Profissão ‘memeiro’: com milhões de seguidores, criadores de posts de humor são disputados por empresas

Donos de perfis populares na internet participam de painel no Rio2C, evento da indústria criativa que começa hoje

Por Ronald Villardo O GLOBO – 11/04/2023 

A cada vez que alguém dá uma “curtida” ou compartilha uma piada inocente numa rede social, mais um passo é dado na consolidação de uma das estratégias de marketing mais poderosas da contemporaneidade: a criação de memes. Por trás dela, quase invisíveis, estão seus produtores, os “memeiros” ou “mememakers”. São jovens de classes sociais diversas e com formações acadêmicas que passam longe das escolas de comunicação. E grandes companhias pagam muito dinheiro para terem suas marcas incluídas nas peças de humor publicadas em perfis com milhões de seguidores, como @soueunavida, @perrenge-chique e @saquinhodelixo, entre tantos outros.

Contando até com uma premiação própria, o Meme Awards (memeawards. com.br), o fenômeno dos memes não poderia estar de fora dos painéis do evento Rio2C, que acontece entre hoje e domingo na Cidade das Artes, Zona Oeste carioca, reunindo mais de 1.200 profissionais de várias áreas da indústria criativa. Em 11 palcos, o festival contará com debates, oficinas e palestras de profissionais, que vão do audiovisual aos games, da música à publicidade, território onde os memeiros têm passeado com pompa e circunstância.

Quando cunhou o termo “meme” para o livro “O gene egoísta” (1976), o biólogo e escritor ateu Richard Dawkins certamente não imaginava que havia criado um tipo alternativo de divindade. A palavra que nasceu para definir “uma unidade de informação cultural que se propaga de indivíduo para indivíduo dentro de uma sociedade” virou o Santo Graal do marketing. E a viralização é uma espécie de graça a ser alcançada por toda e qualquer marca disposta a pagar o que for necessário por isso.

— Os memes viraram uma espécie de entretenimento capaz de disputar atenção com as plataformas de streaming — diz Flávio Santos, CEO da agência de publicidade MFields, que mediará o painel “A contracultura dos memes” hoje no Rio2C. — A linguagem memética traz um descompromisso compromissado.

Por descompromisso, entenda a informalidade das postagens de humor que transforma situações cotidianas em autoironia. Por compromisso, entenda que não vale tudo por uma viralização.

— Há limites para este humor. Há assuntos que tratamos com mais cuidado, ou mesmo ignoramos — diz o memeiro Fabio Santana, criador do @soueunavida, que contabiliza 18 milhões de seguidores e subindo dia após dia.

Tal código de ética informal parece ser um dos denominadores comuns entre os mememakers. Procurado por marcas como Coca-Cola e McDonald’s, entre outras grandes, para viralizar conteúdos bem-humorados para as marcas, o criador Alan Pereira, do perfil @saquinhodelixo, lista alguns dos produtos que não têm vez na sua página.

— Recusamos clientes de sites de apostas on-line e de entregas de comida, por exemplo. Entendemos que há problemas com questões trabalhistas nesses serviços — explica o memeiro, que também participará do painel de hoje na Cidade das Artes e afirma cobrar R$ 30 mil por um post simples no Instagram. — No TikTok, ainda não temos um valor definido, pois estamos estudando a plataforma.

Quem pode recusar clientes também pode se manifestar politicamente. É o que entende o memeiro Matheus Diniz, do perfil @greengodictionary, que nasceu no Twitter mas atualmente injeta energia na movimentação da página no Instagram, onde ostenta mais de 1,5 milhão de seguidores.

A decisão de se associar à agência Play 9, por exemplo, só aconteceu porque o influenciador Felipe Neto, o sócio mais pop da empresa, é defensor de ideias progressistas.

— Meu perfil é oficialmente contra a extrema direita. Só aceitei o convite deles (da Play 9) porque tenho a garantia de que não serei censurado nos meus posicionamentos — afirma Diniz, de 26 anos, que largou a segurança de um emprego público na Prefeitura de Goiânia, em 2020, para se dedicar exclusivamente ao perfil, que publica traduções literais para o inglês de expressões tipicamente brasileiras.

Meme Awards

Os perfis de memes competem diretamente com aqueles dos influenciadores, famosos por cobrar altas somas para associarem suas imagens a produtos que visam a um público cada vez mais amplo. A diferença entre eles é que os memes transformam tudo em humor diretamente ligado à vida cotidiana de quem os acompanha. É a tal da identificação que gera no seguidor o desejo de compartilhar imediatamente o que acabou de lhe provocar uma risada.

Ainda que muitos dos memeiros mais populares do país sejam egressos de áreas que não têm muito com a ver com o universo da comunicação como a conhecemos, alguns deles já pisam no meio acadêmico com passos firmes. Este é o caso de Gabriel Félix, do perfil @southamericanmemes e criador do prêmio Meme Awards (memeawards.com.br), lançado há dois anos em parceria com a agência carioca de publicidade Flocks.

— Terminei o ensino médio, mas não fiz e não tenho vontade de fazer faculdade — conta Gabriel, que já deu palestras na ESPM do Rio e na UFF.

Aos 23 anos, Gabriel mudou-se de Caraguatatuba, no interior de São Paulo, para o Rio aos 17, quando foi contratado pela Flocks para o curioso cargo de “consultor de memes”, devidamente registrado no Linked In do rapaz.

O convite veio de Marcelo Madureira, um dos sócios da agência, depois de entrevistar Félix para o seu canal do Youtube por conta do sucesso do @southamericanmemes.

Por conta dos Meme Awards, Gabriel tornou-se uma espécie de referência entre os memeiros brasileiros. Tanto que ele prepara o lançamento da sua própria agência de conteúdo para web, a Handover Creative, com lançamento oficial marcado para o próximo mês.

— No hub da Handover, contaremos com mais de cem mememakers de todo o país — conta Gabriel, que planeja financiar cursos para preparação de jovens pretos de comunidades para assumirem cargos de liderança na indústria criativa. — Há muita criatividade nas comunidades, mas as pessoas não conseguem desenvolver (esse talento) porque têm que trabalhar de motoboy para sobreviver.

O professor Viktor Chagas, do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF e coordenador do projeto on-line Museu de Memes (museudememes. com.br) destrincha algumas das características essencialmente brasileiras do fenômeno.

— Nossas piadas não são como as dos americanos, do tipo ‘perco o amigo mas não perco a piada’. Por aqui, temos uma característica mais autodepreciativa — diz o pesquisador. — É um tipo de humor nos ajuda a rir de nós mesmos, especialmente no contexto da grande desigualdade social em que vivemos.

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Militares chineses planejam lançar 13 mil satélites para fazer frente à Starlink, de Elon Musk

Por Cate Cadell – Estadão/Washington Post – 10/04/2023 

Uso bem-sucedido dos satélites Starlink na guerra na Ucrânia foi percebido como uma grande ameaça à segurança nacional de Pequim

Pesquisadores militares da China estão pedindo a rápida mobilização de um projeto para uma rede nacional de satélites para concorrer com a Starlink, da SpaceX, preocupados com a possibilidade de os satélites com sinal de internet de Elon Musk representarem uma grande ameaça à segurança nacional de Pequim após o seu uso bem-sucedido na guerra na Ucrânia.

Pesquisas e estudos recentes da China e fontes informadas a respeito do programa dizem que estão em andamento planos para a mobilização de uma mega constelação nacional de quase 13 mil satélites de órbita baixa, enquanto cientistas militares desenvolvem pesquisas para “suprimir” ou mesmo danificar satélites da Starlink no caso de um conflito.

Um obscuro projeto com apoio do governo – ao qual o setor chinês de satélites se refere como GW, ou Guowang, que significa Rede Estatal – começou a ganhar força em 2021, como rival das redes de satélites dos Estados Unidos e outros serviços civis de sinal de internet. Mas, nos meses mais recentes, pesquisadores chineses compartilharam publicamente e em caráter privado diante de autoridades militares a sua preocupação com o atraso do projeto em relação à Starlink, devendo receber total atenção depois que a tecnologia de comunicação da SpaceX suportou os testes práticos na Ucrânia.

“A constelação da Starlink finalmente revelou sua aplicação militar no conflito entre Rússia e Ucrânia”, disse um acadêmico de Pequim informado a respeito do projeto chinês.

“Agora o foco será a aceleração do desenvolvimento da constelação própria da China . . . e a exploração de medidas defensivas contra satélites estrangeiros como os da Starlink”, disse a fonte, que falou sob condição de anonimato por se tratar de um tema sensível.

