ChatGPT não ameaça educação, mas nos desafia a repensar como aprendemos e ensinamos

Por Paulo Silvestre – Estadão – 30/01/2023 

 Foto: Estadão

Educadores estão em polvorosa, diante de uma nova plataforma de inteligência artificial. Apesar de ter sido liberada há apenas dois meses, o ChatGPT vem provocando discussões éticas, tecnológicas e profissionais sobre se o digital poderá substituir seres humanos em tarefas intelectuais em que ainda nos sentíamos “seguros”. Nas escolas, esse temor chegou quando estudantes começaram a apresentar trabalhos que haviam sido escritos pela máquina.

Diante da qualidade dos argumentos e da fluência da escrita naquelas tarefas, professores passaram a se perguntar se perderiam a capacidade de identificar “plágios” de seus alunos. Outros, mais fatalistas, já se questionam se a própria profissão poderia desaparecer, sendo substituídos pelas máquinas.

Essas perguntas estão erradas! E a escola, mais que ensinar boas respostas aos alunos, deve ensiná-los a fazer as perguntas certas na vida.

Entendo que professores estejam preocupados. Esse desafio não pode ser ignorado, mas ele não pode servir como motivo para bloquearem a entrada da inteligência artificial nas aulas. Isso, sim, seria uma ameaça à manutenção de seu ofício.

O ChatGPT é uma plataforma criada pela empresa OpenAI capaz de escrever textos complexos a partir de comandos em linguagem natural. Ele simula uma conversa com uma pessoa, permitindo o encadeamento entre respostas e perguntas. Funciona em vários idiomas, inclusive no português, e suas produções vêm surpreendendo especialistas e o público, pela qualidade.

Os mais entusiasmados dizem que poderia até ameaçar a supremacia do Google como ferramenta de busca. Tanto que, no dia 23, a Microsoft fez um investimento bilionário na empresa (o mercado estima em algo como US$ 10 bilhões), para incluir essas funcionalidades em seus produtos, como o Office e o Bing.

“A tecnologia, desde a invenção de Gutenberg, entra cada vez mais no âmago do humano”, explica Lucia Santaella, professora-titular da PUC-SP. “Com a inteligência artificial, ela penetra nas questões que a gente considera o mais nobre do humano, que é a sua capacidade de pensar e de falar.”

De fato, essa interação como conversa é decisiva para seu sucesso. “Ele é baseado em perguntas, e é da natureza do humano a investigação, a pergunta, a exploração e a conversa”, afirma Ana Paula Gaspar, assessora de tecnologia da Escola Vera Cruz.

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Para muitos, o ChatGPT pode vencer o “teste de Turing”, método criado há 70 anos para descobrir se uma máquina é inteligente. Ele prevê que uma pessoa tenha uma longa conversa por texto e, ao final, não consiga distinguir se falou com outra pessoa ou um robô.

“É uma visão totalmente equivocada achar que a tecnologia é uma mera ferramenta”, sugere Santaella. “Ela é linguagem!”

Ferramenta pedagógica

Tanto que o caminho para resolver os temores escolares já citados passa pelos professores se apropriarem da inteligência artificial, ao invés de tentar bloqueá-la.

“Toda tecnologia, quando aparece, muda comportamentos”, afirma Diogo Cortiz, professor da PUC e especialista em IA. “Isso causa medo, espanto, porque a gente não sabe muito bem o que vai acontecer.”

“A grande questão é de educação do humano para utilizar bem esse recurso”, propõe Ana Lúcia de Souza Lopes, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “E o que a escola faz? A escola se retira!”

Os entrevistados são unânimes ao afirmar que tentar impedir que os alunos usem a ferramenta é inócuo, pois encontrarão maneiras de burlar as restrições. Mas manter os processos atuais de aprendizagem e de avaliação é igualmente inadequado.

A tecnologia deve ser usada como aliada para alunos ganharem recursos para entender o porquê do que aprendem, abandonando o infame “decoreba”. “A partir do momento em que tem um desafio que o algoritmo vence, eu preciso liberar o estudante cognitivamente para tarefas mais complexas”, explica Gaspar.

Como exemplo, pode ser usada para uma produção colaborativa dos alunos, em que avaliem a qualidade e a precisão do que o robô gerou. Ela também pode ser usada como apoio para debates e até estudo de idiomas. “Devemos colocar os estudantes para usar essa ferramenta, mas sempre com um olhar muito crítico”, indica Cortiz.

A inteligência artificial faz parte do nosso cotidiano de maneiras que nem suspeitamos, como viabilizando, de maneira transparente, alguns dos recursos mais incríveis de nossos celulares. E ela cresce de maneira exponencial: o ChatGPT deu apenas mais visibilidade ao tema. Ainda assim, essas transformações têm acontecido sem debates com a sociedade sobre suas consequências.

As escolas -as universidades especialmente- têm um papel importantíssimo nesse processo. São elas que realizam as pesquisas sobre seus impactos sem um viés econômico. As empresas criadoras desses recursos deveriam, por sua vez, fazer o mesmo, mas nem sempre isso acontece, preferindo promover inconsequentemente seus lançamentos que podem lhes render bilhões em lucros. “A gente tem que entender qual é a responsabilidade que a gente tem quando a gente põe um conhecimento no mundo”, alerta Lopes.

É nas escolas também onde crianças e adultos precisam entender a se apropriar desses recursos para aprender mais e melhor. Um uso da inteligência artificial que respeite isso favorecerá nossa própria inteligência humana. Como explica Santaella, “a inteligência é metabólica, então ela cresce através do aprendizado.”

Por tudo isso, plataformas como o ChatGPT não podem ser temidas nas escolas. Pelo contrário, precisam ser abraçadas pelos educadores, para prepararem seus alunos para um mundo já inundado pelo digital. Precisamos reaprender a aprender diante de tantas e incríveis possibilidades. E quem melhor que os próprios professores para nos ensinar a fazer isso?

https://www.estadao.com.br/brasil/macaco-eletrico/chatgpt-nao-ameaca-educacao-mas-nos-desafia-a-repensar-como-aprendemos-e-ensinamos/

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Caso Americanas: PhD em governança faz autópsia do modelo 3G e de suas ‘obsessões’

Alexandre Di Miceli aponta como os valores do grupo podem levar à “cegueira ética”

Graziella Valenti – Exame – 29 de janeiro de 2023

O caso Americanas (AMER3)  é um duro golpe ao modelo de gestão da 3G Capital, que já vinha sofrendo ao longo dos últimos anos.  O trio Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira é dono de uma fortuna somada de R$ 180 bilhões. Como donos de Ambev, AB Inbev, Kraft-Heinz e Burger King se tornou uma referência internacional. “É um mito sendo desconstruído”, destaca Alexandre Di Miceli, a respeito da filosofia do trio. Apesar de o episódio ser ruim para o mercado brasileiro no curto prazo, a expectativa do especialista é que, no longo prazo, os efeitos sejam positivos.

O rombo de R$ 20 bilhões da Americanas se soma a outros dois episódios em empresas do trio: os ajustes de US$ 15 bilhões no balanço da Kraft-Heinz, em 2019, e a republicação dos balanços de 2013 e 2014 da ALL pela Cosan. Se antes havia questionamentos sobre a capacidade de gestão, para além da eficiência de custos, agora o novo escândalo atinge em cheio os valores meritocráticos tão propagados pelo trio.

“O modelo 3G não tem nada de original. Ele é um amálgama, uma cópia de práticas de outras empresas. E essas companhias todas tiveram problemas graves”, enfatiza Di Miceli. Di Miceli é um dos principais estudiosos de boas práticas de governança corporativa do Brasil e, nos últimos vinte anos, se dedicou também a esmiuçar a cultura Ambev. Fundou a Virtuous Company Management e atua como consultor de companhias. PhD em administração de empresas com foco em governança corporativa pela USP, foi professor da casa por mais de uma década. Em 2016, em seu livro “Ética empresarial na prática”, já era crítico e questionador dos valores do trio antes dos problemas virem à tona.

Confira a seguir a entrevista:

Como você vê o caso Americanas, que anunciou um rombo de R$ 20 bilhões no balanço? É ruim para todo o mercado brasileiro, não?

Alexandre Di Miceli: Eu acredito que é ruim e bom. Ruim no curto prazo. Mas, sinceramente, acho que vai ser bom mais à frente porque esse modelo [do trio da 3G Capital] foi inspiração para muita gente. E continua sendo. Tanto para empresas serem reestruturadas, como para pessoas no início de carreira. Então, há um modelo, um mito, sendo desconstruído. E acho que esse é um ponto que pode ser positivo mais de longo prazo. Esse caso vai ajudar o nosso mercado porque vai mostrar de forma muito clara para as lideranças empresariais que essa fórmula obcecada pela geração de valor ao acionista é de tiro curto, gera muitos passivos e destrói valor no lugar de criar.

Mas eles seguem com uma grande aura como bons gestores.

Di Miceli: Sim. É uma aura tão grande que está todo mundo com medo de usar a palavra fraude. A pergunta que eu gostaria de fazer é a seguinte: se uma estatal tivesse ocultado R$ 20 bilhões em dívida de seu balanço, a gente estaria falando em que? Fraude. Alguém falaria em “inconsistência contábil” em uma empresa estatal. Mesmo se fosse uma companhia familiar qualquer. O que é inconsistência contábil? É como se fosse algo aleatório, um erro de cálculo, uma desorganização. Como se não houvesse culpa. Houve tomada de decisões nesse caso, claro que houve. A própria forma de como o problema se tornou público mostra isso. Quando existe inconsistência contábil mesmo, a própria gestão pode perceber que estava cometendo erro. Mas isso só se tornou público com a chegada de um novo CEO, que contou com ajuda de dois diretores. Portanto, era algo conhecido. Isso não condiz com uma história de erro.

