Paul Krugman: O mundo está ficando menos globalizado

Por Paul Krugman – NYT/Estadão – 08/09/2022 

Podemos estar vendo os primeiros indícios de um recuo parcial da globalização, e isso não é necessariamente uma coisa boa

Lembram-se das guerras comerciais de Donald Trump? Na verdade, muitas das tarifas impostas por Trump ainda estão em vigor apenas, eu suspeito, porque Joe Biden não quer dar aos republicanos uma desculpa para que o acusem de ser brando com a China. Mas, de qualquer forma, as questões comerciais estão sendo ofuscadas por tudo, desde a inflação até a guerra na Ucrânia.

Sob o radar, no entanto, parte do que Trump queria, mas não conseguiu – um retorno da fabricação aos Estados Unidos – pode realmente estar acontecendo sob seu sucessor. Uma recente análise da Bloomberg encontra uma enorme onda de palavras-chave do economês como onshoring, reshoring e nearshoring, todos indicadores de planos para produzir nos Estados Unidos (ou possivelmente em países próximos) e não na Ásia.

Também houve uma enxurrada de notícias, apoiadas por alguns dados inconsistentes, sugerindo que as empresas realmente estão construindo novas fábricas nos Estados Unidos e em outros países de alta renda.

Portanto, podemos estar vendo os primeiros indícios de um recuo parcial da globalização. Isso não é necessariamente uma coisa boa, o que é assunto para outro dia. Por enquanto, vamos falar sobre por que isso pode estar acontecendo.

A primeira coisa a saber é que, se virmos algum declínio no comércio mundial nos próximos anos, não será a primeira vez que isso acontecerá. É comum supor que o mundo está cada vez menor, mais “plano”, que a crescente interdependência internacional é uma tendência contra a qual não se poder lutar. Mas a história diz o contrário.

Na verdade, a economia mundial foi surpreendentemente integrada às vésperas da 1ª Guerra. Em “As Consequências Econômicas da Paz”, John Maynard Keynes escreveu sobre o “episódio extraordinário” que ele afirmou ter terminado em agosto de 1914 – uma era em que “o habitante de Londres poderia encomendar por telefone, tomando seu chá matinal na cama, os vários produtos de toda a terra, na quantidade que lhe aprouvesse, e razoavelmente esperar a entrega antecipada à sua porta”.

E essa primeira era da globalização, de fato, retrocedeu após a Grande Guerra. As estimativas do comércio mundial total – exportações mais importações – como porcentagem do produto interno bruto para anos selecionados desde 1913 mostram isso. Houve um grande declínio no comércio entre o início da 1ª Guerra e as consequências da 2ª Guerra. A recuperação levou muito tempo: até 1980, o comércio dificilmente era maior, em relação à economia mundial, do que havia sido no final da era eduardiana.

O que se seguiu, no entanto, foi de fato um salto sem precedentes no comércio, às vezes chamado de “hiperglobalização”. Esta foi a era descrita no famoso livro do meu colega Tom Friedman, “The World Is Flat” (O mundo é plano), publicado pela primeira vez em 2005; muitas pessoas esperavam que o comércio crescente continuasse indefinidamente.

Na verdade, porém, a hiperglobalização parou por volta de 2008; o comércio internacional como parte da economia mundial tem estado mais ou menos estável por 14 anos. E há três razões para acreditar que a globalização realmente recuará nos próximos anos, embora provavelmente não na medida em que ocorreu nos anos entre guerras.

A primeira razão, a mais benigna, é a ascensão dos robôs – com isso me refiro à tecnologia que economiza mão-de-obra em geral. As pessoas geralmente assumem que melhorias na tecnologia de transporte significam necessariamente mais comércio. Mas isso só é verdade se o progresso no transporte for mais rápido que o progresso na tecnologia de produção. Eu escrevi um pequeno modelo sobre isso alguns anos atrás, mas aqui está um reductio ad absurdum: imagine que todos nós tivéssemos acesso aos replicadores em Jornada nas Estrelas – máquinas que sintetizariam qualquer coisa que você quisesse na hora. Se tudo o que você tivesse que fazer fosse dizer “Chá, Earl Grey, quente” e uma xícara fumegante se materializasse, você não precisaria importar as coisas do Sri Lanka.

De fato, as empresas que falam em reordenar a produção muitas vezes afirmam que técnicas modernas, em alguns casos, permitem que produzam com relativamente poucos trabalhadores, caso em que as economias de custos da terceirização para países de baixos salários são mínimas – e são superadas pelas vantagens logísticas de produzir perto de casa.

Uma segunda razão, menos benigna, para o declínio da globalização é a crescente percepção de que o mundo é um lugar perigoso. É especialmente perigoso permitir-se depender economicamente de países com regimes autoritários, que podem subitamente interromper as relações como parte de um jogo de poder ou simplesmente porque os ditadores tendem a se comportar de forma errática. A Europa está percebendo agora que tornar-se dependente do gás natural russo foi um erro terrível. A China não se envolveu em chantagem econômica – ainda não, pelo menos – mas tanto o exemplo russo quanto a arbitrariedade dos lockdowns por causa da covid de Xi Jinping deixaram as empresas temerosas sobre depender de fornecedores chineses.

Aliás, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio – o documento fundamental para o moderno sistema de comércio mundial – dá explicitamente a cada nação o direito de tomar “qualquer ação que considere necessária para a proteção de seus interesses essenciais de segurança”. Esse direito às vezes foi abusado – Trump, de forma absurda, invocou a segurança nacional para impor tarifas ao alumínio canadense – mas, dados os eventos recentes, é difícil negar o sucesso de políticas como o Science Act que subsidiam a produção de semicondutores nos EUA.

Finalmente, vamos admitir: agora que os Estados Unidos estão finalmente fazendo algo sobre as mudanças climáticas, algumas das políticas que estão introduzindo serão, na prática, pelo menos levemente protecionistas. O novo crédito fiscal para compras de veículos elétricos se aplicará apenas a veículos montados na América do Norte.

Por que fazer isso? Política – política por uma boa causa, eu diria, mas política mesmo assim. Conseguir uma ação climática foi um grande impulso político; alguns de nós ainda estão se beliscando para saber se realmente aconteceu. Mas, para vendê-lo, os democratas precisavam ser capazes de mostrá-lo como um programa que criaria empregos, o que significava incluir cláusulas de compra de produtos americanos.

Essas cláusulas violam os acordos comerciais existentes? Possivelmente. Mas vamos encarar os fatos: honrar a carta de acordos comerciais é menos importante do que salvar o planeta. Se é isso que é necessário para combater as emissões de carbono, que assim seja. Mas voltando ao meu tema original: por essas e outras, parece provável que estejamos prestes a ver algum recuo da globalização.

Paul Krugman é Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2008, e colunista do The New York Times

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Dessalinização: solução para a escassez de água?

A tecnologia pode ser a chave para evitar uma crise hídrica global, mas ainda existem algumas grandes questões


Kiran Tota Maharaj – Fast Company Brasil 15-09-2022 | 

Água doce e limpa é fundamental para sustentar a vida humana. No entanto, 1,1 bilhão de pessoas ao redor do mundo não têm acesso a este recurso natural. A dessalinização – processo de extração de sal da água do mar para torná-la potável – vem cada vez mais ganhando destaque como uma solução para o problema.

Existem dois tipos principais de dessalinização. A térmica usa o calor para transformar a água em vapor, separando-a dos sais minerais. Esse processo continua dominante em todo o Oriente Médio, onde quase metade da água dessalinizada do mundo é produzida. 

O segundo é a dessalinização por membrana, comumente chamada de osmose reversa. Este processo é utilizado em 60% das usinas em todo o mundo. Sob alta pressão, a água salgada passa por uma membrana semipermeável, cujos poros são pequenos demais para a passagem das moléculas de sal.

ONDE A DESSALINIZAÇÃO É USADA?

A dessalinização é usada para levar água potável a lugares onde não há uma fonte natural disponível. Portanto, regiões com escassez de água são bastante dependentes da tecnologia. Nos Emirados Árabes Unidos, a dessalinização é responsável por atender 42% da demanda.