As preocupações chinesas com a segurança nacional diante da Starlink ocorrem em meio a uma corrida espacial cada vez mais acirrada entre Pequim e Washington, com ambos os países investindo pesado em tecnologia defensiva de ponta e missões de exploração – incluindo esforços concorrentes para levar o homem a Marte.

Grandes redes de satélites de baixa órbita com sinal de internet como a Starlink e projetos rivais da Amazon e da Boeing – que se situam entre 500 km e 2.000 km acima da superfície da Terra – são empreendimentos comerciais pensados para oferecer acesso de banda larga à internet em áreas de baixa conectividade.

A SpaceX, de Musk, opera atualmente mais de 3 mil satélites, e tem planos de levar este número a aproximadamente 42 mil. A empresa enviou milhares de terminais da Starlink para a Ucrânia desde o início da guerra, e o serviço se tornou uma ferramenta essencial na comunicação militar.

Mas o sucesso tecnológico da Starlink no campo de batalha foi abafado pela estratégia política chantagista do seu diretor executivo, incluindo a ameaça de interromper os serviços de comunicação e um alerta em fevereiro segundo o qual forças ucranianas estariam usando o sistema para propósitos ofensivos não autorizados. A empresa diz que seu serviço de internet “não foi criado para ser usado como arma” e adotou medidas para impedir a Ucrânia de usá-lo para ativar seus drones.

Satélites ultrassecretos

Ao longo dos dez anos mais recentes, o Pentágono passou a depender cada vez mais do setor espacial comercial, aproveitando os veículos de lançamento reutilizáveis da SpaceX, criados por Musk, para lançar satélites de defesa ultrassecretos. Em dezembro, a SpaceX anunciou a expansão deste trabalho, revelando um projeto chamado Starshield – diferente da Starlink – e voltado para os propósitos de segurança nacional dos governos. O anúncio trouxe ansiedade a Pequim, onde pesquisadores temem que ele possa prejudicar o sigilo dos programas militares chineses.

“Depois que o Starshield for concluído, ele será o equivalente à instalação de câmeras de vigilância sobre todo o mundo. A partir desse momento, operações militares como o lançamento de mísseis balísticos, mísseis hipersônicos e caças será facilmente detectado pelo monitoramento dos EUA”, disseram em dezembro pesquisadores da Universidade de Engenharia Espacial do Exército de Libertação Popular ao site oficial de notícias militares da China.

A SpaceX não divulgou informações indicando que o projeto incluiria essas capacidades. Seu site voltado ao público em geral diz que o projeto oferecerá capacidades de observação e comunicação, e equipamento para receber cargas não especificadas em seus satélites.

A SpaceX e a Embaixada da China em Washington não responderam às tentativas de contato.

Campo de batalha

Mesmo sem evidências de que redes comerciais como a Starlink sejam usadas atualmente para os propósitos de vigilância indicados pelos acadêmicos chineses, elas já revelaram seu potencial no campo de batalha. Serviços como a Starlink têm a capacidade de oferecer comunicação barata e de alta velocidade via internet em situações em que as demais infraestruturas estiverem indisponíveis.

De acordo com os analistas, em conjunto com serviços comerciais de imagens via satélite como Planet Labs e Maxar, a Starlink pode transmitir aos soldados informações quase instantâneas a respeito do que está ocorrendo no campo de batalha.

Soldados na Ucrânia dizem ter usado a rede para acompanhar ao vivo as imagens transmitidas por drones e para melhorar a precisão do fogo de artilharia, poupando munição. Ela também permitiu aos soldados manter o contato com amigos e parentes.

“Quer gostemos ou não, [Musk] nos ajudou a sobreviver aos momentos mais difíceis da guerra”, disse Mykhailo Podolyak, assessor do presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, em publicação no Twitter em outubro.

Enquanto isso, as ambições da China são limitadas por obstáculos tecnológicos e pela capacidade de lançamento. No ano passado, pesquisadores em Xian, no centro da China, realizaram testes bem-sucedidos envolvendo um propulsor de foguete reutilizável, mas sua tecnologia fica atrás da empregada pela SpaceX. Uma autoridade chinesa disse à mídia estatal que a expectativa é chegar ao primeiro veículo reutilizável de lançamento capaz de decolagem e aterrissagem verticais (semelhante aos foguetes da SpaceX) mais ou menos em 2025.

Projetos estatais

Em 2021, Pequim anunciou a criação de uma nova firma, liderada por nomes escolhidos entre os melhores grupos estatais aeroespaciais, para supervisionar o desenvolvimento da mega-constelação de satélites de baixa órbita. Chamado de China Satellite Network Group Co. Ltd., o empreendimento foi pensado para consolidar os programas iniciais de satélites civis e estatais e acelerar o desenvolvimento do projeto nacional, de acordo com analistas e fontes informadas a respeito dos planos.

Um ano antes, a China apresentou documentação à União Internacional das Telecomunicações – agência das Nações Unidas responsável pela definição dos padrões na comunicação – descrevendo sua intenção de lançar inicialmente 12.992 satélites operando em determinadas frequências dentro de um cronograma não especificado.

É difícil determinar quantos satélites ligados ao projeto nacional estão atualmente em órbita porque, de acordo com os analistas, é provável que iniciativas anteriores tenham sido absorvidas pelo plano nacional, mas diferentes programas estatais e civis da China lançaram, juntos, um número relativamente pequeno deles, algo na ordem das dezenas. Também é improvável que tenham as capacidades operacionais dos modelos mais novos lançados pela Starlink.

Mas a trajetória chinesa é exponencial.

“Este ano, existe uma chance considerável de a China lançar algumas dezenas de satélites de baixa órbita destinados às comunicações. E, no ano seguinte, talvez sejam algumas centenas de lançamentos”, disse Blaine Curcio, fundador da Orbital Gateway Consulting, que acompanha o desenvolvimento da indústria chinesa de satélites. “Em cinco anos, se me disserem que a China terá 2 mil satélites de comunicações em órbita baixa, eu diria que esse número é o mínimo.”

Mas a chegada tardia da China ao mercado também pode limitar seu acesso às frequências abertas em órbita bixa. “Em 2015 e 2016, quando houve uma espécie de corrida do ouro nas frequências de órbita baixa, os chineses simplesmente não participaram”, disse Curcio. “E acredito que isso será um obstáculo para eles, algo que cria certa urgência.”

Em um estudo divulgado em fevereiro, uma equipe de pesquisadores na Universidade de Engenharia Espacial acusou os EUA de se apoderarem dos recursos de órbita baixa, incluindo frequências, e disse que o rápido desenvolvimento da Starlink não era apenas um projeto comercial, mas um “plano de interesse competitivo e estratégico” por parte do governo americano.

Os pesquisadores também descreveram potenciais métodos para desativar os satélites da Starlink, caso venham a ser usados futuramente em operações militares dos EUA. “É difícil danificar fisicamente a constelação da Starlink “, disse o artigo, destacando a possível chuva de destroços que um ataque aos satélites criaria.

“Assim sendo, lasers, micro-ondas de alta potência . . . podem ser usados para danificar os equipamentos de reconhecimento armados nos satélites da Starlink”, disseram os pesquisadores, referindo-se à técnica que desabilitar um satélite sem destruí-lo, evitando assim os destroços. Os pesquisadores militares chineses também sugeriram “aproveitar” possíveis pontos fracos nos serviços de internet da Starlink para mobilizar ataques cibernéticos e “paralisar sua rede de comunicações”.

A fonte em Pequim informada a respeito do programa disse que esse tipo de pesquisa já “se encontra em um nível relativamente sofisticado. O maior desafio é monitorar as operações da Starlink”, disse a fonte. “O tamanho da constelação dificulta a compreensão do seu real propósito.”

Ainda que o programa seja relativamente recente, a ansiedade de Pequim em relação à Starlink mostra como é tensa a concorrência entre EUA e China no setor espacial.

“Se estão falando em vulnerabilidades da Starlink ou do Starshield, é porque sabem que elas existem e já as estudaram em seus sistemas”, disse Martin Whelan, vice-presidente sênior do Grupo de Sistemas de Defesa da Aerospace Corporation, centro de pesquisa e desenvolvimento com financiamento federal que oferece análise e experiência técnica para os programas espaciais americanos. “Mas isso me diz que estão pensando em atacar uma capacidade e negar o acesso a ela, coisa que sempre deixa os militares americanos nervosos.”

Whelan disse que uma das maiores preocupações ao lidar com os crescentes programas espaciais chineses é a falta de comunicação. “Os EUA registram seus satélites; os orçamentos podem ser consultados, tudo pode ser lido. Mas, do lado chinês, tudo é menos transparente.”