Sua consideração me leva a uma outra pergunta: existe diferença na responsabilidade de quem atua ou de quem foi omisso? Juridicamente tem, mas e moralmente?

Di Miceli: A essência da boa governança, um de seus princípios fundamentais, é você voluntariamente procurar assumir as responsabilidades pelos atos ou omissões – veja, ou omissões – ocorridas durante seu mandato. Está no meu livro. É um dos dez princípios globais das boas práticas. O comunicado que o trio fez é muito ruim porque, de certa maneira, eles tratam como se fosse uma questão da auditoria e dos bancos. É inacreditável.

Mas eles tinham uma estrutura formal de governança bastante completa.

Di Miceli: Quando olhamos a estrutura de governança eles, há toda essa parte formal. Há cinco comitês de assessoramento do conselho de administração, além do de auditoria. Eles escrevem que possuem uma política robusta de gestão de risco. São 19 políticas formais: como compliance, de segurança da informação, código de ética de conduta. Criaram recentemente uma diretoria de gestão de risco e compliance. Mas é uma questão de modelo.

O que você quer dizer quando fala em modelo?

Di Miceli: Estamos falando de uma abordagem de negócios, de uma filosofia, uma cultura. E quando falamos cultura é uma combinação de crenças, valores e normas de conduta compartilhadas por um grupo. É o que constitui o ambiente único psicológico e social de uma organização.

E quais são as crenças que norteiam o modelo 3G?

Di Miceli: Ele é baseado em crenças muito ruins. Primeiro, o conceito de sucesso. Ele é focado na questão de crescimento e lucro. Um dos valores essenciais do modelo, está lá escrito, é serem “obcecados” por resultados. Quando você vai até o dicionário, vê que obsessão é uma compulsão. É o apego exagerado por uma ideia que não é razoável. É ter uma motivação irresistível para um ato irracional. É uma base ruim.

Qual o resultado final para as companhias?

Di Miceli: Eles possuem uma visão distorcida e pobre de empresa. Do papel da companhia na sociedade. Aliás, para eles, uma empresa está só dentro do mercado. Mas eles não entendem que o mercado está dentro da sociedade, que está dentro do planeta. É só ver o que ocorreu. Eles emitiram um comunicado. Não veio ninguém realmente a público prestar contas para a sociedade. Essa empresa gera, direta e indiretamente, 100 mil empregos, tem 50 milhões de clientes, é um negócio de quase 100 anos e muita gente tem envolvimento afetivo com essa história. Ou seja, há um impacto social muito grande disso que aconteceu. E eles não conseguem vir a público demonstrar um apreço por isso, uma responsabilidade, no sentido ampliado. Isso mostra como existe uma percepção de que a empresa é uma caixinha para se fazer dinheiro. E aí tudo isso leva a um modelo, que é um conjunto de práticas.

Quais práticas? Como isso tudo se traduz em rotina?

Di Miceli: Tudo isso se traduz em uma pressão muito grande, o tempo inteiro, por resultados. Principalmente por resultados de curto prazo. Há 20 anos eu estudo esse modelo. Meus estudos não só acompanham dados e documentos, mas também têm muitas entrevistas com pessoas que passaram por negócios do grupo. E fica claro que é uma cultura do medo.

Como se cria essa cultura?

Di Miceli: Quase sempre existem metas irrealistas e unidimensionais. Quando são usadas metas irrealistas, elas são claramente muito centradas no resultado financeiro. E eles são obcecados em passar para o público externo essa impressão de meritocracia, eficiência, de modernidade. Só que quando analisamos os depoimentos públicos de funcionários e ex-funcionários, é possível ver que os ambientes são caóticos, ambíguos, incertos. É um modelo antiético. Você pega um punhado de pessoas e dá uma remuneração multimilionária. Essa é a grande cenoura. Daí, os jovens entram pensando em ‘chegar lá’. E estatisticamente ele [jovem] não vai [chegar ao topo]. Em inglês é o “over work, underpay”. Uma cultura forte não significa que seja saudável.

E isso está institucionalizado no modelo de que forma?

Di Miceli: É a cultura de que o vencedor leva tudo. Fala-se muito de que o trio 3G foi a contribuição do modelo de gestão do Brasil para o mundo, mas na verdade não é isso.

Eles não são uma referência global de gestão?

Di Miceli: Pode até ser. Mas é um modelo que, na verdade, é uma cópia de práticas de três empresas principalmente.  A primeira é a GE, daquele que foi ídolo, Jack Welch. E A GE vale hoje um quarto do que valia há 20 anos. Welch, quando CEO, falava muito do modelo 20-70-10. Você precisa promover e premiar 20% das pessoas, 70% da massa você aguenta e 10%, todo ano, você precisa mandar embora. É um ranqueamento forçado do “vencedor leva tudo”. É perverso porque ele não permite que todos sejam competentes. A segunda empresa de inspiração foi claramente o Goldman Sachs, com a ideia do incentivo agressivo: de tornar as pessoas sócias, dar muita remuneração variável. O terceiro é o Walmart, com a ideia de espremer fornecedores, de controlar custos. Portanto, o modelo 3G não tem nada de original. Ele é um amálgama, uma cópia de práticas de outras empresas. E essas companhias, justamente, tiveram problemas graves: a GE acabou, tal como era, o Goldman passou por muitas discussões éticas e o Walmart atravessou muitos problemas, como o debate sobre salários abusivos e questões com fornecedores, e teve de se reinventar.

Como esse amálgama se reflete em práticas?

Di Miceli: É um modelo muito propenso à cegueira ética. Tem os ingredientes perfeitos para isso. E não é porque eu estou dizendo isso. Há um campo de estudos todo já desenvolvido. E esses estudos mostram que você pode ter uma receita perfeita para o desastre. Ela é relacionada ao excesso de pressão para alcance de metas e à dinâmica temporal perversa. E quanto menos tempo você tem para pensar e refletir, maior a chance de ir para o piloto automático. E, com isso, tomar decisões ruins. As pessoas não fazem nada do A para o Z. Não existe uma grande transgressão do dia para a noite. Tudo é resultado de um processo lento e gradual, que vai mudando a percepção das pessoas sobre o que é ‘normal’.

Mas isso vale para problemas de contabilidade?

Di Miceli: Claro. Ninguém começa uma grande fraude pensando na grande fraude. Eu não acredito em bem ou mal.  Ou em pessoas ruins. Não é um problema de pessoas. É um problema de sistema. Mas é um modelo perverso que desperta o pior das pessoas. Esses ingredientes são perfeitos para uma receita que leve ao desastre. Por isso, a preocupação é tão grande. É um conceito de sucesso pobre, que não tem um propósito maior. Quando o número, a meta, não é alcançado, haverá um automatismo para mostrar que foi feito. Uma tentativa de dizer e mostrar o contrário.

Você está dizendo que as pessoas não tinham consciência de fazer algo errado? E isso não é só sobre Americanas, mas sobre todos os escândalos que já vimos e vivemos?

Di Miceli: Os crimes corporativos têm uma diferença muito grande dos crimes comuns. Primeiro, existe uma questão relevante de defasagem temporal. Se eu roubo a sua carteira, você sente o impacto agora. No ambiente corporativo, o que você faz de incorreto não se sente de imediato. Em geral, só vai reverberar anos depois. Muitas vezes, inclusive, uma coisa errada é feita e o mercado aplaude sem saber. Acaba sendo um reforço positivo para que mais daquilo seja feito. Olhe o caso em questão aqui, da Americanas. A companhia tinha uma dívida oculta de mais de R$ 20 bilhões. Consequentemente, isso permitiu lucros maiores e remunerações maiores, mais dividendos e mais facilidade para captar recursos. Havia um incentivo positivo.

Aquele que comete o erro, de forma consciente ou não, sequer pode ser alertado por uma reação negativa do coletivo, é isso?

Di Miceli: Sim, tem isso. Mas há ainda um distanciamento muito grande psicológico e físico. Quem sofre? Quem é lesado? É uma massa anônima. Não há empatia. E o modelo faz questão de tirar a empatia. ‘It’s just business.’ É só negócio. É só número. Não há relações humanas entre as pessoas. É por isso, inclusive, que esse é um modelo por definição antiético.

Você pode explicar melhor?

Di Miceli: Ética é interdependência. É relacionamento. É reflexão sobre as consequências de minhas ações ou omissões. E esse é um sistema que não induz a reflexão. Ao contrário. Ele presa pelo automatismo. Eu conversei com [Eugene] Soltes, autor do livro ‘Why they do it?”, sobre crimes corporativos e a grande conclusão é que as pessoas nunca pararam para pensar na relação entre custo e benefício do que estavam fazendo de verdade. Ele foi para prisões e conversou com 50 executivos presos por crimes corporativos, inclusive foi o único a falar com o Madoff. Essa conclusão dele é um paradoxo porque são pessoas que, em tese, estão a todo tempo tomando decisões sobre custo e benefício. Mas para as próprias coisas, vão no automatismo e, de repente, você está dentro. Todos esses escândalos começam pequenos e as pessoas sempre acham que no futuro vai acontecer alguma coisa que vai resolver tudo. E, claro, a contabilidade dá muita margem a essa racionalização. Para você criar uma história de que haverá uma maneira de ser razoável.

Mas, voltando ao 3G Capital, qual foi, no seu entendimento, o fato gerador da fama?

