Gincana do aluguel: o drama de encontrar lugar para viver numa capital europeia


Coquetel explosivo de fatores torna problema da moradia uma emergência; governos e Comissão Europeia se mobilizam, sem grande sucesso por enquanto

Por Alessandro Soler, O GLOBO — Madri 08/01/2023 

De Lisboa a Berlim, de Roma a Londres, de Paris a Madri, grandes metrópoles europeias compartilham um problema que já ganha contornos de emergência: a crise do aluguel. Deficit de novas construções, compra de milhares de imóveis por fundos de investimento, efeito Airbnb — que tira propriedades do mercado para despejá-las no setor turístico — e altas taxas de inflação são o coquetel que provocou a tempestade perfeita.

Além dos preços em recordes históricos, inquilinos se queixam de ter de enviar documentos detalhados e extratos bancários antes sequer de ver o apartamento. Proprietários e imobiliárias cobram taxas aos candidatos pelo simples direito de disputar um imóvel. E as frequentes negativas fragilizam quem está na busca, que vira presa fácil dessas e de outras práticas abusivas. Apesar das iniciativas de alguns governos e da Comissão Europeia, a solução ainda não está no horizonte.

Tradicionalmente mais barata que as capitais das outras grandes economias europeias, a alemã Berlim vive um choque de preços sem precedentes, segundo a BMV, a associação dos inquilinos da cidade. Em 2009, ainda era possível encontrar apartamentos de dois quartos por coisa de € 500 (R$ 2.800); hoje, giram ao redor de € 1.100 (R$ 6.200), 120% de aumento. Numa cidade onde 85% das pessoas vivem de aluguel, nas contas da BMV, a alta foi de mais de 30% só de 2020 para cá.

Concentrados e vazios

Em 2021, Berlim foi palco de um histórico plebiscito que pedia a expropriação de 240 mil imóveis hoje nas mãos de um punhado de megaproprietários e fundos de investimento. Sem uso, muitos desses apartamentos seriam transformados em moradias sociais, ajudando a baixar os preços. A maioria dos votantes apoiou a proposta, mas o plebiscito não era vinculante, e o tema ainda precisará ser debatido no Legislativo local.

Em Londres, estima-se que mais de 400 mil casas e apartamentos estejam nas mãos de grandes investidores. Segundo a consultoria imobiliária CBRE, o último ano teve uma injeção recorde de £ 4,1 bilhões (R$ 26,2 bilhões) de vários fundos. Um deles, ligado ao Lloyds Bank, anunciou ter a intenção de comprar mais de 50 mil imóveis até 2030, só na cidade, para alugá-los.

Muitos desses fundos são acusados de manipular os preços, segurando os imóveis para promover uma inflação artificial no valor médio do aluguel. A engenheira espanhola Teresa Alonso, gerente de projeto numa start-up fabricante de carros elétricos, sentiu na pele essa escalada. Recém-mudada para Londres, ela precisou ficar quatro meses entre hotéis e apartamentos turísticos do Airbnb, enquanto procurava e via os preços subirem. Morar sozinha ali, onde o aluguel de um apartamento de 40 metros quadrados pode passar facilmente de £ 2 mil (R$ 12.700), ela nem cogitou:

— Um quarto simples custa mais de £ 1 mil (R$ 6.380), fora as contas, mas voa no mesmo dia. Quem trabalha não tem tempo de procurar. E as exigências são enormes: histórico de crédito de cinco anos, contrato permanente de trabalho, contatos de locadores anteriores para serem consultados. Até o telefone do seu chefe no trabalho eles pedem, para saber se você é confiável.

Na Espanha natal de Alonso, brasileiros se queixam de condições similares. A soteropolitana Laís Souza, gerente de projeto numa empresa de tecnologia, e seu marido, Eduardo Lubisco, tradutor, acumulam histórias que beiram a ilegalidade em Madri.

— Os donos ou os corretores pedem antecipadamente documento de identidade, extrato bancários, contrato de trabalho, contracheques e um novo seguro bancário. É quase um casting. Só então vão decidir se mostrarão o apartamento a você — descreveu Souza. — Recém-chegada, eu mandei toda a documentação a um corretor que sumiu. Fiquei muito preocupada e fui à polícia. Ele terminou reaparecendo. Ali entendi que é uma prática abusiva, mas comum.