Não é a primeira vez que a China se surpreende com o rápido desenvolvimento dos satélites da Starlink. Em 2021, Pequim apresentou uma queixa na ONU, alegando ter sido obrigada a realizar manobras evasivas em duas ocasiões para evitar uma colisão entre sua estação espacial e os satélites da Starlink, o que levou a duras críticas contra a SpaceX e Elon Musk na China.

Musk estaria planejando uma viagem à China este mês para se reunir com funcionários do alto escalão do governo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

https://www.estadao.com.br/internacional/militares-chineses-planejam-lancar-13-mil-satelites-para-fazer-frente-a-starlink-de-elon-musk/

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Paul Krugman: Ofensiva energética de Putin fracassa com transição verde inesperada na Europa

Por Paul Krugman – Estadão/NYT – 09/04/2023 

Países europeus resistiram notavelmente bem à perda de suprimentos importados da Rússia após a invasão da Ucrânia

Vladimir Putin invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. Desde então, a Rússia lançou quatro grandes ofensivas. Três foram militares; a quarta foi econômica. E embora você não ouça muito sobre essa última ofensiva, seu fracasso apresenta algumas lições muito importantes.

Todos sabem da primeira ofensiva militar: a tentativa de blitzkrieg que deveria tomar Kiev e outras grandes cidades ucranianas em questão de dias. Muitos observadores – especialmente, mas não apenas, os direitistas ocidentais que fetichizaram as supostas proezas das Forças Armadas russas – esperavam que essa blitzkrieg fosse bem-sucedida. Em vez disso, ela se transformou em uma derrota épica: paralisados por uma obstinada defesa ucraniana, os russos acabaram recuando após sofrer enormes perdas.

A segunda ofensiva foi mais limitada em escopo: um ataque de primavera no leste da Ucrânia. Mais uma vez, muitos observadores esperavam uma decisiva vitória russa, talvez o cerco de grande parte do Exército ucraniano. E os russos fizeram alguns avanços graças à esmagadora superioridade da artilharia. Mas essa ofensiva parou quando a Ucrânia adquiriu armas de precisão ocidentais, especialmente as agora famosas Himars, que causaram estragos nas áreas de retaguarda russas. A Ucrânia acabou conseguindo lançar contra-ataques que recuperaram terreno significativo, principalmente a retomada Kherson.

Em imagem de arquivo, trens de hidrogênio em estação de Wehrheim, na Alemanha

Em imagem de arquivo, trens de hidrogênio em estação de Wehrheim, na Alemanha Foto: Michael Probst/AP – 5/4/2023

A terceira ofensiva russa, um ataque de inverno na região de Donbas, ainda está em andamento, e é possível que a Ucrânia opte por se retirar da cidade de Bakhmut, um local de pouca importância estratégica que, no entanto, se tornou palco de combates incrivelmente sangrentos. Mas a maioria dos observadores que li vê o empreendimento como mais um fracasso estratégico.

De certa forma, porém, a derrota mais importante da Rússia não ocorreu no campo de batalha, mas na frente econômica. Eu disse que a Rússia lançou quatro grandes ofensivas; a quarta foi a tentativa de chantagear as democracias europeias para que abandonassem seu apoio à Ucrânia cortando o fornecimento de gás natural.

Havia motivos de preocupação nessa tentativa de transformar o abastecimento de energia em arma de guerra. A invasão russa da Ucrânia de início interrompeu os mercados de várias commodities – a Rússia é um grande produtor de petróleo, e tanto a Rússia quanto a Ucrânia eram grandes exportadores agrícolas antes da guerra – e o gás natural parecia um ponto de pressão especialmente sério. Por quê? Porque o gás natural não é negociado em um mercado global. A maneira mais barata de enviar gás é por meio de gasodutos, e não estava claro como a Europa substituiria o gás russo se o fornecimento fosse interrompido.

Muitas pessoas, incluindo eu, ficaram preocupadas com os efeitos de um embargo de gás russo. Isso causaria uma recessão europeia? Os tempos difíceis na Europa prejudicariam sua disposição de continuar ajudando a Ucrânia?

Para lembrar

Bem, a grande história aqui – uma história que não foi muito divulgada na mídia, porque é difícil relatar coisas que não aconteceram – é que a Europa resistiu notavelmente bem à perda de suprimentos russos. O desemprego na zona do euro não aumentou; a inflação subiu, mas os governos europeus conseguiram, por meio de uma combinação de controle de preços e ajuda financeira, limitar (mas não eliminar) as dificuldades criadas pelos altos preços da gasolina para as pessoas.

Fontes alternativas

A Europa conseguiu continuar funcionando apesar do corte da maior parte do gás russo. Por um lado, isso reflete uma transição para outras fontes de gás, como o gás natural liquefeito enviado dos EUA.

Por outro, resulta dos esforços de economia que reduziram a demanda. Uma parte representa um retorno temporário à geração de eletricidade a carvão, outra parte maior reflete o fato de que a Europa já obtém muito de sua energia a partir de fontes renováveis.

E, sim, foi um inverno excepcionalmente quente, o que também ajudou. Mas o resultado final, como diz um relatório do Conselho Europeu de Relações Exteriores, é que “Moscou fracassou em seu esforço de chantagear os estados da UE por meio do corte de gás”. De fato, a Europa intensificou seu apoio militar à Ucrânia, principalmente enviando tanques de guerra que podem ajudar na contraofensiva ucraniana que se aproxima.

Balanço

Então, o que podemos aprender com o fracasso da ofensiva energética da Rússia? Primeiro, a Rússia parece mais do que nunca uma superpotência Potemkin, com pouco por trás de sua fachada imponente. Seu tão alardeado Exército é muito menos eficaz do que se anunciava; e, agora, está claro que é muito mais difícil do que se pensava transformar em arma de guerra seu papel como fornecedor de energia.

Em segundo lugar, as democracias estão mostrando, como muitas vezes no passado, que são muito mais duronas, muito mais difíceis de intimidar do que parecem. Por fim, as economias modernas são muito mais flexíveis, muito mais capazes de lidar com a mudança, do que alguns interesses investidos querem nos fazer acreditar.

Desde que me lembro, os lobistas dos combustíveis fósseis e seus apoiadores políticos têm insistido que qualquer tentativa de reduzir as emissões de gases do efeito estufa seria desastrosa para os empregos e o crescimento econômico.

Mas o que estamos vendo agora é a Europa fazendo uma transição energética nas piores circunstâncias possíveis – repentina, inesperada e drástica – e lidando muito bem com isso, o que sugere que uma transição gradual e planejada para a energia verde seria muito mais fácil do que os pessimistas imaginam. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

https://www.estadao.com.br/internacional/paul-krugman-ofensiva-energetica-de-putin-fracassa-com-transicao-verde-inesperada-na-europa/

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POR QUE BRINCAR COM IA É A MELHOR MANEIRA DE OBTER UM ESPÍRITO CRIATIVO NA EMPRESA

Os criativos devem explorar o desconhecido e experimentar sem regras para entender as possibilidades da tecnologia

Por PJ Pereira* – AdAge  06 de abril de 2023.

Comecei minha carreira na publicidade como “o cara digital” em uma agência.

“Vá brincar com isso”, disse meu chefe, “e faça algumas coisas legais, e descobriremos o que fazer com isso”. Com uma frase, ele tirou a pressão por uma monetização impossível, estabeleceu alguma disciplina em ser ágil e não gastar demais e conteve o impulso de tentar organizar o pensamento sobre o que ainda não tivemos chance de pensar.

Brincar me liberta. Isso tirou o peso e a pressão dos meus ombros e permitiu que eu me concentrasse na única coisa que importava: fazer. Porque só experimentando coisas reais podemos entender o que faz uma diferença real.

Não esperávamos que alguém nos ensinasse. Não contava com livros ou tutoriais. Observamos as novas possibilidades sendo lançadas e perguntamos: O que podemos fazer com essa nova possibilidade?

Uma geração inteira de líderes em nosso setor nasceu dessas experiências. Há outro nascendo agora também. Uma geração que ousa brincar com o desconhecido. Para experimentar sem regras. Para tentar domar ou surfar ou fazer parceria com a Inteligência Artificial.

Brincar é a estratégia evolutiva de um mamífero para aprender sobre o mundo ao seu redor. É a estratégia que encontramos para explorar o desconhecido antes que haja conhecimento suficiente para ser transferido. Brincar é a estratégia para apreender o novo.

