ChatGPT entra na rotina de empresas

Software é usado em academia de ginástica, loja de produtos infantis e prevenção de riscos financeiros

Por Daniela Braun — Valor – 21/03/2023

O ChatGPT, o programa de computador mais famoso do mundo, lançado pela americana Open AI há quatro meses, é capaz de responder perguntas, escrever textos em linguagem natural, como se fosse uma pessoa, e criar imagens. No Brasil, já faz parte da rotina de empresas de vários setores como academias de ginástica, varejo de produtos infantis e prevenção de riscos financeiros.

Na rede de academias de ginástica Live Fit Brasil, que atende 15 mil alunos em quatro Estados, o ChatGPT colabora na criação de textos sobre as funções de novos colaboradores. E também ajuda a orientar a administração sobre novas fontes de receita para a empresa.

“A ferramenta dá ideias de como podemos aumentar o faturamento, vendendo suplementos, roupas e acessórios, além de oferecer acompanhamento de treinos específicos para cada aluno”, diz Gabriel Vitta, diretor de marketing da Live Fit.

A empresa assinou uma plataforma lançada no fim de janeiro pelo grupo brasileiro G4 Educação, que incrementou o ChatGPT 3.5, versão mais popular atualmente, inserindo conhecimentos de cursos sobre marketing, vendas e gestão promovidos pela empresa, bem como 6 mil interações entre alunos e professores especializados nestas áreas.

O programa de computador mais famoso do mundo acelera processos, mas requer ajustes feitos por pessoas

Com módulos pré-formatados, o empreendedor pode fornecer informações mais pontuais ao ChatGPT como, por exemplo, o público que deseja alcançar em determinada campanha, seus desafios e os produtos que vai oferecer, para ter respostas mais precisas da inteligência artificial.

A descrição de vagas para contratação de vendedores e designers é outra tarefa desempenhada com a ajuda do ChatGPT na rede de academias. “A ferramenta nos ajuda a ter certeza de que a descrição da vaga está de acordo com a nossa necessidade para atrairmos os melhores candidatos”, informa o diretor de marketing.

Até o momento, quatro contratações na sede da empresa contaram com o suporte do ChatGPT, que também ajudou na especificação de tarefas de cada colaborador. Futuramente, Vitta espera aplicar a ferramenta no atendimento ao público.

O ChatGPT tem evoluído rapidamente. No dia 14, menos de quatro meses após o anúncio da versão 3.0 da ferramenta, que se popularizou rapidamente, a Open AI anunciou a versão 4.0. Esta consegue compreender imagens e sons e dá respostas mais rápidas e assertivas, com uma base maior de informações.

Patrick Coutinho, diretor-presidente e fundador da Criativaê, loja on-line especializada em produtos infantis, diz que a empresa ganhou produtividade usando o ChatGPT na descrição de itens à venda, bem como na formatação de textos para o blog da loja e de roteiros de anúncios em vídeo.

“Textos longos para o blog, que a gente levava um dia para produzir, hoje levamos 30 minutos”, compara o executivo, que vem estudando a ferramenta desde o ano passado.

Coutinho pondera, no entanto, que a eficiência da ferramenta da Open AI depende muito do conhecimento do usuário e que não substitui o processo lógico de criação de conteúdos.

“As pessoas acreditam que o ChatGPT crie conteúdos, mas ele apenas compila informações de banco de dados”, explica o empresário.

A compilação de textos técnicos de uma forma coerente é uma das vantagens do ChatGPT. Ele elabora relatórios, em formato de livro eletrônico e em posts em redes sociais, para a empresa de tecnologia Datarisk. O negócio desta empresa é desenvolver algoritmos de inteligência artificial para a prevenção de riscos no sistema financeiro.

“Como a ferramenta é treinada com muitos conteúdos e parâmetros, ela já entende o que é uma provisão para devedores duvidosos, por exemplo, e sintetiza uma resposta bacana, enquanto um buscador como o Google vai trazer diversos links”, observa o engenheiro da computação Jhonata Emerick, fundador e diretor-presidente da empresa.

A empresa também ganhou tempo usando o Dall-e, a versão do ChatGPT para imagens, para ilustrar posts no blog corporativo. “Antes você tinha que entrar em um banco de imagens, pesquisar se poderia usar a foto gratuitamente ou pagar pelos direitos autorais, mas agora descreve um contexto e o Dall-e cria uma imagem nova”.

Emerick nota que o material sintetizado pelo ChatGPT acelera alguns processos, mas requer revisões e ajustes de profissionais técnicos “para evitar ciladas” como informações falsas, desvios ou imprecisões, que a versão 4.0 tenta minimizar, mas que não dispensam a inteligência humana. “O ChatGPT não demite ninguém”, frisa Coutinho, da Criativaê.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/03/21/chatgpt-entra-na-rotina-de-empresas.ghtml

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Trabalhar no fim de semana virou o ‘novo normal’: média supera 6 horas aos sábados e domingos

Software americano de gerenciamento de produtividade acompanhou 134 mil funcionários de escritórios e constatou alta de 5% no volume de trabalho aos finais de semana

TOPO

Por O Globo/Bloomberg — Nova York 10/03/2023 

Enquanto visionários discutem jornadas semanais de quatro dias úteis, na vida real da maioria dos profissionais o fim de semana de folga tem sido uma exceção no pós-pandemia. Em muitos casos, a era do regime híbrido, com longas reuniões por Zoom e rotinas via Slack, leva profissionais a usarem os sábados e domingos para tarefas que exijam mais concentração.

Ao mesmo tempo, levas de demissões em setores como o de tecnologia deixam os trabalhadores remanescentes sobrecarregados com as funções dos antigos colegas.

No ano passado, a média de horas trabalhadas no sábado e no domingo aumentou 5%, para 6,6 horas, de acordo com a empresa ActivTrak, que analisou quase 175 milhões de horas de trabalho de 134.260 usuários anônimos de seu software de gerenciamento de produtividade em todo o mundo.

Mais que dez horas de trabalho por dia

O relatório da ActivTrak também descobriu que o dia de trabalho médio em 2022 durou dez horas e nove minutos. A jornada padrão é de oito horas diárias.

Enquanto apenas 5% de todos os trabalhadores rastreados trabalhavam no fim de semana, certos setores, como tecnologia e mídia, tiveram um aumento de 25% ou mais nas horas trabalhadas aos sábados e domingo em comparação com o ano anterior.

São duas as razões para este aumento: cortes de empregos que sobrecarregaram quem não foi demitido e a necessidade de escapar das constantes interrupções de chamadas do Zoom e bate-papos do Slack.

– Além disso, à medida que as pessoas se sentem mais à vontade com a flexibilidade, é aceitável fazer logoff às 15h na sexta-feira e lidar com o trabalho no fim de semana – disse Gabriela Mauch, vice-presidente do laboratório de produtividade da ActivTrak.

Os turnos de fim de semana são o exemplo mais recente do colapso do antigo mundo do trabalho pela pandemia de Covid, já que as demandas por maior flexibilidade entre os funcionários se chocam com o desejo de alguns empregadores de ver os funcionários pessoalmente no escritório com mais frequência.

Trabalho remoto x presencial

Embora o trabalho remoto tenha liberado os funcionários administrativos em muitos aspectos, permitindo que muitos façam seu trabalho onde e quando quiserem, também os conectou a ferramentas de colaboração e comunicação que podem desviar sua atenção com notificações constantes.

Além disso, os crescentes cortes de empregos nos últimos tempos em tecnologia, mídia e outros setores também complicaram o cenário, criando mais estresse nos funcionários que já estão enfrentando taxas recordes de esgotamento.

Mídia e tecnologia: ‘guerreiros’ do fim de semana

Os ”guerreiros” de fim de semana mais comuns são funcionários de tecnologia em hardware e serviços de computador, de acordo com dados da ActivTrak, junto com trabalhadores de mídia e de bens de consumo. Todos esses grupos aumentaram suas horas de fim de semana no ano passado em comparação com 2021, a maioria em porcentagens de dois dígitos.

