Número de brasileiros com ensino superior morando nos Estados Unidos bate recorde em 2022

De acordo com levantamento da AG Immigration, escritório de advocacia imigratória, só no último ano foram concedidos 1.983 vistos EB-1 e EB-2 para brasileiros, o maior índice de autorizações da história

Luciana Lima – Exame – 14/12/2022

O número de profissionais brasileiros qualificados que deixaram o Brasil rumo aos Estados Unidos bateu recorde em 2022.

Segundo um levantamento da AG Immigration, escritório de advocacia imigratória sediado em Washington, D.C, a quantidade de brasileiros com nível superior que obtiveram o green card americano aumentou mais de 13 vezes no ano fiscal de 2022 em comparação com o mesmo período de 2021.

O levantamento, realizado com base em números oficiais do governo americano, levou em consideração as principais categorias de visto EB, autorização destinada a profissionais considerados com habilidades e carreiras acima da média.

De acordo com os dados, 147 brasileiros receberam o visto em 2021. Em 2022, esse número saltou para 1.983 – o maior da história.

Os dados são referentes ao ano fiscal americano, período que se inicia em 1º outubro de um ano e termina em 30 de setembro do ano seguinte, forma por meio da qual o governo dos EUA calcula o orçamento e define as políticas públicas.

O que são os vistos EB-1 e EB-2?

Os vistos EB-1 e EB-2 foram criados na década de 1990 para atrair trabalhadores qualificados para os EUA, fazendo com que contribuam para o desenvolvimento científico, econômico e cultural do país.

Ambos os vistos têm critérios de elegibilidade que exigem, via de regra, que o profissional estrangeiro comprove ampla experiência na área em que atua e pelo menos uma pós-graduação, embora haja exceções.

– (AG Immigration/Divulgação)

Segundo o advogado de imigração Felipe Alexandre, a popularidade deles tem causado uma fuga de cérebros do Brasil.

“Enquanto o EB-1 destina-se aqueles profissionais entre os 5% mais talentosos de uma indústria, como um pesquisador renomado, o EB-2 abrange os 15% mais qualificados de uma área, como um engenheiro com mais de dez anos de experiência, um gerente de marketing com passagem em grandes empresas ou um dentista com algum tipo de especialização”, diz Alexandre, sócio-fundador da AG Immigration.

O desejo dos brasileiros pelo visto EB tem crescido de forma significativa nos últimos cinco anos. Em 2017, por exemplo, os EUA concederam 207 green cards deste tipo para brasileiros, praticamente dobrando a quantidade do ano anterior. Em 2018, o número subiu para 379, chegando a 494 em 2019 e 415 em 2020.

Os dados históricos mostram que o patamar registrado em 2022, de 1.983 vistos EB-1 e EB-2 emitidos para brasileiros, supera o somatório dos 19 anos anteriores (2021-2003).

De acordo com Rodrigo Costa, CEO da AG Immigration, isso demonstra uma mudança no perfil de brasileiros que emigraram para os Estados Unidos.

“Se antes havia a predominância dos profissionais menos qualificados academicamente, e inclusive aqueles que entravam de maneira ilegal para trabalhar em subempregos, temos visto quase que uma inversão do cenário nos últimos 20 anos, com cada vez mais pós-graduados, gestores, executivos e pesquisadores sêniores vindo para cá”, afirma Costa.

De acordo com ele, essa mudança no perfil do brasileiro deve-se à expansão do ensino superior nos últimos 20 anos e ao acesso à informação.

“Há um número muito maior de escritórios de imigração hoje em dia, além de inúmeros criadores de conteúdo na internet que divulgam sua rotina nos EUA. Isso estimula mais pessoas a buscarem esse mesmo estilo de vida, dada a influência cultural americana sobre o Brasil”, afirma Costa.

Em 2022, aliás, o Brasil foi o terceiro país que mais teve aprovações nas três categorias principais do visto EB. Em 2021, havia ficado na 11º colocação.

https://exame.com/carreira/numero-de-brasileiros-com-ensino-superior-morando-nos-estados-unidos-bate-recorde-em-2022/

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Globalização está ‘quase morta’, diz o pai da indústria de chips

Giuliano Guandalini – Brazil Journal 12 de dezembro de 2022 

Poucas nações se beneficiaram da globalização mais do que Taiwan, e poucas empresas do mundo se beneficiaram mais da globalização do que a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company – mais conhecida pela sigla TSMC, a maior fabricante dos chips mais avançados disponíveis no mercado.  

Pois o fundador da companhia e “pai” da indústria de chips de Taiwan, Morris Chang, o fundador da TSMC, acaba de decretar a morte da globalização. Ou quase isso. 

 “A globalização está quase morta e o livre comércio está quase morto,” disse Chang. “Muitas pessoas ainda esperam que um dia eles estarão de volta, mas eu não acredito nisso.”  

O fundador da TSCM fez o comentário ao discursar na cerimônia que marcou a entrega dos primeiros equipamentos da fábrica de chips state of the art que a empresa está construindo em Phoenix, no Arizona. Na plateia: o Presidente Joe Biden e dezenas de executivos da indústria de alta tecnologia, incluindo Tim Cook, o CEO da Apple, um dos maiores clientes da TSMC.  

Segundo a agência de notícias japonesa Nikkei Asia, os comentários de Chang partem da constatação de que a disputa geopolítica entre os EUA e a China está dividindo o mundo ao meio, pelo menos no que diz respeito ao desenvolvimento de tecnologia de ponta. As restrições impostas pelo governo americano à transferência de tecnologia dificultam cada dia mais que empresas como a TSMC sejam fornecedoras de companhias chinesas.    

O título da reportagem do New York Times evidencia o que está em jogo: “Em Phoenix, um gigante do chip de Taiwan constrói um hedge contra a China”.  “As empresas e as autoridades dos EUA há muito tempo se preocupam com a dependência em relação a Taiwan, que a China reivindica como seu próprio território,” diz o NYT.  Agora esse hedge começa a tomar forma no Arizona – e a fábrica será uma proteção tanto para a indústria americana, que reduz a sua dependência em relação a Taiwan, como para a TSMC, que diversifica a sua produção.  

Sintomáticas da nova geopolítica foram as declarações de Tim Cook no evento. “Graças ao trabalho duro de tantas pessoas, poderemos ter o orgulho de ver esses chips estampados com ‘Made in America’. Esse é um momento muito significativo. É a chance dos EUA entrarem nessa nova era da manufatura avançada de ponta”. Inicialmente, a fábrica da TSMC no Arizona envolveria investimentos de US$ 12 bilhões para a construção de uma unidade de produção. 

Agora a companhia confirmou que erguerá no local uma segunda unidade – e com tecnologia ainda mais avançada. O capex vai chegar a US$ 40 bilhões.  Será a primeira fábrica de chips dos EUA apta a fabricar chips de 3 nanômetros, os menores e mais avançados do mercado. Prevista para entrar em operação em 2026, essa planta possibilitará que pela primeira vez seja produzido em solo americano aquilo que existe de mais sofisticado na tecnologia de microprocessadores, reduzindo a dependência em relação aos fornecedores na Ásia. 

O tamanho em nanômetros se refere à distância entre os transistores de um chip – quando menor o número, mais poderoso tende a ser o processador. Por serem os ‘cérebros’ dos aparelhos eletrônicos, esses chips são vitais para a tecnologia de smartphones, veículos autônomos, supercomputadores e inteligência artificial, e até nos teclados da Yamaha. A primeira fábrica da TSMC produzirá chips de 4 nanômetros, presentes, por exemplo, no iPhone 14 Pro. Um processador desses, capaz de realizar até 17 trilhões de cálculos por segundo, contém 15 bilhões de transistores – e construir um componente de tamanha complexidade é coisa para poucos no mundo, praticamente uma exclusividade do gigante taiwanês. 

Chang, de 91 anos, fez boa parte de sua carreira nos EUA. Em 1987, de volta a Taiwan, fundou a TSMC, que se especializou em fabricar os chips desenvolvidos por outras companhias. Entre seus grandes clientes estão alguns dos principais desenvolvedores fabless, ou seja, sem fábrica, como Apple, AMD, ARM e Nvidia.  

O megainvestimento no Arizona é uma evidência eloquente do onshoring, isto é, o processo de reverter o offshoring e trazer de volta para os EUA a manufatura de itens cuja produção, por décadas, havia sido concentrada no exterior por razões de custo.   Os EUA já foram os maiores fabricantes de microprocessadores do mundo. Mas seu market share hoje é ao redor de 10%, embora o país se mantenha entre os líderes no desenvolvimento da tecnologia no setor. 

Em termos de receita obtida com o design de chips, as empresas americanas tiveram um share de 46% no mercado global no ano passado. É uma parcela expressiva, mas também em declínio. Em 2015, o percentual era de 50%.  

A atração do investimento da TSMC para os EUA e o onshoring da produção de chips são na prática um reequilíbrio de forças na geopolítica. Para os americanos, seria trágico se um fornecedor tão vital para sua indústria de alta tecnologia caísse sob o domínio da China, uma nação que deixou de ser vista em Washington como um parceiro minimamente confiável.  Implícito nesse movimento coordenado pela Casa Branca está o reconhecimento de que Taiwan, a democrática “república rebelde”, poderá em breve ser comandada pelo Partido Comunista Chinês.

