Como o Zoom no home-office altera a Lei de Parkinson

Preguiçosos e stakhanovites

Como o home-office afetou uma lei clássica sobre o trabalho

The Economist – 11 de julho de 2020

Nas leis do trabalho, uma que foi proposta por C. Northcote Parkinson, historiador naval, foi admiravelmente sucinta: “O trabalho se expande de modo a preencher o tempo disponível para sua conclusão”. Seu artigo, publicado pela primeira vez no The Economist em 1955, resistiu ao teste do tempo, no sentido de que as pessoas ainda se referem à “lei de Parkinson”. Mas a experiência da vida profissional durante a pandemia sugere que poderíamos propor três corolários para o teorema.

No início de seu artigo, Parkinson citou o caso de uma senhora idosa que precisava de um dia para enviar um cartão postal para sua sobrinha. O processo envolveu o tempo gasto na busca de óculos, cartão postal e guarda-chuva, além de compor a mensagem. Os detalhes podem ser datados, mas a idéia ainda é poderosa – diante de uma tarefa, as pessoas procrastinam.

Quando se trata de trabalho de escritório, os incentivos para demorar são bastante claros. Concluída uma tarefa rapidamente, o funcionário receberá outra. Essa segunda tarefa pode ser ainda mais desagradável que a primeira. Os trabalhadores podem acabar como um hamster em uma esteira, presos em um ciclo interminável de esforço desnecessário.

Os funcionários de escritório sabem, no entanto, que o trabalho em si não é a única coisa. É importante ser visto trabalhando. Isso leva ao “presenteísmo” – ficar em sua mesa por tempo suficiente para impressionar o chefe (e até aparecer quando estiver doente). Na era pré-internet, isso envolveria uma reformulação interminável de memorandos, longas ligações telefônicas ou uma observação minuciosa dos documentos. Graças ao trabalho pioneiro de Tim Berners-Lee, o presenteísmo agora exige menos esforço: muitas horas podem ser desperdiçadas na rede mundial de computadores.

Ao trabalhar em casa, o chefe está fora da visão, mas não da mente. De um modo geral, o resultado é dividir os trabalhadores em dois grupos. O primeiro grupo, dos preguiçosos, passam o home-office trabalhando com o nível mínimo de esforço com o qual podem se safar. Eles não precisam enrolar cada tarefa; eles fazem o que é necessário e passam o resto do dia livre, enviando o trabalho imediatamente antes do prazo. Para esse grupo, a lei de Parkinson pode ser alterada da seguinte maneira: “Para os despreocupados, quando não observados, o trabalho diminui para preencher o tempo necessário”.

O segundo grupo adota a abordagem oposta. Consumidos pela culpa, pela ansiedade em relação à segurança ou ambição no trabalho, eles trabalham ainda mais do que antes. Estando em casa, eles não encontram uma demarcação clara entre tempo de trabalho e lazer. Este grupo é o Stakhanovites (nome de um mineiro heroicamente produtivo na União Soviética). Eles exigem sua própria emenda: “Para os trabalhadores ansiosos em casa, o trabalho se expande para preencher todas as horas acordados”.

Mas Parkinson estava elaborando um argumento muito mais amplo do que a tendência das pessoas a serem relaxadas. A maior parte do seu artigo estava preocupado com o crescimento da burocracia no governo. Ele alertou que a contratação de mais funcionários públicos não levou necessariamente a um trabalho mais eficaz.

Essa tendência resultou de dois fatores. Primeiro, as autoridades querem multiplicar subordinados, não rivais. Segundo, os funcionários tendem a trabalhar um para o outro. Qualquer funcionário que se sentir sobrecarregado solicitará dois subordinados (pedir apenas um criaria um rival). O funcionário sênior passará muito tempo verificando o trabalho de seus subordinados.

Como esse processo se aplica no home office? Como sua equipe, os gerentes também querem parecer úteis. No escritório, eles podem parecer ocupados andando e conversando com suas equipes. Em casa, isso é mais difícil; uma ligação é mais intrusiva do que uma conversa casual. A resposta é organizar mais reuniões do Zoom.

A revista ouviu de vários contatos nas últimas semanas que eles passam o dia pulando de uma reunião do Zoom para outra. Assim, como Parkinson sugeriu, os gerentes estão fazendo mais trabalho um para o outro. Daí a terceira emenda à lei: “No home-office, o Zoom se expande para preencher todo o tempo disponível do gerente”.

Na medida em que essas reuniões forem opcionais, isso cria outra divisão entre preguiçosos e stakhanovites. O primeiro grupo evitará essas reuniões e o segundo se inscreverá em todas elas. Além disso, antes do home-office, os funcionários podiam ganhar pontos comparecendo a essas reuniões, desde que atraíssem a atenção do chefe. A mera participação é insuficiente para uma reunião do Zoom; é preciso ser visto e ouvido. Por sua vez, isso prolonga as reuniões do Zoom, gastando ainda mais o tempo dos gerentes e seus subordinados stakhanovites (muitos preguiçosos ainda precisam aprender a usar o botão “levantar a mão”). É uma versão digital do trabalho burocrático descrito por Parkinson 65 anos atrás.

https://www.economist.com/business/2020/07/11/slackers-and-stakhanovites

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Amazônia, protagonista da bioeconomia

Interromper a devastação é o ponto de partida para incluir a Amazônia no radar dos investimentos em bioeconomia

09/07/2020 no Valor Econômico

Por Ricardo Abramovay

As florestas tropicais estão ausentes da mais consagrada literatura científica e de políticas públicas sobre bioeconomia. As Academias de Ciências, de Engenharia e de Medicina dos EUA acabam de publicar um relatório mostrando que a bioeconomia corresponde a 5% do PIB americano, que a competição global em torno das conquistas tecnológicas da área se intensifica e que os dispositivos da revolução digital estão fazendo da bioeconomia uma das fronteiras científicas mais importantes para o desenvolvimento sustentável. Mas é em vão que o leitor procurará no texto alguma referência às florestas tropicais.

