HOME OFFICE: COMO TRABALHAR PARA UMA EMPRESA NO EXTERIOR SEM SAIR DO BRASIL

Com escalada do dólar, mão de obra brasileira entra no radar de companhias estrangeiras, que buscam reduzir custos e também procuram profissionais com conhecimento em várias linguagens 

Texto: Renée Pereira e Luciana Dyniewicz – Estadão 31 de março de 2021 

É entre 10h e 14h no horário de Brasília – quando é fim do dia na Europa e manhã na costa oeste dos Estados Unidos – que o programador Renan Bandeira consegue encontrar, simultaneamente, o maior número de colegas de trabalho online. Apesar de morar em Fortaleza, Bandeira trabalha para uma empresa americana que tem 80 funcionários (outros três brasileiros) espalhados pelo globo.

O caso mostra como a expansão do home office – forçada pela pandemia do coronavírus – trouxe grandes transformações ao mundo corporativo e abriu as fronteiras para o mercado de trabalho. Nos últimos meses, empresas de várias partes do mundo, como a em que Bandeira trabalha, decidiram buscar no Brasil talentos para compor seus times. Ao contrário do movimento percebido antes da pandemia, agora os chamados ‘expatriados virtuais’ não precisam nem de passaporte para trabalhar fora do País e, em alguns casos, nem de inglês fluente. De casa, fazem seus trabalhos e prestam contas para superiores no exterior.

Bandeira faz parte de um grupo no Whatsapp de profissionais de TI em Fortaleza que trabalham remotamente. São 70 pessoas no grupo, cerca de 90% contratados por empresas de fora. Grande parte deles ainda quer ir para o exterior para morar e trabalhar, diz ele.

“O mercado de TI se assemelha muito ao do futebol. Os jogadores querem ir pra fora. Eu não descarto ir. Mas, hoje, financeiramente, é muito melhor morar aqui e trabalhar para fora. E aí você também tem a possibilidade de ficar perto da família.”

O movimento teve início antes da pandemia, mas foi acelerado pelo isolamento social, que provocou um êxodo urbano importante, diz o diretor de Recrutamento da Robert Half, Lucas Nogueira. Além disso, a desvalorização do real frente ao dólar fortaleceu a tendência. Com a moeda nacional mais fraca, a mão de obra brasileira virou uma solução barata para as companhias estrangeiras. Ficou vantajoso para ambos os lados – a empresa gasta menos e o trabalhador ganha mais em relação ao mercado interno.

O mercado de TI se assemelha muito ao do futebol. Os jogadores querem ir pra fora. Eu não descarto ir.”

Em alguns casos, o salário pago por companhias estrangeiras chega a ser mais que o dobro da remuneração brasileira. Segundo Luciano Montezzo, da 99hunters, uma posição que paga R$ 8 mil no Brasil pode chegar a R$ 20 mil no exterior. No caso do engenheiro de software Lucas Vasconcelos, de 25 anos, o aumento do salário comparado ao mercado doméstico foi de 200%. Desde o fim do ano passado, quando saiu de uma empresa no Brasil, ele presta serviço para uma startup nos Estados Unidos. “Meu amigo sempre me chamava para trabalhar fora, mas achava que não estava preparado. Com a pandemia, tomei coragem, mandei meu currículo e fui chamado.”

A demanda mais forte por profissionais brasileiros têm ocorrido nas vagas de tecnologia – área em que o Brasil mesmo tem um déficit de 250 mil profissionais. A gerente de recrutamento para tecnologia da Michael Page, Luana Castro, afirma que, em 2020, percebeu um aumento de 30% na busca de empresas de fora por desenvolvedores brasileiros. “No passado, já existia esse movimento. Mas era mais restrito, porque as empresas tinham de conseguir o visto de trabalho para o funcionário. Com a pandemia, não é mais necessário que a pessoa mude de país. Ela fica aqui e trabalha de forma remota.”

Segundo a executiva, esse movimento é semelhante ao que ocorre há anos na Índia. No país, a mão de obra barata, a desregulamentação de leis trabalhistas e políticas do governo para atrair empresas estrangeiras impulsionaram o desenvolvimento tecnológico. No caso do Brasil, porém, não há a vinda de companhias.

Aqui, ao contrário do país asiático, o idioma também sempre foi um dificultador. Agora, porém, diante da falta global de mão de obra, algumas empresas nem estão mais exigindo fluência na língua. De acordo com Luana, há casos em que são contratados profissionais com um nível de inglês intermediário e um gestor que fala português acaba fazendo a interlocução.