Leia mais em https://braziljournal.com/globalizacao-esta-quase-morta-diz-o-pai-da-industria-de-chips/ .

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A incrível história de um país que terceirizou o planejamento

O Estado brasileiro parece ter desistido de definir quem seremos. Não define o que e como quer ser no futuro

Por Horácio Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski – Valor – 14/12/2022

Coisas curiosas acontecem neste país tropical. É o Cindes (Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento), e não o Ministério da Economia, que tem o mais completo estudo sobre liberalização do comércio externo brasileiro. É o Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), e não o Ministério de Minas e Energia, que produziu o melhor entendimento sobre transição energética. Os melhores estudos sobre inovação? São da CNI/MEI, da Fiesp e do Iedi, e não do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações. Educação Fundamental – os entendidos estão no “Todos pela Educação”. Educação Profissional e Tecnológica – os especialistas se reúnem na Fundação Itaú. Os grandes estudiosos da área de saúde estão no IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde), e não no Ministério da Saúde.

Foram ações do Programa “Todos pela Saúde”, agora um Instituto, que criaram inteligência em entender as particularidades fundamentais da pandemia, e o “Unidos pela Vacina”, que com uma agilidade sem hierarquia e com foco em resultados, ocuparam os espaços vazios criados pela ausência de ação governamental diante do flagelo da covid.

O Estado brasileiro parece ter desistido de definir quem seremos. Não define o que e como quer ser no futuro

No caso da Amazônia, das mudanças climáticas, do uso da terra, da proteção de biomas, os melhores trabalhos estão no Imazon, no Observatório do Clima, no Instituto Arapyaú, no ICS (Instituto Clima e Sociedade), na SOS Mata Atlântica. Queremos acesso a mapas de uso da terra no Brasil, entre 1985 e 2021 com resolução de 30 metros? Não procuremos no IBGE, busquemos no MapBiomas. O mais amplo levantamento sobre o uso de insumos da biodiversidade amazônica para aplicações que vão de produtos artesanais, alimentos funcionais, defensivos a filmes biodegradáveis foi realizado pela WTT – World-Transforming Technologies.

Precisa entender de violência – procure o Instituto Sou da Paz ou o Instituto Igarapé. Curioso sobre alternativas aos programas de responsabilidade social do governo? Dirija-se ao CDPP (Centro de Debate de Políticas Públicas) ou à Casa das Garças. De onde veio a proposta mais sólida de reforma tributária: do CCiF (Centro de Cidadania Fiscal).

Quer conhecer o melhor sistema de acompanhamento de informações sindicais? Não procure o Ministério do Trabalho, vá diretamente ao site do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), entidade criada e mantida pelo movimento sindical brasileiro. Quer conhecer todos os meandros do comércio ilegal do ouro? Selecione entre os estudos do Instituto Escolhas e os do Instituto Socioambiental. Quer conhecer propostas para a política ambiental brasileira em 2023 e 2024? Leia o trabalho “Construindo uma potência ambiental” organizado pelo Observatório do Clima.

Esta é apenas uma lista sumária. Há instituições públicas de excelência planejando o país? Temos o Ipea, a EPE, a Infra SA, a Fiocruz e ainda outras. Há programas eficazes e pessoas capazes no governo, mas que nem sempre operam otimizando seus recursos, com uma orientação clara, um programa de metas e um processo continuado e sistemático de avaliação. É só observar a incrível quantidade de ONGs, associações, Institutos, Fundações e ações individuais e coletivas para se perceber que é o setor privado – majoritariamente instituições sem fins lucrativos – que crescentemente se organiza para pensar o Brasil.

Isto não é todo mau, mas Estado nenhum pode prescindir de planejar o seu futuro. São os eleitores – afinal – que referendam direta ou indiretamente os formuladores das políticas públicas que deveriam organizar o nosso futuro.

O Estado brasileiro parece ter desistido de definir quem seremos. Não planeja, não define o que e como quer ser no futuro. A iniciativa privada, via as ações de mercado de seus atores, deve certamente ter um papel importante a exercer. Mas o Estado não pode abdicar de estabelecer o que e como devemos construir os arcabouços da saúde, educação, inovação, segurança pública, transporte, habitação popular, defesa e tantas outras áreas. A definição da política ambiental, para ficar apenas em mais um exemplo, não é tarefa para o setor privado: é obrigação dos poderes Executivo e Legislativo brasileiro, legitimados pelo voto popular.

Não queremos com isto privilegiar um Estado centralizador e patrimonialista, ao contrário, mas, com sua capacidade radicular e escala nacional, ele tem um papel central a cumprir.

O debate sobre caminhos, depois de um longo processo eleitoral, às vésperas do início de um novo governo, causa a impressão de que estamos partindo de um papel em branco para reinventar o país, impulsionado por um voluntarismo desatento aos erros e acertos do passado e às boas formulações já disponíveis. Talvez fosse o momento de redefinir o papel do Estado no estabelecimento das políticas públicas. A boa notícia é que há inúmeras instituições privadas que podem fornecer subsídios e força de trabalho de muito boa qualidade para que este processo tenha sucesso. A má é que muitas vezes elas são entendidas como inimigas, concorrentes, numa visão tacanha e que desperdiça a capacidade de unir a sociedade em torno de projetos nacionais de prazo mais longo.

É hora de remontar a capacidade de planejar do Estado brasileiro. Mas fazê-lo com cuidado e com sabedoria, usando plenamente os conhecimentos já acumulados por anos de trabalho do setor privado. Fazê-lo criando competências no setor público ao mesmo tempo em que se valoriza o trabalho que inúmeras organizações majoritariamente não-governamentais fizeram e devem continuar fazendo, para termos sempre disponíveis visões alternativas, fonte de valiosos subsídios ao trabalho do planejamento público.

É hora de somar. Aos eleitos, a palavra e a ação.

Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski são empresários.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/a-incrivel-historia-de-um-pais-que-terceirizou-o-planejamento.ghtml

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Corning, que criou tela do iPhone, expande fábrica no Brasil de olho no mercado de saúde pós-pandemia

Americana vai produzir em planta no Rio utensílios de alta precisão para laboratórios

Por Rennan Setti – O Globo – 01/12/2022 

Produtos da linha Ciências da Vida da Corning Produtos da linha Ciências da Vida da Corning Divulgação

A Corning, companhia fundada há 171 anos e cujos vidros estiveram em inovações que vão das lâmpadas de Thomas Edison à tela do iPhone, está expandindo sua fábrica no Brasil. A empresa nova-iorquina, que já fazia componentes de fibra óptica em sua unidade no Rio, passará também a fabricar produtos para o mercado de saúde.

A estratégia é explorar a expansão de demanda desencadeada pela crise da Covid e o espaço aberto pela bagunça logística das cadeias globais, que tornou mais atraente a produção local. O investimento na expansão foi de R$ 10 milhões.

A planta em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio — sua única no país — vai produzir plásticos conhecidos como microtubos e ponteiras para micropipetadores. São ferramentas de alta precisão para manipulação de líquidos usadas por laboratórios em pesquisas que incluem a fabricação de vacinas e a análise genômica. Os produtos da Corning desse segmento já eram usados no Brasil por laboratórios como a Fiocruz — inclusive na elaboração da vacina contra a Covid-19 —, mas eram produzidos em fábricas localizadas em China e México.

A expectativa é que a nova linha produza até 254 milhões de peças por ano. Toda a matéria-prima será local, e, por ora, a unidade fornecerá apenas para clientes nacionais.

— Durante a pandemia, o consumo desses itens disparou e houve uma “disrupção” no fornecimento. Isso abre uma oportunidade. Hoje, 95% desses produtos usados no Brasil são importados. Estamos tentando ser mais competitivos que os importados, cujo custo também é impactado por tributação elevada — explicou Flávio Guimarães, presidente da Corning para América Latina e Caribe. — Mas, acima de tudo, enxergamos tendência de crescimento continuado nesse mercado. Em cinco anos, a gente quer crescer cinco vezes nossa participação no segmento.

Fábrica no Brasil após aquisição

Os produtos fabricados no Rio serão da Axygen, uma das marcas da divisão batizada de Ciências da Vida da Corning e que foi comprada por US$ 400 milhões em 2009. Para abrigar sua fabricação, a unidade ganhou uma “sala limpa”, ambiente controlado para evitar contaminação da produção — o que não era necessário na linha de fibra óptica. Cerca de 40 funcionários vão trabalhar diretamente na divisão de saúde. Até então, a fábrica tinha 700 empregados.

A Corning começou a produzir no Brasil há nove anos, quando adquiriu a fabricante de componentes de telecomunicações Bargoa das mãos da espanhola Abengoa.

Em termos de faturamento, a divisão de Ciências da Vida é a menor da Corning, respondendo por 9% dos US$ 3,5 bilhões em vendas registrados no terceiro trimestre. O carro-chefe é o segmento de comunicações ópticas, que responde por 38% do faturamento.