De acordo com o rastreador Layoffs.fyi, as empresas de tecnologia demitiram mais de 122 mil trabalhadores nos EUA até agora este ano.

Outros setores, como energia, hotelaria e assistência médica, registraram um declínio nas horas trabalhadas nos fim de semana. Uma teoria por trás dessas diferenças entre os setores, disse Gabriela Mauch, da ActivTrak, é que as indústrias com uma parcela maior de trabalhadores em criatividade podem ver mais valor em trabalhar no fim de semana.

Terça-feira, o dias mais produtivo

O dia de trabalho médio em 2022 durou dez horas e nove minutos, definido pelo intervalo entre a primeira e a última atividade no computador de um trabalhador, segundo a pesquisa. O tempo gasto em trabalho focado diminuiu ligeiramente no ano passado, enquanto os minutos gastos em multitarefa aumentaram em uma quantidade semelhante.

Os trabalhadores foram mais produtivos e focados no primeiro semestre do ano em comparação com o segundo semestre, e terça-feira foi o dia mais produtivo.

– Cada cultura é diferente. Em uma organização, sete horas de trabalho podem ser apropriadas, mas em outras são 12 – ressaltou Gabriela.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/03/trabalhar-no-fim-de-semana-virou-o-novo-normal-media-supera-6-horas-aos-sabados-e-domingos.ghtml

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A intimidade artificial virou o mal do século

Quando nos relacionamos com nossos amigos, amantes ou familiares nunca estamos 100% presentes

Ronaldo Lemos* – Folha – 19.mar.2023 

Esther Perel é psicoterapeuta. Nasceu na Bélgica, filha de sobreviventes do holocausto. Hoje é professora da universidade de Nova York e especialista em temas como solidão e relacionamentos contemporâneos, incluindo relações amorosas. No festival SXSW, realizado em Austin, no Texas, que se encerrou ontem, ela roubou a cena. No meio de uma pletora de palestras sobre tecnologia, sua fala sobre comportamento humano foi a mais importante na minha opinião.

Ela desenvolveu o fascinante tema da “intimidade artificial”. Seu argumento é que estamos vivendo nossas vidas em permanente estado de atenção parcial. Quando nos relacionamos com nossos amigos, amantes ou familiares nunca estamos 100% presentes. Nossa atenção está sempre dividida entre as pessoas e o nosso celular, mídias sociais, alertas de mensagem e assim por diante. Nesse contexto não é possível intimidade real.

As mídias sociais e nosso celular funcionam como anestesia seletiva para as relações humanas. Queremos as partes boas do convívio, que são do nosso interesse, mas evitamos ao máximo atritos, conversas desconfortáveis, tédio etc. Sempre que algo desconfortável começa a se materializar, partimos para o mundo confortável e controlado do celular, que nos distrai do que é verdadeiramente humano.

Essa é a intimidade artificial. Estamos todos vivendo coletivamente o experimento do rosto parado que o psicólogo Edward Tronick realizou nos anos 1970. Nele, uma mãe primeiro é gravada se relacionando normalmente com seu bebê de 6 meses. Ela sorri, o bebê sorri de volta. Ela fala algo e o bebê dá uma gargalhada. No segundo momento a mãe paralisa seu rosto. Ela olha fixamente para o bebê, sem expressar qualquer reação. O bebê então gargalha. A mãe permanece impassível. O bebê então começa a gritar. Nenhuma reação da mãe. O bebê então chora e grita desesperadamente, até que a mãe retoma suas reações normais e acolhe a criança.

No mundo que estamos vivendo hoje somos todos simultaneamente a mãe e a criança. Como somos incapazes de dar atenção integral ao outro, estamos sempre em dívida emocional com as pessoas que nos cercam. Ao mesmo tempo, somos também o bebê, sedentos por atenção. Nunca houve uma carência tão grande por escuta e acolhimento como a que vivenciamos coletivamente no mundo de hoje.

Esther nos conclama a nos rebelarmos contra a intimidade artificial. A exigir e a dar atenção total para aqueles com quem nos relacionamos. A darmos o difícil passo de aceitarmos o conflito e o atrito como parte das relações humanas, parando assim de nos anestesiarmos parcialmente o tempo todo. Sem isso seremos obrigados a conviver com relações que julgamos “defeituosas” o tempo todo.

Uma pesquisa realizada nos EUA em 2019 apontou que 22% dos “millenials” têm hoje zero amigo. 25% dizem não ter nenhum conhecido. Muitos têm um número de seguidores gigantesco em redes sociais, mas amigos mesmo, nenhum. Em gerações anteriores o número dos sem-amigos girava em torno de 9%. Não é por acaso que ansiedade e depressão são um dos assuntos que mais circulam em mídias sociais hoje entre adolescentes e também crianças. Na era da intimidade artificial, não são só as amizades que estão em risco, mas também as relações amorosas e familiares. Apertem os cintos para a sociedade da solidão, com consequências nefastas para todos os campos da vida humana.

Reader

Já era Baby Boomers dizendo que 91% têm amigos

Já é Geração X dizendo que 85% têm amigos

Já vem Boa parte dos Millenials e da geração Z com muitos seguidores, mas sem amigos

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/03/a-intimidade-artificial-virou-o-mal-do-seculo.shtml

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Fazer deepfakes fica mais barato e fácil graças à IA

Por Stuart A. Thompson – Estadão/NYT – 18/03/2023 

Criadores de memes e vendedores de desinformação estão adotando ferramentas de inteligência artificial para criar vídeos falsos convincentes de forma barata

THE NEW YORK TIMES – LIFE/STYLE – Não seria totalmente estranho para Joe Rogan, o comediante que virou podcaster, endossar uma marca de café para homens que “aumenta a libido”.

Mas quando um vídeo circulando no TikTok recentemente mostrou Rogan e seu convidado, Andrew Huberman, vendendo o café, alguns espectadores mais observadores ficaram chocados – incluindo Huberman.

Saiba o que é deepfake, técnica de inteligência artificial que foi apropriada para produzir desinformação

“Sim, é falso”, Huberman escreveu no Twitter depois de ver o anúncio, no qual ele parece elogiar o potencial do café de aumentar a testosterona, embora nunca tenha feito isso.

O anúncio fazia parte de um número crescente de vídeos falsos nas redes sociais feitos com tecnologia alimentada por inteligência artificial. Especialistas disseram que a voz de Rogan parece ter sido sintetizada usando ferramentas de IA que imitam vozes de celebridades. Os comentários de Huberman foram extraídos de uma entrevista não relacionada.

Fazer vídeos falsos realistas, muitas vezes chamados de deepfakes, já exigiu um software elaborado para colocar o rosto de uma pessoa no rosto de outra. Mas agora, muitas das ferramentas para criá-los estão disponíveis para os consumidores comuns – até mesmo em aplicativos de smartphones, e muitas vezes por pouco ou nenhum dinheiro.

Os novos vídeos alterados – principalmente, até agora, fruto do trabalho de criadores de memes e profissionais de marketing – se tornaram virais em redes sociais como TikTok e Twitter. O conteúdo que eles produzem, às vezes chamado de cheapfakes pelos pesquisadores, funciona clonando vozes de celebridades, alterando os movimentos da boca para corresponder ao áudio alternativo e escrevendo diálogos persuasivos.

Os vídeos e a tecnologia acessível por trás deles deixaram alguns pesquisadores de IA preocupados com seus perigos e levantaram novas preocupações sobre se as empresas de mídia social estão preparadas para moderar a crescente falsificação digital.

Os vigilantes da desinformação também estão se preparando para uma onda de falsificações digitais que podem enganar os espectadores ou tornar mais difícil saber o que é verdadeiro ou falso online.

“O que é diferente é que todos podem fazer isso agora”, disse Britt Paris, professor assistente de Biblioteconomia e Ciência da Informação na Rutgers University, que ajudou a cunhar o termo “cheapfakes”. “Não são apenas pessoas com tecnologia computacional sofisticada e know-how computacional bastante elaborado. É um aplicativo gratuito.”