No caso dos profissionais da área de tecnologia, além da questão do custo da mão de obra, a busca por brasileiros se deve ao perfil dos profissionais, afirma o presidente da empresa de recursos humanos Randstad, Fábio Battaglia. Segundo ele, aqui um desenvolvedor é mais generalista, aprende várias linguagens e não se limita a ser especialista de um único código. “Essa mão de obra, mais resiliente e criativa, tem sido muito valorizada por empresas no exterior.”

A Michael Page registrou, em 2020, alta de 30% na demanda de empresas estrangeiras por profissionais brasileiros, segundo Luana Castro

Battaglia afirma que só no primeiro trimestre deste ano a demanda por profissionais brasileiros na Randstad já bateu todo o volume do segundo semestre do ano passado. E deve continuar crescendo não só na área de tecnologia como em outros segmentos, de infraestrutura, marketing e design. A relações públicas Marcela Pfister, por exemplo, foi contratada no ano passado para uma vaga para customer sucess – uma função nova que envolve ajudar o cliente no uso de produtos e serviços numa determinada plataforma.

O desenvolvedor brasileiro tem sido demandado porque é mais generalista, aprende várias linguagens e não se limita a ser especialista de um único código.”

A empresa de Marcela é uma startup de software de eventos corporativos virtuais que fica nos Estados Unidos. Nesse caso, ela não precisa saber “codificar” – ou seja, desenvolver nenhum programa –, mas precisa entender um pouco do assunto. Ela conta que a companhia tem crescido rapidamente e está contratando novos profissionais, e os brasileiros estão no radar. “Quando cheguei eram 20 pessoas, hoje tem 108 e até o fim do ano querem alcançar 300.”

Para executivo da Robert Half, home office abriu um leque de oportunidades para o trabalhador brasileiroJOÃO NETO

Mas existem questões legais que precisam ser consideradas. Para trabalhar numa empresa americana, por exemplo, o brasileiro precisa seguir a legislação do país, diz o diretor de recrutamento da Robert Half, Lucas Nogueira. A restrição, no entanto, tem sido contornada com intermediação de empresas brasileiras – alternativa permitida desde a nova lei trabalhista de 2017, no governo Temer.

Empresas de recrutamento como a Robert Half, Michael Page e Randstad têm feito esse papel de terceirizar o trabalho. Elas contratam o brasileiro, cobram da empresa estrangeira e repassam para o trabalhador, que responde aos líderes no exterior. Outra opção é a prestação de serviço por pessoa jurídica, diz Luciano Montezzo, da 99hunters. Nesse caso, o trabalhador negocia e recebe direto da empresa estrangeira.

Isso pode ocorrer de várias formas, até mesmo em criptomoedas. Outros usam aplicativos ou empresas de serviços financeiros para receber em dólar a remuneração. Muitos contam com a ajuda de contadores para deixar a situação regularizada e pagar todos os impostos envolvidos, como foi o caso de Diego Pisani, de 20 anos. Em dezembro, ele trocou um emprego numa empresa brasileira por uma companhia na Austrália e recebe por meio de empresas de remessas internacionais. “Eles pagam o IOF da transferência e eu pago os demais impostos aqui.”

O advogado tributarista Eduardo Bomfim, sócio da Lee, Brock, Camargo Advogados, afirma que o profissional deve recolher os impostos como qualquer outro prestador de serviços. Se receber em criptomoeda, os impostos devem ser pagos pelo valor do serviço prestado. Depois, se a moeda for vendida com lucro, haverá também uma tributação sobre ganhos de capital.


Brasil tem déficit de 250 mil profissionais na área de tecnologia

Para o professor Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação da USP, a tendência de os profissionais trabalharem fora sem sair do País é positiva, pois permite um intercâmbio de conhecimento com alguns centros de desenvolvimento de tecnologia de ponta.

“O Brasil precisa dessa interação. E não é só o profissional contratado que ganha. Ele pode qualificar algum ajudante e ensinar o que aprendeu na empresa.”

Arbix avalia que, se as empresas locais não querem perder esses trabalhadores qualificados para o exterior, precisam melhorar os salários – o que não é feito, segundo o professor. Como o Brasil tem uma carência de 250 mil profissionais na área, o esperado seria um aumento bastante elevado nas remunerações.

“As empresas resistem em contratar gente de qualidade, com várias exceções, claro. Elas olham a participação no mercado com uma visão curta. Enquanto estão faturando, não veem necessidade de avançar.”

O Brasil precisa dessa interação. E não é só o profissional contratado que ganha. Ele pode qualificar algum ajudante e ensinar o que aprendeu na empresa.”

Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação da USP

O diretor da Crown World Mobility, Haroldo Modesto, tem uma visão um pouco diferente. Ele defende que seja feita uma análise detalhada de cada situação para avaliar possíveis riscos para todas as partes. Para citar alguns : trabalhista , tributário, previdenciário e definir as responsabilidades de cada parte. “Se amanhã alguém entrar na Justiça, a empresa que faz a intermediação pode ser solidária e terá de responder por isso, dependendo da atividade exercida”


BENEFÍCIOS DIFERENTES

‘A EMPRESA EM QUE TRABALHO CONCEDE FÉRIAS ILIMITADAS’

Formado em Computação, Renan Bandeira, de 28 anos, começou a trabalhar para uma empresa americana há apenas dois meses, mas, se quiser, já pode tirar férias. Entre os benefícios para os funcionários, a companhia oferece férias ilimitadas, desde que combinadas com o chefe.

Apesar de essa ser uma política bastante diferente para os padrões brasileiros, não foi nem isso que mais causou estranhamento em Bandeira quando ele “chegou” à nova empresa. “O choque que tive mesmo foi mais cultural. As pessoas não levam as coisas para o lado pessoal. Se você tem alguma discussão ali, está tudo bem”, conta ele, que mora em Fortaleza.

Bandeira mora em Fortaleza e trabalha em uma empresa americanaMARÍLIA MARÇAL

Outra cultura corporativa que tem animado Bandeira é a maior transparência. A empresa  compartilha semanalmente com os funcionários informações sobre sua situação de caixa e vendas realizadas. “Você se sente parte daquele negócio.”

O programador ainda espera a pandemia passar para conhecer pessoalmente os colegas de trabalho. Uma vez por ano, a empresa costuma organizar uma viagem para algum lugar do mundo para todos os funcionários se reunirem presencialmente. No ano passado, por causa do coronavírus, a companhia repartiu o orçamento dessa reunião para que cada trabalhador fizesse uma doação a uma instituição de caridade.

O choque que tive mesmo foi mais cultural. As pessoas não levam as coisas para o lado pessoal. Se você tem alguma discussão ali, está tudo bem”

Renan Bandeira

Bandeira conta que, quando começou a procurar vagas em empresas do exterior, encontrou dois perfis de companhias: as que buscam mão de obra barata (e que pagam salários semelhantes aos do Brasil) e as que querem um profissional qualificado de qualquer parte do mundo porque não há mais disponível no país em que estão. Nessas, um brasileiro pode receber o dobro do que ganharia se trabalhasse para uma companhia local.

Como o salário é em dólar, em real acaba variando de um mês para outro, Bandeira procura organizar seu orçamento considerando um câmbio de R$ 3 o dólar. Se o dólar vale mais do que isso (R$ 5,75 hoje), ele economiza todo o restante. “Pra mim, se o dólar estivesse abaixo de R$ 3, não valeria a pena o trabalho”, conta ele, cuja remuneração dobrou desde que começou a trabalhar para fora.


INCLUSÃO FEMININA

‘COM 9 MESES DE GRAVIDEZ, FUI CONTRATADA POR UMA STARTUP NOS EUA’

Aos 36 anos, Marcela Pfister já morou e trabalhou no Japão, na Austrália, em Dubai e na França. No começo de 2020, grávida da terceira filha, ela e o marido decidiram voltar ao Brasil e tentar uma vida nova em Atibaia, no interior de São Paulo. Mas, logo em seguida, veio a pandemia e muitos planos tiveram de ser adiados. Um dia, navegando pelo Linkedin, Marcela viu o anúncio de uma vaga de home office no exterior.

Embora tivesse pouca crença de que seria contratada por causa da gravidez, ela enviou o currículo e foi chamada para uma entrevista numa startup de eventos corporativos virtuais. “Logo de cara, falei que estava grávida de nove meses e, ainda assim, eles me aceitaram.”

Marcela foi contratada para uma função considerada nova: de customer success, que envolve ajudar o cliente no uso de produtos e serviços numa determinada plataforma. Formada em relações públicas, recentemente ela ganhou uma nova atribuição, que é a elaboração de artigos internos em francês. Ela acredita que o conhecimento de várias línguas ajudou na conquista da vaga. “No meu caso, o inglês era um pré-requisito, mas o conhecimento em outros idiomas também contava.”

A exemplo de outros profissionais, a brasileira foi contratada como pessoa jurídica e segue as regras americanas. “Nos feriados nacionais, por exemplo, eu trabalho normal”, diz Marcela, que recebe o salário direto em seu banco no Brasil, em reais.


