Geração Z impõe uma nova forma de trabalhar; saiba como

Estudo da consultoria LLYC mostra como esse grupo questiona a obrigatoriedade do expediente presencial, exige políticas voltadas à saúde mental e ESG, entre outras mudanças

Por Jacílio Saraiva, Para O Valor 10/01/2023

A geração Z, composta por profissionais nascidos entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000, está impondo uma nova forma de trabalhar às empresas: com menos presença no escritório e mais ações voltadas à agenda ESG, sigla usada para medir as práticas ambientais, sociais e de governança de um negócio. É o que aponta o relatório Talent Trends 2023, elaborado pela consultoria LLYC, em colaboração com a DCH (Organização Internacional de Administradores de Capital Humano), entidade que reúne mais de 3,5 mil gestores de RH na Europa, Estados Unidos e América Latina.

“Essa geração, que será 30% da força de trabalho global até 2030, tem influenciado muito mais as relações das pessoas com as empresas do que as antecessoras”, explica Naira Feldmann, diretora de engagement da LLYC no Brasil. “A começar pelo fato de que suas demandas, hábitos e propósitos impõem a ética e a sustentabilidade como princípios básicos para um bom empregador.”

Segundo a especialista, o ESG deixa de ser apenas um acrônimo para o público especializado e passa a ser uma alavanca de proposta de valor para novos funcionários. “Esse grupo também vai questionar, cada vez mais, a obrigatoriedade do expediente presencial e exigir políticas que resguardem a saúde mental”, diz. “São empregados mais propensos às entregas assíncronas e ao ‘anywhere office’ [trabalhar de qualquer lugar, na tradução livre]”.

Diante dos dados do estudo, baseados em uma série de pesquisas sobre o futuro do trabalho, Feldmann recomenda que as chefias invistam na comunicação com as equipes.

“O ato de ouvir as pessoas, por mais óbvio que pareça, nem sempre é feito com o objetivo real de escutá-las”, destaca. De acordo com ela, isso será essencial para alcançar uma identificação dos funcionários com os objetivos da organização.” Além do maior peso da geração Z na criação de novos modelos de trabalho, o levantamento apontou outras tendências que marcarão a gestão de talentos em 2023.

Veja as principais:

1. Inteligência artificial (IA) aperfeiçoa a gestão de pessoas

A projeção é de que o mercado global de IA cresça mais de 20% entre 2022 e 2029. Isso permitirá o desenvolvimento de análises preditivas que ajudarão na tomada de decisões em relação ao capital humano. A tecnologia pode melhorar os processos seletivos com algoritmos que refinam a triagem curricular e criar chatbots capazes de sanar as dúvidas dos profissionais a distância.

2. Integração demanda ainda mais atenção

Estudos indicam que 90% dos trabalhadores decidem se vão continuar ou não na companhia nos seis primeiros meses de convivência. Neste sentido, o onboarding é o primeiro passo para fortalecer o relacionamento entre funcionário e empresa, sendo uma boa oportunidade para integrar o profissional à cultura organizacional.

3. Maior rotatividade exige flexibilidade nos planos de carreira

Fenômenos como a grande renúncia e o “quiet quitting” (desistência silenciosa), que se instalaram em 2022, trouxeram uma realidade comum à maioria das organizações: o aumento da rotatividade indesejada. Apesar das dificuldades que isso traz às equipes de RH, não parece que esses movimentos irão diminuir em 2023. Por outro lado, um maior “vai e vem” de currículos pode ser uma oportunidade de incorporar perfis mais seniores à equipe. No entanto, conviver com a dança das cadeiras exige reformulação de políticas de mobilidade interna e de planos de carreira.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/01/10/geracao-z-impoe-uma-nova-forma-de-trabalhar-saiba-como.ghtml

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Como ganhar dinheiro usando inteligência artificial?

É raro ver especulações sobre mudanças tecnológicas no longo prazo; para suprir essa falta, farei algumas perguntas

Ronaldo Lemos* – Folha –  1º.jan.2023 

Atenção, leitor: este é um artigo puramente experimental. Como Ano Novo é época de fazer balanços e previsões, há sempre textos apontando para o que se espera da tecnologia no ano que está começando.

Só que é relativamente raro ver especulações sobre mudanças tecnológicas no longo prazo, ou mesmo no longuíssimo prazo. Para suprir essa falta, este artigo faz algumas perguntas puramente especulativas: “e se…”

E se inteligências artificiais como o ChatGPT, Midjourney, Stable Diffusion e outras se tornarem as formas dominantes de produção de conteúdo na internet? Na semana passada viralizou um vídeo ensinando a ganhar dinheiro com essas ferramentas de inteligência artificial na internet.

A fórmula é a seguinte: vá até o ChatGPT e peça para ele produzir o roteiro de um vídeo com 1500 palavras sobre qualquer assunto que você queira. Pegue o texto e cole na ferramenta Pictory, na função “script to video”. A ferramenta irá, então, criar automaticamente um vídeo completo baseado no roteiro que você inseriu, usando também inteligência artificial.

Vá na ferramenta Synthesia e escolha um ser humano virtual para ser o personagem do seu vídeo. Cole o texto lá também e o personagem escolhido irá ler o texto, como se fosse um ser humano real (há muitas opções de etnias e tipos físicos). Insira recortes da fala do personagem no primeiro vídeo. Vá então para o Fiverr e pague US$ 2 (R$ 10,45) para alguém desenhar uma capa impactante para o seu vídeo.

Poste tudo no Youtube e outras plataformas, e ganhe dinheiro na medida que o vídeo ganhar visualizações. Se estiver com preguiça, vá no Upwork e contrate um assistente remoto que pode ficar fazendo todo esse processo acima para você, ao custo de US$ 4 (R$ 20,90) por hora, infinitamente.

E se o resultado disso for a inundação da internet e suas plataformas com conteúdo autogerado por inteligências artificiais? Na superfície, o conteúdo aparenta ser coerente, interessante e até sedutor. Na realidade, o conteúdo é cheio de erros, informações falsas, dicas perigosas e insanidades que não fazem o menor sentido.

Com isso, a internet é envenenada com infinitos conteúdos produzidos por inteligência artificial (incluindo pornografia). Ninguém mais consegue distinguir o que é gerado por humanos ou máquinas e isso acaba com os incentivos para se criar qualquer coisa nova de verdade.

A possibilidade dessa situação cria a necessidade urgente de marcar os conteúdos gerados por inteligência artificial como tais, distinguindo-os de conteúdos “reais”. Nenhum país ocidental consegue criar uma solução para isso, e o problema se perpetua em uma câmara de eco informacional para sempre.

E se a fusão nuclear, que em 2022 teve progressos concretos e relevantes, se tornar realidade? Isso significaria que a humanidade poderia obter uma cobiçada independência energética, de forma limpa e sustentável? Quais seriam as consequências dessa abundância energética?

Pode ser que ela seja a base para nos tornarmos uma civilização interplanetária. Por exemplo, com fusão nuclear dominada, a humanidade poderia cobiçar a construção de um “enxame de Dyson” em torno do sol. Uma megaestrutura composta por espelhos capazes de capturar e redirecionar parcelas da energia solar.

Essa quantidade inimaginável de energia poderia ser usada para projetos de “terraformação” na lua, em Marte e além. Permitindo que aqueles que estejam insatisfeitos com os caminhos da humanidade no seu planeta de origem possam olhar para o céu e sonhar com um recomeço em um astro distante.

Feliz 2023!