Di Miceli: O trio veio após as décadas de 70 e 80 com uma mensagem diferente. Era uma mensagem de uma empresa, um negócio, não ligado ao Estado. ‘Meu negócio é meritocracia e mercado.’ E nós estamos falando de um país em que as empresas, historicamente, sempre estiveram agarradas de alguma maneira com o Estado. Então, havia um argumento heroico, de conseguir resultado pelo mérito e pelo mercado. Além disso, vinha junto uma ideia da informalidade. De uma empresa menos burocrática e hierárquica, eram pessoas jovens e que nem precisavam usar terno. Essa mistura de informalidade, com foco no mercado e sem relações governamentais foi o grande apelo do modelo. Na medida em que foram fazendo as primeiras operações, começaram a gerar muito fluxo de caixa.

Sim, eles provaram o ponto da eficiência da gestão de custo, não?

Di Miceli: É. Na verdade eles tiveram a coragem e a capacidade de fazer coisas que os que estavam antes não tinham. Mas não uma coragem técnica. Eu vou ser muito duro aqui. O grande diferencial desse modelo foi a capacidade de tomar decisões amorais e imorais que os outros não tinham.

Mas você pode dar exemplos?

Di Miceli: Por exemplo, a capacidade de chegar e simplesmente cortar pessoas que tinham se dedicado anos às empresas, mas que estavam mais velhas e com custo elevado. De olhar as pessoas como números. Como no Burger King, no primeiro dia, demitiram todos os diretores. Essa ideia de que não há limite: vou fazer tudo que for necessário para o mínimo custo e o máximo de receita. Ou espremer os fornecedores. Não é por acaso que o 3G, com seus negócios, pagou a maior multa da história do Cade, em 2009, porque estavam asfixiando o mercado. É um discurso paradoxal: eu falo que meu negócio é o mercado, mas eu não gosto de concorrência.

E como você acha que esse modelo chegou onde chegou? Digo, no nível de sucesso e fama que sabemos.

Di Miceli: Simples. Porque eles tiveram apoio de investidores que não queriam saber “o como” eles conseguiam os resultados. As sucessivas fusões que eles fizeram só foram viabilizadas por um cenário de excessiva liquidez global, a um custo baixo, que deram carta branca a eles. O Warren Buffett é um deles. Eles chegaram onde chegaram com aquisições, não foi organicamente. Essa é a verdade. Se você pegar a Ambev, foram cinco grandes fusões e aquisições até 2015. De lá para cá, não consegue mais. Peter Drucker [escritor, professor e consultor administrativo falecido em 2005] dizia: uma empresa é criada, fundamentalmente, para criar valor e não para cortar custos.

O que você quer dizer, então, é que o modelo 3G de gestão não cria valor, mas tem discurso de geração de valor?

Di Miceli: É isso. Ele não é um modelo de criação de valor. É um modelo, fundamentalmente, de transferências de valor: dos stakeholders futuros para os stakeholders presentes, incluindo os acionistas futuros. O modelo deles é essencialmente comprar e apertar, tirar gordura.

Mas me parece que eles estão, de forma geral, mais preocupados com as inovações das empresas investidas, não?

Di Miceli: Ah, eles têm várias iniciativas. Só que eles não entenderam que inovação é resultado de uma cultura saudável, de aprendizado, de time. E para você aprender é preciso estar bem, em estado positivo. E isso está provado por diversos estudos. Ninguém aprende em ambiente de medo. Exorta-se as pessoas a inovar, mas não tem ambiente, com um sistema que induz as pessoas a trazerem atalhos. Se olhar na média gestão, existe muita rotatividade nas empresas do grupo. Isso gera mentalidade de que o sucesso depende de você sair antes de seus erros aparecerem. Então os gestores espremem ao máximo e deixam a bomba para o próximo. Mas, resumindo, se você pegar inovação como produto ou como gestão, não vai achar.

Mas o trio sempre difundiu o modelo meritocrático.

Di Miceli: Se você estudar o modelo de perto, percebe que não há meritocracia de verdade. Vamos de trás para frente. O Miguel Gutierrez, personagem central dessa história. Será que ele estava lá há vinte anos porque passava por um processo regular, formal e imparcial de desempenho e cuja conclusão é que ele era a melhor pessoa para estar naquele cargo? Não me parece, mas sim porque era uma pessoa de confiança, leal e deixava o Beto Sicupira confortável.

Então, o que é a meritocracia do 3G, na sua opinião?

Di Miceli: É simples: é quem consegue entregar os números. Mas eles não querem saber como. É um sistema antiético porque não quer saber como os resultados serão obtidos. É quem consegue entregar o número individualmente. É uma premissa completamente errada porque uma empresa não é uma coletânea de indivíduos, mas de equipes. Nas melhores empresas de hoje, os sistemas de avaliação e remuneração são feitos por equipe. Porque o desempenho é um jogo de equipe, e não de indivíduos.

Vivemos na era dos dados e das medidas. O que pode substituir isso?

Di Miceli: Estamos indo para um caminho completamente equivocado, como sociedade, investindo apenas nessa coisa racional e quantitativa, onde cada vez mais as pessoas gastam tempo negociando indicadores, preparando relatórios e menos na essência de suas atuações. E tudo isso com a crença de que as pessoas serão mais racionais. Mas os estudos mostram que 50% a 60% da nota que você, como funcionário, recebe é basicamente resultado do perfil de quem avalia e não de suas qualidades pessoais. É, portanto, uma avaliação completamente aleatória. Não falo nada disso aleatoriamente. Nós fazemos uma pesquisa de cultura ética. Analisamos mais de 600 mil depoimentos de quase 3.000 empresas.

Entendido. Mas vamos lá. Eles não fizeram tudo isso sozinho, correto? Nós, como sociedade, de alguma maneira aplaudimos.

De Miceli: Claro, não é um modelo isolado. Está dentro de uma onda maior. Em 1970, veio [Milton] Friedman, com o discurso do lucro. Em 1976, surge o verniz acadêmico do valor do acionista com Jensen Meckling. Em 1980, temos a ascensão do Jack Welch, garoto propagando do valor do acionista. Essa lógica já vinha dando sinais de esgotamento. Com o Business Round Table, com a questão do propósito, apesar de haver muita retórica aí, eles ficam completamente fora de sintonia. Sempre falei isso: é uma empresa com mentalidade do século 20, que ainda faz dinheiro no século 2I.

E, na sua opinião, como fica a questão dos auditores?

Di Miceli: Espero que essas investigações sigam adiante e que o regulador encontre explicações e deixe claro quem teve acesso às informações. É preciso que o regulador faça sua parte. Antes, vamos lembrar que a função do comitê de auditoria é se encarregar do monitoramento e da qualidade das demonstrações financeiras e do trabalho da auditoria. Essa é a função. O caso das auditorias, eu realmente não sei o que é pior, em termos de conclusões: inutilidade, incompetência, negligência ou conivência. Porque agora, antes das investigações, é essa a sensação que fica. E, do ponto de vista da questão do risco, como os profissionais auditores são especializados por setor, caberiam perguntas específicas às empresas e aos bancos. Mas parece que elas não foram feitas.

Existe algo diferente disso que esteja se provando gerador de valor no longo prazo?

Di Miceli: Tenho me preocupado de mostrar vários casos de empresas que estão indo para o modelo ganha-ganha-ganha e que têm colhido belíssimos frutos. Vou citar alguns porque precisamos de outros parâmetros. Todo mundo fala da Patagônia e é realmente um caso fora da curva. Mas você tem o exemplo da Barry Wehmiller, que nos últimos 20 anos deu retorno superior ao do Warren Buffett. Há o caso da Southwest Airlines, a empresa aérea mais valiosa do mundo, e que evita ao máximo demissões. O melhor banco da Europa, há anos, é o sueco Svenka Handelsbanken, que questiona fortemente o modelo de remuneração por bônus. Tem a Best Buy, onde o Hubert Joly fez uma reestruturação centrada nas pessoas e em criar uma cultura saudável. Tem ainda o caso da Barnes & Noble, que estava completamente destruída e foi ressuscitada porque elegeu um CEO que gosta de livros e não de números. Há diversos exemplos, cada vez mais, e há também aqui no Brasil.

https://exame.com/exame-in/caso-americanas-phd-em-governanca-faz-autopsia-do-modelo-3g-e-de-suas-obsessoes/

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Energia como serviço: uma nova luz para os negócios

Na corrente de transformações do setor de energia, o EaaS é um modelo disruptivo que traz novas oportunidades para provedores e clientes

Denise Turco – MIT Sloan Review 17 de Janeiro 2023

Artigo Energia como serviço: uma nova luz para os negócios

As soluções do tipo “as a service” já foram replicadas com sucesso em diferentes áreas. Agora chegou a vez do setor de energia adotar o modelo. Ofertas de Energy as a Service (EaaS) já começam a ser disponibilizadas no Brasil na esteira das mudanças pelas quais o setor elétrico está passando, como a abertura do mercado de energia e as novas necessidades dos usuários em relação à redução de custos, inovação e sustentabilidade.

No EaaS, o usuário contrata o fornecimento de energia combinado com outros serviços relacionados, como iluminação, eficiência energética, refrigeração e climatização, pagando uma assinatura mensal. Os investimentos em infraestrutura, equipamentos e manutenção são de responsabilidade do fornecedor e embutidos na mensalidade. Assim, o provedor oferece serviços personalizados e com gestão de ponta a ponta para que o usuário otimize os gastos com energia, que não é a sua especialidade.

Por enquanto, o consumidor final ainda não é contemplado por essa nova modalidade, mas empresas de vários setores podem ser impactadas – indústria, agronegócio, comércio e serviços, como escritórios, hospitais, escolas, cinemas, shoppings e lojas. Um relatório do Research and Markets mostra que soluções EaaS podem promover uma economia de até 25% de energia para as empresas.