FUSO HORÁRIO

‘REUNIÕES SÃO FEITAS NO INÍCIO DA NOITE DE DOMINGO, QUANDO JÁ É SEGUNDA DE MANHÃ NA AUSTRÁLIA’

Em dezembro do ano passado, Diego Pisani decidiu trocar o emprego numa companhia nacional por uma companhia de cibersegurança na Austrália. Apesar da diferença no fuso horário, ele não teve dificuldades de se adaptar. “Sempre gostei de trabalhar à noite. Então, para mim, não fez muita diferença”, diz o profissional. Além disso, completa ele, a empresa dá liberdade para os funcionários fazerem seus horários, desde que entreguem a tarefa pedida dentro do cronograma estabelecido.

Aos 20 anos, Pisani conseguiu emprego numa empresa australianaFELIPE RAU/ESTADÃO

Ele conta que a única coisa fora da rotina são as reuniões no fim do dia de domingo, quando na Austrália já é segunda de manhã. Mas esse não é um fator que incomoda Pisani, de 20 anos. Apesar de não ter faculdade na área, ele fez um curso intensivo em programação assim que saiu do ensino médio. Desde então, vem atuando como desenvolvedor. “Com oito ou nove anos já sabia programar. Aprendi cedo.”

Pisani foi contratado como pessoa jurídica e recebe por meio de empresas de remessa de recursos. “Eles fazem a transferência do dinheiro e pagam o IOF na transação. Aqui eu recolho os impostos respectivos”, diz o brasileiro, que tem a ajuda de um contador para fazer esse trabalho.


PRÁTICA DE IDIOMA

‘É UMA BOA ALTERNATIVA TRABALHAR REMOTAMENTE, TREINAR O INGLÊS, PARA, NO FUTURO, IR PARA O EXTERIOR’

Emanuel Oliveira trabalha na área de tecnologia desde 2011 e sempre teve vontade de atuar no exterior, mas via o idioma como uma barreira. Apesar de ler em inglês, tinha dificuldade para falar. Quando começou a pandemia e passou a trabalhar remotamente, percebeu que poderia tentar alguma vaga em uma empresa de fora sem sair de sua casa, em Quixadá (CE).

“Foi uma boa alternativa. Depois vi que poderia ser um caminho melhor. Ter essa oportunidade remota, ir treinando o inglês, para, no futuro, ir para Estados Unidos, Canadá, Austrália ou Europa.”

Emanuel Oliveira trabalha para uma empresa com sede na PolôniaILANA CABRAL

Pouco antes da quarentena, ele havia feito aulas de inglês e já conversava melhor no idioma quando fez a seleção para uma empresa com sede na Polônia que desenvolve plataformas para terceiros. Oliveira procurou vagas no LinkedIn, no site das empresas e em grupos no Telegram. Percebeu que, quando colocou no LinkedIn que estava aberto a novas oportunidades, passou a receber vários convites para processos seletivos.

Oliveira recebe em dólar por meio de um site que faz remessas e que, dependendo do valor, pede  o contrato de prestação de serviço para realizar a transferência. Considerando que antes, quando trabalhava para uma empresa brasileira, recebia décimo-terceiro e o terço adicional de férias, ele ganha hoje 50% a mais.

Tenho amigos que estão trabalhando na Europa. Eles comentam que é uma experiência única. Me chamam para ir e dizem que podem me indicar. Mas não dá para ir agora (por causa da pandemia).”

Emanuel Oliveira

Apesar da diferença de quatro horas de fuso entre Brasil e Polônia, Oliveira trabalha no horário brasileiro. As reuniões se concentram no período da manhã do Brasil, quando o escritório na Polônia está aberto. Durante a tarde, ele faz mais as tarefas que independem de ter alguém trabalhando no país-sede.

Oliveira trabalha para a empresa estrangeira desde dezembro e, apesar da distância que separa o Brasil da Polônia, já conheceu pessoalmente o presidente da companhia. “Ele veio para o Brasil no fim do ano passado para praticar kitesurf no Ceará e trouxe uma bebida polonesa de presente de casamento para mim”, conta, animado, o programador.


SALTO NO SALÁRIO

Há algum tempo, o engenheiro de software Lucas Vasconcelos vinha acompanhando de perto a movimentação de um grupo de amigos que, de casa, prestava serviço para o exterior. Apesar dos incentivos, ele sentia que ainda não estava preparado para encarar essa nova experiência. Mas, com a chegada da pandemia e tendo de fazer home office na empresa em que trabalhava, ganhou confiança e mandou currículo para uma companhia nos Estados Unidos. “Fiz a entrevista e consegui o emprego.”

A adaptação para um sistema totalmente online e sem infraestrutura física não foi fácil, sobretudo porque Vasconcelos tinha insegurança em relação ao seu nível de inglês. Mas, aos poucos, ele foi se soltando e percebendo que a comunicação não era um problema. “Hoje toda interação ocorre por meio de reuniões virtuais, onde discutimos as tarefas feitas e a fazer, mas muita coisa é resolvida pelo chat, o que ajuda bastante.”

