Por que a política industrial está de volta

Ricardo Hausmann – project-syndicate Jan 26, 2023 

CAMBRIDGE – Após décadas relegada às margens do pensamento econômico, a política industrial está ensaiando um retorno. Com mais países implementando medidas para apoiar determinados setores e estabelecer outros novos, o renascimento da política industrial foi um tópico importante na reunião deste ano do Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Os US$ 280 bilhões dos EUA para a Lei CHIPS and Science são um exemplo desse argumento. A nova legislação busca expandir o setor de semicondutores americano, a fim de diminuir a dependência do país da China e assegurar sua supremacia tecnológica. De modo parecido, a enganosamente chamada Lei de Redução da Inflação (Inflation Reduction Act – IRA) dispõe de US$ 370 bilhões em subsídios à transição energética. Os países da União Europeia, em pé de guerra com a discriminação dos programas americanos contra fornecedores estrangeiros e com a violação de normas internacionais e da UE que proíbem subsídios estatais específicos para um setor, planejam responder aliviando suas próprias regras de subsídios. Enquanto isso, um terço do € 1,8 trilhão (US$ 2 trilhões) em financiamento de investimentos no Plano de Recuperação NextGenerationEU financiará o Green Deal Europeu, introduzido em 2019 para ajudar países-membros a investir em projetos de energia limpa.  E a tendência não se resume aos países ocidentais: a Indonésia impôs um veto às exportações de minério de níquel para promover seu setor de baterias de veículos elétricos. Taís políticas econômicas existem desde a aurora da Revolução Industrial. Nas últimas décadas, contudo, economistas têm questionado a utilidade delas. 

Governos não deviam escolher vencedores, diz o argumento, mas sim deixar o mercado alocar recursos entre setores de modo a refletir as preferências do consumidor e as possibilidades tecnológicas. Pela mesma lógica, legisladores deveriam intervir no mercado somente quando tiverem informação o bastante para concluir que alguma externalidade está fazendo o mercado funcionar mal. E mesmo assim, diriam os detratores, governos podem piorar as coisas somando seus próprios fracassos – por exemplo, o sequestro de políticas econômicas por atores em busca de lucro – àqueles do mercado. Com a revolução Reagan-Thatcher e a emergência do chamado Consenso de Washington na década de 80, esses argumentos se tornaram consagrados em uma nova ortodoxia. Contudo, desde então teóricos econômicos têm passado a reconhecer o valor de políticas industriais. Hoje sabemos que há muitos casos em que a intervenção do governo se justifica. A pergunta, portanto, não é se políticas industriais deviam existir, mas como devem ser administradas. 

Por exemplo, aprender fazendo era visto como um fenômeno grande e importante que exigia intervenções na política econômica muito antes dos economistas se atinarem a isso. Há farta evidência de que muitas empresas e setores melhoram ao longo do tempo à medida que acumulam experiência de produção. Em 1936, o engenheiro aeronáutico Theodore Wright formulou o que hoje é conhecido como Lei de Wright, que estabelece que os custos caem de modo exponencial com o acúmulo da produção. Durante a Segunda Guerra Mundial, o exército dos EUA usou essa lei em seus contratos de aquisição para se beneficiar da economia de custos. A ideia, porém, só apareceu na economia com um artigo de Kenneth Arrow publicado em 1962. Desde então, ela foi usada para justificar proteção a setores nascentes, compromissos de mercado avançados e subsídios como aqueles incluídos na IRA.

Poder de mercado é outra imperfeição que exige intervenção pública. Para esse fim, a Lei CHIPS permite aos EUA combater o domínio chinês. O receio é que a China possa usar esse domínio como uma arma econômica, do mesmo modo que os EUA usam seu domínio do sistema financeiro e de certas tecnologias para sancionar outros países. A Lei CHIPS busca reduzir a vulnerabilidade da economia americana à pressão chinesa.

Todas essas intervenções têm a ver com interferir nos preços de mercado para tornar certos setores, como os de semicondutores ou energia renovável, mais lucrativos e, portanto, maiores do que seriam sem elas. Mas outra forma de intervenção governamental diz respeito à complementaridade entre bens públicos e privados. Por exemplo, carros exigem estradas, semáforos, regras de condução e policiais. Trens precisam de trilhos e estações. Veículos elétricos exigem estações de recarga amplamente disponíveis. E todos os setores dependem de trabalhadores com capacitações específicas. Esses insumos são afetados de modo explícito e implícito pelas políticas econômicas dos governos, que são essenciais para criar as condições adequadas para o crescimento e a prosperidade amplamente compartilhada. O único jeito de os governos conseguirem fornecer a combinação certa de bens públicos é se envolver com o maior número de setores possível. 

Políticas industriais não têm a ver com escolher vencedores, mas com garantir que a oferta de bens públicos melhore a produtividade o máximo possível. Como não podem contar com a mão invisível do mercado para coordenar as ações de milhares de agências públicas e os efeitos de milhões de páginas de legislação, governos têm de estar embutidos e comprometidos. Por isso é que, nos países democráticos, há tantas câmaras de comércio e grupos lobistas tentando influenciar o fornecimento de bens públicos de maneiras que ampliem as oportunidades para criação de valor de seus setores. Sem dúvida, esses grupos também podem se envolver em busca de lucro, mas a competição democrática é capaz de manter tal comportamento longe. Nada disso significa que todo governo deveria imitar as políticas caras que parecem estar na moda nesses dias. Legisladores deveriam focar nos problemas atuais de seus países e escolher as soluções mais apropriadas. 

Copiar as soluções de outros países para problemas que não se tem, ou focar em temas do momento que não são realmente importantes, é uma receita para a ineficácia, se não para um desastre. Por exemplo, diversificar para novos setores – um objetivo-chave em muitos países – requer identificar os bens públicos de que esses setores precisam e ajudá-los com o processo de aprendizagem. À medida que a descarbonização leva à emergência de novos mercados e setores, governos vêm tentando entender como ser parte da transição verde

Outros países podem querer diminuir as desigualdades regionais, integrar suas universidades em um vibrante ecossistema de inovação ou acelerar o desenvolvimento abordando falhas antigas no fornecimento de insumos cruciais como eletricidade, água, mobilidade, capacitação e serviços digitais. Para enfrentar esses desafios, governos precisam ter acesso a todas as ferramentas de política econômica que possam ajudá-los a encontrar soluções. Descartar essas ferramentas como “política industrial”, como alguns costumam fazer, não faz delas menos necessárias. Tradução por Fabrício Calado Moreira

Ricardo Hausmann

Ricardo Hausmann, a former minister of planning of Venezuela and former chief economist at the Inter-American Development Bank, is a professor at Harvard’s John F. Kennedy School of Government and Director of the Harvard Growth Lab.

https://www.project-syndicate.org/commentary/why-economists-have-rediscovered-industrial-policy-by-ricardo-hausmann-2023-01/portuguese?barrier=accesspaylog

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Google entra em pânico com a possibilidade da Samsung adotar o Bing como buscador padrão

Por Nico Grant – Estadão/NYT – 18/04/2023

As mudanças começaram após a Samsung dizer que considera substituir o Google pelo Bing

THE NEW YORK TIMESEm março, funcionários do Google ficaram chocados quando souberam que a Samsung estava considerando substituir o Google pelo Bing da Microsoft como mecanismo de busca padrão em seus dispositivos. Por anos, o Bing foi um mecanismo de busca em segundo plano. Mas se tornou muito mais interessante para os especialistas do setor quando adicionou recentemente nova tecnologia de inteligência artificial (IA).

A reação do Google à ameaça da Samsung foi “pânico”, de acordo com mensagens internas revisadas pelo New York Times. Um valor estimado de US$ 3 bilhões em receita anual estava em jogo com o contrato da Samsung. Um adicional de US$ 20 bilhões está vinculado a um contrato semelhante da Apple, que será renovado este ano.

Competidores turbinados por IA, como o novo Bing, estão se tornando rapidamente a ameaça mais séria ao negócio de busca do Google em 25 anos, e em resposta, o Google está correndo para construir um novo mecanismo de busca totalmente novo. Ele também está atualizando a ferramenta atual com recursos de IA, de acordo com documentos internos revisados pelo The New York Times.

As novas funcionalidades, sob o nome de projeto Magi, estão sendo criadas por designers, engenheiros e executivos que trabalham em salas de sprint para ajustar e testar as últimas versões. O novo mecanismo de busca ofereceria aos usuários uma experiência muito mais personalizada do que o serviço atual da empresa, tentando antecipar as necessidades dos usuários.

Lara Levin, porta-voz do Google, afirmou em um comunicado que “nem todas as ideias de produto ou conceitos de brainstorming levam a um lançamento, mas, como já dissemos antes, estamos animados em trazer novas funcionalidades alimentadas por IA para a busca e compartilharemos mais detalhes em breve”.

Bilhões de pessoas usam o mecanismo de busca do Google todos os dias para encontrar desde restaurantes e direções até entender um diagnóstico médico – essa simples página branca com o logo da empresa e uma barra vazia no meio é uma das páginas mais usadas no mundo. Mudanças nela teriam um impacto significativo na vida das pessoas comuns, e até recentemente, era difícil imaginar qualquer coisa desafiando-a.

O Google tem se preocupado com concorrentes alimentados por IA desde que a OpenAI, startup de São Francisco que trabalha com a Microsoft, apresentou o ChatGPT em novembro. Cerca de duas semanas depois, o Google criou uma força-tarefa em sua divisão de busca para começar a construir produtos de IA, disseram duas pessoas com conhecimento dos esforços, que não foram autorizadas a discuti-los publicamente.

Modernizar seu mecanismo de busca se tornou uma obsessão no Google, e as mudanças planejadas podem colocar novas tecnologias de IA em telefones e casas em todo o mundo.