Um telefonema de Steve Jobs

A Corning faturou US$ 14 bilhões no ano passado e vale hoje quase US$ 30 bilhões na Bolsa de Nova York. Fundada em 1851, a companhia teve papel importante em alguns marcos da evolução econômica americana a partir da Segunda Revolução Industrial, da eletrificação ao smartphone.

Foi a Corning que criou os vidros utilizados nas primeiras lâmpadas de Thomas Edison. Mais de um século depois, seu CEO, Wendell Weeks, recebeu uma ligação de Steve Jobs pedindo ajuda em sua nova invenção: um celular sem teclas. O fundador da Apple temia que a tela do novo aparelho ficasse rapidamente arranhada se fosse produzida em plástico e encomendou à Corning uma alternativa em vidro. A fabricante desenvolveu então o Gorilla Glass, que combinava espessura fina com resistência elevada. O vidro acabou na tela do iPhone e, nos anos seguintes, nos displays dos smartphones e tablets “top de linha” das principais fabricantes de eletrônicos do mundo.

https://oglobo.globo.com/blogs/capital/post/2022/12/corning-que-criou-tela-do-iphone-expande-producao-no-brasil-de-olho-no-mercado-de-saude-pos-pandemia.ghtml

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Guerra na Ucrânia: como Alemanha deixou de depender de gás russo em poucos meses

Jenny Hill – Da BBC News em Wilhelmshaven (Alemanha) 28 novembro 2022

Quando o presidente da Rússia, Vladimir Putin, fechou as torneiras de gás para a Europa, a Alemanha temeu um inverno atormentado por apagões mais do que qualquer outro país.

Mas as autoridades alemãs foram rápidas em garantir suprimentos alternativos, cientes de que a forte dependência do gás russo havia deixado o motor econômico da Europa consideravelmente exposto.

Hoje, poucos meses depois, as luzes brilham nos mercados de Natal e nota-se um tímido otimismo em meio ao ar temperado com Glühwein (vinho quente).

A estratégia que a Alemanha montou às pressas para sobreviver sem o gás russo parece estar funcionando, pelo menos por enquanto.

“A segurança energética para este inverno está garantida”, disse o chanceler social-democrata Olaf Scholz no Parlamento alemão na quarta-feira (23/11).

Buscando outros fornecedores

As jazidas de gás do país são preenchidas, em parte, por uma frenética — e cara — operação de compra nos mercados mundiais de hidrocarbonetos.

Terminal de GNL

Crédito, Uniper

Legenda da foto,

Rússia usou gás como arma para pressionar UE por seu apoio à Ucrânia e reduziu drasticamente fornecimento a vizinhos ocidentais

Da mesma forma, na costa varrida pelo vento do Mar do Norte da Alemanha, engenheiros acabam de construir, em tempo recorde, seu primeiro terminal de importação de gás natural liquefeito (GNL).

O GNL é o gás natural resfriado na forma líquida para reduzir seu volume e facilitar seu transporte. E volta a se tornar gás ao chegar a seu destino.

Na Alemanha, esse tipo de projeto costuma levar anos, devido à excessiva burocracia. No entanto, as autoridades eliminaram entraves para que a obra fosse concluída em menos de 200 dias.

A parte mais importante do terminal, uma “unidade flutuante de armazenamento e regaseificação” (FSRU), ainda não foi garantida. O FSRU, que é essencialmente um navio especializado no qual o GNL é convertido de volta ao estado gasoso, será alugado por US$ 207.259 (R$ 1,1 milhão) por dia.

Dentro de algumas semanas, petroleiros de países como Estados Unidos, Noruega ou Emirados Árabes Unidos poderão começar a entregar suas cargas no porto de Wilhelmshaven.

A operadora do terminal, a Uniper, que agora é controlada quase inteiramente pelo governo alemão, se recusou a divulgar seus fornecedores, mas reforçou que os contratos já estão em vigor.

Berlim planeja construir outros 5 terminais de GNL. A maioria deve ser concluída no ano que vem.

Empresário alemão Ernst Buchow

Legenda da foto,

Empresário Ernst Buchow admitiu que sua empresa depende do gás, embora espere mudar para um combustível mais verde no futuro

Uma corrida contra o tempo

A poderosa indústria alemã prendeu a respiração enquanto o governo executava sua arriscada estratégia.

“Se não temos gás, temos que fechar o forno”, diz Ernst Buchow, dono de uma olaria a meia hora de Wilhelmshaven, à BBC.

Os tijolos que produz devem ser queimados em um forno gigante a temperaturas de até 1.200 graus Celsius. Num futuro próximo, o empresário espera poder mudar para o hidrogênio verde, mas neste momento ainda está totalmente dependente do gás.

“Não é apenas culpa dos políticos. A indústria queria os contratos de gás russos “, acrescenta.

Há apenas um ano, os acordos com Moscou forneciam à Alemanha 60% do gás consumido, grande parte por meio do gasoduto Nordstream.

Apesar da significativa oposição política e cidadã, o governo esperava colocar em operação o controverso Nordstream 2, que teria dobrado a quantidade de gás russo que chegava à Europa via Alemanha. No entanto, a invasão da Ucrânia enterrou esses desejos.

A agência federal de rede de energia diz que hoje a Alemanha administra sem combustível russo.

Mas, para evitar desabastecimento durante o inverno, seus especialistas dizem que os terminais de GNL devem entrar em operação no início do próximo ano e que o consumo de gás deve ser reduzido em 20%.

Chegar até aqui pode ser considerado uma grande conquista nacional, mas não veio de graça.

Outro lado

A Alemanha, um peso pesado da economia mundial, muitas vezes consegue o que quer. Mas seu novo apetite por GNL está intensificando a demanda global.

E isso pode colocar países mais pobres como Bangladesh e Paquistão em uma posição vulnerável.

“Existem muitos países, especialmente economias emergentes, que estão fora do mercado e não podem mais se abastecer com o GNL de que precisam, porque têm menos poder aquisitivo do que a Alemanha”, diz o professor Andreas Goldthau, da Escola Willy Brandt de Relações Públicas na Universidade de Erfurt, na Alemanha.

Goldthau alerta que isso coloca essas nações em maior risco de sofrer apagões ou ter que recorrer a energias “mais sujas”, como o carvão, justamente para evitar esse cenário.

Canos de gás

Legenda da foto,

Tensões causadas pela invasão da Ucrânia obrigaram Berlim a cortar dependência energética que havia adquirido nas últimas décadas com a Rússia

E os planos da Alemanha para completar sua transição para um modelo verde? Afinal, o GNL é um combustível fóssil.

Todos os envolvidos no projeto Wilhelmshaven insistem que o GNL é um combustível de “transição”.

A Uniper prometeu construir uma infraestrutura para lidar com hidrogênio verde junto com o terminal de GNL.

Isso alimentou os planos ambiciosos do conselho municipal de Wilhelmshaven. O prefeito, Carsten Feist, garantiu que o terminal de GNL não trará muitos empregos para a cidade. Mas isso vai acontecer com seus planos de criar um centro de energia verde.

“Grande parte da transformação energética de que precisamos para que nosso planeta tenha um clima habitável em 50 a 100 anos, muito do que é necessário na Alemanha, ocorrerá em e através de Wilhelmshaven”, diz ele.

Custo volumoso

Mas o custo mais impressionante da estratégia de Berlim para cortar sua dependência do gás russo é monetário.

Os seis terminais de GNL obrigaram o governo alemão a gastar cerca de US$ 6,3 bilhões. Isso é mais que o dobro do que os ministros haviam inicialmente orçado e pode aumentar ainda mais no próximo ano.

A Alemanha aprendeu tarde demais o valor de um abastecimento seguro de energia e agora está pagando caro por isso.

– Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63769249

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Conheça a empresa que se tornou o braço direito das startups no Brasil

A redução do tempo dos ciclos de inovação trouxe novos desafios para as startups, mas também oportunidades, defende Pedro Waengertner, CEO da ACE

Pedro Waengertner: empresas com cultura forte ficam mais tempo no topo (Omar Paixão/Divulgação)

Pedro Waengertner: empresas com cultura forte ficam mais tempo no topo (Omar Paixão/Divulgação)

Daniel Salles – Exame – Publicado em 12/12/2022 

A palavra mais dita na ACE, não há dúvida, é “inovação”. Criada há exatos dez anos, a companhia já avaliou mais de 25.000 startups, acelerou 450 delas e investiu em 120. Fundada por Pedro Waengertner, que exerce o cargo de CEO, e Mike Ajnsztajn, a empresa se apresenta como uma holding de inovação em negócios e apoio ao empreendedorismo. Além de catapultar startups, presta consultoria de inovação.

Com novas fontes de receita e ganhos de eficiência, a ACE ajudou mais de 140 companhias — da Vale à Unilever, da Ambev à Mastercard — a gerar cerca de 3 bilhões de reais extras. Autor do best-seller A Estratégia da Inovação Radical, que esmiúça os princípios seguidos por companhias célebres do Vale do Silício, Waengertner compreende como poucos que os ciclos de inovação estão cada vez mais curtos. O que, segundo ele, se traduz em novos desafios para as startups, mas também em oportunidades. A seguir, o CEO detalha sua tese.