  • Já era – saber distinguir entre o que é criado por humanos ou por IA
  • Já é – perigo de inundação da internet com conteúdos gerados automaticamente por IA
  • Já vem – tentativa de resolver o problema por meio de regulação, com chances incertas de sucesso

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/01/como-ganhar-dinheiro-usando-inteligencia-artificial.shtml

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Brasil vai estrear no mercado mundial de lítio para bateria

Mina da Sigma Lithium, no notre de Minas Gerais, está prevista para iniciar operação ao longo do primeiro trimestre de 2023

Por Ivo Ribeiro — Valor – 20/12/2022 

Projeto da Sigma, em Araçuaí/Itinga, terá capacidade de produzir 104 mil toneladas de carbonato de lítio ao ano em 2024 — Foto: Divulgação

Entre as maiores do mundo, a indústria brasileira de mineração e metais estreia em 2023 na produção de um dos minerais mais importantes desta década, o lítio, que ganhou projeção global ao se tornar primordial para a onda de eletromobilidade.

O projeto, em fase final de implantação em Minas Gerais pela Sigma Lithium, deve se consolidar em escala global, posicionando a empresa entre as quatro maiores fabricantes mundiais.

A demanda por lítio cresce em ritmo frenético para uso na fabricação de baterias elétricas de automóveis e outros veículos. Estima-se que a montagem de veículos elétricos passe de 6,5 milhões de unidades do ano passado para 10,5 milhões neste ano e chegue a 51 milhões de carros em 2030.

Valor médio da tonelada de carbonato de lítio saiu de US$ 13,89 mil em 2021 e bateu em US$ 84 mil a tonelada neste ano

Diversas companhias de mineração de vários países – China, Austrália, EUA -, desenvolveram projetos que já se encontram em produção. Outras, como a Sigma, vão entrar em operação a partir de 2023, visando garantir pedidos de montadoras e fabricantes de baterias.

Até mineradoras tradicionais, caso da australiana Rio Tinto (segunda player global de minério de ferro), já estão se posicionando na produção dos chamados metais críticos, vistos como estratégicos. São todos puxados pelos mercados surgidos com a eletrificação, transição energética e o conceito de produtos “verdes”.

Com a demanda em alta e oferta apertada, os preços do lítio no mercado global – na forma de concentrado, carbonato ou de hidróxido – foram às alturas. O valor médio do carbonato de lítio saiu de US$ 13.890 a tonelada em 2021 e bateu em US$ 84,071 neste ano – seis vezes mais. O valor médio previsto para 2022 é de US$ 71.245 por tonelada.

O mineral é o elemento básico na fabricação de todos os tipos baterias com íon de lítio para carros elétricos, compondo com diversos outros metais e minerais: cobalto, níquel, manganês, fosfato e ferro. Correm por fora o nióbio, grafeno e outros.

O Brasil está bem posicionado para ocupar espaço nessa nova onda de consumo, com reservas de relevância mundial. Por exemplo, o nióbio, que tem a maior do mundo. Há ainda níquel, manganês, ferro, grafita e outras.

No momento, as maiores produtoras de lítio no mundo são a americana Albemarle, a chilena SQM e as australianas e Allkem e Pilbara Minerals. No todo, entre companhias já em operação e novatas debutando no mercado, destacam-se cerca de 20.

A produção mundial de lítio contido em concentrado prevista para este ano é de 540 mil toneladas. Estima-se que vai duplicar – 1 milhão de toneladas em 2025 – e alcançar 2,2 milhões de toneladas no final da década.

No mundo, a maior parte da produção de lítio vai para fabricação de baterias elétricas – em torno de três quartos do total. Cerca de 14% vão para cerâmica e vidro e 3% para graxas e lubrificantes. Fundição, produção de alimentos e outros – 7%.

De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), órgão estatal de pesquisas, as reservas no país desse mineral, que se tornou estratégico para a transição energética global, estão localizadas no Ceará, no eixo Rio Grande do Norte/Paraíba, no sul de Tocantins com o nordeste de Goiás, na Bahia e em Minas Gerais – no chamado médio Jequitinhonha, na região leste e São João del Rei.

Segundo as informações, o Brasil detém uma importante reserva de minério de lítio, espalhada nessas regiões, principalmente no Norte de Minas. As grandes reservas estão localizadas no Chile, Austrália, Argentina e China, seguidos por outros países.

As reservas de lítio do tipo salmoura são encontradas na Bolívia, Chile e Argentina, além de China e EUA. Já depósitos de lítio em pegmatitos (rochas, como os da Sigma) estão localizados na Austrália, Áustria, Brasil, Canadá, China, Congo, República Tcheca, Finlândia, Alemanha, Mali, Namíbia, Peru, Portugal, Sérvia, Espanha, EUA e Zimbábue.

Até agora, apenas duas empresas produzem lítio no Brasil: a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) e a AMG Brasil. Mas trata-se de lítio para outras aplicações, como graxas e lubrificantes.

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), os requerimentos para autorização de pesquisa do mineral de lítio passou de 35, em 2017, para 417 neste ano (até novembro), estimulados pela corrida global para atender a demanda por lítio voltado à eletrificação de veículos.

No plano de negócios da Sigma, de origem canadense, com sede em Vancouver e negociada nas bolsas de Toronto e Nova York (Nasdaq), a produção começa com 270 mil toneladas de concentrado de lítio (tipo espodumênio, “grau bateria”), e saltará, com expansões, a 768,2 mil toneladas ao final de 2024.

O volume de carbonato de lítio contido no concentrado foi ajustado para 104 mil toneladas ao final de 2024. A mineradora começa com capacidade de 36,7 mil toneladas no próximo ano.

Ao todo, são cerca de R$ 2 bilhões de investimentos nas três fases de produção – a segunda e a terceiras estão sendo aceleradas pela empresa em 2023 e 2024. Foram adicionados quase R$ 800 milhões de aportes para a terceira fase, que foi antecipada.

Com esse projeto, cuja vida útil das operações no atual escopo é de 13 anos, a empresa prevê receita líquida de R$ 1,55 bilhão no primeiro ano (2023), US$ 3,52 bilhões do segundo ao oitavo ano (quando terá as três fases de produção), e de US$ 1 bilhão nos cinco anos restantes. Será 100% voltado ao mercado externo.

A Sigma diz que seu produto, de grau bateria, tem pureza acima de 99% e já conta com contratos de fornecimento fechados com a fabricante de baterias sul-coreana LG Energy Solution, além da trading japonesa Mitsui.

O principal site mineral do projeto da Sigma está na propriedade Grota do Cirilo (adjacente ao rio Jequitinhonha), apontado como o maior depósito de rocha dura (hard rock) de lítio das Américas. O empreendimento começou a ser explorado em escala piloto em 2018. As reservas totais de minério atuais – medidas e provadas -, foram reavaliadas para 77 milhões de toneladas.

As 28 áreas de concessão da empresa estão localizadas nos municípios de Araçuaí e Itinga, no chamado Vale do Jequitinhonha – rio que corta a região, uma das mais pobres do país.

A operação em escala industrial deve ter início ao longo do primeiro trimestre e as entregas dos primeiros lotes comerciais do concentrado estão previstas para o mês de abril. As instalações de beneficiamento do minério estão em fase final de montagem.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/12/20/brasil-vai-estrear-no-mercado-mundial-de-litio-para-bateria.ghtml

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Gincana do aluguel: o drama de encontrar lugar para viver numa capital europeia

Coquetel explosivo de fatores torna problema da moradia uma emergência; governos e Comissão Europeia se mobilizam, sem grande sucesso por enquanto

Por Alessandro Soler, O GLOBO — Madri 08/01/2023 

De Lisboa a Berlim, de Roma a Londres, de Paris a Madri, grandes metrópoles europeias compartilham um problema que já ganha contornos de emergência: a crise do aluguel. Deficit de novas construções, compra de milhares de imóveis por fundos de investimento, efeito Airbnb — que tira propriedades do mercado para despejá-las no setor turístico — e altas taxas de inflação são o coquetel que provocou a tempestade perfeita.