Nos últimos anos, tenho brincado com as aplicações criativas da IA. Aprendi a criar imagens, a escrever com elas, a construir animações para estruturar histórias… sem obrigação de formar um entendimento total da fera. E através dessa exploração, algumas lições preliminares estão começando a tomar forma:

Esqueça a separação entre ideias e execução

Essa é uma distinção temporária em nosso mercado. Os artistas geralmente se orgulham de como realmente fazem as coisas. E de alguma forma o mundo da publicidade caiu na ideia da linha de produção. Adivinha? Um dos maiores impactos da IA é diminuir a distância entre a ideia e sua manifestação. Ainda requer prática, habilidade e técnica, mas nada disso parece mais um abismo. E essa é uma oportunidade revolucionária. Mas há um problema: você deve estar fazendo coisas. Se você está apenas dizendo aos outros o que fazer… você ainda não está jogando.

IA é um novo tipo de computação

A IA não se baseia em máquinas que seguem ordens, mas em máquinas que sabem como aprender. Como consequência, as ferramentas que nascerem dele também serão muito diferentes. É como passar de uma bicicleta para um cavalo. Agora você tem mais potência, mas seu veículo tomará algumas decisões por conta própria.

Suas habilidades serão desperdiçadas, e tudo bem

Com milhões de dólares sendo investidos neste campo, o progresso é mais rápido do que qualquer outra tecnologia já experimentou. Isso significa que novos recursos, interfaces e fluxos de trabalho estão sendo recriados quase mensalmente. Não use isso como desculpa para esperar pela estabilidade, no entanto. O verdadeiro aprendizado desse estágio não é a habilidade de usar uma ferramenta específica. É a compreensão das possibilidades – presentes e futuras. Uma perspectiva sendo moldada enquanto falamos, por aqueles que ousam jogar no caos.

Se suas mãos não estão sujas… você é um seguidor

Sei que o mundo atual nos faz acreditar que os líderes lideram e os seguidores fazem. Mas no contexto de um salto geracional como este, as regras são invertidas. Se você quer liderar o futuro, deve estar fazendo isso agora. Porque todas as nuances virão de suas frustrações, surpresas e sua necessidade de improvisar com uma tecnologia que está longe de estar pronta.

Há problemas

Viva com isso. Alguns são tecnológicos, como a incapacidade atual da IA de desenhar mãos (de alguma forma, sempre há dedos demais!). Esses serão corrigidos mais rápido do que imaginamos. Depois, há questões éticas (e legais) que a indústria também precisará abordar – questões sobre autoria, plágio, propriedade do conteúdo usado para treinar essas máquinas. São questões muito importantes que precisam ser discutidas. Mas vai demorar um pouco até chegarmos a um consenso. Isso torna o jogo uma estratégia ainda mais importante – permite-nos experimentar a tecnologia em uma escala menor, com apostas mais baixas e entender as nuances e especificidades que devemos considerar ao tentar definir regras gerais maiores.

Todas essas lições me trazem de volta ainda mais ao meu passado. Não quando consegui meu primeiro emprego em publicidade, mas quando ganhei meu primeiro computador quando criança. Não preciso mais programar. Mas aprender como um computador pensa me deu uma vantagem contra muitos criativos ao meu redor. Agora, olhando para esse novo estágio da computação, posso ver os padrões se repetindo. A ponto de, quando meu filho adolescente me disse que queria ser diretor de cinema, dei a ele o melhor presente que pude pensar: ensinei-o a começar a brincar com IA.

Um presente. Isso é o que é. Para meu filho, para você

Agora vá brincar.

*PJ Pereira é fundador e  creative chairman na  Pereira O’Dell e um dos maiores publicitários brasileiros, reconhecido internacionalmente. Mora em Nova Iorque.

https://adage.com/article/opinion/why-playing-ai-best-way-gain-creative-edge/2484531

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Para sobreviver, o jornalismo terá de olhar para trás

Será preciso retomar ofício de artesão, usando as mãos, a inteligência e a sensibilidade

Rodrigo Tavares* – Folha – 5.abr.2023 

Já não me lembro se se chamava Manuela ou Maria a minha professora de datilografia numa escola pública na pequena cidade de Castelo Branco, em Portugal, na década de 90. Dominava uma máquina de escrever como uma instrumentista. Mas perdeu o emprego poucos anos mais tarde quando a disciplina saiu do currículo de ensino.

Quando a cadeira de dactylographia foi introduzida em Portugal, em 1847, prometia-se aos alunos que estariam “habilitados para a vida comercial e exercendo honrosos e lucrativos cargos no continente, ilhas, África e Brasil”. A verdade durou cerca de 150 anos.

Aula na escola de datilografia Remington, em 1922 – Reprodução

Serão os jornalistas as novas Manuelas ou Marias? Quem solicitar hoje a um algoritmo de aprendizado profundo como o ChatGPT que escreva sobre a apresentação no tribunal do ex-presidente Trump, no dia 4 de abril, poderá receber, em poucos segundos, todo o tipo de texto (mais opinativo, mais analítico, apenas factual), com nuances e expressões idiomáticas em diferentes línguas. A qualidade, sinceramente, não é inferior à dos artigos sobre o mesmo tema produzidos por seres humanos para a imprensa brasileira.

Há duas perspectivas sobre esse fenômeno. A primeira salienta, com razão, que a inteligência artificial (IA) utiliza uma base de dados preexistente e, por isso, é um agregador de informação, não um criador. Para escrever sobre Trump, o ChatGPT apoiou-se (sem respeitar direitos de autor) em milhares ou milhões de notícias publicadas sobre o tema. Ou seja, a IA depende da existência prévia de jornalistas que criem o conteúdo. Também se argumenta que a IA poderá ser uma ferramenta de assistência ao jornalista, facilitando a contextualização, ajudando-o a escrever mais rapidamente, simplificando o alinhamento de textos a manuais de Redação, tentando encontrar novos ângulos para tratar uma reportagem.

Despertamos para a IA com o ChatGPT em 2023, mas já em 2018 a Forbes tinha lançado o Bertie, uma plataforma de IA que aprende o estilo de escrita dos jornalistas, identifica os tópicos sobre os quais normalmente escrevem e fornece sugestões para melhorar a qualidade de uma notícia (estilo, conteúdo, dados, fotos) ou recomenda tópicos de tendências em tempo real para cobrir.

O ChatGPT concorda com essa perspectiva minimalista da transformação. Diz ele que “a IA é atualmente mais adequada para tarefas repetitivas e padronizadas, enquanto o jornalismo envolve habilidades humanas como o pensamento crítico, a investigação, a análise de dados, a entrevista, a contextualização e a tomada de decisões éticas”. A Manuela ou Maria sobreviveriam à virose da inteligência artificial.

A segunda perspectiva já preparou o seu funeral.

A tendência a curto prazo é que a inteligência artificial possa analisar e interpretar imagens e vídeos, entender o significado de áudios e escrever textos originais. As máquinas não sentem. Mas disporão de ilimitados recursos para coletar, avaliar e produzir informações, sem intervenção humana. Serão capazes de entrevistar em tempo real e de detectar incongruências ou novidades na informação emitida pelo entrevistado. Poderão também ser as máquinas a dar, literalmente, a cara pelo conteúdo que produzem.

Já em 2018, a agência de notícias chinesa Xinhua apresentou o seu primeiro âncora de TV criado por IA, uma espécie de William Bonner algorítmico que pode comandar telejornais por dias seguidos, sempre atualizado. Os jornalistas humanos, como produtores e apresentadores de conteúdo (hard news), serão como aparelhos de fax, internet discada, telefone fixo ou máquina de escrever.

"Robô" apresentador de telejornal criado por inteligência artificial na China

“Robô” apresentador de telejornal criado por inteligência artificial na China – Reprodução YouTube

Mas não será o fim do jornalismo. Renascerá em pelo menos duas dimensões.

A primeira é a da checagem. O jornalista será aquele que apura, confronta e compara informações originalmente produzidas por IA. Um gatekeeper. O ponto de partida poderão ser as atuais agências de apuração de dados, criadas para verificar a credibilidade de discursos políticos ou a veracidade de informações que circulam nas redes sociais. Desde o surgimento, em 2003, da primeira plataforma de checagem de informações, o FactCheck.org, emergiram no Brasil cerca de uma dezena de projetos semelhantes, incluindo o Mentirômetro, desta Folha.

No Brasil, a revista piauí também tem uma coordenação de checagem que apura meticulosamente todas as informações produzidas pelos próprios autores, um trabalho que vai muito além da edição de texto.

