outra estação na saída levaria a carga de volta para um caminhão, com um motorista, para entrega.

Tal sistema, de acordo com um novo estudo da Universidade de Michigan, poderia substituir cerca de 90% da condução humana em caminhões de longa distância nos EUA, o equivalente a cerca de 500.000 empregos.

“Quando conversamos com motoristas de caminhão, literalmente todos disseram: Sim, essa parte do trabalho pode ser automatizada”, explicou Aniruddh Mohan, doutorando em engenharia e políticas públicas na Carnegie Mellon University e coautor do livro estude. “Pensamos que eles seriam um pouco mais duvidosos.”

Há, no entanto, muitas dúvidas. Por um lado, os sistemas autônomos teriam que descobrir como navegar em clima ruim muito melhor do que podem agora. Em segundo lugar, os reguladores em muitos Estados ainda não abriram caminho para as plataformas robóticas. Finalmente, há a infraestrutura a ser considerada – todas as estações de transferência onde a carga passaria do análogo movido a cafeína para os algoritmos.

Ainda assim, se as empresas de caminhões se concentrassem apenas no Cinturão do Sol da América (Estados das regiões sudoeste, sul e sudeste dos EUA), elas poderiam facilmente compensar 10% da condução humana, mostra o estudo. Se eles implantassem os robôs em todo o país, mas apenas nos meses mais quentes, metade das horas de transporte rodoviário do país poderiam se tornar autônomas.

“Isso já está acontecendo, mas de uma maneira bastante limitada”, disse Parth Vaishnav, professor assistente de clima e energia em Michigan e coautor do estudo.

Existem cerca de 3,3 milhões de caminhoneiros nos Estados Unidos, embora muitos não permaneçam no mercado por muito tempo.

Os empregos de motoristas de longa distância, em particular, são alguns dos piores. Eles não são apenas demorados e tediosos, mas estão entre os mais mal pagos. Esses trabalhadores estão na estrada cerca de 300 dias por ano e ganham cerca de US$ 47.000. Já as rotas de curta distância podem ser mais complicadas e, como tal, pagam melhor e atraem motoristas mais experientes.

Não surpreendentemente, a força de trabalho de longa distância tende a mudar inteiramente a cada 12 meses ou mais. No momento, o setor está com falta de cerca de 61.000 motoristas, segundo a American Trucking Associations. “Em nossa imaginação, vemos isso como empregos de classe média”, disse Vaishnav, “mas esse não tem sido o caso há algum tempo”.

A escassez de motoristas é tão grande que as empresas de caminhões americanas estão tentando importar motoristas para aliviar o que se tornou um dos gargalos mais agudos da crise da cadeia de suprimentos. Os lobistas de caminhões também estão tentando reduzir a idade mínima para motoristas interestaduais de 21 para 18 anos.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2022/03/19/robos-podem-substituir-cerca-de-500-mil-motoristas-de-caminhao-nos-eua-aponta-estudo.ghtml

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Vida em reconstrução: a ciência avança no implante de órgãos artificiais

Técnicas em laboratório ou próteses produzidas em impressoras 3D mostram que é possível repor com segurança as peças que o organismo perdeu

Por Paula Felix – Veja – 18 mar 2022 

Recriar o corpo faz parte do imaginário humano. Do coração recebido pelo Homem de Lata, em O Mágico de Oz, à mão decepada de Luke Skywalker, da saga Star Wars, substituída por um modelo biônico, há vários exemplos na ficção que refletem o anseio da civilização de repor, ao menos parcialmente, partes perdidas. O capítulo mais recente dessa aventura foi protagonizado pelo americano David Bennett, de 57 anos, e seus cirurgiões no Centro Médico da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Portador de cardiopatia grave e terminal, Bennett aceitou receber um coração de porco, geneticamente modificado, tornando-se o primeiro ser humano vivo a ser submetido a um xenotransplante (transplante, infusão ou implantação de órgãos de diferentes espécies). 

No ano passado, um time da Universidade de Nova York havia feito o transplante de um rim suíno com material genético alterado em um paciente com funções mantidas por aparelhos enquanto se desenrolou a cirurgia. Bennett, o homem com um coração de porco, viveu mais dois meses depois do procedimento. Ele morreu na terça-feira 8, mas deixou à ciência a certeza de que está mais próximo o dia em que os humanos viverão por muito tempo com órgãos extraídos de outros animais. “Isso não é mais um sonho de um futuro distante, mas algo cada vez mais viável pela medicina moderna”, comemorou David Kaczorowski, professor associado de cirurgia cardiotorácica da Universidade de Pittsburgh, integrante da equipe que conduziu o experimento. 

O feito dos médicos americanos abre mais uma avenida rumo à construção da vida por meios artificiais. O desafio é urgente. A escassez de órgãos para doação, agravada pela pandemia de Covid-19, e a longevidade da população, que amplifica as doenças ligadas ao envelhecimento, apertam a demanda por soluções que reparem pedaços do organismo, sejam eles vitais ou não. Felizmente, há novidades espetaculares, como resultado do progresso fantástico nos campos tecnológico e científico, especialmente na genética. Para que o xenotransplante em David Bennett se concretizasse, por exemplo, foi preciso avançar no conhecimento do DNA de homens e de animais de forma que os procedimentos sejam eficazes e seguros. Ou seja: devem salvar ou prolongar vidas ao mesmo tempo que apresentem riscos reduzidos de provocar episódios de rejeição aguda.

Na Universidade de São Paulo (USP), há um experimento exemplar nesse caminho. Coordenado pela professora Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da instituição e referência nacional no tema, o projeto pretende criar rins de porco geneticamente viáveis para implantação em humanos. A fase mais difícil, de edição de genes, foi finalizada. Agora, o grupo aguarda a implantação de um biotério de máxima segurança, um ambiente dotado de filtros de ar, estéril e com água e alimentos livres de qualquer tipo de patógenos. A previsão é de que ele fique pronto até o fim do próximo ano. O passo seguinte será a criação das fêmeas que receberão embriões geneticamente modificados e gerarão os filhotes dos quais os órgãos serão tirados. 

NOVIDADE - O transplante de coração de porco geneticamente alterado: a inovação deu sobrevida de dois meses ao paciente – UNIVERSITY OF MARYLAND SCHOOL OF MEDICINE/AFP 

Uma das ideias, de modo a evitar a rejeição, é implantá-los sob a pele dos doentes. A proposta foi do professor emérito da Faculdade de Medicina da USP Silvano Raia, pioneiro dos transplantes de fígado no país, responsável, em 1988, pelo primeiro transplante intervivos no mundo. Aos 91 anos, o cirurgião está entusiasmado com o que a medicina alcançou até agora. “Em cinco anos, o xenotransplante será uma alternativa”, diz Raia. “O progresso previsto é geométrico. Posso prever milagres.” O olhar otimista é compartilhado com Anthony Atala, diretor do Wake Forest Institute for Regenerative Medicine, instituição americana que, em 1999, inaugurou a era dos órgãos cultivados em laboratório fazendo o implante em um paciente de um tecido de bexiga. “Estamos progredindo demais em direção ao objetivo de melhorar a vida dos pacientes”, disse a VEJA. A instituição está na vanguarda da área. Há experiências voltadas para a criação de tecidos e órgãos para mais de quarenta partes diferentes do corpo. A impulsionar o trabalho frenético estão as bioimpressoras 3D, máquinas que sintetizam à perfeição o salto tecnológico dos últimos anos.