Devido ao baixo custo de bombeamento, esse processo é mais econômico em regiões costeiras. No entanto, as mudanças climáticas estão agravando a escassez de água em áreas tipicamente amenas, exigindo a expansão de usinas de dessalinização para o interior. A China, os EUA e a América do Sul estão investindo para aumentar sua capacidade de dessalinização.

POR QUE ELA CONTINUA TÃO CARA?

Grandes quantidades de energia são necessárias para conduzir o processo. Em especial para a dessalinização térmica, cujos custos de energia representam até metade do custo total de produção de uma usina.

O processo de osmose reversa, em geral, utiliza menos energia. No entanto, isso não ocorre quando a água é altamente salina, já que requer mais pressão para fazer com que ela passe através da membrana.

Além disso, fontes de água com níveis altos de poluição precisam ser tratadas antes da dessalinização, o que exige uma infraestrutura cara, como tanques de sedimentação e sistemas de filtragem. O tratamento evita o acúmulo de detritos nas superfícies da membrana, que podem atrapalhar o processo de osmose reversa.

Cerca de 1,1 bilhão de pessoas em todo o mundo não têm acesso a água potável.

Os custos serão ainda maiores com o aumento da dependência da dessalinização e com a aplicação do processo em fontes de água poluída. O estado da Califórnia, que enfrenta um clima mais seco, agora tem 23 usinas.

A produção de um litro de água potável gera 1,6 litros de salmoura, um resíduo altamente salino. Os depósitos de salmoura no fundo do mar podem levar à destruição dos ecossistemas marinhos, já que o material reduz o teor de oxigênio da água.

O descarte seguro de salmoura é caro. A maior parte é bombeada de volta ao mar e está sujeita a padrões de qualidade ambiental. Caso eles não sejam alcançados atenda, é necessário tratamento adicional.

A salmoura pode ser tratada em lagoas de evaporação ou diluída antes de ser descartada. Mas o custo elevado continua sendo um enorme obstáculo para uma aplicação mais ampla da dessalinização.

O PROCESSO PODE FICAR MAIS BARATO?

Diminuir a quantidade de energia no processo pode resultar em consideráveis ​​reduções de custos. Atualmente, estão sendo desenvolvidas tecnologias como osmose direta, que permitem que a dessalinização ocorra em temperatura e pressão mais baixas.

Embora promissoras, essas tecnologias ainda estão em estágio inicial. O mercado é pequeno e existem poucas instalações comerciais. Serão necessários mais desenvolvimentos para garantir que esses processos possam produzir água potável em escala comercial.

Apesar da crescente insegurança hídrica, a dessalinização continua sendo um processo caro demais para uso generalizado.

Membranas mais duráveis ​​também podem ajudar a reduzir o custo da dessalinização. Usando diferentes materiais, fabricantes japoneses construíram membranas que retém com sucesso partículas de sal em baixas pressões operacionais. Isso reduz o custo de substituição de membranas e a quantidade de energia do processo.

A dessalinização também poderia ser feita com fontes mais baratas de energia renovável. A energia solar térmica gera calor direto e pode ser usada para evaporar a água do mar. Ainda em construção na Arábia Saudita, a usina solar Metito terá inicialmente capacidade para produzir 30 mil metros cúbicos de água potável por dia.

No entanto, esta é uma tecnologia repleta de complexidades. O fornecimento de energia é inconsistente e o armazenamento é caro, o que dificulta uma aplicação mais ampla. Isso torna os projetos de dessalinização solar incapazes de produzir água potável para uso comercial.

Apesar da crescente insegurança hídrica em todo o mundo, a dessalinização continua sendo um processo caro demais para uso generalizado. Vários esforços foram feitos para reduzir seu custo, e muitos se mostraram promissores. Mas a evolução tecnológica demora e levará décadas até que seja viável uma adoção mais ampla da dessalinização.


SOBRE O AUTOR

Kiran Tota-Maharaj é professor associado de Engenharia Civil e Ambiental na Aston University.

https://fastcompanybrasil.com/impacto/dessalinizacao-solucao-para-a-escassez-de-agua/

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Os trabalhadores que se aproveitam do home office para acumular empregos em segredo

Bryan Lufkin BBC Worklife 19 outubro 2021

Dois endereços de e-mail profissionais, dois computadores, dois patrões?

Com o aumento do trabalho remoto nos últimos dois anos, cada vez mais pessoas vêm silenciosamente assumindo dois cargos em tempo integral, se aproveitando do fato de estarem longe dos olhos dos seus superiores.

O esquema do chamado home office permitiu que eles trabalhassem secretamente em dois empregos remotos ao mesmo tempo — e alguns trabalhadores estão ganhando centenas de milhares de dólares a mais por ano.

Um emprego adicional pode ser uma mão na roda como fonte extra de renda e experiência , que são ferramentas importantes em uma era de desemprego em massa, incerteza econômica e contínua depreciação do bem-estar no trabalho.

Entretanto, trabalhar em mais de um emprego por tempo integral é uma escolha ousada — é preciso ser discreto e estar disposto a correr riscos.

Alguns trabalhadores estão se arriscando com duplo emprego para recuperar a sensação de controle, ou para desafiar um sistema no qual, segundo acreditam, foram explorados por anos.

 

O desenvolvimento do sistema

Não é incomum encontrar pessoas empregadas em tempo integral fazendo bicos adicionais para complementar sua renda: como motorista de Uber após o expediente, vendendo joias no (site de produtos artesanais) Etsy ou montando móveis no fim de semana como “faz-tudo” do (site que intermedia trabalhos domésticos) TaskRabbit. Mas o “duplo emprego” é diferente: um mesmo funcionário poderá ter empregos em tempo integral separados e simultâneos, usando computadores diferentes.

O duplo emprego não é um fenômeno totalmente novo.

Ele é um “segredo aberto” na indústria de tecnologia há anos, segundo um trabalhador em duplo emprego, de pouco menos de 40 anos de idade, na região da Baía de San Francisco, nos Estados Unidos, conhecido como “Isaac” na comunidade de duplo emprego. Ele vem trabalhando em dois empregos há anos e diz que ganha mais de US$ 600 mil (R$ 3,3 milhões) por ano com eles.

Em abril de 2021, Isaac lançou o website Overemployed, com artigos sobre como navegar mantendo vários empregos remotos (a regra número 1? Não fale sobre manter vários empregos remotos). Ele conta que, nos últimos 20 anos, alguns trabalhadores exploraram nichos da indústria de tecnologia com trabalho remoto muito antes da pandemia. Agora que outros trabalhadores de diversos campos em todo o mundo tiveram a oportunidade de trabalhar em casa, evidências pontuais sugerem que mais pessoas estão explorando o estilo de vida oferecido pelo duplo emprego.

Isaac conta que o seu site tem visitantes de todo o mundo e abrange todas as idades, desde pessoas com pouco mais de 20 anos que estão apenas começando (já eventualmente com a possibilidade de trabalhar em dois estágios remotos ao mesmo tempo) até 60 anos e mais. Mas ele afirma que a maioria dos usuários tende a estar na faixa de 35 a 40 anos e idade, “já tem muita experiência e está um pouco cansada do mundo corporativo”.

Isaac afirma que, de forma geral, foi raro ouvir falar de alguém que tivesse sido descoberto durante a pandemia e antes dela. Ele diz que isso normalmente ocorre quando a pessoa é descuidada ao manter os dois trabalhos separados.

Para ele, o emprego duplo não significa necessariamente dias de trabalho excessivamente longos; os trabalhadores podem dedicar 30 horas por semana ao seu emprego original, por exemplo, e usar o tempo que seria preenchido por reuniões não obrigatórias ou usando a internet fora do trabalho para manter o segundo emprego.

É claro que, legalmente, o duplo emprego é uma situação delicada: sua possibilidade depende do tipo de contrato assinado com a empresa original e se este tem uma cláusula de não-concorrência. Ele pode ser visto como uma ação antiética, pois em geral o trabalhador está essencialmente mentindo (por omissão ou de outra forma) para o seu empregador “principal”.

Muitos veículos de imprensa classificaram essa “bigamia laboral” como desonesta e errada quando leitores escreveram pedindo conselhos se deveriam denunciar colegas em duplo emprego no trabalho.

Mas, se for possível fazer a combinação funcionar — tanto legalmente quanto em termos de logística —, então esses trabalhadores teriam, segundo Isaac, muito a ganhar.