Amostras de conteúdo manipulado circulam no TikTok e em outros lugares há anos, geralmente usando truques mais caseiros, como uma edição cuidadosa ou a troca de um clipe de áudio por outro. Em um vídeo no TikTok, a vice-presidente Kamala Harris parecia dizer que todos os hospitalizados por COVID-19 foram vacinados. Na verdade, ela disse que os pacientes não foram vacinados.

A Graphika, uma empresa de pesquisa que estuda desinformação, detectou deepfakes de notícias fictícias que contas de bots pró-China distribuíram no final do ano passado, no primeiro exemplo conhecido da tecnologia sendo usada para campanhas de influência alinhadas com o Estado.

Usuários comuns

Mas várias novas ferramentas oferecem tecnologia semelhante aos usuários comuns da internet, dando aos comediantes e partidários a chance de fazer suas próprias paródias convincentes.

No mês passado, circulou um vídeo falso mostrando o presidente Joe Biden declarando um plano nacional para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. O vídeo foi produzido pela equipe por trás do “Human Events Daily”, um podcast e livestream dirigido por Jack Posobiec, um influenciador de direita conhecido por espalhar teorias da conspiração.

Em um segmento explicando o vídeo, Posobiec disse que sua equipe o criou usando a tecnologia de IA. Um tuíte sobre o vídeo do The Patriot Oasis, uma conta conservadora, usou uma etiqueta de breaking news sem indicar que o vídeo era falso. O tuíte foi visto mais de 8 milhões de vezes.

Muitos dos videoclipes com vozes sintetizadas pareciam usar tecnologia da ElevenLabs, uma startup americana co-fundada por um ex-engenheiro do Google. Em novembro, a empresa lançou uma ferramenta de clonagem de fala que pode ser treinada para replicar vozes em segundos.

A ElevenLabs chamou a atenção no mês passado depois que o 4chan, um painel de mensagens conhecido por conteúdo racista e conspiratório, usou a ferramenta para compartilhar mensagens odiosas. Em um exemplo, os usuários do 4chan criaram uma gravação de áudio de um texto antissemita usando uma voz gerada por computador que imitava a atriz Emma Watson. A Motherboard havia relatado anteriormente sobre o uso da tecnologia de áudio pelo 4chan.

A ElevenLabs disse no Twitter que introduziria novas proteções, como limitar a clonagem de voz a contas pagas e fornecer uma nova ferramenta de detecção de IA. Mas os usuários do 4chan disseram que criariam sua própria versão da tecnologia de clonagem de voz usando um código-fonte aberto, postando demos que soam semelhantes ao áudio produzido pela ElevenLabs.

Especialistas que estudam a tecnologia deepfake sugeriram que o anúncio falso com Rogan e Huberman provavelmente foi criado com um programa de clonagem de voz, embora a ferramenta exata utilizada não esteja clara. O áudio de Rogan foi emendado em uma entrevista real com Huberman discutindo sobre testosterona.

Os resultados não são perfeitos. O clipe de Rogan foi retirado de uma outra entrevista publicada em dezembro com Fedor Gorst, um jogador profissional de bilhar. Os movimentos da boca de Rogan são incompatíveis com o áudio e sua voz às vezes soa artificial. Se o vídeo convenceu os usuários do TikTok, é difícil dizer: ele atraiu muito mais atenção depois que foi sinalizado por sua falsidade impressionante.

Regras

As políticas do TikTok proíbem falsificações digitais “que enganam os usuários ao distorcer a verdade dos eventos e causar danos significativos ao assunto do vídeo, a outras pessoas ou à sociedade”. Vários dos vídeos foram removidos depois que o The New York Times os sinalizou para a empresa. O Twitter também removeu alguns dos vídeos.

Os reguladores federais demoraram a responder. Uma lei federal de 2019 solicitou um relatório sobre a utilização de deepfakes por estrangeiros, exigiu que as agências governamentais notificassem o Congresso se deepfakes visassem eleições nos Estados Unidos e criou um prêmio para incentivar a pesquisa de ferramentas que pudessem detectar deepfakes.

“Não podemos esperar dois anos até que as leis sejam aprovadas”, disse Ravit Dotan, pesquisador de pós-doutorado que dirige o Collaborative AI Responsibility Lab na Universidade de Pittsburgh. “Até então, o dano pode ser muito grande. Temos uma eleição chegando aqui nos EUA. Vai ser um problema.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

https://www.estadao.com.br/internacional/nytiw/deep-fake-mais-barato-com-inteligencia-artificial/

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As apostas de empresas em hidrogênio verde dobram no país

Empreendimentos voltados à obtenção do hidrogênio verde tomam forma rumo à produção comercial; o gás é considerado essencial para a dar suporte à transição da indústria para uma economia descarbonizada

Por Cláudio Marques — Valor/Para o Prática ESG, de São Paulo 18/01/2023

No mundo em transição para uma economia de baixo carbono, o hidrogênio verde, também chamado de H2V, é considerado indispensável para que o setor industrial consiga diminuir suas emissões dos gases do efeito estufa – principalmente nos setores de difícil abatimento de carbono, como aço, cimento e transporte marítimo. Mas há barreiras a superar, como custos maiores de produção em relação ao hidrogênio tradicional, estrutura, transporte, aumento da capacidade de geração de eletricidade do país e, principalmente, haver garantia de compra para o produto, para cruzar a linha de chegada para um cenário de aproveitamento efetivo de oportunidades que podem render de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões para o país em 2040, de acordo com estimativas da consultoria McKinsey.

“O principal ponto que vai destravar o hidrogênio pode ser um leilão, como a Europa vai fazer, ou uma grande organização privada que decida usar o H2V na sua operação e faça um contrato de 10, 15, 20 anos com um fornecedor”, diz João Guillaumon, sócio da McKinsey, que possui estudo sobre as oportunidades do hidrogênio verde. “Se há demanda, há como financiar, contratar equipamentos e começar a fazer o projeto.”

A largada nesse sentido está começando. A White Martins iniciou a produção de H2V em Pernambuco, com certificação feita pela agência alemã TÜV Rheinland. A planta tem capacidade para fornecer 156 toneladas por ano. “Precisamos começar a fazer alguma coisa, porque, assim como todos os mercados novos, o H2V só começa a ganhar competitividade com escala”, diz Gilney Bastos, presidente da White Martins e da Linde na América do Sul. A empresa adaptou uma planta que já produzia hidrogênio. Bastos não revela o valor investido, mas sentencia: “É o mercado interno que vai dar escala”.

O estudo da McKinsey estima que do potencial de até US$ 20 bilhões, de US$ 10 bilhões a US$ 12 bilhões venha do mercado interno e de US$ 4 bilhões a US$ 6 bilhões de exportações de derivados de H2V para Europa e Estados Unidos. Mas, se o ganho maior deve vir do mercado interno, é o mercado externo que faz brilhar os olhos de quem pensa em investir no segmento. Países responsáveis por mais de 95% do Produto Interno Bruto (PIB) global têm metas de neutralidade de carbono e precisarão de alternativas menos poluentes e o H2V tem papel crucial para alcançarem suas metas.

A União Europeia promete emissão zero de CO2 até 2050, para atender aos objetivos do Acordo de Paris e, já em 2030, reduzir as emissões em pelo menos 55%. Para atingir essas marcas, a Alemanha dedicou 9 bilhões de euros para sua estratégia de hidrogênio verde, sendo 7 bilhões de euros para o mercado interno e 2 bilhões para o mercado externo.

Ansgar Pinkowiski, gerente de Inovação, Energia e Sustentabilidade da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha do Rio de Janeiro (AHK Rio) e membro da Aliança Brasil-Alemanha para o Hidrogênio Verde, lembra que, por questões geográficas e climáticas, a Alemanha só vai conseguir gerar cerca de 10% de H2V em 2050. “Ou seja, 90% precisarão ser importados”, afirma ele.