→ Por que os ciclos de inovação estão cada vez mais curtos?

Na época da Revolução Industrial, duas pessoas podiam construir uma máquina a vapor simultaneamente, em lugares diferentes, sem que uma soubesse da invenção da outra. A história dos Irmãos Wright e de Santos Dumont, que inventaram o avião, serve de prova. Hoje, as informações voam e qualquer invenção pode ser copiada. E cria-se muito coletivamente.

O futuro do bitcoin e do ethereum, por exemplo, está sendo decidido por comunidades da Web3. Por outro lado, não é mais preciso começar do zero, o que acelera muito a inovação. Você pode unir o seu SaaS (sigla em inglês para “software como serviço”), por exemplo, a um sistema de inteligência artificial já existente. Por fim, há muito mais dinheiro disponível para financiar a inovação. Com o venture capital, que ganhou força só nos últimos 30 anos, qualquer empresa pequena pode vir a concorrer com gigantes estabelecidos. 

→ Ciclos mais curtos podem se traduzir em oportunidades para as startups?

Sim, e em parte porque o ritmo de adoção de novas tecnologias é cada vez maior. Atualmente, um dos aplicativos mais baixados na App Store nos Estados Unidos é o Gas, que, em resumo, permite descobrir se alguém da escola acha você bonito. Bombou e existe só há três, quatro meses. Pode ser que ele desapareça tão rapidamente como surgiu? Pode.

O que faz a diferença é a chamada vantagem competitiva sustentável. As startups que se mantêm no topo são aquelas que atingiram determinada escala de distribuição, que têm uma engenharia de marketing eficiente, que souberam implantar uma cultura, e por aí vai.

A longevidade do negócio depende de tudo isso, e não só da invenção de um novo produto — como o avião, no começo do século passado. Todo software, aliás, pode ser copiado. É por isso que, provavelmente, as grandes empresas não estarão vendendo, daqui a dez anos, os mesmos produtos que vendem hoje. A fórmula que elas têm para inovar é muito mais relevante do que os produtos que oferecem atualmente, pois estes podem cair em desuso. 

→ Com ciclos mais curtos, muitas startups não correm o risco de já nascerem com prazo de validade?

O segredo é não focar o produto, e sim o problema que a startup se propõe a resolver. Pegue o Google de exemplo. Ele resolve dois problemas: ajuda todo mundo a pesquisar e conecta os anunciantes a potenciais clientes. Foi uma das maiores invenções do século, pois deu eficiência à publicidade. O Facebook usou exatamente a mesma fórmula e se transformou em uma máquina de imprimir dinheiro. A questão é se, no médio e no longo prazo, o produto oferecido pelo Google continuará resolvendo o problema da publicidade ou se a companhia será obrigada a se reinventar. Que o problema vai continuar existindo não há dúvida. Porque as marcas sempre estarão em busca de consumidores. 

→ Por que a inovação não pode ser entendida simplesmente como um produto ou projeto disruptivo?

Porque só um produto inovador não basta. É preciso inovar também em aspectos que passam despercebidos. O produto é entregue de maneira inovadora? Há uma estratégia inovadora para fazer com que os clientes voltem a comprá-lo? Os demais elementos da equação merecem o mesmo rigor e atenção dados ao produto. Todo mundo adora robôs ou qualquer item que exale tecnologia. Mas de quantos robôs nós realmente precisamos? Quantas pessoas comprariam um? As startups mais inovadoras não dispõem apenas de um produto ímpar. Elas inovaram em diversos pontos para “resolver o problema” dos clientes da melhor maneira possível. Às vezes, um suporte ao consumidor eficiente é mais inovador do que um produto fora de série — e pode colocar sua startup na dianteira.

→ Em 2013, quando a Aileen Lee cunhou o termo “unicórnio” para startups com valuation de mais de 1 bilhão de dólares, ele podia ser aplicado a 39 empresas. Atualmente, esse número supera 1.200. Essa marca ficou obsoleta?

Cerca de 20 empresas de tecnologia listadas nos Estados Unidos valem mais de 10 bilhões de dólares. Ao mesmo tempo, mais de 100 empresas com capital fechado dizem valer mais de 10 bilhões de dólares. A maioria dessa centena, provavelmente, não vale tudo isso. O problema é que uma startup não vira unicórnio por causa do faturamento ou da opinião dos clientes. Vira porque os investidores e os empreendedores decidiram que ela vale 1 bilhão de dólares. Ainda assim, essa marca diz muito sobre a startup, que conseguiu gerar muito valor e geralmente em muito pouco tempo. Nos últimos anos, com excesso de liquidez no mercado, muitas star­tups receberam aportes, sobretudo nas rodadas mais avançadas, que as colocaram no clube dos unicórnios. Mas houve várias distorções. E é por isso que algumas startups, na hora do IPO, acabam valendo menos do que antes. E há casos de unicórnios que desapareceram. 

→ Muitas startups fizeram demissões em massa neste ano. De que forma esse fenômeno deve ser compreendido?

Ele é parte de uma correção generalizada dos valores das startups. Na prática, o mercado está dizendo que não acredita que elas valham tanto quanto dizem e está cobrando performance. Está exigindo Ebitda e alguma taxa de crescimento. Para as startups, a única saída é fazer as contas e diminuir os custos fixos. Porque os grandes fundos de venture capital, como SoftBank e Tiger Global, estão investindo agora com mais austeridade. Os empreendedores que estão gastando dinheiro despreocupadamente, contando com futuras rodadas de investimento, deveriam mudar de estratégia, porque elas podem não acontecer.  

→ Para muitas startups, o IPO é tido como uma linha de chegada. Não pode ser uma camisa de força para empresas muito disruptivas?

Nos últimos anos, muitas startups brasileiras abriram o capital cedo demais. Empresas que ainda estão descobrindo como distribuir seus produtos, que não geram receitas expressivas e reinvestem tudo que ganham, não costumam ser bem compreendidas pelos investidores do mercado de capitais. E sobretudo no Brasil, onde empresas tradicionais pagam dividendos expressivos aos acionistas, como a Petrobras. É difícil alguém se convencer a comprar papéis que vão demorar anos e anos para dar retorno. Nos Estados Unidos é mais comum. Daí a famosa carta que Jeff ­Bezos escreveu no IPO da Amazon, avisando os futuros acionistas de que não distribuiria dividendos tão cedo. O Facebook está apanhando feito cachorro porque resolveu gastar 20 bilhões de dólares, que poderiam ter sido distribuídos aos acionistas, com o metaverso. Está agindo como uma startup novamente. Já a Apple atingiu o valuation atual, de 2,1 trilhões de dólares, porque Tim Cook passou a distribuir dividendos de maneira consistente. 

→ Quais lições de gigantes do Vale do Silício as outras startups não estão seguindo?

Os gigantes de lá criaram formas particulares de agir. A Amazon, que não é uma notória pagadora de dividendos, reinveste em inovação. Daí o surgimento da Alexa, do Kindle e do Amazon Web Services, que ajudam a manter a companhia relevante. Já o Google e a Apple mantêm o dinheiro no caixa, enquanto a Salesforce aposta em aquisições. De modo geral, todas as companhias de lá que faturam bilhões e seguem inovando continuam a ser tocadas pelos fundadores. No Brasil, geralmente, eles vão para o conselho de administração e são substituídos por executivos do mercado. Quando isso ocorre, o ritmo tende a mudar. 

 → As companhias tradicionais deveriam se inspirar nas startups?

As empresas tradicionais costumam se deparar com o chamado dilema da inovação. Elas inovaram lá atrás, se deram bem e hoje geram resultados enormes. E dificilmente vão dar um salto em outra direção. O BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), por exemplo, está conseguindo entrar no segmento de varejo, algo que é muito difícil. As empresas consolidadas deveriam, sim, experimentar mais, como as startups, para dar novos saltos. Diversas startups, por outro lado, implodiram porque não souberam se estruturar. Não dá para apostar só em disrupção. Também é preciso agir como qualquer empresa consolidada e dar a devida atenção à governança.

https://exame.com/revista-exame/velocidade-favoravel/

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Economia dos oceanos, China é a nação preponderante

Por João Lara Mesquita – Estadão – 11 de outubro de 2019

Economia dos oceanos, China é a nação preponderante mais uma vez…

Economia azul, ou economia dos oceanos, é uma expressão em economia relacionada à exploração e preservação do meio marinho. Seu escopo de interpretação varia entre as organizações. Segundo o Banco Mundial,  a economia azul é o “uso sustentável dos recursos oceânicos para o crescimento econômico, melhores meios de vida e empregos, preservando a saúde do ecossistema oceânico”.

Economia dos oceanos de acordo com a ONU

Já, para as Nações Unidas, “a Economia dos oceanos “compreende uma variedade de setores econômicos e políticas relacionadas. Juntas, determinam se o uso dos recursos oceânicos é sustentável. Um desafio importante é entender e gerenciar melhor os muitos aspectos da sustentabilidade oceânica. Elas vão da pesca sustentável à saúde do ecossistema. E à prevenção da poluição.”

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

A ONU observa que a Economia Azul ajudará a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Um dos quais, o 14º, é ” Vida na Água”. Ou a conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares, e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável”.