Para não ter problemas e ficar em dia com o Fisco, contratei um escritório de contabilidade para resolver toda essa questão tributária.”

Lucas Vasconcelos

As dificuldades, no entanto, foram compensadas por um aumento de 200% na renda. O modelo de contratação de Vasconcelos é o de prestação de serviço. Ele abriu uma empresa no Brasil e presta serviço diretamente para a companhia americana. A remuneração é feita por meio de criptomoedas e é tributada como ganho de capital se houver lucro na venda. “Para não ter problemas e ficar em dia com o Fisco, contratei um escritório de contabilidade para resolver toda essa questão”, diz o brasileiro.

https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,home-office-como-trabalhar-para-uma-empresa-no-exterior-sem-sair-do-brasil,1159863

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Há 30 anos era uma vila de pescadores e hoje é o Vale do Silício da China

Uma megacidade na qual nasceram gigantes como Huawei e Tencent. Jovem, super-rápida e competitiva

Guillermo Abril El País Semanal China 15 JUL 2018 

1. A eficiência é vida

“Shenzhen está muito bem”, diz Eric Hu. “Se você consegue sobreviver a ela”. Fala rápido. Pensa rápido. Tem o cabelo esvoaçante, camiseta surrada, tênis. Olha seu celular com frequência, um Huawei, marca chinesa, e com orgulho: “O iPhone”, diz, “é um lixo”. É noite neste lado do mundo e ele dirige seu Audi Q5, em cujo retrovisor dançam dois bichinhos de pelúcia Hello Kitty. Quer mostrar algo no centro desta cidade enorme, símbolo do capitalismo asiático, uma espécie de Eldorado tecnológico onde os recém-chegados buscam imitar os fundadores das grandes empresas do país. Aqui nasceram gigantes como Huawei, segunda produtora mundial de telefones inteligentes e líder em redes de telecomunicações, e Tencent, uma das maiores empresas de Internet do planeta, criadora do WeChat, o WhatsApp chinês, com 1 bilhão de usuários. Mas há outras 8.000 empresas de alta tecnologia. O setor contribui com 40% da economia da cidade. E esse PIB é monstruoso: o de Shenzhen disputa com o da Irlanda; o da região, conhecida como o Delta do Rio da Pérola, que inclui outros oito centros urbanos da China e as regiões especiais de Hong Kong e Macau, é equiparável ao de toda a Rússia.

Entre guinadas no volante, Hu vai enviando mensagens de voz através do WeChat (o “WhatsApp é outro lixo”). Fundou há três anos uma start-up de drones resistentes à água chamada Swellpro. Criações de engenharia com oito patentes próprias e uma câmera 4K para gravar cenas marítimas. São vendidas pelo equivalente a 6.140 reais. A maioria acaba no Ocidente. Muitas, em mãos de pessoas endinheiradas com barcos ou iates. Mas nascem em uma zona poeirenta, nos arredores, onde passam caminhões, os operários muito jovens dormem em apartamentos ao lado das fábricas e encontramos, ao caminhar por suas ruelas, todo tipo de negócios de manufaturas tecnológicas. Shenzhen, conta, é o melhor lugar para a inovação. Com uma rede de fornecedores de componentes eletrônicos inigualável. “Atrai pessoas jovens, educadas, enérgicas”, diz Hu. “Vai a toda a velocidade. A concorrência é altíssima.” Os arranha-céus brilham através da janela. “Este foi erguido há dois anos”, aponta. Atravessa uma área de livre comércio recém-aberta pelo Governo. Vias engarrafadas. Carros caros. E, no fim, para. Desce e aponta a inscrição em algumas pedras. Em caracteres chineses se lê a filosofia que define a cidade: “Tempo é dinheiro. A eficiência é a vida”.

O óculos emite uma vibração que, em contato com um osso de seu crânio, faz com que a escute dentro da cabeçaO óculos emite uma vibração que, em contato com um osso de seu crânio, faz com que a escute dentro da cabeça JAMES RAJOTTE