Já em 1913, o americano Ralph Pulitzer foi o primeiro a criar, no seu jornal, o extinto New York World, uma equipa interna de verificação de dados para garantir a fidedignidade das informações prestadas ao público. A verificação de informações não é uma atividade menor do jornalismo, mas um dos seus fundamentos.

Outra dimensão é a do jornalismo investigativo, aquele que pressupõe bastidores, análise lacaniana do significado e significante de cada palavra sussurrada, acesso a fontes de informação confiáveis e interpretação cognitiva de informações não públicas. Para celebrar o seu centenário, a Folha destacou 100 grandes “furos” de reportagem. Quase nenhum poderia ter sido dado por uma ferramenta de IA.

As redações emagrecerão e haverá redução significativa de custos, mas talvez a IA tenha o efeito secundário de estimular o jornalismo a voltar à sua missão primordial de apuração crítica da verdade.

Hoje muitos jornalistas, principalmente os mais jovens, fazem um trabalho industrializado e escassamente remunerado, guiados mais pela estatística de impacto do que pelo pensamento crítico.

O futuro do jornalismo talvez implique um retorno ao ofício de artesão, o de criar objetos por meio da transformação da matéria-prima usando as mãos, a inteligência e a sensibilidade como os principais instrumentos de trabalho.

*Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-tavares/2023/04/para-sobreviver-o-jornalismo-tera-de-olhar-para-tras.shtml

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Criptomoedas: o sonho do sistema monetário descentralizado está morrendo

Investigações federais sobre a Binance e a FTX colocam em evidência uma indústria cada vez mais centralizada


James Surowiecki – Fast Company Brasil – 06-04-2023 

Tem sido um período difícil, em termos legais, para as maiores exchanges de criptomoedas do mundo. O fundador da FTX, Sam Bankman-Fried, foi indiciado por várias acusações, incluindo fraude, depois que sua corretora colapsou em novembro do ano passado, levando bilhões em ativos de clientes com ela.

Em fevereiro, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) processou a Kraken por não registrar seu programa de staking – uma forma de obter renda passiva com investimentos em criptomoedas. A exchange rapidamente concordou em parar de oferecer o serviço e pagou uma multa de US$ 30 milhões para encerrar as acusações. 

Se uma exchange falir, os clientes não terão a quem recorrer.

No início de março, a Coinbase (que havia acabado de chegar a um acordo de US$ 100 milhões em um processo movido por reguladores de Nova York) informou que a SEC a enviou uma “Wells Notice”, que é, em essência, uma carta informando que uma ação de fiscalização pode estar a caminho.

Por fim, na segunda-feira (03 de abril), a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC) entrou com um processo contra a maior exchange do setor, a Binance, alegando uma ampla gama de violações dos regulamentos de commodities dos EUA.

CENTRALIZAÇÃO

A queixa de 74 páginas emitida pela CFTC descreve a corretora como uma empresa que descumpre a legislação sempre que possível. A comissão alega que a Binance violou os regulamentos de análise de clientes e de lavagem de dinheiro; solicitou que investidores norte-americanos negociassem em sua plataforma, apesar de nunca ter sido registrada nos EUA como exchange; e negociou em sua própria plataforma por meio de centenas de contas controladas pelo CEO da empresa, Changpeng Zhao.

É de se imaginar que todas essas notícias seriam ruins para os negócios. Mas o que realmente chama a atenção é que isso não parece ter feito muita diferença.

Como um editorial do CoinDesk recentemente colocou, as criptomoedas foram projetadas com “o objetivo de capacitar os indivíduos a controlar seus próprios destinos na era digital, sem depender das estruturas governamentais e corporativas”. No entanto, a maioria das transações agora ocorre em exchanges centralizadas, como a Binance, que são estruturas altamente corporativas.

Elas são as guardiãs dos ativos em criptomoedas. Executam negociações e operam a plataforma onde ocorrem. E, se você acredita na CFTC (ou olha para o que aconteceu com a FTX), em alguns casos, elas podem até estar do outro lado da negociação. Chamar essas empresas de “exchanges” é, na verdade, um equívoco. Na melhor das hipóteses, são corretoras e operadoras, tudo em um só lugar.

QUESTÃO DE CONFIANÇA

A criptomoeda foi criada para permitir que os usuários possam manter seus próprios ativos digitais em carteiras virtuais e negociar diretamente entre si em exchanges descentralizadas, com negociações registradas no blockchain.

No entanto, a maioria dos investidores e negociadores têm preferido as exchanges centralizadas. É fácil entender por quê. Elas são muito mais fáceis de usar para iniciantes. São os únicos lugares onde você pode trocar criptomoedas por dinheiro emitido por governos e bancos centrais, como o dólar, de forma confiável. E, como têm muitos clientes, é mais fácil encontrar um comprador ou vendedor e negociar a um preço justo.

a maioria das transações agora ocorre em exchanges centralizadas, que são estruturas altamente corporativas.

Como resultado, muitos investidores têm depositado sua confiança nessas empresas, acreditando que elas sempre executam transações com a melhor taxa, separam seus ativos dos da empresa, e que mantêm capital suficiente em caixa – apesar de serem pouco regulamentadas.

Além disso, como vimos com a FTX, se elas não estiverem fazendo tudo isso – ou se simplesmente administrarem mal seus negócios e acabarem falindo – você não terá como recorrer. O que, como também vimos com a FTX, é uma surpresa para muitos clientes.

Isso cria uma situação peculiar no universo das criptomoedas. A maioria dos investidores acaba confiando seus ativos a grandes corporações, que se parecem com instituições financeiras tradicionais, mas que têm muito menos supervisão e regulamentação.

É claro que a Binance e todas as outras exchanges insistem que estão fazendo negócios de forma honesta e que protegem os ativos de seus clientes. E talvez isso seja verdade. Mas a única garantia que temos é a palavra deles.


SOBRE O AUTOR

James Surowiecki é jornalista e escritor, autor de “A Sabedoria das Multidões”.

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Por que separar YouTube do Google e dividir a gigante resolveriam muitos problemas

Por Guilherme Ravache – Valor – 05/04/2023

À medida que governos do mundo inteiro avançam com leis para aumentar a regulação das “big techs” e criam mecanismos para que gigantes de tecnologia remunerem veículos de notícias, o Google ameaça retirar links de veículos de imprensa de suas plataformas se for obrigado a pagar para usar o conteúdo de notícias.

É o mesmo Google que há cerca de três anos anunciou que investiria US$ 1 bilhão para parcerias de apoio ao jornalismo e que fez acordos com veículos da Austrália, após uma lei pioneira sobre o tema ter entrado em vigor há dois anos. Sundar Pichai, CEO do Google, afirmou em 2020: “Sempre valorizei o jornalismo de qualidade e acreditei que uma indústria de notícias vibrante é fundamental para o funcionamento de uma sociedade democrática”.

Pichai em três anos deixou de acreditar na democracia ou os melhores dias do Google ficaram no passado e ele caminha para se tornar uma empresa decadente? A resposta é complexa e passa por problemas internos do Google, pelo estilo de gestão do CEO e até pela oportunidade de sensibilizar políticos.

Demissões, o fim da yoga e sushi de graça

Fato é que Google está ficando para trás. Ter sido ultrapassado pelo ChatGPT e a Microsoft na corrida da inteligência artificial é o mais recente exemplo deste novo cenário, mas não é um caso isolado.

Com o YouTube a história é semelhante, apesar da posição dominante no mercado, a plataforma de vídeos do Google começou a perder espaço para o TikTok. Neste ano, o YouTube trocou de CEO após reportar pela primeira vez na história ter uma contração em sua receita. No último trimestre de 2022, o faturamento de publicidade do YouTube ficou em US$ 7,96 bilhões, uma queda de 8% em relação aos US$ 8,63 bilhões do ano anterior.

Mas o problema vai além de resultados ruins. O Google, famoso por oferecer aulas de yoga e sushi de graça aos funcionários, agora está se notabilizando por demitir sem qualquer sensibilidade.

Após cortar 12 mil colaboradores em janeiro, ou 6% de sua força de trabalho, em março a companhia deu indicações aos ex-funcionários, que foram demitidos durante a licença maternidade e médica, que eles não seriam pagos por todo o tempo restante (o caso aconteceu nos EUA, onde a lei não exige, mas muitas empresas pagam).

Por sinal, a maneira que os cortes foram feitos no Google são um exemplo de como não fazer demissões. Com a falta de sensibilidade que está se tornando uma marca do Vale do Silício, milhares de pessoas foram comunicadas do desligamento por e-mail ou quando passaram seus crachás e não puderam entrar no escritório.