 

‘Momento de ajustar as contas’

Para Isaac, a principal razão de assumir um segundo emprego secreto em tempo integral é a diversificação de fontes de renda. Mas ele acredita que o dinheiro não é o único motivo.

Catherine Chandler-Crichlow, diretora-executiva de gestão de carreiras da Faculdade de Administração Ivey, da Western University em Ontário, no Canadá, concorda que haja outros motivos.

“Como fomos forçados a trabalhar de casa, as pessoas provavelmente começaram a se perguntar: ‘Onde as minhas habilidades podem ser realmente otimizadas?’ ‘Quais são as minhas verdadeiras paixões — e como posso usar essas habilidades de forma diferente?'”, afirma ela.

Chandler-Crichlow, que se especializou no estudo do capital humano (as habilidades, competências e conhecimentos que os trabalhadores trazem para os seus empregos), afirma que esse conceito é muito relevante para a discussão do duplo emprego. Alguém pode ter, por exemplo, um emprego como analista financeiro, mas também gostar de fazer outras coisas, como programação ou escrever. A situação atual de trabalho remoto generalizado permite que esse analista encontre um emprego programando ou escrevendo e coloque essas habilidades em ação.

“Eu agora sou quem controla o que eu gostaria de fazer e onde gostaria de passar meu tempo”, afirma Chandler-Crichlow. Ela afirma que, para trabalhadores em grupos socioeconômicos inferiores, manter diversos empregos é um meio de sobrevivência. Mas a diferença é que “os profissionais que poderiam ser descritos como altamente capacitados estão assumindo um maior comando das suas carreiras”.

Erin Hatton, professor de Sociologia que estuda trabalho e emprego na Universidade Estadual de Nova York concorda. “Talvez [os trabalhadores estejam] tentando coisas novas. Acho que este é um momento de ajustar as contas com o mundo do trabalho e discutir o papel desempenhado pelo trabalho em nossas vidas.”

O duplo emprego pode “liberar as pessoas para talvez avaliar outros empregos; talvez conseguir trabalho adicional que pode não pagar bem, mas ser mais significativo para elas”, afirma Hatton.

Por isso, não é coincidência que cada vez mais pessoas estejam tentando coisas novas nos últimos meses. “Acho que a pandemia pode ter incentivado as pessoas a pensar mais profundamente no que elas passam a vida fazendo e concluir que provavelmente poderiam fazer mais com as suas vidas”, afirma Chandler-Crichlow.

Quando procuram o duplo emprego, mais trabalhadores parecem estar dizendo a si mesmos: “Sim, eu realmente quero usar as minhas habilidades e capacidades — e, se alguém quiser me pagar, eu vou fazer”, afirma ela.

 Protesto contra os empregadores

O fato de que as pessoas estão buscando o duplo emprego é também um indicativo de importantes questões sistêmicas dos locais de trabalho.

Por muito tempo, muitos trabalhadores consideraram seus empregos insatisfatórios ou sem sentido — gerando problemas como burnout (esgotamento profissional) e boreout (tédio no trabalho) — e sentem que buscaram constantemente o sucesso em um sistema que fornece poder desproporcional aos gerentes nas relações de trabalho. Esta pode ser uma das razões da popularização do duplo emprego, segundo os especialistas.

E os chefes que não perceberam o que esses trabalhadores estão fazendo, seria maus administradores? “Minha impressão é que eles simplesmente não têm sistemas disponíveis para vigiar os trabalhadores dessa forma”, afirma Hatton.

“Para muitos trabalhadores com salários baixos, tanto remotos quanto presenciais, há vários tipos de vigilância que impedem efetivamente esse tipo de duplo emprego. Veja os funcionários de call centers que trabalham remotamente, por exemplo — a tecnologia monitora o número de chamadas que eles fazem. Para os trabalhadores que normalmente [estariam] no local de trabalho e não são vigiados dessa forma, os gerentes simplesmente não têm um sistema instalado para monitorá-los”, afirma ele.

E como os empregadores estão reagindo? Segundo Chandler-Crichlow, há desde aqueles que não aceitam isso de forma alguma a companhias que, “de alguma forma, manifestam sua concordância, desde que (o duplo emprego) não prejudique suas responsabilidades na organização”.

Como trabalhador em duplo emprego e com base na atividade do seu website, Isaac afirma que um dos motivos para o segundo emprego secreto é a desilusão com as realidades da vida corporativa. Alguns trabalhadores acreditam que o duplo emprego os ajuda a livrar-se daquele empregador que não lhes deu aquela promoção ou aumento salarial que eles vinham buscando há anos.

“Existe uma percepção de que os nossos chefes são um pouco nossos donos e vejo esse movimento como uma reação interessante contra essa percepção normativa de propriedade”, segundo Hatton. “Imagina-se que nós realmente devemos alguma coisa a eles. Que nós somos deles. Mas, quando chega o momento, eles podem nos demitir amanhã sem nenhum motivo. (Esta situação nova) está retirando um pouco dessa sensação de poder.”

Depois de ter conseguido manter o emprego após uma onda de cortes na companhia em que trabalhava, Isaac tomou a resolução de que ele não seria mais um entre os muitos empregados anônimos.

“Vocês me tratam como um número, então vou tratar vocês como um número”, ele conta. Por isso, armado com dois laptops separados, ele trabalha em dois empregos diferentes, e ainda faz um bico em meio período. Ele diz que nunca sequer chegou perto de ser descoberto.

 O que acontece agora?

O duplo emprego pode estar chamando atenção, mas as pessoas que buscam o segundo emprego em segredo ainda são minoria — e essa iniciativa ainda carrega consigo muitos riscos.

Além disso, como o aumento do duplo emprego é relativamente novo, ainda há muita coisa que funcionários e empregadores ainda desconhecem.

Não está claro, por exemplo, como as companhias reagirão caso se sintam vulneráveis a esse tipo de situação. Talvez os gerentes passem a monitorar mais de perto a atividade dos funcionários nas redes sociais para encontrar algo que os incrimine ou venham a instalar software nas máquinas da companhia para detectar atividades suspeitas.

Mas, por enquanto, pelo menos até que sejam descobertos por seus supervisores, alguns trabalhadores abraçarão o duplo emprego

https://www.bbc.com/portuguese/geral-58953572

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A Europa sem gás olha para o Brasil

Crises hídricas vividas no país podem ajudar os europeus na formulação de saídas para a escassez do gás provocada pela Rússia

Por Alvaro Gribel – O Globo – 14/09/2022 

Os europeus querem aprender com o Brasil como enfrentar o período de racionamento de energia. É o que conta o consultor Luiz Augusto Barroso, da PSR Consultoria que tem sido chamado para conversas com autoridades da Comissão Europeia. Há várias semelhanças entre as crises hídricas vividas pelo país em 2001 e 2021 e a escassez de gás na Europa provocada pela Rússia. Segundo Barroso, uma das dificuldades dos europeus será a coordenação da crise. Se no Brasil houve centralização de comando pelo governo federal nas conversas com os governadores, por lá, os países têm soberania, ainda que no mesmo bloco econômico.

— O Brasil tem 27 estados, a União Europeia tem 27 países. A coordenação será muito mais difícil e já começamos a ver um clima de salve-se quem puder. Estamos falando de dois, talvez três invernos seguidos com problemas de fornecimento — afirmou.

A estratégia será a mesma: redução de consumo, geração de todos os tipos de energia, incluindo termelétricas a carvão, e manutenção dos reservatórios de gás. A diferença é que por aqui o governo podia torcer pelas chuvas — o que aconteceu em 2021 e evitou o pior cenário — mas faltou em 2001. Por lá, ao contrário, o gás só chegará de navio, transformado em gás natural liquefeito (GNL). E a oferta mundial é limitada.

Além disso, conta Barroso, desde a crise fiscal de 2010, quando Grécia, Portugal, Espanha e Itália entraram na mira dos investidores, há um forte rancor contra os alemães, que não facilitaram o socorro. Agora, acontece o inverso: o epicentro é a Alemanha, a maior economia do bloco e a mais dependente do gás da Rússia.

