O Brasil e o marco da biodiversidade

O setor produtivo tem um papel importante nessa pauta

Por Robson de Andrade – Valor – 17/02/2023

Com quase metade do território ocupado pela Floresta Amazônica e dono de 20% da biodiversidade do planeta, o Brasil precisa adotar, com urgência, um plano consistente que assegure o uso sustentável desse admirável patrimônio natural. A estratégia precisa ter uma abrangência nacional e deve considerar as metas do Marco Global para a Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, a COP15, que ocorreu em dezembro do ano passado, no Canadá. O acordo, que traz avanços importantes para a conservação da fauna e da flora em todo o planeta, será uma referência para orientar os projetos do setor privado e o financiamento de atividades baseadas na utilização dos recursos biológicos.

Assinado por mais de 190 países, inclusive o Brasil, o Marco Global estabelece quatro objetivos a serem alcançados até 2050. Também define 23 metas que visam reverter a perda de biodiversidade até 2030. Esses compromissos são tão relevantes para o mundo quanto os assumidos no Acordo de Paris para controlar o aquecimento global e adaptar as estruturas dos países aos impactos das mudanças climáticas.

O setor produtivo tem um papel importante nessa pauta, pois a fauna e a flora são valiosas fontes de matérias primas e insumos para a produção de alimentos, remédios, vacinas, biocombustíveis e outros itens fundamentais para a saúde e o bem-estar das pessoas. A negligência e as ações que causam danos ou perdas a esse patrimônio prejudicam as operações das empresas, e o funcionamento das cadeias de suprimento.

A definição de uma estratégia abrangente para a biodiversidade é fundamental para ajudar o Brasil a proteger o meio ambiente, destacar-se no combate ao aquecimento global, e voltar a crescer de forma vigorosa e sustentada

Além disso, podem comprometer o desenvolvimento da bioeconomia, um promissor modelo de produção industrial baseado no uso sustentável dos recursos biológicos. Dados da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI) mostram que o faturamento da indústria nacional pode ter um acréscimo de US$ 284 bilhões ao ano se o país investir em tecnologias inovadoras que permitam o desenvolvimento de biocombustíveis, plástico verde e outros bens de alto valor agregado, como tecidos, fertilizantes e aditivos químicos.

Por isso, a indústria defende a incorporação efetiva das metas do pacto de Kunming-Montreal a um plano nacional de conservação da biodiversidade.

Entre os pontos positivos do Marco Global para a Biodiversidade está a questão do financiamento. Graças à atuação efetiva dos negociadores brasileiros e de outros países em desenvolvimento na COP15, foi prevista a mobilização de US$ 200 bilhões até 2030 para viabilizar o cumprimento das metas estabelecidas. Esses recursos devem vir de diversas fontes, especialmente de países desenvolvidos e de fundos privados de financiamento.

O tratado reconhece, ainda, a importância do setor produtivo para a conservação da biodiversidade e para o cumprimento do que foi pactuado em Montreal. A meta 15, por exemplo, prevê que os governos adotem medidas para estimular as empresas a inovar e implementar modelos de produção mais sustentáveis. Essas políticas devem aumentar a capacidade da indústria para desenvolver tecnologias e soluções que ajudarão o Brasil a alcançar objetivos como a recuperação de áreas degradadas e a redução dos riscos associados ao uso indiscriminado de pesticidas e de produtos químicos perigosos.

A indústria será igualmente indispensável para o país atingir as metas que tratam do acesso aos recursos genéticos e da repartição dos benefícios, da biossegurança e da biotecnologia. Felizmente, muitas empresas brasileiras já combinam o cuidado e o uso sustentável da biodiversidade com medidas de combate ao aquecimento global.

A indústria de base florestal, por exemplo, planta mais de 1,5 milhão de árvores por dia de espécies como eucalipto e Pinus, que sequestram e estocam gás carbônico, ajudando a conter as mudanças climáticas e gerando retorno financeiro. Empresas do setor de cosméticos investem em pesquisas e no desenvolvimento de produtos sustentáveis a partir da biodiversidade da Amazônia. Além de proteger a floresta, esses negócios geram renda para as comunidades extrativistas e ajudam a promover o desenvolvimento da região.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) tem sido uma das protagonistas dos debates. Organizamos estudos e eventos que identificam os desafios e as oportunidades da conservação e do uso sustentável da biodiversidade. Com base nesses trabalhos, apresentamos recomendações para a internalização do Protocolo de Nagoia, que estabelece regras internacionais para a utilização e a repartição de benefícios do uso de recursos genéticos da biodiversidade. Também subsidiamos o governo brasileiro nas negociações do Marco Global e podemos contribuir para a formulação de um plano nacional que traga benefícios para toda a sociedade.

A elaboração e a implementação de uma política eficiente para proteger o patrimônio biológico e estimular a bioeconomia estão entre os principais desafios do novo governo. Nesse sentido, a criação, pelo novo governo, de secretarias específicas para as questões da biodiversidade e da bioeconomia em diferentes ministérios representa um importante avanço, e demonstra que o setor público está disposto a tratar a questão de forma transversal e estratégica.

No entanto, a efetividade das ações dos ministérios e de outros organismos estaduais e municipais depende do estabelecimento de uma governança bem definida, objetivos claros e instrumentos adequados para alcançá-los. O desenvolvimento da bioeconomia requer, ainda, estímulos à pesquisa, à ciência e à tecnologia, e a expansão da rede nacional de inovação. Exige, também, a criação de regulamentos equilibrados que tragam segurança jurídica aos investidores.

Acreditamos que a definição de uma estratégia abrangente para a biodiversidade é fundamental para ajudar o Brasil a proteger o meio ambiente, destacar-se no combate ao aquecimento global, e voltar a crescer de forma vigorosa e sustentada. A adoção das metas pactuadas no Marco Global para a Biodiversidade de Kunming-Montreal será um importante passo nessa direção.

Robson Braga de Andrade é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-brasil-e-o-marco-da-biodiversidade.ghtml

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Mulheres recebem feedbacks mais gentis do que homens, aponta estudo

Especialistas da London Business School descobriram que a forma como cada gênero é tratado no trabalho impacta nas oportunidades de crescimento na carreira

Por Fernanda Gonçalves – Valor – 12/02/2023

Um estudo conduzido por especialistas da London Business School (Reino Unido) e publicado no SAGE Journals descobriu que as pessoas, em geral, tendem a ser mais gentis ao dar feedback às mulheres do que aos homens. Segundo as pesquisadoras, isso acontece mesmo que os funcionários de ambos os gêneros tenham exatamente o mesmo desempenho.

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O levantamento contou com a participação de 1.500 estudantes de MBA, funcionários de empresas e gerentes dos EUA e Reino Unido. As responsáveis pela pesquisa pediram que eles imaginassem que estivessem dando feedback de desenvolvimento para um funcionário que precisava melhorar sua performance.

O funcionário foi descrito exatamente da mesma forma para todas as pessoas. No entanto, metade foi informada de que o nome da funcionária era Sarah, enquanto a outra metade recebeu a informação de que o funcionário se chamava Andrew.

Em seguida, as cientistas questionaram os participantes sobre suas metas nessa conversa e, embora todos tenham dito que queriam dar um feedback sincero, aqueles que foram informados de que o nome da funcionária era Sarah tinham uma probabilidade significativamente maior do de priorizar a gentileza do que aqueles que acreditavam que o funcionário se chamava Andrew.

Segundo as pesquisadoras, isso acontecia independentemente do gênero ou das tendências políticas da pessoa que deu o feedback: se eles se identificavam como homens ou mulheres, liberais ou conservadores.

Além disso, esse efeito foi confirmado ao analisar o feedback “do mundo real” dado a estudantes internacionais de MBA por mais de 4.800 ex-supervisores, mentores, colegas e subordinados de cargos ocupados antes de ingressar no programa de MBA. Novamente, as responsáveis pelo levantamento observaram que o retorno dado às mulheres era, em média, mais positivo em tom e conteúdo do que aquele que era fornecido aos homens.As cientistas acreditam que essa disparidade ocorre pois há um senso comum que diz que as mulheres são mais calorosas do que os homens. “Quando enxergamos alguém dessa forma, ficamos naturalmente inclinados a ser mais gentis e solidários com essa pessoa”, disseram em nota publicada no site da Harvard Business Review.

“Nossos resultados mostram que esse estereótipo é o que impulsiona o viés da gentileza: tendemos a ver as mulheres como mais calorosas, e isso nos faz querer ser mais gentis ao dar-lhes feedback crítico. Além disso, nossos participantes relataram que consideraram o feedback gentil como sendo mais útil para mulheres do que para homens”, destacaram.

Elas defendem que o feedback impreciso, inútil ou pouco claro – mesmo quando motivado pelo desejo de ser gentil – pode acabar obscurecendo oportunidades de crescimento, fazendo com que as mulheres tenham menos probabilidade de receber trabalhos importantes, aumentos ou promoções. Ao mesmo tempo, a falta de gentileza no retorno dado aos homens pode inibir seu crescimento, prejudicar seu bem-estar e contribuir para uma cultura de trabalho imbuída de normas tóxicas de gênero.

Para enfrentar esses desafios, as pesquisadoras recomendam que os gerentes priorizem o fornecimento de feedback preciso e gentil, não importa com quem estejam falando. “Esse pode ser um equilíbrio difícil de encontrar, mas um pouco de planejamento ajuda muito”, afirmaram.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/02/12/mulheres-recebem-feedbacks-mais-gentis-do-que-homens-aponta-estudo.ghtml

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Robôs e drones tornam realidade o canteiro de obras do futuro

Por Pranshu Verma – Estadão/The Washington Post 16/02/2023

Nos EUA, crise com falta de mão de obra impulsiona onda de inovação, que promete tornar os canteiros de obras muito mais seguros

THE WASHINGTON POST – Escavadeiras de valas autônomas. Drones que recriam digitalmente prédios. Dispositivos que lembram o robô-aspirador Roomba e que descrevem onde cada viga deve ficar no solo.