A ameaça da Samsung representou a primeira rachadura potencial nos negócios de busca aparentemente invulneráveis do Google, que valiam US$ 162 bilhões no ano passado. Embora não estivesse claro se o trabalho da Microsoft com IA era a principal razão pela qual a Samsung estava considerando uma mudança depois dos últimos 12 anos, essa foi a suposição dentro do Google. O contrato está em negociação e a Samsung pode continuar com o Google.

Mas a ideia de que a Samsung, que fabrica centenas de milhares de smartphones com Android (do Google) todos os anos, sequer consideraria a troca de mecanismos de busca chocou os funcionários do Google. Depois que alguns trabalhadores foram informados de que a empresa estava procurando voluntários neste mês para ajudar a reunir material para uma apresentação à Samsung, eles reagiram com emoji e surpresa. “Uau, OK, isso é louco”, respondeu uma pessoa.

Um porta-voz do Google disse que a empresa está continuamente melhorando seu mecanismo de busca para dar aos usuários e parceiros mais motivos para escolher o Google, e que os fabricantes de telefones Android são livres para adotar tecnologias de diferentes empresas para melhorar a experiência de seus usuários.

Samsung e Microsoft se recusaram a comentar.

A busca do Google por IA

O Google tem feito pesquisas em inteligência artificial há anos. Seu laboratório DeepMind em Londres é considerado um dos melhores centros de pesquisa em IA do mundo, e a empresa tem sido pioneira em projetos de IA, como carros autônomos e os chamados modelos amplos de linguagem (LLM), que são usados no desenvolvimento de chatbots.

Nos últimos anos, o Google tem utilizado LLMs para melhorar a qualidade dos seus resultados de busca, mas tem evitado adotar completamente a IA porque ela é propensa a gerar declarações falsas e tendenciosas.

Agora, a prioridade é vencer a próxima grande corrida da indústria. No mês passado, o Google lançou seu próprio chatbot, Bard, mas a tecnologia recebeu críticas.

Os planos para o novo mecanismo de pesquisa, que demonstram as ambições do Google em reimaginar a experiência de pesquisa, ainda estão em estágios iniciais, sem cronograma claro para quando lançará a nova tecnologia de pesquisa.

O sistema aprenderia o que os usuários querem saber com base no que estão pesquisando quando começam a usá-lo. E ofereceria listas de opções pré-selecionadas para objetos para comprar, informações para pesquisar e outras informações. Também seria mais conversacional – um pouco como conversar com uma pessoa prestativa.

Conheça o Magi, do Google

Mas muito antes de o mecanismo de pesquisa ser reconstruído, o Magi adicionará recursos ao mecanismo de pesquisa existente, de acordo com documentos internos. O Google tem mais de 160 pessoas trabalhando em tempo integral nele, disse uma pessoa com conhecimento do trabalho.

O Magi manteria anúncios misturados aos resultados da pesquisa. Consultas de pesquisa que poderiam levar a uma transação financeira, como comprar sapatos ou reservar um voo, por exemplo, ainda apresentariam anúncios em suas páginas de resultados.

Isso é importante para o Google, uma vez que os anúncios de pesquisa são a principal forma de obter receita. O Bard não apresenta anúncios, e há uma expectativa na indústria de tecnologia de que as respostas de IA em mecanismos de pesquisa possam tornar os anúncios menos relevantes para os usuários.

As adições de pesquisa planejadas também podem responder perguntas sobre codificação de software e escrever código com base no pedido do usuário. O Google pode colocar um anúncio sob as respostas de código de computador, de acordo com um documento.

Na semana passada, o Google convidou alguns funcionários para testar os recursos do Magi e os encorajou a fazer perguntas de acompanhamento ao mecanismo de busca para avaliar sua capacidade de manter uma conversa. Espera-se que o Google lance as ferramentas ao público no próximo mês e adicione mais recursos no outono, de acordo com o documento de planejamento.

A empresa planeja lançar inicialmente os recursos para um máximo de 1 milhão de pessoas. Esse número deve aumentar progressivamente para 30 milhões até o final do ano. Os recursos estarão disponíveis exclusivamente nos EUA.

Outros produtos com IA

O Google também explorou possibilidades para permitir que as pessoas usem a tecnologia de mapeamento do Google Earth com ajuda da IA e procurem música por meio de uma conversa com um chatbot, escreveu um diretor do Google em um documento. Outras ideias de produtos estão em vários estágios de desenvolvimento. Uma ferramenta chamada GIFI usaria a IA para gerar imagens nos resultados de imagens do Google.

Outra ferramenta, Tivoli Tutor, ensinaria aos usuários um novo idioma por meio de conversas de texto aberto com a IA. Outro produto, o Searchalong, permitiria que os usuários fizessem perguntas a um chatbot enquanto navegam na web pelo navegador Chrome do Google. As pessoas poderiam perguntar ao chatbot sobre atividades próximas a um aluguel do Airbnb, por exemplo, e a IA analisaria a página e o resto da internet em busca de uma resposta.

Jim Lecinski, ex-vice-presidente de vendas e serviços do Google, disse que a empresa foi provocada à ação e agora precisa convencer os usuários de que é tão “poderosa, competente e contemporânea” quanto seus concorrentes. “Se somos o principal mecanismo de busca e esta é uma nova atribuição, um novo recurso, uma nova característica dos mecanismos de busca, queremos ter certeza de que estamos nessa corrida também”, disse Lecinski, professor de marketing na Northwestern University, em uma entrevista. /TRADUÇÃO DE ALICE LABATE

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Reciclagem, coprocessamento e economia circular: um caminho sem volta

É urgente aplicar os princípios da economia circular de ponta a ponta em toda a cadeia produtiva

Simon Sinek: para o antropólogo, o objetivo não é fazer negócios com alguém que apenas quer o que você tem, mas com pessoas que acreditam no que você acredita (TED/Divulgação)

Simon Sinek: para o antropólogo, o objetivo não é fazer negócios com alguém que apenas quer o que você tem, mas com pessoas que acreditam no que você acredita (TED/Divulgação)

Enrico Milani, colunista Exame – Publicado em 14 de abril de 2023

Na indústria como um todo, atingimos um patamar no qual é inviável não pensarmos mais em alternativas como reciclagem e coprocessamento quando o assunto são os resíduos. Não podemos mais produzir da mesma forma que fazíamos décadas atrás.

Quais são os desafios da economia circular na indústria?

Falando especificamente do setor em que atuo, a indústria de alimentos, é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que é essencial para a sociedade, gera muitos resíduos, especialmente quanto aos efluentes industriais – biológicos e químicos – além dos resíduos sólidos.

Segundo o estudo “Cidades e Economia Circular dos Alimentos”, da Fundação Ellen MacArthur, precisamos superar o chamado sistema moderno linear de produção de alimentos, conhecido pela extração de recursos finitos, desperdício e poluição, prejudicial ao meio ambiente.

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Getnet retira 4.3 milhões de peças de plástico nas bobinas de papel

O levantamento aponta que, de modo geral, para cada dólar gasto em alimentos, pagamos dois dólares em custos ambientais, econômicos e de saúde. Metade desse montante – cerca de US$ 5,7 trilhões anuais – está relacionado à maneira como os alimentos são produzidos.

A pesquisa também traz o dado de que o setor agroalimentar responde, globalmente, por quase um quarto das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e que o equivalente a seis caminhões de lixo de alimentos próprios para o consumo são perdidos ou desperdiçados a cada segundo. Ainda, nas cidades, menos de 2% dos nutrientes biológicos de coprodutos e resíduos orgânicos, excluído o esterco, são compostados, valorizados ou reaproveitados de outra forma.

Diante desse cenário, é urgente fazermos da produção de alimentos um processo pautado pela economia circular, sendo necessário pensarmos em ações de ponta a ponta da cadeia. Para os resíduos orgânicos, as possibilidades de destinação vão além da compostagem e incluem o reaproveitamento em biodigestores, capazes de transformar lixo em energia, que pode ser utilizada na própria indústria ou na comunidade.

Resíduos como plásticos, papéis, vidros e metais, por sua vez, são enviados para a reciclagem, em parcerias com cooperativas, fomentando a economia sustentável. Já o coprocessamento é o destino do que não tem como ser encaminhado para biodigestores ou reciclagem, tornando-se combustível para cimenteiras.

Contudo, não devemos pensar apenas em soluções para o pós-produção. Evitar o uso excessivo de açúcares, gorduras e aditivos – como os conservantes, corantes, emulsificantes, etc. – também reflete positivamente na sustentabilidade, já que é comprovado que os alimentos ultraprocessados causam impactos negativos não apenas na saúde de quem os consome, mas também no meio ambiente.

Adquirir insumos da agricultura familiar e de produtores orgânicos é outro caminho para a indústria de alimentos. Afinal, como pontua Simon Sinek em Comece pelo porquê: como grandes líderes inspiram pessoas e equipes a agir, “o objetivo não é fazer negócios com alguém que apenas quer o que você tem, mas com pessoas que acreditam no que você acredita.”

É também de Sinek que empresto a reflexão final deste texto. Para um negócio ser efetivamente sustentável, é crucial que isso seja incorporado aos princípios da organização. Colaboradores precisam ser envolvidos e essas questões devem estar claras no recrutamento.

De nada adianta ter processos focados em sustentabilidade se as pessoas ao redor são excluídas. Os resultados são naturalmente melhores quando nos vemos em uma companhia em que a cultura dá match com a nossa, em lugares onde vemos nossos próprios valores impressos.