Além dos preços em recordes históricos, inquilinos se queixam de ter de enviar documentos detalhados e extratos bancários antes sequer de ver o apartamento. Proprietários e imobiliárias cobram taxas aos candidatos pelo simples direito de disputar um imóvel. E as frequentes negativas fragilizam quem está na busca, que vira presa fácil dessas e de outras práticas abusivas. Apesar das iniciativas de alguns governos e da Comissão Europeia, a solução ainda não está no horizonte.

Tradicionalmente mais barata que as capitais das outras grandes economias europeias, a alemã Berlim vive um choque de preços sem precedentes, segundo a BMV, a associação dos inquilinos da cidade. Em 2009, ainda era possível encontrar apartamentos de dois quartos por coisa de € 500 (R$ 2.800); hoje, giram ao redor de € 1.100 (R$ 6.200), 120% de aumento. Numa cidade onde 85% das pessoas vivem de aluguel, nas contas da BMV, a alta foi de mais de 30% só de 2020 para cá.

Concentrados e vazios

Em 2021, Berlim foi palco de um histórico plebiscito que pedia a expropriação de 240 mil imóveis hoje nas mãos de um punhado de megaproprietários e fundos de investimento. Sem uso, muitos desses apartamentos seriam transformados em moradias sociais, ajudando a baixar os preços. A maioria dos votantes apoiou a proposta, mas o plebiscito não era vinculante, e o tema ainda precisará ser debatido no Legislativo local.

Em Londres, estima-se que mais de 400 mil casas e apartamentos estejam nas mãos de grandes investidores. Segundo a consultoria imobiliária CBRE, o último ano teve uma injeção recorde de £ 4,1 bilhões (R$ 26,2 bilhões) de vários fundos. Um deles, ligado ao Lloyds Bank, anunciou ter a intenção de comprar mais de 50 mil imóveis até 2030, só na cidade, para alugá-los.

Muitos desses fundos são acusados de manipular os preços, segurando os imóveis para promover uma inflação artificial no valor médio do aluguel. A engenheira espanhola Teresa Alonso, gerente de projeto numa start-up fabricante de carros elétricos, sentiu na pele essa escalada. Recém-mudada para Londres, ela precisou ficar quatro meses entre hotéis e apartamentos turísticos do Airbnb, enquanto procurava e via os preços subirem. Morar sozinha ali, onde o aluguel de um apartamento de 40 metros quadrados pode passar facilmente de £ 2 mil (R$ 12.700), ela nem cogitou:

— Um quarto simples custa mais de £ 1 mil (R$ 6.380), fora as contas, mas voa no mesmo dia. Quem trabalha não tem tempo de procurar. E as exigências são enormes: histórico de crédito de cinco anos, contrato permanente de trabalho, contatos de locadores anteriores para serem consultados. Até o telefone do seu chefe no trabalho eles pedem, para saber se você é confiável.

Na Espanha natal de Alonso, brasileiros se queixam de condições similares. A soteropolitana Laís Souza, gerente de projeto numa empresa de tecnologia, e seu marido, Eduardo Lubisco, tradutor, acumulam histórias que beiram a ilegalidade em Madri.

— Os donos ou os corretores pedem antecipadamente documento de identidade, extrato bancários, contrato de trabalho, contracheques e um novo seguro bancário. É quase um casting. Só então vão decidir se mostrarão o apartamento a você — descreveu Souza. — Recém-chegada, eu mandei toda a documentação a um corretor que sumiu. Fiquei muito preocupada e fui à polícia. Ele terminou reaparecendo. Ali entendi que é uma prática abusiva, mas comum.

Peneira agressiva

A preocupação dela não é paranoia. Há uma semana, o jornal El País publicou o caso de uma jovem equatoriana que também precisou se submeter a essa peneira agressiva na busca por apartamento. De posse dos seus documentos e histórico bancário, alguém — presumivelmente de uma imobiliária, a polícia ainda investiga — fez um empréstimo de € 7 mil (R$ 39.480) no nome dela. Com os juros, a financeira exige a quitação dos quase € 9 mil (R$ 50.760) de uma dívida que a vítima não contraiu.

Também em Madri, segundo um relatório do portal Fotocasa, um dos mais usados na busca de imóveis, além de os preços estarem “no máximo histórico”, acumulam-se exigências como o pagamento de uma taxa — que pode chegar a € 200 — tão somente para ver o apartamento. Se o contrato for fechado, o valor é descontado da longa lista de pagamentos com que o inquilino deve arcar: até três meses de fiança, um mês para a imobiliária, um mês de “garantia adicional”. Se não houver acordo, a devolução do “sinal” pode demorar vários dias.

Há alguns meses, a imprensa do país relatou que proprietários passaram a exigir cartas de motivação, como aquelas que as empresas pedem aos candidatos a um posto de trabalho. Nada que seja muito estranho em outra grande capital europeia, Paris, onde o mercado está saturado há anos, em parte também pela ausência de grandes áreas para novas construções — problema compartilhado por Londres e Lisboa, por exemplo. O processo de procura de imóvel na “Cidade Luz” virou gincana.

— Já estou chegando ao terceiro mês, e nada. Na vez anterior, há oito anos, eu dividia com meu ex-companheiro, então tínhamos duas rendas. Foi mais fácil. Ainda estou de luto por um apartamento que vi logo no início da busca de agora. Fiquei em terceiro lugar na disputa — contou a curitibana Ana Senn, formada em nutrição e coordenadora de uma associação, referindo-se a um sistema de pontos comum na área metropolitana da capital francesa.

Driblando o teto

Cada candidato elabora um dossiê em que anexa coisas como toda a sua documentação, comprovações de renda, aval bancário, carta de motivação e o que mais julgar necessário para “sair na frente”. Nem pensar em ir ver o imóvel sem isso. Um método que Ana julga anacrônico, ao demandar arraigo de longo prazo na cidade e, portanto, não contemplar os novos fluxos de teletrabalhadores que já se deslocam por um mundo pós-pandêmico e cada vez mais interconectado.

Paris e, também, Berlim têm há anos leis que impõem limites ao preço do metro quadrado de aluguel. Bairro, metragem do apartamento e ano de construção do edifício entram numa complexa conta que estabelece os valores máximos a serem cobrados. Mas a resposta dos proprietários evitou que as leis pegassem totalmente. Uma análise do Instituto Alemão de Pesquisas Econômicas (DIW) mostrou que muitos deles retiraram seus imóveis do mercado berlinense, provocando uma subida média nos preços. Outros apenas desrespeitam o teto, mesmo arriscando-se a multas de até € 500 mil (R$ 2,8 milhões).

Em Paris, a líder do partido de esquerda Génération:s Anne Joubert, ao falar no Parlamento sobre a crise dos aluguéis, afirmou que 40% dos apartamentos da Île de la Cité, uma das zonas mais gentrificadas da capital, estão permanentemente desabitados. Como em outras áreas onde os governos tentam impor limites à ciranda dos preços, os donos preferem não alugar. E, assim, os ciclos de subidas de preços derivados da baixa oferta vão se perpetuando.

UE quer regular Airbnb

Enquanto países como Espanha e Portugal anunciaram nos últimos meses tetos de 2% nos reajustes de preços dos aluguéis até 2023 — mirando a inflação —, diversos parlamentos nacionais discutem soluções de mais longo prazo para o problema da explosão dos preços das moradias. Mas ainda falta um debate conjunto entre os 27 países da União Europeia sobre uma questão que é transnacional.

Pelo menos uma das pernas da crise do aluguel ganhou atenção da Comissão Europeia, órgão executivo do bloco. Em novembro, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, apresentou uma proposta que endurece as regras para apartamentos turísticos de plataformas como Airbnb. Proprietários precisarão se submeter a registros públicos, em número limitado por área e cidade, bem como a inspeções-relâmpago para a checagem do cumprimento das regras.

Além de trazer maior transparência aos aluguéis de temporada, analistas creem que as medidas poderão se traduzir em novos apartamentos para o mercado. Isso porque, quando deixarem de ser beneficiados por um setor turístico desregulado, muitos proprietários poderiam optar pelo aluguel tradicional.