Nos EUA, o canteiro de obras do futuro já existe, com casas, prédios de escritórios e instalações industriais erguidos em todo o país com robôs capazes de assentar tijolos, instalar drywall e amarrar vergalhões. Essas máquinas estão entrando em ação em um momento no qual o setor de construção passa por uma grande mudança.

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Enquanto isso, startups oferecem ainda mais recursos para o segmento, incluindo robôs construtores que fazem levantamento topográfico e supervisionam obras, assim como maquinários pesados que podem operar por conta própria.

“Os robôs construtores são um ótimo exemplo de como a tecnologia da robótica vai afetar a vida das pessoas”, disse Matthew Johnson-Roberson, diretor do Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon.

Uma crise no setor impulsiona a onda de inovação. As despesas com obras estão crescendo, mas milhares de postos de trabalho continuam vagos. Aqueles atuando no setor estão envelhecendo e às vezes trabalhando em condições terríveis. Em meio a isso, verbas federais estão sendo destinadas à construção de uma infraestrutura melhor.

A confluência de fatores criou uma situação na qual mais construtoras estão recorrendo a robôs para automatizar o trabalho nos canteiros de obras. Mesmo assim, a enxurrada de atividades levou vários especialistas do mercado de trabalho a ficarem preocupados com a possibilidade de que isso provoque a perda de empregos ou uma situação na qual as pessoas trabalhando ao lado desses robôs precisem desempenhar tarefas de forma mais rápida e em ambientes de trabalho menos seguros.

Robô da Dusty Robotics ajuda com o layout na construção de casas

Robô da Dusty Robotics ajuda com o layout na construção de casas Foto: Dusty Robotics/Divulgação

Uso comum

Os robôs não são novidade na indústria. A Amazon usa uma série deles em suas operações, desde o primo do Roomba, o Kiva, que leva pacotes de um canto a outro, ao Sparrow, que segura coisas com destreza semelhante à humana.

Elon Musk, como muito se sabe, prometeu que automatizaria as fábricas da Tesla e recentemente apresentou o protótipo do robô humanoide Optimus, cujo objetivo é redefinir o trabalho físico. Há pouco tempo, o Google mostrou robôs movidos por inteligência artificial que ajudam humanos com tarefas do dia a dia. Alguns deles até mesmo aprendendo a como fazer batata frita.

Mas a dinâmica no setor de construção tem sido diferente, disse Johnson-Roberson.

Projetos de grande escala, como represas, pontes e estradas viram uma adoção mais rápida da tecnologia robótica, porque as tarefas costumam ser mais fixas e exigem menos destreza. Já as construções de imóveis têm feito isso de modo mais lento, pois muitas das atividades demandam coordenação motora fina, as quais os robôs têm mais dificuldade de realizar.

Entretanto, é pouco provável que os canteiros de obras vejam robôs humanoides martelando pregos em pedaços de madeira, disse Johnson-Roberson. Em vez disso, os avanços em tecnologias de telemetria com lasers, softwares de inteligência artificial, hardware robótico e sensores provavelmente entrarão em ação para automatizar tarefas maiores, como cavar, fazer levantamento topográfico, despejar concreto e levar coisas grandes de um canto a outro.

“Isso não é inteligência artificial comum”, afirmou. “Não é como se pudéssemos fazer tudo ou os robôs conseguissem agir como um humano. Na verdade, eles são peças novas de equipamentos pesados que agora têm sensores melhores e podem fazer coisas que os humanos teriam que fazer” dando inúmeros passos complexos.

Perpsectiva

Nik Theodore, diretor do Centro para o Desenvolvimento Econômico Urbano da Universidade de Illinois em Chicago, disse que os robôs podem ser promissores se conseguirem automatizar tarefas rotineiras, muitas vezes causadoras de acidentes e mortes, atribuídas aos trabalhadores “num setor perigoso com grande número de óbitos”.

No entanto, para ele, a preocupação é “a tentação” pela automação acelerar o ritmo de trabalho e aumentar a exaustão dos profissionais, levando a uma situação na qual esgotamento e lesões ocorrem mais, e não menos. Isso poderia “fazer uma solução para deixar o canteiro de obras menos perigoso, na verdade, mais perigoso”. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/robos-e-drones-tornam-realidade-o-canteiro-de-obras-do-futuro/

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Não sabe se foi o ChatGPT? Estudante desenvolve ferramenta para detectar o uso de inteligência artificial

GPTZero usa a própria arquitetura do app para analisar textos. Mais de 35 mil professores já se cadastraram para utilizá-lo

TOPO

Por O Globo/El País 17/02/2023 

Quando Edward Tian, ​​aluno do último ano da Universidade de Princeton (Nova Jersey, Estados Unidos), voltou para casa nas férias de Natal, o ChatGPT já monopolizava conversas e debates ao redor do mundo.

A OpenAI, empresa que faz pesquisas com inteligência artificial (IA), lançou no dia 30 de novembro o ChatGPT, um chatbot ou programa de computador com o qual você pode conversar e que já faz parte do dia a dia de muitos que puderam experimentar (quando não é derrubado pela enorme demanda).

Entre as polêmicas que surgiram com esse lançamento, a que se refere ao fato de os alunos poderem escrever redações ou mesmo uma obra de ficção apenas propondo um tema ao programa ou fazendo algumas perguntas é uma das mais comentadas.

Fazendo uso da própria arquitetura do ChatGPT, Tian projetou durante seus dias de folga o GPTZero, uma ferramenta que permite detectar se um texto foi criado com inteligência artificial, conforme afirma a publicação da NewScientist. Em alguns testes realizados, o modelo atinge 98% de precisão.

– Tínhamos mais de 35.000 professores na lista de espera enquanto trabalhávamos na versão personalizada para educadores – conta Tian.

Essa versão foi lançada em 14 de fevereiro, mas até então, uma versão beta estava disponível gratuitamente (o que significa que você não precisa se registrar para experimentá-la). Essa versão gratuita ainda pode ser acessada.

Nesta versão de teste você pode conferir como a ferramenta avalia a probabilidade de um texto ter sido criado por inteligência artificial e o quanto essa probabilidade varia ao longo do texto, pois o que é produzido por uma pessoa contém fragmentos que podem parecer ter sido criados pela inteligência artificial e outras que não são, enquanto o que é gerado pela inteligência artificial é mais constante.

A motivação de Edward Tian para desenvolver a contraparte do ChatGPT surgiu, diz ele, do fato de que “essas tecnologias são muito inovadoras, mas quando você as lança no mundo, há muito potencial para abuso”:

– Então você tem que construir defesas no mesmo tempo, não meses ou anos depois. Eu não esperava que isso se tornasse viral – diz o estudante americano.

Na verdade, o site que ele usou para hospedar o GPTZero rapidamente lhe forneceu recursos gratuitos, depois de se tornar o aplicativo mais popular da plataforma.

Quando ela visitou sua antiga escola no Natal, uma ex-professora de inglês de Tian lhe disse que pela sua percepção todos os alunos estão usando o ChatGPT. Por isso, e pelos comentários que lhe têm chegado, o estudante universitário sabe que a sua ferramenta se tornou um alívio para os professores:

– Muitos dizem que é reconfortante saber que o GPTZero existe. Mesmo que não o estejam usando, eles acham reconfortante saber que está lá.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2023/02/estudante-de-princeton-desenvolve-ferramenta-para-detectar-o-uso-do-chatgpt-em-textos.ghtml

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Segurança nas ruas: câmeras e grupos de vigilância criam cenário de ficção científica

Empresas aperfeiçoam serviços com novas tecnologias e inteligência artificial, mas podem esbarrar em questões éticas

Por Francesca Angiolillo — Para o Valor, 10/02/2023

Postes azuis com três câmeras, dispostos no recuo de edifícios comerciais ou residenciais, olham para a frente, para um lado e para o outro da rua. Captando imagens que são enviadas para uma central única de segurança 24 horas ao dia, os equipamentos são um reforço recentemente adotado na alameda Gabriel Monteiro da Silva, rua de comércio de design e decoração na zona oeste da capital paulista.

Quando, há mais de 60 anos, a ativista urbana Jane Jacobs (1916-2006) escreveu que um dos fatores para cidades seguras era que houvesse “olhos para a rua”, ela talvez não pudesse prever que esses olhos fossem ser artificiais.

A canadense de nascimento é autora de um livro hoje clássico, “Morte e vida das grandes cidades”, no qual resumiu seu pensamento. “É uma coisa que todos já sabem: uma rua movimentada consegue garantir a segurança; uma rua deserta, não”, escreveu.

Os “olhos para a rua” eram o segundo dos três mandamentos interdependentes – o primeiro, demarcação clara entre público e privado; o terceiro, movimento em todas as horas do dia. “Ninguém gosta de ficar na soleira de uma casa ou na janela olhando uma rua vazia.”

Na falta do movimento que conquiste olhos interessados, há que pagar quem se disponha a vigiar a via pública. É o que fazem as câmeras da Gabriel Monteiro da Silva. Elas foram instaladas pela CoSecurity, startup nascida originalmente como um braço da Haganá, gigante da segurança privada que hoje está entre seus investidores.

Ao longo de 3 km da rua nos Jardins, foram colocados tanto postes com três câmeras, os chamados totens, no recuo das lojas, quanto um equipamento mais compacto, com duas, fixado em muros. O conjunto foi divulgado à imprensa pela associação de 120 lojistas e pela CoSecurity como “corredor comercial seguro” e “a maior rede de câmeras interligadas do país”.