Peneira agressiva

A preocupação dela não é paranoia. Há uma semana, o jornal El País publicou o caso de uma jovem equatoriana que também precisou se submeter a essa peneira agressiva na busca por apartamento. De posse dos seus documentos e histórico bancário, alguém — presumivelmente de uma imobiliária, a polícia ainda investiga — fez um empréstimo de € 7 mil (R$ 39.480) no nome dela. Com os juros, a financeira exige a quitação dos quase € 9 mil (R$ 50.760) de uma dívida que a vítima não contraiu.

Também em Madri, segundo um relatório do portal Fotocasa, um dos mais usados na busca de imóveis, além de os preços estarem “no máximo histórico”, acumulam-se exigências como o pagamento de uma taxa — que pode chegar a € 200 — tão somente para ver o apartamento. Se o contrato for fechado, o valor é descontado da longa lista de pagamentos com que o inquilino deve arcar: até três meses de fiança, um mês para a imobiliária, um mês de “garantia adicional”. Se não houver acordo, a devolução do “sinal” pode demorar vários dias.

Há alguns meses, a imprensa do país relatou que proprietários passaram a exigir cartas de motivação, como aquelas que as empresas pedem aos candidatos a um posto de trabalho. Nada que seja muito estranho em outra grande capital europeia, Paris, onde o mercado está saturado há anos, em parte também pela ausência de grandes áreas para novas construções — problema compartilhado por Londres e Lisboa, por exemplo. O processo de procura de imóvel na “Cidade Luz” virou gincana.

— Já estou chegando ao terceiro mês, e nada. Na vez anterior, há oito anos, eu dividia com meu ex-companheiro, então tínhamos duas rendas. Foi mais fácil. Ainda estou de luto por um apartamento que vi logo no início da busca de agora. Fiquei em terceiro lugar na disputa — contou a curitibana Ana Senn, formada em nutrição e coordenadora de uma associação, referindo-se a um sistema de pontos comum na área metropolitana da capital francesa.

Driblando o teto

Cada candidato elabora um dossiê em que anexa coisas como toda a sua documentação, comprovações de renda, aval bancário, carta de motivação e o que mais julgar necessário para “sair na frente”. Nem pensar em ir ver o imóvel sem isso. Um método que Ana julga anacrônico, ao demandar arraigo de longo prazo na cidade e, portanto, não contemplar os novos fluxos de teletrabalhadores que já se deslocam por um mundo pós-pandêmico e cada vez mais interconectado.

Paris e, também, Berlim têm há anos leis que impõem limites ao preço do metro quadrado de aluguel. Bairro, metragem do apartamento e ano de construção do edifício entram numa complexa conta que estabelece os valores máximos a serem cobrados. Mas a resposta dos proprietários evitou que as leis pegassem totalmente. Uma análise do Instituto Alemão de Pesquisas Econômicas (DIW) mostrou que muitos deles retiraram seus imóveis do mercado berlinense, provocando uma subida média nos preços. Outros apenas desrespeitam o teto, mesmo arriscando-se a multas de até € 500 mil (R$ 2,8 milhões).

Em Paris, a líder do partido de esquerda Génération:s Anne Joubert, ao falar no Parlamento sobre a crise dos aluguéis, afirmou que 40% dos apartamentos da Île de la Cité, uma das zonas mais gentrificadas da capital, estão permanentemente desabitados. Como em outras áreas onde os governos tentam impor limites à ciranda dos preços, os donos preferem não alugar. E, assim, os ciclos de subidas de preços derivados da baixa oferta vão se perpetuando.

UE quer regular Airbnb

Enquanto países como Espanha e Portugal anunciaram nos últimos meses tetos de 2% nos reajustes de preços dos aluguéis até 2023 — mirando a inflação —, diversos parlamentos nacionais discutem soluções de mais longo prazo para o problema da explosão dos preços das moradias. Mas ainda falta um debate conjunto entre os 27 países da União Europeia sobre uma questão que é transnacional.

Pelo menos uma das pernas da crise do aluguel ganhou atenção da Comissão Europeia, órgão executivo do bloco. Em novembro, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, apresentou uma proposta que endurece as regras para apartamentos turísticos de plataformas como Airbnb. Proprietários precisarão se submeter a registros públicos, em número limitado por área e cidade, bem como a inspeções-relâmpago para a checagem do cumprimento das regras.

Além de trazer maior transparência aos aluguéis de temporada, analistas creem que as medidas poderão se traduzir em novos apartamentos para o mercado. Isso porque, quando deixarem de ser beneficiados por um setor turístico desregulado, muitos proprietários poderiam optar pelo aluguel tradicional.

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/01/gincana-do-aluguel-o-drama-de-encontrar-lugar-para-viver-numa-capital-europeia.ghtml

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