Especialistas dizem que se o Brasil aproveitar suas potencialidades, como abundância de energia elétrica limpa, pode se transformar em um grande fornecedor global de hidrogênio verde embarcado, isto é, exportando produtos feitos com uso de H2V, como aço verde. O país deixaria de ser um mero exportador de commodities e usaria o H2V para agregar valor a produtos industriais.

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Todo esse panorama está por trás das iniciativas em desenvolvimento no Brasil, como memorandos de entendimento sendo assinados e Estados se posicionando para se tornarem polos de fabricação e exportação do produto. A EDP já produziu sua primeira molécula de H2V na unidade de São Gonçalo do Amarante (CE), e a Thyssenkrupp, fechou contrato com a Unigel, de fertilizantes nitrogenados, para o fornecimento da tecnologia de eletrólise – que captura do hidrogênio verde.

“A planta, que estará no Polo Industrial de Camaçari (BA), terá investimento inicial de US$ 120 milhões e deve ser entregue até do ano”, diz Paulo Alvarenga, CEO da Thyssenkrupp para a América do Sul. Na primeira fase, a capacidade de produção será de 10 mil toneladas por ano de H2V e de 60 mil toneladas/ano de amônia verde.

No entanto, a McKinsey prevê que, para o país ter acesso a todas as oportunidades serão necessários investimentos da ordem de US$ 200 bilhões até 2040 em toda a cadeia: geração de eletricidade, linhas de transmissão, produção de hidrogênio e estrutura associada, como terminais portuários, dutos e armazenagem.

Sócia do escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe, que cobre o cenário regulatório e de investimentos em H2V, Danielle Valois diz que a tecnologia já está sendo barateada. “Há redução de custos de produção de energias renováveis e investimento em P&D para. Tudo está acontecendo mais rápido do que se imaginava, porque há empresas grandes colocando o processo em andamento. E agora vai haver dinheiro, que é o que falta”, diz ela, referindo-se à concorrência global feita pela Alemanha para comprar amônia verde.

Na busca por tecnologias que possam deixar o H2V mais competitivo, a CSN comprou, há um ano, participação na startup israelense H2Pro e, depois juntou à startup portuguesa Ultimate Technology to Industrial Savings (UTIS). O foco é desenvolver técnicas mais eficientes para fazer a eletrólise, o procedimento necessário para a quebra de molécula de água e obtenção do hidrogênio do oxigênio, mas também criar soluções para adequar seu parque industrial.

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O grupo CSN, que em 2021 emitiu 12,2 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente, segundo a metodologia do GHG Protocol, tem metas de redução de emissões em diversas áreas. Na siderurgia, o objetivo é cortá-las em 20% até 2035, em relação a 2018. Em cimentos, a busca é por menos 28% até 2030 face a 2020. Na CSN Mineração (CMIN), empresa de capital aberto que produz minério de ferro, a meta é redução de 30% até 2035 em relação a 2019. O grupo ressalta que, em suas rotas de descarbonização, os três segmentos consideram o H2V.

Uma pedra no caminho da viabilização comercial do produto, segundo especialistas, é o transporte do produto, principalmente quando se pensa em exportação. “Como ele é um gás muito volátil, muito leve, comprimi-lo não é a forma ideal, porque perde densidade energética”, diz Pinkowiski, da Câmara Brasil-Alemanha do Rio. Uma das soluções é transformar o H2V em amônia. “Já existe infraestrutura e tecnologia para transportar. No local do consumo, se extrai o hidrogênio ou se usa a própria amônia”, afirma. Mas acarreta um custo a mais.

Uma alternativa está em desenvolvimento por meio da associação entre Shell, Raízen, Hytron e Universidade de São Paulo (USP). A ideia é usar etanol para a produção de H2V no local onde será usado. Isso seria possível com um equipamento chamado reformador, produzido pela Hytron e que deverá ter o tamanho de um contêiner. O modelo será testado em um posto de abastecimento a ser instalado na USP e que abastecerá quatro ônibus que circulam pela Cidade Universitária – deverá entrar em operação até o fim deste ano. O equipamento vai produzir 5 kg por hora de hidrogênio. Após a entrega da máquina da USP, outra será feita com capacidade de produzir 50 kg/h e, depois, uma terceira deverá obter 500 kg/h.

O objetivo vai além. “Queremos colocar o etanol na rota global de distribuição do hidrogênio verde”, afirma Daniel Lopes, fundador e diretor comercial da Hytron, empresa brasileira do grupo alemão NEA. O posto, portanto, funcionará como vitrine para testar o produto em um ambiente controlado.

No ano seguinte, a máquina de 50 kg será instalada em uma indústria para que o H2V seja usado em uma aplicação real. “Pretendemos que, ao final de 36 meses, a partir da metade de 2022, já tenhamos um cliente em uma região portuária em que poderemos chegar com um navio de etanol e produzir o hidrogênio localmente e distribuí-lo”, diz Lopes.

Outra possibilidade seria o transporte de um mix de gás natural e hidrogênio em gasodutos como forma de acelerar o processo de descarbonização. “É o que já está sendo feito na Europa, e que chamam de blending. Consiste em utilizar a infraestrutura já existente de gasodutos, de transporte e distribuição, e injetar gás natural com percentuais de hidrogênio verde para que esse gás, que está abastecendo casas e indústrias seja gradativamente menos poluente”, diz Gabriela Fischer, associada sênior do Trench Rossi Watanabe.

A medida é considerada uma solução de curto prazo, mas criaria demanda para o H2V num primeiro momento, ajudando a alavancar projetos. Já se sabe que serão necessários ajustes para poder usar a mesma infraestrutura, já que o hidrogênio é mais leve e inflamável, mas não haveria necessidade de grandes investimentos na construção de novos gasodutos.

Há, porém, a necessidade de regulamentação em relação ao papel da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Ela só tem competência para regular o transporte de gás natural de origem fóssil e autorizar e contratar atividades da sua cadeia. A ideia é mudar a lei e acrescentar as atividade de hidrogênio às competências da ANP. O ideal, diz Fischer, seria a agência aproveitar que está sendo demandada a regular o novo mercado de gás, conforme a nova lei do gás, e já abrir margem para o mix hidrogênio-gás nos gasodutos.

Pinkowiski lembra que, enquanto muitos países já têm suas estratégias, o Brasil ainda discute a formação do grupo de trabalho. Se o governo não mostrar onde vai atuar, diz ele, o desenvolvimento por aqui será muito lento. E a janela de oportunidades poderá se fechar definitivamente.

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Internet of toys e o tratamento de dados de crianças e adolescentes

Uso destes dispositivos demanda maior cautela do Estado e da família, uma vez que envolvem um público hipervulnerável

Renato Opice Blum *com Renata Carolina Troca Cabella – Febrabantech 14/02/2023

A internet of toys, na tradução literal da palavra significa “internet dos brinquedos” ou “brinquedos conectados”, trata-se de brinquedos infantis que necessitam estar conectados à internet ou bluetooth. São brinquedos “inteligentes” capazes de interagir com a criança ou o adolescente, não apenas por meio de frases repetidas ou músicas gravadas, como os brinquedos tradicionais. 

A grande maioria desses brinquedos se conectam sem fio a banco de dados online e são capazes de reconhecer vozes, imagens e identificar comandos, perguntas e solicitações. Utilizam tecnologias de sensores, câmeras, inteligência artificial e conectividade para responder de forma individualizada e personalizada ao que é falado pela criança e, concomitantemente, colher dados pessoais dos pequenos usuários.

Em outras palavras, referidos brinquedos, quando estão online ou quando o Wi-Fi ou bluetooth estão acionados, podem, o tempo todo, ouvir e processar dados pessoais ou imagens, tais como os smartphones ou as smartTVs.