Chen Gilad, CEO da Haganá e cofundador da CoSecurity, estima que, na cidade, a startup tenha hoje 1.200 câmeras instaladas, em bairros de alta renda, como Higienópolis, Moema e Vila Nova Conceição.

Todas as imagens são enviadas para a central da Haganá, onde 16 pessoas, que devem se tornar 32 em breve, monitoram o material. Na base de cada equipamento, há também um código QR que permite comunicação imediata com essa central, adicionando aos olhos artificiais também um caminho para o que olhos humanos vejam nos arredores.

A câmera aprende com o tempo – pode distinguir que, num certo dia da semana, uma aglomeração é normal pois há uma feira livre

Em caso de ocorrência ou suspeita, a central entra em contato com a polícia pelo 190. É algo que qualquer pessoa pode e deve fazer diante de um possível delito, mas, diz o executivo, muita gente não faz.

Ele frisa a utilidade pública de seu serviço, que atende não só a quem o contrata. Diz que as imagens, que ficam armazenadas por sete dias, já ajudaram a encontrar cachorro perdido, prender ladrão de relógio e até a desvendar um assassinato de uma pessoa em situação de rua na Barra Funda que, diz o executivo, a polícia nem sabia que havia acontecido.

Enquanto uma câmera privada única, colocada em um edifício, capta apenas o que está acontecendo no seu pequeno âmbito, um sistema interligado permite que se detecte a ação de forma mais completa, argumenta Gilad. “Quando acontece o assalto, a gente não vê mais só aquele segundo, vê 500 metros para a frente e para trás.”

As câmeras são dotadas de inteligência artificial. Os algoritmos, diz Gilad, “ainda não estão no nível de ficção científica que a gente gostaria”, mas permitem captar movimentações estranhas e, nesses casos, a câmera emite um pop-up na tela da central, analisado pelos olhos humanos.

Exemplos de fatores incomuns seriam uma pessoa correndo ou uma aglomeração de pessoas. A câmera, explica, “vai aprendendo com o tempo” – pode, assim, distinguir que, num certo dia da semana, aquela aglomeração é normal pois há uma feira livre.

No caminho da “ficção científica”, Gilad diz que a empresa começou a fazer testes com drones, que, ao comando da câmera, podem voar até o local e ver de perto o fato estranho. “São coisas que vão acontecer nos próximos dez anos, mas, para que aconteçam, a gente precisa começar a construir uma infraestrutura hoje”, diz, acrescentando que mesmo a legislação atual teria de ser adaptada para esse tipo de evolução.

Algo mais simples, porém, tem muito efeito, de acordo com o executivo – a ostensividade visual do sistema, que faz com que “o bandido resolva ir para outro lugar”.

“A gente aqui é bem ligado no design e tentou mudar a cor do poste”, admite Jander Ferreri dos Anjos, presidente da associação dos lojistas da Gabriel Monteiro da Silva. Segundo o comerciante, a empresa explicou que ser chamativo era crucial. De noite, os equipamentos têm uma iluminação de LED, para que continuem visíveis.

Polícia destaca o programa Vizinhança Solidária, em que um grupo de residentes ou proprietários de estabelecimento se articula para vigiar

O lojista afirma que a preocupação da associação foi, por muito tempo, a zeladoria da rua. Mas pensar mais em segurança faz sentido num contexto em que a Gabriel Monteiro da Silva quer ser vista como um shopping a céu aberto.

Pesquisa realizada em 2018 pelo Serviço de Proteção ao Crédito e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas detectou que 56% dos consumidores se sentiam mais seguros comprando em shoppings.

Embora não tenha estudos semelhantes, a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) demonstra, com um dado, o peso desse aspecto para o setor. O gasto anual em meios físicos e tecnologia para segurança é de R$ 5 bilhões, algo na ordem de R$ 670 mil ao mês por shopping – eram 620 em 2021. Não há uma coordenação única de ações de segurança, e os principais grupos de shopping centers do país, procurados pela reportagem, não quiseram comentar políticas específicas.

A Abrasel, que representa outro setor muito visado, o de bares e restaurantes, tampouco tem uma ação concertada entre os associados, mas chegou a recomendar o uso em épocas nos quais restaurantes eram “vítimas preferidas de quadrilhas”, segundo o advogado Percival Maricato, diretor institucional da entidade em SP.

Ele diz que, diante de uma realidade em que só 15% das famílias têm renda de mais de R$ 4 mil, pensar em justiça social “não é só um problema de sensibilidade e de ética, é um problema de inteligência”. A associação faz cursos para treinar jovens que queiram trabalhar no setor. Gastar em educação é economizar em segurança, defende.

Mesmo bairros com vida noturna agitada e gente na calçada a toda hora, como é caso de Santa Cecília, não têm escapado dos crimes. Casos recentes de arrastões em bares da região assustaram os frequentadores.

Dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo em dezembro passado indicaram que Santa Cecília teve os maiores números desde o início da série histórica, em 2002.

Celulares, alvo principal de ações como os arrastões em bares, são uma mina de ouro para os ladrões, pelo acesso a dados, inclusive bancários. De posse de senhas salvas em drives e caixas de email, ou com hackeamento, os criminosos fazem a limpa nas contas, criando um pesadelo entre clientes e bancos.

A Febraban afirma que os bancos “estão constantemente preocupados com a segurança de clientes e funcionários e têm adotado ações de conscientização sobre segurança e prevenção a fraudes”.

Nesse âmbito, estão a orientação e treinamento de funcionários para observar e identificar “pessoas suspeitas, que permanecem na área de atendimento ao público sem realizar qualquer serviço bancário”, que poderiam ser “olheiros”, além de ações com órgãos policiais para intensificar as rondas nas imediações de áreas com agências bancárias.

O olho na rua é uma preocupação que não necessariamente tem a ver com o número de registros policiais numa determinada região. A própria alameda Gabriel Monteiro da Silva, frisa Jander Ferreri, não é um lugar perigoso.

“Em conversas, a polícia sempre traz que, de um ponto de vista estatístico, a gente está numa das regiões mais seguras da cidade”, diz ele, complementando que, mesmo sem dados que justifiquem o atual investimento dos lojistas, pesa a percepção dos clientes.

Ele desconfia que essa percepção não se reflita nos dados policiais por um motivo levantado pelas próprias autoridades. “Eles sempre argumentam que, em boa parte dos assuntos, não são registradas ocorrências.”

“Nossa fonte de dados é o 190, só consigo planejar o policiamento com base nas ocorrências registradas”, corrobora, em outra conversa, o capitão Dilermando Cesar Silva; “por vezes temos a subnotificação de crimes”. Ele é chefe da seção de Estratégias de Polícia Comunitária, parte de uma diretoria dedicada desde 2008 ao tema e aos direitos humanos, dentro da PM de São Paulo.

Ele explica que o conceito de polícia comunitária está em crescimento. A força nasceu em 1831, diz o capitão, “com um condão comunitário”, mas a primeira medida a institucionalizar esse aspecto foi a criação, em 1986, no governo de André Franco Montoro (PMDB), dos Conselhos Comunitários de Segurança, os Consegs, que fazem a ponte da comunidade com as autoridades policiais.

A Polícia Comunitária veio anos depois, em 1997, inspirada na experiência que o Japão põe em prática desde 1868. O discurso de Dilermando é por “criar uma cultura de paz”. “A segurança não pode ser vista como algo repressivo.”

Dentro da visão de segurança como responsabilidade compartilhada, o policial destaca o programa Vizinhança Solidária (PVS), em que um grupo de residentes ou proprietários de estabelecimento se articula para manter, na rua (ou quadra, ou bairro), olhos humanos.

Cada grupo tem um tutor, que concentra registros, como imagens de câmera, quando é preciso notificar as autoridades. É uma “ferramenta de polícia comunitária que tem como cerne promover a mudança de cultura de pessoas”, descreve o policial.

Ter um vizinho de confiança a quem informar quando vai viajar e alertas em grupo de WhatsApp são práticas estimuladas no programa. Os imóveis participantes são identificados por uma placa padronizada, informando que aqueles arredores são vigiados por todos. O PVS tem 1.665 núcleos na capital e 2.433 no interior do estado. Dos 645 municípios paulistas, 380 adotam o programa, segundo dados da SSP.

Os núcleos são pequenos, explica o capitão, porque “só o morador conhece os problemas daquele espaço”. Câmeras e grupos de mensagens, diz ele, são “acessórios ao programa”, mas o principal material são as pessoas. “Não adianta eu colocar a plaquinha do PVS lá e achar que tudo vai acontecer num passe de mágica.”

Há diferentes maneiras de instalar o programa em uma comunidade, que pode ser o bairro residencial, a região do trabalho ou um ambiente escolar. Os interessados podem buscar orientação na companhia de polícia local, um tutor ou, ainda, através do Conseg correspondente. Residentes da região onde se insere a alameda Gabriel Monteiro da Silva, os Jardins, adotam o PVS.

“Câmeras não resolvem o problema sozinhas”, diz o jornalista Fernando Sampaio, presidente da AME Jardins, associação dos moradores locais. “Na realidade, a solução vem de um conjunto de atitudes”, embora veja o registro de imagens das câmeras como um avanço. “Minha maior dica é ‘liga no 190’. O cidadão tem que ajudar a segurança chamando a polícia.”

Sampaio conta que a área coberta pelo PVS no âmbito da AME tem 75 ruas, cada uma com seu tutor. Essa distribuição serve para driblar o fato de que, numa região estendida, é mais complexo instalar um sistema único, como fizeram os lojistas da rua próxima, devido às diferentes formas de atuação e de valores. “As imagens não estão todas com a mesma empresa, mas tem sempre um tutor que sabe como conseguir essa imagem para você.”

Na rua em que ele mora, a Sampaio Vidal, de 80 casas, 30 optaram por contratar um serviço de câmeras da mesma empresa. Ele próprio não foi um entusiasta de primeira hora da vigilância constante, mas se convenceu. “Querendo ou não, a gente está sempre sendo visto por alguém.”