Elas revolucionaram o campo da regeneração de tecidos ao permitir a produção das peças mais precisas de que se tem notícia. No Wake Forest Institute, por exemplo, são utilizadas na fabricação de quinze estruturas, entre elas músculos, cartilagens e pele. São de dois tipos a matéria-prima usada. O primeiro é composto de células progenitoras do órgão a ser reparado. Elas são assim chamadas porque dão origem àquele tipo específico de tecido. “A vantagem de extrair células do próprio paciente é que não haverá rejeição”, explica Anthony Atala. Quando isso não é possível, recorre-se às células-tronco, capazes de se transformar em diversos tipos de estrutura e encontradas em compostos como a gordura corporal, placenta ou líquido amniótico.

CRIATIVIDADE - Tilápia: a pele do peixe é usada para reparar deformações vaginais – Viktor Braga/UFC/. 

Os avanços da área empolgam pelo que oferecem e fascinam pela criatividade. A pele de tilápia, em uso desde 2015 por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará no tratamento de queimaduras e feridas graves, agora serve também para a construção do canal vaginal de mulheres transgênero ou reconstrução no caso de pacientes que apresentam distúrbios genitais raros ou que ficaram com deformações causadas por câncer ginecológico. Além disso, em setembro do ano passado, o enxerto entrou como alternativa na recuperação da pele de crianças submetidas à cirurgia para separação dos dedos, malformação causada por uma síndrome rara. 

ENCAIXA TOTAL - Vértebras artificiais: precisão garantida por impressoras 3D – Adam E. Jakus/. 

Um observador menos atento poderia vislumbrar nesse novo campo da medicina um atalho para a transformação do corpo humano em quimeras ou ciborgues. Nada disso. Basta ver a mais recente versão do Aeson, o coração artificial mais sofisticado do mundo. Seu formato lembra bastante o do órgão ao qual ele imita as funções. O Aeson foi implantado no ano passado em um paciente com insuficiência cardíaca terminal por cirurgiões do hospital da Universidade Duke, nos Estados Unidos, dentro de um protocolo de estudo aprovado pela Food and Drug Administration, agência reguladora do país. O objetivo é verificar se a bioprótese mantém a vida de pacientes graves até que recebam um coração por meio de transplante. O estudo transcorre, assim como centenas de outros em condução neste momento, apontando para uma nova era. Nela, parte vital do organismo será reconstruída sem que os seres humanos percam a identidade corporal que a evolução talhou.

Publicado em VEJA de 23 de março de 2022, edição nº 2781 

https://veja.abril.com.br/saude/a-vida-em-reconstrucao-os-avancos-da-ciencia-para-implante-de-orgaos/
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Redes sem fio inspiradas em sementes

Um exemplo de como se pode utilizar sistemas surgidos no processo de seleção natural para criar soluções tecnológicas

 Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo 19 de março de 2022 

Flores de dente-de-leão se tornam pequenas bolas de sementes, cada semente com um mini paraquedas branco. Eu adorava assoprar essas bolas e ver as sementes caindo devagar ou sendo levadas pela brisa. 

Já as redes sem fio, que carregam sinais de internet ou telefone, são um grande conjunto de equipamentos, distantes uns dos outros. Cada um desses repetidores capta sinais de rádio e os passa adiante. Esses aparelhos precisam estar ligados à rede elétrica. Por isso criar uma extensa rede em locais sem eletricidade é difícil. E, para solucionar esse problema, os cientistas decidiram criar repetidores minúsculos, que dispensassem eletricidade e se espalhassem sozinhos pelo ambiente. Foram então criados repetidores de cerca de 1 mm e extremamente leves, pesando 30 mg, que dispensam a rede elétrica, pois têm uma minúscula célula fotoelétrica que transforma a luz solar em eletricidade.

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Até aí, essa nova tecnologia era apenas um fantástico feito de miniaturização. Sobrava um problema: como espalhar milhares ou milhões desses repetidores em uma floresta, em uma fazenda ou uma geleira, criando uma rede funcional? Foi então que os cientistas buscaram inspiração nas sementes de dente-de-leão. Cada um desses microaparelhos foi pendurado a um paraquedas artificial copiado da estrutura do usado pela semente de dente-de-leão. Após testarem vários desenhos, os cientistas obtiveram um modelo que permite que os equipamentos se espalhem com o vento, caindo no solo suficientemente distantes para permitir a cobertura de uma grande área, mas suficientemente próximos para que cada um capte os sinais de seus vizinhos. O paraquedas também foi otimizado para garantir o pouso com a célula fotovoltaica voltada para o céu, garantindo eletricidade.

Sementes

Cientistas decidiram criar repetidores minúsculos, que dispensassem eletricidade e se espalhassem sozinhos pelo ambiente, como as sementes do dente-de-leão Foto: Makunin/Pixabay

Um drone sobrevoa a área desejada levando até 3 kg de equipamentos (100 mil repetidores). Nos testes, eles foram lançados de diversas altitudes e se espalharam com o vento. Mais de 95% pousaram com a célula fotovoltaica para cima, estabelecendo redes sem fio em áreas de dezenas de quilômetros quadrados, locais sem eletricidade, rodovias ou mesmo trilhas. Tudo a custo baixo.

Esses receptores podem carregar sensores de vários tipos, sendo capazes de monitorar o que ocorre em toda a superfície coberta pela rede e transmitir esses dados. Outro exemplo de como se pode utilizar sistemas surgidos no processo de seleção natural para criar soluções tecnológicas.

MAIS EM: WIND DISPERSAL OF BATTERY-FREE WIRELESS DEVICES. NATURE

*É BIÓLOGO

https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,redes-sem-fio-inspiradas-em-sementes,70004013151

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Por que o fim do home office está levando a demissões?

CEO da Adecco diz que saída de profissionais intensifica a escassez de talentos em algumas áreas

Por Barbara Bigarelli – Valor – 14/03/2022 

A exigência de um retorno ao modelo presencial de trabalho pós impacto da pandemia está impulsionando “a grande debandada”, o número recorde de profissionais pedindo demissão voluntária ou saindo do mercado de trabalho nos Estados Unidos. Essa é a opinião de Alain Dehaze, CEO global do grupo Adecco, consultoria suíça de recrutamento com atuação em 60 países e para 100.000 empresas. Mas Dehaze prefere descrever o movimento, que já soma quase 10 milhões de americanos, como “a grande reavaliação”. “Com o isolamento, muita gente saiu dos grandes centros, entendeu que o deslocamento de três horas por dia ao trabalho não valia, viu que há outro tipo de vida mais próxima da família e para cuidar de si mesmo. E, à medida que as empresas começaram a exigir o retorno ao escritório, muitas começaram a pedir demissão, trocar de emprego e até sair do mercado”, analisou em entrevista ao Valor durante visita ao Brasil, em fevereiro.

No comando de uma empresa responsável por intermediar 3,5 milhões de vagas diariamente, o executivo diz que 60% das posições que a consultoria abre para seus clientes são para trabalhos que podem ser realizados de forma remota. Antes da pandemia, esse número mal alcançava 15%. “Com certeza isso tem um grande impacto no mercado de trabalho, porque agora uma empresa de Nova York pode recrutar em todos os estados. Inclusive no Brasil. E os funcionários podem estar em qualquer local.”