Um provedor dessa área precisa ter musculatura para garantir a prestação de serviços. “Uma torre de resfriamento para um shopping, por exemplo, custa cerca de R$ 1,5 milhão. Por isso, EaaS é um tipo de serviço que chamamos de capital intensivo, porque o fornecedor faz todo o investimento antes e tem o retorno depois, aos poucos”, explica Danilo Lima, diretor de inteligência de mercado e marketing da 2W Energia.

Estimativa do Market Research Future indica que o mercado global de EaaS deve movimentar US$ 128,3 bilhões até 2030. Nos países desenvolvidos, o modelo está mais avançado do que nos emergentes. O Brasil, por exemplo, dá seus primeiros passos na área com players de diferentes portes – em geral, são os fornecedores de energia. “Não podemos negar que o setor elétrico brasileiro está um pouco atrás de outros países, mas isso não quer dizer que ficamos estagnados. Estamos num momento disruptivo”, analisa Lindemberg Reis, gerente de planejamento e inteligência de mercado da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).

De fato, o segmento elétrico, que atua sob forte regulamentação, aguarda importantes decisões governamentais que vão pautar os negócios futuros, como o Projeto de Lei (PL) 414/2021, que propõe a modernização do setor. Além disso, em 28 de setembro, o Ministério de Minas e Energia (MME) publicou a Portaria 50/2022, que permite a entrada de pequenas empresas no mercado livre. E, em 30 de setembro, o MME lançou consulta pública propondo a abertura total do mercado, de forma que as micro e pequenas empresas possam escolher seu fornecedor de energia a partir de 2026 e consumidores residenciais, em 2028. Na visão de Lima, as atividades de EaaS não exigem regulamentação específica (assim como não há para serviços de streaming por assinatura, por exemplo), mas seu desenvolvimento está atrelado justamente à abertura do mercado de energia.

Outro mecanismo do poder público que pode ajudar na ampliação de soluções EaaS é o das Parcerias Público Privadas (PPPs). O executivo da 2W conta que há empresas de energia que já fornecem serviço de iluminação ou de monitoramento de semáforos via PPP para alguns municípios.

A evolução do EaaS também deve ganhar força com a nova dinâmica do setor de energia, sintetizada nos 3Ds: descentralização (novos players), descarbonização (maior uso de energias renováveis) e digitalização. Duas tecnologias necessárias são o 5G, que vai ampliar a conectividade, e a Internet das Coisas (IoT), que possibilitará a medição e o monitoramento do consumo de energia, iluminação, temperatura etc, por meio da instalação de sensores. O desafio é grande, pois, dos 87 milhões de usuários de energia elétrica do país, apenas 2 milhões têm medidor inteligente, a grande maioria ainda possui equipamento analógico, como lembra Reis, da Abradee.

Com os avanços regulatórios e tecnológicos, a expectativa é de aumento na oferta de EaaS nos próximos anos, como aconteceu em outros países. “No mercado inglês, que está aberto desde 2000, o consumidor pode trocar de fornecedor de energia e contratar junto serviço de iluminação por assinatura por um app no celular. Foram 22 anos de evolução para que eles chegassem nesse ponto. No Brasil, muitas empresas devem trabalhar nesse sentido. Ainda teremos muitos aprendizados, mas acreditamos que até 2030 teremos outro cenário de energia no Brasil”, aposta Lima.

A 2W Energia, geradora e comercializadora de energia eólica com foco em pequenas e médias empresas que tem dois parques de energia eólica em construção, começou a oferecer, recentemente, soluções EaaS junto com o fornecimento de energia. São serviços opcionais de assinatura mensal, como eficiência energética, refrigeração, climatização e carregadores de veículos elétricos. “A EaaS entrega um serviço e a energia que está por trás tem de ser confiável e barata”, conta Lima, acrescentando que a maioria dos clientes ainda desconhece o funcionamento do mercado de energia e os novos serviços. A 2W investe em seu ecossistema de inovação, com parcerias com startups, para agregar novas ideias relacionadas à energia, sustentabilidade e finanças para, assim, fomentar as inovações nesse modelo.

As grandes distribuidoras também devem apostar em novos negócios, como EaaS, no futuro. “Todas as grandes empresas do setor têm seu braço de inovação, porque querem participar desse ambiente, mas hoje ainda são bastante reguladas”, comenta Reis. “É importante dizer que o EaaS não vai acabar com o mercado tradicional de energia. O que estamos vendo é uma mudança de modelo de negócios das empresas. O EaaS está realocando responsabilidades e serviços e isso sim é uma mudança muito grande”, conclui Lima.

https://mitsloanreview.com.br/post/energia-como-servico-uma-nova-luz-para-os-negocios

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Mineração em águas profundas sem prejuízo da vida marinha: será possível?

Startup anuncia modo mais sustentável de colher níquel e cobalto, mas especialistas temem que ecossistemas vitais seriam prejudicados

Adele Peters – Fast Company Brasil 13-12-2022 

Um dia desses, durante uma tarde de trabalho, uma equipe de engenheiros acompanhava os movimentos de um pequeno robô. Ele flutuava nas águas cristalinas da Baía Georgiana, no Canadá, recolhendo suavemente pedras do fundo arenoso.

A Impossible Metals, startup que projetou o robozinho, pretende provar que é possível coletar metais do fundo do mar de forma sustentável – como o cobalto e o níquel usados na fabricação de baterias de veículos elétricos.

O teste em águas rasas foi a primeira vez em que esse conceito foi colocado à prova. Mas, de todo jeito, os cientistas ainda se perguntam se é possível haver algum tipo de mineração em alto mar que não prejudique o meio ambiente.

A mineração em águas profundas está prestes a se tornar realidade. Algumas empresas podem começar a operar já no ano que vem, extraindo minerais que se acumularam naturalmente a milhares de metros debaixo d’água. Biólogos marinhos alertam que essa prática pode causar um desastre ambiental.

A maioria das empresas planeja usar máquinas enormes para dragar o fundo do oceano ou perfurar montanhas subaquáticas, destruindo ecossistemas únicos. O ambiente frio e escuro é o lar de diversas espécies frágeis. O coral de águas profundas, por exemplo, vive até quatro mil. Se um habitat como esse for destruído, o ecossistema não vai se recuperar tão cedo.

Cavar e dragar o fundo do oceano pode criar partículas suspensas– chamadas de plumas de sedimentos – que flutuam pela água, sufocando a vida marinha e liberando toxinas, como o mercúrio, que podem acabar na cadeia alimentar.

Quando as mineradoras trazem rochas à superfície para processá-las em navios, os resíduos são despejados de volta na água, criando mais partículas venenosas. Essa intervenção pode afetar a indústria pesqueira. Ela também liberaria carbono do fundo do oceano.

A maioria das empresas de mineração planeja trabalhar primeiro nas planícies abissais do oceano, onde há “nódulos” em forma de batata, cheios de minerais valiosos. Em vez de desenterrar esses nódulos, a Impossible Metals planeja utilizar seus veículos robóticos para recolhê-los, criando o mínimo de perturbação possível.

Os robôs usarão inteligência artificial para identificar qualquer vida marinha nas rochas e evitar pegá-las. A empresa afirma que também está trabalhando com cientistas para planejar quantos nódulos devem ser preservados como habitat.

“Como temos essa capacidade de extração seletiva, podemos deixar corredores de habitat e diferentes densidades para trás, para garantir que não haja perda de biodiversidade”, explica Jason Gillham, diretor de tecnologia da startup e um de seus fundadores.

A Impossible Metals planeja usar frotas de grandes veículos autônomos com centenas de braços robóticos. Embora qualquer veículo que se mova em águas profundas possa criar plumas de sedimentos em suspensão, os engenheiros estão trabalhando em um projeto que se mova suavemente, para minimizar esse problema.

Depois que as rochas forem coletadas, a empresa também planeja usar um novo sistema para extrair o metal em uma instalação offshore, usando bactérias naturais para dissolver as rochas em uma solução. A equipe acredita que esse processo evitará a geração de resíduos tóxicos que normalmente vêm da mineração, e que também usará muito menos energia.

Os ambientalistas argumentam que nada disso é suficiente. “Acho que eles não têm como extrair sem causar nenhum dano”, critica Arlo Hemphill, ativista de mineração em alto mar do Greenpeace EUA.

Provavelmente, plumas de sedimentos em suspensão vão continuar se formando, mesmo que a empresa trabalhe com cuidado. Também é provável que parte da vida marinha que vive nas rochas seja difícil de detectar.

A indústria de mineração argumenta que é fundamental acessar mais metais, tanto para as baterias de lítio usadas em carros elétricos quanto para armazenar energia renovável. Mas defensores do meio ambiente, como Hemphill, apontam para o fato de que  novas tecnologias de bateria deveriam reduzir e eventualmente eliminar a necessidade de alguns desses materiais.

Uma organização obscura chamada International Seabed Authority (ISA) tem controle sobre o que acontece em águas internacionais e planeja emitir licenças para empresas de mineração em alto mar começarem a trabalhar já em julho de 2023. Como a Impossible Metals ainda está desenvolvendo sua tecnologia, provavelmente não começará a operar até, pelo menos, 2026.

A resistência política começou este ano, quando países como Alemanha, França, Nova Zelândia, Fiji e um punhado de outros pediram uma moratória na mineração em alto mar por causa dos riscos. Embora a ISA se autogoverne, os membros das Nações Unidas podem votar para proibir a mineração, caso haja oposição suficiente.

Mas os projetos de mineração também podem ser prejudicados pela economia, já que uma lista crescente de empresas, da BMW à Samsung, já afirmou que não comprará materiais extraídos do mar profundo. “Essa prática pode não ser economicamente lucrativa”, diz Douglas McCauley, professor de ciências oceânicas da Universidade da Califórnia.