A empresa contratada na rua de Sampaio foi a Vektran, fundada há 12 anos por Marcelo Cortelazo, que migrou do ramo da tecnologia para o da segurança. Ele hoje contabiliza cerca de 400 postes instalados na cidade, a maioria nos Jardins. Oito anos atrás, começou a fechar instalações em grupos de rua. “O Vizinhança Solidária já existia. Participei de algumas reuniões, entendi a necessidade e imaginei [o serviço].”

As câmeras de Cortelazo, de forma semelhante às da CoSecurity, miram a calçada. A principal diferença é que as imagens ficam armazenadas por 15 dias, mas não há uma central. Seu sistema depende mesmo da comunidade. Cada poste tem seu ponto de gravação, e cada instalação tem um hospedeiro que guarda, secretamente, esses registros.

O visual dos postes também é mais discreto. Pintados de preto, eles têm holofotes de LED para a noite, a fim de “chamar a atenção sem fazer grandes estardalhaços”.

Outra diferença é a forma de contratação do serviço. A CoSecurity cobra uma assinatura; já a Vektran vende a instalação e oferece pacotes de manutenção do equipamento. Um poste, com toda a instalação, custa R$ 11.800, com manutenção anual – que não é obrigatória, mas recomendada – de R$ 1.200.

O sistema de Cortelazo consegue ler dados como placas de carro, mas os serviços de inteligência artificial ainda são apenas objeto de estudo, para no futuro permitir treinar suas câmeras para avisar em certas situações, como grupos à noite em ruas pouco movimentadas, ou a criar “cercas virtuais” – “a partir de tal horário, se parar um carro ali, ela gera um alerta”.

Chen Gilad, da firma concorrente, sublinha os benefícios da inteligência artificial para o lado do negócio. Como seu serviço é por assinatura, ele calcula que possa levar até três anos para um poste se pagar. “Quando você tem uma cidade toda monitorada, vou poder vender [a informação] para uma operadora de seguro”, imaginando que os registros por suas câmeras possam ser usados para esclarecer acidentes, por exemplo.

Esse é um dos aspectos da hipervigilância que Giselle Beiguelman, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, destaca como preocupantes.

“A primeira imagem que me vem é uma que era filosófica e virou senso comum, aquele texto muito curto do [Gilles] Deleuze sobre a sociedade de controle. Ele fala que chegaria um tempo em que você não precisaria mais de estruturas de controle do poder central, como era o caso do panóptico, um ponto de vista que governa todos, porque a vigilância se tornaria capilar e todos controlariam todos o tempo todo.”

Beiguelman, que, em suas pesquisas como docente e artista visual, estuda as camadas de informação e o engajamento individual no espaço público, conclui que sistemas como o da CoSecurity são “a sociedade de controle ao vivo” como preconizada pelo filósofo francês (1925-1995), que adiantou que o confinamento daria lugar ao controle contínuo e à comunicação instantânea.

“O perigo é que os sistemas de inteligência artificial trabalham com alguns padrões”, recorda ela, de tal modo que indivíduos se tornam potencialmente visados pela observação de determinados gestos ou trajetos.

“Eu costumo dizer que a inteligência artificial está criando um modelo de Cesare Lombroso 2.0. Você ainda não cometeu o crime, mas você pode cometer; tudo indica que você cometerá”, diz Beiguelman, aludindo ao italiano pai da antropologia criminal (1835-1909), criador de uma controvertida técnica de prever, por traços físicos e psicológicos, a possibilidade de uma pessoa ser um delinquente nato. Beiguelman não deixa de advertir que “muitos estudos mostram a incidência de erros com pessoas negras”.

Inteligência artificial não é reconhecimento facial, argumenta Chen Gilad. Esta última “está sendo pensada para detectar movimentos incomuns, como uma mota em cima da calçada, um carro na contramão, aglomeração de pessoas”, sublinha o empresário. “Pessoas andando e de repente correndo são comportamentos que independem de grupos específicos da sociedade.”

Beiguelman indaga ainda sobre o que podem fazer, já a esta altura, as câmeras dotadas de inteligência artificial. “É uma imagem videográfica ou já pega coordenadas, tem espectro termal, tracking de movimento?” E, continua, “uma vez que essas imagens são apagadas, o que fica no servidor? Porque, para ele ser inteligente, tem que ficar aprendendo o tempo todo, não vai jogar fora aquilo que ele viu” – como admite o próprio Gilad.

“Não deixa de ser invasivo, porque a pessoa que está andando na rua não está sabendo que está numa malha”, argumenta a professora. “Ela não está gravando você, está gravando você, seu contexto, seu horário, seu deslocamento.”

Gilad rebate, lembrando a existência da Lei Geral de Proteção de Dados, que impõe limites para o uso da informação coletada. As câmeras, diz ele, acumulam dados mais amplos, como o número de pessoas circulando numa via, eventualmente quantos são adultos, quantos são crianças. Elas “não se concentram na identificação de nenhum dado pessoal”, frisa ele.

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2023/02/10/seguranca-nas-ruas-cameras-e-grupos-de-vigilancia-criam-cenario-de-ficcao-cientifica.ghtml

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Petróleo: o enorme impacto econômico e social das “junior oils”

As operadoras independentes de óleo e gás pagaram cerca de R$ 1 bilhão em royalties, no ano passado, e geraram 315 mil empregos totais nas regiões onde atuam

Campo Mata de São João, na Bahia: plataformas onshore (“em terra”) são responsáveis por 6% da produção total de petróleo e gás natural no Brasil (ABPIP/Divulgação)

Campo Mata de São João, na Bahia: plataformas onshore (“em terra”) são responsáveis por 6% da produção total de petróleo e gás natural no Brasil (ABPIP/Divulgação)

Bússola Exame Publicado em 13 de fevereiro de 2023

Uma das maiores reservas de petróleo do mundo se encontra no fundo dos oceanos brasileiros. O que muita gente não sabe é que o país tem enormes oportunidades nessa área também em terra firme. Segundo o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), o mercado onshore é responsável por 6% da produção total de petróleo e gás natural no Brasil. Outro dado que fala por si: entre 2016 e 2022, as operadoras independentes foram responsáveis pelo aumento de cerca de 30% da produção em terra.

“Além de impulsionar a retomada dos investimentos no onshore brasileiro, as produtoras independentes estão ajudando a transformar a realidade econômica e social das regiões nas quais elas atuam”, diz Anabal Santos, secretário executivo da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Petróleo e Gás (ABPIP). “Essas companhias se transformam no principal motor de desenvolvimento local, seja com empregos diretos ou indiretos”.

De acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cada emprego gerado nesse setor dá origem a nove indiretos ou até 36 no total, se considerarmos os empregos efeito-renda.

Não à toa, municípios como Macaé, no Rio de Janeiro, e Mossoró, no Rio Grande do Norte –conhecidos pela exploração e produção de petróleo e gás – ocupam boas posições nos rankings de pleno emprego e de empreendedorismo.

Os contratos para E&P, via de regra, são constituídos por duas fases: exploração e produção. A fase de exploração precede a fase de produção e tem por objetivo descobrir e avaliar jazidas de petróleo e/ou gás natural.

O contrato estabelece um prazo, usualmente dividido em períodos exploratórios, durante o qual o concessionário ou contratado deve desenvolver atividades exploratórias de geologia e geofísica, visando ao maior conhecimento sobre os blocos adquiridos. Também é nessa fase que o concessionário ou contratado realiza as avaliações de descobertas e, caso conclua por sua viabilidade econômica, declara a comercialidade das áreas.

Já a fase de produção é dividida em duas etapas: de desenvolvimento e produção. A primeira significa a implantação de toda a infraestrutura necessária à efetiva produção do campo. Na segunda, já com a infraestrutura instalada, o campo passa a produzir os insumos para abastecer o mercado. Esta etapa é a mais longa de todo o ciclo de vida de um campo de petróleo, podendo se estender por décadas a depender da capacidade produtiva do campo.

Atualmente, as empresas do gênero, como PetroReconcavo, 3R, Eneva, Seacrest e Origem, operam em 179 campos. E obtiveram um crescimento considerável nos últimos anos em razão da compra de ativos da Petrobras.

Tudo começou com o plano de desinvestimento da petroleira iniciado em 2015, no governo de Dilma Rousseff. Graças a ele, a produção em bacias terrestres, que entrou em declínio a partir de 2012, voltou a crescer, e muito – agora com novos players.

Para ter uma ideia, as “junior oils”, como as companhias independentes do setor são conhecidas, geram cerca de 315 mil empregos totais, além de capacitar parte considerável desses profissionais. Em 2022, essas empresas pagaram cerca de R$ 1 bilhão em royalties para os municípios nos quais atuam, contribuindo decisivamente para o progresso econômico e social de inúmeras regiões do país, muitas delas esquecidas pelo poder público.

E pelas contas da ABPIP, o total de óleo e gás produzido atualmente pelas operadoras independentes equivale a 150 mil barris por dia. A associação enxerga, no entanto, que há potencial para ampliar a produção para 500 mil até 2029.

Até essa data, a entidade estima que as companhias associadas deverão investir R$ 40 bilhões para aumentar a produção, maximizar o fator de recuperação e ampliar a vida útil dos campos terrestres.

A consultoria Wood Mackenzie tem previsões ainda mais otimistas, com estimativas de que as operadoras independentes deverão investir US$ 10 bilhões (ou R$ 51 bilhões) em projetos já vendidos pela Petrobras. E prevê que a produção das companhias do setor onshore deverá saltar para 485 mil barris por dia em cinco anos. “As perspectivas são todas favoráveis”, afirma o secretário executivo da ABPIP. “Essas empresas estão criando um ambiente de negócios mais diversificado e competitivo, e deixando o mercado mais aberto”.