Nesta semana, o Google anunciou novos cortes de custos. Agora, irá restringir a troca de laptops, diminuir serviços oferecidos aos funcionários e cortará até suprimentos do escritório. Adeus grampeadores, esqueça os sushis e almoços de chefs badalados.

Crise ou jogo de cena

Mas não se deixe levar pelas notícias negativas. O que o Google vê como “crise”, na verdade significa crescer em ritmo mais lento. O Google (na verdade a Alphabet, holding que inclui o Google) gerou quase US$ 60 bilhões de lucro líquido em 2022, uma desaceleração em comparação aos US$ 76 bilhões de lucro líquido em 2021, quando todos estavam online com a pandemia.

O cenário é menos ruim se considerarmos que neste ano as ações do Google já subiram mais de 18% com a perspectiva de melhora em 2024. Afinal, a receita da empresa foi de US$ 279,8 bilhões no ano passado, quase R$ 1,4 trilhão (sim, trilhão) e deve subir neste ano.

Em um momento em que o Google está sendo pressionado no mundo inteiro por governos e órgãos reguladores para assumir as responsabilidades de ter o monopólio do mercado de mídia digital, se colocar em um cenário negativo é um trunfo para a gigante de tecnologia, mesmo que às custas de seus colaboradores.

É importante lembrar que o problema do Google não são as despesas, mas sim ter se tornado tão grande e poderoso que perdeu o rumo. Seguir crescendo sem limites é a meta final. Mas como qualquer investidor sabe, nenhuma árvore cresce até o céu.

Problemas profundos na empresa

Em junho de 2021, quando o Google batia recordes de faturamento e lucro, 15 executivos e ex-executivos do Google afirmaram em uma reportagem do “New York Times” que estavam preocupados com os rumos da companhia.

Um dos problemas apontados foi o estilo de liderança de Pichai, o afável e discreto CEO da empresa, que antes de entrar no Google trabalhou como consultor na McKinsey.

Para os executivos entrevistados, o Google estava sofrendo de muitas das armadilhas de uma empresa grande e madura — uma burocracia paralisante, um viés para a inação e uma fixação sobre como era percebido pelo público.

Os executivos, alguns dos quais interagiam regularmente com Pichai, disseram que o Google não agiu rapidamente nas principais mudanças de negócios e de pessoal porque ele (Pichai) refletiu sobre as decisões e adiou as ações. Eles disseram que o Google continuou a ser abalado por lutas culturais no local de trabalho e que as tentativas de Pichai de reduzir os conflitos tiveram o efeito oposto — permitiu que os problemas se agravassem enquanto ele evitava posições duras e às vezes impopulares.

Ou seja, a maneira esquizofrênica com que o Google trata o mercado de notícias, as demissões desordenadas e tantas ações conflitantes são apenas a face mais visível de um conjunto de fatores que criou um monopólio cada vez menos ineficiente, mas tão poderoso que não pode de fato ser desafiado pelos concorrentes.

ChatGPT por enquanto não oferece risco

Sim, o ChatGPT é um fenômeno, mas as chances da ferramenta roubar usuários do Google massivamente, e principalmente, faturar US$ 279,8 bilhões por ano com publicidade como a gigante de buscas, ainda é um cenário distante. O Google lançou o Bard, um concorrente do ChatGPT. Pode não ser tão bom quanto, mas tamanho e base de usuários resolvem (ou o Microsoft Teams não seria a plataforma líder do segmento).

Para os acionistas do Google há mais uma boa notícia, a solução para o problema já existe e foi usada diversas vezes no passado. O Google deveria ser dividido em várias novas empresas. Fazer isso é não correr o risco de virar uma nova GE, que depois de reunir tantos negócios se tornou tão ineficiente que colapsou.

Empresas menores são forçadas a se tornarem mais competitivas e criam novas oportunidades no mercado. O Waze é um exemplo. O aplicativo que revolucionou o mercado de navegação, hoje é tratado como puxadinho do Google Maps.

Hoje, o YouTube nem precisa se preocupar muito com eficiência, já que o Google tem domínio absoluto do mercado de publicidade e pode priorizar suas próprias plataformas. Entre colocar uma campanha no YouTube ou em um parceiro, o natural é que o Google beneficie seus próprios negócios.

Este é outro problema. As principais ferramentas de compra e venda de publicidade digital são do Google.

Raposa cuidando do galinheiro

A Comissão Europeia puniu o Google em 2017 com uma multa de US$ 2,8 bilhões por direcionar injustamente os visitantes para seu próprio serviço de compras, o Google Shopping, em detrimento dos concorrentes.

O Google também controla o Chrome e o Android, ou seja, controla o maior navegador do planeta e o sistema operacional mais popular do mundo. Então, quando uma empresa digital ouve: você tem de escapar do Google, a questão é: de que jeito? Já que a plataforma controla computadores e celulares.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos no início do ano abriu um processo buscando o desmembramento do negócio de compra e venda de publicidade digital do Google. O processo alega que o Google abusa do poder de monopólio na indústria de tecnologia de anúncios, prejudicando editores da web e anunciantes que tentam usar produtos concorrentes.

O próprio Google fica devendo em inovação em novos negócios. Nos recentes cortes, a Area 120, uma incubadora de novos negócios dentro do grupo, foi duramente afetada, com a maior parte do time desligado. Balões com internet, iniciativas em saúde, carros autônomos, foram projetos caros do Google, mas com poucos resultados financeiros práticos.

Surpreendentemente, a China parece estar à frente dos Estados Unidos neste sentido. Após pressão do governo o Alibaba, espécie de Google chinês, revelou na semana passada que iria ser dividido em seis empresas, com algumas inclusive sendo listadas. No dia do anúncio, as ações subiram mais de 14%. A avaliação geral é de que os problemas de regulação iriam diminuir e as chances do Alibaba voltar a inovar cresceriam.

Por que o YouTube deveria ser independente

O YouTube é um exemplo de negócio que deveria ser dividido. Mais consumido que a Netflix no Brasil, Estados Unidos e diversos países, no ano passado a plataforma de vídeos do Google faturou mais de US$ 29 bilhões. É apenas 10% do faturamento do Google, mas o mercado de publicidade em TV no mundo inteiro equivale a US$ 140 bilhões, segundo dados da Ampére.

Como apontou a “The Economist” no mês passado, o YouTube tem potencial para valer mais que a Netflix, hoje avaliada em US$ 154 bilhões.

O YouTube é um lembrete do tamanho do domínio do Google. Difícil para qualquer empresa (às exceções de Apple e Amazon) concorrerem com a plataforma. O YouTube gastará US$ 14 bilhões em sete anos apenas para ter o direito de transmitir jogos de futebol americano aos domingos.

Assim como o YouTube, diversos negócios do Google estão sendo subutilizados e deixaram de inovar, mas principalmente, impedem a sobrevivência de concorrentes e o surgimento de novos negócios. Dividir o Google seria um passo importante para o CEO da companhia voltar a defender o jornalismo de qualidade e uma indústria de notícias vibrante. Como Pichai mesmo disse, isso é fundamental para o funcionamento de uma sociedade democrática.

PS: Já participei de projetos de apoio ao jornalismo patrocinados por Google e Meta

Guilherme Ravache é consultor e atua em projetos de jornalismo digital no Brasil e exterior. Após passagens por grandes veículos de imprensa no país, atuou no marketing de empresas multinacionais. Nos últimos anos, especializou-se na cobertura do mercado de mídia

https://valor.globo.com/empresas/coluna/por-que-separar-youtube-do-google-e-dividir-a-gigante-resolveriam-muitos-problemas.ghtml

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Humanidade precisa dominar IA antes que ela nos domine

Em jogos como o xadrez, nenhum humano pode vencer um computador. O que acontece se a mesma coisa ocorrer na arte, na política e até na religião?

Yuval Harari Tristan Harris Aza Raskin* – Folha/The New York Times 28.mar.2023 

Imagine que, ao embarcar num avião, metade dos engenheiros que o construíram lhe diga que há 10% de chance de ele cair, matando você e todos os outros a bordo. Você ainda embarcaria?

Em 2022, mais de 700 acadêmicos e pesquisadores ligados às principais empresas de inteligência artificial foram entrevistados sobre o risco futuro da IA. A metade dos entrevistados afirmou que havia 10% ou mais de chance de extinção humana (ou perda de poder igualmente permanente e severa) por futuros sistemas de IA. As empresas de tecnologia que constroem os grandes modelos de linguagem de hoje estão envolvidas numa corrida para colocar toda a humanidade nesse avião.