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, com sede em Paris,  é uma organização internacional composta por 35 países membros, que reúne as economias mais avançadas do mundo, bem como alguns países emergentes como a Coreia do Sul, o Chile, o México e a Turquia.

É chamado de ‘grupo dos ricos’, e recentemente esteve na pauta em razão da promessa de Trump a Jair Bolsonaro de facilitar o ingresso do Brasil, coisa que não aconteceu.

OCDE define economia dos oceanos

O site da OCDE assim define a economia dos oceanos: “Abrange indústrias oceânicas (como navegação, pesca, eólica offshore, biotecnologia marinha), mas também os ativos naturais e serviços ecossistêmicos que o oceano fornece (peixes, rotas de navegação, absorção de CO2 e similares).

Como os dois estão intrinsecamente interligados, este relatório aborda muitos aspectos dos serviços ecossistêmicos e do gerenciamento baseado em ecossistemas, focando o tempo todo na dimensão da indústria oceânica.”

Economia oceânica global

ONU: “A economia oceânica global, medida em termos da contribuição das indústrias oceânicas para a produção e o emprego econômicos, é significativa. Os cálculos preliminares com base no banco de dados da economia oceânica da OCDE avaliam a produção da economia oceânica em 2010 em US$ 1,5 trilhão, ou aproximadamente 2,5% do valor agregado bruto mundial (GVA).”

“O petróleo e o gás offshore representaram um terço do valor agregado total das indústrias de base oceânica. Seguidos pelo turismo marítimo e costeiro, equipamentos marítimos e portos.”

Os empregos gerados pela economia dos oceanos em 2010

ONU: “O emprego direto em período integral na economia oceânica totalizou cerca de 31 milhões de empregos em 2010. Os maiores empregadores foram a pesca industrial com mais de um terço do total. E o turismo marítimo e costeiro com quase um quarto.”

A economia dos oceanos deve dobrar até 2030

Ela deve crescer o dobro da taxa do restante da economia global até 2030. Um aspecto às vezes não apreciado desse recente crescimento marinho industrial explosivo é que sua distribuição é altamente desigual. De fato, muitas facetas-chave da nova economia oceânica são dominadas por uma nação: a China.

Economia dos oceanos e a potência em ascensão: China

“A China lidera o mundo na pesca industrial. O país é responsável por mais da metade de toda a pesca industrial que ocorre em águas internacionais – o alto-mar.

“A China também é o maior agricultor oceânico do mundo. Uma observação importante em um mundo em que a aquicultura agora alimenta mais pessoas que a pesca. Os navios chineses pescam nas águas nacionais – zonas econômicas exclusivas – de cerca de 40% de todos os países.”

“O  país é líder no comércio oceânico global. Mais da metade dos portos mais movimentados do mundo estão localizados na China. Vivemos uma mudança de paradigmas. Os Estados Unidos, potência hegemônica desde a derrocada da União Soviética, perde pouco a pouco o seu poder para um novo eixo central: a China.”

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“As rotas comerciais do Mar do Sul da China são, de acordo com informações coletadas pelo conselho de Relações Exteriores, de mais de US$ 5,3 trilhões em navegação; US$ 1,2 trilhão deste comércio pertence aos Estados Unidos. Não é a primeira vez que a China domina os mares. No século 15 o país era a grande potência marítima mundial.”

Economia dos oceanos: China nas instalações eólicas offshore, e exploração de minerais

“A China responde por 20% do total de instalações eólicas offshore globais. O país emergiu na vanguarda da mineração oceânica. A China patrocinou a maior de todas as áreas de reivindicação de exploração de mineração do fundo do mar concedidas pela Autoridade Internacional do Fundo do Mar a empresas de mineração patrocinadas por um único estado por um total de 163.000 km2 – uma área com cerca de quatro vezes o tamanho da Suíça. O Brasil conseguiu aprovação da segunda maior área, a Elevação do Rio Grande.

Plano quinquenal da China de expandir sua “economia azul”

“Isso inclui a construção de novos portos em casa e no exterior, ampliando a infraestrutura de dessalinização e fazendo novos investimentos na exploração em alto-mar. Parte do recente crescimento marítimo global do país veio com dores crescentes para a China e seus vizinhos oceânicos globais. A China, por exemplo, não apenas lidera o mundo na pesca, aquicultura e transporte marítimo – como também lidera o mundo na produção de poluição plástica marinha: quase um terço do total de resíduos plásticos mal administrados do mundo disponíveis para entrar nos oceanos vem da China”.

A China construiu uma série de Ilhas artificiais em toda a área do Mar da China, o que provocou a ira de alguns vizinhos, como as Filipinas, por exemplo. O objetivo é reforçar a reivindicação de posse sobre a região. E, de acordo com a Ocean Conservancy, mais de 50% do plástico em nossos mares vêm de apenas cinco países – e todos localizados na Ásia. A China é um deles.

Liderança implica em bons exemplos

“A liderança da China nos oceanos globais de hoje cria uma oportunidade definida e um grande imperativo para a China também liderar esforços para moldar o oceano de amanhã. Há muitas oportunidades para a China acelerar. Em 2017, a Conferência das Nações Unidas para o Oceano deu aos governos a oportunidade de registrar compromissos voluntários para apoiar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU relacionados ao oceano. Enquanto a República Dominicana, uma pequena nação insular com um PIB de aproximadamente US$ 76 bilhões, assumiu 43 desses compromissos para o oceano, a China, com um PIB de mais de US$ 12 trilhões, fez apenas cinco.”

Áreas protegidas  nos oceanos

‘Do mesmo modo, o estado insular de Palau protegeu 81% de suas águas nacionais, enquanto a China oficialmente protegeu 5,4% de suas águas marinhas e colocou menos de 0,01% dessas zonas sob forte proteção.”  Palau, por sinal, tornou-se um imenso santuário marinho.

Aquacultura suja

“Da mesma forma, a China poderia investir mais esforço e dinheiro no avanço da aquicultura inteligente, em vez da agricultura aquática suja da região. Projetos de aquicultura sustentável podem ajudar o país a atingir as metas de produção. Além de abordar questões regionais de segurança nutricional – sem comprometer a saúde do ecossistema ou prejudicar a capacidade dos pescadores de fornecer um suprimento constante de frutos do mar ao ar livre.”

Revolução industrial marinha

“Criar uma revolução industrial marinha mais amigável para o oceano exigirá coordenação intergovernamental. Além de alinhamento de agendas de pesquisa e aceleração de tecnologias marinhas mais inteligentes. A China não pode fazer isso sozinha. Mas pode fazer muito para catalisar e acelerar o momento global necessário.”

Algumas medidas positivas da China

“Medidas positivas foram tomadas. Nos últimos anos, a China penalizou vários de seus distantes navios de pesca  por violar os regulamentos internacionais. E pescar ilegalmente nas zonas econômicas exclusivas de outros países. As licenças foram revogadas. E os subsídios aos combustíveis foram cancelados para centenas dessas operações ilegais.”

Aqui o Mar Sem Fim faz uma observação. Apesar da informação acima, sabe-se que a China pilha os recursos pesqueiros do mundo.

E além disso, suas frotas de pesca ilegais continuam a rondar os hotspots marinhos do planeta, como Galápagos e, mais recentemente, os mares da América do Sul.

País terá que se emendar se quiser ser farol na economia dos oceanos

A China, se quiser mesmo assumir a liderança global, precisa mudar certas práticas. A medida acima citada é apenas uma das muitas que precisa tomar. O país tem a fama se ser o grande corrupto das reuniões internacionais de pesca.

A China é acusada por pesquisadores de renome mundial como Enric Sala, diretor executivo da Pristine Seas. Ele acusa o país não só de invadir águas territoriais alheias, mas de pescar dentro de santuário marinhos mundo afora. Além de ser o mais corrupto em fóruns internacionais de pesca

O grande desafio

O grande desafio da revolução industrial marinha será descobrir como tirar mais do oceano e prejudicá-lo menos. Há muito trabalho a ser feito. E rápido. A China está no comando quando se trata de definir como a nova economia oceânica se desenvolve e o que significa uma revolução industrial marinha para a saúde global dos oceanos. A questão permanece: para qual lado vai a China? Continuará ignorando regras internacionais, insistindo em um crescimento predatório, ou assumirá de fato a posição de líder? Em outras palavras, ou imagens, o que escolherá o país?

Fontes: https://www.weforum.org/agenda/2019/06/oceans-china-conservation/?fbclid=IwAR2BSm2QrrBOEmguUdQWQA14E3GZqFNBY6UVo-z8v0poDhxarkHqDDCoSe8; https://www.oecd-ilibrary.org/economics/the-ocean-economy-in-2030/summary/english_16e4aefb-en?parentId=http%3A%2F%2Finstance.metastore.ingenta.com%2Fcontent%2Fpublication%2F9789264251724-en; https://www.oecd-ilibrary.org/sites/16e4aefb-en/index.html?itemId=/content/component/16e4aefb-en; https://geoblueplanet.org/wp-content/uploads/2016/05/OECD-ocean-economy.pdf.