— O governo da Espanha, por exemplo, disse que não vai racionar energia para permitir o excesso de vida do Alemão. O pior é que a economia da Alemanha é ancorada na benesse do gás barato da Rússia para exportar produtos de alta tecnologia — afirmou.

Do ponto de vista geopolítico, os EUA saem em vantagem. O país virou o maior exportador mundial de GNL e, de janeiro a maio, aumentou em 66% as suas exportações para os europeus. Ou seja, a Europa está trocando a dependência da Rússia pela dependência americana.

O Brasil também pode sair ganhando. Com o aumento dos preços internacionais, o país pode ter uma enorme vantagem comparativa para atrair investimentos externos se conseguir desonerar a sua geração de energia.

— O preço lá fora está alto. E o Brasil hoje tem produção de vários tipos de energia, incluindo o gás. Se fizer o dever de casa, pode entregar energia barata para o consumidor industrial e atrair investimentos — afirmou

A guerra na Ucrânia está mudando rapidamente o mercado mundial de energia. O Brasil precisa acompanhar essas transformações.

https://oglobo.globo.com/economia/alvaro-gribel/coluna/2022/09/a-europa-sem-gas-olha-para-o-brasil.ghtml?li_source=LI&li_medium=news-page-widget

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É melhor dar ouvidos aos consumidores descontentes

Entenda de uma vez por todas por que as reclamações são importantes para melhorar a customer experience e fortalecer o negócio

André Schröder – MIT Sloan Review 06 de Junho 2022

Não é apenas para resolver problemas ou preservar a imagem da empresa. Escutar o que consumidores descontentes têm a dizer é uma ferramenta poderosa a favor do negócio. Quem ignora a dica arrisca perder fregueses – e, claro, dinheiro. Um relatório feito em 2021 pela empresa de pesquisas Hibou mostra que 53% dos brasileiros mudam de marca após um atendimento ruim. Mas o estrago não para por aí: 45% dos insatisfeitos falam sobre a experiência negativa para amigos e 16% compartilham o aborrecimento nas redes sociais, influenciando outras pessoas.

Guru do marketing, o professor Philip Kotler ensina que manter um cliente custa até sete vezes menos do que conquistar um novo. O problema é que muitas empresas ainda não aprenderam a lição. Segundo a 2020 Customer Rage Study Survey, pesquisa feita pela Customer Care Measurement & Consulting (CCMC), os Estados Unidos perderam 494 bilhões de dólares ao tratar de forma inadequada as reclamações.

No Brasil, o prejuízo estimado é bem menor. Mas ainda é expressivo. De acordo com a pesquisa Global Consumer Pulse, divulgada em 2018 pela Accenture Strategy, as companhias brasileiras têm pelo menos 400 milhões de reais de perdas anuais por causa do mau atendimento.

O brasileiro reclama

Em 2021, a Secretaria Nacional do Consumidor registrou 3,3 milhões de queixas de produtos e serviços no Brasil, somando números do portal Consumidor.gov.br e dos Procons estaduais e municipais. Bancos, financeiras e administradoras de cartão são responsáveis por 29% das reclamações na plataforma do governo, com um índice de soluções de 79,3% em sete dias. Empresas de telecomunicações representam 21% do total, com 89,3% dos casos resolvidos em até uma semana. O relatório destaca ainda que a quantidade de queixas no setor de seguros, capitalização e previdência cresceu 214,6% em relação ao ano anterior.

O Reclame Aqui – principal site de reclamações do país, onde 30 milhões de pessoas cadastradas podem avaliar o atendimento de 360 mil empresas – registrou mais de 5 bilhões de consultas em 2021. Com média diária de 45 mil novas reclamações, o site listou 78% das queixas como resolvidas. As lojas online ocuparam o topo do ranking de reclamações (22,6%), seguidas por bancos (11,6%) e empresas de delivery (7%).

Segundo o relatório “Justiça em Números 2021”, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o direito do consumidor é um dos temas mais recorrentes, o que sobrecarrega o sistema. Também é o assunto principal das turmas recursais dos Tribunais Estaduais.

A quantidade de queixas no país é elevada. E olha que uma pesquisa da FGV Direito Rio estima que apenas 38% dos brasileiros reclamam quando enfrentam problemas com produtos e serviços adquiridos.

E qual é o impacto das reclamações? Por um lado, elas ferem a reputação das empresas. No entanto, também são a chave para a solução de problemas. Basta que as organizações desenvolvam mecanismos para fazer bom uso das queixas. Ou seja, transformar as críticas de clientes insatisfeitos em insights na busca por inovação. É a velha história de “fazer do limão uma limonada”.

O cliente no centro da estratégia

A FGV aponta que o Brasil tem 242 milhões de smartphones. Contando notebooks e tablets, são 352 milhões de aparelhos portáteis, mais de um por habitante. A grande maioria dos brasileiros está conectada, o que tem feito o comércio online crescer em ritmo acelerado no país. Segundo dados da Neotrust, o e-commerce teve recorde de faturamento em 2021 — R$ 161 bilhões, um crescimento de 27% em comparação ao ano anterior. É nesse cenário de expansão digital que as empresas buscam maneiras apropriadas de lidar com os consumidores, mas o desafio é infindável diante de comportamentos e tecnologias em constante evolução.

Uma das principais tendências em comportamento do cliente é a estratégia Customer Centric — a experiência do consumidor no foco das decisões da empresa. Segundo especialistas da área, conhecer o cliente e propiciar uma experiência satisfatória ajuda a fidelizar o consumidor. Mas essa tática é complexa, pois envolve uma série de fatores:

  • Coletar e avaliar informações sobre o cliente
  • Transformar informações em insights
  • Integrar diferentes canais de atendimento
  • Ficar disponível 24 horas por dia
  • Desenvolver interações personalizadas
  • Garantir agilidade, velocidade e eficiência
  • Ouvir o que o cliente tem a dizer (incluindo reclamações!)

Na era atual, a satisfação do cliente passa pelo investimento em tecnologia capaz de oferecer certa autonomia ao atendimento. Os serviços bancários viveram uma revolução nesse sentido. É possível abrir conta, consultar saldo, realizar pagamentos e solicitar empréstimos por conta própria, na tela do smartphone, sem sair de casa nem interagir com atendentes. Ferramentas modernas permitem que empresas entreguem uma experiência melhor e instantânea na mão do cliente. Pouca gente acha que o serviço piorou diante de tanta facilidade.

A tecnologia também gerou avanços na relação de empresas e consumidores — e aqui podemos incluir as reclamações. Inteligências artificiais capazes de tirar dúvidas, solucionar problemas e aprender sobre os clientes são uma realidade consolidada. Os chatbots significam economia para as empresas e agilidade para os consumidores.

Entretanto, o robô só é bom quando consegue resolver o problema do consumidor. Sendo assim, é fundamental que as reclamações coletadas por esse tipo de tecnologia sejam avaliadas cuidadosamente pelas companhias. É uma oportunidade para conhecer as dores do cliente, solucionar os problemas, pensar em melhorias, propor inovações e prosperar no segmento.

Nubank, um case de sucesso

Criado há menos de 10 anos, o Nubank atingiu a marca de 59 milhões de clientes em 2022. O sucesso está ligado à oferta de serviços financeiros considerados disruptivos no setor bancário brasileiro — menos burocracia para abertura de conta, cartão sem anuidade, programa de fidelidade simplificado, navegação intuitiva pelo aplicativo e um atendimento empático, rápido e eficiente.

As avaliações positivas dos “brand lovers” não acomodaram o Nubank, que continua inovando para escutar cada vez mais os clientes — estejam eles descontentes ou não. Em 2019, o banco criou a NuCommunity, uma espécie de rede social onde clientes e até mesmo quem não é cliente podem criar fóruns para trocar experiências sobre os serviços da instituição. As conversas são acompanhadas por funcionários do banco e transformadas em insights. Hoje, a comunidade do Nubank conta com mais de 300 mil membros, muitos deles dispostos a se engajar de maneira orgânica nos debates criados na plataforma.

Para a instituição, a escuta ativa dos feedbacks de produtos e serviços impulsiona melhorias para esses mesmos consumidores. E a reclamação vira uma relação de “ganha-ganha”.