Hu nasceu em 1980, ano em que Deng Xiaoping transformou Shenzhen na primeira zona econômica especial do país. Uma porta aberta ao liberalismo, à iniciativa privada. Um experimento da China do futuro. A cidade era uma vila de pescadores com 30.000 habitantes. Hoje, no censo oficial beira os 12 milhões; no extraoficial alcança 20. Uma locomotiva à qual chegam centenas de milhares de trabalhadores arrojados todo o ano. Engenheiros altamente qualificados, legiões de operários. Não se vê um rosto velho na rua. A idade média ronda os 28. Em Shenzhen quase ninguém é de Shenzhen. Ele cresceu em uma zona rural da província, entre galinhas e plantações de arroz. Estudou engenharia, trabalhou em uma fábrica de celulares da Samsung (na região estão muitas das megafábricas do mundo) e em 2005 se mudou para a cidade para tentar a sorte. Lapidou o inglês vendendo USB e câmeras. Depois passou a trabalhar por conta própria. Seu negócio, explica, consiste em “desenvolver produtos: não algo barato, mas inovador, alta tecnologia”. Esboça ideias: seus engenheiros projetam e montam até chegar a um protótipo. Seu último invento é um projetor portátil do tamanho de um punho. Shenzhen, explica, é o paraíso do hardware. O físico, o artefato. Com um ecossistema superveloz onde a passagem da ideia à produção em série ocorre em um suspiro e quase na mesma quadra. E enquanto sonha em dar a grande tacada, lembra com nostalgia de seu primeiro apartamento dividido, em um bairro do qual hoje não resta senão o templo budista. Ali agora se erguem os arranha-céus do parque tecnológico, com cerca de 1.300 empresas; uma centena delas cotada em Bolsa.

O bairro de Baishizhou, em Shenzhen

O bairro de Baishizhou, em Shenzhen JAMES RAJOTTE

2. O gigante tecnológico

Yu Chengdond entra na sala de reuniões sem gravata e seguido por uma secretária com saltos altos e brinquedos de pelúcia pendurados do celular. Cumprimenta em espanhol. Fala um inglês duro. É o executivo-chefe de uma das três ramificações da Huawei, a divisão de telefones e outros produtos de consumo. Representa um terço da receita da multinacional, cujo faturamento beira os 250 bilhões de reais, conta com 180.000 funcionários em 170 países e lidera o mercado de celulares na China. Na Espanha disputa ferrenhamente com a Samsung o primeiro lugar. No mundo, o ombro a ombro é contra a Apple, ambas atrás da Samsung. O CEO afirma que a empresa não teria existido se não tivesse nascido em Shenzhen: “Há 30 anos, quando a China não era tão aberta, se transformou em uma cidade de acolhida. Capitalista no econômico, não no político. De estilo ocidental. Onde se podia desenvolver uma gestão moderna”. Ele, engenheiro da Universidade de TsingHua, “o MIT chinês”, se uniu à empresa em 1993, quando começava a desenvolver infraestrutura telefônica. A Huawei foi fundada em 1987 pelo ex-militar Ren Zhengfei com apenas 19.000 reais. Uma empresa privada cuja primeira sede ficava entre plantações. Hoje se transferiram para um campus tecnológico de 200 hectares nos arredores da cidade, com universidade própria, apartamentos para trabalhadores, jardins zen e vans que transportam os funcionários de um edifício a outro com o ar condicionado no máximo. Mas não estão satisfeitos. “Podemos fazer melhor”, disse Yu. E para mostrar que se empenham nisso convidaram à sua sede cinquenta instagramers, youtubers e jornalistas ocidentais (entre os quais o EL PAÍS). Segundo o CEO, “nosso problema não é a inovação. Nisso somos fortes. O grande desafio é que não somos uma marca conhecida. Ninguém a conhece”. O marketing, a grande tragédia chinesa. Uma luta contra si mesmos para passar de sinônimo de produto barato ao de artigo de alta qualidade.

Os europeus Kristina Cahojova e Hynek Jemelik, inventores de um medidor de fertilidade feminina, criaram seus produtos na aceleradora de ‘start-ups’ HAX, ShenzhenOs europeus Kristina Cahojova e Hynek Jemelik, inventores de um medidor de fertilidade feminina, criaram seus produtos na aceleradora de ‘start-ups’ HAX, Shenzhen JAMES RAJOTTE

Durante dois dias de conferências e powerpoints no interior de um moderno bloco envidraçado que, visto em panorâmica, tem a forma de uma chave, diretores desfiam detalhes de seu próximo lançamento, o celular Mate 10, cujo chip Kirin 970, afirmam, imita o cérebro humano: “Unidade de processamento neuronal”, o chamam. O telefone, prestes a ser lançado (foi colocado à venda em outubro), está trancado em uma maleta com três fechaduras (numérica, de chave e bluetooth), colocam luvas brancas para tocar nele, pedem a assinatura de contratos de confidencialidade antes que se possa dar uma olhada. E em cada pausa projetam anúncios nos quais uma voz sensual de mulher sussurra sonhos eletrônicos.