Convém lembrar que nas três primeiras rodadas da Oferta Permanente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), 109 blocos exploratórios e 13 áreas com acumulações marginais foram arrematados por companhias independentes.

Mais: essas empresas têm sido fundamentais para ampliar a oferta de gás. Os estados do Nordeste, em muitos casos, registraram aumento de competitividade industrial por meio de contratos mais atrativos com as distribuidoras locais. E o Rio Grande do Norte não deixa mentir. Desde o início de 2022, o estado dispõe do gás natural mais barato do país – é produzido, obviamente, por operadores independentes.

Campo Riacho da Forquilha, no Rio Grande do Norte: entre 2016 e 2022, as operadoras independentes foram responsáveis pelo aumento de 30% da produção de petróleo e gás natural em terra (ABPIP/Divulgação)

“Junior oils”: ESG na prática

Além de contribuir com a economia das regiões em que atuam, as pequenas e médias empresas estão engajadas em projetos que visam acelerar o desenvolvimento local. A PetroReconcavo, por exemplo, mantém o Ciranda Viva Recôncavo, na Bahia, e o Viva Sabiá, no Rio Grande do Norte.

O primeiro projeto promove ações em prol da educação ambiental, da segurança alimentar, da leitura e do esporte. O segundo projeto visa preservar recursos naturais e ampliar o acesso à água potável, o que está sendo feito com a implementação de um engenhoso sistema de purificação que se vale da radiação solar. Essa iniciativa foi ampliada por meio de uma parceria com a Fundação Banco do Brasil, em dezembro de 2022.

Já a Origem Energia, que atua na Bahia, Alagoas, Espírito Santo e Rio Grande do Norte, criou o Projeto Ser+. O programa oferece educação empreendedora nas regiões onde a empresa marca presença, além de realizar a gestão de resíduos com cooperativas locais de reciclagem.

A 3R Petroleum, por sua vez, está à frente de iniciativas que combatem a fome no Rio de Janeiro, na Bahia e no Rio Grande do Norte, além de ter firmado parcerias com o Instituto da Criança e com a ONG Júnior Achievement.

A Seacrest, atuante no Espírito Santo, apoia entidades comunitárias locais e ações em prol da educação e do esporte. E a Eneva investiu mais de R$ 4 milhões em projetos sociais e ambientais que visam estimular a agricultura familiar, a educação e a redução do analfabetismo.

Como se vê, o impacto positivo gerado por todas as empresas ligadas ao setor está apenas começando.

https://exame.com/bussola/petroleo-o-enorme-impacto-economico-e-social-das-junior-oils/

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ChatGPT: Proibir nas escolas ou usar o bot dentro da sala de aula?

por Kevin Roose – Estadão/NYT – 04/02/2023 

O novo chatbot da OpenAI está aumentando o receio de trapaças na lição de casa, mas seu potencial como ferramenta educacional supera seus riscos

THE NEW YORK TIMES – LIFE/STYLE – Recentemente, dei uma palestra para um grupo de professores do ensino primário e secundário e administradores de escolas públicas em Nova York. O tópico era inteligência artificial e como as escolas precisariam se adaptar para preparar os alunos para um futuro repleto de todos os tipos de ferramentas de IA competentes.

Mas meu público se importava apenas com uma ferramenta de IA: o ChatGPT, o famoso chatbot desenvolvido pela OpenAI que é capaz de escrever ensaios convincentes, resolver problemas de ciências e matemática e produzir código de computador funcional.

O ChatGPT é novo – foi lançado no final de novembro – mas já deixou muitos educadores em pânico. Os alunos estão usando-o para fazer suas tarefas e apresentar ensaios gerados por IA e conjuntos de problemas como se fossem seus. Professores e administradores escolares têm se esforçado para pegar os alunos usando a ferramenta para trapacear e estão preocupados com o estrago que o ChatGPT pode causar em seus planos de aula. (Algumas publicações declararam, talvez um pouco prematuramente, que o ChatGPT acabou com a lição de casa.)

A trapaça é o medo imediato e prático, junto com a propensão do bot para cuspir respostas erradas ou enganosas. Mas também há preocupações existenciais. Um professor do ensino médio me disse que usou o ChatGPT para avaliar alguns dos trabalhos de seus alunos e que o aplicativo forneceu um feedback mais detalhado e útil sobre eles do que ele, em uma pequena fração do tempo.

O uso do ChatGPT em sala de aula ou para tarefas ligadas à educação é controverso, mas há quem defenda que professores tenham a Inteligência Artificial como aliada. Foto: Nata Metlukh/The New York Times

“Eu sou mesmo necessário agora?” ele me perguntou, mais ou menos brincando.

Algumas escolas responderam ao ChatGPT reprimindo-o. As escolas públicas da cidade de Nova York, por exemplo, bloquearam recentemente o acesso ao ChatGPT nos computadores e redes escolares, citando “preocupações sobre impactos negativos na aprendizagem dos alunos e preocupações com a segurança e precisão do conteúdo”. Escolas em outras cidades, incluindo Seattle, também restringiram o acesso. (Tim Robinson, porta-voz das Escolas Públicas de Seattle, disse-me que o ChatGPT foi bloqueado nos aparelhos escolares em dezembro, “juntamente com outras cinco ferramentas de trapaça”.)

É fácil entender por que os educadores se sentem ameaçados. O ChatGPT é uma ferramenta extremamente competente que caiu no meio deles sem aviso e tem um desempenho razoavelmente bom em uma ampla variedade de tarefas e assuntos acadêmicos. Existem questões legítimas sobre a ética da escrita gerada por IA e preocupações sobre se as respostas fornecidas pelo ChatGPT são precisas. (Muitas vezes, não são.) E simpatizo com os professores que sentem que já têm o suficiente com que se preocupar, sem adicionar lição de casa gerada por IA à mistura.

Mas depois de conversar com dezenas de educadores nas últimas semanas, cheguei à conclusão de que banir o ChatGPT da sala de aula é a jogada errada.

Em vez disso, acredito que as escolas devem adotar o ChatGPT com cuidado como um auxílio de ensino – um que possa desbloquear a criatividade do aluno, oferecer tutoria personalizada e preparar melhor os alunos para trabalhar com sistemas de IA quando adultos. Aqui está o porquê.

Não vai funcionar

A primeira razão para não banir o ChatGPT nas escolas é que, para ser franco, não vai funcionar.

Claro, uma escola pode bloquear o site ChatGPT em redes escolares e aparelhos de propriedade da escola. Mas os alunos têm telefones, laptops e várias outras formas de acesso fora da sala de aula. (Só por diversão, perguntei ao ChatGPT como um aluno que pretendia usar o aplicativo poderia escapar de uma proibição em toda a escola. Ele apresentou cinco respostas, todas totalmente plausíveis, incluindo o uso de uma VPN para disfarçar o tráfego do aluno na rede.)

Alguns professores têm grandes esperanças em ferramentas como o GPTZero, um programa desenvolvido por um estudante da Universidade de Princeton que afirma ser capaz de detectar a escrita gerada por IA. Mas essas ferramentas não são precisas de maneira confiável e é relativamente fácil enganá-las alterando algumas palavras ou usando um programa de IA diferente para parafrasear certas passagens.

Os chatbots de IA podem ser programados para que suas respostas fiquem marcadas de alguma forma, para que os professores tenham mais facilidade em identificar o texto gerado pela IA. Mas isso também é uma defesa frágil. No momento, o ChatGPT é o único chatbot gratuito e fácil de usar de seu calibre. Mas haverá outros, e os alunos logo poderão escolher, provavelmente incluindo aplicativos sem impressões digitais de IA.

Mesmo que fosse tecnicamente possível bloquear o ChatGPT, os professores gostariam de passar suas noites e fins de semana acompanhando o mais recente software de detecção de IA? Vários educadores com quem conversei disseram que, embora achassem irritante a ideia da trapaça possibilitada pelo ChatGPT, policiar parecia ainda pior.

Em vez de começar um jogo interminável de perseguição contra um exército cada vez maior de chatbots de IA, aqui está uma sugestão: pelo resto do ano letivo, as escolas deveriam tratar o ChatGPT da mesma forma que tratam as calculadoras – permitindo-o para algumas tarefas, mas não outras, e presumindo que, a menos que os alunos estejam sendo supervisionados pessoalmente e estejam com seus aparelhos guardados, eles provavelmente estarão usando.

Então, durante o verão, os professores podem modificar seus planos de aula – substituindo as provas para fazer em casa por testes em sala de aula ou discussões em grupo, por exemplo – para tentar manter os trapaceiros afastados.

O ChatGPT pode ser o melhor amigo do professor

A segunda razão para não banir o ChatGPT da sala de aula é que, com a abordagem correta, ele pode ser uma ferramenta de ensino eficaz.

Cherie Shields, uma professora de inglês do ensino médio em Oregon, me disse que recentemente pediu aos alunos em uma de suas aulas para usarem o ChatGPT com o objetivo de criar esboços para seus ensaios comparando e contrastando dois contos do século XIX que abordam temas de gênero e saúde mental: The Story of an Hour, de Kate Chopin, e The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Gilman. Depois que os esboços foram gerados, seus alunos guardaram seus laptops e escreveram seus ensaios à mão.

O processo, ela disse, não apenas aprofundou a compreensão dos alunos sobre os contos. Também os ensinou sobre como interagir com modelos de IA e como obter uma resposta útil de um deles.

“Eles precisam entender: ‘Preciso disso para produzir um esboço sobre X, Y e Z’ e precisam pensar com muito cuidado sobre isso”, disse Shields. “E se eles não obtiverem o resultado que desejam, sempre poderão revisá-lo.”