Mesmo que boa parte dos que vêm pedindo demissão voltem ao mercado – algo que Dehaze acredita que irá acontecer -, “a grande reavaliação” deverá intensificar a escassez de talentos que muitas áreas vivenciam hoje, defende. A maior demanda atual, em sua visão, encontra-se em ocupações relacionadas às áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês), mas o desafio maior, diz o executivo, está em encontrar candidatos que aliem essas capacidades técnicas às habilidades analítica, de criatividade e colaboração.

Outro grande problema de demanda no mercado de trabalho atual que Dehaze onserva na Europa envolve ocupações consideradas mais manuais ou que requerem esforço físico. “Faltam 400 mil caminhoneiros na Europa, e o Reino Unido, por exemplo, foi recentemente obrigado a pedir aos militares para entregar gasolina nos postos. Em restaurantes, considerando chefs e garçons, 20% das pessoas do setor mudaram de emprego ou simplesmente saíram da área.” Para frear, ao menos em parte, o movimento de saída em massa, Dehaze defende que as companhias invistam mais em propósito – conectando seu negócio ou produto a uma ideia de “futuro para todos”, onde as pessoas se sintam de fato interessadas em trabalhar.

Flexibilidade é outro ponto central, afirma, assim como preocupar-se com bem-estar e criar “regras” para engajar mais a força de trabalho. Mais do que políticas de bem-estar, porém, Dehaze diz que o melhor estímulo é o exemplo dentro da cultura da empresa. “Na Adecco eu digo publicamente que quero dormir sete horas por noite, então se alguém me manda um convite às 23 horas para uma reunião às 8 horas, eu não vou ver nem ir, porque estarei no meu período de descanso.”

O executivo também diz que a empresa, com 3 mil funcionários na América Latina, incentiva que os funcionários não enviem e-mails nos fins de semana. “É claro que terá gente que precisará trabalhar nesses dias por conta de alguma demanda de cliente e não é que proibimos os e-mails. Apenas orientamos que as pessoas posterguem mensagens a seus colegas de domingo para segunda de manhã, para preservar o tempo de descanso dos outros.” É o tipo de regra que pode servir para alguns, mas não vai solucionar, por exemplo, o caso dos caminhoneiros. 

Dentro de sua reflexão, Dehaze acredita que grande parte da discussão sobre o futuro do trabalho precisa se centrar na aceleração da requalificação e retreinamento dos funcionários. “A agenda de futuro não mudou substancialmente com a covid-19. Tudo o que estava previsto [em termos de novos modelos e flexibilidade] foi acelerado. Mas a maior aceleração da pandemia foi na automação e digitalização e isso nos leva à necessidade, mais rápida e veloz, de requalificar funcionários para novas posições, demandas e tipos de empregos”, diz o executivo, que também é membro do ILO Global Commission on the Future of Work, comissão que reúne 26 especialistas da Organização Internacional do Trabalho.

“Alguns estudos que eu acho plausíveis defendem que os profissionais perdem 40% de suas habilidades e competências a cada três anos. Então, basicamente, se não fizermos nada pela requalificação, depois de dez anos você estará obsoleto no mercado de trabalho.” Em sua visão, contudo, colocar essa responsabilidade somente no indivíduo é errado. O desafio envolve esforços de cada profissional, mas em conjunto com empresas e governos. “É até ok as empresas não protegerem empregos que precisam eliminar por uma tecnologia ou porque ficaram defasados. Faz parte. Porém, é papel delas proteger a empregabilidade de sua força de trabalho.” O que envolve, afirma, requalificá-las com as habilidades que estão sendo demandadas para que a empresa se aprimore, continue competitiva e mantenha os talentos dos quais precisa.

Como exemplo, ele cita um caso que viu de perto na Alemanha, onde uma empresa, com operação global e 150 mil funcionários, decidiu alocar 30 mil novos na área de mobilidade e divisão de carros elétricos. “O setor automotivo está indo do fóssil para o carro elétrico e isso muda todas as habilidades exigidas no desenvolvimento, fabricação e montagem.” Essa mesma empresa, continua sem revelar o nome da companhia, afirma que montou uma grade de treinamento para capacitar outros 700 funcionários em “engenharia de sistemas”. “É preciso, contudo, que as empresas tenham mais incentivos para requalificar as pessoas, tornando-as mais atraentes em temos de empregabilidade, ao invés de simplesmente demiti-las e recontratar novas no mercado, com outras habilidades.”

Esse incentivo, ele diz, poderia vir com o auxílio dos governos. “As empresas podem ser incentivadas com subsídios ou crédito fiscal, por exemplo.” Fora isso, governos poderiam seguir o exemplo de Cingapura, afirma o CEO, país que criou “uma conta para treinamento individual”. “Os cingapurianos podem receber um crédito para usarem em cursos ou programas de requalificação, financiando o aprendizado em novas competências e se mantendo empregáveis.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/03/14/por-que-o-fim-do-home-office-esta-levando-a-demissoes.ghtml

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A genialidade de Uri Levine, fundador do Waze e empreendedor

StartSe 16 Mar 2022 

Em conversa com a StartSe, o empreendedor compartilhou sua visão sobre negócios, realizações, planos e até sobre o Brasil. Confira:

Uri Levine foi um dos 3 fundadores da Waze, que foi vendida para Google por US$ 1,1 bilhão. Os outros 2 fundadores tornaram-se empregados da Google. Uri, com orgulho, diz que no dia seguinte da venda ele já foi fazer a próxima empresa. Uri recebeu a missão da StartSe na casa do brasileiro Leo Chanea, que lidera a parte de comunidade da Moovit, empresa da qual Uri está no conselho.

Segue algumas das frases de efeito de um dos mais emblemáticos empreendedores de Israel:

“Eu construo 1 ou 2 startups por ano. Eu procuro problemas. Depois eu procuro o time certo para resolver estes problemas. E depois eu os ajudo a resolver estes problemas reais e causamos um grande impacto. Usualmente no primeiro ano demanda muito do meu tempo, depois cada empresa demanda menos do meu tempo. Então eu vou e crio outras.”

“Aprendi essa daqui com o Anderseen Horwitz (famoso bilionário investidor do Vale do Silício). Me perguntaram se eu dormia bem quando eu era um empreendedor. Como CEO de uma startup, você dorme como um bebê.  Acordando a cada 2 horas para chorar.”

“Os consumidores vão mudar o jeito como eles consomem mobilidade. Eles vão pagar por tempo usado ou distância viajada. A indústria automotiva, do jeito que conhecemos, vai morrer. No futuro, em apenas 2 gerações, não vão acreditar que nós dirigíamos. Olhe o número de pessoas que morrem em acidentes em carros. A tecnologia vai diminuir essas fatalidades dramaticamente.”

“Waze começou em 2007. Mas, só lançou em 2009. Mas naquela época já sabia qual seria a minha próxima startup depois da Waze. Como? Porque eu mantenho uma lista de problemas que eu quero resolver. Não vou conseguir resolver todos. Mas vou criar startups para resolver alguns.”

“Criar uma startup é como se apaixonar. Muda a sua vida para sempre.”

“Em 20 anos não haverá mais concessionárias de carros.”

“A jornada do empreendedor deveria ser chamada de jornada do fracasso.

Einstein disse: Se você não fracassou, é porque não tentou nada de novo.

Thomas Edison disse: Eu não fracassei mil vezes, eu descobri mil vezes que não funciona. A característica mais importante do empreendedor é a perseverança. Para aguentar todos os fracassos e seguir em frente.”