Em 2015, a Mattel em parceria com a empresa US Toy Talk lançou a boneca Hello Barbie, anunciada como a primeira boneca interativa, capaz de ouvir a criança e responder a ela. A Hello Barbie se conectava com a internet e, de acordo com os fabricantes, as conversas gravadas poderiam ser ouvidas posteriormente pelos pais. Todavia, para interpretar e responder as perguntas o conteúdo era enviado para a Toy Talk para processamento das informações.

No entanto, foi verificado que, quando conectada, a boneca ficava vulnerável a ataques, permitindo acesso fácil às informações, arquivos de áudio armazenados e acesso direto ao microfone, além de acesso a outros dispositivos conectados à internet e informações pessoais sem qualquer consentimento dos envolvidos.

Semelhante à Hello Barbie, tivemos a boneca Cayla, fabricada pela empresa Genesis Toys, que em 2017 foi banida pela Agência de Telecomunicações da Alemanha que, sob o alerta de possíveis falhas de privacidade, ordenou que os pais destruíssem ou desabilitassem a boneca. O brinquedo poderia ser utilizado para espionar ilegalmente as crianças, podendo eventuais atacantes se conectar ao brinquedo e falar com a criança ou o adolescente sem intermediação ou vigilância dos pais.

Assim, considerando a recente comercialização desses smart toys é nítido que os impactos do uso no desenvolvimento infantil ainda não foram devidamente avaliados. O assunto merece reflexão não só familiar e social, como também jurídica, uma vez que esses brinquedos alçam preocupações sobre as potenciais ameaças à segurança da informação.

Em meio a essa revolução tecnológica a qual crianças e adolescentes estão inseridos, as finalidades podem ser educativas ou recreativas, mas também podem violar direitos fundamentais.

Dessa forma, é necessário garantir especial proteção aos pequenos consumidores reconhecendo que as crianças estão em posição de maior fragilidade em relação à vulnerabilidade reconhecida ao consumidor padrão, pois possuem discernimento mais reduzido.

Afetada a essas situações a LGPD veio justamente para regulamentar o tratamento de dados pessoais, em particular nos meios digitais, devendo os dados que podem ser coletados em três: os dados pessoais, os dados pessoais sensíveis e os dados anonimizados. Os dados pessoais são informações relacionadas à pessoa natural identificada ou identificável. Os dados pessoais sensíveis são aqueles que dizem respeito a origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou organização de caráter religioso, filosófico ou político, dados referentes à saúde ou à vida sexual, dados genéticos ou biométricos quando vinculados a uma pessoa natural. E os dados anonimizados são aqueles relativos a titular que não possa ser identificado, considerando a utilização de meios técnicos razoáveis e disponíveis na ocasião de seu tratamento.

No entanto, especificamente sobre o tratamento dos dados pessoais de crianças e adolescentes, o art. 14 da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais – LGPD (Lei nº 13.709/2018) dispõe, apenas, que o tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes deverá ser realizado em seu melhor interesse e que o tratamento de dados pessoais de crianças deverá ser realizado com o consentimento específico e em destaque dado por pelo menos um dos pais ou pelo responsável legal.

Levando-se em consideração a quantidade de dados que podem ser expostos não se pode concentrar essa possível invasão à privacidade somente ao consentimento dos pais ou responsáveis.

De acordo com pesquisas apresentadas no site https://twisted-toys.com/br/: 72 milhões de pontos de dados serão coletados de uma criança antes de completar 13 anos; 61% das crianças de 8 a 12 anos foram contatadas por alguém que não conhecem enquanto jogavam; serviços digitais populares, como Facebook, têm sido usados em casos conhecidos de preparação de crianças para fins sexuais e tráfico de drogas; 29% das crianças entregam seus dados pessoais a pessoas que conheceram online, incluindo seu número de telefone celular e endereço residencial; 15 dos principais sites usados por crianças tinham termos e condições demasiadamente complicados; uma pessoa comum precisaria reservar quase 250 horas para ler corretamente todos os termos e condições que aceita ao utilizar serviços digitais; 73% dos jovens não leem os termos e condições de qualquer plataforma que utilizam; entre outras situações alarmantes.

Conforme visto, a utilização desses smart toys demanda maiores cautelas por parte do Estado e da família, uma vez que os reais interesses e usos advindos com os dados capturados por esses brinquedos envolvem um público hipervulnerável, diferente dos demais destinatários, com o agravante de que excluir as crianças e os adolescentes do uso das tecnologias não é mais possível considerando que as gerações atuais são nativas digitais. Vale dizer que sem poder separá-los é dever da família e do Estado respeitarem os direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes, bem como as regras de proteção de dados, implementando medidas que possam acompanhar pari passu a evolução tecnológica cada vez mais rápida e prodigiosa, mas também temerária.

*Renata Carolina Troca Cabella é formada em Direito pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, com pós-graduação em Processo Civil pela Pontifícia Universidade de São Paulo, além do Contencioso em Escala. Tem competência em Direito do Consumidor, Litígios Civis e Redação Jurídica

https://febrabantech.febraban.org.br/especialista/renato-opice-blum/internet-of-toys-e-o-tratamento-de-dados-de-criancas-e-adolescentes

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Planejamento urbano, teorias da conspiração e a cidade de 15 minutos

A ideia virou tema de muitas teorias da conspiração. Mas é assim que as pessoas costumavam viver


Adele Peters – Fast Company Brasil – 15-03-2023 

Quando morava em Oakland, na Califórnia, costumava levar apenas cinco minutos para chegar na biblioteca local, na cafeteria e no restaurante de comida mexicana do bairro. Meu apartamento ficava a poucos quarteirões do dentista, de uma loja de ferramentas, de uma sapataria, de duas livrarias e de quatro supermercados.

Se andasse por mais alguns quarteirões, eu podia ir ao cinema ou tomar um trem para São Francisco. De vez em quando, pegava minha bicicleta e ia até um parque que ficava a menos de 10 minutos da minha casa. Sem dúvida, gastaria menos tempo se fosse de carro, mas era tão perto que não havia por quê.

planejadores urbanos vêm defendendo a “caminhabilidade” há décadas.

O conceito de “cidade de 15 minutos” – projetada para que tudo o que precisamos no nosso dia a dia esteja a uma curta distância a pé ou de bicicleta – não é nova. Em Paris, onde a prefeita Anne Hidalgo ajudou a popularizar a ideia, algumas partes já se encaixavam nessa definição. 

“Podemos ver exemplos disso em lugares onde a maior parte do desenvolvimento urbano aconteceu antes da guerra, antes da expansão em massa do uso de automóveis”, aponta a urbanista Mallory Baches, diretora de desenvolvimento estratégico da organização sem fins lucrativos Congress for the New Urbanism. 

Alguns planejadores urbanos vêm defendendo a “caminhabilidade” há décadas. Porém, a ideia de cidade de 15 minutos só ganhou força nos últimos anos, tanto como forma de reduzir a poluição causada pelos carros quanto para aumentar a qualidade de vida.

Por exemplo, no ano passado, a cidade de Cleveland, em Ohio, passou a adotar o conceito em sua estrutura de planejamento urbano.

Mas, à medida que mais cidades começaram a discutir o tema, surgem reações contrárias. No Reino Unido, o deputado do Partido Conservador Nick Fletcher chamou a ideia de “ um conceito socialista internacional” que “custará a nossa liberdade pessoal”.

Conspiracionistas alegam que os residentes da cidade de Oxford – que tem planos de adotar o conceito de cidade de 15 minutos e reduzir o tráfego em algumas estradas – ficariam presos em seus próprios bairros.

Esse tipo de argumento encontra apoio em falas como a do comentarista conservador Jordan Peterson, que afirmou que a ideia era “apenas mais uma moda passageira sequestrada por aspirantes a autoritários”.

Mas, na realidade, ela promove mais liberdade, não menos. Não é necessário ficar preso no trânsito apenas para fazer alguma coisa do dia a dia. Além disso, mais pessoas teriam a opção de ir a pé ou de bicicleta para o trabalho, ou de trabalhar em home office, para não precisar usar o carro.