O relatório do Conselho Alemão de Bioeconomia sobre as estratégias de bioeconomia ao redor do mundo localiza 50 países já dotados de planos para o setor. Mas quando se trata de florestas, a ênfase é na produção de biomassa para substituição de energias fósseis ou para a elaboração de novos materiais, sobretudo nos países de clima temperado. Mesmo no trabalho recente da Cepal, “Towards a Sustainable Bioeconomy in Latin America and the Caribbean”, as florestas tropicais não são decisivas na bioeconomia sustentável.

Para os nove países em cujos territórios encontra-se a maior floresta tropical do planeta – e sobretudo para o Brasil – esta ausência só pode ser tratada como um paradoxo. Pior, como trágica anomalia. A Amazônia possui 40% dos remanescentes de floresta tropical no mundo e 25% da biodiversidade terrestre, com 40 mil espécies de plantas. Sua rede fluvial (a maior do planeta), concentra mais espécies de peixes que qualquer outro sistema de rios. O carbono que ela armazena é equivalente a mais de dez anos das emissões globais de gases de efeito estufa.

Não basta impedir sua destruição, embora este seja o ponto de partida para que suas gigantescas riquezas sejam aproveitadas. Os países onde está o epicentro científico e tecnológico da bioeconomia global (Estados Unidos e Alemanha) possuem centros de pesquisa, empresas, movimentos sociais, organizações financeiras, em suma, uma rede diversificada de atores voltada a encontrar soluções para substituir energias fósseis e moléculas sobre as quais vão se apoiar algumas das mais notáveis inovações do Século XXI em alimentação, energia e produção de materiais.

Interromper a devastação, respeitar a cultura material e espiritual dos povos da floresta é apenas o ponto de partida para enfrentar um desafio maior que é a inclusão da Amazônia no radar das iniciativas e dos investimentos em bioeconomia. Esta inclusão não é importante apenas para a Amazônia e sim para o Brasil, pois representa a oportunidade de valorizar ativos dos quais o restante do mundo não dispõe e, por aí, reduzir a distância que nos separa da inovação científica e tecnológica global.

A discussão pública sobre este tema ganhou novo ímpeto com os artigos publicados pelo ministro Luís Roberto Barroso em co-autoria com a professora Patrícia Perrone Campos Mello na “Folha de São Paulo” e na “Revista de Direito da Cidade”. O debate foi enriquecido pela carta pública que Denis Minev dirigiu a Barroso e Campos Mello1. Denis Minev conhece a Amazônia não só por estudá-la e nela ter exercido cargos públicos, mas por dirigir hoje uma das mais importantes redes de varejo do interior da região, a Bemol e por ter atuado como “investidor anjo” em diversos projetos.

Neste debate, não se trata de polir a “imagem” da Amazônia, como se houvesse recurso publicitário capaz de apagar o que os dados da devastação revelam. Trata-se sim de estabelecer as premissas de uma verdadeira estratégia para que ciência, tecnologia, informação e conhecimento sejam os vetores do uso dos recursos na região. O primeiro passo neste sentido consiste em levar a ciência a sério.

Como diz a carta de Minev, o mais importante centro de pesquisa da região, o Inpa, tem orçamento de R$ 50 milhões. Só a Universidade de Stanford conta com recursos de US$ 6,8 bilhões. O Brasil possui doutores vivendo na Amazônia e centros de pesquisa que poderiam fazer avançar muito o conhecimento e a utilização prática da sua biodiversidade, com base na melhor ciência. Mas não existe uma estratégia nacional nesta direção. É como se o país tivesse se habituado com a posição de fornecedor de commodities e renunciado a qualquer ambição de ter alguma importância na fronteira global da inovação.

Esta renúncia se traduz na tolerância com o status quo de ilegalidade que impera na região. Além da criminalidade, a ilegalidade se difunde de forma pervasiva por todo o tecido econômico da Amazônia e se ergue como obstáculo a iniciativas sustentáveis envolvendo atores diversificados. E a própria concepção predominante de infraestrutura na Amazônia hoje reflete a ambição míope de fortalecer as cadeias de valor menos promissoras da região e que, além de não gerar retorno expressivo aos que nela habitam, acabam sendo vetores de desmatamento.

Mais que meios de transportes de grãos e carnes, a Amazônia precisa de conexão de alta velocidade, de soluções sustentáveis para seus problemas de acesso a saneamento básico e incentivos a tecnologias modernas e descentralizadas para a geração de energia.

O Brasil democrático quer a Amazônia em pé. Os povos da floresta, os empresários responsáveis, os investidores com visão de futuro, as organizações ativistas e a cooperação internacional são os principais componentes de uma rede rede que só vai conseguir fazer jus ao que a Amazônia representa para o Brasil quando houver governantes que assumam a liderança de uma estratégia para que sejamos protagonistas da bioeconomia global.