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Enrico Milani

ColunistaEnrico Milani atua como CEO da Vapza Alimentos desde 2018, empresa familiar que atua desde 2005. Tem em seu currículo a formação em Engenharia de Produção pela PUC-PR e Advanced Management Program pela ESADE Barcelona.

https://exame.com/esg/reciclagem-economia-circular-industria/

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Subsídios de Biden já atraíram US$ 200 bi em investimentos

Compromissos de investimentos de empresas americanas e estrangeiras nos EUA neste ano já são o dobro do registrado em 2021 e 20 vezes mais o total de 2019, segundo levantamento do ‘Financial Times’

Por Amanda Chu e Oliver Roeder — Valor/Financial Times – 17/04/2023

Os compromissos de investimentos no setor industrial dos EUA já somam mais de US$ 200 bilhões desde que o Congresso aprovou amplos subsídios no ano passado, mostrando que o esforço do presidente Joe Biden para desencadear uma nova revolução industrial estão ganhando ímpeto.

Os investimentos em tecnologias limpas e semicondutores são quase o dobro dos compromissos feitos nos mesmos setores em 2021, e quase vinte vezes mais que o total de 2019, segundo dados compilados pelo “Financial Times”.

Em 2019, o “FT” identificou quatro projetos avaliados em torno de US$ 1 bilhão em cada um desses setores, e depois de agosto de 2022 havia 31 projetos desse tamanho.

Mais de US$ 40 bilhões em investimentos estavam planejados desde o começo do ano. Mas depois que as gigantes asiáticas LG, Hanwha e LONGI anunciaram acordos no último mês, o total dos grandes investimentos subiu para US$ 204 bilhões em 14 de abril.

“Vemos agora uma significativa movimentação com relação a investir nos EUA”, disse a secretária de Energia americana, Jennifer Granholm, na semana passada, referindo-se ao aumento dos investimentos nos últimos meses.

A Lei de Redução da Inflação (IRA, na sigla em inglês), sancionada em agosto, inclui US$ 369 bilhões em créditos fiscais para tecnologias limpas, como parte das promessas do governo Biden para descarbonizar a economia americana. A Lei dos Chips, também aprovada em agosto, inclui US$ 39 bilhões em recursos para estimular a produção de semicondutores e US$ 24 bilhões em créditos fiscais para sua fabricação. Ambas visam romper a dependência dos EUA das cadeias de suprimentos chinesas.

As políticas industriais atraíram críticas de aliados europeus e asiáticos, que alegam que os grandes subsídios e exigências feitas pelos EUA configuram protecionismo. O presidente da França, Emmanuel Macron, que visitou a China na semana passada numa tentativa de melhorar as relações de Paris com Pequim, disse que a IRA poderá “fragmentar o Ocidente”.

A União Europeia (UE) anunciou em março sua própria estratégia industrial, com cláusulas para equiparar subsídios em projetos sob o risco de ir para o exterior.

Embora a maioria das promessas de fabricação nos EUA desde agosto tenha vindo de fornecedores internos, cerca de um terço é de empresas sediadas no exterior, segundo os dados do “FT”. Taiwan, Coreia do Sul e Japão respondem pela maior parte dos investimentos estrangeiros.

O “FT” rastreou mais de 75 projetos industriais avaliados em pelo menos US$ 100 milhões cada, para fábricas de semicondutores, veículos elétricos, baterias e componentes de energia renovável, que foram anunciados desde que as leis foram sancionadas em agosto.

Os anúncios criarão cerca de 82 mil empregos, aponta a análise. Mais projetos deverão ser anunciados nos próximos meses, conforme o governo americano fornece mais informações às empresas sobre os créditos fiscais.

“A magnitude desses investimentos é bastante impressionante”, diz Cullen Hendrix, pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics. “Isso é uma tentativa de ir do zero aos 100 km/h em termos de desenvolvimento de cadeias de suprimentos de uma forma que não víamos há muito tempo.”

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2023/04/17/subsidios-de-biden-ja-atrairam-us-200-bi-em-investimentos.ghtml

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O home office vai acabar? No pós-pandemia, empresas começam a questionar modelo

Por Felipe Siqueira e Bruna Klingspiegel – Estadão – 14/04/2023

Big techs como Meta e Twitter, por exemplo, têm preferido modelos cada vez mais presenciais, o que pode impactar as empresas no cenário nacional; discussão pode virar queda de braço entre empregador e empregado

Três anos após o início da pandemia que forçou o home office nas empresas, a discussão sobre o melhor modelo de trabalho ainda não foi superada. Se de um lado há profissionais que se recusam a trabalhar em empresas que não permitem o trabalho remoto, do outro, executivos e empresários começam a demonstrar incômodo em relação à ausência dos funcionários no ambiente corporativo. Entre as justificativas estão a perda do chamado fit cultural e até de queda na eficiência dos profissionais.

No exterior, o movimento é liderado pelas big techs. Recentemente, Mark Zuckerberg movimentou as redes sociais com um post sobre o futuro da Meta, conglomerado que abarca companhias de tecnologia como o Facebook – que fundou em 2004 -, Instagram e Whatsapp. No texto, ele elencou os objetivos para 2023, em uma espécie de “carta aberta” aos funcionários, e explicou quais caminhos deverão ser tomados para uma guinada “mais eficiente”, nas palavras do executivo.

Além do cortes de vagas, redução no volume de contratações e cancelamentos de projetos com baixa prioridade, ele também encorajou os funcionários a encontrarem mais oportunidades de trabalho com os colegas presencialmente. Segundo Zuckerberg, isso tem a ver com produtividade.

“Em nossa análise inicial, que vai demandar ainda mais estudos, percebemos que tanto engenheiros que começaram a trabalhar conosco de maneira presencial e depois foram para o modelo remoto quanto os que se mantiveram no escritório tiveram melhores performances em relação aos que iniciaram a jornada de maneira remota”, disse ele, em comunicado.

Essa mudança para mais trabalho presencial, visando produtividade, não é peculiaridade só da Meta. Após concluir a compra do Twitter, Elon Musk aboliu o trabalho remoto, obrigando os funcionários – que restaram após a onda de demissões – a estarem presentes nas respectivas sedes – seja da rede social ou da Tesla (empresa de carros elétricos). No comunicado aos funcionários, ele teria dito que o home office já não é mais aceitável.

Outro exemplo veio do mercado financeiro. O JP Morgan anunciou na quarta-feira, 12, que orientou seus diretores administrativos a trabalhem todos os cinco dias úteis da semana no escritório. Com isso, o banco encerra oficialmente o modelo híbrido de trabalho para os executivos administrativos, adotado pela instituição ao longo da pandemia de covid.

“Nossos líderes desempenham um papel crítico no reforço de nossa cultura e na administração de nossos negócios”, destaca o banco, em comunicado enviado para os funcionários por e-mail. “Eles devem estar visíveis no local, devem se reunir com os clientes, precisam ensinar e aconselhar e devem estar sempre acessíveis para feedback imediato e mensagens improvisadas.”

No Brasil, o movimento também tem ganhado corpo. A XP Investimentos, por exemplo, já sinalizou que o modelo de trabalho à distância não tem ajudado a empresa. Em março, o fundador da companhia, Guilherme Benchimol, se encontrou com analistas do mercado e admitiu que contratou demais nos últimos anos e que o modelo de trabalho remoto prejudicou o desempenho da empresa.

A instituição chegou a iniciar um projeto, durante a pandemia, de mudança de sede, para uma complexo em São Roque, chamado Villa XP. O espaço seria um local para os funcionários se confraternizarem e interagirem. A ideia remetia ao modelo de sede da Apple, em Cupertino, no Estados Unidos. Hoje o projeto está sendo reestruturado, segundo entrevista de Benchimol ao InfoMoney, que faz parte do grupo.

Para o diretor executivo do PageGroup, Lucas Oggiam, o movimento de empresas de grande porte tende a ditar o ritmo dos negócios em determinados setores. Na opinião do executivo, o home office será cada vez menos visto neste ano e nos próximos. Isso porque as companhias têm seguido para modelos de trabalho híbrido, com um, dois ou três dias em casa durante a semana, ou até mesmo regimes presenciais.

“Mais de 95% das empresas para quem a gente recruta trabalha com o modelo híbrido, com exceção daquelas funções que efetivamente as pessoas precisam exercer presencialmente. Então, nos parece que o caminho vai continuar sendo esse”, diz.

Segundo Oggiam, para muitos gestores, há uma percepção de produtividade ligada ao fato de as pessoas estarem sentadas em um local apropriado para desempenhar determinada função, ao lado dos colegas. Além disso, a vasta maioria das companhias teve de avançar radicalmente em 2020 em direção ao modelo de trabalho remoto. O problema é que elas não estavam preparadas para essa movimentação – nem os gestores nem os colaboradores.

Como algumas experiências podem ter sido negativas, por causa dessa falta de preparo e também de experiência, os empregadores agora querem voltar a uma realidade anterior à pandemia. “Muitos chefes não se sentem confortáveis com a gestão à distância, seja por insegurança em relação à tecnologia necessária ou até mesmo porque não se sentem confiantes de que o time vai efetivamente trabalhar e respeitar o horário”, explica Oggiam.

Muitos chefes não se sentem confortáveis com a gestão à distância,

Lucas Oggiam, diretor executivo da PageGroup

Um reflexo desse movimento contrário ao home office pode ser visto nas vagas para trabalho remoto no mercado. Dados recentes do LinkedIn, rede social voltada para carreiras, mostram que as ofertas de emprego em home office estão “sumindo” do radar. Em fevereiro de 2022, 40% dos anúncios publicados na plataforma eram na modalidade remota. No mesmo período deste ano, a proporção caiu para 25%.

O interesse dos profissionais, no entanto, não tem desacelerado na mesma medida, o que acaba provocando uma queda de braço entre empregador e empregado. Um levantamento da empresa de recrutamento Robert Half mostra que 57% dos profissionais empregados estão dispostos a procurar um novo trabalho caso a empresa opte pelo retorno 100% presencial.

Para especialistas na área de recrutamento, a dificuldade de adaptação às transformações do mercado podem criar obstáculos na contratação de talentos e de retenção de profissionais-chave. Eles destacam que é preciso avaliar com cuidado a questão da produtividade quando o assunto é trabalho presencial.