Submarino Riachuelo inicia testes de mar

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Mundo desenvolvido tenta se adaptar a uma crise do custo de vida que não dá trégua

Alguns europeus já estocam lenha para o inverno da energia mais cara por causa da guerra na Ucrânia

Por Vivian Oswald — Para o Valor 09/12/2022 

O tal do novo normal vaticinado e alardeado por tantos pode não ter se confirmado. Mas é certo que as sucessivas crises pelas quais o mundo vem passando desencadearam grandes mudanças de comportamento nas sociedades. É cedo para garantir quais delas vieram para ficar. Mas já há um consenso entre especialistas de que o planeta vive um momento de transição que deve ser acompanhado de perto. Com os nervos à flor da pele, a Europa se prepara para um longo e tenebroso inverno. Será o primeiro desde o início da guerra na Ucrânia e da disparada do custo de vida.

Em Bruxelas, sede da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia, que impôs novas sanções à Rússia, só se fala no custo alto que o conflito impõe ao velho continente. É o que as famílias discutem à mesa, em casa, na rua, o tempo todo. “Só posso sair depois de assistir ao noticiário. Você está acompanhando o que está acontecendo? Foram-se os tempos de paz. Voltei a ter medo de uma guerra nuclear. Vou dispensar as duas horas semanais da diarista. Ela não tem culpa, coitada. Não sei onde mais cortar para pagar a conta de energia”, afirma a aposentada Christine Massot, na capital belga, onde até as crianças se envolvem no debate sobre a dependência do gás da Rússia. “Quero ir para o Brasil. Lá não precisa usar calefação”, diz Marc, de 8 anos, enquanto confere se a porta de casa ficou bem fechada para não desperdiçar calor.

Por todo o continente, as mudanças de hábito são evidentes em menor ou maior escala. Isso pesa cada vez mais na maneira como as populações se enxergam e como respondem às consequências do conflito, da inflação, da mudança do clima, ou qualquer outro tipo de perturbação na vida cotidiana. O entusiasmo em receber os refugiados ucranianos, por exemplo, ainda é grande, mas começa a perder força, segundo a mais recente pesquisa de opinião realizada pelo Parlamento Europeu com os 27 países-membros em setembro deste ano.

Já há quem tenha retomado práticas do passado, como estocar lenha por medo de faltar gás no inverno, seja pelos preços proibitivos, seja pelo temor de o presidente da Rússia, Vladimir Putin, mandar fechar as torneiras, como tem feito. Na Alemanha, manter as lareiras acesas vai custar duas vezes mais em cidades como Munique. De acordo com o Escritório de Estatísticas Federais, em agosto deste ano, a lenha e a serragem passaram a custar 86% a mais em média. Mais da metade das residências alemãs dependem do gás russo.

Na Inglaterra, onde há mais autonomia, o órgão regulador já avisou que é possível haver cortes de até três horas diárias de energia no auge do inverno. Mais grave do que isso, famílias inteiras admitem que não pretendem ligar a calefação por não ter como pagar a conta, que subiu mais de 300% em menos de dois anos. A ameaça pode complicar ainda mais a situação já frágil do sistema de saúde nacional, que, ainda sobrecarregado pelas consequências da pandemia, enfrenta a chegada de nova temporada de alta dos casos de coronavírus, gripe e bronquiolite. No país onde o NHS, a sigla em inglês do sistema gratuito de saúde britânico que inspirou o SUS no Brasil, é considerado sagrado e intocável, as pessoas começam a recorrer a médicos privados. Crescem os anúncios de planos de saúde, o que seria impensável até pouco tempo atrás.

O velho continente tenta, a passos acelerados, mudar suas fontes de energia. Eólicas e placas solares ocuparam uma fatia recorde de 24% do total da matriz da União Europeia desde o início da guerra russa na Ucrânia. Na estrada entre Londres e Paris, as imensas torres das eólicas dominam a paisagem como nunca. Em muitos vilarejos franceses, são motivo de revolta. Existe um debate acalorado no país sobre a estética e o impacto desses imensos equipamentos na vida da sociedade.

O crescimento de fontes renováveis gerou uma economia aos 27 países do bloco de € 99 bilhões (pouco mais de R$ 540 bilhões) em importações de gás russo. Certamente uma boa notícia para um continente que depende em boa medida da commodity para se aquecer, e cuja inflação mostra os dentes como não fazia desde as grandes guerras. Mas ainda aquém do necessário. Mudanças como essas, contudo, não acontecem da noite para o dia e não dependem apenas de infraestrutura ou tecnologia.

“Deixar o gás é muito mais do que uma questão técnica. Vai exigir um entendimento da relação emocional e cultural da sociedade com o combustível. Convencer as pessoas a adotar novas tecnologias e novos comportamentos que ajudem a reduzir as emissões domésticas de carbono vai mexer com o conceito que se tem de vida moderna e sua relação com o gás”, explica ao Valor Sam Johnson-Schlee, especialista em geografia humana e planejamento das cidades da Universidade London South Bank.

Com doutorado em geografia urbana e antropologia, o acadêmico se dedica a escrever sobre política e a cultura e hábitos do dia a dia. Foi assim que entendeu que o processo de transição energética por que passa a Europa terá de replicar o grande investimento realizado na Inglaterra na década de 1960, quando a população teve de ser convencida de que o novo tipo de gás que abasteceria suas residências significava mais conforto e era mais compatível com a vida moderna do que o gás vindo do carvão.

Luz e fornos a gás foram a tecnologia de ponta do início do século XIX. O gás alimentou a revolução industrial, nascida na Inglaterra. Permitiu que as fábricas trabalhassem até tarde da noite. A primeira companhia de gás no país foi fundada em 1812. Mas, depois da Segunda Guerra Mundial, a indústria percebeu que precisava mudar sua imagem. Além de desenvolver métodos mais limpos de produzir gás e importar gás liquefeito natural, investiu em uma grande campanha de publicidade para melhorar a sua reputação. A ideia era mostrar o combustível do futuro: “Algo incrível está para acontecer com o gás”, diziam cartazes da época. A mensagem para o consumidor era clara: “As refeições ficarão prontas mais depressa, as casas serão mais aquecidas, vidas inteligentes são vividas com gás”.

Para Johnson-Schlee, que tem pesquisado a publicidade do período, a atual disparada da inflação, movida sobretudo pela alta dos preços do gás, pode até facilitar esse trabalho de convencimento, mas não é suficiente para mudar o comportamento em definitivo. “Quando o preço cair, voltaremos ao padrão anterior, se nada for feito”, diz. Para ele, a sociedade não está preparada para o que uma mudança desta natureza pode significar.

“Em momentos de crise aguda, a gente acaba questionando e alterando muito do que aprendemos por vários anos”, destaca. Mas a indústria precisa perceber que a mudança passa necessariamente pela relação que temos com o lar. “Se o governo e a indústria querem estimular a transformação, se há o desejo de reduzir o uso de gás de fato, não se pode apenas dizer às pessoas: ‘parem de usá-lo’”, afirma o professor.

Novas formas de aquecer as residências podem significar, por exemplo, a redução da temperatura média da casa em dois a três graus. E isso terá implicações sobre como as pessoas usam as suas casas. Pesquisa da Electrical Safety First, entidade filantrópica voltada à prevenção de acidentes elétricos, indica que 42% das pessoas estão considerando usar um aquecedor elétrico para manter o calor em um único cômodo da casa para economizar com a calefação central.

“Com a possibilidade de trabalhar de casa, minha mulher e eu hoje dividimos o mesmo cômodo, porque fica mais quente. Tudo isso tem impacto sobre como aproveitamos nossa vida doméstica, as horas de lazer. Se você quer que as pessoas usem bombas de calor, se essa for a tecnologia escolhida, haverá grande mudança na sensação de bem-estar dentro de casa. Não vai estar tão aquecido”, destaca Johnson-Schlee.

Ele lembra que, por falta de alternativa, a população mais pobre já enfrenta a difícil escolha entre alimentar e manter aquecida a sua família, mesmo sabendo dos riscos à saúde e à vida. A classe média, contudo, que não tem a mesma sensação de ameaça à vida, não vai querer abrir mão da sua noção de conforto. “Em países como o Reino Unido, onde se viveu por mais de uma década a era da austeridade, as pessoas não querem perder mais nada”, explica.

“A casa será ambiente de ausência de frio em vez de ser o lugar onde há calor. Por isso, a estratégia para os negócios em termos de transição é pintar um quadro de como será a nova vida moderna a que se aspira e não apenas uma resposta punitiva para outra crise”, diz. Também não adianta achar que as pessoas vão mudar de carro de uma hora para a outra. “Hoje, os carros elétricos ainda estão limitados a um universo de consumidores de alta renda”, ressalta.

A disparada da inflação no Reino Unido, que há meses se mantém em dois dígitos, no mais alto patamar acumulado em um ano das últimas quatro décadas, deve reduzir o padrão de vida da população como ainda não se via desde o início da série histórica, em 1978. Isso tem implicações sobre as esperadas mudanças de comportamento do consumidor. Ele vai deixar para adquirir seu carro elétrico depois, ou nunca, ou vai abrir mão de comprar aqueles produtos mais caros que parecem ser mais sustentáveis.