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/01/gincana-do-aluguel-o-drama-de-encontrar-lugar-para-viver-numa-capital-europeia.ghtml

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Quem são os sobre-educados, brasileiros com ensino superior que não encontram trabalho qualificado

Por Luiz Guilherme Gerbelli – Estadão – 01/01/2023

Número chega a 5,4 milhões de pessoas em todo o País, equivalente à população da Noruega

O mercado de trabalho brasileiro carrega uma estatística perversa. Entre as pessoas ocupadas com ensino superior completo, 5,4 milhões não conseguem exercer um trabalho na área de formação e que exija alta qualificação, mostra um levantamento da consultoria IDados. Na prática, o elevado contingente dos chamados sobre-educados – equivalente à população da Noruega – mostra que o Brasil desperdiça recursos aplicados no ensino superior e, sobretudo, boa parte do seu capital humano.

“O Brasil é um país que investe muito em educação de nível superior. Esse dado indica que parte desses recursos não está atingindo o objetivo principal”, afirma Ana Tereza, pesquisadora do IDados e responsável pelo levantamento. “Essas pessoas sobre-educadas recebem mais na comparação com aquelas que têm um nível médio. Não é um capital humano totalmente perdido, mas, frente ao trabalhador que está numa ocupação que exige ensino superior, elas vão ganhar menos.”

MAIS SOBRE MERCADO DE TRABALHO

Nos últimos anos, o número de trabalhadores graduados em funções que exigem uma qualificação menor foi crescente, na esteira da fraqueza do mercado de trabalho. Em 2015 e 2016, houve uma dura recessão econômica, seguida apenas por uma lenta retomada nos anos seguintes, que foi interrompida pelos estragos provocados pela pandemia de coronavírus. No último trimestre de 2019, antes, portanto, da crise sanitária, o contingente de sobre-educados era de 4,5 milhões de pessoas.

“Duas coisas podem ter acontecido. Primeiro, a pessoa ocupava um trabalho de nível superior, ficou desempregada durante a pandemia e, agora, não consegue encontrar um trabalho de nível superior”, afirma Ana. “E segundo, a entrada dos jovens na força de trabalho pode levá-los a ocupar esses cargos de nível superior, fazendo com que a sobre-educação aumente entre os mais velhos.”

Engenheiro virou marceneiro

Desde que se formou em engenharia civil em 2016, Tales Fernando Lima, de 30 anos, enfrentou uma série de crises e nunca conseguiu trabalhar na sua área de formação. Sem emprego, decidiu, então, ajudar na marcenaria do pai em Pirituba, zona norte de São Paulo. “Quando eu entrei na faculdade, a área de engenharia civil estava bem quente. Havia muita oferta de trabalho, mas a crise pegou, e as empresas pararam de contratar”, diz.

Formado em engenharia civil, Tales não encontrou emprego e foi trabalhar na marcenaria do pai

Formado em engenharia civil, Tales não encontrou emprego e foi trabalhar na marcenaria do pai Foto: TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Sem experiência, Tales deixou de buscar trabalho como engenheiro. “Se eu arrumar um emprego como engenheiro, também não vou conseguir ganhar o que recebo na oficina de marcenaria. Virou uma questão material também”, afirma.

Agora, ele decidiu partir para uma segunda graduação, em história. Em 2023, vai para o segundo ano. “Decidi fazer o que eu gosto, e espero dar aulas nos próximos anos”, afirma Tales. “Eu me enquadro numa categoria que busca um trabalho na área em que se formou, mas não encontra.”

No interior da Bahia, em Tanhaçu, Iris Naraiana Silva, de 27 anos, enfrenta o mesmo problema. Formada em pedagogia no início de 2020, não consegue exercer a sua profissão, porque não há mais concursos públicos na região. Para ter uma renda, trabalha como assistente administrativa na Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), uma obra do governo federal que pretende ligar o porto de Ilhéus a Tocantins.s. “Como a cidade é pequena, não existem muitas escolas particulares, e as vagas já estão preenchidas.”

Dos colegas de classe, Iris diz que só trabalham como pedagogos aqueles que já “atuavam na área” durante o curso de graduação. “Mas o restante, não. Trabalha em supermercados e lojas.”

‘Efeito cicatriz’

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Entre os jovens, a demora para se inserir no mercado de trabalho na área de formação leva a um cenário ainda mais crítico, porque os primeiros anos de formação são considerados essenciais para o desenvolvimento profissional.

“O atraso para se inserir no mercado de trabalho acaba gerando o chamado efeito cicatriz. Os jovens que iniciam a carreira em uma crise vão estar em uma desvantagem duradoura. É uma força de trabalho que acaba desaprendendo como realizar as tarefas”, afirma Lucas Assis, economista da consultoria Tendências.

Num recorte específico realizado entre a população ocupada de 22 a 29 anos, o levantamento do IDados apurou que o País tem 1,06 milhão de trabalhadores com ensino superior completo, mas em funções que exigem baixa qualificação.

Na leitura dos analistas, o Brasil precisa definir como um dos seus principais objetivos a capacidade de abrir oportunidade para os trabalhadores qualificados, como foco especial na população mais jovens.

“Por conta do envelhecimento da população e desse baixo crescimento esperado para a economia até o final da década, é preciso colocar esses jovens no centro de uma política pública ambiciosa”, diz Lucas Assis, economista da consultoria Tendências.

O desafio da economia brasileira é urgente e grande para criar empregos qualificados, porque cada vez mais o mercado de trabalho deve receber trabalhadores com graduação completa. Mas a avaliação é que a economia brasileira só vai conseguir dar um salto com investimento em ciência e tecnologia e se endereçar questões ligadas à qualidade educacional, sobretudo, reduzindo a diferença entre escolas públicas e privadas.

“Eu vejo um problema estrutural na educação que acaba afetando a economia no longo prazo. E há alguns problemas que precisam ser resolvidos no campo educacional, como essa discrepância muito grande entre as escolas públicas e privadas”, afirma Bruno Imaizumi, economista da consultoria LCA. “O País precisa pensar em como o mundo está mudando e se estamos formando pessoas com as habilidades requeridas pelas empresas.”

Futuro do mercado de trabalho

Há ainda uma entrave para os próximos anos, com a perspectiva de que a concorrência aumente no mercado de trabalho com o retorno de boa parte da população em busca de emprego, agora que a fase mais aguda da pandemia foi superada e a vacinação está avançada em boa parte do País.

”Ainda não houve um retorno massivo dos inativo a força de trabalho”, diz Assis.

Ao longo de 2022, o mercado de trabalho surpreendeu positivamente. A taxa de desocupação caiu a 8,3% no trimestre encerrado em outubro – o último dado disponível –, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo período de 2021, estava em 12,1%.

Além da concorrência, um outro entrave tem a ver com a perda de fôlego esperada para a criação de vagas de trabalho neste ano, diante da expectativa de um crescimento econômico mais fraco do Brasil. O País vai lidar com os impactos cumulativos da alta da taxa básica de juros e o esgotamento do impulso na atividade provocado pela normalização dos serviços presenciais.

“Não se espera uma queda da ocupação ao longo do ano, mas uma ampliação do número de desocupados, de pessoas fazendo um busca efetiva por um emprego”, diz o economista da consultoria Tendências.

https://www.estadao.com.br/economia/brasileiros-sem-emprego-qualificado/

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Cada produto (reaproveitado) tem uma história

Mercadorias feitas de materiais reutilizados são mais atraentes quando os clientes podem contar algo sobre elas

Bernadette Kamleitner e Carina Thürridl – MIT Sloan Management Review Brasil nº 13 – 01/01/2023

Artigo Cada produto (reaproveitado)  tem uma história

A transformação de “lixo em ouro” por meio de reutilização e reciclagem é uma fonte sustentável de materiais. Mas a comercialização dos produtos resultantes pode ser um desafio.