“Isso é algo que pode vir a acontecer, e parece já estar acontecendo nesse caso. Os potenciais compradores, para os quais as empresas estão tentando minerar, estão respondendo: ‘não temos interesse no seu material’. Ou seja: pode ser que nunca haja de fato uma demanda”, diz McCauley.


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo

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Está na hora de as mulheres abraçarem o seu perfeccionismo

Como mensagens subliminares estão a serviço da repressão feminina no ambiente de trabalho

Katherine Morgan Schafler Fast Company Brasil 27-01-2023 

“Mandona”. É assim que costumam rotular meninas e mulheres que, quando estão em posições de autoridade, têm comportamentos tradicionalmente masculinos. Do mesmo jeito, o adjetivo “perfeccionista” vem silenciosamente aderindo às profissionais mulheres – uma crítica sutil, mas que serve para reprovar e regular o poder feminino.

Como acontece com todas as mensagens subliminares, não apenas as ouvimos inconscientemente como também as internalizamos inconscientemente. Vou dar um exemplo.

Numa tarde qualquer, em um espaço de trabalho compartilhado, estava sentada perto de uma área que uma fotógrafa havia montado para tirar fotos de seus clientes. Ao longo de várias sessões, ela repetia frases como estas:

Eu estou sendo muito perfeccionista, eu sei, mas será que você pode colocar sua mão um pouco mais perto do quadril?

Eu sou meio perfeccionista, eu sei que é chato…  Mas será que você pode virar o rosto um pouco mais para a janela?

Olha, eu vou ser perfeccionista de novo e pedir que você mantenha o queixo em um ângulo de 90 graus em relação ao peito, ok?

Não sei se essa fotógrafa é de fato perfeccionista. Não a conheço. O que eu sei é que o trabalho de qualquer fotógrafo profissional que faça retratos é dirigir o cliente. E isso pressupõe passar instruções, de maneira mais específica ou mais geral.

O adjetivo “perfeccionista” traz embutida uma crítica sutil que serve para reprovar o poder feminino.

Ou seja: ao chamar a si própria de “perfeccionista”, ela estava tentando amenizar seus comandos e instruções. É como se ela sentisse a necessidade de fazer uma autocrítica para não desagradar ninguém e, ao mesmo tempo, para manter seu domínio sobre a sessão de fotos.

Acontece que, nessa situação, o controle da dinâmica do ensaio fotográfico deveria ser algo dado, pré-estabelecido. Afinal, era ela a profissional, a especialista contratada. Por que, então, essa necessidade de se (des)qualificar verbalmente na hora de exercer seu poder? Por que toda vez que ela queria fazer uma foto melhor, amenizava as próprias ordens, fazendo a ressalva de ser muito “perfeccionista”?

MENSAGEM SUBLIMINAR

Comunicar uma crítica de forma implícita requer sutileza. Quando a crítica sutil é bem-sucedida, a pessoa sempre consegue negar suas más intenções, caso seja acusada.  É muito fácil, por exemplo, alguém negar que está se valendo do tal “perfeccionismo” para julgar uma mulher. Basta se defender dizendo algo como “Mas o perfeccionismo pode ser muito prejudicial à saúde dela – é por isso que as mulheres precisam ser encorajadas a diminuir o nível de perfeccionismo e a se equilibrar”.

Como um soldado em um cavalo de Tróia, a repressão ao desejo das mulheres de se destacar entra pelos nossos ouvidos sem ser detectada, misturada ao conceito já ambíguo e questionável de perfeccionismo.

Seus desejos são reais e importantes, e não precisam fazer sentido para ninguém além de você.

Essa alegação sobre a necessidade de as mulheres buscarem mais equilíbrio não é de fato uma preocupação com o estado de saúde delas. É, na verdade, uma preocupação com o estado do poder das mulheres.

Infelizmente, porém, esse tipo de mensagem subliminar funciona. Muitas mulheres gastam energia em uma luta vã para encontrar o equilíbrio enquanto tentam engolir seu desejo perfeitamente saudável por mais conquistas – como se não soubessem ser gratas por tudo o que já têm. 

Nada disso anula o fato de que o perfeccionismo pode, sim, ser uma força destrutiva na vida de alguém. Mas ele pode ser prejudicial ou útil para qualquer pessoa, dependendo de como é administrado.

Até que reconheçamos a natureza dicotômica e o viés de gênero do perfeccionismo, estaremos concordando em ficar de braços cruzados enquanto homens equivocados voam direto na direção do sol escaldante e as asas das mulheres são cortadas, em nome de uma suposta necessidade de protegê-las.

NÃO HÁ NADA DE ERRADO EM QUERER MAIS

Se você não está levando uma vida equilibrada neste momento, isso não significa que há algo de errado. Você não precisa “suar na academia” até ficar exausta demais para sentir raiva, nem listar todos os seus motivos para ser grata até parar de ter novas ambições.

É perfeitamente possível sentir raiva e amor ao mesmo tempo. Assim como é possível ser grata pelo que que já tem mas, mesmo assim, querer mais. Não é preciso equilibrar nada disso.

a repressão ao desejo das mulheres de se destacar entra pelos nossos ouvidos sem ser detectada.

Você é livre para querer mais e para conseguir mais. Querer mais é saudável. Seus desejos são reais e importantes, e não precisam fazer sentido para ninguém além de você.

Querer mais pode parecer subversivo e “feio” para mulheres que aprendem que seu perfeccionismo (leia-se ambição) é ruim e errado, da mesma forma que ser sexualmente ousada pode parecer subversivo e “feio” para mulheres que aprendem que seu desejo sexual deve ser contido.

Querer mais é uma afronta a tudo o que você aprendeu sobre como ser uma mulher grata, saudável e equilibrada. Uma mulher que quer mais é vista como ingrata; um homem que quer mais é visto como um visionário. Uma mulher que busca liderança tem “sede de poder”; um homem que busca poder é um “líder nato”. Essas narrativas são chatas e furadas. Já deu.

Não permita que sua ambição seja patologizada. Recuse-se a pedir desculpas ou disfarçar seu desejo insaciável de se destacar. Rejeite totalmente a ideia de que você precisa ser consertada. Abrace o seu perfeccionismo agora.

Permita-se, ainda que por alguns segundos, alimentar uma crença radical neste mundo tão misógino: não há nada de errado com você.

Extraído do livro The Perfectionist’s Guide to Losing Control (Guia Perfeccionista Para Perder o Controle), de Katherine Morgan Schafler, publicado pela Penguin Random House.


https://fastcompanybrasil.com/worklife/esta-na-hora-de-as-mulheres-abracarem-o-seu-perfeccionismo/

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Três caminhos errados das Big Techs

Dedicar um tempo para fazer um produto bem feito soa muito menos emocionante do que “agir rápido e tolerar falhas”

Por Brooke Master – Valor/Financial Times 29/12/2022

Durante 20 anos, as gigantes do Vale do Silício e suas colegas definiram o padrão para o sucesso empresarial com um conjunto simples de estratégias: inovar rapidamente e gastar muito para conquistar clientes. A velocidade, em vez da perfeição, e o alcance, em vez dos lucros, provaram ser a chave para estabelecer posições dominantes que permitiram a elas afastar, esmagar ou comprar rivais potenciais.

Empreendedores de todas as partes prestaram atenção nisso, e a premissa de que crescer em escala e alcançar a lucratividade era a parte mais fácil tornou-se dominante para muito além das plataformas da internet de onde essas ideias se originaram.

Os investidores, desesperados por crescimento e taxas de retorno em meio a juros historicamente baixos, ficaram mais do que contentes em dar prioridade à promessa de crescimento e não aos ganhos de curto prazo. Durante a pandemia, essa tendência se tornou extremada, enquanto as ações de empresas com grandes sonhos e perdas igualmente grandes disparavam para alturas vertiginosas.

Inovar rápido e gastar muito para conquistar clientes. A velocidade, em vez da perfeição, e o alcance, em vez dos lucros, provaram ser a chave para estabelecer posições dominantes que permitiram a elas afastar, esmagar ou comprar rivais potenciais

Esses dias acabaram. A inflação e a elevação de juros dos bancos centrais mudaram o cálculo financeiro. Quando os investidores podem obter retornos mensuráveis de depósitos bancários e títulos de primeira linha, os investimentos especulativos que prometem crescimento perdem sua vantagem. Os preços das ações de Google, Amazon e Facebook caíram entre 40% e 60% com relação a um ano antes, e seus concorrentes mais novos saíram-se ainda pior. Um índice do Goldman Sachs de empresas de tecnologia não lucrativas caiu 77% desde seu pico, em fevereiro de 2021.

Também há uma sensação cada vez maior de que os desafios mais importantes do nosso tempo – melhorar a área da saúde, reduzir as emissões de carbono, basicamente qualquer coisa que envolva o mundo real em vez de um produto apenas digital – exigirão uma abordagem diferente.

A maior parte das grandes empresas de tecnologia ficou rica com softwares, que podem ser atualizados com facilidade e cuja distribuição em grande escala sai praticamente de graça. Esse tipo de inovação online dá uma enorme ênfase, e com razão, ao modelo “failing fast” (algo como falhar rápido em português): lançar um produto com rapidez, conquistar seguidores e corrigir os defeitos depois.

O mesmo simplesmente não se aplica no caso de um carro, um medicamento ou mesmo de um novo sabor de carne embalada. Esses produtos precisam funcionar corretamente e atender às normas de regulamentação desde o começo. Instalações de produção e redes de distribuição não podem ser criadas do nada, ou alteradas mais tarde com facilidade.

No âmbito físico, um inovador pode ver sua liderança evaporar diante da concorrência de rivais com experiência em produção e distribuição. A Tesla está descobrindo isso da maneira mais difícil. Sua participação no mercado de veículos elétricos dos Estados Unidos caiu para menos de 65%, em comparação com os 79% de cinco anos atrás. E a S&P Global Mobility prevê que ela cairá para menos de 20% até 2025, à medida que outros fabricantes lancem caminhões elétricos e modelos mais baratos de carros a uma velocidade maior do que aquela com que a Tesla consegue construir novas fábricas.