Um grande percentual da população pelo mundo começa a se interessar mais por marcas genéricas de supermercados, sempre mais baratas, do que aquelas mais conhecidas e badaladas. O diretor de mercado da firma de pesquisa IRI Marketplace, Ananda Roy, especialista em grandes dados, afirma que os novos hábitos de consumo na Europa e nos Estados Unidos replicam as velhas práticas de austeridade adotadas pelas famílias nas décadas de 1970 e 1980. “É o resultado de uma mudança de atitude e de perda do poder de compra. Achamos que é algo que vai permanecer, já que não há tendência de aumento de salários ou qualquer sinal de que os altíssimos preços de alimentos e energia vão ceder em 2023”, diz.

O especialista lembra que duas gerações inteiras, que nunca tiveram de apertar de fato os cintos, terão de aprender a lidar com a escassez e queda na qualidade de vida. “Precisam planejar para frente, contar o dinheiro, mudar como e onde compram e, em muitos casos, deixar para comprar depois, ou simplesmente não fazê-lo. Não podem mais adquirir itens da moda, tirar férias, ir a restaurantes e cafés regularmente, frequentar academias de ginástica ou manter a assinatura da Netflix, ir ao teatro e shows”, afirma Roy.

Por isso, voltam à cena a boa e velha marmita levada de casa para o trabalho, ou os ajustes nas roupas de sempre para que tenham sobrevida. Hoje, na Europa, pequenos consertos em itens do guarda-roupa ou em aparelhos eletrodomésticos costumam ser desaconselhados pelos próprios especialistas. Podem custar mais caro do que o item novo. “Como esse período de inflação alta não é temporário, devendo durar pelo menos três anos, as alterações de comportamento devem mudar a atitude consumista de muitos”, explica.

A pesquisa mais recente do IRI mostra que 35% dos europeus estão usando a poupança que fizeram durante os períodos de quarentena na pandemia para pagar as contas no fim do mês. Estão também usando mais cartão de crédito ou pedindo empréstimos. Em alguns mercados, como na Holanda, onde a inflação está atualmente em 14% ao ano, aumentou a oferta de empréstimos sem garantia.

Não por acaso, empresas especializadas e até bancos começam a promover campanhas de educação nas estações de rádio para que as pessoas descubram como cortar custos de maneira eficiente. Novidade recente no Reino Unido, o sistema de parcelamento, que ficou conhecido como Compre Agora, Pague Depois (BNPL, na sigla em inglês), ganhou vulto. São vendas a prazo, em princípio sem juros. Mas as dificuldades dos consumidores e a inflação começaram a provocar distorções nesse mercado que preocupam o governo. Neste momento, discute-se uma forma de regular o segmento e evitar os prejuízos dos consumidores com um crescente nicho de agiotagem disfarçada.

Novos comportamentos surgem com novas oportunidades, segundo Benjamin Voyer, catedrático da Escola de Finanças ESCP e professor visitante do departamento de Ciência da Psicologia Comportamental da London School of Economics (LSE). Ele lembra que as crises recentes tiveram sinais trocados sobre a oferta e a demanda, o que dificulta o entendimento, no curto prazo, de quais hábitos vieram para ficar. Se a pandemia levou as pessoas a gastar menos e a querer comprar mais, a alta inflação agora diminui o ímpeto consumista de muitos. Ele não acredita que a Europa vá viver um novo normal inflacionário. Mas garante que atacadistas e varejistas vão reagir ao novo comportamento dos consumidores para se adequar à demanda.

Muitas marcas estão reduzindo o tamanho das embalagens dos produtos ou quantidade que oferecem de determinado item para que caiba no bolso do cliente. Voyer destaca ainda que a mudança de comportamento não necessariamente é linear. Pode acontecer por geração, por exemplo. Desde a pandemia, os jovens se deram conta de que o streaming de filmes pode ser mais em conta e divertido do que ir ao cinema, enquanto parte da população mais velha que nunca tinha comprado pela internet acabou incorporando o novo hábito. Mas as compras online, segundo ele, não substituem a experiência de bater perna e olhar as vitrines. “Comprar pela internet é fazer uma transação objetiva, enquanto ir à loja é entretenimento.” O que move os instintos do consumidor continuam, segundo ele, sendo a escolha, a variedade, a flexibilidade e a liberdade. “O consumidor gosta do que é simples e fácil de se adaptar”, diz.

A pandemia mudou os hábitos de consumo no Reino Unido de tal maneira que o Banco da Inglaterra, o BC britânico, precisou refazer o cálculo do peso dos itens que compõem a cesta de inflação para medi-la melhor. Precisou incluir itens que antes sequer estavam na lista de prioridades da população, como roupas mais à vontade para se trabalhar de casa, equipamentos de ginástica e certos alimentos.

O mesmo aconteceu com o trabalho remoto. Muita gente (que pode se dar o luxo) agora prefere ir ao escritório muito de vez em quando. Na lista de benefícios da novidade, essas garantem ter uma vida mais confortável e saudável. Também alegam ganhar tempo e produtividade ao evitar os longos deslocamentos até o escritório, além de economizar em  passagens e combustível. O Reino Unido, por exemplo, é um dos países onde os trabalhadores mais gastam com o transporte público no mundo. Quem vive em uma cidade a cerca de 40 quilômetros da capital pode gastar mais de 400 libras (quase R$ 2.500) por mês em trens e metrôs.

De acordo com a pesquisa de mercado Medallia apresentada no webinar “The Biggest Consumer Trends of 2022”, depois de uma queda importante após o início da crise pandêmica em 2020, a parcela de empregados em tempo integral que continua trabalhando de casa se mantém elevada em pouco mais de 30%. Também não teria caído o novo hábito de encomendar vegetais e refeições de restaurantes.

Outra mudança a ser observada ao longo do tempo está no aumento do número de cremações, em resposta às dificuldades sanitárias impostas pela pandemia do coronavírus, que impediram a realização de funerais e outras cerimônias de despedida de entes queridos. A aceitação por esta modalidade, que teria crescido entre comunidades de religiões distintas, indica que há um número maior de famílias que a consideram como primeira opção em tempos de inflação alta. No Reino Unido, a empresa Distinct Cremations afirma em relatório que “a disparada do custo de vida pode ter mudado a forma como as pessoas veem a vida após a morte”.

O cientista político grego e professor de governo do All Souls College da Universidade de Oxford, Kalyvas Stathis, alerta que o mundo está em constante movimento e que é preciso um período de tempo mais longo para se observarem mudanças definitivas nas sociedades. Ele afirma que as pessoas tendem a imaginar que vivemos mais crises do que no passado. “Não há como se medir se há mais crises ou se são mais intensas hoje do que antes”, diz.

Stathis garante que a sensação de que são crises que se emendam umas nas outras deve ser muito mais atribuída ao excesso de informações a que estamos submetidos e mais notícias ruins, que, segundo ele, costumam ganhar mais destaque na mídia. O que acontece, na avaliação dele, é que os seres humanos tendem a se adaptar às condições dadas pelas crises, mas depois esquecem as mudanças. “A gente superestima o impacto que as crises podem ter nas nossas vidas e depois esquecemos. Não prestamos mais atenção quando as condições mudam. Falamos no novo normal no início da covid. E agora ninguém tem muito a sensação do que mudou de fato”, destaca Stathis.

Mesmo assim, ele reconhece alterações inegáveis de comportamento que os especialistas ainda terão de esperar para saber se são definitivas. “Não sabemos quantos porcento da população vão continuar trabalhando de casa. Se for um percentual importante, vai mudar as relações de trabalho, a estrutura da família e a cultura. Muitas crianças tiveram a saúde mental afetada pela pandemia. Será que estamos diante de uma geração com problemas? Até que ponto e quão sérios serão?”, afirma. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que cerca de 24 milhões de estudantes entre o primário e a universidade correm o risco de não voltar para os bancos escolares. E estimam que cerca de 25% da população passou a ser acometida por ansiedade, com jovens e mulheres entre os mais afetados.

As reuniões por Zoom, segundo ele, que até certo ponto pareciam uma nova tendência mundo afora, aumentaram a velocidade da conexão entre as pessoas, possibilitaram mais encontros e economia de deslocamento. “Mas também cansaram, pois ficou fácil demais marcar muitas reuniões o dia inteiro e por muito tempo. Pode ser que o novo comportamento que vai se cristalizar seja o de priorizar este tipo de reunião, mas com comedimento e com duração mais curta”, afirma.

Com o avanço da tecnologia nas últimas duas décadas, Stathis enfatiza que muitas pessoas já não sabem mais usar as mãos, não escrevem. Tudo se passa nas telas de aparelhos. A internet cria a possibilidade inédita de se ter muitos pedaços de informação, ao mesmo tempo que tira o foco do todo. “As coisas estão se movendo em diferentes direções. A vida está sempre nos surpreendendo. É um momento interessante de se observar”, diz. Talvez seja sintomático o fato de “metaverso” estar entre as finalistas e ser escolhida como palavra do ano de 2022 pelo Dicionário Oxford.