Como podemos convencer os consumidores a escolher produtos que apresentam sinais de desgaste em comparação com produtos novos? Enquanto algumas pessoas procuram produtos sustentáveis e estão dispostas a pagar mais por eles, nosso estudo deixou claro que a maioria dos consumidores não tem tal disposição. Algumas pesquisas mostram que destacar os aspectos sustentáveis de um produto pode até reduzir a demanda.

Investigamos formas de tornar os produtos reciclados desejáveis para um mercado mais amplo. Nossa principal percepção foi que pode ser benéfico explorar a afinidade humana com a narrativa.

Consumidores transformando-se em contadores de histórias

Histórias são uma ótima maneira de incutir informações com significado, e as pessoas as buscam onde quer que possam encontrá-las. Marqueteiros estão cientes disso há tempos. Mas a prática predominante é criar histórias que colocam a marca no centro do palco para evocar sensações ligadas a ela.

Se quisermos que as pessoas entendam que um produto reciclado é especial, o produto em si deve ser o ator principal. Porém contar uma longa história sobre todas as etapas pelas quais um item reusado passou pode valer para produtos raros e de alto valor, mas é impraticável e inviável em escala. Decidimos então capitalizar uma característica pouco reconhecida da mente humana em relação a narrativas: temos a capacidade de inferir e autocompletar histórias, mesmo que só possamos utilizar fragmentos individuais de informação. Basta pensar na pouca quantidade de informações necessárias para que as pessoas façam especulações sobre fofocas suculentas ou formem opinião sobre algo ou alguém.

Essa capacidade humana dá origem a um mecanismo muito prático: a narrativa mínima, que se baseia na natureza cronológica das histórias. A premissa-chave é que as pessoas são capazes de deduzir uma história desde que saibam pelo menos dois episódios sequenciais dela: um antes e um depois. Esse mecanismo de narração é pouco conhecido e raramente é usado quando as empresas decidem suas estratégias para contar histórias. No entanto, descobrimos que ele é muito apropriado no contexto de produtos reorientados que têm uma história de vida.

Testando a narrativa mínima

De acordo com o princípio da narrativa mínima, quando elaboramos nosso experimento criamos pistas muito simples para as histórias de transformação dos nossos produtos reciclados: elas simplesmente mostraram ou mencionaram o que um produto costumava ser e no que ele se transformou. Mencionamos apenas essas duas informações sobre os produtos e deixamos aos consumidores a tarefa de encaixá-las em uma única história.

Fizemos vários estudos para testar se essa técnica de narrativa mínima seria capaz de elevar o apelo dos produtos reciclados. Por exemplo, testamos duas mensagens promocionais diferentes em uma loja pop-up real. Em uma mensagem, enfatizamos o benefício (“Eu sou uma carteira da moda”, por exemplo) que as pessoas supostamente queriam do produto. Na outra mensagem, usamos a história de vida do produto e destacamos sua identidade passada (“Eu era um pneu de bicicleta”, por exemplo). O uso da história de vida mudou tudo. Quando as pessoas viram a informação sobre a identidade passada do produto, o número de compras triplicou e as receitas quadruplicaram. Encontramos efeitos similares ao realizar campanhas de mídia social no mundo real, nas quais testamos duas abordagens: simplesmente mostrar o produto redirecionado e declarar o que é agora ou contar o que o produto tinha sido.

Para a mente racional, isso pode soar bizarro. Afinal, o anúncio descrevendo a vida passada do produto não tinha nada a ver com o propósito do produto que os clientes procuravam. Além disso, estávamos lembrando aos clientes que eles iriam comprar algo feito de lixo. Na verdade, o efeito positivo de destacar informações sobre o passado tende a ser ainda mais forte para produtos que não exibem seu passado como lixo, tais como bolsas feitas de tecido de paraquedas ou produtos reciclados que literalmente trituraram todos os traços visíveis de seu passado.

Vários estudos de acompanhamento, incluindo uma análise de protocolos de pensamento, reproduziram o sucesso da narrativa mínima e confirmaram por que mencionar o passado foi um sucesso: as pessoas o usaram como deixa para a história do produto e isso as tornou proprietárias de algo único, o que por sua vez fez com que se sentissem especiais. A história de um participante do estudo foi: “Isto aqui é um airbag reciclado, é algo que salvou a vida de alguém. Legal, não é mesmo?”. Além disso, essas narrativas costumam ser personalizadas e memoráveis. Os consumidores usam suas próprias experiências para completar as partes que faltam e criar uma história que seja do seu agrado. A história provavelmente convence porque as próprias pessoas a contam. Embora tenhamos analisado o efeito apenas no momento da compra, esse aspecto particular do mecanismo sugere até que ele pode ter benefícios no longo prazo. Se os clientes forem capazes de lembrar por que o produto reciclado é especial, podem ter mais facilidade para contar a história dele a outras pessoas e podem ser mais indulgentes em relação a possíveis imperfeições. O que de outra forma poderia ser um defeito ou uma desvantagem – vestígios de lixo – se transforma em uma vantagem real .

No entanto, há limites para o poder dessa técnica quando o passado do produto evoca repugnância. Testamos isso com capas de laptop feitas de tecido de mosquiteiros visivelmente velhos e sujos. Quando comparamos os efeitos de abraçar um passado desfavorável a um silêncio total sobre as capas, descobrimos que destacar a história não prejudicou a demanda, mas o empurrão que normalmente observamos também não aconteceu.

TUDO QUE UMA NARRATIVA mínima precisa para funcionar é de algo que ative as mentes dos clientes, que são propensas a histórias. Em nosso caso, bastou mencionar a identidade passada do produto. Talvez a estratégia funcione melhor quando as histórias usam informações concretas e fáceis de visualizar sobre o passado do produto, e se você der uma voz a ele. Lembre também que as histórias são sequenciais: apresente o passado do produto antes de destacar seu presente. A narrativa mínima nos lembra de que as pessoas não querem apenas consumir histórias passivamente. O caso dos produtos reorientados destaca o potencial de despertar a capacidade inata do consumidor de contar histórias para si mesmo. Embora essa seja uma boa notícia para empresas que vendem itens reciclados, pensamos que essa técnica pode ser aplicada mais amplamente. A narrativa mínima poupa tempo e dinheiro aos marqueteiros e pode ser usada em uma ampla gama de mídias nas quais o conteúdo das histórias é limitado.

Nossa pesquisa mostra que é possível usar o poder de contar histórias para transformar uma desvantagem em uma vantagem com um ajuste de marketing de baixo custo.

Leia também: A colaboração é uma habilidade-chave. Então, por que não está sendo ensinada?


Artigo publicado na MIT Sloan Management Review Brasil nº 13

Autoria

Bernadette Kamleitner e Carina Thürridl

Bernadette Kamleitner é professora de marketing na Vienna University of Economics and Business, na Áustria. Carina Thürridl é professora assistente de marketing na Amsterdam Business School, ligada à University of Amsterdam, nos Países Baixos.

https://mitsloanreview.com.br/post/cada-produto-reaproveitado-tem-uma-historia

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Robôs ganham eficiência e ameaçam empregos nas fábricas

Por Pranshu Verma – Estadão – 19/12/2022 

Funcionários temem que tecnologia elimine empregos; robôs estão cada vez mais desenvolvidos para o trabalho mecânico

Os robôs para armazéns estão finalmente chegando ao seu momento mais desejado: escolher e organizar objetos com a destreza das mãos humanas. A Amazon tem braços robóticos capazes de pegar e separar itens difíceis de se manusear, como fones de ouvido ou pelúcias, antes de serem encaixotados. A FedEx testou um sistema semelhante em alguns armazéns para organizar correspondências de vários tamanhos. E outras empresas também estão fazendo progressos com eles.