Ricardo Abramovay é professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP. Autor de Amazônia. Por uma economia do conhecimento da natureza (Ed. Elefante/Outras Palavras). Twitter @abramovay

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/amazonia-protagonista-da-bioeconomia.ghtml

As novas gerações querem trabalhar em empresas com propósito

 por Evandro Milet

A missão é o que uma empresa faz, a visão mostra para onde ela vai, a cultura é a maneira como as coisas são feitas por ali, os valores indicam o seu comportamento e o propósito esclarece porque ela existe, que problemas pretende resolver e quem ela quer ser para cada pessoa tocada pelo seu negócio.

A famosa pirâmide de Maslow, que coloca, de baixo para cima, as necessidades humanas  para alcançar a satisfação profissional, está sendo contestada, na prática, pelas novas gerações entrando no mercado de trabalho. Elas exigem, com alta prioridade, algo mais básico: um propósito para a empresa onde querem trabalhar, e esse objetivo é mais moral que empresarial.

Exemplos recentes, em empresas de renome, mostram como isso tem acontecido. A Amazon recebeu abaixo assinado de 6700 funcionários demandando políticas ambientais claras e criticando contratos com petroleiras que usam o serviço de nuvem da empresa. Funcionários do Google solicitaram que a empresa desistisse de executar um programa que usa inteligência artificial para analisar imagens feitas com drones para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Eles querem que a empresa se comprometa a nunca desenvolver tecnologia de guerra. Funcionários da Salesforce exigiram o fim da relações comerciais da companhia com a agência americana de controle de fronteiras, acusada de separar crianças de pais que tentavam entrar ilegalmente nos EUA.

Para atender essas demandas, as empresas procuram se antecipar e definir claramente um propósito, que deve refletir a real atuação da empresa, sem hipocrisia, e que seja seguida de fato por toda a direção. A Southwest Airlines definiu seu propósito: “Conectar as pessoas ao que é importante em suas vidas através de viagens aéreas amigáveis, confiáveis e de baixo custo”. Empregados de uma empresa farmacêutica recebem  a cada semestre um grupo de pacientes tratados com os medicamentos produzidos por ela. Propósito: “Fazer agora o que os pacientes precisarão no futuro.” A Tesla colocou como seu propósito “Tornar o transporte sustentável disponível para mais pessoas”. 

Algumas vezes essa declaração de propósito fica parecida com a missão. A diferença é essa conotação social ou moral. As novas gerações querem fazer a diferença de alguma forma e trabalharão com mais afinco quando acreditarem no propósito da empresa.

Importante no caso brasileiro é incluir as pautas sociais como desemprego e eliminação da miséria, que não aparecem nas reportagens sobre o assunto nos países desenvolvidos, preocupados com outros temas, também relevantes, como meio ambiente, diversidade, guerras ou imigrantes.

Novos temas como propósito, responsabilidade social, valor compartilhado, negócios sociais e felicidade estarão cada vez mais presentes na gestão das empresas.

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Como uma empresa brasileira de tecnologia cresceu 30 vezes na pandemia – articulações e parcerias

Operação de Guerra

Por Denyse Godoy – Revista Exame – Publicado em: 02/07/2020 -(Artigo resumido por Evandro Milet) 

Os fundadores da fabricante paulista de respiradores mecânicos Magnamed — Wataru Ueda, Tatsuo Suzuki e Toru Kinjo — não imaginavam enfrentar uma emergência que os obrigasse a multiplicar por mais de 30, do dia para a noite, sua capacidade de produção. 

O sucesso da empreitada — um conforto para um Brasil que continua registrando aumento de casos da infecção respiratória covid-19 — só vem sendo possível graças à parceria com companhias tão diferentes quanto produtoras de papel e celulose e fabricantes de gases industriais e à afinação com diversas instâncias do governo. Essa é uma história que aumenta a esperança no futuro.

O encontro com a KPTL que é, junto com os três fundadores e a gestora Vox Capital, uma das donas da Magnamed, se deu em 2008, na incubadora de empresas tecnológicas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Cietec, que hospedava a Magnamed. A KPTL começou a investir na startup por meio de um fundo de investimento que tinha 80% de seus recursos provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 20% do Banco do Nordeste.

No início, a Magnamed queria centrar sua atividade no encolhimento de peças de equipamentos médicos, mas acabou encontrando seu filão nos ventiladores, um ramo no qual Ueda e Suzuki, engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), haviam atuado juntos quando eram funcionários de outra empresa. Como boa startup, a companhia de tecnologia médica foi montada na garagem da casa de Ueda, em 2005, e logo depois Kinjo entrou.

Foi só quando o Ministério da Saúde bateu à porta da empresa com sede em Cotia, na Grande São Paulo, com uma encomenda de 15.000 respiradores para os fabricantes nacionais — o equivalente a sete vezes sua produção anual —, em 19 de março, que a Magnamed entendeu o tamanho da pandemia. 

Primeiro, seria necessário checar com os fornecedores de peças se poderiam entregar um volume maior. Naquele momento, os poucos produtores de componentes nacionais estavam sendo disputados pelas fabricantes de respiradores. No grupo de WhatsApp que mantém com os colegas de sua turma do ITA, onde se formou em 1982, Ueda mencionou então o projeto e as dificuldades que vislumbrava no caminho.

O amigo Walter Schalka, presidente da Suzano, maior fabricante de celulose do país, resolveu ajudá-lo acionando a rede de representantes da Suzano no exterior para encontrar mais fornecedores. Sua concorrente Klabin, que também tem fortes laços comerciais com a China, reforçou a busca. A fabricante de computadores paranaense Positivo acionou seus contatos para procurar os componentes usados na placa de controle dos ventiladores. Outro gargalo estava na montagem das máquinas.