Além disso, as empresas têm de considerar os custos com o retorno ao escritório, como energia, alimentação, vale-transporte de funcionários e até mesmo locação de espaço, que podem pesar muito no balanço para as companhias. E o trabalho presencial pode se tornar ainda mais caro se os colaboradores estiverem insatisfeitos.

Uma das coisas que Oggiam, do PageGroup, destaca é a adequação de espaços físicos para as empresas. “Muitas companhias reduziram o espaço que tinham, por exemplo, na Faria Lima, que saíram de dois andares e se mantiveram com apenas um.” Para o executivo, as empresas precisam encontrar o equilíbrio. “Ter pedidos de demissão porque a pessoa não está satisfeita (por conta do deslocamento ao trabalho, por exemplo) torna-se uma dor de cabeça gigantesca. O maior custo dentro de uma empresa é não ter a pessoa certa na cadeira certa”, conclui Oggiam.

O Estadão consultou as big techs sobre o assunto. Apple, Meta e XP afirmaram que não iriam comentar o tema. A reportagem não conseguiu contato com o Twitter. Amazon e Microsoft explicaram que o trabalho híbrido tem sido a tônica nas companhias, sendo que o remoto pode ser oferecido em áreas específicas de cada empresa.

Como saber qual o modelo de trabalho ideal para a empresa?

Para entender o que precisa ser considerado na hora de uma empresa decidir qual modelo de trabalho é o ideal, o Estadão pediu para o PageGroup e para a Robert Half elencarem pontos que necessitam atenção neste tema. Confira os principais a seguir:

  • O primeiro ponto é entender que tipo de empresa se quer construir, qual a cultura organizacional será implementada e qual o objetivo eu tenho. É preciso entender como o trabalho híbrido, remoto ou presencial se encaixa dentro de tudo isso.
  • Quem é seu cliente? É necessário saber qual a expectativa que o cliente tem em relação ao serviço que vai ser prestado e se é possível executá-lo de maneira remota. O tipo de função vai ser determinante neste tema
  • Conheça o seu público interno: antes de escolher um modelo de trabalho. É importante entender as necessidades e desejos dos funcionários da empresa. Isso pode ser feito por meio de pesquisas, rodas de conversa, entrevistas de contratação ou de desligamento.
  • Considere as características da empresa: infraestrutura, localização e facilidade de acesso da empresa também são fatores importantes a serem considerados ao escolher um modelo de trabalho.
  • É importante avaliar o que outras empresas do mesmo segmento estão fazendo em relação ao modelo de trabalho. Observe a movimentação, mas considere o contexto em que a empresa está inserida. O que funciona para uma big tech pode não funcionar para uma empresa de química no interior de São Paulo, por exemplo.
  • Com base em informações nesta linha, explica o gerente da Robert Half, Leonardo Berto, a empresa deve fazer uma matriz de risco para avaliar as vantagens e desvantagens de cada modelo de trabalho em relação ao negócio, ao perfil do público interno e aos objetivos da empresa. E ele também ressalta que é importante lembrar: o modelo de trabalho escolhido não precisa ser definitivo e pode ser adaptado conforme as mudanças nas necessidades da empresa e do mercado. “A flexibilidade é essencial para garantir a competitividade da empresa”, diz.

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Como ter uma mente mais criativa? Veja o que dizem os especialistas

Por Guilherme Santiago – Estadão – 30/03/2023

Criatividade não é um dom, mas uma habilidade que pode ser praticada por qualquer um e trazer benefícios ao bem-estar; saiba como ‘treinar’ a mente para ser mais criativo

Criatividade é um conceito com diferentes significados. Para alguns, ser criativo significa ter ideias revolucionárias que solucionam problemas. Para outros, pode ser a capacidade de criar ou imaginar algo nunca visto antes. Seja qual for a definição que mais faz sentido para você, fato é que o exercício da criatividade é um importante aliado do bem-estar.

Diferente do que estudiosos do tema já chegaram a acreditar, a criatividade não é um presente divino ou dom. Trata-se, na verdade, de uma habilidade, que pode ser praticada, aprimorada e desenvolvida por qualquer pessoa. “Acreditar que a criatividade é um dom pressupõe um predomínio de aspectos meramente biológicos”, diz Patrícia Schelini, psicóloga e docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Mas hoje sabemos que o meio e as condições também são importantes para o despertar criativo.”

Para a especialista, ao pensar ‘fora da caixa’, fica mais fácil encontrar caminhos para resolver dificuldades do cotidiano. Uma mente criativa é capaz de descobrir novas maneiras de enfrentar questões familiares, de superar dificuldades de relacionamento e até mesmo de desenvolver aspectos da vida profissional. Tudo isso, conforme explica a psicóloga, corrobora para uma maior sensação de bem-estar. “Muitas vezes não conseguimos solucionar problemas copiando algo que já foi feito. É necessário pensar de uma forma diferente”, explica Patricia.

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Retiro para mentes criativas

O ambiente foi fundamental para a escritora Thais Gurgel, que potencializou suas habilidades criativas durante um retiro. O objetivo era viver uma experiência em sua própria companhia, porém, quando conheceu o retiro A Arte de Viver – inspirado no livro O Caminho do Artista, de Julia Cameron –, percebeu que além de um momento de autocuidado essa vivência também traria benefícios para sua vida profissional.

“Foi o primeiro retiro que eu fiz. Lendo a descrição, achei a minha cara”, diz. “Era um fim de semana em contato com a natureza e com várias atividades que ajudariam a despertar a criatividade. Como sou escritora, achei que ia me ajudar bastante. E de fato ajudou”, conta ela, que mergulhou nessa experiência em setembro de 2021.

As atividades incluíam pintura, desenho, música, dança, escrita, fotografia, aromaterapia e rodas de conversa. Todas realizadas com o objetivo de despertar o potencial criativo de cada pessoa. E o resultado foi bastante positivo. “Eu sinto que o retiro foi importante para eu poder descansar e ter trocas com outras pessoas, o que, com certeza, me ajudou a escrever com mais leveza e ter melhores ideias”, explica.

Como a ciência explica a criatividade?

Ter ideias criativas pode ser resultado de um ambiente favorável, como no caso da escritora Thaís, de aspectos da personalidade e até mesmo de certas habilidades cognitivas. No entanto, é comum para todas essas situações o aparecimento de uma cascata de eventos na mente, que é responsável por impulsionar a criatividade.

“Os estudos mais recentes mostram que existem duas redes neurais envolvidas no processo criativo”, diz Antônio Jaeger, doutor em psicologia e docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele explica que a criatividade é resultado da interação entre um área do cérebro chamada rede neural padrão com outra denominada córtex pré-frontal.

A rede neural padrão fica mais ativa em momentos que o cérebro está em repouso e menos focado no mundo exterior, mas continua em vigília. “Como quando estamos pensando de forma distraída no que fizemos mais cedo, no que vamos fazer mais tarde, no que vamos jantar e em várias outras memórias”, descreve. Já o córtex pré-frontal vai ser responsável por filtrar essas ideias, como uma central de controle. “Ele vai ser o juiz, vai mediar e julgar os pensamentos que fazem sentido ou não.”

Esse é o processo de ter novas ideais. “E fazemos isso com frequência, é uma função humana bastante comum”, afirma o especialista. “A diferença é que, quando acertamos em cheio e temos uma ideia considerada inovadora, chamamos de criatividade. Mas a verdade é que estamos tendo novas ideias o tempo inteiro.”

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Mentes criativas em qualquer idade

Ter ideias criativas fez parte da rotina do publicitário aposentado Appio Ribeiro por mais de duas décadas. Para continuar exercendo essa habilidade, ele decidiu inscrever-se no curso ‘Criativa Idade’, realizado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP), com coordenação e idealização da professora Jane Barreto.

A proposta do curso é mostrar que idade não é fator limitante para mentes criativas. Por meio de atividades envolvendo músicas, jogos eletrônicos, oficinas de teatro e fotografia, os participantes – todos com mais de 60 anos – podem desenvolver novas competências e habilidades. E foi isso que chamou a atenção de Appio, que garante os benefícios de poder continuar exercendo sua criatividade.

“Eu sou um cara muito irrequieto, não consigo ficar muito tempo fazendo a mesma coisa”, revela. “Por isso que o curso fez tão bem para mim”, diz. “Acredito que uma mente criativa é o que faz a pessoa não envelhecer. E eu quero continuar aprendendo e fazendo diferente daquilo que já fiz. E pude fazer tudo isso no curso Criativa Idade.”

Para Jane, estar há 8 anos liderando a iniciativa é uma oportunidade para testemunhar a mudança em seus alunos, que acabam levando a criatividade para vida cotidiana. “Percebo a mudança de olhar, de pensamento e atitudes”, diz. “Eles passam a olhar com outras lentes para si mesmo, para o outro e para o mundo através da aula de fotografia e colocam-se diante do outro com maior segurança a partir das aula de teatro”, explica.

Como ser mais criativo?

Assim como para escritora Thaís e o publicitário Appio, exercer a criatividade pode trazer muitos benefícios e existem caminhos para ‘treinar’ a mente para que ela seja mais criativa. De acordo com Marta Simone, coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e especialista em criatividade, o primeiro passo para despertar o potencial criativo está nas ações do cotidiano. “É quase como uma escolha por um estilo de vida mais criativo”, diz. “Escolher realizar atividades do dia a dia de um modo diferente ou não convencional é importante para exercitar a criatividade.”

Tente caminhos diferentes para chegar ao trabalho, comece a olhar os objetos e pensar em outras utilidades para eles e imagine como resolveria situações hipotéticas. “E se não houvesse mais cadeiras no mundo? Como seria?”, sugere.