Há décadas, treinar um robô para ser mais parecido com um humano vem desafiando engenheiros, que não conseguiam reproduzir a capacidade de segurar e mover itens. Mas, agora, as conquistas na tecnologia de inteligência artificial (IA), de câmeras e da engenharia estão dando frutos, permitindo que os robôs vejam objetos de formatos e tamanhos variados e ajustem a ação de acordo com a necessidade.

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Segundo os cientistas da computação, a tecnologia está finalmente se tornando confiável o bastante para que as empresas considerem seu uso.

“Este é um momento decisivo”, disse Kris Hauser, especialista em robótica e professor de ciência da computação na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. “Eles são competentes o suficiente a essa altura.”

Mas há também um debate polêmico. Os críticos temem que os robôs tirem os empregos das pessoas, embora seus defensores digam que isso apenas levará a funções diferentes. Outros mencionam que mais robôs podem ter como consequência um maior número de lesões causadas pelo trabalho, ou maior rigidez na supervisão humana para garantir que as metas estejam sendo atingidas.

Beth Gutelius, professora de desenvolvimento econômico da Universidade de Illinois em Chicago, disse que o modo como as empresas lançam esses robôs sem muitos testes ou consideração pela segurança do trabalhador é preocupante.

“Não deveríamos todos querer que essas coisas funcionassem melhor para mais pessoas?”, questionou.

Os robôs estão em cena há anos, mas tem sido um trabalho árduo para os cientistas fazê-los reproduzir tarefas tão bem como os humanos – principalmente quando elas envolvem mãos. A Amazon tem os robôs Kiva, que lembram os Roombas e movem pacotes no chão da fábrica, porém ainda precisam de humanos para embalá-los e organizá-los.

Elon Musk já disse anteriormente que iria automatizar as operações na Tesla, porém humanos ainda são necessários para trabalhar na linha de produção da montadora em Fremont, na Califórnia. Ele também apresentou recentemente o protótipo do robô humanoide da Tesla, o Optimus, que tem como objetivo redefinir o trabalho físico.

Há pouco tempo, o Google anunciou robôs alimentados por inteligência artificial para ajudar humanos nas tarefas diárias. Alguns deles estão aprendendo até mesmo a fazer batata frita.

Apesar dos avanços, o desafio mais difícil para os pesquisadores tem sido ensinar os robôs a ajustar suas garras para diferentes tamanhos e formatos, disse Ken Goldberg, professor de engenharia industrial da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Entretanto, na última década, as coisas começaram a mudar, disse ele. A tecnologia de câmeras 3D, impulsionadas pelas câmeras de detecção de movimento do Kinect da Microsoft, tornou-se melhor na identificação de imagens. A aprendizagem profunda, um ramo da inteligência artificial que usa algoritmos inspirados livremente no cérebro humano, permite que os computadores analisem mais imagens. Os pesquisadores começaram a entender melhor a física de agarrar as coisas e integraram isso em ventosas e colhedoras robóticas.

O resultado: máquinas robóticas modernas que muitas vezes se parecem com braços longos. A visão delas é alimentada por um software que usa algoritmos de aprendizado de máquina para analisar a aparência dos objetos e orientar os robôs sobre como agarrar as coisas. As ventosas ou garras ajustam a pressão e o controle com a delicadeza que os seres humanos acham natural.

A Amazon, em particular, tem tentado alcançar a tecnologia, disseram especialistas do setor. Como uma das maiores varejistas do mundo, atormentada por altos índices de rotatividade e promessas de entregas velozes, faz bastante sentido financeiramente tentar automatizar ao máximo os processos no armazém.

Em 2012, a Amazon adquiriu a empresa de robótica Kiva por US$ 775 milhões de olho na oportunidade. Em 2014, a empresa anunciou um “desafio para segurar”, estimulando cientistas a criar robôs capazes de pegar itens diversos, desde marcadores permanentes a pacotes de biscoito, de uma prateleira móvel.

No mês passado, a Amazon apresentou seu robô de coleta e triagem chamado Sparrow, um braço robótico longo capaz de pegar mercadorias antes de elas serem embaladas em caixas. Ele está sendo pesquisado e desenvolvido em Massachusetts e em uso numa instalação da Amazon em Dallas, disseram funcionários. Ele pode identificar cerca de 65% dos produtos no estoque da empresa, de acordo com as fontes, mas os planos de expansão em todo o país ainda não foram definidos.

O robô se encaixa em uma estratégia de automação mais ampla, de acordo com a Amazon. Se dominar a técnica, Sparrow poderia pegar produtos depois de eles terem sido descarregados de caminhões, e antes de serem empacotados e colocados em prateleiras móveis. Depois dos produtos serem encaixotados, o sistema robótico da Amazon, chamado Robin, poderia organizá-los de acordo com seu destino. Cardinal, outra máquina robótica, poderia colocá-los em um carrinho enquanto esperam para serem carregados em um caminhão.

A Amazon tem dito com frequência que mais máquinas vão permitir que as pessoas encontrem melhores empregos. Os robôs estão “assumindo algumas das tarefas altamente repetitivas dentro de nossas operações, liberando nossos funcionários para trabalhar em outras funções que são mais interessantes”, disse Xavier Van Chau, porta-voz da empresa.

Em março, a gigante de entregas de pacotes e encomendas Pitney Bowes fechou um acordo de US$ 23 milhões com a Ambi Robotics para usar os robôs de separação e triagem da empresa para ajudar a classificar pacotes de vários formatos, tamanhos e embalagens. Em agosto, a FedEx concordou em adquirir US$ 200 milhões em robótica para seus armazéns da Berkshire Grey para realizar tarefas semelhantes. Alguns meses antes disso, ela lançou um robô de triagem de correspondência alimentado por IA na China.

Embora a maior parte da tecnologia tenha começado a aparecer há alguns anos, levou tempo para garantir que esses sistemas diminuíssem as falhas para menos de 1%, disse Hauser, o que é crucial para os resultados da empresa.

“Cada erro sai caro”, acrescentou. “Mas agora, [os robôs] estão em um ponto no qual podemos de verdade dizer: ‘Ei, isso vai ser tão confiável quanto sua esteira transportadora.’”

A receita gerada pelas empresas que fabricam robôs de separação e triagem está disparando, disse Ash Sharma, especialista em uso de robótica em armazéns pela indústria da Interact Analysis, empresa de pesquisa de mercado.

A Interact calcula que os fabricantes desses produtos vão arrecadar US$ 365 milhões este ano. Para o próximo ano, esse valor deve ser superior a US$ 640 milhões. É um salto em relação aos cerca de US$ 200 milhões em 2021 e os US$ 50 milhões em 2020, que essas empresas geraram em receita, mostram as previsões de dados.

Um fator de peso é a escassez de mão de obra, disse ele.

Beth, da Universidade de Illinois em Chicago, disse que, embora a tecnologia pareça interessante, ela vem acompanhada de riscos. Com mais robôs nos armazéns, os trabalhadores ao redor deles precisarão trabalhar num ritmo mais veloz, correndo mais risco de se machucar.

O Washington Post já publicou matérias afirmando que os armazéns da Amazon podem ser mais perigosos que os dos concorrentes. Especialistas dizem que acrescentar robôs ao processo pode aumentar as lesões.

Van Chau disse que as máquinas que realizam tarefas repetitivas vão ajudar os trabalhadores. “Podemos tirar um pouco dessa pressão dos funcionários”, disse ele.

Mas Beth diz ser preciso ficar de olho nas empresas que defendem esses robôs como uma ajuda, pois elas tendem a implementar soluções rápido demais.