As empresas farmacêuticas não podem vender novos medicamentos às pessoas sem antes submeterem seus produtos a rigorosas verificações de segurança. Os laboratórios de biotecnologia não podem lançar novos vírus na esfera pública para impressionar os acionistas com sua magia. Da mesma forma, os sistemas de IA com o poder do GPT-4 e além não devem se envolver na vida de bilhões de pessoas num ritmo mais rápido do que as culturas podem absorvê-los com segurança. Uma corrida para dominar o mercado não deve definir a velocidade de implantação da tecnologia mais importante da humanidade. Devemos nos movimentar na velocidade que nos permita fazer isso direito.

O espectro da IA assombra a humanidade desde meados do século 20, mas até recentemente permaneceu uma perspectiva distante, algo que pertence mais à ficção científica do que a sérios debates científicos e políticos. É difícil para nossa mente humana compreender as novas capacidades do GPT-4 e ferramentas semelhantes, e é ainda mais difícil compreender a velocidade exponencial em que essas ferramentas estão desenvolvendo capacidades ainda mais avançadas e poderosas. Mas a maioria das habilidades-chave se resume a uma coisa: a capacidade de manipular e gerar linguagem, seja com palavras, sons ou imagens.

“No princípio era o verbo.” A linguagem é o sistema operacional da cultura humana. Da linguagem emergem mitos e leis, deuses e dinheiro, arte e ciência, amizades e nações –até mesmo códigos de computador. O novo domínio da linguagem da IA significa que agora ela pode hackear e manipular o sistema operacional da civilização. Ao obter o domínio da linguagem, a IA está apreendendo a chave mestra da civilização, de cofres de banco a sepulcros sagrados.

O que significaria para os humanos viver num mundo em que uma grande porcentagem de histórias, melodias, imagens, leis, políticas e ferramentas são moldadas por uma inteligência não humana, que sabe explorar com eficiência sobre-humana as fraquezas, preconceitos e vícios da mente humana –enquanto também sabe formar relacionamentos íntimos com os seres humanos? Em jogos como o xadrez, nenhum humano pode esperar vencer um computador. O que acontece quando a mesma coisa ocorre na arte, na política e até na religião?

A IA poderia consumir rapidamente toda a cultura humana –tudo o que produzimos ao longo de milhares de anos–, digeri-la e começar a produzir uma enxurrada de novos artefatos culturais. Não apenas redações escolares, mas também discursos políticos, manifestos ideológicos e até livros sagrados para novos cultos. Em 2028, a corrida presidencial dos Estados Unidos poderá não mais ser conduzida por humanos.

Os humanos muitas vezes não têm acesso direto à realidade. Somos encapsulados pela cultura, experimentando a realidade através de um prisma cultural. Nossas visões políticas são moldadas por relatos de jornalistas e anedotas de amigos. Nossas preferências sexuais são ajustadas pela arte e pela religião. Esse casulo cultural foi até agora tecido por outros humanos. Como será vivenciar a realidade através de um prisma produzido por uma inteligência não humana?

Há milhares de anos, nós, humanos, vivemos dentro dos sonhos de outros humanos. Adoramos deuses, perseguimos ideais de beleza e dedicamos nossas vidas a causas que se originaram na imaginação de algum profeta, poeta ou político. Em breve, também nos encontraremos vivendo dentro das alucinações da inteligência não-humana.

A franquia “Exterminador do Futuro” mostrava robôs correndo pelas ruas e atirando nas pessoas. “Matrix” supunha que, para ter o controle total da sociedade humana, a IA teria que primeiro obter o controle físico de nossos cérebros e conectá-los diretamente a uma rede de computadores. Na verdade, porém, simplesmente por dominar a linguagem, a IA teria tudo de que precisa para nos conter num mundo de ilusões semelhante a Matrix, sem atirar em ninguém ou implantar chips em nossos cérebros. Se algum tiro for necessário, a IA pode fazer os humanos puxarem o gatilho, apenas nos contando a história certa.

O espectro de estar preso num mundo de ilusões assombra a humanidade há muito mais tempo do que o espectro da IA. Logo estaremos finalmente cara a cara com o demônio de Descartes, com a caverna de Platão, com a Maya budista. Uma cortina de ilusões pode descer sobre toda a humanidade, e talvez nunca mais possamos arrancá-la –ou mesmo perceber que ela está lá.

A rede social foi o “primeiro contato” entre a IA e a humanidade, e a humanidade perdeu. O “primeiro contato” nos deu o gosto amargo do que está por vir. Nas redes sociais, a IA primitiva foi usada não para criar conteúdo, mas para selecionar conteúdo gerado por usuários. A IA por trás de nossos feeds de notícias continua escolhendo quais palavras, sons e imagens atingem nossas retinas e tímpanos, com base na seleção daquelas que terão mais viralidade, mais reação e mais engajamento.

Embora muito primitiva, a IA por trás da rede social foi suficiente para criar uma cortina de ilusões que aumentou a polarização social, minou nossa saúde mental e destruiu a democracia. Milhões de pessoas confundiram essas ilusões com a realidade. Os Estados Unidos têm a melhor tecnologia de informação da história, mas os cidadãos americanos não podem mais concordar sobre quem ganhou as eleições. Embora todos já estejam cientes do lado negativo da rede social, ele não foi abordado, porque muitas de nossas instituições sociais, econômicas e políticas se envolveram com ele.

Modelos de linguagem grandes são nosso “segundo contato” com a IA. Não podemos nos dar ao luxo de perder novamente. Mas com base em quê devemos acreditar que a humanidade é capaz de usar essas novas formas de IA em nosso benefício? Se continuarmos como sempre, as novas capacidades da IA serão mais uma vez usadas para obter lucro e poder, mesmo que inadvertidamente destruam os fundamentos de nossa sociedade.

A IA realmente tem o potencial de nos ajudar a derrotar o câncer, descobrir medicamentos que salvam vidas e inventar soluções para nossas crises climáticas e energéticas. Existem inúmeros outros benefícios que nem podemos imaginar. Mas não importa a altura do arranha-céu de benefícios que a IA possa acumular se o alicerce desmoronar.

A hora de contar com a IA é antes que nossa política, nossa economia e nossa vida diária se tornem dependentes dela. A democracia é uma conversa, a conversa depende da linguagem e, quando a própria linguagem é hackeada, a conversa é interrompida e a democracia se torna insustentável. Se esperarmos que o caos se instale, será tarde demais para remediá-lo.

Mas há uma pergunta que pode pairar em nossa mente: “Se não formos o mais rápido possível, o Ocidente não correrá o risco de perder para a China?” Não. A implantação e o entrosamento descontrolado da IA na sociedade, libertando poderes semidivinos dissociados de responsabilidade, poderão ser de fato a razão que leve o Ocidente a perder para a China.

Ainda podemos escolher qual futuro queremos com a IA. Quando poderes semidivinos são combinados com responsabilidade e controle proporcionais, podemos perceber os benefícios que a IA promete.

Nós convocamos uma inteligência alienígena. Não sabemos muito sobre ela, exceto que é extremamente poderosa, nos oferece presentes maravilhosos, mas também poderia sabotar as bases de nossa civilização. Conclamamos os líderes mundiais a reagirem a este momento no nível do desafio que ele representa. O primeiro passo é ganhar tempo para atualizar nossas instituições do século 19 para um mundo pós-IA e aprender a dominar a IA antes que ela nos domine.

Harari é historiador e fundador da empresa de impacto social Sapienship. Harris e Raskin são os fundadores do Centro para Tecnologia Humana. Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2023/03/humanidade-precisa-dominar-ia-antes-que-ela-nos-domine.shtml?_gl=1*vsf5fu*_ga*MTg1ODI2MDEzNy4xNjYyNTAxMzY5*_ga_RY1LTN28TR*MTY4MDA1MzM0Ny4zMjYuMS4xNjgwMDUzNTY4LjU4LjAuMA..

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Com falta de profissionais de saúde, Alemanha cria robôs para cuidar de idosos

Batizado de Garmi, o aparelho usa tecnologias avançadas como robótica, TI e tecnologia 3D aplicadas para geriatria, gerontologia e enfermagem

Por O Globo/AFP — Berlim – 19/03/2023 

O humanoide de cor branca “Garmi” não parece muito diferente de um robô típico – ele fica em uma plataforma com rodas e é equipado com uma tela preta na qual dois círculos azuis atuam como os olhos estão ligados.

Mas o médico alemão aposentado Guenter Steinebach, 78 anos, disse:

— Para mim, este robô é um sonho.