“COMEMORE! A jornada é tão árdua que você precisa achar momentos para celebrar. O primeiro funcionário, o primeiro escritório, o primeiro processo que você resolver! Sério, quando você for processado, comemore! E depois corra para resolver o problema! A melhor coisa para celebrar é a carta de agradecimento do cliente.”

“O primeiro ano da startup é essencial. Você pode definir o DNA da empresa antes mesmo de começar a empresa. Que tipo de pessoa você quer que trabalhe contigo? É essencial o empreendedor responder algumas perguntas, se não com o tempo estas respostas serão respondidas e você pode não gostar da startup que criou.”

“Como construir um unicórnio? Seja um líder de Mercado em um Mercado que seja grande o suficiente. Ou seja, pense bem no seu mercado e lembre de querer ser o líder.”

+ Unicórnios brasileiros: o que sua empresa pode aprender sobre crescimento acelerado com eles?

“Dicas para startups: o segundo que você esquecer quem são seus usuários e quais os problemas deles, a sua startup começa a morrer.”

“Foco é decidir o que você não está fazendo. Isto é extremamente desafiador. Muitas pessoas vão te dizer coisas como “você pode construir Waze para pedestres.” Manter-se focado é crítico para ter uma chance de ter sucesso.”

“Apaixone-se pelo problema. Não pela solução. No Waze, éramos apaixonados em ajudar no trânsito, não pela Waze.”

“Metade dos empreendedores com quem converso me dizem que a razão pela qual a startup deles fracassou, foi porque não tinham o time correto. E eu pergunto, quando você sabia que este time não era o certo? Todos dizem, no primeiro mês eu já sabia. Então estas startups falharam porque o CEO não fez as decisões difíceis. Decida!”

“Levantar capital de investidores é muito importante. Perguntei para um investidor extremamente importante em Israel, quando você sabe se esse empreendedor é o certo? A resposta: antes mesmo dele sentar. Portanto, quando estiver falando com investidores, comece com a parte mais poderosa da sua história. Ele decidirá rapidamente, logo no começo da sua conversa.”

“Early stage startups recebem investimentos por apenas 2 motivos. 1) se o investidor gosta do empreendedor ou 2) se a história que o empreendedor conta é boa. Portanto, se você não sabe contar uma história, vai aprender. Eu te garanto que você pode aprender a contar historia. “

“[Essa é do fundador do LinkedIn, mas ele citou e vale a pena repetir]: Se você estiver feliz com a primeira versão do projeto que você lançou, significa que você demorou demais para lançar o projeto.”

“As pessoas não param de sonhar quando elas ficam velhas, elas ficam velhas quando param de sonhar.”

“Disrupt não é sobre a tecnologia. Disrupt é sobre mudar comportamento. “

“Alguns mercados serão disrupted. Alguns mercados estão implorando para ser disrupted. Veja se há intermediários. Se o preço é muito diferente do valor. Estes não irão durar.”

“Um nome não é importante. A única coisa é o nome ser pronunciável. Queríamos chamar nossa empresa de WAYS. Mas o site WAYS.com custava US$500 mil e não tínhamos esta grana. WAZE custava muito menos. Então chamamos assim.  Outro exemplo: a palavra Google não significa nada. Eles receberam um cheque do primeiro investidor para a empresa com o nome errado. No cheque estava escrito Google. Eles não retornaram o cheque e começaram a chamar a empresa com aquela grafia.”

Um pouco sobre 3 empresas que Uri está envolvido:

Feex. Nos EUA, há tantas taxas em transações financeiras com custos que os consumidores pagam, mas não sabem. Nossa startup traz transparência para essas transações.

Roomer. Marketplace para vender os quartos que você alugou, pagou, mas não conseguiu usar. Então você gostaria de revender e recuperar ao menos parte do seu capital. Hotéis querem que você consiga vender os seus quartos, pois faturam com comidas e bebidas.

Refundit. 95% das pessoas que podem receber reembolsos após fazer compras na Europa NÃO acessam esse dinheiro ao qual tem direito. Estamos construindo um app onde você vai bater foto do seu passaporte, do recibo, do item e vai receber seu reembolso e eu ganho um pedacinho desse reembolso.

Outras empresas com as quais Uri está envolvido: Moovit, Zeek, Engie, Seetree, Fairfly, Livecare.

+ Série Transformações Reais: cultura e propósito nas empresas

O Uri Levine adora o Brasil e diz que recomenda para quase todas as suas startups para explorarem o país com a quinta maior população do mundo e sétima maior economia do planeta. Ele disse que uma das coisas que mais o excita sobre o Brasil é que “word of mouth (boca-a-boca) realmente funciona no Brasil, então é mais fácil escalar para quem realmente resolve um problema do usuário.”

https://app.startse.com/artigos/a-genialidade-de-uri-levine-fundador-do-waze-e-empreendedor

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Por que o design da Nike continua surpreendente após 50 anos

POR MARK WILSON Fast Company Brasil 03/03/2022

A Nike completa 50 anos em 2022 e seu design se mostra mais interessante do que nunca. Outro dia, visitando o site oficial, encontrei uma das inúmeras descrições já feitas de um tênis e tive um insight do porquê a marca se mantém em alta. Ela poderia ter se tornado mais uma grife descartável, mas continua pensando (até demais) em seus designs – e da melhor maneira possível.

Como afirmou recentemente o site de moda masculina Hypebeast, a Nike já está tendo um “grande ano”, cheio de lançamentos experimentais. E ainda estamos em fevereiro! A verdade é que, há alguns anos, as tendências lançadas pela empresa têm sido certeiras, além de anunciadas no timing perfeito – como quando a marca divulgou seus Space Hippies sustentáveis ​​​​ou seus Go Flyeases fáceis de calçar e descalçar.

Os tênis são a arte democratizada da nossa era, com a diferença de que seu dono não precisa desembolsar uma fortuna em edições limitadas para participar da brincadeira. Com um investimento a partir de cerca de US $ 75, qualquer um pode adquirir uma verdadeira escultura maximalista para ser usada nos pés.

Créditos: Nike/ Divulgação

Basta dar uma olhada na loja online da Nike. É impossível não se encantar por algum modelo, como pelos LeBrons, que remontam aos tênis criados para Michael Jordan usar nas quadras basquete nos anos 90. Ou por um tênis para trilhas feito em um tecido original, que poderia descrever como um “negativo” da estampa clássica de onça. Ou por um cano alto de material misto, cujo jogo de cores e estampas faz lembrar o design de interiores dos anos 80. Ou por tênis de corrida tão fluorescentes que você vai querer chupar como se fosse um picolé de limão.

Algum desses modelos bate com o meu gosto? Pelo menos durante os momentos em que olho para eles com curiosidade, sim. Não há como não admirar sua beleza ou estranheza como objetos individuais, cada um oferecendo aos olhos o seu próprio pequeno universo de design. Também reconheço que essa é uma das estratégias da Nike: lançar uma variedade tão grande de modelos que algum deles vai fazer com que seu coração dispare, a ponto de querer levá-lo para casa.  E imagino que isso acontece com quase todo mundo. 

Essa surra de design que salta aos olhos não é mero resultado de a Nike ser uma empresa de US$ 31 bilhões e a maior fabricante de calçados do mundo. Afinal, projetar objetos tão atraentes, e em larga em escala, é muito difícil. A Apple construiu seu império executando extremamente bem um número limitado de produtos, enquanto reduzia a expressão de seus designs físicos, para que a marca silenciosamente ganhasse lugar em qualquer momento da vida de seus donos.