Feitos com consciência e consistência, esses exercícios podem tornar a mente mais criativa. É quase como uma preparação para que, em determinadas situações, fique mais fácil de encontrar soluções criativas para resolução de problemas ou conflitos.

Resgatar o espírito de criança também pode ajudar. Segundo a especialista, mesmo na vida adulta, é importante separar um momento para brincar – pode ser por meio de atividades esportivas sem competições ou jogos, como os de tabuleiro, de imaginação e de cartas. “Essas atividades lúdicas trabalham áreas do cérebro que a gente não trabalha por achar que ser adulto é ser uma pessoa séria”, diz. “Mas a gente esquece que brincar também é coisa séria e essencial para a criatividade”, pondera.

Junto com o resgate do lúdico, é importante deixar de lado o medo do julgamento – assim como fazem as crianças, mesmo que de forma inconsciente. “Ao longo da vida, criamos barreiras para a criatividade que as crianças não têm. E o medo do olhar do outro é uma delas”, afirma. “Por isso é importante evitar os julgamentos e deixar de lado o medo do que vão pensar. Ninguém nunca criou nada criativo sem errar antes. Não tem criatividade sem erro”, diz.

Até mesmo os momentos de ócio podem ser importantes para potencializar as habilidades criativas. Quando não fazemos nada, é possível relaxar a mente para que novas ideias surjam. A especialista explica que uma mente cansada e em um ambiente de cobranças tem menores chances de ter ideias criativas. Exemplo disso é que muitas pessoas costumam ter boas ideias durante o banho.

Dentre outras atividades realizadas no retiro, Thais Gurgel apostou na pintura para explorar suas habilidades criativas

Dentre outras atividades realizadas no retiro, Thais Gurgel apostou na pintura para explorar suas habilidades criativas Foto: Deise Carvalho

Coloque a criatividade em prática

  • Livre-se de julgamentos. Para uma mente mais criativa, é importante deixar de lado qualquer receio com possíveis julgamentos. Aceitar todo tipo de pensamento faz parte do processo de ter boas ideias – assim como nas sessões de brainstorming, que são comuns ao ambiente dos negócios.
  • Aposte em brincadeiras. É comum acreditar que a brincadeira é uma atividade restrita à infância. No entanto, elas podem ser bastante positivas para a criatividade. Nesses momentos, é possível exercitar o raciocínio lógico, a memória e outras habilidades cognitivas importantes para ser criativo.
  • Use a imaginação. Exercícios de imaginação podem ser poderosos para a criatividade, além de simples de serem executados. Imagine como você resolveria problemas hipotéticos, pense em novas utilidades para determinados objetos, crie situações e tente imaginar sua experiência com elas.
  • Mude a rotina. Rotinas bem definidas podem ser importantes para algumas pessoas. Porém, se o objetivo for expandir as habilidades criativas, pode ser interessante fugir dos padrões em certas ocasiões. Tente fazer outros caminhos para o trabalho, saia da zona de conforto e busque por novos desafios.
  • Anote tudo. Nem sempre nossa mente consegue armazenar todas as novas ideias – até mesmo porque novas ideias surgem o tempo todo. Por isso, ter um bloco de notas sempre por perto pode ser importante para que nenhuma ideia se perca. As maiores inspirações e as ideias mais criativas podem aparecer quando menos se espera.
  • Busque inspiração. O bloqueio criativo pode acontecer com certa frequência. Para lidar com ele – e até mesmo evitá-lo – é importante ter boas inspirações. Pode ser por meio de músicas, livros, filmes, pinturas, peças de teatro ou qualquer outra coisa que te deixe inspirado. Um ambiente leve e agradável também pode ajudar nesse processo.
  • Seja curioso. A curiosidade é a chave para mentes mais criativas. É a partir dela que certos questionamentos aparecem, novas descobertas são feitas, outras informações são absorvidas e uma bagagem de ensinamentos é criada. Tudo isso pode ajudar a potencializar as habilidades criativas.

https://www.estadao.com.br/saude/como-ter-uma-mente-mais-criativa-veja-o-que-dizem-os-especialistas/

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O plano da Amazon para ganhar do ChatGPT e Google na corrida das IAs

A divisão de nuvem da gigante varejista aposta em inteligência artificial para engenharia de software. Se der certo, pode dominar um mercado corporativo que atualmente é pulverizado

André Lopes – Exame – 14 de abril de 2023 

Muito além de responder perguntas, gerar artigos e conceber fotos como a do Papa Francisco de jaqueta puffer branca, a inteligência artificial (IA) é o segredo para uma operação mais produtiva e barata para as empresas. E não é um assunto para o futuro. Segundo o World Economic Forum, 52% das atividades laborais serão destinadas às máquinas até 2025.

É sabendo disso que a Amazon tem redesenhado sua divisão de computação em nuvem para novas ofertas de IA. Na quinta-feira, 15, três novos anúncios evidenciaram que a empresa é mais uma gigante da tecnologia a tentar lucrar com a IA generativa, a tecnologia por trás do ChatGPT.

Mas diferente da OpenAI, a divisão Amazon Web Services (AWS) tem como alvo clientes corporativos, que terão em breve processadores personalizados que, segundo ela, podem executar software de IA de maneira mais eficiente e barata do que os concorrentes.

Já na seara de ferramentas, a empresa comandada por Adam Selipsky apresentou o Titan, um bot treinado em grandes quantidades de texto para resumir conteúdo, escrever rascunhos, ideais ou assumindo a função de responder perguntas em canais de atendimento.

Ele será disponibilizado em um serviço da AWS, chamado Bedrock, onde os desenvolvedores podem explorar modelos construídos por outras empresas que usam IA generativa, incluindo softwares como o AI21 Labs, Anthropic e Stability AI.

“Acreditamos que os clientes vão precisar de muitos modelos diferentes de IA generativa para diferentes propósitos, e é improvável que qualquer modelo atenda a todos os clientes ou mesmo a todas as necessidades de um cliente”, disse Adam Selipsky, CEO da AWS, em entrevista ao Wall Street Journal, no evento de lançamento dos novos produtos.

Outro recurso que a empresa está promovendo é o CodeWhisperer, que gera e corrige códigos de programação. Ele competirá diretamente com o GitHub Copilot da Microsoft, que usa IA generativa. Anteriormente, a Amazon havia disponibilizado o CodeWhisperer apenas para um pequeno número de usuários.

Concorrência

Do outro lado da disputa, a empresas validam suas apostas com o grande público, ajudando no corporativo, mas em trabalhos mais simples como editores de texto, buscadores e automatização de pequenas tarefas.

A Microsoft, por meio de uma parceria com a OpenAI, fabricante do ChatGPT, integrou a tecnologia de IA generativa em seu serviço de busca na Internet, o Bing, e planeja implantar essas ferramentas nos produtos da fabricante de software.

O Google, da Alphabet, está correndo para fazer movimentos semelhantes. A Meta lançou seu próprio modelo de linguagem ampla e disse que um trabalho semelhante se expandirá em toda a empresa.

Mas da Amazon, para o consumidor final, até o momento, só resta a velha, e não tão inteligente, Alexa.

André Lopes

Repórter Com quase uma década dedicada a cobertura de tecnologia, também foi repórter de cotidiano e ciências na Revista VEJA. Na Exame desde 2021, colaborou na coluna Visão Global e hoje atua nas edições especiais Melhores e Maiores e Exame CEO

https://exame.com/tecnologia/o-plano-da-amazon-para-ganhar-do-chatgpt-e-google-na-corrida-das-ias/

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Indústria de games abraça inteligência artificial apesar de medo

Ferramentas similares ao ChatGPT dominaram conferência de game nos EUA

Tiago Ribas – Folha – 7.abr.2023 

A indústria de games está animada com os avanços da inteligência artificial. Ferramentas e palestras sobre essa tecnologia foram destaque na GDC (Conferência de Desenvolvedores de Games) deste ano, realizada em San Francisco. Ainda assim, a simples junção das letras IA parecia invocar sentimento de medo em muitos dos participantes do evento.

Isso não acontece por falta de conhecimento, já que pelo menos desde os anos 1980 a indústria de games faz experimentos com a criação automatizada de conteúdos. No entanto, a popularização e o avanço tecnológico de ferramentas de IA generativa, como ChatGPT e Midjourney, funcionam como um catalisador da insegurança dos trabalhadores do setor. Em especial para aqueles que estão começando a carreira em um ambiente econômico já ruim, com as ondas frequentes de demissão em empresas de tecnologia.

Estande da plataforma de games chinesa Yahaha

Estande da plataforma de games chinesa Yahaha, que expôs na GDC ferramenta de inteligência artificial para ajudar usuários a criar conteúdo em seus jogos – Divulgação GDC

O medo transpareceu até em grandes lançamentos realizados na GDC. Ao revelar seu Ghostwriter, ferramenta que falas curtas de personagens secundários com inteligência artificial, a Ubisoft tomou o cuidado de destacar que o instrumento precisa de participação humana para revisar e selecionar as melhores linhas de diálogo. Segundo a empresa, a ferramenta não está substituindo os roteiristas, mas sim, os aliviando de uma de suas tarefas mais chatas e trabalhosas.

Na conferência, o cientista da equipe de pesquisa e desenvolvimento da Ubisoft e criador do Ghostwriter, Ben Swanson, afirmou que a ferramenta foi desenvolvida em conjunto com a equipe de roteiristas da empresa. Ainda assim, ele admitiu que muitos viram a novidade com desconfiança.

Fora da gigante de games francesa, houve mais críticas que elogios. “Esses textos secundários são o primeiro trabalho remunerado (e creditável) que muitos roteiristas conseguem no início da carreira”, afirmou Sam Winkler, roteirista sênior da Gearbox, que trabalhou em títulos como “Borderlands 3” e “Tiny Tina’s Wonderlands”, no Twitter. “Se você trata uma parte da sua história como chata, adivinha? Ela vai ser”, completou.