Existem vários benefícios. Menos tempo gasto dirigindo ou procurando lugar para estacionar significa mais tempo livre para fazer coisas que você realmente gosta. Segundo um estudo recente, andar dois mil por dia passos pode fazer com que o risco de morte prematura caia de 8% a 11%. Caminhar reduz o estresse e deixa as pessoas mais felizes. Diminui o risco de diabetes e de doenças cardíacas.

Outro estudo mostra que quem que leva uma hora para chegar no trabalho precisa ganhar 40% a mais para ser tão feliz quanto alguém que tem a possibilidade de ir a pé. Além disso, a cidade de 15 minutos contribui para a socialização. E a lista de benefícios continua.

VELHOS HÁBITOS

Como o nome sugere, o conceito não é apenas sobre um bairro específico, mas sim sobre oferecer às pessoas da cidade inteira facilidade de acesso para o que precisam no dia a dia. Zonas de 15 minutos se estendem para além dos bairros e se sobrepõem. E, obviamente, nenhum residente precisa ficar preso à região onde mora.

a ideia de cidade de 15 minutos descreve o futuro das cidades.

Ainda assim, as pessoas tendem a rejeitar a ideia de mudanças na infraestrutura urbana que possam facilitar a caminhada e o ciclismo. Mesmo na cidade de Berkeley, na Califórnia, que é conhecida por ser bastante progressista, a construção de uma ciclovia encontrou forte resistência por parte de moradores que temiam perder vagas para estacionar seus carros.

Mas as pessoas esquecem que o planejamento urbano impositivo foi o responsável por criar a dependência de carros, afastando áreas residenciais do comércio, construindo ruas largas para favorecer o tráfego e diminuindo, ou mesmo, eliminando as calçadas.

Mesmo que a expressão “cidade de 15 minutos” seja esquecida, a ideia não morrerá. Como Baches diz, “a ideia de cidade de 15 minutos descreve o futuro das cidades.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo

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Escuro, abafado e rende milhões: saiba como são os submarinos que levam drogas para a Europa

De Pablo Escobar a submarino fantasma, tática é utilizada há mais de 20 anos por narcotraficantes em todo o mundo

Por Letícia Messias – O Globo – 15/03/2023 

Quase duas toneladas de cocaína e três homens foram encontrados pelas autoridades dentro do submarino Quase duas toneladas de cocaína e três homens foram encontrados pelas autoridades dentro do submarino Divulgação/Exército da Guatemala

Uma mancha no mar foi o suficiente para chamar a atenção das embarcações que navegavam próximo a ilha de Arousa, na Espanha, nesta segunda-feira. A suspeita de que havia algo errado fez com que as autoridades espanholas encontrassem um narcossubmarino vazio no local. Somado ao submarino “fantasma” achado à deriva nas águas colombianas, a descoberta fez com que subisse para dois o número de navios utilizados para o tráfico de drogas apreendidos nesta semana.

Os episódios recentes chamam a atenção para uma tática pouco falada, mas utilizada há mais de 20 anos por narcotraficantes em todo o mundo, sendo o colombiano Pablo Escobar (1949-1993) o pioneiro. Entre os casos mais famosos, no entanto, está a saga do primeiro submarino do tráfico apreendido na Europa, em 2019, que saiu da fronteira do Brasil com a Colômbia.

No dia 25 de outubro daquele ano, Agustín Álvarez embarcou em um voo que o levaria de Madri ao Brasil — e que terminaria com a sua prisão. Na época aos 29 anos e com diversos títulos de navegação conquistados na Espanha, onde nasceu, ele se considerava apto para realizar uma missão quase impossível: atravessar da América à Europa em um submarino de 21 metros com 3 mil quilos de cocaína a bordo.

Ao lado de dois equatorianos, o percurso de 9 mil quilômetros foi feito com cerca de 20 mil litros de combustível. Como recompensa, os três tinham a promessa de receber U$ 100 mil (cerca de R$ 408 mil à época). Eles passaram 26 dias em uma embarcação que podia submergir até dois metros de profundidade, mas sofreram problemas técnicos ao longo do caminho. O primeiro veio no décimo dia: os dois tubos que saem da popa e servem para injetar ar no motor quebraram.

De acordo com relatos feitos pelos traficantes na prisão, o ar passou a ser “irrespirável”. Para contornar a falha, eles tiveram que abrir a escotilha durante algumas horas do dia para ter ventilação. Também perderam uma bolsa com alimentos e água que a embarcação levava e tiveram o depósito de óleo rompido, o que bastou para impregnar toda a área, inclusive os pacotes de cocaína.

— Foi quando eles decidiram abandonar e afundar o submarino, lá na Espanha. Em um primeiro momento eles pensaram que poderiam voltar para recuperar a droga, mas foram capturados — disse ao GLOBO o professor de engenharia naval da Universidade de São Paulo (USP) Gustavo Assi. — A sorte deles foi que o problema ocorreu quando estavam na costa. Se isso acontece no meio do Atlântico já era, não tem resgate.

‘É como entrar em uma bomba’

Quando Álvarez foi preso, as autoridades espanholas falavam em uma “operação histórica”. Isso porque a descoberta, feita em 24 de novembro daquele ano, representava um marco: era o primeiro narcossubmarino encontrado na Europa que vinha do outro lado do Oceano Atlântico — o que não significa, porém, que tenha sido o primeiro a tentar realizar o tráfico de drogas com um navio submerso.

Até onde se sabe, Pablo Escobar já contava com dois exemplares em sua frota marinha na década de 1990. Segundo Assi, a época também coincide com o aparecimento de submarinos semelhantes, quando criminosos passaram a usar os cascos de embarcações de alta velocidade e os tampavam com uma capa de fibra de vidro. Assim, faziam com que fosse possível afundar um pouco a embarcação na água.

— Mas obviamente o objetivo desses barcos é enviar a maior quantidade possível de droga, e não a segurança da tripulação — ressaltou.

Submarinos do tráfico

Submarino que atravessou o Atlântico foi encontrado abandonado na costa espanhola — Foto: Reprodução

O professor explicou que essas navegações duram algumas semanas e, por isso, a tripulação varia de duas a três pessoas, que alteram os turnos entre si. Elas dividem um espaço escuro, fechado, sem janela e ventilação. É, segundo ele, como uma cabine de carro, sem espaço para se levantar e circular. Durante os dias em que passam no submarino, é nesse ambiente que devem comer e fazer necessidades fisiológicas.

— A droga fica disposta de forma que haja um corredor central para que a pessoa possa se deitar — explicou. — Mas a cabine é minúscula e o calor é imenso, porque o motor, que geralmente é a diesel, é separado da tripulação por uma parede sem isolamento acústico ou térmico. Então, é como uma missão suicida porque o risco é altíssimo. A pessoa entra em uma bomba que corre o risco de explodir.

‘Evolução da engenharia’

As construções dos submarinos utilizados por traficantes são, em grande parte das vezes, feitas em “condições obscuras”, como em oficinas escondidas ou no meio da mata, segundo Assi. Na maior parte das vezes, os navios conseguem ficar submersos em até dois metros de profundidade, de modo que é possível garantir, ao menos por um tempo, a camuflagem.

— Mas depois é preciso subir até a superfície para trocar o ar da cabine. Esse é o momento vulnerável do submarino — disse. Agora, porém, eles estão ficando cada vez mais refinados. Alguns deles já são afilados, com camuflagem e um conhecimento avançado de como trabalhar o motor, além de serem silenciosos. Há uma evolução da engenharia de construção desses submarinos.