“O mundo real simplesmente é mais complicado. Mesmo que você tenha um ótimo carro, você precisa construí-lo em uma fábrica. Tem de achar um terreno, conseguir o zoneamento, encontrar pessoas. Não é algo que possa ser testado pelo método A-B”, diz David Millstone, coexecutivo-chefe da Standard Industries, um conglomerado industrial de capital fechado.

A iniciativa da Standard de concorrer com a unidade de painéis solares residenciais da Tesla é um bom exemplo. Depois de anos de muita propaganda, a Tesla registrava uma média de 23 telhados solares por semana no início de 2022, ou cerca de 1.200 instalações por ano.

Quando a segunda fábrica GAF Energy da Standard abrir em 2023, ela produzirá telhas suficientes para revestir 50 mil telhados por ano. Essas telhas solares mais baratas também podem ser instaladas por um telhador convencional munido de uma pistola de pregos, em vez de um especialista. Ainda assim, expandir não tem sido fácil, mesmo para uma empresa que já é a maior fabricante mundial de materiais para telhados. Como grande parte do mundo empresarial dos EUA, a GAF se viu às voltas com a escassez de mão de obra. No fim, precisou criar um programa de capacitação que prepara veteranos das Forças Armadas, pessoas que cumpriram penas de prisão e jovens em situação de risco para trabalhar no setor.

O terceiro grande erro que os imitadores das Big Tech cometeram foi presumir que clientes se tornariam fiéis já desde a sua primeira compra. Muitas empresas de serviços digitais e comércio eletrônico acreditaram que seu rápido crescimento durante os lockdowns da pandemia marcava um aumento duradouro nas receitas, em vez de uma sacudida única e extraordinária que perdeu força rapidamente diante da renovação da concorrência. Alguns dos grandes sucessos da pandemia, como Zoom Video Communications, Delivery Hero e Peloton, estão entre aqueles jogados de volta à vida real.

“Na tecnologia de forma geral, e na área de software especificamente, o efeito de rede é uma fonte de vantagem potencial, mas… o modelo de correr para conquistar participação não funciona em muitos outros setores”, diz David Garfield, chefe mundial para indústrias da AlixPartners.

Dedicar um tempo para fazer um produto bem feito soa muito menos emocionante do que “agir rápido e tolerar falhas”. Mas para a maioria das empresas, na maioria dos setores, isso é quase certamente o caminho para um sucesso mais duradouro.

Brooke Masters é editora de Finanças do FT nos Estados Unidos.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/tres-caminhos-errados-das-big-techs.ghtml

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Brasil pode transformar quase metade do lixo urbano em energia elétrica, aponta levantamento

As 28 regiões metropolitanas do Brasil com mais de 1 milhão de habitantes têm potencial para transformar anualmente mais de 38 milhões de toneladas de lixo em energia

Por Robson Rodrigues, Valor 23/12/2022

Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (Abren) aponta que as 28 regiões metropolitanas do Brasil com mais de 1 milhão de habitantes têm potencial para transformar anualmente mais de 38 milhões de toneladas de lixo em energia.

O estudo utiliza dados do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares)referentes ao ano de 2021, que mostra que o Brasil produz cerca de 82 milhões de toneladas de lixo por ano, sendo que 38 milhões de toneladas (quase 48%) são geradas nestas regiões urbanas e poderiam ter uma destinação ambientalmente mais adequada e se tornar energia elétrica para a população.

A Abren calcula que seriam mais de 120 milhões de brasileiros beneficiados pela destinação adequada dos resíduos e da energia proveniente até 2040. O presidente da entidade, Yuri Schmitke, afirma que recuperação energética de resíduos pode contribuir para que o Brasil dê um fim ambientalmente mais correto à fração não reciclável dos resíduos sólidos urbanos (RSU), garantindo uma solução que contribua com os pilares do saneamento básico e da geração de energia elétrica.

Ao Valor, o executivo disse que o levantamento será apresentado ao novo governo, com carta que será destinada ao novo ou nova ministra do Meio Ambiente. Segundo ele, há grandes perspectivas de mudança do cenário, dado os enormes benefícios socioambientais decorrentes do saneamento dos resíduos e das mudanças climáticas.

“A extinção de lixões não interfere nos projetos de recuperação energética. Lixões existem em pequenos municípios isolados, ao passo que a recuperação energética é desenvolvida em regiões metropolitanas. Existe uma falácia no Brasil, reiterada há décadas, de que a recuperação energética é cara e o Brasil precisa primeiro cuidar dos lixões, mas os lixões permanecem recebendo a mesma quantidade de lixo há mais de 20 anos”, frisa o executivo.

Segundo Schmitke, tal discurso favorece apenas aqueles que querem manter o status quo ao enterrar o lixo sem fazer o efetivo tratamento, como determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos.A recuperação energética é uma prática utilizada há muitos anos na Europa e na Ásia, mas ainda é uma novidade no Brasil, tanto que a primeira usina de recuperação energética está em construção em Barueri (SP) pela Orizon Valorização de Resíduos após vencer um leilão em 2021.

Em 2040, o Brasil deve gerar anualmente cerca de 100 milhões de toneladas de lixo. O Planares tem uma meta de que 34% do lixo passe por reciclagem e tratamento biológico. Restariam ainda 66%, ou 66 milhões de toneladas de lixo, que poderiam ser destinados à recuperação energética.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/12/23/brasil-pode-transformar-quase-metade-do-lixo-urbano-em-energia-eletrica-aponta-levantamento.ghtml

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Brasil poderá ser maior exportador de hidrogênio verde global, diz consultoria

Estudo da alemã Roland Berger indica que país pode alcançar receita anual de R$ 150 bilhões a partir de 2050; empresas começam a tirar projetos do papel

Por Robson Rodrigues — Valor 23/01/2023

Um estudo internacional feito pela consultoria alemã Roland Berger mostrou que o Brasil pode se tornar o maior produtor de hidrogênio verde do mundo e alcançar uma receita anual de R$ 150 bilhões a partir de 2050, dos quais R$ 100 bilhões serão provenientes das exportações.

O país reúne as condições ideais para produzir em escala a energia que faltava para pavimentar a transição para uma economia de baixo carbono, como ampla oferta de energias renováveis, custo marginal baixo e potencial de produção muito além do que o mercado interno pode absorver. E para alcançar as metas globais de descarbonização, o consumo de hidrogênio terá de aumentar seis vezes nos próximos 30 anos, especialmente em usos industriais e mobilidade.

O partner head de Energia da consultoria Roland Berger Brasil e um dos autores do estudo “Oportunidade de hidrogênio verde no Brasil”, Jorge Pereira da Costa, explica que essa demanda deve colocar o Brasil como protagonista no contexto de transição energética.

Ele afirma que o hidrogênio verde é apontado como uma grande commodity tornando-se o petróleo do futuro. Terá um papel fundamental no desenvolvimento econômico global, pois será empregado na mobilidade de veículos, aeronaves, propulsão para embarcações navais, geração de eletricidade e aquecimento das casas, edifícios, caminhões, trens, ônibus, entre outras aplicações.

“O mercado internacional de hidrogênio verde é um mercado emergente a nível global, mas que começa a ser estruturado pela definição de um marco regulatório também global”, diz.

A pesquisa prevê a oportunidade de o hidrogênio verde representar investimentos no Brasil da ordem de R$ 600 bilhões em 25 anos para que o país tenha capacidade de eletrolisadores necessários para a produção de hidrogênio. Neste contexto, empresas começam a acordar para o tema.

Entre os importantes anúncios, a Thyssenkrupp fechou contrato com a Unigel para fornecer tecnologia e planta de eletrólise à unidade no Polo Industrial de Camaçari (BA). A fase 1 do projeto prevê US$ 120 milhões e deve ficar pronta no final deste ano.

Em estágios menos avançados, outras companhias estudam a viabilidade de plantas nos portos de Pecém, Açu, Suape e Aratu. A AES Brasil e Fortescue assinaram pré-contrato com Complexo de Pecém. Na mesma rota foram Comerc, Casa dos Ventos e TotalEnergies.

Entretanto, foi o Chile que saiu na frente na América Latina com o projeto da Siemens Energy com a Porsche para a produção de combustíveis sintéticos e neutros em carbono utilizando o hidrogênio feito a partir de energia eólica.

A guerra na Ucrânia está acelerando a diversificação de fontes energéticas na Europa e o leilão de hidrogênio que a Alemanha pode destravar mais aportes. A EDP inaugurou a primeira planta-piloto operacional do Brasil e quer participar do certame; já a White Martins produziu o primeiro hidrogênio verde (H2V) certificado da América do Sul, em Pernambuco.

O desafio é dar escala e viabilidade econômica. Para ganhar vantagem nos mercados globais, o hidrogênio no país terá de cair o custo ara US$ 2 o quilo até 2025. Os players são competitivos em geração renovável, mas os custos de transmissão e distribuição precisam cair. Costa aponta ainda que o apoio estatal em políticas de isenções de governos e encargos setoriais será um pilar fundamental.

“O Brasil tem que criar condições para a redução dos riscos dos projetos de investimento no país, nomeadamente regular o mercado interno, taxar com as emissões de carbono, particularmente das indústrias mais consumidoras de hidrogênio e/ou conceder incentivos financeiros, fiscais ou outros para reduzir os preços de produção e apoiar os agentes produtores instalados no país na participação de certames internacionais de compra de hidrogênio verde e/ou de produtos verdes utilizados para o seu transporte”.