Alanah Pearce, roteirista que trabalhou em “God of War Ragnarök”, também usou a rede social para criticar a novidade da Ubisoft. “Ter que editar diálogos feitos por IA parece mais demorado do que escrever eu mesma. Preferiria que grandes estúdios usassem o orçamento de ferramentas como essa para contratar mais roteiristas”, escreveu.

A ferramenta da Ubisoft, no entanto, é apenas o início do que promete ser uma revolução na forma como os videogames são produzidos e jogados.

A startup californiana Inworld, por exemplo, expôs em seu estande na conferência uma ferramenta de inteligência artificial que faz NPCs (personagens não jogáveis) responderem em instantes a perguntas e comentários criados pelo jogador. Ela funciona de modo similar ao ChatGPT, mas seguindo parâmetros para o personagem estabelecidos pelo desenvolvedor. É possível ver a ferramenta em ação em um mod do jogo “Mount & Blade II: Bannerlord” e em vídeo do game “Origins“, em desenvolvimento pela própria Inworld.

O programa funciona bem na parte técnica, mas a qualidade dos diálogos (genéricos e repetitivos) e a voz sintetizada da inteligência artificial deixam a desejar e mostram que a tecnologia ainda está longe do alto padrão demandado dos games de primeira linha, os chamados “AAA”. Ainda assim, é um início.

Já a plataforma chinesa de criação de jogos Yahaha esteve presente na GDC mostrando como a IA pode facilitar o desenvolvimento de games, inclusive por amadores. Com o sistema levado pela empresa para a conferência era possível criar jogos em 3D sem saber praticamente nada sobre programação ou design. Bastava ao usuário descrever em forma de texto o que ele queria que a IA se encarregava de buscar e posicionar objetos, iluminação, animações etc.

Esse é um dos usos mais promissores para a inteligência artificial nos games, tanto que outras plataformas para criação de jogos, como Roblox e Unity, vêm desenvolvendo e experimentando ferramentas semelhantes.

Segundo Andrew Maximov, ex-diretor técnico de arte da Naughty Dog e fundador da Promethean AI, empresa que cria ferramentas de inteligência artificial, esse uso da tecnologia assusta trabalhadores que gastaram anos de vida e rios de dinheiro estudando e se especializando em programas para desenvolver games.

“Observando a complexidade da nossa indústria e a forma como os cursos e a indústria de softwares fazem você pensar que as ferramentas são tudo o que você precisa para a sua profissão, é muito fácil se perder na ideia de que as ferramentas são quem você é”, afirmou Maximov. “Mas isso não é verdade, assim como compor uma música não é a mesma coisa que saber tocar um instrumento.”

Em sua palestra sobre como a IA pode transformar a indústria de games, Maximov destacou mais a capacidade analítica dessas ferramentas –de entender, catalogar e disponibilizar recursos de um banco de dados, por exemplo– do que suas capacidades puramente generativas, sobre as quais ainda pairam questões éticas e legais.

Andrew Maximov fala durante sua palestra na GDC

Andrew Maximov durante sua palestra na GDC – Divulgação GDC

A legislação sobre registro de propriedade intelectual gerada por inteligência artificial não está consolidada. Maximov alertou também para os riscos de ferramentas que usam como matéria-prima imagens capturadas indiscriminadamente na internet plagiarem artistas e criarem figuras baseadas em material sob proteção de copyright.

“Se você quer ficar rico rapidamente, pegue um jogo que cria conteúdo gerado por usuários com uma dessas ferramentas, crie milhares de imagens, faça uma busca reversa até achar uma imagem que se pareça a alguma coisa que alguém já fez, procure o artista e convença-o a processar a empresa que fez o jogo”, afirmou Maximov. Ele é uma das testemunhas de acusação na ação movida por artistas contra as plataformas DreamUp, Midjourney e Stable Diffusion, que criam imagens por IA a partir de comandos de texto.

“Qualquer empresa de games que tenha algum tipo de controle sobre sua propriedade intelectual vai desencorajar o uso desse tipo de conteúdo até que todas as questões legais estejam resolvidas.”

Seja qual for o resultado das ações na Justiça e o avanço da tecnologia, não há dúvida de que o futuro do desenvolvimento de jogos estará ligado de alguma forma a ferramentas de inteligência artificial. Com isso, o maior risco não é perder o emprego para uma IA, mas sim, para alguém que saiba como trabalhar com ela.

O jornalista viajou a convite da Abragames (Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos)

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Vida na ‘velocidade 2x’: entenda quando a pressa vira patologia

Sensação de ganhar tempo ouvindo mensagens ou aulas aceleradas pode ser fantasiosa, além de criar problemas na comunicação

Melina Cardoso – Folha – 6.abr.2023 

Que atire o primeiro celular quem nunca deu aquela aceleradinha num áudio de Whatsapp para chegar logo no ponto da mensagem ou ganhar tempo para resolver outros pepinos do dia.

O analista de TI Daniel Costa, 43, é uma dessas pessoas. Ele sempre se considerou um cara tranquilo, mas a possibilidade de acelerar as mensagens ou assistir às aulas da faculdade e da pós —os quais cursa concomitantemente— fez com que percebesse uma agitação fora do normal.

O estudante Gustavo Margato, 18, é adepto da velocidade dois para áudios e vídeos – Folhapress

“Não consigo mais acompanhar vídeos em velocidade normal. Fico ansioso para chegar logo no ponto que preciso ouvir. Inclusive, se eu pudesse, aceleraria também algumas pessoas”, diz, referindo-se às “reuniões intermináveis com algumas pessoas mais lentas”.

Daniel reconhece, porém, que tanta pressa já o atrapalhou. “Precisei voltar alguns vídeos para ouvir novamente na velocidade normal. Acabei perdendo tempo”, ri.

“Eu acelero tudo que é possível. E com isso, acabo ficando cada vez mais acelerada. Inclusive, percebo que ao mandar áudio, eu já falo na velocidade dois”, conta a social media Ariel Komatsu Miranda, 36.

“Também não tenho paciência para ouvir os áudios e sempre avanço para ver se tem mais coisa. Já perdi muitas informações importantes porque pulei a mensagem”, confessa.

Ariel diz que essa pressa “além da conta” veio com a pandemia. “Acelerei demais e agora não consigo voltar”, diz a mãe de Rafaela, 10, Monique, 9, e Caio, 8.

Para a psicóloga Karina Theodoro, essa “pressa normalizada” em nossa sociedade pode ser um perigo. “Quando aceleramos uma mensagem, a fala pode mudar para um tom de raiva. Como isso entra na nossa cabeça? Quantas relações são quebradas por má interpretação?”, questiona.

“Do ponto de vista da psiquiatria, a aceleração é normal. A preocupação entra quando a pessoa sai desse contexto de correria —ao encerrar o dia de trabalho ou de estudos, ou quando sai de férias—, mas continua agitada”, explica Mário Rodrigues Louzã, coordenador do Programa Déficit de Atenção e Hiperatividade do Instituto de Psiquiatria do HC.

O estudante Gustavo Margato, 18, também é adepto da “velocidade 2x” para tudo. “Quando vejo aulas aceleradas, me forço a prestar mais atenção”, pontua.

A sensação de ganhar tempo ouvindo mensagens ou aulas na velocidade dois pode ser fantasiosa, diz Louzã. “A mente humana tem capacidade de processamento linear e suporta até uma velocidade. Quando as frases estão muito aceleradas não dá tempo para o cérebro concatenar o que está sendo dito. A pessoa aprende de forma misturada, confusa ou superficial”, pontua.

“A evolução humana não se dá na mesma velocidade da tecnologia. Temos que aceitar que temos limite”, finaliza o especialista.

https://www1.folha.uol.com.br/tv/2023/04/vida-na-velocidade-2x-entenda-quando-a-pressa-vira-patologia.shtml

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Sam Altman, pai do ChatGPT, não está preocupado com os perigos da inteligência artificial

Por Cade Metz –  Estadão/The New York Times – 10/04/2023 

Presidente executivo da OpenAI defende que ferramenta deve ser introduzida aos poucos para as pessoas

THE NEW YORK TIMES – Esbarrei com Sam Altman pela primeira vez em 2019, dias depois de a Microsoft concordar em investir US$ 1 bilhão em sua startup de três anos, a OpenAI. Por sugestão dele, jantamos num restaurante pequeno, sem dúvidas moderno e não muito distante de sua casa em São Francisco.

No meio da refeição, ele levantou seu iPhone para que eu pudesse ver o contrato que havia passado os últimos meses negociando com uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. O documento dizia que o investimento de um bilhão de dólares da Microsoft ajudaria a OpenAI a construir o que foi chamado de inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês), uma máquina que poderia fazer qualquer coisa que o cérebro humano fosse capaz.

Mais tarde, enquanto Altman tomava um vinho doce como sobremesa, ele comparou sua empresa ao Projeto Manhattan. Como se estivesse falando da previsão do tempo do dia seguinte, disse que a tentativa dos Estados Unidos de construir uma bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial foi um “projeto com a dimensão da OpenAI – o nível de ambição a que aspiramos”.

Ele acreditava que a AGI traria prosperidade e riqueza para o mundo como nunca havia sido visto. E também temia que as tecnologias em desenvolvimento por sua empresa pudessem causar sérios danos – espalhar desinformação, prejudicar o mercado de trabalho. Ou até mesmo destruir o mundo tal como conhecemos.

“Tento ser franco”, disse ele. “Estou fazendo algo bom? Ou muito ruim?”.

Em 2019, isso parecia ficção científica.

Em 2023, as pessoas estão começando a se perguntar se Altman era mais presciente do que imaginavam.