A linha de produção da Magnamed em Cotia conseguia fabricar apenas 200 respiradores por mês. Por indicação do ministério e de executivos próximos à empresa, a Magnamed acabou chegando à Flex (antiga Flextronics), multinacional americana especializada na produção terceirizada de equipamentos eletrônicos, que tem uma fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo. Contando com a capacidade da Flex, em 23 de março a Magnamed informou ao governo que conseguiria entregar 6.500 respiradores em um período de seis meses.

O passo seguinte foi encontrar recursos para comprar os insumos necessários à produção. Faturando cerca de 40 milhões de reais por ano, a Magnamed operava com um capital de giro apertado. A Suzano lhe emprestou 10 milhões de reais sem custo e com 45 dias para pagar. A Magnamed procurou depois o BNDES, seu investidor desde o início, e não obteve nem 1 real porque o banco não tinha uma regulamentação para esse tipo de financiamento.

Mas o BV (o antigo Banco Votorantim) lhe deu um empréstimo-ponte de 20 milhões de reais sem aval — a instituição criou um fundo especial para financiar as fabricantes nacionais de respiradores durante a pandemia. 

No fim, o Ministério da Saúde adiantou 129 milhões dos 322,5 milhões de reais do contrato. A fabricante de aviões Embraer usinou 8.000 peças de aço em um fim de semana, cobrando apenas o valor da matéria-prima, a General Motors ajudou no redesenho da linha de montagem da Magnamed em Cotia e a fabricante de gases White Martins forneceu oxigênio para o teste dos respiradores na fábrica da Flex (que também está produzindo para outras duas empresas nacionais).

Com a Flex, a fabricante de respiradores pode dizer que sua capacidade de produção anual subiu para 64.000 unidades. “Sabemos que podemos contar com nossos parceiros para projetos grandes. O Brasil tem as condições de virar um polo tecnológico na área médica”, afirma Ueda, presidente da Magnamed.

Agora o projeto atingiu a velocidade de cruzeiro, e a Magnamed planeja o futuro. Não espera que o faturamento deste ano, estimado em 390 milhões de reais por causa da pandemia, vá se repetir, tampouco deverá regredir ao tamanho que tinha no ano passado. A covid-19 chamou a atenção para a necessidade de hospitais públicos e privados aumentarem  seu estoque de ventiladores pulmonares.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que os ventiladores sejam substituídos a cada cinco anos de uso, e o governo brasileiro estima que o parque local tenha idade média de 12 anos. A Magnamed aposta que os novos clientes conquistados durante a crise continuarão comprando seus equipamentos ao fazer a troca.

“Quando posto à prova, o brasileiro mostra sua competência técnica e capacidade de pensar em soluções”, diz Leandro Santos, presidente da Flex.

Algoritmos também têm preconceitos

por Evandro Milet

Se você consultar as imagens no Google sobre pele bonita, pessoas bonitas ou felizes ou inteligentes ou competentes, aparecerão, na grande maioria, pessoas brancas. Se a consulta for “beleza”, veremos pessoas brancas, ocidentais e ricas. Se a palavra for “casais” aparecerão brancos, ricos e héteros. Se a consulta for “criminosos” ou “bandidos”, não veremos colarinhos brancos. Para “violência doméstica”, surpreendentemente, as imagens são praticamente só mulheres brancas.

Esse exemplos mostram como o viés algorítmico está entranhado nas aplicações de inteligência artificial(IA). O machine learning é um esquema bruto de aprendizagem. Para ele entender o que é um cachorro ou um gato, milhares de imagens desses animais devem ser alimentados por pessoas no sistema para que ele conheça todos as variedades de tipos. 

Da mesma forma, no primeiro parágrafo, as plataformas usam pessoas para identificar os tipos nas consultas apresentados. E essas pessoas, de carne e osso, têm uma visão moldada pela sua vivência, naturalmente com todas as deturpações causadas pelos preconceitos e diversidade com que lidaram ao longo da vida.

Recentemente, essa deturpação se refletiu nos algoritmos de reconhecimento facial que faziam identificações erradas mais com pessoas de pele negra ou latinos do que com brancos nos Estados Unidos. Certamente porque os algoritmos foram ensinados com estereótipos equivocados. O mesmo problema acontece com sistemas de IA que analisam currículos ou formulários de financiamento em bancos.

De forma crescente, os algoritmos nos sistemas de e-commerce, nos mecanismos de busca, nas redes sociais, nos aplicativos de relacionamento das empresas e nas plataformas em geral usam sistemas de IA para interagir com o público, aprendendo tudo sobre as pessoas e tomando decisões autônomas com base nas referências usadas nos programas de computador que criaram esses algoritmos e nos seus dados. E esses programas foram feitos por desenvolvedores humanos e que têm sua própria percepção de mundo. 

O momento no mundo onde se discute como nunca racismo, diversidade, pautas identitárias, preconceitos, igualdade de oportunidades e desigualdade de renda exige que o histórico incrustado na cabeça das pessoas não seja transportado para os algoritmos e que a IA seja de fato inteligente e justa.

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Curiosidades da pandemia: a camisa Zoom e outras histórias

por Evandro Milet

Camisa Zoom  

O New York Times mostra a verdade para os homens: se você permaneceu trabalhando durante a pandemia, você tem uma camisa Zoom. Ela estará nas costas da sua cadeira de trabalho ou em um cabide por perto. E você a vestirá momentos antes de começar a reunião virtual. Como as gravatas que o ex-Presidente Lyndon Johnson tornou famosas e que já estavam prontas, com o laço dado. Era só enfiar no pescoço pela cabeça. A camisa Zoom ideal é assim: boa para aparecer em qualquer tipo de reunião e já abotoada de preferência, bastando enfiar pela cabeça. Como as reuniões acontecem de vez em quando e você não está saindo, pode lavar só a cada semana ou duas semanas.(é bom que seja fácil de lavar sem precisar passar).