A NIKE APOSTA EM UMA LINGUAGEM DE DESIGN VARIADA E EXPRESSIVA.

Adotando o caminho contrário, a Nike aposta em uma linguagem de design variada e expressiva. É claro que a marca precisa organizar seus lançamentos e dar alguma direção de cores sazonais para os produtos. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a estratégia de cores apostava em tons neons futuristas, cruzando essa paleta com o uso de materiais naturalmente coloridos e sustentáveis. De todo modo, a Nike lança inúmeros novos itens todos os anos, cheios de diferentes materiais e tecnologias. Ou seja, projeta muitos produtos, muito bem e de maneira muito diferente.

Mas como eles dão conta de fazer isso? Para responder a essa pergunta, é importante destacar seus principais investimentos, como o novo LeBron James Innovation Center, a instalação de pesquisa tecnologicamente mais avançada do mundo, onde designers e cientistas trabalham lado a lado. Quem visita esse centro, como eu fiz no ano passado, pode presenciar como a Nike testa as suas novas cores em uma sala que pode simular tudo, desde a luz do dia até a iluminação fluorescente de seu escritório, e como a marca pede aos consumidores que classifiquem como um determinado tom de branco se parece em cada contexto.

Mas, na verdade, foi visitando a própria loja online que obtive uma resposta mais clara para essa pergunta. Bem na parte inferior da página para os tênis Nike Air Zoom SuperRep 2 Next Nature HIIT – um modelo lançado em setembro do ano passado –, a Nike compartilha a “história por trás das cores” do produto. Até então, nunca tinha percebido que essas histórias estavam disponíveis no site, embora elas sempre estivessem bem abaixo de preços, fotos e descrições.

Das nove variantes deste sapato em particular – nove! – esta versão singular “leite de coco” contrasta tons de terra com um laranja neon. A combinação funciona muito bem na prática e, além disso, há uma descrição convincente sobre o motivo pelo qual as cores são apresentadas daquela forma.

“A escolha de cores, que infunde tons neutros e rosa com laranja fluorescente, é um aceno para o perigo que a natureza está correndo. O laranja faz referência ao estado de emergência em que a Terra se encontra, enquanto as cores suaves o equilibram com um tom mais calmo. As cores contam a sua própria história, como se dissessem: “sim, a Mãe Terra está enfrentando um grave problema. Mas podemos lidar com isso juntos.”

Você pode ter achado essa história de cores uma tremenda bobagem. Talvez, em um dia de mau humor, eu também implicasse com a descrição do tênis. Acontece que, por incrível que pareça, os designers da Nike estão sendo sinceros quando dizem que pensam assim! Na verdade, eles estão constantemente pensando demais, na tentativa de imbuir tudo o que criam com algum propósito maior.

Nesse caso, os designers estavam bolando uma paleta de cores para um cross trainer novo e mais sustentável, o SuperRep 2, e procurando a mistura certa de cores para aprimorar essa ideologia. Provavelmente, a ideia de reforçar a tendência de calçados de cores neutras surgiu enquanto pensavam nisso tudo. O que eles estavam criando não era apenas uma narrativa aleatoriamente atribuída a um objeto, mas um sapato autoconsciente, que reconhece sua própria pegada (com o perdão do trocadilho).

Pode-se até argumentar que é, no mínimo, um pouco hipócrita para qualquer empresa de vestuário fazer e vender produtos novos enquanto defende o meio ambiente. Ou que comprar um tênis novo sem precisar, mesmo o mais ecologicamente correto de todos, é muito pior do que…. não comprar nenhum tênis! São argumentos perfeitamente justos, não vou contestar. Ainda assim, quando me pergunto por que o design da Nike é tão bom ou como eles conseguem continuar fazendo produtos que sempre parecem estar dois ou três anos à frente de seu tempo, me parece que a resposta está bem ali: naquela pequena descrição.

SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos

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De metaverso a biologia sintética: Amy Webb traz as tendências do SXSW 2022

O que se faz com uma tendência? A provocação da especialista é conseguir olhar para o futuro e ter fôlego para criar novas possibilidades

Por Camila Petry Feiler – Startse – 14/03/2022

Quando Amy Webb fala, o mundo para e escuta. Professora da NYU Stern School of Business e CEO do Future Today Institute,  há 15 anos ela lança o Tech Trends Report no South by Southwest (SXSW), festival de inovação e tecnologia que ocorre em Austin, no Texas. A atração, uma das principais do evento, trouxe o que Amy vê se desenhando para o futuro. Em 2022, ela olha para 2027, 2032 e 2037 e apresenta as principais tendências que vão afetar a sociedade, os negócios e o consumo neste e nos próximos anos. 

De metaverso, um dos grandes focos do festival, passando por trabalho e cultura, blockchain e biologia sintética, ela afirma que “você precisa usar as tendências para te ajudar a re-perceber o futuro. Para ajudar a influenciar o futuro.” Re-percepção, para ela, é a essência da criatividade, inovação e a qualidade essencial de bons líderes. Nesse contexto, unir tendências e re-percepção não é sobre prever o futuro e sim como lidar com as incertezas para tomarmos melhores decisões hoje. 

Com esse convite, para usar as tendências considerando resultados alternativos aos que imaginamos e também de reperceber a realidade, confira os destaques das projeções da pesquisadora para os próximos anos em três tópicos: inteligência artificial, metaverso e biotech.

Inteligência artificial

“Estamos nos aproximando do dia em que as redes de IA tomarão suas próprias decisões sem um humano no circuito”, disse Webb. “E se isso te assustou, você não é o único.”

A futurista destaca que a inteligência artificial vai remodelar a economia do conhecimento, desempenhando funções cognitivas tão bem ou melhor do que humanos. E por mais que estejamos em um momento de transição, ela lembra de um marco importante: em 2012, uma rede neural aprendeu a reconhecer um gato. Hoje, essas redes podem gerar clones de gatos que parecem idênticos ao real em questão de segundos.

Quer outra novidade? Não se trata mais apenas de reconhecimento facial: a IA pode reconhecer as pessoas por seus padrões de respiração ou batimentos cardíacos. “Se você não quer ser reconhecido, não é como se você pudesse parar de respirar ou ter seus batimentos cardíacos parados”, disse ela. “Os sistemas de IA não precisam do seu rosto para ver você e saber quem você é.”

Metaverso

Ela define o metaverso como um “termo guarda-chuva que define o conjunto de tecnologias que conectam o mundo físico ao mundo digital, parte da nova Web 3.0”, fragmentando nossas identidades. ”As pessoas criarão múltiplas versões de si mesmas, cada um adaptado para fins específicos. Isso vai levar à fragmentação – e a uma lacuna cada vez maior entre quem uma pessoa é no mundo físico, e quem ela projeta ser no mundo virtual.”

“Se você acha que gerenciar senhas é um desafio hoje, imagine ter que gerenciar diferentes versões de si mesmo espalhadas por todo o metaverso”, disse Webb. Eventualmente, todos terão uma identificação digital e isso exige formas de regulação, controle e transparência para garantir um futuro mais justo e menos aberto ao incerto quando o assunto é privacidade de dados e segurança digital. 

