Globalização está ‘quase morta’, diz o pai da indústria de chips


Giuliano Guandalini – Brazil Journal 12 de dezembro de 2022 

Poucas nações se beneficiaram da globalização mais do que Taiwan, e poucas empresas do mundo se beneficiaram mais da globalização do que a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company – mais conhecida pela sigla TSMC, a maior fabricante dos chips mais avançados disponíveis no mercado.  

Pois o fundador da companhia e “pai” da indústria de chips de Taiwan, Morris Chang, o fundador da TSMC, acaba de decretar a morte da globalização. Ou quase isso. 

 “A globalização está quase morta e o livre comércio está quase morto,” disse Chang. “Muitas pessoas ainda esperam que um dia eles estarão de volta, mas eu não acredito nisso.”  

O fundador da TSCM fez o comentário ao discursar na cerimônia que marcou a entrega dos primeiros equipamentos da fábrica de chips state of the art que a empresa está construindo em Phoenix, no Arizona. Na plateia: o Presidente Joe Biden e dezenas de executivos da indústria de alta tecnologia, incluindo Tim Cook, o CEO da Apple, um dos maiores clientes da TSMC.  

Segundo a agência de notícias japonesa Nikkei Asia, os comentários de Chang partem da constatação de que a disputa geopolítica entre os EUA e a China está dividindo o mundo ao meio, pelo menos no que diz respeito ao desenvolvimento de tecnologia de ponta. As restrições impostas pelo governo americano à transferência de tecnologia dificultam cada dia mais que empresas como a TSMC sejam fornecedoras de companhias chinesas.    

O título da reportagem do New York Times evidencia o que está em jogo: “Em Phoenix, um gigante do chip de Taiwan constrói um hedge contra a China”.  “As empresas e as autoridades dos EUA há muito tempo se preocupam com a dependência em relação a Taiwan, que a China reivindica como seu próprio território,” diz o NYT.  Agora esse hedge começa a tomar forma no Arizona – e a fábrica será uma proteção tanto para a indústria americana, que reduz a sua dependência em relação a Taiwan, como para a TSMC, que diversifica a sua produção.  

Sintomáticas da nova geopolítica foram as declarações de Tim Cook no evento. “Graças ao trabalho duro de tantas pessoas, poderemos ter o orgulho de ver esses chips estampados com ‘Made in America’. Esse é um momento muito significativo. É a chance dos EUA entrarem nessa nova era da manufatura avançada de ponta”. Inicialmente, a fábrica da TSMC no Arizona envolveria investimentos de US$ 12 bilhões para a construção de uma unidade de produção. 

Agora a companhia confirmou que erguerá no local uma segunda unidade – e com tecnologia ainda mais avançada. O capex vai chegar a US$ 40 bilhões.  Será a primeira fábrica de chips dos EUA apta a fabricar chips de 3 nanômetros, os menores e mais avançados do mercado. Prevista para entrar em operação em 2026, essa planta possibilitará que pela primeira vez seja produzido em solo americano aquilo que existe de mais sofisticado na tecnologia de microprocessadores, reduzindo a dependência em relação aos fornecedores na Ásia. 

O tamanho em nanômetros se refere à distância entre os transistores de um chip – quando menor o número, mais poderoso tende a ser o processador. Por serem os ‘cérebros’ dos aparelhos eletrônicos, esses chips são vitais para a tecnologia de smartphones, veículos autônomos, supercomputadores e inteligência artificial, e até nos teclados da Yamaha. A primeira fábrica da TSMC produzirá chips de 4 nanômetros, presentes, por exemplo, no iPhone 14 Pro. Um processador desses, capaz de realizar até 17 trilhões de cálculos por segundo, contém 15 bilhões de transistores – e construir um componente de tamanha complexidade é coisa para poucos no mundo, praticamente uma exclusividade do gigante taiwanês. 

Chang, de 91 anos, fez boa parte de sua carreira nos EUA. Em 1987, de volta a Taiwan, fundou a TSMC, que se especializou em fabricar os chips desenvolvidos por outras companhias. Entre seus grandes clientes estão alguns dos principais desenvolvedores fabless, ou seja, sem fábrica, como Apple, AMD, ARM e Nvidia.  

O megainvestimento no Arizona é uma evidência eloquente do onshoring, isto é, o processo de reverter o offshoring e trazer de volta para os EUA a manufatura de itens cuja produção, por décadas, havia sido concentrada no exterior por razões de custo.   Os EUA já foram os maiores fabricantes de microprocessadores do mundo. Mas seu market share hoje é ao redor de 10%, embora o país se mantenha entre os líderes no desenvolvimento da tecnologia no setor. 

Em termos de receita obtida com o design de chips, as empresas americanas tiveram um share de 46% no mercado global no ano passado. É uma parcela expressiva, mas também em declínio. Em 2015, o percentual era de 50%.  

A atração do investimento da TSMC para os EUA e o onshoring da produção de chips são na prática um reequilíbrio de forças na geopolítica. Para os americanos, seria trágico se um fornecedor tão vital para sua indústria de alta tecnologia caísse sob o domínio da China, uma nação que deixou de ser vista em Washington como um parceiro minimamente confiável.  Implícito nesse movimento coordenado pela Casa Branca está o reconhecimento de que Taiwan, a democrática “república rebelde”, poderá em breve ser comandada pelo Partido Comunista Chinês.

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