A camisa Zoom é a última palavra em roupa Zoom e tem uma etiqueta apropriada: paletós e gravatas, nem pensar, até porque todo mundo sabe que você está com o laptop talvez em cima da mesa de jantar e com uma pilha de louça adiante. Se a pessoa exagerar na roupa vai parecer um pouco pretensiosa. E que não tente levantar na frente da câmera porque a parte de baixo pode ter só pijama. 

O batom como medidor econômico 

Por ser item de preço relativamente baixo e resultado imediato, ele se tornou aliado feminino em tempos de crise, dose extra e barata de autoestima. O primeiro a entender essa lógica foi Leonard Lauder, herdeiro do grupo de estética Estée Lauder. Em 2001, depois do pandemônio deflagrado pelos ataques terroristas de 11 de setembro, ele percebeu inusitado crescimento de vendas. O fenômeno sugeriu a ele a ideia do “efeito batom” — a busca feminina pela beleza contra a dureza do cotidiano, e um olhar para o crash da bolsa de 1929 entregou reação parecida. Enquanto setores industriais patinavam, os produtos de maquiagem vendiam como pão quente.

Com o uso atual de máscaras, porém a coisa ficou complicada. O mercado mundial de batons teve a maior queda desde 2015: de 67,2 para 64,5 bilhões de dólares entre 2019 e 2020. O mercado brasileiro também encolheu de 3,1 para 2,8 bilhões de dólares nesse período.

No Brasil, por exemplo, a busca no Google pelo termo “batom” atingiu o pior patamar dos últimos seis anos, desde o início da quarentena. Mas não será assim para sempre, evidentemente. A gradual retomada da normalidade possível permitirá despontar, em casa, na rua, em todo o mundo, mulheres lindas e empoderadas que farão do batom, mais uma vez, uma arma pacífica. 

https://veja.abril.com.br/entretenimento/a-queda-de-venda-de-batons-define-os-tempos-de-crise/

Viagem fake 

Está com saudades da experiência de viajar? Um aeroporto de Taiwan tem a solução: um itinerário falso no qual você faz o check-in, passa pelo controle de segurança e até embarca na aeronave – mas não decola.

O aeroporto de Songshan, no centro de Taipei, começou a oferecer essa experiência na quinta-feira, 2, com aproximadamente 60 participantes ansiosos.

Cerca de 7 mil pessoas se inscreveram para participar. Os vencedores foram escolhidos aleatoriamente. Mais experiências de voo falsas ocorrerão nas próximas semanas.

Os passageiros receberam cartões de embarque e passaram pela segurança e imigração antes de embarcarem no Airbus A330 da maior companhia aérea de Taiwan, a China Airlines, onde os comissários de bordo conversavam com eles.

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,taiwan-oferece-voos-falsos-para-turistas-saudosos,70003353452

Carros passeiam no Shopping Botucatu 

O shopping de Botucatu (SP) começou a atender pelo sistema “drive-thru” e, para isso, liberou a entrada dos carros dentro dos corredores do prédio para os clientes retirarem os produtos na porta das lojas.

Segundo o shopping, a medida foi tomada para “manter a segurança dos clientes e seguir as recomendações de isolamento durante as ações de prevenção ao coronavírus”.

Além disso, haverá sinalização para regrar a velocidade e o sentido do fluxo dos veículos dentro do estabelecimento. Não serão permitidos carros movidos a Diesel e motocicletas.

O drive-thru está liberado somente para a retirada, já a escolha e compra de produtos devem ser feitas antecipadamente pelos canais de cada loja. O shopping informou que a prova de roupas e análise das peças não serão autorizadas.

Antes da entrada no estabelecimento, os veículo também vão passar por uma triagem, que vai analisar as condições higiênicas do veículo, se há fumaça ou vazamento de óleo.

Não foi a primeira vez que uma medida inusitada chamou a atenção em um shopping do interior de SP. Um centro de compras localizado entre os municípios de Votorantim e Sorocaba foi “dividido”  pela flexibilização do comércio.

Como Sorocaba estava na fase vermelha do Plano SP, as lojas localizadas na área do shopping que pertencem ao município precisaram ficar fechadas. Já as lojas da área de Votorantim continuaram funcionando normalmente.

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Mundo digital, que já era acelerado, deu um salto

por Evandro Milet

Em 1965, Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, fez uma das maiores sacadas do mundo digital. Ele previu que a capacidade de processamento e armazenamento dos chips dobraria a cada 18 meses. Isso tem acontecido sistematicamente há mais de 50 anos( os computadores quânticos prometem agora quebrar essa tradição, com sua computação não binária). 

Desde 1965 vivemos então um normal no mundo digital: a convivência com uma exponencial que coloca no nosso bolso a capacidade de processamento dos supercomputadores do final do século passado, leva o custo de armazenamento de informações para quase zero e permite comunicações quase instantâneas como estamos presenciando com o 5G.

Essa infraestrutura criou coisas fantásticas que surpreendem mesmo aqueles que convivem desde sempre como eu, quase junto com o Gordon Moore, com novidades surpreendentes todas as semanas.

Verdade que durante anos, aqueles que tentaram prever o futuro costumavam subestimar o que acontecia com o hardware e superestimar o que acontecia com o software. Parece que isso foi superado pela dinâmica do capitalismo de startups que colocou milhões de empreendedores, em todo o mundo, a disponibilizar no mercado soluções digitais para todos os problemas e todas as dores do mundo. O espírito animal dos empresários, na forma digital, acelerou tudo, inclusive a destruição criativa de Schumpeter, talvez mais para hecatombe criativa.