A criação de esboços é apenas uma das muitas maneiras pelas quais o ChatGPT pode ser usado em sala de aula. Ele poderia escrever planos de aula personalizados para cada aluno (“explique as leis de movimento de Newton para um aluno visual-espacial”) e gerar ideias para atividades de sala de aula (“escreva um roteiro para um episódio de Friends que ocorre na Convenção Constitucional”) . Ele poderia servir como um tutor após o expediente (“explique o efeito Doppler, usando uma linguagem que um aluno da oitava série possa entender”) ou um parceiro de debate (“me convença de que os testes em animais devem ser banidos”). Ele pode ser usado como ponto de partida para exercícios em sala de aula ou uma ferramenta para alunos de inglês melhorarem suas habilidades básicas de escrita. (O blog de ensino Ditch That Textbook tem uma longa lista de possíveis usos em sala de aula para o ChatGPT.)

Mesmo as falhas do ChatGPT – como o fato de que suas respostas a perguntas factuais estão frequentemente erradas – podem se tornar um alimento para um exercício de pensamento crítico. Vários professores me disseram que instruíram os alunos a tentar enganar o ChatGPT ou avaliar suas respostas da mesma forma que um professor avaliaria as de um aluno.

O ChatGPT ensina os alunos sobre o mundo que eles habitarão

Agora, vou tirar meu chapéu de colunista de tecnologia por um segundo e confessar que escrever este artigo me deixou um pouco triste. Eu adorava a escola e me dói, de certa forma, pensar que, em vez de aprimorar suas habilidades escrevendo redações sobre “O Sol Também se Levanta” ou se esforçando para fatorar uma expressão trigonométrica, os alunos de hoje podem simplesmente pedir a um chatbot de IA para fazer isso para eles.

Também não acredito que os educadores que se opõem reflexivamente ao ChatGPT estejam sendo irracionais. Esse tipo de IA realmente é (desculpe a palavra da moda) disruptivo – para rotinas de sala de aula, para práticas pedagógicas de longa data e para o princípio básico de que o trabalho que os alunos entregam deve refletir o raciocínio acontecendo dentro de seus cérebros, e não no espaço latente de um modelo de aprendizado de máquina hospedado em um supercomputador distante.

Mas a barricada caiu. Ferramentas como o ChatGPT não vão desaparecer; elas só vão melhorar e, exceto por alguma intervenção regulatória importante, essa forma específica de inteligência de máquina agora é um elemento de nossa sociedade.

“Os grandes modelos de linguagem não ficarão menos capazes nos próximos anos”, disse Ethan Mollick, professor da Wharton School da Universidade da Pensilvânia. “Precisamos descobrir uma maneira de nos ajustar a essas ferramentas, e não apenas bani-las.”

Na verdade, esse é o maior motivo para não bani-lo da sala de aula – porque os alunos de hoje se formarão em um mundo cheio de programas generativos de IA. Eles precisarão conhecer essas ferramentas – seus pontos fortes e fracos, suas características e pontos cegos – para trabalhar ao lado deles. Para serem bons cidadãos, eles precisarão de experiência prática para entender como esse tipo de IA funciona, que tipos de viés ela contém e como pode ser mal utilizada e transformada em arma.

Esse ajuste não será fácil. Mudanças tecnológicas repentinas raramente são. Mas quem melhor para guiar os alunos neste estranho mundo novo do que seus professores? /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

https://www.estadao.com.br/internacional/nytiw/chatgpt-proibir-nas-escolas-ou-usar-o-bot-dentro-da-sala-de-aula/

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Reabertura da China pode adicionar 0,5 ponto ao PIB brasileiro este ano

Empresas enviam representantes ao país asiático e reavaliam projeções. Economistas, porém, ressaltam que governo precisa “fazer a lição de casa” para se beneficiar

Por João Sorima Neto — O Globo 13/02/2023 

A Nortec, instalada no município de Duque de Caxias, no Estado do Rio, fatura R$ 230 milhões por ano produzindo insumos farmacêuticos para medicamentos como anestésicos locais e antirretrovirais. Exporta de 10% a 15% de sua produção de 300 toneladas para América Latina, Europa e EUA. Com a reabertura da economia da China, após três anos de isolamento do país por causa da Covid, abriu-se uma nova janela de exportação. A Nortec já começou negociações para vender seus insumos ao mercado chinês, que considera estratégico. Espera ter a aprovação da “Anvisa da China” este ano e já em 2024 iniciar as vendas, que devem ficar inicialmente entre R$ 10 milhões e R$ 20 milhões, subindo para R$ 50 milhões nos anos seguintes.

Se a reabertura da segunda maior economia do mundo já traz novos negócios para a Nortec, também está sendo comemorada globalmente, por empresas e governos. Economistas avaliam que uma retomada consistente do crescimento chinês nos próximos anos terá impacto positivo no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. E países emergentes como o Brasil, que têm na China seu principal parceiro comercial, devem se beneficiar.

— Este mês, vamos mandar nossa primeira missão para a China desde 2019. Era complicado negociar com o país fechado. Agora estamos bem otimistas — diz Marcelo Mansur, diretor-presidente da Nortec.

Mudança de modelo

O banco Goldman Sachs só esperava a reabertura chinesa no segundo trimestre. Com a antecipação, revisou sua projeção para o crescimento da China de 4,5% para 5,5%. O banco estima ainda um aumento de 10% no preço das commodities, especialmente minério de ferro e soja, pode acrescentar 0,5 ponto percentual no crescimento do PIB brasileiro. Já um aumento de 10% nas exportações (em volume) tem impacto de 0,3 ponto no PIB do país, segundo estudo feito por Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs.

O peso do país asiático na economia brasileira — Foto: Editoria de Arte

O peso do país asiático na economia brasileira — Foto: Editoria de Arte

Analistas de bancos estrangeiros já preveem alta de até 5% no preço do petróleo. Já a tonelada do minério de ferro pode atingir US$ 130 (em 2022, encerrou a US$ 111), com a demanda mais forte estimulada pela reabertura da China, estima o Citi.

Empresas que já fazem negócios com os chineses estão mais otimistas. Produtoras de frango e suínos, por exemplo, esperam crescimento global de 12% nas exportações de porcos e 3% a 4% nas de aves este ano, segundo estimativas da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Só no ano passado, foram quase US$ 2,5 bilhões.

— A China é nosso principal comprador. Adquiriu 43% da carne de porco exportada ano passado e 12% da de aves — diz Luís Rua, diretor de Mercados da ABPA, que desde o fim de 2022 tem uma gerente em Pequim.

Balança comercial entre Brasil e China em 2022 — Foto: Editoria de Arte

Balança comercial entre Brasil e China em 2022 — Foto: Editoria de Arte

O governo Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma visita à China para o fim de março, e a ABPA vai pedir a habilitação de novas fábricas para exportação e o reconhecimento de Paraná e Rio Grande do Sul como estados livres da febre aftosa sem vacinação.

A Petrobras também está animada. A reabertura e a recuperação econômica da China trazem impactos muito positivos para o mercado em geral e “também para a companhia, que tem no país asiático um importante mercado consumidor de petróleo”, diz a empresa em nota.

No ano passado, a China cresceu 3%, um número pífio se comparado à expansão de dois dígitos registrada no início dos anos 2000. Entre 1978 e 2018, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês passou de US$ 150 bilhões para US$ 12,2 trilhões. Este ano, as estimativas indicam crescimento entre 5% e 5,5%. O governo chinês anunciou recentemente uma série de reformas no sentido de mudar a estratégia de crescimento, com uma substituição gradual do modelo de exportações pelo consumo interno, de olho em uma expansão sustentável a longo prazo.

Essa guinada traz desafios, como aumentar salários sem cutucar a inflação. E a crise de liquidez no setor imobiliário, com queda nas vendas e prédios inacabados, também preocupa. O governo barateou o financiamento a fim de estimular o setor, mas analistas lembram que, na pandemia, muitos empregadores de pequeno e médio porte faliram, e os padrões de consumo podem ter mudado bastante.

— A reabertura da China deverá reverberar no mundo todo. Mas será preciso observar se o efeito será mais interno ou externo, com essa mudança de modelo econômico. De qualquer forma, a força da economia chinesa, a segunda maior, é um amortecedor para o mundo e um vetor de crescimento para países emergentes — diz Matheus Spiess, analisa da Empiricus Research.

Spiess observa que os preços das commodities já estão elevados. Se isso se mantiver, puxado por um crescimento sustentável da China, há chance de um novo ciclo de commodities, e o governo Lula se beneficiaria desse movimento já a partir de 2024. Para este ano, Spiess projeta que a China cresça 5%.

O estrategista-chefe do banco Mizuho no Brasil, Luciano Rostagno, concorda que a reabertura chinesa é uma notícia boa, mas lembra que outras grandes economias tiveram recuperação forte no pós-Covid para em seguida perder força. Por isso, diz, será preciso observar os fundamentos da economia chinesa e seus ganhos de produtividade.

De olho no baixo carbono

Segundo Rostagno, a reabertura chinesa abre o apetite de investidores estrangeiros por mercados emergentes, mas haverá mais seletividade, e países com a macroeconomia estável levam vantagens.

— O Brasil tem muitos desafios neste início de governo e, para se beneficiar, precisa fazer a lição de casa, apresentando seu novo arcabouço fiscal e medidas que melhorem o ambiente de negócios, como segurança jurídica, reforma tributária. É isso que vai definir o fluxo de investimentos para cá, e não apenas a recuperação da economia chinesa — diz Rostagno.

Ele lembra que tanto o ambiente interno como o externo eram diferentes no primeiro governo Lula. Hoje, a economia global está desacelerando, e o avanço da inflação é global. Os juros internacionais estão mais altos, e o risco de problemas com dívidas é maior.

— O ambiente econômico atual é muito mais desafiador do que naquela época — avalia Rostagno.