Também decidiram abrir suas portas para mostrar uma face transparente, dinâmica, que lembre as concorrentes norte-americanas. Percorremos laboratórios onde engenheiros com avental de trabalho trituram equipamentos e terminais para medir sua resistência. Nas instalações há cartazes que avisam: “Prestem atenção às informações sobre segurança para proteger nossas patentes”. Uma visita rápida atravessando corredores intermináveis e desertos de mármore. Nunca oficinas com trabalhadores. É proibido tirar fotos na maioria das salas. E, ao contrário do mundo que se imagina, digamos, no Google, veem-se mesas de pingue-pongue, mas sem rede. Piscinas paradisíacas com horários estritos. Mesas de bilhar cobertas. Para quem é de fora não é permitido conversar com funcionários de forma espontânea. E o engenheiro autorizado a falar, sob o olhar de seus chefes, responde assim sobre suas aspirações pessoais: “São parecidas com o slogan da empresa: construir um mundo mais conectado”. O controle é férreo. “É uma empresa militar”, ironiza um financista que conhece o setor, referindo-se aos anos de juventude de seu fundador no Exército Popular.

Se não quer falar sem barreiras com um funcionário da Huawei, melhor ir a uma Pizza Hut mais próxima do campus. Em uma mesa há quatro profissionais de telecomunicações estrangeiros. “Somos a ONU”, brincam. Vêm de Brunei, Sri Lanka, Egito e Costa do Marfim. Especialistas em redes, vieram passar por um treinamento na sede. Suspiram porque desde que aterrissaram não puderam olhar o Facebook, e o WhatsApp funciona só por breves momentos: esqueceram-se de instalar no celular, antes de viajar, uma VPN (rede privada virtual), com a qual os usuários contornam diariamente a grande muralha chinesa da Internet e têm acesso ao outro lado da censura. Não se deve esquecer onde estamos. Nem a proximidade nesses dias do XIX Congresso Nacional do Partido Comunista da China: a imprensa regional fala na necessidade de “erradicar rumores políticos online”. Durante a refeição, quando por fim conseguem se conectar com o outro lado, o egípcio exclama: “Sou livre!”. O grito soa estranho na boca dos criadores do sistema. Mas esta é uma cidade de contradições, onde convivem as multinacionais de fast food e as bandeiras comunistas em cada avenida.

Uma funcionária da Tencent, criadora do WeChat e uma das maiores empresas de Internet do mundo, fundada em ShenzhenUma funcionária da Tencent, criadora do WeChat e uma das maiores empresas de Internet do mundo, fundada em Shenzhen JAMES RAJOTTE

3. Os inventores

Se no Vale do Silício se sonha nas garagens, muitos dos recém-chegados a Shenzhen com pretensões digitais se acomodam em apartamentos de Baishizhou, um bairro labiríntico, de estrutura medieval e com algazarra da rua, e com velhos edifícios de pouca altura de cujas janelas se pode dar a mão ao vizinho do bloco ao lado. Conta com cerca de 150.000 habitantes, 20 vezes a densidade da população do resto da cidade. E em seus meandros se misturam jogadores de mahjong, vendedores de lichia e de peixes vivos, depenadores de patos, emaranhado de cabos que pendem até o chão como trepadeiras e jovens hipsters que voltam da prática de esportes no meio da tarde. A área ficou cercada por arranha-céus. E já existe um plano para derrubá-la e erguer sobre seus escombros torres de vidro e aço.

Shenzhen é o centro urbano que mais depressa se transformou em uma megalópole na história, segundo Juan Du, professora de arquitetura na Universidade de Hong Kong. Em 1979 nem sequer contava com o status de cidade. Hoje possui 49 edifícios que superam os 200 metros de altura, incluindo o segundo mais alto do país, de quase 600 metros. E há outros 48 a caminho. O fervor imobiliário a transformou na bolha mais cara da China: o metro quadrado custa 21.000 reais em média. E as chengzhongcun (“aldeias no meio da cidade”) ficaram como testemunhas anãs da era em que tudo começou. Nelas, os aluguéis ainda são aceitáveis e atraem pessoas como Eli MacKinnon, de 28 anos, um nova-iorquino que trabalha na Insta360, uma start-up local que fabrica câmeras de realidade virtual.

MacKinnon fala chinês com fluência, se arranja com seu porte atlético, mas ficou velho: o fundador da empresa, JK Liu, tem 26 anos. E a idade média entre seus 250 funcionários é de 24. O ambiente de trabalho na sede impressiona: jovens, quase adolescentes, teclam concentrados, sentados em fileiras em uma sala com enormes janelas através das quais se veem edifícios no meio da obra. Muitos têm grandes objetos de pelúcia ao lado do teclado: Explica-se: são almofadas. Na hora da refeição, as luzes são apagadas, colocam a almofada sobre a mesa de trabalho e tiram uma soneca. Depois continuam trabalhando.