Por ser uma indústria nascente, o pesquisador diz que o mercado de hidrogênio verde é um emergente a nível global, mas que começa a ser estruturado pela definição de um marco regulatório também global. “O Brasil precisa continuar ativo na definição desse marco regulatório, particularmente quanto aos mecanismos e critérios de certificação”, finaliza.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/01/23/brasil-podera-ser-maior-exportador-de-hidrogenio-verde-global-diz-consultoria.ghtml

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Meta e Alphabet perdem domínio em anúncio digital

Companhias sofrem competição cada vez maior de nomes como Amazon, TikTok, Microsoft e Apple

Por Patrick McGee — Valor/Financial Times 29/12/2022

A Meta e a Alphabet perderam o domínio sobre o mercado de anúncios digitais no qual reinaram por anos, com a força do duopólio sendo corroída pela competição cada vez maior de nomes como Amazon, TikTok, Microsoft e Apple.

A participação somada da Meta, controladora do Facebook, e da Alphabet, controladora do Google, na receita com anúncios nos  Estados Unidos deverá cair 2,5 pontos percentuais, para 48,4% em 2022, a primeira vez em que as duas empresas não ficarão com a maioria do mercado desde 2014, segundo a empresa de análises de mercado Insider Intelligence.

Será o quinto declínio consecutivo anual do duopólio, cuja participação de mercado vem caindo desde o pico atingido em 2017, de 54,7%, e deverá diminuir ainda mais em 2024, para 43,9%, segundo projeções. No mundo, a participação combinada da Meta e da Alphabet deverá diminuir 1 ponto percentual neste ano, para 49,5%.

Jerry Dischler, chefe de anúncios do Google, disse ao “Financial Times” que a forte concorrência dos novos participantes do setor reflete um “mercado de anúncios extremamente dinâmico”.

As autoridades reguladoras nos EUA e na Europa intensificaram a fiscalização antitruste, pressionando, por exemplo, o Google por supostamente ter promovido seus produtos em detrimento aos de rivais. Em dezembro, a Meta foi alvo de uma queixa das autoridades reguladoras da UE por receios de que o serviço de anúncios classificados da rede social estaria concorrendo de forma desleal com os rivais.

Os grandes nomes do setor de tecnologia passaram a concorrer mais do que nunca por uma fatia do mercado de anúncios digitais de US$ 300 bilhões, enquanto as empresas pelo mundo reduzem seus orçamentos de anúncios diante da alta dos juros e da inflação.

Amazon e Apple ampliaram suas equipes na área de publicidade. Em julho, a Netflix anunciou uma parceria com a Microsoft para criar uma versão de seu serviço de streaming com anúncios.

O executivo-chefe da Meta, Mark Zuckerberg, atribuiu as recentes quedas de receita às mudanças nas normas de privacidade da Apple, que dificultaram o rastreamento de usuários e a publicidade direcionada, assim como à crescente popularidade do aplicativo de vídeos virais TikTok, de propriedade da chinesa ByteDance.

“Há quatro anos, você não estaria falando sobre [TikTok ou Amazon] na publicidade”, disse Dischler. “Portanto, é realmente revelador que cada vez mais pessoas estejam reconhecendo que a publicidade é um modelo de negócios excelente e expansível.”

A incursão da Amazon no mundo dos anúncios digitais teve grande papel no impacto sofrido pela Meta e pelo Google. Depois de anos sondando o mercado, incrementou os esforços em 2015 e, desde então, viu as receitas publicitárias decolarem de menos de US$ 1 bilhão para cerca de US$ 38 bilhões neste ano.

“Antes de entrar, eu nem sabia o que era o Amazon Ads”, disse um executivo da Amazon, acrescentado que agora a empresa tem “uma equipe enorme”.

Paul Prior, diretor de operações da Undertone, uma empresa de publicidade digital, disse que as gigantes do varejo, lideradas pela Amazon, perceberam que seus grandes volumes de dados sobre os clientes poderiam servir de base para um grande negócio publicitário, com margens mais altas do que a própria venda on-line.

No entanto, a Amazon foi um passo além, expandindo seus negócios de anúncios para fora do próprio site de compras. “No universo digital como um todo, eles usam esse conjunto de dados para capacitar as marcas e os anunciantes a comprar melhor, gastar com mais eficiência e incrementar o retorno sobre os gastos com anúncios”, disse Prior.

A Apple também surgiu como uma nova ameaça. Suas receitas publicitárias cresceram de menos de US$ 2,2 bilhões em 2018 para mais de US$ 7 bilhões neste ano. Embora tenha apenas 1,2% do mercado mundial, já é mais do que a participação do Snapchat e Pinterest somados, e algumas estimativas indicam que a Apple poderia alcançar US$ 30 bilhões em receita publicitária até 2026.

Em setembro, o “FT” revelou que a fabricante do iPhone planeja quase dobrar o pessoal de suas operações de publicidade digital, de alto crescimento. Seus anúncios classificados de emprego para a área descrevem a ambição de “redefinir a publicidade” para um mundo “centrado na privacidade”.

Zuckerberg repetidamente criticou o “conflito de interesses” da Apple, criticando-a por cobrar “rendas monopolistas” e sufocar a inovação. As regras de privacidade da Apple tornaram mais difícil para a Meta personalizar anúncios para os usuários, o que influenciou na queda de suas ações, cuja desvalorização acumulada em 15 meses está em torno a 65%.

O Google não parece ter sentido tanto impacto com as mudanças de privacidade da Apple, já que pode direcionar os anúncios diretamente aos usuários que digitam os termos de busca na internet- o que lhe proporciona dados valiosos sobre a “intenção do usuário”.

A Apple, contudo, já tem seu próprio rival para o Google Maps, assim como uma função de busca no iPhone, e está desenvolvendo suas ainda nascentes operações de anúncios- que poderiam enfrentar o Google no futuro.

“A Apple tem uma marca forte na qual os consumidores confiam e eles têm os dispositivos que são usados pela nata da turma de consumidores”, disse Josh Koenig, diretor de estratégia da Pantheon, uma plataforma de marketing digital. “Se eles descobrirem como transformar isso em uma rede realmente valiosa para os anunciantes, poderão cobrar um ágio.”

A Insider Intelligence projeta que o crescimento de anúncios do Google e da Meta nos EUA em 2023 será de apenas 3% e 5%, respectivamente, enquanto pelo menos oito de seus rivais devem ter avanços superiores a 10%.

A empresa projeta que as operações de anúncios crescerão 19% na Amazon, 26% na Apple, 30% no Spotify, 36% no TikTok e 42% no Walmart, embora as atuais participações de mercado de muitas dessas empresas ainda sejam pequenas.

Dischler disse que o Google está empenhado em expandir seus negócios de anúncios tanto no comércio eletrônico quanto na publicidade que prioriza a privacidade.

“Não vejo isso como um jogo de soma zero”, disse Dischler. “Se o Uber tem uma rede de anúncios – anúncios em carros que antes não tinham anúncios e está oferecendo oportunidades de publicidade quando você compra mantimentos ou comida em restaurantes – então, eles estão aumentando o bolo.” (Tradução de Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/12/29/meta-e-alphabet-perdem-dominio-em-anuncio-digital.ghtml

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Como China superou Brasil e virou grande produtora de peixes amazônicos

André Biernath – a BBC News Brasil em Londres 22/01/2023

Uma rápida pesquisa no site de comércio online chinês AliBaba permite encontrar algumas ofertas de “red pacu”, um peixe cinza de barriga vermelha, vendido por US$ 0,80 a 1,23 (R$ 4,35 a 6,68) o quilo.

O tal “red pacu” nada mais é que a pirapitinga, um peixe típico da região amazônica e da bacia dos rios Araguaia-Tocantins.

Os dados oficiais da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) revelam que a China é hoje a maior fonte deste peixe no mundo.

Em 2020, foram produzidas 59,4 mil toneladas de pirapitinga no país asiático. Na sequência, aparecem Colômbia (33 mil toneladas), Vietnã (23 mil), Peru (2,1 mil) e Brasil (1,8 mil) — vale destacar que esse peixe não é muito apreciado entre os habitantes da região amazônica brasileira, que preferem outras opções locais, como o tambaqui, o matrinxã e o jaraqui, sobre os quais falaremos mais adiante.

Além da produção de pescados para consumo humano, a China e outras nações asiáticas viraram referência na criação de peixes ornamentais amazônicos. Hoje, há variações de uma espécie chamada acará-disco que só são encontradas neste continente, segundo pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil.

Mas como esses peixes, nativos de Amazônia e adjacências, foram parar do outro lado do mundo? Por trás dessa verdadeira saga, existem lendas, histórias de cooperação e investimento pesado em ciência de ponta.

Da Amazônia para a Ásia

Diz a lenda que, antes da Rio-92, a histórica conferência do clima realizada no Rio de Janeiro, o primeiro-ministro chinês Li Peng teria viajado para Manaus, onde se reuniu com o então governador do Estado do Amazonas, Gilberto Mestrinho (MDB).

Durante o encontro, o emissário da China recebeu de presente casais vivos de tambaquis, que foram levados de volta ao país asiático — e teriam dado início ao interesse pelas espécies aquáticas amazônicas por lá.

O fato é que existem poucas evidências ou registros oficiais dessa reunião entre emissários chineses e amazonenses, e os principais nomes supostamente envolvidos no episódio (Li Peng e Gilberto Mestrinho) já morreram.

A BBC News Brasil entrou em contato com o Governo do Estado do Amazonas e com a Embaixada da China no país para confirmar ou descartar o tal episódio de 1992, mas não foram enviadas respostas até a publicação desta reportagem.