Grandes empresas ou pelo menos grandes promessas, mesmo digitais recentes, algumas inclusive que costumavam ficar nas listas das maiores durante dezenas de anos agora sucumbem ou balançam seriamente uma atrás da outra. Já foram engolidas Kodak, Xerox, Motorola, Nokia, Blockbuster, Macy’s, Sears, Yahoo, Blackberry, Orkut, Compaq, DEC, Sun, Sega, HP, Atari, muitas de aviação, muitos bancos e muitas do varejo.

Em 1970, completando agora 50 anos, foi lançado o grande best seller do futurismo, o livro “O Choque do futuro” do visionário Alvin Toffler. Ali, em paralelo com a exponencial de Gordon Moore, ele anteviu o correio eletrônico, a mídia interativa, os chats, as videoconferências, o trabalho em casa e criou a figura do prosumidor, mistura de consumidor com produtor, popularizada nos auto serviços e até no mundo maker atual. Toffler inclusive afirmou a verdade repetida sem paternidade hoje que “ o analfabeto do século 21 não será aquele que não souber ler e escrever, mas aquele que não souber aprender, desaprender e reaprender”

Ele previu o trabalho em casa, a economia compartilhada para usar em vez de possuir, a sobrecarga de informações propiciada pela proliferação de computadores pessoais e redes, os assistentes pessoais digitais e a adhocracia, uma maneira de organização de empresas sem estrutura formal como aliás funcionam muitas startups hoje.

Duas de suas previsões, contestadas por críticos durantes tempos, caem como bomba em tempos de pandemia: ele previu que as cidades perderiam importância com a migração do trabalho dos escritórios e fábricas para as casas e que a sobrecarga de informações e dados provocariam isolamento social. Pode não ser definitivo, mas está acontecendo com muita gente querendo morar em lugares mais ecológicos e trancados em casa.

O fato é que o nosso normal, de viver a exponencial do mundo digital, foi disruptado(existe isso?) e a curva acentuada virou vertical de repente, com a pandemia provocando uma antecipação de futuros. Coisas que a exponencial digital traria em 5 ou 10 anos foram jogadas na necessidade do presente e aceleradas na educação, saúde, trabalho, lazer, justiça, governo, comércio e todo o resto.

Muita gente considera a expressão “O Novo Normal” como algo estanque ou acomodado. Nada mais equivocado. Não tem sido assim por 50 anos e continuará não sendo. Mas queremos nossa curva exponencial de volta, já acostumamos com ela. Esse será o nosso novo normal, já incorporado das descontinuidades da pandemia, isto é, provavelmente.

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Empresas abandonam reconhecimento facial por identificações equivocadas

IBM, Amazon e Microsoft deixam de lado a tecnologia depois de estudos comprovarem que ela reforça preconceitos raciais

Por André Lopes – Publicado em VEJA de 24 de junho de 2020, edição nº 2692 

O assassinato do americano George Floyd em uma abordagem policial despertou a urgência do combate a toda e qualquer forma de racismo. Nesse contexto, uma tecnologia que nasceu com a promessa de tornar as cidades mais seguras passou a ser amplamente contestada. Trata-se do sistema de reconhecimento facial, método de identificação de rostos que tem sido acusado não apenas de devassar a privacidade das pessoas como também de reforçar o preconceito racial. 

Estudos recentes mostram que negros estão mais expostos a erros cometidos por essas máquinas, correndo o risco concreto de ser submetidos à violência de certas autoridades graças a leituras equivocadas feitas pelas câmeras. Em um estudo recente, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) comprovaram que rostos mais escuros são pouco representados nos conjuntos de dados usados para “treinar” os equipamentos. A mesma pesquisa concluiu que os algoritmos classificaram as mulheres de pele escura como sendo homens em 34,7% dos casos, enquanto o índice de falhas na aferição de homens caucasianos foi inferior a 1%.

As dúvidas a respeito do uso da tecnologia estão levando inúmeras empresas a abandoná-la, congelando um mercado com potencial para movimentar 7 bilhões de dólares até 2024. A IBM foi a primeira. No início de junho, a companhia americana informou que não vai mais desenvolver ferramentas de vigilância em massa em contextos que violem os direitos e liberdades humanas — é exatamente o que ocorre agora. Na sequência, foi a vez da Amazon, empresa do bilionário Jeff Bezos, que proibiu a polícia de usar o seu software Rekognition por um ano. Na quinta-feira 11 de junho, a Microsoft se uniu às rivais e decidiu limitar o acesso das suas ferramentas ao avisar que não venderá a tecnologia até que haja uma lei federal de regulamentação.

O sistema da Amazon era alvo de dúvidas desde o ano passado. Em um levantamento inédito, a União Americana para as Liberdades Civis testou a assertividade do algoritmo cruzando as fotos de todos os 535 senadores e deputados federais com as imagens de 25 000 criminosos arquivadas num banco de dados. A falha foi discrepante: 28 dos legisladores foram reconhecidos como bandidos, mas nenhum dos parlamentares era foragido da Justiça. 