Autoria

André Schröder

Colaborador de MIT Sloan Review Brasil

https://mitsloanreview.com.br/post/e-melhor-dar-ouvidos-aos-consumidores-descontentes

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Pequim obriga empresas de tecnologia chinesas a revelarem seus algoritmos

Companhias tendem a manter seus motores para apps e serviços de internet em segredo

Folha 16.ago.2022

PEQUIM

Algumas importantes empresas de tecnologia chinesa como Tencent, Alibaba e a ByteDance, proprietária do Tiktok, entregaram detalhes de algoritmos usados em seus produtos a um regulador estadual. O gesto inédito faz parte da tentativa de Pequim de controlar o setor, anunciou o regulador.

De acordo com uma lei aprovada em março, as empresas devem garantir ao regulador chinês que seus algoritmos se enquadrem dentro do marco regulatório.

“No momento as autoridades não pediram explicitamente para que as empresas modifiquem seus algoritmos”, Angela Zhang, especialista em direito chinês na Universidade de Hong Kong, explica à AFP.

“Os reguladores, no momento, estão coletando informações”, acrescenta Zhang.

Por outro lado, a Administração do Ciberespaço da China publicou pela primeira vez na sexta-feira (12) detalhes do uso de seus algoritmos pelas empresas de tecnologia.

O líder do comércio online Alibaba recomenda, por exemplo, novos produtos com base no histórico de pesquisa e navegação dos usuários.

A Douyin, versão do aplicativo do TikTok para o mercado chinês, faz recomendações a partir do tempo que as pessoas gastam em cada conteúdo.

Com essas ferramentas é possível analisar grandes quantidades de dados sobre um usuário e automatizar recomendações de acordo com suas práticas ou hábitos.

Os algoritmos, base da economia digital, servem de motor para grande parte dos aplicativos e serviços da internet, razão pela qual as empresas tendem a mantê-los em segredo.

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Diante dessa opacidade de informações, as autoridades buscam redefinir a legislação de algoritmos.

Há dois anos, as autoridades chinesas têm sido particularmente intransigentes com o setor de empresas de tecnologia, que monitoram por meio de práticas até então amplas.

Várias grandes empresas foram multadas por abusos em termos de proteção de dados pessoais, concorrência e direito dos usuários.

No mês passado, a empresa Didi, líder em VTC (veículos com motoristas), foi multada em US$ 1,215 bilhão (R$ 6,1 bilhões) por violar as regras de proteção de dados.

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2022/08/pequim-obriga-empresas-de-tecnologia-chinesas-a-revelarem-seus-algoritmos.shtml

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Conheça oportunidades e tendências para investimentos ‘verdes’

Especialistas ouvidos pelo Prática ESG dizem que temas como créditos de carbono, bioeconomia e impacto social devem estar cada vez mais presentes nas discussões sobre dinheiro

Por Italo Bertão Filho — Para o Prática ESG/Valor 10/08/2022

Antes mesmo da pandemia, as cartas de Larry Fink, CEO da gestora BlackRock, que administra quase US$ 10 trilhões, convocavam o mercado de investimentos a embarcar de vez na temática ESG. Representaram um divisor de águas para temas como desenvolvimento sustentável, impacto social e economia de baixo carbono serem incorporados aos portfólios. Ainda que a combinação de resultados financeiros e retorno para a sociedade nem sempre seja compreendida pelo mercado, segundo especialistas ouvidos pelo Prática ESG, esses temas são tendências cada vez mais presentes nas discussões sobre dinheiro.

Exemplo disso está no relatório global de “supertendências” do banco Credit Suisse deste ano. Dos seis macrotemas em que os investidores devem ficar de olho na opinião dos analistas, dois estão diretamente relacionados a sustentabilidade – sociedades ansiosas e mudanças climáticas – e dois têm intrínseca relação, como infraestrutura e valores da geração do milênio.

Sem dúvida, um dos principais temas que rondam o noticiário desde a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26), em novembro do ano passado, é o mercado de carbono. Décadas após as primeiras discussões sobre o assunto, os países finalmente firmaram um compromisso para desestimular o uso de combustíveis fósseis e concordaram em criar um mercado global de carbono. Um passo adiante na regularização do mercado brasileiro foi dado em maio, com a publicação de um decreto que dá a partida para a precificação dos gases poluentes (GEE) e a criação de um mercado regulado de créditos aqui no país – com mais de uma década de atraso.

O potencial nacional é de até US$ 100 bilhões até 2030 em receitas vindas dos chamados créditos de carbono equivalentes, de acordo com estudo da consultoria WayCarbon e do ICC Brasil. A consultoria McKinsey estima que até 2030 a demanda por créditos voluntários, que não dependem de leis, pode atingir até US$ 2,3 bilhões no Brasil – hoje, o país emite menos de 1% desse potencial.

Brasil tem o maior potencial de investimento em bioeconomia do mundo e poderia usá-lo para gerar oportunidades sociais”

— Fernanda Camargo, sócia fundadora da Wright Capital

Apesar dos números promissores e do natural protagonismo que se espera, tendo em vista a quantidade de ativos ambientais, o mercado nacional de carbono ainda é incipiente tanto em volumes, quando comparado à Europa e Estados Unidos, quanto no interesse por parte do investidor, tendo em vista as dificuldades de regulamentação e a falta de parâmetros.

Para Marina Cançado, co-CEO da Future Carbon, que trabalha com projetos que possibilitam a geração de crédito de carbono, os ativos ambientais locais podem contribuir para novos instrumentos financeiros inovadores. “O crédito de carbono foi o primeiro ativo ambiental que se tornou ativo financeiro. No futuro, vão existir outros: créditos de biodiversidade, eventualmente ligados à água; diferentes formas de monetizar a conservação de uma área ou em um processo de reflorestamento, além de diferentes fontes de receita para além do sequestro de carbono”, afirma.

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Alguns exemplos oriundos da esfera governamental surgiram nos últimos anos. Em março, o governo federal anunciou a criação de créditos específicos para metano como parte do programa Metano Zero. Além disso, desde 2016, o Ministério de Minas e Energia promove o programa RenovaBio, que permite a produtores e importadores de biocombustíveis emitirem créditos de descarbonização, o CBIOs. Cada CBIO equivale a uma tonelada de emissões de GEE evitada.

“Hoje, existem os investidores institucionais e os que buscam esse tipo de mecanismo também porque querem fazer parte dessa transição”, pontua Cançado. “Do outro lado, as empresas começam a perceber que vão precisar fazer a gestão financeira de créditos de carbono e pensam: será que não é melhor comprar hoje para fazer um hedge dessa operação?”, completa.

O crédito de carbono foi o primeiro ativo ambiental que se tornou ativo financeiro. No futuro, haverá outros”

— Marina Cançado, co-CEO da Future Carbon

De acordo com pesquisa da consultoria EY divulgada no ano passado, 97% dos CEOs entrevistados concordaram que as mudanças sociais e ambientais têm impacto crítico em suas empresas. O investimento em impacto socioambiental é outra temática que ganhou relevância recentemente.

Em 2020, investimentos de impacto somaram US$ 636 bilhões no mundo, na estimativa do relatório “Investing for Impact: The Global Impact Investing Market 2020” da International Finance Corporation (IFC), unidade de investimento do Banco Mundial. Comparado a 2019, quando o investimento de impacto foi de US$ 505 bilhões, aumentou 26%. Quando se adicionam à conta private equity, venture capital, ativos reais, imobiliário, infraestrutura, dívida corporativa e outras aplicações que têm intenção de gerar impacto, mas não o medem, os ativos sob gestão chegam a US$ US$ 2,28 trilhões em 2020, pelo IFC.

O comprometimento de países, estados, cidades e empresas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, lançados pelas Nações Unidas (ONU), impulsiona o interesse. Só em países em desenvolvimento, os aportes para esta finalidade podem chegar a US$ 4 trilhões em projetos de risco e retorno incertos, no cálculo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Pioneira na gestão de venture capital de impacto no Brasil, a gestora Vox Capital lançou, em maio, seu primeiro fundo de varejo com foco em investimentos em títulos de dívida “verdes’” de empresas alinhadas à obtenção dos ODSs. “Temos uma metodologia que pega o core business da empresa, quais linhas de receitas são diretamente conectadas com a Agenda 2030, e exclui os papéis que estão envolvidos em controvérsias ou más práticas”, afirma Gilberto Ribeiro, sócio e diretor de operações da casa.