Agora que a OpenAI lançou um chatbot online chamado ChatGPT, qualquer pessoa com conexão à internet está a um clique de distância da tecnologia que responderá a dúvidas urgentes sobre química orgânica, escreverá um artigo de duas mil palavras a respeito de Marcel Proust e sua madeleine, ou criará um programa de computador que lança flocos de neve digitais em uma tela de laptop – tudo isso com uma habilidade que parece humana.

Sam Altman é acusado de imprudência

Conforme as pessoas percebem que essa tecnologia também é uma forma de espalhar mentiras ou até mesmo convencer as pessoas a fazer coisas que não deveriam, alguns críticos estão acusando Altman de imprudência.

Recentemente, mais de mil especialistas em IA e líderes da tecnologia pediram à OpenAI e a outras empresas que interrompessem seu trabalho em sistemas como o ChatGPT, dizendo que eles apresentam “grandes riscos para a sociedade e a humanidade”.

E, no entanto, quando as pessoas agem como se Altman quase tivesse concretizado sua visão de longa data, ele recua.

“A propaganda exagerada sobre esses sistemas – mesmo se tudo o que esperamos for certo no longo prazo – está totalmente fora de controle no curto prazo”, disse ele em uma tarde recente. Segundo Altman, há tempo para entender melhor como esses sistemas vão, no fim das contas, mudar o mundo.

Muitos líderes do setor, pesquisadores de IA e especialistas veem o ChatGPT como uma mudança tecnológica fundamental, tão significativa quanto a criação do navegador da web ou do iPhone. Mas poucos conseguem entrar em acordo quanto ao futuro dessa tecnologia.

Alguns acreditam que ela irá proporcionar uma utopia na qual todos têm todo o tempo e dinheiro necessários. Outros acreditam que ela poderia destruir a humanidade. Também há aqueles que gastam boa parte de seu tempo defendendo que a tecnologia nunca é tão poderosa como todos dizem ser, insistindo que nem o nirvana, nem o dia do juízo final estão tão próximos quanto pode parecer.

Altman, 37 anos, empresário com cara de garoto e esbelto, dos subúrbios de St. Louis, mostra-se tranquilo no meio disso tudo. Como CEO da OpenAI, ele de alguma forma personifica cada uma dessas visões aparentemente contraditórias, na esperança de equilibrar as inúmeras possibilidades à medida que faz avançar essa tecnologia estranha, poderosa e com falhas para o futuro.

Isso significa que ele é frequentemente criticado por todos os lados. Entretanto, aqueles mais próximos a ele acreditam que as coisas estão como deveriam ser. “Se você está incomodando igualmente ambos os lados, então você está fazendo algo certo”, disse o presidente da OpenAI, Greg Brockman.

Passar um tempo com Altman é entender que o Vale do Silício impulsionará essa tecnologia, apesar de não estar muito seguro de quais serão as implicações. Em um determinado momento durante o nosso jantar em 2019, ele parafraseou Robert Oppenheimer, líder do Projeto Manhattan, que acreditava que a bomba atômica era um avanço científico inevitável. “A tecnologia acontece porque é possível”, afirmou. (Altman chamou a atenção para o fato de que, por acaso, ele e Oppenheimer fazem aniversário no mesmo dia.)

Ele acredita que a IA vai surgir de uma forma ou de outra, fazer coisas maravilhosas que nem mesmo ele consegue imaginar e que podemos encontrar formas de amenizar os danos que ela possa causar.

É um ponto de vista que reflete a própria trajetória de Altman. Sua vida tem sido uma ascensão bastante constante em direção a uma maior prosperidade e riqueza, impulsionada por um conjunto eficaz de habilidades pessoais – sem falar de um pouco de sorte. Faz sentido que ele acredite que algo bom vai acontecer e não algo ruim.

Mas se ele estiver errado, há uma saída de emergência: em seus contratos com investidores como a Microsoft, o conselho da OpenAI se reserva o direito de acabar com a tecnologia a qualquer momento.

O pecuarista vegetariano

O alerta, enviado junto com com as instruções de como chegar até o destino, era “cuidado com as vacas”.

A casa de fim de semana de Altman é um rancho em Napa, na Califórnia, onde os fazendeiros cultivam uvas para vinho e criam gado.

Durante a semana, Altman e seu parceiro, Oliver Mulherin, um engenheiro de software australiano, dividem uma casa em Russian Hill, na região central de São Francisco. Mas quando chega sexta-feira, eles vão para o rancho, um lugar tranquilo entre as colinas rochosas e cobertas de relva. A casa construída há 25 anos foi reformada para ter uma aparência simples e contemporânea. O aço corten que cobre as paredes externas é oxidado de forma impecável.

À medida que você se aproxima da propriedade, as vacas vagam pelos campos verdes e pelas estradas de cascalho.

Altman é um homem que vive entre contradições, mesmo em seu refúgio: um vegetariano que cria gado de corte. Ele diz que o seu parceiro gosta deles.

Durante uma recente caminhada à tarde pelo rancho, paramos para descansar à beira de um pequeno lago. Observando a água, discutimos, mais uma vez, o futuro da IA.

Sua perspectiva não mudou muito desde 2019. Mas as palavras usadas por ele foram ainda mais ousadas.

Ele disse que sua empresa estava desenvolvendo tecnologia que “resolveria alguns dos nossos problemas mais urgentes, aumentaria de verdade o padrão de vida e também descobriria usos muito melhores para a vontade humana e a criatividade”.

Ele não estava exatamente seguro quanto aos problemas que ela iria resolver, mas argumentou que o ChatGPT mostrava os primeiros sinais do que é possível. Então, depois de dar um suspiro, disse temer que a mesma tecnologia pudesse causar sérios danos se acabasse nas mãos de algum governo autoritário.

Altman tende a descrever o futuro como se ele já existisse. E faz isso com um otimismo que parece descabido no mundo de hoje. Ao mesmo tempo, ele tem um jeito de concordar rapidamente com o outro lado da discussão.

Kelly Sims, sócia da empresa de capital de risco Thrive Capital, que trabalhou com Altman como consultora da diretoria da OpenAI, disse ter a sensação de que ele estava constantemente discutindo consigo mesmo.

Segundo ela, “em uma conversa, ele defende ao mesmo tempo dois pontos de vista”.

Origem no Vale do Silício

Ele é em grande parte um produto do Vale do Silício, que cresceu muito depressa e com entusiasmo em meados da década de 2010. Como presidente da Y Combinator, uma aceleradora de startups do Vale do Silício e investidora de startups em estágio inicial e semente, de 2014-19, ele assessorou um número incontável de novas empresas – e foi perspicaz para investir pessoalmente em várias que se tornaram marcas famosas, entre elas Airbnb, Reddit e Stripe. Ele se orgulha de reconhecer quando uma tecnologia está prestes a atingir um crescimento exponencial – e depois imaginar a curva no futuro.

No entanto, ele também é o produto de uma comunidade on-line estranha e extensa que começou a se preocupar, na mesma época em que Altman chegou ao Vale do Silício, que a IA um dia destruiria o mundo. Chamados de altruístas racionalistas ou eficazes, os integrantes desse movimento foram fundamentais para a criação da OpenAI.

A questão é saber se os dois lados de Altman são, no fim das contas, compatíveis: faz sentido trabalhar naquela curva se ela puder terminar em desastre? Altman está sem dúvidas decidido a ver como tudo vai se desenrolar.

Ele não é necessariamente motivado pelo dinheiro. Como muitas fortunas pessoais no Vale do Silício que estão vinculadas a uma ampla variedade de empresas de capital aberto e fechado, o patrimônio de Altman não está bem documentado. Mas, enquanto passeávamos por seu rancho, ele me disse, pela primeira vez, que não tem participações na OpenAI. O único dinheiro que pode ganhar com a empresa é um salário anual de cerca de US$ 65 mil – “independentemente do valor mínimo para o seguro saúde”, disse ele – e uma fatia irrisória de um antigo investimento na empresa pela Y Combinator.

Seu mentor de longa data, Paul Graham, fundador da Y Combinator, explicou a motivação de Altman assim: “Por que ele está trabalhando em algo que não o tornará mais rico? Uma resposta é que muitas pessoas fazem isso quando têm dinheiro suficiente, o que provavelmente é verdade no caso de Sam. A outra é que ele gosta do poder.”

É assim que Bill Gates deve ter sido

Georgeann Kepchar, ex-professor de Sam Altman

No final da década de 1990, a John Burroughs School, uma escola privada de ensino fundamental e médio batizada com o nome do naturalista e filósofo americano do século 19, convidou um consultor independente para observar e analisar a vida cotidiana em seu campus nos subúrbios de St.Louis.

O relatório do consultor incluiu uma crítica importante: o corpo discente estava repleto de homofobia.

No início dos anos 2000, Altman, um estudante de 17 anos da John Burroughs, começou a tentar mudar a cultura da escola, persuadindo individualmente os professores a afixar placas de “espaço seguro” nas portas de suas salas de aula como uma declaração em apoio aos estudantes gays como ele. Altman saiu do armário durante seu último ano na escola e disse que a St. Louis de sua adolescência não foi um lugar fácil para ser gay.

Georgeann Kepchar, que ministrou a disciplina de ciência da computação na escola, via Altman como um de seus alunos mais talentosos na matéria – e com um raro dom de encorajar as pessoas a seguir novos caminhos.

“Ele tinha criatividade e visão, combinadas com a ambição e a personalidade forte para convencer os outros a trabalhar com ele para colocar em prática suas ideias”, disse ela. Altman também me disse que havia pedido a um professor claramente homofóbico para afixar uma placa de “espaço seguro” só para trollar o cara.

Graham, que trabalhou ao lado de Altman durante uma década, via a mesma persuasão no homem de St.Louis.