“É como aquele famoso lema ‘mexa-se rápido e quebre as coisas’”, disse ela. “E, nesse caso, acho que ‘as coisas quebrando’ terminam sendo as pessoas”./TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

https://www.estadao.com.br/link/empresas/robos-ganham-eficiencia-e-ameacam-empregos-nas-fabricas/

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Energia solar supera eólica e se torna a segunda maior fonte da matriz brasileira

A fonte fica atrás das hidrelétricas, que têm hoje 109,7 GW, segundo dados da Agência Nacional de Energia (Aneel)

Por Robson Rodrigues, Valor — 03/01/2023

Em uma década, a energia solar saiu praticamente do zero em capacidade instalada na matriz elétrica brasileira para o posto de segunda colocada, atrás das hidrelétricas. A fonte acaba de superar as eólicas em instalações e bateu a marca histórica de 23,9 gigawatts (GW) de potência, somando as usinas de grande porte e os pequenos sistemas fotovoltaicos de geração própria em telhados, fachadas e pequenos terrenos.

O montante equivale a 11,2% da matriz elétrica do país. Desde 2012, os investimentos somaram R$ 120,8 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar). Melhora tecnológica, evolução do mercado no Brasil, redução dos custos e boa qualidade de insolação no território brasileiro criaram condições ideais para que a fonte crescesse.

Soma-se ainda a forte política estatal de incentivos para as energias renováveis como pilar de sustentação ao crescimento, de acordo com o projeto Economia da Inovação Energética e Transição do Sistema (EEIST, na sigla em inglês).

Ao Valor, o presidente da Absolar, Rodrigo Sauaia, diz que o Brasil está entre os dez maiores mercados do mundo neste segmento, e ainda galgando espaço. “A primeira contratação de energia solar feita pelo governo federal foi em 2014 e apenas em 2017 o Brasil conquistou o primeiro gigawatt matriz. Se formos comparar com o setor eólico, o primeiro leilão deles foi feito uma década antes”, diz o executivo.

O ano de 2022 foi singular nesta trajetória: o setor superou os desafios da oscilação cambial, alta dos fretes, colapso das cadeias de suprimentos da China, congestionamentos em portos, inflação causada pela alta demanda global e reflexos da pandemia. Mesmo assim, o Brasil adicionou 9 GW de potência. Só nos últimos 150 dias, o ritmo de crescimento foi superior a 1 GW por mês.

Com isso, a energia gerada a partir de painéis fotovoltaicos se consolidou como o segmento que mais cresce no setor elétrico, associando a crescente busca por energia limpa e renovável com o apelo do baixo custo.

Ao que tudo indica a energia solar deve continuar crescendo com fôlego. A projeção da Bloomberg é que, até 2050, a fonte deve ocupar a primeira posição da matriz brasileira, superando as hidrelétricas, que têm hoje cerca de 109,7 GW em operação, segundo informações da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

“Esse caminho poderá ser traçado de maneira mais ou menos ágil, de acordo com as políticas públicas que forem desenvolvidas, de acordo com o uso que essas tecnologias vão ter em programas governamentais”, diz Sauaia.

Importante destacar que a fonte solar é significativa na matriz por conta da geração distribuída, modalidade de produção de energia gerada principalmente com painéis solares junto ou próxima dos consumidores com limite de até 5 megawatts (MW). Graças à sua versatilidade e agilidade, um sistema no telhado ou um pequeno terreno fica operacional em apenas 24 horas.

O presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), Guilherme Chrispim, lembra que neste contexto histórico as eólicas levaram mais tempo para alcançar o mesmo patamar. Além do mais, o crescimento da solar foi fundamental para o desenvolvimento social, econômico e ambiental do Brasil, no momento em que o consumidor passou a ter mais poder, inclusive com a opção de gerar sua própria energia.

“Quem fez a energia solar ser a segunda maior fonte na matriz foi a geração distribuída para pequenos consumidores (…), isso demonstra a democratização desta fonte, sem contar que área com sol não falta no Brasil.”

Não à toa a geração distribuída foi a modalidade que mais adicionou potência no sistema, 7,7 GW frente aos 4,6 GW de 2021 e deve continuar sendo quem mais vai injetar capacidade.

Para 2023, a Absolar prevê que a fonte deve incrementar mais 10 GW de capacidade no sistema elétrico e fechar o ano com 34 GW no total acumulado. Deste montante, 21,6 GW serão provenientes de pequenos e médios sistemas instalados pelos consumidores nas residências, pequenos negócios, propriedades rurais e prédios públicos.

O caminho ainda é longo para o setor. O desenvolvimento tecnológico tem muito a se desenvolver, já que boa parte dos painéis solares instalados em residências têm baixa eficiência. As células de silício cristalino tinham 13% de eficiência há dez anos, hoje o mercado tem células de até 26%. Ao passo que a tecnologia avança, os custos caem na proporção inversa.

“Desde 2020, a solar é a fonte que gera energia elétrica com o menor custo-benefício em locais em que moram mais de 60% da população do mundo. Mais baratas do que termelétricas a carvão, eólicas e fontes hídricas”, diz Sauaia, ao se referir a grandes usinas. Aliás, de acordo com a previsão da Agência Internacional de Energia (AIE), a fonte deve superar a produção energética com carvão até 2027.

Um estudo da consultoria Greener, com empresas do setor no Brasil, aponta que os sistemas solares de menor porte também tiveram os custos reduzidos. O diretor da consultoria, Marcio Takata, diz que um sistema fotovoltaico residencial que custava, em média, R$ 35 mil em 2016 atualmente pode ser adquirido por R$ 19,5 mil.

Mesmo com a substancial queda nos preços dos equipamentos, o sistema ainda é de difícil acesso para famílias de baixa renda. A diretora e fundadora da consultoria Clean Energy Latin America (Cela), Camila Ramos, frisa que mesmo com a alta de juros no Brasil, a procura por financiamento de placas solares têm aumentado por conta da crescente alta na conta de luz dos brasileiros nos últimos anos.

Segundo a executiva, as linhas de financiamento no segmento aumentaram no último ano. O setor defende mais acesso a crédito em programas sociais para trazer de maneira mais democrática essa tecnologia à toda sociedade.

O crescimento da fonte não se restringe ao Brasil. O mundo todo vem apresentando recordes de instalações não só porque os países estão impulsionando a expansão de energias renováveis, mas também para alcançar suas metas climáticas e de segurança energética. A China, por exemplo, tem mais de 306 GW. Os EUA estão com mais de 123 GW, segundo dados de 2021. Comparado com alguns países, o Brasil ainda dá seus primeiros passos.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/01/03/energia-solar-supera-eolica-e-se-torna-a-segunda-maior-fonte-na-matriz-eletrica-brasileira.ghtml

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Novo centro de pesquisas da Unicamp já busca soluções para a Internet 6G

Fruto de parceria com a Fapesp e a empresa Ericsson, o Smartness vai reunir pesquisadores de várias universidades para explorar soluções inovadoras em telecomunicações

Por Cleide Carvalho — O Globo – 02/01/2023 

Unicamp inaugura Centro de Pesquisa em Engenharia em Redes e Serviços Inteligentes, parceria com a Fapesp e a empresa Ericsson Unicamp inaugura Centro de Pesquisa em Engenharia em Redes e Serviços Inteligentes, parceria com a Fapesp e a empresa Ericsson Divulgação

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a empresa Ericsson criaram o Centro de Pesquisa em Engenharia em Redes e Serviços Inteligentes (Smartness), voltado ao desenvolvimento de soluções de rede e aplicações voltadas à sexta geração de internet móvel (Internet 6G), prevista para 2030.

Pelo menos outras 16 universidades brasileiras estão engajadas no projeto, que deve envolver pelo menos 50 pesquisadores em seu primeiro ano. O investimento é de R$ 56 milhões em dez anos, dos quais 28 milhões são aportes da Fapesp e da Ericsson, que ficará responsável pela infraestrutura.

A ideia é garantir soluções para infraestrutura de rede aplicada, baseada em inteligência artificial para que as conexões de tornem mais eficazes e seguras. As conexões hoje são entre humanos e máquinas, mas em 2030 o tráfego de informações poderá ocorrer entre máquinas inteligentes conectadas, aumentando a demanda do sistema.