O executivo da Vox Capital acredita que o equilíbrio entre resultados financeiros e transformações socioambientais pode ser um fator decisivo para o investidor optar por um fundo de impacto social. “No varejo, o que é o tripé da tomada de deciisão do investidor? Retorno, segurança e só depois o impacto”, diz. “Entre dois fundos equivalentes, o investidor deveria preferir o que tem algum tipo de impacto na agenda do que um fundo que ele não sabe o que faz, onde aplica os valores”.

Ribeiro argumenta ainda que investimentos de impacto podem ter maior capacidade de resistência frente à crise de liquidez no mercado, que vem afetando, por exemplo, várias startups em 2022. Isso porque, diz, existe uma correlação entre setores inelásticos da economia como acesso à energia, saúde, educação, serviços financeiros e investimentos de impacto, que fortalece empresas desse nicho.

Outra fronteira de negócios e investimentos é a bioeconomia, ou economia sustentável, que pode trazer ganhos para o agronegócio e indústrias como a farmacêutica, alimentar, de cosméticos e de biocombustíveis.

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De acordo com a consultoria McKinsey, o impacto econômico da bioeconomia, abarcando áreas como agricultura, saúde, energia e serviços, pode chegar a US$ 4 trilhões anuais entre dez a 20 anos. Somente no campo de energias renováveis e processamento de produtos químicos, o impacto pode chegar a US$ 300 bilhões por ano, no mundo.

No Brasil, não há muitos dados sobre a economia sustentável, mas um estudo de três pesquisadores publicado na Revista do BNDES em 2018, com base em dados da OCDE de 2016, estimou que, naquele ano, as vendas atribuíveis à bioeconomia totalizaram US$ 326,1 bilhões, sendo US$ 285,9 bilhões vendido no mercado local e o restante ao exterior. A demanda veio em especial da agropecuária e da indústria de alimentos, bebidas e produtos do tabaco.

“O Brasil tem o maior potencial de investimento em bioeconomia do mundo e poderia usar esse potencial para gerar, inclusive, oportunidades sociais. No entanto, a tecnologia e o dinheiro estão nos EUA e na Europa”, diz Fernanda Camargo, sócia fundadora da gestora de patrimônio Wright Capital. Para ela, a nova economia traz oportunidades de retorno em diversas áreas, como soluções baseadas na natureza, greentechs, energias renováveis, regeneração de áreas degradadas e outras. (Colaborou Naiara Bertão)

https://valor.globo.com/empresas/esg/noticia/2022/08/10/conheca-oportunidades-e-tendencias-para-investimentos-verdes.ghtml

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Privatização ajudou ex-estatais a crescer e a enfrentar crises

Companhias como Vale, Embraer e CSN ganharam eficiência após troca de dono

Ricardo Balthazar – Folha – 27.jul.2022

Fernando Henrique Cardoso começou a pensar na privatização da Companhia Vale do Rio Doce em fevereiro de 1995, quando ainda não tinha completado dois meses no cargo de presidente da República, e demorou mais de dois anos para finalmente vendê-la

“Não quero ir contra a maré, mas vejo com certa preocupação essa questão, que não está totalmente clara para mim”, disse em outubro daquele ano, após meses de hesitação, ao ditar para o gravador as reflexões reunidas nos diários que registram o dia a dia do seu governo.

O tucano temia perder controle sobre os investimentos da empresa e chegou a cogitar a criação de um fundo com recursos da Vale para financiar obras de infraestrutura. “Não podemos abrir mão de que o Estado tenha capacidade de definir rumos”, anotou em janeiro de 1996.

FHC considerava frágeis os grupos nacionais interessados na companhia e via com suspeição sua articulação com fundos de pensão de funcionários de estatais. Não queria que a empresa ficasse sob controle estrangeiro, nem que os novos donos se desfizessem de seus ativos.

Em maio de 1997, num leilão na antiga Bolsa de Valores do Rio, um consórcio organizado pelo empresário Benjamin Steinbruch com bancos e fundos de pensão arrematou por US$ 3,3 bilhões o bloco de ações que garantia o controle da Vale e abriu um novo capítulo na sua trajetória.

Criada pelo presidente Getúlio Vargas em 1942, nos estertores da ditadura do Estado Novo, a Vale era a joia da coroa entre as dezenas de empresas que o governo brasileiro colocou à venda a partir de 1991, quando Fernando Collor lançou o Programa Nacional de Desestatização.

Passadas três décadas, a mineradora é a maior empresa privada brasileira, e uma das maiores do mundo no seu setor. No início de julho, o valor de suas ações nas bolsas era equivalente, em dólares, a vinte vezes a quantia arrecadada no leilão em que a companhia foi vendida.

A Vale já era um gigante quando foi oferecida ao setor privado. Exportava ferro e outros minérios para vários países, financiava a maior parte dos seus investimentos com recursos próprios e era mais lucrativa do que as outras estatais que haviam sido leiloadas nos anos anteriores.

Mas ela foi mais longe depois que se livrou das amarras que tinha quando era controlada pelo governo, ampliando seu acesso ao mercado de capitais e ganhando flexibilidade para explorar oportunidades que surgiram com o crescimento da China e a valorização das commodities. 

O governo manteve ações especiais conhecidas como golden shares, que lhe dão direito de veto se a empresa quiser deixar a atividade principal, se desfazer de portos e ferrovias ou mudar de nome, o que ocorreu em 2009, quando ela passou a se chamar simplesmente Vale.

Mas a companhia deixou vários negócios da fase estatal, como indústrias de fertilizantes, papel e celulose, e assim pôde se concentrar na mineração e adquirir concorrentes no Brasil e no exterior, como a canadense Inco, uma das maiores produtoras de níquel do mundo.

Na primeira década do programa de privatizações, sua fase mais intensa, o governo federal vendeu ações que tinha em 119 empresas. Conforme um balanço feito em 2002, ele arrecadou US$ 87 bilhões e transferiu aos novos controladores dívidas equivalentes a US$ 18 bilhões.

Embora o programa tenha nascido da preocupação com os desequilíbrios econômicos acumulados pelo país nos anos 1980, alguns de seus objetivos prioritários não foram alcançados –a dívida pública, por exemplo, continuou crescendo, apesar do alívio com a venda das estatais.

Mas estudos feitos por economistas do governo e instituições independentes apontaram outros benefícios, como a atração de investidores estrangeiros, a modernização das indústrias de vários setores e melhorias nos serviços de telecomunicações, transportes e outras áreas.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo contratado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para estudar o assunto em 2003 encontrou ganhos de eficiência significativos ao analisar a evolução de 102 empresas privatizadas na década anterior.

Segundo o trabalho, elas aumentaram suas vendas e conseguiram uma redução de 33% em seus custos, em média, nos primeiros dois anos após a troca de dono. Seus resultados operacionais aumentaram 5,6% no mesmo período, sem contar impostos e despesas financeiras.

“O setor público teve grande mérito ao criar algumas dessas empresas, mas chegou uma hora em que seu envolvimento não fazia mais sentido e elas tinham melhores condições de se desenvolver no setor privado”, diz Antonio Gledson de Carvalho, um dos autores do estudo.

A primeira empresa vendida pelo programa foi a siderúrgica Usiminas, líder na produção de aços planos para a indústria automobilística e fabricantes de eletrodomésticos. Manifestantes contrários à privatização agrediram investidores que foram até a bolsa no dia do leilão.

Nos anos seguintes, o governo vendeu outras sete empresas do setor, inclusive a maior de todas, a Companhia Siderúrgica Nacional, criada por Getúlio Vargas em 1941. A Siderbrás, que controlava os investimentos estatais na siderurgia, foi extinta no governo Fernando Collor.

Poucos empresários foram tão agressivos nesse processo como Benjamin Steinbruch, dono do grupo Vicunha, com origem na indústria têxtil. Ele liderou o consórcio que arrematou o controle da CSN em 1993 e depois os que compraram a distribuidora de energia Light e a Vale.

Mais tarde, o acúmulo de dívidas e conflitos com outros investidores obrigaram Steinbruch a se afastar das duas companhias para se concentrar na CSN, que preside até hoje. No ano passado, o empresário anunciou planos para dobrar o tamanho da siderúrgica em três anos.