Outras pesquisas recentes constataram que máscaras de proteção como as usadas para evitar o contágio pela Covid-19 são capazes de ludibriar os sensores e suspeita-se até que lentes de contato possam fazer o mesmo. O ocaso da tecnologia de reconhecimento facial mostra que a fé cega que em geral se deposita nas inovações — supostamente desenvolvidas a partir de rigorosos preceitos técnicos — pode muitas vezes ser um grande equívoco. 

https://veja.abril.com.br/tecnologia/empresas-abandonam-reconhecimento-facial-por-identificacoes-equivocadas/

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Igual diferente – assim serão as coisas depois da pandemia

Como vai ser após a pandemia? Misturamos o que já existe para criar novidades

29.jun.2020 

Muita gente me pergunta como vão ser as coisas depois da pandemia. Respondo que o ser humano é péssimo para prever o futuro. Quando insistem, digo que o futuro será igual diferente.

Como vou trabalhar, vender meus produtos? Igual diferente. Como vou viajar? Igual diferente. Isso pode tranquilizar as pessoas porque, mesmo quando o mundo muda, e a tradição do mundo é mudar, essências permanecem.

Os carros da Ford mantiveram as rodas e os bancos das charretes. E os motores dos carros até hoje são medidos em cavalos de potência.

À esquerda, o piloto João Santos, 41, e à direita, o copiloto Lucas Favarin, 32, em 

Não jogamos tudo fora para parir o novo. Misturamos o que já existe para criar as novidades.

A mercearia aqui no condomínio começou a usar o zap para vender seus produtos e vai muito bem. Todo mundo que pode foi ou está indo para o digital. Milhões de serviços se digitalizaram na marra. O que levaria anos levou semanas. E esses novos entrantes estão renovando as novas plataformas.

Por que a loja de rua não pode se juntar com a loja do lado para criarem um shopping virtual, pelas redes, naquela vizinhança que conhecem tão bem? Isso já está acontecendo.

Esses inputs de quem ainda não era ligado em tecnologia, mas teve que se conectar, serão vitais para forjar esse igual diferente.

Marketplaces digitais aceleram ainda mais sua expansão apresentando uma saída espetacular para negócios sem negócios e perspectivas. Aliás, o Alibaba explodiu depois da epidemia de Sars na China no começo do século, que fez o país e a Ásia darem um salto na digitalização.

O Brasil só vai sair dessa crise cuidando dos pequenos e médios empresários que agora estão ameaçados pela pandemia. São eles que põem a mão na massa, geram os empregos e fazem a economia do país rodar. Para essas pequenas empresas, os marketplaces e a nova comunicação podem ser redentores. Eles são mais acessíveis e mais baratos do que os modelos e serviços que os precederam.

As empresas e os indivíduos vão ter de se transformar para seguirem entregando o que seguiremos desejando, como viajar, sair para jantar, encontrar os amigos.

A baixa estação pode ser a que terá os preços mais caros. A nova companhia aérea pode ser aquela que conseguir solução de ar fresco e saudável, tanto que se chamará Fresh Air. A melhor mesa do restaurante será ao ar livre. Isso tudo é chute, mas a inteligência humana adora dificuldade, desafio e risco. E já está criando o igual diferente.

Estou morando a 100 km de São Paulo e quero passar mais tempo aqui depois que isso tudo passar. O zoom me deixou mais perto dos meus clientes. Consigo mais qualidade de vida e foco no trabalho porque descobri que não trabalhava só na comunicação. Eu era também motorista, passava horas por dia no trânsito, mas essa nobre profissão não era a minha profissão.

E o home office é mais sadio que o office home daquelas pessoas que moravam no trabalho. Aquilo, que eu também pratiquei, não era sadio. Não acredito também no home office pleno. Daqui a pouco a minha mulher vai me matar…

Vou mudar da minha casa em São Paulo para um apartamento porque percebi que não precisava de tanta coisa. Por que quis tudo isso? Porque você me vendeu isso como publicitário, respondo a mim mesmo. Assim como estou conversando comigo mesmo, o mundo está conversando consigo mesmo.

O que vamos querer? Minha aposta é que vamos gastar mais em serviços do que em produtos, mais em experiências do que em consumo. O século 21 é o século do aprendizado permanente e das profissões que serão mais arquitetura do que construção. Este doloroso freio de arrumação está nos preparando para isso.

Nizan Guanaes

​Empreendedor, criador da N Ideias​.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nizanguanaes/2020/06/igual-diferente.shtml

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Investidores de startups revelam setores que podem se destacar em breve

Entre janeiro e maio, ecossistema de startups teve números de aportes superiores aos de 2019; para investidores, oportunidades no segundo semestre devem surgir em áreas como saúde, educação, agronegócio e e-commerce

01/07/2020 Por Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo

Passados mais de 100 dias desde o início do período de isolamento social no Brasil, é difícil destacar um setor da economia que possa dizer que esteja bem. Mas há aqueles que são capazes de vislumbrar uma luz no fim do túnel – caso dos investimentos em startups. Depois de um tropeço em março, com o mercado sentindo bastante insegurança em novos aportes e uma queda de 85% nos valores de cheques na comparação com o ano anterior, o ecossistema dá mostras de que pode seguir em frente. 

Segundo estatísticas da empresa de inovação Distrito, os investimentos realizados no Brasil entre janeiro e maio são até superiores aos de temporadas anteriores: foram aportados em startups daqui US$ 516 milhões, em 116 rodadas diferentes. No ano passado, tinham sido 113 cheques, num valor total de US$ 431 milhões. 

É válido salutar que talvez não haja fôlego para que o primeiro semestre de 2020 supere o do ano passado – em junho de 2019, rodadas milionárias que totalizaram US$ 681 milhões foram realizadas em empresas como Gympass, Loggi e Creditas, a partir dos aportes polpudos feitos pelo grupo japonês SoftBank. Na visão do mercado, porém, a sensação que se tem é que o ano passado foi que fugiu fora da curva – e não este. 