Há ainda pela frente a “internet dos sentidos”, que pode misturar o mundo real com o virtual, criando uma realidade mista com uso de inteligência artificial, realidade virtual e realidade aumentada.

— É difícil antecipar o futuro. Nosso desafio é antecipar as possibilidades, criando conexões que tornem possível aquilo que não é imaginável hoje — afirma Mateus Santos, head de pesquisa aplicada da Ericsson no Brasil.

O Smartness deve funcionar como um hub de pesquisas, atraindo pesquisadores que, muitas vezes, costumam migrar para empresas privadas ou sair do Brasil. Com o centro, é possível garantir 10 anos de suporte financeiro e tecnológico para que as pesquisas sejam concluídas com vistas à chegada da internet 6G e suas novas possibilidades.

O uso de inteligência é considerado essencial para a sexta geração da internet móvel, pois permite diminuir a complexidade da operação e dos custos das redes, que tendem a se tornar muito mais complexas.

— A inteligência artificial é fundamental na construção de novas soluções. Buscamos uma rede mais automatizada, que opere com menor intervenção humana, com mais segurança e mais resiliente a falhas — explica Santos.

O professor Christian Esteve Rothenberg, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp e pesquisador responsável pelo Smartness, descreve a atividade do centro como o desafio de “olhar para o futuro e pensar quais são os serviços e as aplicações que vão demandar um conjunto de novas tecnologias nos próximos dez anos”.

— O objetivo é desenvolver pesquisas, com avanços científicos e tecnológicos para aplicações na indústria e na sociedade. É tão importante a produção do conhecimento quanto a aplicação em termos práticos — afirma Rothenberg.

Segundo o professor, o centro vai buscar solucões para os desafios da telemedicina, da educação à distância e das aplicações industriais e da sociedade, como realidade aumentada, carros autônomos, robôs e drones.

Entre as aplicações futuras, por exemplo, estão uso de braços robóticos para aplicações industriais e de saúde, como tele cirurgias e treinamentos com óculos na realidade aumentada. Na área de saúde, por exemplo, há o desenvolvimento de instrumentos capazes de permitir cirurgias à distância.

O armazenamento de dados é outra preocupação para o fim desta década, com o objetivo de trazer a nuvem para perto do usuário. Usada para arquivo de dados, a nuvem pode permitir posicionamentos mais precisos e interação entre os óculos de realidade virtual com o ambiente físico.

O Smartness funciona na Unicamp, em Campinas, universidade que tem uma longa parceria com a sueca Ericsson, inclusive com o financiamento de viagens internacionais de pesquisadores. A empresa possui um centro de pesquisa e desenvolvimento em Indaiatuba, na mesma região, que conecta pesquisadores brasileiros e estrangeiros com diversas universidades do país.

A proposta é atrair outras companhias para apoiar, testar e ampliar a busca de soluções para outros segmentos do mercado. A Unicamp já possui outros centros no mesmo modelo, como o Centro de Inovação em Novas Energias (Cine) e o Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/01/novo-centro-de-pesquisas-da-unicamp-ja-busca-solucoes-para-a-internet-6g.ghtml

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Cientistas finalmente conseguem gerar energia com fusão nuclear

É um marco histórico, mas ainda é apenas um pequeno passo na busca por energia livre de carbono

Alex Pasternak – Fast Company Brasil – 16-12-2022 

O Departamento de Energia dos EUA anunciou que os cientistas do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia, conseguiram pela primeira vez realizar um experimento de fusão nuclear em que a energia produzida superou a energia consumida pela reação – um grande avanço na longa busca por energia potencialmente ilimitada livre de carbono.

Desde a década de 1940, os cientistas pesquisam maneiras de aproveitar a reação que alimenta o Sol na esperança de gerar uma fonte de energia mais limpa do que os combustíveis fósseis e a fissão nuclear. As reações de fusão, que resultam da fusão de núcleos, geram uma imensa quantidade de energia, sem emitir carbono nem produzir lixo radioativo.

Apesar de experimentos passados terem nos dado a bomba de hidrogênio e as armas nucleares mais poderosas já construídas, os usos para o dia a dia nunca se materializaram. Agora que alcançamos esse marco tão aguardado, a energia de fusão parece mais próxima do nunca. Mas isso não significa que vamos ter acesso a ela tão cedo.

COMO ATINGIR O GANHO LÍQUIDO DE ENERGIA

Para atingir a ignição por fusão, um experimento de US$ 3,5 bilhões do Laboratório Livermore em uma instalação construída especificamente para esse objetivo, a National Ignition Facility (NIF), usou um processo chamado fusão por confinamento inercial, que envolve disparar centenas de feixes de laser de alta potência em uma cápsula esférica de diamante polido contendo uma pequena pastilha de combustível deutério-trítio.

Os feixes de laser fazem com que a cápsula imploda, comprimindo o combustível a pressões maiores que a do Sol para criar um plasma de hidrogênio e – esperam os cientistas – forçar os núcleos dos átomos a se fundirem, liberando uma tremenda quantidade de energia.

A ignição que a NIF produziu em um experimento na semana passada gerou 3,15 megajoules de energia, um ganho de aproximadamente 54% sobre os cerca de 2 megajoules que a reação consumiu dos lasers, sugere a análise do laboratório.

O diretor do Livermore, Kim Budil, disse que a busca pela ignição por fusão no laboratório foi “um dos desafios científicos mais significativos já enfrentados pela humanidade” e que os pesquisadores “deram os primeiros passos experimentais em direção a uma fonte de energia limpa que poderia revolucionar o mundo.”

QUAIS SÃO OS PRÓXIMOS PASSOS DA FUSÃO?

Para se tornar uma fonte de energia comercial viável, os reatores de fusão precisarão ser capazes de extrair uma quantidade significativa de energia líquida da reação. Muitos cientistas acreditam que as usinas de fusão ainda levarão décadas até que se tornem uma realidade e será necessário muito mais investimento.

Pelo menos 33 empresas diferentes estão estudando a fusão nuclear, de acordo com a Fusion Industry Association, uma associação comercial independente sem fins lucrativos. De junho de 2021 a junho de 2022, elas levantaram US$ 2,83 bilhões, elevando o investimento total do setor privado para quase US$ 4,9 bilhões.

Pela primeira vez, o mercado de títulos verdes da Europa está disposto a financiar projetos de energia nuclear.

O governo norte-americano também tem ajudado. Em julho, o Departamento de Energia dos EUA anunciou a destinação de valores entre US$ 50 mil e US$ 500 mil a 10 empresas de fusão que trabalham em projetos com universidades e laboratórios do país.

David Kirtley, CEO da Helion Energy, que pretende produzir energia líquida a partir de fusão em 2024, espera que os resultados da NIF impulsionem toda a indústria. “Embora a NIF não esteja focada na produção de energia comercial, sua pesquisa é útil para empresas do setor como a Helion, já que elimina os riscos e estuda a física por trás do processo de fusão”, disse ele.

A energia nuclear convencional, gerada por fissão em vez de fusão, também parece mais atraente. Com os preços de energia em alta, junto com as demandas por independência energética e uma necessidade urgente de energia livre de carbono, vários governos estão aumentando os investimentos ou revisitando seus antigos projetos de energia nuclear, incluindo Japão, Coreia do Sul, Alemanha e o estado da Califórnia.

Pela primeira vez, o mercado de títulos verdes da Europa está disposto a financiar projetos de energia nuclear. Nos EUA, a Lei de Redução da Inflação destinará milhões a novos projetos, incluindo reatores modulares, incentivos para produção nuclear e mineração doméstica de urânio. E, após anos de financiamento mínimo, US$ 280 milhões serão destinados à pesquisa sobre energia de fusão.

Tendo em vista os muitos marcos que ainda terão de ser alcançados, a indústria precisará de todo o investimento que conseguir.


SOBRE O AUTOR

Alex Pasternack é jornalista e escreve sobre urbanismo, recursos naturais, arquitetura e transportes. s

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