“Nas primeiras privatizações, os ganhos eram óbvios e os resultados tornaram o acerto evidente”, diz o economista Sérgio Lazzarini, do Insper. “No caso de empresas ainda sob controle estatal, como a Petrobras, a Caixa e os Correios, os benefícios nem sempre são tão óbvios.”

A Embraer, criada em 1969, foi bem-sucedida ao produzir e comercializar seu primeiro avião, o turboélice Bandeirante, desenvolvido pela Aeronáutica. Mas acumulava prejuízos no início da década de 1990, o que comprometia sua capacidade de financiar novos projetos.

Em 1994, quando investidores liderados pelo banco Bozano, Simonsen compraram a empresa, ela ganhou a agilidade necessária para o salto que deu na década seguinte, quando uma nova linha de jatos a transformou no terceiro maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo.

“A Embraer já tinha uma cultura de excelência na engenharia, muito forte, mas não teria sobrevivido se não tivesse sido privatizada e tornado sua gestão mais profissional”, afirma o professor Roberto Carlos Bernardes, da FEI, autor de um livro sobre a trajetória da empresa.

Após a troca de dono, a companhia negociou parcerias com fornecedores estrangeiros que dividiram os riscos do desenvolvimento dos novos aviões e depois a produção de várias partes. O modelo deu acesso a novas tecnologias e permitiu o desenvolvimento de jatos maiores depois.

O governo deixou de ser sócio da empresa, mas reteve uma ação especial que lhe dá direito de vetar certas decisões, incluindo mudanças no controle acionário da companhia e medidas que afetem programas militares como o cargueiro C-390, desenvolvido para a Aeronáutica.

Os subsídios do Proex (Programa de Financiamento às Exportações) foram decisivos para o sucesso comercial da Embraer, criando condições para que competisse com seus maiores rivais, no início a canadense Bombardier, que saiu do mercado de jatos regionais, e hoje a Airbus.

A Embraer voltou a ter prejuízos com o impacto da pandemia na aviação e o cancelamento de um acordo bilionário para venda de sua divisão de aviões comerciais para a gigante americana Boeing, mas se recuperou rapidamente e tem hoje US$ 17 bilhões em pedidos para entregar.

Em 2006, a Embraer se tornou uma companhia de capital pulverizado e adotou regras de governança que restringem o poder dos maiores acionistas. Ninguém tem mais do que 5% dos votos nas assembleias, mesmo que tenha mais ações, e a empresa não tem um controlador.

A Vale adotou modelo parecido há dois anos, com o fim de um acordo que amarrava os acionistas que arremataram o controle da mineradora na privatização. O braço de participações do BNDES, que fazia parte do antigo bloco controlador, não tem mais nenhuma ação na empresa.

A presença do governo no centro das decisões da Vale mesmo depois da privatização foi por muitos anos uma fonte de tensões, como as que levaram à substituição de Roger Agnelli na presidência da mineradora em 2011, após um prolongado desgaste na relação com Brasília.

Durante a gestão de Agnelli, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou a empresa por fazer demissões para enfrentar a crise internacional de 2008 e por contratar estaleiros estrangeiros para aumentar sua frota de navios, e cobrou que fizesse investimentos no Brasil.

Críticos da privatização voltaram à carga por causa do rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho, que causaram 289 mortes e um desastre ambiental de proporções gigantescas. A reparação dos danos custará pelo menos R$ 38 bilhões à Vale e ainda está longe de terminar.

“A ação dos órgãos ambientais é mais incisiva hoje”, diz o economista Armando Castelar Pinheiro, da Fundação Getúlio Vargas no Rio. “É mais fácil responsabilizar a Vale como empresa privada que deve prestar contas à sociedade e aos acionistas do que na época em que era estatal.”

https://temas.folha.uol.com.br/30-anos-de-privatizacao/empresas/privatizacao-ajudou-ex-estatais-a-crescer-e-a-enfrentar-crises.shtml

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O que podemos aprender com Medellín, a cidade mais inovadora do mundo

CLAYTON MELO – FastCompanyBrasil- 13-07-2021 |

Tráfico de drogas, crimes bárbaros e terra de Pablo Escolar. Ainda hoje é assim que Medellín povoa o imaginário de muitas pessoas. Essa imagem pode ter sido reavivada de alguma forma por Narcos, a série da Netflix que traz Wagner Moura no papel de Escobar. A obra conta a história do pior momento da guerra ao narcotráfico, na década de 1990, quando a cidade era a mais violenta do mundo, com a terrível marca de 380 homicídios por cem mil habitantes, número próprio de lugares em guerra.

“AS CONQUISTAS NAS ÁREAS SOCIAL E URBANÍSTICA COLOCARAM MEDELLÍN NA VITRINE GLOBAL, RECEBENDO VÁRIOS PRÊMIOS DE URBANISMO”

Muita coisa mudou de lá para cá. Hoje, Medellín, a segunda cidade mais populosa da Colômbia, com cerca de 2,5 milhões de habitantes e uma importante cena empreendedora, se mostra internacionalmente de outra forma. O tráfico e a criminalidade ainda existem, mas a situação é bem diferente – para melhor. Os índices caíram drasticamente, para 14,5 homicídios por 100 mil habitantes (para efeito de comparação, no Brasil o índice é de 27,8 e no Estado de São Paulo é de 8,2 por 100 mil), e as conquistas nas áreas social e urbanística colocaram Medellín na vitrine global, recebendo vários prêmios de urbanismo.

Em 2009, por exemplo, ela venceu o Prêmio FAD, de Barcelona, concedido a iniciativas urbanas que transformam as cidades e melhoram a vida de seus cidadãos. Quatro anos mais tarde, foi eleita a cidade mais inovadora do mundo em um concurso realizado pelo The Wall Street Journal e o Citigroup. E em 2016 foi escolhida pela UNESCO para fazer parte da Rede de Cidades Criativas, além de ter recebido o Lee Kuan Yew World City Prize, prêmio internacional mais importante de urbanismo e desenvolvimento do mundo. Mas como essa transformação toda aconteceu? E o que os grandes centros urbanos brasileiros podem aprender com a experiência de Medellín?

No centro da mudança está um programa de urbanismo social iniciado em 2003, com a eleição do prefeito Sérgio Fajardo, um PhD em Matemática pela University of Wisconsin-Madison (EUA). Ele levou para o governo muitos quadros com sólida formação acadêmica, como Alejandro Echeverri, arquiteto e urbanista colombiano e professor convidado de diferentes universidades, incluindo Harvard.

Considerado o pai do conceito de urbanismo social, Echeverri foi um dos líderes da estratégia de inclusão social de Medellín, um programa baseado no tripé educação, cultura e urbanismo, com ações focadas nas áreas mais pobres e com altos índices de criminalidade. O coração do trabalho foi o Projeto Urbano Integral (PUI), que preparava as ações nos bairros de forma associada entre as diferentes áreas do poder público, como transporte, saúde, cultura, espaço público e educação.

A iniciativa consistia em escolher territórios específicos da cidade – bairros periféricos pobres – para receber um PUI. A partir daí, o plano de ações era desenhado em conjunto entre os vários órgãos da prefeitura e com a participação da comunidade. “Fizemos uma estratégia holística, ou integral, daí a ideia do Programa Urbano Integral, a ferramenta mais importante do urbanismo social”, diz em entrevista a este colunista Alejandro Echeverri, que foi gerente-geral da Empresa de Desenvolvimento Urbano (2004-2005) e Diretor de Projetos Urbanos da Prefeitura de Medellín (2005-2008). “Uma estratégia direcionada aos bairros mais pobres de Medellín, com foco nas dimensões do espaço público, residência, transporte, tudo combinado com uma agenda de projetos de cultura, educação e empreendimentos a partir do trabalho com as comunidades”, afirma.

A participação da população local nas decisões, aliás, é um dos pontos centrais do urbanismo social. “Quando chegamos ao governo, já tínhamos anos de trabalho com as comunidades e traduzimos isso em projetos nos territórios. É preciso ter o conhecimento e a sensibilidade de construir diálogos”, afirma.