Afinal, Web3 é sobre transparência, interoperabilidade e confiança. Mas é preciso haver reguladores para garantir que o mundo virtual se desenvolva de maneira saudável, disse Webb.

De acordo com Webb, o movimento em torno dos NFTs começará a desaparecer. Os colecionáveis ​​digitais são valiosos por causa da escassez, mas agora o mercado está saturado deles, coloca a pesquisadora. Também são a parte visível do iceberg, ainda tem muito por vir.

Biologia sintética

“Precisaremos definir o que é “real”, disse Amy Webb.

Os avanços da biologia sintética passam por muitos avanços: microchips que estão sendo feitos com DNA para prolongar a vida, marketing exclusivo aos usuários com base no DNA e até a recomendação personalizada para o uso de drogas recreativas a partir do DNA. 

Agora, além de hardware e software, temos wetware (a parte biológica). Podemos usar isso para criar sonhos sob demanda e fazer com que as pessoas queiram comprar depois de dormir.

Também podemos usar bioreatores para criar carne de frango livre de hormônios e alimentar todo o mundo – Cingapura já está vendendo frangos criados a partir de células-tronco.  

As grandes empresas de tecnologia, Microsoft, Google e Facebook, estão trabalhando em biologia, disse Webb. Existe um potencial enorme de produtos que podem ser feitos a partir do DNA.

E o futuro?

Estamos em um período de aceleração, ela disse, e por isso precisamos agir. Depois de entregar o cenário, ela finaliza: “você constrói o futuro todos os dias com suas escolhas. E cada escolha é a oportunidade de fazer um futuro melhor.

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Open banking: O que é, como funciona e por que pode baratear produtos financeiros

O sistema parte da premissa de que os dados sobre sua vida financeira pertencem ao próprio cliente e, assim, podem ser divididos com quem ele autorizar

Por Mariana Ribeiro – Valor – 10/03/2022 

O “open banking”, ou sistema financeiro aberto, é uma das principais apostas do Banco Central (BC) para ampliar e baratear a oferta de produtos financeiros no país. O projeto ainda dá os seus primeiros passos, mas a expectativa é que aos poucos ganhe tração e comece a fomentar mudanças mais profundas no mercado.

Parte da “Agenda BC#”, conjunto de propostas de modernização do sistema financeiro em implantação pela autoridade monetária, o open banking foi lançado em 1º de fevereiro de 2021. Seu primeiro ano de existência foi bastante focado em implementação. O processo foi feito em fases e algumas delas seguem em execução.

Aqui, o Valor explica o que é open banking, quando ele se torna “open finance”, quais efeitos ele deve ter sobre instituições participantes e consumidores e os desafios para que se popularize no país.

O que é open banking?

O open banking é a possibilidade de clientes de produtos e serviços financeiros, sejam pessoas físicas ou jurídicas, permitirem o compartilhamento de suas informações entre diferentes instituições.

O projeto parte da premissa de que os dados sobre sua vida financeira pertencem ao próprio cliente e, assim, podem ser divididos com quem ele autorizar. O compartilhamento é gratuito.

Por exemplo, um cliente que queria contratar um empréstimo poderá enviar seu histórico de uma instituição com a qual já mantém relacionamento para outra com facilidade. A meta, no entanto, é que com o tempo o sistema vá além e que as possibilidades de troca de informações permitam o desenvolvimento de novos modelos de negócio no país.

O que o projeto promete?

O open banking parte de um diagnóstico: o fato de uma instituição não ter acesso ao histórico de determinado cliente com outra dificulta a oferta de produtos e serviços mais competitivos. Assim, entre as principais promessas do sistema está justamente o aumento da competição.

A ideia é que, com o compartilhamento das informações, instituições possam fazer diferentes ofertas para clientes de seus concorrentes. O objetivo é que isso se reflita em melhores tarifas e condições, por exemplo. É esperado que haja também aumento das ofertas customizadas, além do incentivo à criação de novos produtos e serviços.

A Estrutura de Governança do open banking, que reúne entidades de classe das instituições participantes, lista ainda vantagens como empoderamento do cliente; incentivo à modernização do sistema financeiro; garantia da padronização do compartilhamento de dados e serviços entre instituições financeiras e menores custos.

Quais são as fases do open banking e quando ele se torna open finance?

Por se tratar de um projeto complexo, o open banking está sendo implementado em fases. Dentro de cada uma das etapas há escalonamentos e algumas delas ainda não foram totalmente concluídas.

Fase 1: Foi lançada em 1º de fevereiro de 2021 e começou com os bancos disponibilizando informações padronizadas sobre seus canais de atendimento e as características de produtos e serviços bancários tradicionais. Dados de clientes ficaram de fora nesse primeiro momento.

Fase 2: Foi lançada em agosto de 2021 e deu início ao compartilhamento de dados cadastrais e transacionais de clientes, envolvendo contas, cartão de crédito e produtos de crédito contratados. A troca de informações entre instituições só pode ser feita sob expressa autorização do cliente.

Fase 3: Começou em outubro de 2021 e teve como principal novidade a implementação da figura do iniciador de transações de pagamento. Isso permite ao usuário fazer movimentações de sua conta fora do ambiente do banco, a partir de diferentes plataformas. A implementação foi gradual e começou com o Pix.

Essa fase também prevê a entrada em vigor da modalidade de encaminhamento de proposta de crédito em 30 de março de 2022. Por meio dela, clientes poderão solicitar propostas a várias instituições de uma vez.

Fase 4: É quando surge o conceito do “open finance”. Lançada em dezembro de 2021, essa etapa expande o compartilhamento de informações para produtos não bancários, como investimentos, previdência, seguros e câmbio. Primeiro, as instituições compartilharam informações padronizadas de seus produtos. A partir de 31 de maio de 2022, começa a troca de dados do cliente, também sob expressa autorização dele.

Como é feita a troca de informações?

A partir da permissão do cliente, as instituições se conectam diretamente às plataformas de outras participantes e acessam os dados autorizados pelos clientes. O BC afirma que todo esse processo é feito “em um ambiente seguro” e que a permissão poderá ser cancelada pela pessoa sempre que ela quiser.

A troca de informações pelas instituições participantes é feita de forma padronizada por meio de APIs (interfaces de aplicação). São o “idioma” por meio do qual elas conversam e compartilham dados entre si.

Quais são as medidas de segurança?

O primeiro ponto importante em relação à segurança é que o compartilhamento de dados do cliente entre instituições só pode ser feito com a sua autorização. Há etapas de consentimento, autenticação e confirmação. Além disso, as trocas são regidas pela lei do sigilo bancário e pela lei geral de proteção de dados (LGPD).

A Estrutura de Governança do open banking explica que as instituições participantes devem cumprir uma série de requisitos para garantir a autenticidade, a segurança e o sigilo das informações compartilhadas. Há regras específicas, por exemplo, para responsabilização da instituição e de seus dirigentes.

O BC, a quem cabe a supervisão do processo, destaca ainda que os compartilhamentos ocorrem em um ambiente “com diversas camadas de segurança”, com autenticação do consumidor e das instituições participantes.

Como está a adesão?

Até janeiro de 2022, a autoridade monetária havia registrado 3,3 milhões de consentimentos de clientes para compartilhamento de dados.

Desde o seu lançamento, tem crescido o número de APIs realizadas, ou seja, de interações de troca de informações entre as instituições. Em novembro, foram 12,7 milhões; em dezembro, 84,4 milhões; e em janeiro, 98,6 milhões.