“Ele tem um talento natural para convencer as pessoas a fazer as coisas”, disse Graham. “Se não é inato, é algo que foi completamente desenvolvido antes de ele fazer 20 anos. Conheci Sam quando ele tinha 19 anos, e lembro pensar naquela época: ‘Então é assim que Bill Gates deve ter sido’.”

Gates e o futuro CEO da OpenAI se conheceram em 2005, quando Altman se candidatou para uma vaga na primeira leva de startups a receber investimentos da Y Combinator. Ele conquistou a vaga – que incluía um aporte semente de US$ 10 mil – e depois de cursar seu segundo ano na Universidade Stanford, largou a faculdade para fundar sua nova empresa, a Loopt, uma startup de rede social que permita o compartilhamento da localização do usuário com amigos e familiares.

Hoje ele diz que, durante sua curta estadia em Stanford, aprendeu mais com as inúmeras noites que passou jogando pôquer do que com a maioria das demais atividades universitárias. Depois de seu primeiro ano na instituição, ele trabalhou no laboratório de IA e robótica supervisionado pelo professor Andrew Ng, que viria a fundar o principal laboratório de IA no Google. Contudo, o pôquer ensinou Altman a ler as pessoas e a avaliar os riscos.

Mostrou-lhe “como perceber padrões nas pessoas ao longo do tempo, como tomar decisões com informações não muito precisas, como decidir quando valia a pena o desconforto, de certa forma, para conseguir mais informações”, ele me disse enquanto passeávamos por seu rancho em Napa. “É um ótimo jogo.”

Depois de vender a Loopt com um lucro modesto, ele passou a integrar a Y Combinator como sócio em regime parcial. Três anos depois, Graham deixou o cargo de presidente da empresa e, para surpresa de muitos em todo o Vale do Silício, escolheu Altman, então com 28 anos, como sucessor.

Trajetória na Y Combinator

Altman não é um programador nem um engenheiro nem pesquisador de IA. Ele é a pessoa que define a agenda, reúne as equipes e fecha os acordos. Como presidente da Y Combinator, ele expandiu a empresa quase abandonada, criando um novo fundo de investimento e um novo laboratório de pesquisa, aumentando em centenas o número de instituições assessoradas a cada ano.

Ele também começou a trabalhar em diversos projetos fora da empresa de investimento, inclusive na OpenAI, que fundou como uma organização sem fins lucrativos em 2015 com um grupo que incluía Elon Musk. De acordo com o próprio Altman, a Y Combinator cresceu cada vez mais preocupada que o envolvimento dele em tantas atividades prejudicasse seu desempenho.

Altman decidiu voltar a focar num projeto que teria, como ele mesmo disse, um impacto real no mundo. Ele cogitou a política, mas escolheu a IA.

Altman acreditava, segundo seu irmão mais novo Max, que ele era uma das poucas pessoas que poderiam mudar de forma significativa o mundo por meio da pesquisa em IA, ao contrário de tantas outras que poderiam fazer isso por meio da política.

Em 2019, quando a pesquisa da OpenAI estava decolando, Altman assumiu as rédeas, pedindo demissão do cargo de presidente da Y Combinator para focar em uma empresa com menos de cem funcionários que não estava segura de como faria para pagar as contas.

Em um ano, ele transformou a OpenAI em uma organização sem fins lucrativos com um braço com fins lucrativos. Dessa forma, ele tinha a possibilidade de conseguir o capital necessário para construir uma máquina que pudesse fazer qualquer coisa que o cérebro humano fosse capaz.

Arrecadando ‘10 contos’

Em meados da década de 2010, Altman dividia um apartamento de três quartos e três banheiros em São Francisco com seu namorado na época, seus dois irmãos e as namoradas deles. Os irmãos deixaram de viver juntos em 2016, mas continuam reunidos num grupo de bate-papo, onde passam bastante tempo zoando uns aos outros, como só irmãos podem fazer, disse seu irmão Max. Então, um dia, Altman enviou uma mensagem dizendo que planejava levantar US$ 1 bilhão para a pesquisa de sua empresa.

Um ano depois, ele tinha conseguido fazer isso. Depois de dar de cara com Satya Nadella, CEO da Microsoft, em uma reunião anual de líderes de tecnologia em Sun Valley, Idaho – muitas vezes chamada de “acampamento de verão para bilionários” –, ele negociou pessoalmente um acordo com Nadella e o diretor de tecnologia da Microsoft, Kevin Scott.

Alguns anos depois, Altman enviou uma mensagem para seus irmãos novamente, dizendo que planejava conseguir mais US$ 10 bilhões – ou, como ele disse, “10 contos”. Em janeiro, ele conseguiu isso também, assinando outro contrato com a Microsoft.

Brockman, o presidente da OpenAI, disse que o talento de Altman está em entender o que as pessoas querem. “Ele realmente tenta encontrar o que mais importa para uma pessoa – e, depois, descobre como dar isso a ela”, disse Brockman. “Esse é o algoritmo que ele usa sem parar.”

O acordo colocou a OpenAI e a Microsoft no centro de um movimento que está prestes a criar uma nova versão de tudo, desde motores de busca a aplicativos de e-mail e tutores online. E tudo isso está acontecendo em um ritmo que surpreende até mesmo aqueles que acompanham essa tecnologia há décadas.

Em meio ao frenesi, Altman continua com a tranquilidade habitual – embora admita usar o ChatGPT para ajudá-lo a resumir rapidamente a avalanche de e-mails e documentos que chegam para ele.

Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg deixaram uma marca indelével na estrutura do setor de tecnologia e do mundo. Sam Altman vai ser uma dessas pessoas

Kevin Scott, diretor de tecnologia da Microsoft

Scott acredita que Altman acabará sendo estudado ao mesmo tempo que Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg.

“Essas são pessoas que deixaram uma marca indelével na estrutura do setor de tecnologia e talvez na estrutura do mundo”, disse ele. “Acho que Sam vai ser uma dessas pessoas.”

O problema é que, ao contrário dos dias em que a Apple, a Microsoft e a Meta estavam começando, as pessoas estão bem conscientes de como a tecnologia pode transformar o mundo – e como ela pode ser perigosa.

O homem do meio

Em março, Altman tuitou uma selfie com uma luz alaranjada na qual se via ele sorrindo entre uma mulher loira fazendo o sinal da paz e um cara barbudo usando um chapéu fedora.

A mulher era a cantora canadense Grimes, ex-esposa de Musk, e o cara de chapéu era Eliezer Yudkowsky, alguém que se autodescreve como pesquisador de IA e acredita, talvez mais do que qualquer pessoa, que a IA poderia um dia destruir a humanidade.

A selfie – tirada por Altman durante uma festa que sua empresa estava realizando – mostra como ele está próximo desse modo de pensar. Mas ele tem suas próprias opiniões a respeito dos perigos da IA.

Yudkowsky e os textos escritos por ele tiveram um papel importante na criação tanto da OpenAI como da DeepMind, outro laboratório determinado a desenvolver inteligência artificial geral.

Ele também ajudou a dar origem à vasta comunidade online de altruístas racionalistas e eficazes que estão convencidos de que a IA é um risco existencial. Este grupo surpreendentemente influente é representado por pesquisadores de muitos dos principais laboratórios de IA, inclusive da OpenAI. Eles não veem isso como hipocrisia: muitos deles acreditam que, como entendem os perigos com maior clareza do que qualquer outra pessoa, estão na melhor posição para desenvolver essa tecnologia.

Altman acredita que os altruístas eficazes desempenharam um papel importante no surgimento da IA, alertando o setor para os perigos. Ele também acredita que eles exageram sobre esses perigos.

Conforme a OpenAI desenvolvia o ChatGPT, muitos outros, inclusive o Google e a Meta, estavam construindo tecnologias semelhantes. Mas foram Altman e OpenAI os escolhidos para compartilhar a tecnologia com o mundo.

Muitos da área criticaram a decisão, argumentando que isso provocou uma corrida para lançar uma tecnologia que não dá respostas corretas, inventa coisas e, em breve, poderia ser usada para espalhar desinformação de forma rápida. Recentemente, o governo italiano proibiu temporariamente o ChatGPT no país, mencionando preocupações com a privacidade e receios com a exposição de menores a conteúdo inadequado.

Altman defende que, em vez de desenvolver e testar a tecnologia totalmente em segredo antes de lançá-la para o público, é mais seguro compartilhá-la aos poucos para que todos possam compreender melhor os riscos e como lidar com eles.

Ele me disse que seria um “início bastante lento”.

Quando perguntei a Altman se uma máquina que pudesse fazer qualquer coisa que o cérebro humano fosse capaz acabaria anulando o preço do trabalho humano, ele rejeitou a ideia. E disse que não conseguia imaginar um mundo no qual a inteligência humana fosse inútil.

Caso esteja errado, ele acha que pode se redimir com a humanidade.

Altman reconstruiu a OpenAI como o que chamou de empresa com lucro limitado. Isso lhe permitiu conseguir bilhões de dólares em recursos financeiros, prometendo lucro a investidores como a Microsoft. Mas esses lucros têm um valor máximo possível, e qualquer receita além desse teto será redirecionada para a parte sem fins lucrativos da OpenAI fundada em 2015.

Seu grande plano é que a OpenAI atraia boa parte da riqueza do mundo por meio da criação da AGI e, em seguida, redistribua essa riqueza para as pessoas. Em Napa, enquanto conversávamos sentados perto do lago no coração de sua fazenda, ele descartou vários valores – US$ 100 bilhões, US$ 1 trilhão, US$ 100 trilhões.

Se a AGI criar de fato toda essa riqueza, ele não tem certeza de como a empresa irá redistribuí-la. O dinheiro pode significar algo muito diferente nesse novo mundo.

Como me disse uma vez: “Sinto que a AGI pode ajudar com isso”.

https://www.estadao.com.br/link/empresas/sam-altman-pai-do-chatgpt-nao-esta-preocupado-com-os-perigos-da-inteligencia-artificial/

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