Case em mobilidade e cultura

Foi assim que nasceu, entre outras iniciativas, uma nova política de mobilidade, hoje um case internacional. Em 2004, a companhia de metrô inaugurou o Metrocable, um teleférico de alta capacidade que conecta o sistema de transporte aos morros onde mora a população pobre. Com a obra, o trajeto das pessoas para o trabalho, que antes podia levar horas, foi reduzido para no máximo meia hora. Além disso, o teleférico virou atração turística da cidade. Também foram feitas várias melhorias nas ruas, recuperando espaços públicos para os pedestres e ciclistas.

“MEDELLÍN (…) TAMBÉM NOS MOSTRA A IMPORTÂNCIA DE ESCUTAR E FAZER JUNTO A SOCIEDADE, SEM PROGRAMAS TOP DOWN”

Junto com essas ações, foram construídos equipamentos públicos, com destaque para os parques-biblioteca, espaços culturais e de educação nas periferias, algo semelhante ao CEU, em São Paulo. O orçamento do município demonstra a relevância das áreas cultural e educacional no projeto de transformação: em 2004, o investimento em cultura equivalia a 0,6% do orçamento de Medellín, subindo para 5% no ano seguinte. Em educação, foi de 12% para 40%.

Nesse processo todo, aprender com as experiências do passado foi uma das chaves para o sucesso, conforme explica à coluna o jornalista Jorge Melguizo, outro protagonista do urbanismo social de Medellín. Ex-secretário de Cultura Cidadã (2005 a 2009) e de Desenvolvimento Social (2009 e 2010) da cidade, ele explica que Medellín vinha tentando diversos projetos ao longo das décadas 1980 e 1990. “A cada fracasso aprendíamos algo. E essa aprendizagem se converteu num processo que talvez fracassasse, mas que ainda assim aprenderíamos novamente”, afirma. “E desses múltiplos fracassos urbanos, educativos e culturais desenvolvemos uma enorme capacidade pública, cidadã, privada e universitária que levou a um trabalho de articulação entre múltiplos setores, o que gerou resultados reais de transformação.”

É certo que Medellín ainda tem muitos desafios sociais a superar, como toda cidade latino-americana com um logo histórico de desigualdade social e violência – a própria Colômbia enfrenta atualmente uma onda de protestos por justiça social e melhora na qualidade de vida. Mas os avanços proporcionados pelo urbanismo social em Medellín são inegáveis.

Num momento em que as cidades brasileiras precisam enfrentar o duro de legado de aumento de desigualdade social provocado pela pandemia, nunca é demais analisarmos experiências bem-sucedidas dentro do nosso próprio país, vindas das comunidades, da sociedade civil ou do poder público, e de nossos vizinhos, como a Colômbia. “É melhor fazer uma série de ações de curto prazo, com resultados rápidos, do que um grande plano que demore a dar frutos”, diz Echeverri. É uma boa lição. E um caminho mais realista, econômico e eficiente do que pensarmos em soluções complexas e mirabolantes ou em projetos aplicados em países cuja realidade social e econômica é muito diferente da nossa.

Medellín nos ensina o valor da cooperação, da inovação social e da criatividade para a resolução de problemas reais. E também nos mostra a importância de escutar e fazer junto a sociedade, sem programas top down, aproveitando o conhecimento e a vivência que as comunidades têm do lugar onde vivem e construíram suas histórias.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil


SOBRE O AUTOR

Cofundador da plataforma A Vida no Centro, Clayton tem MBA em marketing, é especialista em comunidades, conteúdo e curadoria de evento… saiba mais

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Empresas dos EUA buscam profissionais brasileiros, sugere pesquisa

Veja quais são as companhias que mais contratam e como conseguir uma vaga

Por Fernanda Gonçalves, Para o Valor 03/09/2022

O atual momento parece ser favorável para os profissionais brasileiros em busca de vagas de emprego nos EUA, aponta um levantamento realizado pelo escritório de advocacia AG Immigration. O estudo levou em consideração dados oficiais do departamento de trabalho americano e mostrou que, no ano passado, 1.428 brasileiros foram admitidos para trabalhar nos EUA. Desses, 142 profissionais do Brasil ou 9,9% do total, passaram a trabalhar em uma das seguintes empresas: Abbyland Foods, Microsoft, Orion Travel Technologies, SS Concrete Floors e Google – as cinco que mais contrataram brasileiros nesse período.

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Segundo Rodrigo Costa, CEO da companhia responsável pela pesquisa, as organizações americanas têm buscado profissionais do Brasil por conta do grande déficit de mão de obra nos EUA. “As empresas estão com 11,2 milhões de vagas abertas, mas são 5,7 milhões de pessoas desempregadas. Ou seja, não há gente suficiente para dar conta do crescimento econômico”, constata. Ele explica que uma das formas que o governo e as corporações encontraram para contornar a situação é, justamente, contratar trabalhadores estrangeiros. “Em 2021, por exemplo, foram 17.952 green cards emitidos para brasileiros, o segundo maior número da história.”

E qual diferencial os brasileiros oferecem e que desperta a atenção das empresas? “Somos reconhecidos no mercado de trabalho como esforçados, qualificados, e com uma grande capacidade de adaptação a diferentes cenários”, explica Jorge Botrel, sócio da JBJ Partners, empresa especializada em empreendedorismo, consultoria de negócios e expatriação para os EUA.

“Os brasileiros, em especial os de finanças, têm um perfil interessante, sobretudo agora, mediante a nova realidade de inflação americana. Eles foram talhados ao longo de suas carreiras para trabalhar com cenários e realidades de hiperinflação, recessão econômica e estão acostumados com variações cambiais importantes. Isso os fez mais preparados para momentos não estáveis, economicamente falando”, observa Leonardo Freitas, especialista em imigração e CEO do escritório de advocacia Haymman-Woodward. Já Costa lembra que os brasileiros se destacam, também, por características como dedicação e simpatia. “É comum, por exemplo, que dentistas e enfermeiros do Brasil estejam entre os mais bem avaliados por pacientes de clínicas, consultórios e hospitais, já que costumam ser mais afetuosos.”

Em relação às áreas que mais têm buscado profissionais brasileiros com especialização nos EUA, Costa analisa: “se nas décadas de 1980 e 1990, a maioria ocupava empregos de menor remuneração, agora há uma participação muito maior de brasileiros em posições que exigem nível superior, como dentistas, pesquisadores, advogados, gerentes de RH e marketing, engenheiros e pilotos de avião”.

Nesse sentido, a pesquisa da AG Immigration revelou que foram 205 contratações apenas no ramo da tecnologia, no ano passado. Entre os cargos, estão desenvolvedores e programadores, analistas de sistemas, gerentes de TI e de sistemas de informação. “Adicionalmente, muitos executivos brasileiros buscaram se aperfeiçoar em importantes universidades americanas. Vários com mestrado, MBA e fluentes em três línguas. Alguns deles já foram expatriados e conhecem múltiplas realidades, o que os tornam atraentes para as empresas”, diz Freitas.

Como conseguir trabalho nos EUA

Para aqueles que desejam conseguir uma vaga de emprego nos EUA, Botrel afirma que, antes de mais nada, é necessário ter o domínio do idioma, não apenas escrito, mas também falado, além de pesquisar a área de trabalho e estar preparado para as exigências mais comuns. “Para enfermeiros e médicos, por exemplo, será necessário fazer a equivalência do diploma nos EUA e, por fim, adaptar o CV para o inglês e disponibilizá-lo nas principais plataformas como LinkedIn e Indeed”, aconselha. Costa, por sua vez, sugere que o profissional entre em sites de emprego americanos e aplique filtros de busca para achar organizações que estão contratando imigrantes ou que precisam de profissionais bilíngues em português.

De acordo com os especialistas, a parte mais desafiadora do processo é encontrar uma empresa que esteja disposta a patrocinar o visto para o candidato, caso ele não tenha permissão para trabalhar nos EUA. No entanto, Costa afirma ser comum companhias interessadas no profissional arcarem com os custos de quase todo o processo imigratório.

 “É necessário ter viabilidade para viver no país que se deseja residir e buscar um escritório de advocacia para aconselhar o melhor visto de imigrante”, recomenda Freitas.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/09/03/empresas-dos-eua-buscam-profissionais-brasileiros-sugere-pesquisa.ghtml

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