Até o momento, são 821 instituições participantes, sendo 158 transmissoras e receptoras e 663 participantes de demais etapas.

Quais os desafios para a sua popularização?

O primeiro ano do open banking exigiu grandes esforços de implementação por parte das instituições participantes, principalmente na área de tecnologia. O cronograma precisou ser alterado algumas vezes e é possível que isso volte a acontecer em 2022, já que as fases continuam sendo executadas.

A expectativa é que efeitos mais concretos do sistema comecem gradativamente a ser sentidos daqui para frente, embora de forma ainda incipiente.

Para especialistas, um dos grandes desafios à frente é o de comunicação. Isso porque, para que a iniciativa tenha sucesso e possa incentivar a criação de novas soluções, é preciso que o cliente, a quem cabe autorizar o compartilhamento das suas informações, enxergue benefícios na adesão, confie no sistema e aprenda a usá-lo de forma segura.

Há ainda um desafio ligado ao desenvolvimento de produtos e serviços a partir o open banking. Ou seja, é preciso que o mercado se dedique à criação de novas soluções que tragam benefícios ao sistema e ao usuário.

O modelo brasileiro foi inspirado no desenho do Reino Unido, mas tenta evitar alguns problemas verificados lá. Aqui, por exemplo, há um padrão para as APIs. Recentemente, o modelo britânico foi criticado por Anne Boden, fundadora e CEO do banco digital Starling. Ela afirmou, durante audiência no Parlamento britânico, que a iniciativa fracassou porque não houve demanda de consumidores e nenhuma instituição conseguiu criar um modelo de negócios lucrativo.

https://valor.globo.com/financas/noticia/2022/03/10/open-banking-o-que-e-como-funciona-e-por-que-pode-baratear-produtos-financeiros.ghtml

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‘A economia prateada já move R$ 1,6 tri por ano’, diz presidente do Sebrae-SP

Em entrevista ao ‘Estadão’, Wilson Poit fala sobre o potencial econômico do grupo de pessoas acima de 60 anos

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo 19 de dezembro de 2021 

Apenas entre 2012 e 2021, 12,2 milhões de brasileiros ingressaram no grupo de pessoas com 60 anos ou mais. A expectativa é que esse crescimento seja ainda mais acelerado nos próximos anos com o maior envelhecimento da população brasileira. Hoje esse grupo soma mais de 37 milhões de pessoas. Mas, apesar do crescimento, essa população não tem sido atendida de forma satisfatória, diz o presidente do Sebrae-SP, Wilson Poit.

Hoje, afirma ele, a chamada “economia prateada” já movimenta R$ 1,6 trilhão por ano. Mas o valor poderia ser muito maior. “Temos pesquisas que mostram que esse grupo de pessoas está descontente com os produtos e serviços destinados a elas.” No caso da moda, exemplifica ele, ou as roupas são jovens demais ou velhas demais. Não há um meio termo. “Notamos que as empresas no Brasil ainda têm uma cultura muito baseada no culto à juventude, seja no comercial de TV, na propaganda ou nas mídias sociais. Veja a seguir, trechos da entrevista:

ctv-tcn-wilson-poitAs empresas ainda têm culto excessivo à juventude, afirma Poit Foto: Taba Benedicto/Estadão

O que é economia prateada?

Estamos falando de um mercado muito grande que envolve a população com mais de 60 anos de idade e não quer mais ser chamada de idosa. Trata-se da longevidade ativa, um mercado enorme e que não é muito explorado no Brasil, apesar do envelhecimento da população. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que desde a década de 50 essa faixa etária vem crescendo de forma importante (só entre 2012 e 2021, 12,2 milhões de pessoas entraram para esse grupo). E esse movimento vai continuar em alta. Aquela pirâmide que, nos meus tempos, mostrava um país jovem mudou. Agora é um país que está envelhecendo com pessoas que vão viver mais tempo. A longevidade não é só ter mais saúde e mais atividade. Esse público também consome produtos e serviços ligados à saúde e outras coisas.

Esse público não está sendo atendido?

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que essas pessoas – de um modo geral – têm poder aquisitivo um pouco maior. Pessoas com mais de 65 anos são 17% da fatia dos 5% mais ricos. E apenas 4% da grande fatia de 40% mais pobres. Temos estatísticas aqui no Sebrae que mostram que os mais velhos não estão satisfeitos com o mercado. Em São Paulo, vemos grandes shoppings para gatos, cachorros e pets em geral. Mas não há nenhum shopping center voltado para a economia prateada. Uma estatística da Hype60+ mostra que de cada 10 pessoas da economia prateada 6 estão descontentes com o mercado de moda. Ou elas acham as roupas jovens demais ou velha demais. Esse é um tipo de cliente que consome bem, tem autonomia de decisão e procura qualidade. Estamos falando de consumidores maduros, provedores de famílias, que definem um tipo de consumo e não gostam de ser tratados nem como millenials nem como idosos. É um mercado enorme para novos negócios e também para empresas já constituídas pensarem em produtos voltados para eles.

Não há iniciativa das empresas para atender esse mercado?

No Japão, onde tem muita gente com 100 anos ou perto de 100 anos, esse mercado é muito desenvolvido. Um exemplo prático é que há supermercados só para a economia prateada, com corredores mais largos e carrinhos com lupa. Precisamos de soluções para esses clientes. É preciso olhar as limitações desse público. Outra pesquisa da FGV mostra que 70% das empresas acham que os idosos não acompanham as transformações tecnológicas. No entanto, 90% desse pessoal tem smartphone e estão nas redes sociais. É uma oportunidade a ser explorada.

Qual o primeiro passo?

Acredito que é preciso pensar em programas de lazer, baseados em culturas, viagens e serviços para qualidade de vida. Esse pessoal é muito mais exigente quanto ao conforto na hora de comer, na hora de dormir, etc. São pontos de atenção para o setor empresarial, como alimentação fora de casa e turismo. Além das atividades físicas, é preciso pensar em serviços de acolhimento. Há o mercado de home care. Alguns fundos de investimentos compraram vários edifícios de flats em São Paulo para esse público específico, mas são poucas vagas. Hoje há pessoas que querem colocar o pai, a mãe ou querem morar num lugar com acesso à academia, tecnologia e fisioterapia, mas não conseguem vagas. Estão lotados. Acredito que também há espaço para negócios ligados à educação tecnológica desse grupo de pessoas. Às vezes eles têm um pouco mais de dificuldade para entender os aplicativos e acabam recorrendo aos netos. De novo, países como Japão e alguns da Europa são exemplos porque eles têm uma cultura voltada para esse público.

No Brasil, estamos distantes disso?

Notamos que as empresas no Brasil ainda têm uma cultura muito baseada no culto à juventude, seja no comercial de TV, na propaganda ou nas mídias sociais. Então o primeiro passo para qualquer empresa é olhar para esse público e descobrir o que pode oferecer para ele. Perguntar para essas pessoas, fazer pesquisa ou procurar pesquisas que estão sendo feitas sobre o assunto. É uma parcela da população que tem uma forte vontade de consumir. Guardou dinheiro e está aposentado. São pessoas que conquistaram coisas e querem desfrutar mais o momento. Lógico que o Brasil é um país de muita desigualdade. Estamos falando aqui daqueles que têm acesso e não são bem atendidos.

Além do Japão, que outros locais são exemplo na economia prateada?