Larissa Wachholz, sócia da assessoria Vallya, pesquisadora do Cebri e especialista em China, observa que o país asiático está cada vez mais preocupado com questões ambientais, e o Brasil tem potencial em agricultura de baixo carbono, energia renovável e produtos estratégicos, como lítio e biofertilizantes.

— A reabertura da China é importante porque chinês gosta de negociar olho no olho. O governo brasileiro pode ajudar tirando barreiras, mas o setor produtivo precisa se movimentar para aproveitar as novas oportunidades — diz Larissa.

A Vale, que exporta minério de ferro para a China, já vê oportunidades também em produtos de baixo carbono. A companhia desenvolveu o briquete verde, espécie de combustível que pode ser usado na siderurgia, reduzindo emissões em mais de 10%.

“Como um dos maiores produtores mundiais de níquel, matéria-prima chave para baterias de veículos elétricos, também vemos oportunidades do rápido crescimento do setor de veículos de energia nova da China, que aumentou sua produção em 97% e suas vendas em 93% em 2022”, afirmou a Vale em nota.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/02/reabertura-da-china-pode-adicionar-05-ponto-ao-pib-brasileiro-este-ano.ghtml

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QUAL A MELHOR CERVEJA PURO MALTE DO MERCADO?

Por Redação Paladar – Estadão – 09/02/2023 

Júri especializado avaliou 13 marcas de cerveja puro malte vendidas nas redes de supermercado, confira o ranking

Todo brasileiro se acha um pouco sommelier de cerveja, não é mesmo? Cada um tem a sua favorita da vida ou, ao menos, a queridinha de uma temporada de verão. Se há alguns anos contava-se nos dedos das mãos as marcas disponíveis nas prateleiras, hoje temos cerveja de sobra para escolher. De procedência, tipo, cor e teor alcóolico variados.

De acordo com o SINDICERV (Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja), o Brasil ocupa o terceiro lugar na lista dos maiores fabricantes de cerveja do mundo, com a marca de 15,4 bilhões de litros produzidos anualmente com base em cálculos realizados em 2022. Os dois primeiros lugares ficam com a China e com os EUA.

No teste de Paladar, foram escolhidas 13 marcas de cerveja puro malte vendidas nas redes de supermercado. Na definição do sommelier de cervejas Guto Procópio, um dos jurados convidados por Paladar para esta degustação, uma cerveja com o “selo” de puro malte no rótulo é aquela que leva malte de cevada em sua composição. Trata-se de uma cerveja que não substitui o malte de cevada por outro tipo de açúcar, como o açúcar cervejeiro, o arroz ou o milho. “Isso define qualidade?”, questiona Guto. “Não, ela pode ser uma puro malte ruim ou boa, mas sempre esperamos mais intensidade em uma bebida com essa denominação”.

Todo teste de Paladar começa com a escolha dos experts que irão avaliar alimentos, bebidas ou equipamentos de uso culinário. Para avaliar 13 das marcas mais populares de cerveja puro malte do mercado, convidamos um time de cinco sommeliers de cerveja: Edu Passarelli, professor do Instituto da Cerveja Brasil e dono do Escarcéu Bar; Bia Amorim, editora da @farofamagazine; Junior Bottura, mestre cervejeiro, fundador da @cervejaavos; Guto Procópio, sócio da @cervejariavaia e do @letsbeer, locação escolhida para este teste de Paladar, e Julia Leme, consultora de hospitalidade e gestão de restaurantes e bares.

Reunimos os cinco em uma tarde de segunda-feira para provar e avaliar às cegas cada uma das marcas (o vídeo dos bastidores da degustação já está no nosso canal no YouTube). O teste foi realizado marca por marca. Ou seja, cada jurado experimentava, em pequenas doses, uma marca de cerveja por vez. A bebida chegava gelada à mesa e depois era reservada para ser provada em temperatura ambiente, o que evidencia eventuais “defeitos” da cerveja.

TESTE DE RESISTÊNCIA

“As marcas de cerveja testadas foram feitas para serem consumidas muito geladas”, explica Edu Passareli. “Quando a prova é feita com a bebida em temperatura ambiente, temos indicativos mais claros das características de cada uma delas”.

A sommelier Bia Amorim explicou durante o teste que os jurados procuram os defeitos para que o consumidor, posteriormente, só encontre coisa boa no mercado. O mestre cervejeiro Junior Bottura completa dizendo que a data de validade do produto também é fator de qualidade que vale ser levado em conta: quanto mais nova a cerveja, melhor.

Foram avaliadas características como cor, estabilidade de espuma, brilho, aroma e, claro, sabor. Os jurados davam notas de 0 a 10 para cada categoria avaliada. A nota média das cervejas avaliadas ficou entre 6,44, a cerveja menos desejada da avaliação, e 8,96, média da cerveja eleita como a melhor pelo time de jurados.

AS MELHORES CERVEJAS PURO MALTE DO MERCADO

PRIMEIRO LUGAR – SPATEN

SEGUNDO LUGAR – AMSTEL

TERCEIRO LUGAR – IMPÉRIO

AS 13 MARCAS NA AVALIAÇÃO DOS JURADOS

AMSTEL (R$ 3,72, 350ml) – A segunda colocada no ranking foi avaliada como uma bebida com notas aparentes de malte e nota floral de lúpulo bem presente. Uma cerveja com leve oxidação, sabor equilibrado que remete a pão. Amargor presente, delicado e muito agradável.

BOHEMIA (R$ 3,29, 350ml) – Uma bebida de baixo amargor. Aroma agradável e levemente floral, indicando a presença do lúpulo. Uma cerveja equilibrada, com leve oxidação e final doce.

BRAHMA (R$ 3,36/ 350ml)- Uma bebida com defeitos perceptíveis no aroma, com sinais de oxidação e sabor desagradável. Na boca, sabor tem amargor prolongado.

CERPA PRIME (R$ 5,79, 350ml) – No quesito sabor, a cerveja foi avaliada como doce e sem grandes defeitos. Presença de malte bem marcante, lembrando casca de pão. A coloração foi avaliada como dourada e bastante translúcida. Faltou lúpulo para ficar perfeita. Espuma branca com boa retenção

EISENBAHN (R$ 5,21/ 350ml)- Cerveja levemente frutada, de amargor agradável. Aroma que remete a biscoito. Sabor levemente metalizado, oxidação presente, final seco e agradável. A presença do malte é evidente na bebida. Uma cerveja boa, mas não excelente.

HEINEKEN (R$ 5,00/ 350ml) – Para o nosso time de jurados, a cerveja apresentou leve oxidação, baixo teor alcoólico e final adstringente. Uma bebida visualmente quase perfeita. Sabor de malte muito suave e amargor prolongado e indesejado no retrogosto.

IMPERIO (R$ 2,70/ 269ml) – A terceira colocada no ranking apresenta, na opinião dos jurados, aroma de lúpulo e malte adequados. Aroma agradável, que remete a fermento de pão e biscoito cream-cracker. Uma bebida leve e equilibrada. Uma leve acidez que deixa a cerveja mais fácil de beber. Final limpo.

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ITAIPAVA (R$ 3,25/ 350ml)- Cerveja muito leve e bem carbonatada. Leve aroma de manteiga. Na boca, sensação de cereal tostado agradável, falta um pouco de amargor, mas ele é presente.

ORIGINAL (R$ 3,75/ 350ml)- Os jurados identificaram um aroma leve de grãos, sabor muito leve e pouco atraente. Uma cerveja leve, com final limpo e agradável. Na boca, apresenta bastante oxidação. Alguns ainda identificaram a falta de um amargor desejável.

PETRA (R$ 3,19, 350ml) – A bebida foi avaliada como bastante leve, com um leve toque de maçã, proveniente da fermentação. Retrogosto quase doce, aroma que lembra maçã verde. Para os jurados, faltou amargor e sabor de malte. Espuma com alta formatação, mas baixa retenção.

STELLA ARTOIS (R$ 4,38/ 350ml)- Cerveja de amargor agradável e bem balanceada. Alguns jurados identificaram aroma desagradável, porém volátil. Sabor leve, para ser consumida bem gelada.

SPATEN (R$ 4,65/ 355ml) – A campeã entre as cervejas avaliadas pelos jurados convidados por Paladar apresentou sensação agradável de biscoito. Uma bebida leve, fácil de beber, com boa estabilidade de espuma; amargor baixo, mas aparente. Uma cerveja mais fresca do que o esperado para um produto comercial. Equilibrada, com notas de cereais e levemente frutada. Ótima formatação e retenção.

SKOL (R$ 3,23/ 350ml) – Os jurados avaliaram a cerveja como bastante oxidada no paladar. Falta frescor, cor deixa a desejar. Baixa sensação de amargor aparente. Apesar de bastante translúcida e clara, uma bebida suave demais, vazia.

https://www.estadao.com.br/paladar/qual-a-melhor-cerveja-puro-malte-do-mercado/

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Dora Kaufman: ChatGPT assusta porque ameaça nossa “reserva de mercado”

Dado o poder disruptivo da inteligência artificial, sociedade precisa aprender a enfrentar as externalidades negativas

Por Dora Kaufman — Para o Valor 10/02/2023 

O lendário músico australiano Nick Cave recebeu de um fã uma música escrita pelo ChatGPT, teoricamente reproduzindo seu estilo. Cave reagiu contra de imediato, chamou o chatbot de “exercício de replicação como farsa”, ponderando que o processo de composição é “um negócio de sangue e coragem”. O cantor e compositor de samba de pagode Péricles, em depoimento ao “Fantástico”, confessou que o ChatGPT é assustador. O ChatGPT assusta, em parte, porque ameaça nossos atributos identitários, espécie de “reserva de mercado”. Antecipando o futuro vem a pergunta: o que restará para os humanos?