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/03/escuro-abafado-e-rende-milhoes-saiba-como-sao-os-submarinos-que-levam-drogas-para-a-europa.ghtml

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Bioeconomia pode gerar US$ 284 bi em negócios até 2050

Ações conjuntas entre setores da indústria tem potencial para reverter perdas provocadas pelo desmatamento

Por Mônica Magnavita — Para o Valor, 13/03/2023

A bioeconomia, considerada uma das vertentes para o desenvolvimento sustentável na Amazônia, e que prioriza a produção de baixo carbono, pode gerar faturamento industrial adicional de US$ 284 bilhões por ano, até 2050. As estimativas da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI) levam em conta uma série de ações conjuntas nas quais o agronegócio e os setores de alimentação, farmacêutico, de cosméticos e de genética assumem protagonismo.

“Se conseguirmos zerar o desmatamento ilegal, dá para inverter a economia da Amazônia em menos de dez anos. É possível dar valor à bioeconomia rapidamente”, afirma o cientista climático Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), citando potencial de geração de US$ 50 bilhões na região, em uma década. As projeções por trás dos números refletem experiências em curso, comprovando que o valor de sistemas agroflorestais é superior ao da substituição de florestas por pastagens. Atividades desenvolvidas por cooperativas, como a da C.A.M.T.A, em Tomé-Açu, no Pará, produtora de mais de uma centena de produtos, obtêm rentabilidade de cerca de US$ 1 mil por hectare por ano. Já o retorno com a criação de gado na região gira em torno de US$ 100,00 por hectare por ano.

Os dados, citados por Nobre, um dos principais estudiosos da Floresta Amazônica, dão uma pista do potencial dos investimentos em bioeconomia. Segundo o pesquisador, há duas décadas, a indústria do açaí gerava, por ano, US$ 50 milhões em vendas. Hoje, já atingiu US$ 1,2 bilhão na Amazônia e US$ 15 bilhões no mundo.

“Quando se desenvolve produtos da nova economia há mercado internacional para eles”, diz Nobre, que dirige a Amazon Third Way Initiative/Projeto Amazônia 4.0, que tem entre suas metas a criação de um instituto de tecnologia na região, nos moldes do americano Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), com investimentos de US$ 1 bilhão destinados a formar milhares de estudantes em bioeconomia.

Mas, para levar adiante tais projetos será preciso diminuir os riscos dos investimentos privados, o que demandará, a seu ver, uma ação fundamental: o combate rigoroso ao crime na região, refletido, sobretudo, no desmatamento e no garimpo. “Investidores internacionais ainda não levam a sério as políticas adotadas para conter a ilegalidade na Amazônia. Combater o crime é um desafio para todos nós”, afirma Nobre.

O cientista participou de um debate ao lado do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB-PA), sobre bioeconomia durante o Fórum Ambição 2030, realizado pelo Pacto Global da ONU no Brasil. O evento marcou, neste início de março, um ano do lançamento de sua estratégia em torno da Agenda 2030, conjunto de metas e ações para enfrentar mudanças climáticas. O Pará, um dos maiores emissores de gases de efeito-estufa no país devido a desmatamento e mudanças no uso do solo, quer deixar no passado essa triste posição e adotar novo modelo econômico, de baixo carbono.

A meta é atingir em 15 anos status de carbono neutro e, para tanto, o governo elaborou um Plano de Estadual de Bioeconomia. O Pará, aliás, tem boas chances para se tornar a sede da COP30, em 2025, decisão que será conhecida em maio, segundo Barbalho, cuja equipe distribuiu chocolates para a plateia, entre eles o de cupuaçu, premiado recentemente em Londres por sua qualidade e seu sabor.

“Isso demonstra que é possível construir uma economia sustentável na Amazônia. Precisamos investir em ciência, tecnologia e inovação, precisamos conhecer o que possuímos e a partir daí desdobrar com a iniciativa privada todas as oportunidades que isso pode gerar”, diz o governador. Uma das iniciativas nessa direção é o projeto de lançamento de um bioparque, idealizado para ser referência de conhecimento.

Estudo recente coordenado pelo TNC, Natura e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estimou em US$ R$ 30 bilhões a receita para o Pará até 2040 com bioeconomia. O potencial previsto para exportação de 43 produtos compatíveis com a floresta chega a US$ 120 bilhões.

Outra estatística relevante diz respeito ao aumento da renda na região a partir das atividades produtivas desenvolvidas pelas cooperativas. Estudo do professor Francisco Costa mostra que parte da população que trocou a pecuária pela produção de açaí e produtos agroflorestais saltou da chamada classe E para a classe C, conforme classificação do IBGE. “Isso, mesmo sendo a maioria dos produtos primários, ainda não industrializados. As poucas cooperativas na Amazônia conseguiram melhorar a vida da população”, diz Nobre. O Brasil detém entre 10% e 15% da biodiversidade mundial que, somada aos conhecimentos tradicionais da Amazônia, abre portas para o desenvolvimento da bioeconomia na região.

https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2023/03/13/bioeconomia-pode-gerar-us-284-bi-em-negocios-ate-2050.ghtml

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Como a China está virando a principal exportadora de veículos do mundo?

À medida que as marcas de automóveis do país conquistam cada vez mais clientes estrangeiros, o país está prestes a se tornar o segundo maior exportador mundial de veículos de passageiros

Tom Hancock – Exame – 16 de fevereiro de 2023 

“Ele chama muito a atenção, em parte devido à cor, em parte porque as pessoas não sabem o que é”, diz Tatt, que esperou quatro meses para que o veículo fosse enviado de Luqiao, no leste da China. “Tinha algumas preocupações de que a qualidade de fabricação pudesse não ser a melhor”, diz ele. “Após o teste de direção, todas as outras dúvidas foram eliminadas.”

À medida que as marcas de automóveis da China conquistam cada vez mais clientes estrangeiros como Tatt, o país está prestes a se tornar o segundo maior exportador mundial de veículos de passageiros, um marco que pode remodelar a indústria automobilística global e desencadear novas tensões com parceiros comerciais e rivais.

As vendas internacionais de carros fabricados na China triplicaram desde 2020, atingindo mais de 2,5 milhões no ano passado, segundo dados da Associação de Carros de Passageiros da China. Isso é muito pouco (cerca de 60.000 unidades) atrás da Alemanha, cujas exportações caíram nos últimos anos. Os números da China, atrás do Japão, mas à frente dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, anunciam o surgimento de um formidável rival para os estabelecidos gigantes automobilísticos.

As marcas chinesas são agora líderes de mercado no Oriente Médio e na América Latina. Na Europa, os veículos vendidos fabricados na China são principalmente modelos elétricos da Tesla e antigas marcas europeias de propriedade chinesa, como Volvo e MG, e marcas europeias, como Dacia Spring ou BMW iX3, produzidas exclusivamente na China. Uma série de marcas locais, como BYD e Nio, também está em ascensão, com ambições de dominar o mundo dos veículos de nova energia. Apoiada pela ­Berkshire Hathaway Inc., de Warren
Buffett, a BYD já está encantando os compradores de veículos elétricos em países desenvolvidos, como a Austrália.

É apenas o começo, de acordo com Xu Haidong, vice-engenheiro-chefe da Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis, apoiada pelo governo chinês. A meta é vender 8 milhões de veículos de passageiros no exterior até 2030 — mais do que o dobro das vendas atuais do Japão, diz ele.

– (Arte/Exame)

A tendência ressalta que a China deixou de ser a “fábrica mundial” de aparelhos eletrônicos, eletrodomésticos e brinquedos de Natal de baixo custo. Ao mudarem para produtos mais complexos e sofisticados para mercados competitivos e altamente regulamentados, as empresas chinesas estão escalando a cadeia de valor da produção — um fator-chave do crescimento que transformou a outrora batalhadora economia comunista no rolo compressor quase capitalista de 18 trilhões de dólares de hoje. De fato, o Índice de Complexidade Econômica organizado pelo Laboratório de Crescimento da Universidade Harvard, que analisa a gama de produtos que um país exporta, classifica a China em 17o lugar no mundo, um aumento em relação ao 24o lugar há uma década.