Japão, França, uma pequena região da Costa Rica e Califórnia. Nesses países as empresas já têm um olhar mais profundo e percebem como atender as pessoas dessa faixa etária. Aqui temos um mercado que não conseguiu atender plenamente esse público e tem uma dificuldade em entender quem são essas pessoas e onde estão. São lacunas de mercado que podem virar oportunidades de negócios para satisfazer esse público.

O sr. disse que as empresas têm um culto à juventude…

Isso é bom também. Se vamos viver mais, os jovens têm de cuidar mais da saúde. Todos querem viver uma longevidade ativa. Mas é uma oportunidade a ser ocupada. Acabou aquela imagem de que esse público da economia prateada quer ficar em casa, aposentada e com pouca atividade. Isso está ultrapassado. Cada vez mais esse pessoal quer consumir produtos e serviços relacionados com os tempos atuais e querem se atualizar. Essas pessoas têm uma conexão com tecnologia, usam celular, computador e querem sair, querem ter uma vida social, querem ter lugar de encontro, querem se vestir bem. Podem consumir uma infinidade de produtos e serviços. Aqui no Sebrae estamos bem atentos a esse mercado. Temos vários cursos disponíveis e gratuitos para os 60+ que queiram virar empreendedores. Podem trabalhar em casa.

Qual o potencial desse mercado?

A economia prateada já movimenta no Brasil R$ 1,6 trilhão por ano. Esse mercado, por exemplo, está se duplicando. O Brasil está ficando mais velho. É um assunto que temos acompanhado bastante. Esse valor poderia ser muito maior porque há pessoas descontentes com os produtos oferecidos. Na retomada econômica, pós-covid, as empresas precisam e podem faturar mais.

Alguma empresa no Brasil já despertou para isso?

Já vi uma ou outra. Mas há até dificuldade para encontrar modelos para fazer fotos e propaganda. Tem gente muito bem de forma física. Muita gente correndo maratona.

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Urban living labs: quando a inovação aberta chega às cidades

Clayton Melo – Fast Company Brasil 03.03.2022

Na era da economia do conhecimento, não tem escapatória: é inovar ou inovar. E hoje essa busca passa, necessariamente, pela colaboração, pelo compartilhamento de experiências e por colocar o cliente no centro. Prova disso é que a inovação aberta conquistou o mercado nos últimos anos, com inúmeros programas que conectam empresas e startups para desenvolvimento de produtos e serviços.

O conceito de open innovation, criado por Henry Chesbrough, professor de da universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, já está bem amadurecido no setor privado. Mas tem um desdobramento relativamente novo que merece ser observado, especialmente por conta do impacto social e econômico que pode gerar. Estou falando da aplicação da inovação aberta no contexto das cidades por meio dos chamados urban living labs.  

Os laboratórios vivos urbanos são ecossistemas de inovação aberta centrados no usuário que têm a cidade como campo de testes. É mais ou menos como usar áreas urbanas para desenvolver MVPs de projetos pensados para resolver problemas diversos, como mobilidade, segurança, energia e meio ambiente. Da mesma forma que o conceito convencional de inovação aberta aplicado às empresas, ele acelera o desenvolvimento de tecnologias e reduz os custos dos projetos urbanos, com a vantagem de contar com a inteligência coletiva advinda da aproximação entre poder público, organizações, universidades, startups e cidadãos.   

OS LABORATÓRIOS VIVOS URBANOS SÃO ECOSSISTEMAS DE INOVAÇÃO ABERTA CENTRADOS NO USUÁRIO QUE TÊM A CIDADE COMO CAMPO DE TESTES.

O processo de um urban living lab cumpre algumas etapas. O ciclo começa com um diagnóstico dos desafios de inovação de uma determinada região. Após discussões entre os diversos atores sociais envolvidos, esses desafios são selecionados e abre-se uma chamada pública para inscrição de projetos que buscam solucionar os problemas listados. Geralmente, essas chamadas contam com a participação de startups, empresas e ONGs, por exemplo. Um ponto central em toda essa jornada é a participação efetiva da administração pública, pois a viabilidade de uma proposta depende de recursos e autorizações para intervenções no espaço público. 

A fase seguinte é a de desenvolvimento. É neste momento que as soluções são testadas na vida real – em um bairro, por exemplo, em contato direto com a população. Os projetos-piloto são monitorados e avaliados a partir de uma série de indicadores de desempenho. Os protótipos validados chegam à etapa final, que é a da escalabilidade. Nesta fase, são criadas estratégias para sua aplicação em mais áreas do município, ou até mesmo na cidade toda, dependendo do caso. 

Cases dentro e fora do Brasil

Existem experiências inspiradoras de urban living labs no mundo – e também no Brasil. No exterior, um dos cases mais reconhecidos é o do Barcelona Living Lab, iniciativa do conselho municipal que oferece a cidade para que startups e empresas apliquem projetos-piloto. Se validados, eles podem ser escalados em outros lugares. Entre as soluções testadas estão um método de gerenciamento de coleta de lixo, um mecanismo de iluminação inteligente e equipamentos para monitoramento e carregamento de carros elétricos. 

Outro exemplo é o Living Lab de Matosinhos, município que fica no norte de Portugal. O objetivo lá é criar um bairro carbono-zero, com a formação de um mercado local de carbono no qual os moradores são recompensados por terem hábitos de mobilidade mais sustentáveis. Pela iniciativa, a cidade se abre para testes de tecnologias inteligentes nas áreas de mobilidade, energia, construção civil e arquitetura. 

O LIVING LAB DE FLORIANÓPOLIS FOI LANÇADO EM 2018, COM METODOLOGIA DESENVOLVIDA PELO GRUPO DE PESQUISA VIA ESTAÇÃO DO CONHECIMENTO, DA UFSC.

“Este programa envolve o município, as empresas, os operadores de mobilidade, as comunidades e os cidadãos na construção de novos modelos de mobilidade que evitem emissões e que sejam adequados a quem vive e trabalha no município”, diz o site da prefeitura local. “Trata-se de um palco de cocriação e inovação aberta de produtos, serviços, software, hardware e intervenções urbanas de baixo carbono, onde interagem municípios, centros de conhecimento, empresas, empreendedores e cidadãos”. Em 2018, o projeto venceu o Prêmio Europeu de Promoção Empresarial, concedido pela Comissão Europeia.

No Brasil, uma das cidades que apostam nesse caminho é Florianópolis.  O living lab da capital catarinense foi lançado em 2018 pela Rede de Inovação de Florianópolis, uma parceria entre a prefeitura, a Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) e a Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (Acif). Entre as propostas selecionadas estão soluções voltadas a carros elétricos, hortas urbanas, automatização do fornecimento de energia e atendimento a combate a incêndios, entre outros. O programa contou com metodologia desenvolvida por um grupo de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, o Via Estação do Conhecimento. 

Essas e outras iniciativas do gênero indicam um caminho promissor de modernização da administração pública. Valendo-se dos princípios da inovação aberta, os urban living labs colocam o poder público como um articulador e um fomentador dos stakeholders locais em busca de inovação para resolver problemas reais das cidades. E o principal: colocam o cidadão no centro do processo, testando, avaliando e ajudando a construir as soluções que afetam diretamente a sua vida. 

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Clayton Melo é jornalista, cofundador da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital em áreas como inovação, tecnologia, negócios sociais e cenários futuros. Foi curador do Festival Path, de inovação e criatividade, e atuou em redações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e Meio e Mensagem. 

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