Considerados os números entre janeiro e maio, porém, é possível dizer que, apesar da situação complicada em que o País se encontra em diversos ramos, oportunidades seguem surgindo para as empresas de base tecnológica. 

E, na visão de investidores ouvidos pelo Estadão, elas são diversificadas: estão em áreas como saúde e educação à distância, mas também no e-commerce, no agronegócio, no varejo e até em tecnologias para o governo. Abaixo, confira as perspectivas e apostas de seis investidores – Romero Rodrigues (Redpoint eventures), Mate Pencz (Canary), Renato Ramalho (KPTL), Scott Sobel (Valor Capital), Flávio Dias (500 Startups) e Renato Mendes (Organica) – para os próximos meses. 

Tem setores que claramente foram catalisados pela pandemia, como a área de biotecnologia e de saúde, a tecnologia remota, como apps de produtividade e e-commerce. São áreas que vão se aproveitar da mudança de comportamento das pessoas, estão numa crescente que não retornará mais ao patamar pré-quarentena. Mas essas áreas trazem um desdobramento muito interessante em outros setores, na infraestrutura: isso vale tanto para soluções de logística e de entrega, que usam tecnologia para serem mais eficientes, quanto a infraestrutura da própria tecnologia, como nuvem e cibersegurança. Afinal, não basta só colocar um site no ar e sair vendendo: é preciso fazer o produto chegar, com uma boa experiência de cliente e cuidando bem dos seus dados. 

Acredito que a grande novidade é que o e-commerce vai voltar a ser sexy. É uma área que eu gosto bastante, até pela minha história. Foi um setor que teve um primeiro ciclo forte na primeira era da internet, as grandes histórias daquela época estavam relacionadas a isso, como a Buscapé e a Netshoes. E aí o e-commerce não estava tão atraente nos últimos anos, mas agora vai voltar em uma série de áreas, especialmente em soluções para marketplaces, como a Olist tem feito. E acho que há espaço para crescimento em novos setores no e-commerce, como a área de casa e decoração – que demanda um investimento maior. Não dá para entregar dois caminhões de piso usando os correios, tem que ter infraestrutura, mas agora há mais maturidade para isso. 

E tem alguns setores que nós já estávamos olhando e continuam atraentes. Saúde e bem estar são dois deles, fizemos investimentos em empresas como Vittude (terapia online) e Sami. Na pandemia, também investimos em mobilidade, na Tembici, que é uma empresa bacana. E temos visto muita coisa bacana na área de economia circular, em área de reciclagem. Acho também que as pessoas vão cobrar mais impacto positivo pelo que recebe investimentos, o que ajuda áreas como reciclagem e mobilidade

Hoje, estamos de olho em oportunidades de eficiência e produtividade em diferentes setores da economia, mas especialmente em verticais focadas no consumo da classe média. Acredito que a pandemia vai reforçar a transformação digital em todas as indústrias, com muitas oportunidades para quem quiser fazer a tradução do “físico para o digital”, em varejo e e-commerce. Saúde tem ido bem, fizemos alguns investimentos nessa área. Mobilidade também. Outro destaque são as as fintechs, que chamaram a atenção nos últimos anos e terão ainda mais inovação. Será um movimento de inovação contínua, puxado pelo que o Banco Central tem promovido na regulação, em áreas como o open banking e os pagamentos instantâneos.

A pandemia é uma oportunidade enorme de negócios porque surgiram novas dores para os consumidores, ninguém as resolveu ainda. Algumas respostas já estão óbvias, como telemedicina, ensino à distância e soluções para trabalho remoto. Mas outras ainda são difíceis de precisar, porque passa por entender mudanças de comportamento. Muita gente perdeu o medo de fazer coisas online, comprar, tem muita oportunidade aí – até porque é um medo que se perdeu e não volta mais. Vejo com bons olhos quem apostar em novidades em alimentos e bebidas, ou no setor de limpeza. Por outro lado, também há setores que vão ter problemas justamente por conta do medo – em especial, aqueles que envolvem contato físico, especialmente, como turismo e restaurantes. 

O agronegócio tem sido, consistentemente nas últimas décadas, se provado como um setor com DNA brasileiro. Acho que há muito espaço para tecnologia nessa área. Todas as nossas empresas do portfólio desse setor estão indo muito bem, mesmo com toda a crise e a dificuldade logística. O choque de curto prazo (por conta da pandemia) não mudou a tese de investimentos e estratégia que a gente já tinha. Outro setor que tem bastante oportunidade é o de govtechs, startups que prestam serviço para o governo. Vimos agora que há muito espaço, muita demanda na digitalização para qualquer ponto de contato do governo com a população. Além disso, as empresas de saúde também tem passado por um momento interessante. 

Não vejo uma divisão tão grande por setores, mas vejo que algumas coisas terão uma importância maior na pandemia. Fico feliz de ver que há uma quantidade relevante de empreendedores indo atrás de oportunidades de usar tecnologia no agronegócio e também na luta contra mudanças climáticas, na discussão de créditos de carbono, por exemplo. Acho que o Brasil é um ótimo espaço de testes para isso, até por conta do patrimônio natural como a Amazônia. Nós não tínhamos quase nenhuma empresa de agro no portfólio, agora estamos estudando várias. Mas o resto também vai continuar em alta: fintechs seguem acelerando, setor imobiliário também, eram tendências que já estavam acontecendo. 

https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,investidores-de-startups-revelam-setores-que-podem-se-destacar-em-breve,70003349845

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