Os especialistas em piscicultura consideram que é muito mais provável que essa introdução de espécies amazônicas em outros países tenha acontecido aos poucos e por meio de várias fontes diferentes.

Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), lembra de um convênio firmado nos anos 1980 entre Brasil e China.

“Houve uma troca, em que nosso país recebeu carpas e tecnologias para a produção desses peixes e, em troca, ofereceu materiais sobre algumas espécies nativas”, diz. “E cada parte aproveitou as informações do jeito que quis.”

Um artigo publicado em 2018 destaca que o tambaqui e espécies híbridas já foram observadas em diversos países onde eles não são nativos, como Estados Unidos, China, Indonésia, Myanmar, Vietnã, Tailândia e Singapura.

Ainda segundo os autores, essa introdução aconteceu de forma acidental ou deliberada, com o objetivo de iniciar criações desses peixes em outros lugares.

Outra possível fonte do espalhamento é o aquarismo, a prática de manter espécies aquáticas em tanques para decoração e apreciação.

Um estudo de 2011 feito na Universidade de Zagreb, na Croácia, tentou desvendar como duas pirapitingas foram parar em rios da Europa Central.

A principal hipótese levantada é a de que aquaristas jogaram por algum motivo esses seres em reservatórios de água locais, que reuniam as condições básicas para que eles pudessem sobreviver e se reproduzir.

Que fique claro: essa troca de espécies entre países era bem menos regulada há três ou quatro décadas. Só mais recentemente que surgiram leis rígidas que impedem ou dificultam a saída e a entrada de vegetais, animais, fungos e outros seres vivos entre fronteiras.

“É só lembrar que a soja, um dos principais produtos de exportação do Brasil nas últimas décadas, é originária da China”, ilustra Medeiros.

“Ou seja, falamos de um processo legal. A diferença, no caso dos peixes, é que a China resolveu transformá-los num produto comercial e ganhar dinheiro com isso.”

Mais beleza nos aquários

Além das espécies criadas para consumo (como o tambaqui e a pirapitinga), também chama a atenção o que aconteceu com os peixes ornamentais amazônicos.

“O acará-disco, nativo da Amazônia, é vendido no exterior com novas colorações e características que não existem no próprio Brasil”, aponta Giovanni Vitti Moro, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura.

Essas novas linhagens da espécie foram desenvolvidas a partir de cruzamentos ou pela seleção de características desejadas por meio da manipulação genética e são apreciados por aquaristas do mundo inteiro.

“Hoje em dia, nós temos que importar essas matrizes diferentes do acará de China, Índia e Tailândia”, complementa Moro.

O biólogo Adalberto Luis Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, aponta que o Brasil também está ficando para trás nesse mercado do aquarismo.

Isso porque os produtores locais ainda dependem do extrativismo, que se baseia em coletar esses peixes diretamente na natureza, em vez de criá-los e reproduzi-los em tanques.

“Nós precisamos desenvolver tecnologias para a produção desses animais em cativeiro. A China já faz isso, e o mercado de aquarismo sinalizou que, entre 2025 e 2030, vai reduzir aos poucos a importação de peixes ornamentais oriundos do extrativismo”, conta o pesquisador e professor.

“Isso porque, de cada dez peixes que são coletados do ambiente natural para exportação, nove morrem no caminho.”

O que dizem os números

Não há dúvidas de que a China é de longe a líder global no mercado de pescados. Segundo os registros da FAO, o país asiático produziu 83,9 milhões de toneladas métricas de peixe com captura e aquicultura só em 2020.

Para se ter uma ideia, o segundo lugar é da Indonésia, com 21,8 milhões, um valor quase quatro vezes menor. Na sequência, aparecem Índia (14 milhões), Vietnã (8 milhões) e Peru (5,8 milhões).

Dentro desse cenário, os peixes amazônicos ainda representam uma fatia muito pequena, quase insignificante, do mercado piscicultor chinês.

“Por lá, a pirapitinga atende a alguns nichos específicos. Ela é vendida pequena, grande, inteira, em filé… Conforme o tamanho, o preço muda”, descreve Moro.

Medeiros acrescenta que “a China vê a pirapitinga como um produto de combate, vendido para públicos com baixo poder aquisitivo de África e Índia”. “O preço é menor, mas eles ganham no volume”, diz.

E o Brasil?

Apesar de possuir uma costa litorânea extensa e a maior quantidade de recursos hídricos do planeta, o país está bem longe da liderança do mercado de pescados.

A FAO calcula que o Brasil produziu 1,3 milhões de toneladas de peixes para consumo em 2020. Isso faz com que o país ocupe a 21ª posição no ranking mundial, atrás de nações com menos território, como Equador, Marrocos, Japão e Peru.

Também é curioso pensar que o peixe mais consumido pelos brasileiros é “estrangeiro”: a tilápia, originária do Rio Nilo, no continente africano, reina absoluto nas cozinhas do país.

O anuário de 2022 da Peixe BR aponta que a tilápia já representa 63,5% da produção brasileira (486,2 mil toneladas), e a tendência é que esse número suba para 80% até o final da década.

Na sequência, aparecem os peixes nativos do país, que representam hoje 31,2% do total (262,3 mil toneladas). E o principal representante do grupo é justamente o tambaqui.

O grande problema, apontam os pesquisadores, é que esse consumo dos peixes nativos está concentrado principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste, e as carnes de tambaqui, matrinxã, pirarucu e companhia são muito menos frequentes nos lares no Nordeste, Sudeste e Sul, onde a densidade populacional é maior.

Para Moro, há pelo menos três entraves para a popularização desses pescados.

“Vamos pegar a tilápia como exemplo. Ela tem uma proteína de alta qualidade, um preço competitivo e é fácil de preparar”, diz.

“O tambaqui e outros peixes amazônicos são vendidos inteiros e têm espinhas entre os músculos, o que dificulta o preparo e o consumo.”

O desafio está, então, em desenvolver linhagens com menos espinhas e mais carne, capazes de crescer rapidamente e que tenham um tamanho padrão.

Esse é mais ou menos o caminho que levou a tilápia e o salmão ao sucesso de vendas em mercados e peixarias: nos últimos 40 anos, foram feitos vários estudos com o objetivo de desenvolver um produto que reunisse uma série de características desejáveis, como maciez, gosto, facilidade de preparo…

E o mesmo processo já começou a ser feito com o próprio tambaqui mais recentemente. Além dos trabalhos realizados na China e no resto da Ásia, os pesquisadores brasileiros também pensam em como desenvolver esse setor por aqui.

“Nos últimos cinco ou seis anos, temos trabalhado na Embrapa formas de garantir a rastreabilidade dos tambaquis, para garantirmos que aquele produto não foi retirado da natureza de forma indevida”, destaca Moro.

“Isso é algo que certamente fará a diferença, especialmente na hora de exportar o pescado para mercados cada vez mais preocupados com o manejo sustentável dos recursos.”

Cientistas brasileiros também descobriram linhagens do tambaqui que possuem pouca ou nenhuma espinha entre os músculos, o que futuramente pode render cortes maiores e mais fáceis de preparar ou consumir.

Um potencial enorme

Entre os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, não há dúvidas de que peixes como o tambaqui podem turbinar o mercado nacional e até as exportações.

“Trata-se de uma carne de excelente qualidade, muito apreciada pelo público, com a qual é possível fazer diferentes cortes e pratos, como o lombo, a costelinha, a moqueca, as iscas fritas ou os filés assados”, diz Antonio Leonardo, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Pescado Continental, do Instituto de Pesca de São Paulo.

Outro ponto positivo do tambaqui está na facilidade de produção. Afinal, trata-se de uma espécie resistente e que cresce com velocidade — na natureza, ele pode chegar a até 30 ou 40 quilos.

“Além disso, o tambaqui se alimenta principalmente de frutos. Isso significa que, para se desenvolver, ele não depende de farinhas de peixe usadas em outras criações”, afirma o zootecnista Alexandre Hilsdorf, pesquisador do Núcleo Integrado de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes, em São Paulo.

“Essas farinhas estão se tornando um problema de sustentabilidade, pois as empresas precisam capturar peixes para processar e transformar em ração para os outros peixes.”

“Reunindo todas essas características, para mim não há dúvidas de que peixes como o tambaqui podem se transformar em uma commodity no futuro”, opina Hilsdorf, que publicou um artigo no ano passado sobre a produção sustentável desse pescado.

A economia da floresta em pé

Mas aumentar a produção de pescados nativos não pode representar uma ameaça à biodiversidade?

“A piscicultura depende do meio ambiente. Sem o equilíbrio dos recursos naturais, nosso negócio fracassa”, responde Leonardo.

Para Val, é possível incentivar esse mercado sem destruir a natureza: “O segredo está no manejo das espécies”.

O biólogo, inclusive, acredita que há potencial em desenvolver a produção não apenas do tambaqui, como também do pirarucu, do jaraqui, do matrinxã e de outras variedades populares entre os moradores da Amazônia.

“Sabemos que o matrinxã, por exemplo, pode ser produzido em pequenos igarapés espalhados pela Amazônia. Um canal de 20 metros de extensão, dois metros de largura e um metro de profundidade é capaz de gerar até uma tonelada desse peixe por ano”, calcula o biólogo.

“Agora, imagine que esse pequeno igarapé seja gerido por uma família de quatro pessoas, que vai consumir 400 quilos de pescado por ano. Os 600 quilos que sobram poderiam ser vendidos para cooperativas, que fariam o processamento e a venda em larga escala”, complementa.

Segundo o especialista, “o produto mais importante da bioeconomia, ou a economia da floresta em pé, é a informação”.

“Ao saber como os peixes vivem, comem e se reproduzem, temos o domínio do conhecimento para fazer o manejo adequado, sem prejuízo à biodiversidade”, conclui.

– Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64178820

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