As descobertas de Giordano Bruno no século XVI, que com seu pluralismo cósmico deslocou o planeta Terra e o ser humano do centro do universo, de Charles Darwin no século XIX, de que todos os seres vivos descendem de um ancestral comum, e a inteligência artificial no século XXI, com máquinas desempenhando tarefas antes exclusivas dos humanos, são revelações científicas que, em algum sentido, questionam a supremacia humana.

Na última década os sistemas de IA preditiva – pela capacidade de lidar com grandes volumes de dados, logo gerar previsões mais assertivas – ameaçaram nossa supremacia nos processos decisórios. Gradativamente estamos sendo substituídos por “decisões automatizadas”. O ChatGPT vai além, invade nosso espaço criativo.

Disponibilizado para experimentação gratuita em 30 de novembro último pela OpenAI, laboratório de pesquisa financiado pela Microsoft, o ChatGPT rapidamente tornou-se viral, atingindo em fins de janeiro 100 milhões de visitantes únicos. O ChatGPT responde a comandos em linguagem natural sobre uma infinidade de temas, alguns deles com certo grau de sofisticação; o modelo é baseado na arquitetura Transformer desenvolvida pelo Google em 2017, e disponibilizada em sistema de “open source” – o que levanta a questão de se as gigantes de tecnologia, em acirrada disputa pelo pioneirismo na inovação tecnológico, vão preservar ou não a prática de código aberto.

O ChatGPT é capaz de produzir conteúdo original a partir de grandes bases de dados, ou seja, sintetiza texto, imagem ou vídeo, enquadrando-se na categoria denominada “IA generativa”. O ano de 2022 foi particularmente profícuo: o Imagen do Google foi lançado em maio; o Stable Diffusion da Stability AI em agosto; e a OpenAI lançou em julho o DALL-E, em setembro o DALL-E 2, e em novembro o ChatGPT. Esta semana, o Google anunciou seu modelo concorrente do ChatGPT, integrado ao seu sistema de busca, chamado Bard.

A primeira arquitetura de IA generativa data de 2014, a GAN (generative adversarial network), projetada por Ian Goodfellow e colegas. Ela tem aplicações benéficas, como na saúde para melhorar imagens de tomografia e produzir dados sintéticos, e maléficas, como as deep fakes, fak news com sintetização de imagem e som.

Apesar de ainda estar em seus primórdios, é grande a expectativa sobre a IA generativa. Um indicador objetivo é o montante de investimento: em 2022, foram injetados US$ 1,37 bilhão em IA generativa em 78 negócios, quase o mesmo valor investido nos últimos cinco anos em inteligência artificial em geral. As startups de IA generativa receberam vultosos aportes de fundos de investimento, atingindo valores de mercado astronômicos para empresas iniciantes, como no caso da Jasper, que captou US$ 125 milhões em outubro, valendo US$ 1,5 bilhão; e a Stability AI, que levantou US$ 101 milhões no mesmo mês, valendo US$ 1 bilhão. Calcula-se que existam atualmente 450 startups de IA generativa. A competição é feroz, o que explica o lançamento de sistemas ainda não totalmente validados. Segundo o “New York Times”, os funcionários da OpenAI foram surpreendidos em meados de novembro com a ordem de lançar um chatbot em duas semanas (a previsão era início de 2023).

A aparente consistência das respostas do ChatGPT, aliada à magia da interface por meio de diálogo, induz o usuário ao equívoco de tomá-las como precisas e verdadeiras. A própria OpenAI, contudo, alertou para o fato de que, ocasionalmente, o ChatGPT pode gerar informações incorretas e produzir instruções prejudiciais ou conteúdos tendenciosos, e que se trata de um projeto de pesquisa que deverá seguir sendo refinado. Em 31 de janeiro, a OpenAI lançou o “classificador”, sistema treinado para distinguir um texto escrito por um ser humano de um texto escrito por IA. Diante de sua limitação – apenas 26% de textos em inglês produzidos por IA foram identificados corretamente -, a OpenAI recomenda o uso de outros métodos de determinação da fonte (como o DetectGPT, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Stanford). A polêmica, contudo, está instaurada.

Artistas estão contestando a originalidade das imagens geradas pelo ChatGPT. Em meados de janeiro, por exemplo, a Getty Images moveu uma ação no Reino Unido e uma ação coletiva no tribunal federal da Califórnia em nome de três artistas contra a Stability AI, desenvolvedora do aplicativo Stable Diffusion. A alegação é que a empresa infringiu os direitos autorais, com potenciais danos permanentes ao mercado de arte e aos artistas. O aplicativo “é um parasita que, se proliferar, causará danos irreparáveis aos artistas, agora e no futuro”, alegou Matthew Butterick, um dos advogados dos artistas.

Nathan Sanders, cientista de dados ligado ao Berkman Klein Center de Harvard, e Bruce Schneier, especialista em segurança computacional ligado à Harvard Kennedy School, argumentaram em artigo no “New York Times” que a IA generativa permite que se faça um tipo de lobby que ameaça a democracia – ao automaticamente fazer comentários sobre propostas ou inundar caixas postais de legisladores.

Marc Rotenberg, fundador do Center for AI and Digital Policy, contestou o argumento em sua conta no LinkedIn com base em três premissas: a) lobistas poderosos em Washington possuem tecnologias digitais sofisticadas, incluindo serviços de notícias e técnicas de segmentação poderosas, inacessíveis a pequenas organizações e ONGs, logo os sistemas de IA generativa, como o ChatGPT, representam a possibilidade de os pequenos entrarem nesse jogo; b) a maioria dos lobistas em Washington é capaz de distinguir entre campanhas “fakes” e autênticas; e c) a decisão política de alto nível, em geral, ocorre nas interações interpessoais com troca de favorecimentos.

Aparentemente, o embate mais intenso está se dando na comunidade de educação. O departamento de educação da cidade de Nova York, alegando preocupação com o impacto negativo no aprendizado, proibiu o uso do ChatGPT na sua rede de escolas. O Instituto de Estudos Políticos de Paris (Science Po), respeitada instituição de ensino superior nas áreas de ciências humanas e sociais, baniu o ChatGPT; uma de suas diretoras, Myriam Dubois-Monkachi, justifica a decisão pelos efeitos perversos na integridade acadêmica.

Em paralelo, publicações acadêmicas de prestígio como “Nature” e “Science” vetaram artigos submetidos em coautoria com o ChatGPT, resolução difícil de ser contestada: o autor de uma publicação acadêmica assume a responsabilidade legal pelo conteúdo do artigo, pela solidez da metodologia, pela veracidade dos dados coletados e utilizados, e pela originalidade das ideias, o que não é o caso de uma tecnologia.

Pelas primeiras manifestações, a comunidade está dividida; em outra direção, alguns educadores argumentam que o setor precisa identificar como integrar as novas tecnologias digitais nas práticas educativas, acompanhar a mudança da lógica de máquinas programadas para máquinas probabilísticas e seus efeitos sobre o aprendizado.

Algumas faculdade americanas, inclusive, estão reestruturando seus cursos, reformulando seus sistemas de avaliação do desempenho do aluno e tomando medidas preventivas: mais de 6 mil professores da Universidade Harvard, Universidade Yale, Universidade de Rhode Island e outras se inscreveram para usar o GPTZero, programa criado por Edward Tian, aluno da Universidade de Princeton, que promete detectar rapidamente texto gerado por IA.

Recente reportagem do Porvir – “ChatGPT: Inteligência artificial bate à porta da escola. E agora?” -, principal plataforma de conteúdos sobre inovações educacionais do Brasil, desde 2019 sem fins lucrativos, mostra potenciais contribuições na sala de aula e no aprendizado do aluno.

A forte reação negativa de parte do ecossistema de educação reflete o conservadorismo do setor e a lacuna de conhecimento sobre as novas tecnologias digitais. Qualquer tecnologia disruptiva, como é o caso da inteligência artificial, coloca em cheque procedimentos e comportamentos estabelecidos na sociedade humana. Isso sugere que, para enfrentar o problema de maneira adequada, é preciso rever e melhorar os padrões de avaliação, as metodologias, os procedimentos de revisão de pares nas publicações acadêmicas.

Os modelos de IA preditiva e IA generativa precisam ser experimentados, permitindo identificar em que contextos e em quais funcionalidades agregam valor, e quais os potenciais danos e os caminhos de mitigação. Universidades têm de atualizar seus comitês de ética, obsoletos em relação à natureza da IA. O desafio é que cada vez fica mais difícil competir pelo básico, praticamente em qualquer área o básico está dominado pela tecnologia, e a tendência é ampliar e melhorar esse “básico tecnológico”.

A inteligência artificial, como toda tecnologia de propósito geral, está reconfigurando a lógica e o funcionamento da sociedade, logo provocando um período de reorganização no que Joseph Schumpeter denominou de “destruição criativa”. Os modelos de IA preditiva começaram a ser adotados em larga escala a partir de 2016-2017 e os modelos de IA generativa ainda estão em fase de experimentação, mas, dado o poder disruptivo da inteligência artificial, é mandatório que sociedade enfrente, com urgência, as externalidades negativas.

O desafio de proteger a sociedade dos potenciais danos não é trivial. As iniciativas de autorregulamentação por parte das gigantes de tecnologia não tiveram êxito, ainda não temos um marco regulatório da IA em nenhum lugar do mundo, temos somente propostas regulatórias em debate e diretrizes legais pontuais, e são raras as organizações que estabeleceram governança de IA, comitê de ética de IA, código de ética de IA, ou ao menos diretrizes básicas de conduta em IA. O ChatGPT só torna essa urgência mais urgente.

Dora Kaufman é professora da PUC SP, colunista da “Época Negócios” e autora do livro “Desmistificando a Inteligência Artificial”

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2023/02/10/dora-kaufman-chatgpt-assusta-porque-ameaca-nossa-reserva-de-mercado.ghtml

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