“Temos de mantê-los na tela do radar, sem contar os suspeitos de sempre”, disse o CEO do Mercedes-Benz Group AG, Ola Källenius, durante o Paris Motor Show em outubro. “A intensidade competitiva está aumentando. É a época mais divertida para trabalhar no setor automotivo desde 1886” — o ano em que Carl Benz, o pai do automóvel, lançou o primeiro carro movido a gasolina — “mas também é a época mais incerta”.

O aumento nas exportações de carros passou despercebido nos Estados Unidos, em parte porque aconteceu durante a pandemia de covid-19 e em parte porque as montadoras chinesas estão focadas principalmente na Europa, na Ásia e na América Latina. A General Motors vendeu cerca de 40.000 de seus SUVs compactos Buick Envision, fabricados na China, nos Estados Unidos em 2021, mas as tensões políticas, a prevalência das tarifas da era Trump e os subsídios destinados a aumentar a produção doméstica de veículos elétricos diminuíram o apelo desse mercado.

A entrada na Europa havia ­muito era uma meta para as empresas chinesas, que começaram a expor em salões de automóveis no continente no início dos anos 2000. Uma série de malsucedidos testes de segurança por volta de 2007 frustrou essas esperanças. “Francamente, pensei que isso seria para sempre”, diz Jochen Siebert, da JSC Automotive, empresa de consultoria automotiva em Singapura.

Mas, graças ao aumento da automação e à resultante padronização — o Grupo Goldman Sachs diz que as novas fábricas de automóveis na China têm os níveis mais altos de uso de robôs do mundo —, essas preocupações agora já não existem mais. À medida que a qualidade melhorou na última década, os carros chineses começaram a se sair bem nos testes europeus de segurança. As rígidas restrições da China à poluição do ar também ajudaram a maioria de seus carros a atender aos padrões europeus de emissões.

“Para enfrentar os chineses, teremos de ter comparáveis estruturas de custo”, afirmou o CEO da Stellantis, Carlos Tavares, em 19 de dezembro, falando a repórteres em uma fábrica de trens de força em Tremery, no norte da França. “Como alternativa, a Europa terá de decidir fechar as suas fronteiras, pelo menos parcialmente, aos rivais chineses. Se a Europa não quiser se colocar nessa posição, precisaremos trabalhar mais na competitividade do que já fazemos.”

Em um ano divisor de águas para os carros fabricados na China, as exportações para a União Europeia aumentaram 156% em 2021, para 435.000 unidades, segundo a Eurostat. Mas o rápido aumento nas remessas de VEs do país corre o risco de provocar uma reação política na União Europeia, de acordo com Agatha Kratz, diretora do Grupo Rhodium. “Parte disso é apenas porque as empresas chinesas estão melhorando, mas parte disso é excesso de capacidade na China”, diz ela. “Isso vai ser um ponto de atrito. Isso poderia gerar uma reação muito forte na Europa em termos de proteções comerciais.”

O Polestar, carro de preço premium que Tatt comprou, é uma exceção: a China tende a exportar carros relativamente baratos. Cerca de 13.700 dólares, o preço médio de um veículo de passageiros fabricado na China e exportado foi cerca de um terço do valor do carro alemão em 2021 e cerca de 30% menor do que um japonês, de acordo com dados fornecidos pela Comtrade, da ONU. Isso significa que é mais provável que os carros chineses representem uma ameaça para os modelos japoneses e sul-coreanos mais baratos do que para as marcas alemãs.

As autoridades em Pequim não estão muito preocupadas, pelo menos por enquanto. “Está provado que a força da indústria automobilística de um país será finalmente testada pelo mercado internacional”, diz Gao Yang, diretor de investimentos estrangeiros do Ministério do Comércio. Ele acrescentou que o governo incentivará as montadoras chinesas a adquirir empresas estrangeiras.

Tendo demonstrado que é um confiável centro de fabricação para as principais empresas do setor, a China lidera o ataque na próxima fronteira: veículos elétricos. As montadoras locais acharam a plataforma elétrica relativamente fácil de dominar em comparação ao complexo motor de combustão interna.

“A mudança para a bateria significa que o motor não é mais um diferencial”, diz Alexander Klose, vice-presidente executivo de operações no exterior da Aiways Automobiles, fabricante de veículos elétricos puramente chinesa, que já vendeu vários milhares de veículos na Europa. Tecnologicamente, “criou-se um nivelado campo de jogo”, diz ele.

Um esforço global para reduzir as emissões de carbono e salvar o planeta levou Pequim a encorajar fabricantes e compradores de veículos elétricos com subsídios, enquanto uma robusta cadeia local de suprimentos tornou mais barato fabricar um veículo elétrico na China do que em qualquer outro lugar. A fábrica da Tesla em Xangai produziu quase 711.000 carros no ano passado e respondeu por 52% da produção mundial da empresa. As medidas também geraram dezenas de fabricantes nacionais, como a Aiways. Muitos mal conseguiram, mas BYD, Nio e XPeng estão entre os destaques com potencial para brilhar no cenário global.

– (Arte/Exame)

A BYD, que também fabrica suas próprias baterias e chips, é a maior fabricante de veículos elétricos no país. Tem ambições de se tornar a Toyota dos EVs para o maior comprador mundial, e está apostando que suas próprias células e semicondutores a ajudarão a atingir esse objetivo.

A maior concorrente da Tesla provavelmente será uma empresa chinesa, disse o CEO, Elon Musk, em uma teleconferência com analistas após os resultados trimestrais da fabricante de veículos elétricos.

Questionado sobre as empresas automobilísticas chinesas, Musk disse que elas “trabalham mais arduamente e trabalham de maneira mais inteligente”, descrevendo-as como as mais competitivas do mundo. “Se eu fosse dar um palpite”, disse ele, “provavelmente alguma empresa fora da China seria a mais provável para ficar atrás da Tesla”.

“Não estamos escondendo o fato de que somos chineses, e os europeus estão lentamente se acostumando com o fato de que os produtos da China são de alta qualidade”, diz Alan Visser, diretor global da Lynk, uma marca de veículos elétricos da Geely,­ que diz ter mais de 180.000 usuários registrados na Europa para seus serviços de aluguel. A Geely disse que suas exportações totais foram de 190.000 veículos em 2022, e a meta é de 600.000 por ano até 2025.

Desde a venda de apenas alguns milhares de carros em meados da década de 1980, as montadoras chinesas percorreram um longo caminho. Até 2018, quando a Tesla foi autorizada a ser a única dona de sua fábrica na China, as montadoras estrangeiras tinham de formar parcerias com empresas locais para fabricar na China. Enquanto empresas estrangeiras guardavam sua tecnologia mais avançada, os players locais tornaram-se competitivos aprendendo processos com seus parceiros e por meio de aquisições de marcas como Volvo e Lotus. Um ritmo acelerado de crescimento na demanda doméstica fez da China o maior mercado automotivo do mundo em 2009.

Em 2018, as vendas domésticas caíram pela primeira vez em quase três décadas, enquanto os veículos fabricados localmente estavam se tornando competitivos nos mercados internacionais.

“As montadoras chinesas viram isso e disseram: ‘Este período de rápida expansão está chegando ao fim’. E muitas delas disseram: ‘Vamos tentar outros mercados’”, diz Stephen Dyer, diretor administrativo da consultora AlixPartners em Xangai e executivo da Ford.

O crescimento da cadeia de suprimentos na China também acompanhou a fabricação de automóveis. As empresas nacionais agora fabricam quase todas as peças, inclusive aquelas que importavam até cerca de uma década atrás, como aço de alta resistência e fibra de vidro reforçada. Como resultado, a China teve um superávit comercial em veículos e peças de veículos pela primeira vez em 2021. No entanto, as linhas de montagem ainda dependem de máquinas avançadas do Japão e da Alemanha.

“Parece que houve uma mudança radical”, diz Dyer. “A tendência de longo prazo é aumentar as vendas de marcas chinesas em todo o mundo.”

(Com Chunying Zhang, Selina Xu, Craig Trudell, Albertina ­Torsoli e Wilfried Eckl-Dorna.)

https://exame.com/revista-exame/a-montadora-do-mundo/

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