A Garmi não só é capaz de realizar diagnósticos em pacientes, como também pode fornecer cuidados e tratamento para eles. Ou pelo menos, esse é o plano. Garmi é um produto de um novo setor chamado geriatrônica, uma disciplina que explora tecnologias avançadas como robótica, TI e tecnologia 3D para geriatria, gerontologia e enfermagem.

Cerca de uma dúzia de cientistas construíram o Garmi com a ajuda de médicos como Steinebach no Instituto de Robótica e Inteligência de Máquinas de Munique.

País enfrenta falta de profissionais de saúde

Parte da Universidade Técnica de Munique, o instituto estabeleceu sua unidade especializada em geriatrônica em Garmisch-Partenkirchen, uma estação de esqui que abriga uma das maiores proporções de idosos da Alemanha. O país mais populoso da Europa é, ele próprio, uma das sociedades que mais envelhecem no mundo.

Com o número de pessoas que precisam de cuidados crescendo rapidamente e cerca de 670.000 postos de cuidadores não preenchidos na Alemanha até 2050, os pesquisadores estão correndo para conceber robôs que possam assumir algumas das tarefas realizadas hoje por enfermeiras, cuidadores e médicos.

— Temos caixas eletrônicos onde podemos sacar dinheiro hoje. Podemos imaginar que um dia, com base no mesmo modelo, as pessoas possam fazer seus exames médicos em uma espécie de centro tecnológico — disse Abdeldjallil Naceri, de 43 anos, principal cientista do laboratório.

Os médicos poderiam então avaliar os resultados do diagnóstico do robô à distância, algo que poderia ser particularmente valioso para pessoas que vivem em comunidades remotas.

Alternativamente, a máquina poderia oferecer um serviço mais personalizado em casa ou em uma casa de repouso – servindo refeições, abrindo uma garrafa de água, pedindo ajuda em caso de queda ou organizando uma videochamada com familiares e amigos.

‘Precisamos chegar lá’

No laboratório Garmisch, Steinebach sentou-se a uma mesa equipada com três telas e um joystick enquanto se preparava para testar o progresso do robô. Do outro lado da sala, um pesquisador designado como modelo de teste ocupou seu lugar em frente a Garmi, que coloca um estetoscópio em seu peito — ação dirigida por Steinebach à distância por meio do controle remoto. Os dados médicos aparecem imediatamente na tela do médico.

— Imagine se eu tivesse isso quando comecei — disse Steinebach, enquanto movia o joystick.

Além do médico aposentado, outros profissionais de saúde também visitam o laboratório regularmente para oferecer suas ideias e feedback sobre o robô.

— É como uma criança de três anos. Temos que ensinar tudo — disse Naceri.

Ninguém sabe quando o Garmi estará pronto em escala comercial. Mas Naceri está convencido de que “temos que chegar lá, as estatísticas são claras de que é urgente”.

— A partir de 2030, devemos ser capazes de integrar esse tipo de tecnologia em nossa sociedade — afirmou Naceri.

Questão de confiança

E se for realmente implantado um dia, os residentes da casa de repouso Sankt Vinzenz em Garmisch, um parceiro do projeto, provavelmente verão Garmi pelos corredores. Só de pensar nisso, a senhora Rohrer, uma moradora de 74 anos da casa, sorriu.

— Existem coisas que um robô pode fazer, por exemplo, servir uma bebida ou trazer refeições — disse ela enquanto Eva Pioskowik, a diretora da casa, fazia suas unhas.

Pioskowik, que luta diariamente contra a falta de pessoal, disse que não esperava que o robô tomasse o lugar dos profissionais de saúde.

— Mas isso pode permitir que nossa equipe passe um pouco mais de tempo com os residentes — disse ela.

Para a equipe de Naceri, um dos grandes desafios não é tecnológico, médico ou financeiro. Em vez disso, resta saber se a maioria dos pacientes aceitará o robô.

— Eles precisam confiar no robô — disse ele. — Eles precisam ser capazes de usá-lo como usamos um smartphone hoje.

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MetaHumanos, a fascinante e assustadora nova tecnologia da Epic Games

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Burt Helm – Fast Company Brasil 31-03-2023

Durante a apresentação da Epic Games na Game Developers Conference, um dos maiores eventos de jogos e tecnologia do mundo, em São Francisco, a atriz alemã Melina Juergen subiu ao palco e franziu a testa, como se estivesse com raiva. Isso causou agitação entre o público de desenvolvedores no Yerba Buena Center, e em toda a internet, quando milhões de usuários assistiram ao vídeo em seus feeds.

Toda a comoção em torno de sua expressão, no entanto, tinha a ver com o que estava sendo apresentado. Juergen, conhecida por interpretar Senua na série de videogames Hellblade, estava ajudando a Epic Games a demonstrar uma nova tecnologia, atualmente disponível em versão beta privada e com lançamento previsto para o terceiro trimestre.

Chamada MetaHuman Animator, ela pode pegar um vídeo bruto de um iPhone e criar um modelo tridimensional de um rosto, capaz de rir e expressar medo e raiva. Mas também pode prever todas as outras expressões faciais, com uma precisão perturbadora. O modelo pode ser usado para dar vida ao avatar de um jogador humano ou a um NPC (personagem não jogável) controlado por IA. Ou mesmo vários deles.

Na conferência, a Epic Games revelou uma série de avanços. Mas o MetaHuman Animator foi o centro das atenções. Para demonstrar a tecnologia, os executivos convidaram Juergen para subir ao palco.

Ela então começou a fazer várias expressões – primeiro fez cara de medo, depois de raiva e, por fim, um olhar confuso e melancólico. Acima, em um telão enorme, o público assistia a uma projeção da interface do aplicativo no iPhone enquanto registrava suas expressões.

Em questão de segundos, converteu seu rosto em uma máscara cinza de polígonos.

Depois de mexer um pouco no aplicativo, o vice-presidente de tecnologia humana digital da Epic Games (que nome incrível para um cargo!) revelou o resultado: uma cópia virtual de Juergen, incrivelmente detalhada e com a iluminação própria de um estúdio. Então, demonstrou como poderia aplicar as expressões a uma variedade de personagens diferentes – não apenas a um modelado a partir dela.

A tecnologia será uma benção para cineastas independentes e desenvolvedores de jogos, ou para qualquer pessoa com muita imaginação, mas que não têm os recursos para contratar atores em trajes de captura de movimento.

Hoje, para criar personagens em CGI de forma rápida e barata, é necessário sacrificar a qualidade – nada de movimentos fluidos ou olhares expressivos. No palco, a versão digital da atriz tinha olhos que pareciam vivos e seus músculos faciais se moviam. Esses personagens de IA podem permitir que criadores com orçamentos limitados atinjam níveis de realismo antes restritos a sucessos de bilheteria.

Mas a demonstração também provocou frio na barriga em alguns espectadores. Não por seu hiperrealismo, mas pela forma, rapidez e a facilidade com que foi criada. Pasme! Um ser humano realista, criado em menos de um minuto usando um modelo de iPhone de três anos atrás!

Já vimos esse filme antes.

Desenvolvedores inventam algo revolucionário, tornam-no rápido e gratuito e sua criação se espalha pelo mundo. Os usuários então começam a usá-lo de novas formas, por vezes com más intenções. E os algoritmos elevam esses usos a níveis anteriormente inimagináveis. 

Basta relembrar alguns casos recentes: uma rede social foi criada e, 10 anos depois, estava sendo usada para alimentar conflitos em Mianmar. Algoritmos de sugestão de vídeo em plataformas de streaming estão incitando ideologias e discursos fascistas. O tempo que leva para uma tecnologia ser totalmente deturpada está ficando cada vez mais curto.

Portanto, mesmo que a nova ferramenta de animação hiperrealista da Epic Games abra portas para novas formas de criatividade, também há a possibilidade muito real de que jogos gratuitos que utilizam inteligência artificial e seus metamundos, em breve, sejam distorcidos e corrompidos. 

Talvez, no futuro, os usuários de aplicativos como o MetaHuman espalhem diferentes versões de humanos falsos pelo metaverso, criando um exército de spams que aplicam golpes ou propagam o ódio.

E é bem possível que apenas adolescentes descolados sejam capazes de distinguir os humanos reais dos falsos. O resto de nós não saberá se estamos realmente fazendo uma chamada de vídeo com nossos netos ou se estamos conversando com um chatbot.

Isso é o suficiente para deixar qualquer um deprimido. Mas não se preocupe, em breve, seu metahumano poderá ser capaz de sorrir por vocês dois.

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