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/12/09/mundo-desenvolvido-tenta-se-adaptar-a-uma-crise-do-custo-de-vida-que-nao-da-tregua.ghtml

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Descarbonização global: um grande desafio que pode ser viável

A redução do aquecimento global só será atingida se houver descarbonização da indústria de base e do transporte, grandes emissores de gases de efeito estufa

Por Andrea M. A. F. Minardi* – Exame – Publicado em 19/10/2022 

Acreditava-se que era tecnicamente inviável ou proibitivamente caro cortar essas emissões, mas a evolução econômica e os avanços tecnológicos mostram que pode ser possível. A introdução de metas mais claras de emissões, como já começa a acontecer na Europa, o aumento do preço de carbono e a maior disponibilidade dos consumidores a pagar mais por produtos verdes reduzem a desvantagem de custo dos novos processos produtivos com baixa emissão de carbono. Já existem inúmeros projetos que comercializam tecnologia de redução de emissão de carbono na indústria de base e começa a ser possível vislumbrar os caminhos que permitirão às empresas atingir a meta de carbono neutro em 2050.

A indústria de aço é uma das que está mais avançada nessa agenda, com um mix de alternativas de tecnologias apropriadas a diferentes geografias. A h2Green Stell (h2gs), uma startup europeia, está implementando um projeto de €4 bilhões em Boden, na Suécia, que combina tecnologias comprovadas em larga escala[i]. Está construindo uma das maiores unidades mundiais de eletrólise para produção de hidrogênio verde, que será bombeado num reator para alimentar um processo chamado de redução direta, que dispensa o uso de coque de carvão na produção de aço. 

Existem vários outros projetos para descarbonizar a produção primária de aço[ii], como reformas de alto fornos para uso de energia limpa com eficiência energética ou conversão para unidades de redução direta, ambas soluções envolvendo captura seguida de estocagem de dióxido de carbono ou sequestro das emissões residuais por abatedouros como florestas. A produção secundária a partir de sucata de aço também avança e pode responder por 40% da produção total de aço até 2050. 

A indústria cimenteira aposta em tecnologias como substituição de combustível fóssil por biomassa ou outras formas de eletricidade verde no aquecimento de calcário para produção de cimento, captura e estocagem de gás carbônico e desenvolvimento de novos tipos de cimento de baixo carbono, alguns a partir de economia circular. A indústria química enfrenta maiores dificuldades, pois uma boa parte de seus produtos é derivada de hidrocarboneto. Mesmo assim, há projetos e soluções em andamento. Em 2021, a Dow Química anunciou um plano de transformar o complexo de etileno de Alberta, Canadá, em carbono zero[iii]. Esse projeto envolve eletrólise dos gases emitidos no craqueamento para geração de hidrogênio, que servirá de energia para toda a unidade, e a captura e estocagem do gás carbônico. Essa transição reduzirá em 20% as emissões de carbono escopos 1 e 2 da Dow até 2030. Existem vários projetos semelhantes feitos por concorrentes, muitos deles em colaboração. 

Há também investimentos em reciclagem de plástico para produção secundária e desenvolvimento de plástico verde, feito de subprodutos agrícolas ao invés de petróleo. Em outros setores, existem inúmeros projetos também nesse sentido, como iniciativas para desenvolvimento de combustível de baixo carbono para aviação, transformação de poços inativos de petróleo em unidades de armazenagem do carbono capturado e conversão de plataformas de produção de petróleo em operações de turbinas eólicas marítimas.

Entretanto, ainda existe grande dificuldade em gerar projetos de descarbonização em larga escala. Será necessário um investimento volumoso no desenvolvimento de infraestrutura. A geração e distribuição de energia limpa precisa ganhar escala. O custo da produção verde atualmente é muito alto se comparado com a tradicional – por exemplo, no caso do aço verde, duas ou três vezes mais caro. Por isso, é essencial orquestrar a colaboração de vários elos. Cadeias de valor inteiras terão que ser transformadas. A colaboração entre empresas, universidades e unidades de fomento são essenciais para desenvolvimento de tecnologia. 

Governos precisam fomentar e regular a construção da infraestrutura, de limites de emissões e comércio dos créditos de carbono. Consumidores precisam valorizar soluções mais verdes e penalizar grandes emissores que não estão fazendo a transição, assim como bancos e investidores institucionais aumentar o volume de financiamento de modelos sustentáveis. Soluções blended, que combinam capital concessional e privado, são necessárias para financiar vários projetos. Já existem algumas iniciativas que orquestram essas parcerias e esforços como, por exemplo, o fundo de venture capital Breakthrough Energy[iv] e a Mission Possible Partnership, o que dá esperança de que os desafios e obstáculos para viabilizar essa transição sejam superados.

*Andrea Minardi é professora do Insper. Leciona e pesquisa ativos alternativos e finanças sustentáveis. Em 2018, seu nome foi incluído no “Women to Watch: Beyond the Deal” pelo WSJ por sua contribuição com a indústria de Private Equity no Brasil.

https://exame.com/colunistas/impacto-social/descarbonizacao-global-um-grande-desafio-que-pode-ser-viavel/

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Conheça o Vale da Eletrônica mineiro que movimenta bilhões de reais com suas invenções

A pequena Santa Rita do Sapucaí está na vanguarda de muitas pesquisas como a tecnologia 6G

Por João Sorima Neto — O Globo – 08/12/2022 

Paisagem pacata do interior esconde o potencial econômico de Santa Rita do Sapucaí (MG), que tem 60% do PIB vindo de empresas de tecnologia Paisagem pacata do interior esconde o potencial econômico de Santa Rita do Sapucaí (MG), que tem 60% do PIB vindo de empresas de tecnologia Edilson Dantas

A tecnologia 5G, que permite troca de dados em alta velocidade e conexões simultâneas, mal chegou à maioria dos municípios brasileiros e um grupo de cientistas já está pesquisando o próximo avanço das telecomunicações: a rede 6G. Quando ela começar a ser implementada, a partir de 2030, integrará o mundo real com o virtual por meio de inteligência artificial, possibilitando uso de recursos como holografia e aplicações táteis.

A liderança desses estudos no Brasil está concentrada na pequena cidade de Santa Rita do Sapucaí, de 45 mil habitantes, no Sul de Minas Gerais. Embora mantenha ar rural, ela ostenta o título de Vale da Eletrônica brasileiro. Mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) do município sai de suas quase 200 empresas de tecnologia (muitas criadas por meio de três incubadoras locais). Elas atuam em segmentos tão distintos como eletro biomedicina e segurança.

Juntas, essas companhias geram 14 mil empregos e giram mais de R$ 3,6 bilhões por ano em faturamento, cifra que deve subir a R$ 6 bilhões até 2024, segundo estimativa do Sindicato das Indústrias do Vale da Eletrônica (Sindvel). A prefeitura se prepara para criar o primeiro distrito industrial numa área de 200 mil metros quadrados, com expectativa de geração de 2 mil novos empregos. Um arranjo local estimula as empresas a fornecerem produtos umas às outras, o que ajuda a reter mão de obra especializada.

— A inovação faz parte do DNA do município. Formamos profissionais e criamos um ecossistema para mantê-los aqui — conta Publio Teles, secretário municipal de Ciências, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico.

O investimento em educação acompanha esse cenário. A cidade foi a primeira a ter uma escola de eletrônica (ETE) da América Latina, nos anos 1950. Também criou o primeiro curso de engenharia de telecomunicações (Inatel) do país, nos anos 1960. Mais recentemente, surgiu uma faculdade de Administração focada em empreendedorismo de base tecnológica A aposta deu resultados: saíram de Santa Rita novidades como a urna e a tornozeleira eletrônicas e o transmissor de TV digital.

Os números de Santa Rita do Sapucaí — Foto: Editoria de Arte/O Globo

É o Inatel que está liderando o projeto pioneiro Brasil 6G, que conta com a participação de várias instituições de ensino e pesquisa nacionais e tem o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

— A nova rede 6G dará às pessoas uma espécie de sexto sentido. Vamos interagir com as coisas de forma mais intuitiva. O smartphone será coisa do passado — diz o professor Luciano Leonel Mendes, coordenador de pesquisa do Centro de Referência em Radiocomunicações do Inatel.

Numa integração com a iniciativa privada, o Inatel presta serviços a empresas, que geram uma receita de R$ 70 milhões ao ano à instituição. Entre as novidades, há estudos para a transmissão de dados via luz com alta velocidade.

Há outras inovações no radar. A Ventrix, empresa de engenharia biomédica, criou o primeiro eletrocardiograma do país feito pelo celular, com diagnóstico remoto. A empresa lançou este ano um curativo para feridas complexas, como queimaduras, que vem sendo pesquisado desde 2007.

Santa Rita é uma das três participantes de um projeto piloto de “cidades inteligentes” do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Por meio de um aplicativo, moradores podem solicitar serviços de zeladoria ou ajuda da Guarda Municipal e da Polícia Militar. Ainda no mesmo projeto, os veículos da prefeitura são monitorados digitalmente para economizar combustível.

https://oglobo.globo.com/especiais/noticia/2022/12/conheca-o-vale-da-eletronica-mineiro-que-movimenta-bilhoes-de-reais-com-suas-invencoes.ghtml

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