A inscrição define a filosofia da cidade: “Tempo é dinheiro. A eficiência é a vida”A inscrição define a filosofia da cidade: “Tempo é dinheiro. A eficiência é a vida” JAMES RAJOTTE

A empresa nasceu em 2014 e a história de seu fundador já apareceu na Forbes: JK Liu se mudou para Shenzhen com colegas da Universidade de Nanjing, convenceram uma empresa de capital de risco a investir neles e acabaram criando câmeras portáteis, acessíveis, que se acoplam ao celular e captam o mundo em 360 graus. Depois de um período em sua sede, entre óculos de realidade virtual e bolas futuristas com visão de peixe, dá a sensação de que as imagens governarão o planeta em breve. MacKinnon nos guia através de um terraço, na unidade 29, para mostrar as maravilhas que podem ser feitas com os inventos: registrar cenas tipo Matrix, mas quais o retratado fica congelado. Selfies em que a pessoa parece contida em uma esfera. Do alto se escutam as perfurações incessantes das obras. Um som envolvente, também em 360 graus. Quando se fecha os olhos, parece que o chão treme sob os pés. A cidade em estado febril, grunhindo como uma criança em pico de crescimento. Talvez seja o som do capitalismo, o dos impérios em seu apogeu. “Quem chega a Shenzhen vem com a ideia de que pode criar algo por si mesmo”, diz MasKinnon. “De que não há barreiras que não possa saltar. Representa uma verdadeira mudança na mentalidade chinesa.”

Jason Gui representa essa nova China. Tem 26 anos e usa uns óculos que de longe parecem de desenho. Imprimiu-os com uma máquina 3D. Toca com o dedo uma haste e começam a emitir a música de seu celular, ou isso ele diz, porque não se ouve nada: só vibra uma protuberância nas varetas, e essa vibração, em contato com um osso de seu crânio, faz com que a escute dentro da cabeça. Batizou-as à francesa, Vue, mas ele nasceu em Shenzhen. Sua família se mudou do interior da China. Deram-se bem, aproveitaram anos de boom imobiliário e ele estudou na Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos. Passa metade do ano em San Francisco, onde se encontra o ramo de marketing e design de sua empresa, e a outra em Shenzhen, onde tem a parte de P+D neste espaço chamado Hax, uma aceleradora de start-ups com capital norte-americano, para cuja sede acorrem empreendedores de meio mundo para aperfeiçoar protótipos em suas oficinas repletas de cabos. Entre telas, levanta o rosto uma dupla de taiwaneses, magrinhos e de aparência infantil, inventores de uma máquina para se jogar pingue-pongue sozinho; ou o grego George Kalligeros, engenheiro de 24 anos, com experiência na Tesla e Bentley, criador de um dispositivo que converte “em minutos” qualquer bicicleta em uma elétrica. Aqui não vale o etéreo. A tônica é o hardware, produtos físicos que são melhorados até se encontrar o design perfeito. Os criadores mostram seus inventos recém-saídos do forno, como esta espécie de fruto da cor do céu, “pequeno e sexy”, diz sua autora, a checa Kristina Cahojova, de 28 anos, que chegou há um mês, e em 10 dias tinha pronto seu medidor da fertilidade feminina. Dá muito que pensar o potencial de um aparelho semelhante conectado ao celular, à Internet: “Que tipo de compras o Google vai te sugerir em dias férteis? Que música? Que restaurantes? No fundo, é disso que trata o negócio. De milhões de dispositivos conectados, gerando informação sobre padrões de vida. Os especialistas chamam de IoT, a Internet das coisas, na sigla em inglês.

Bay McLaughlin, cofundador da BRINC, uma aceleradora de 'start-ups' tecnológicas com sede em Hong Kong. Trabalhou 10 anos no Vale do Silício até que percebeu que a revolução seguinte, a do hardware, aconteceria no sul da ChinaBay McLaughlin, cofundador da BRINC, uma aceleradora de ‘start-ups’ tecnológicas com sede em Hong Kong. Trabalhou 10 anos no Vale do Silício até que percebeu que a revolução seguinte, a do hardware, aconteceria no sul da China JAMES RAJOTTE

4. Hong Kong

De Iot entende bastante Bay McLaughlin, norte-americano de 34 anos, boné de sufista e olhar messiânico, que trabalhou 10 anos no Vale do Silício, 6 deles na Apple, até que se deu conta de que vivia no dia da marmota: “Deixou de haver inovação. Repetiam-se os mesmos pitches, as mesmas ideias, modelos, investidores. Então surgiu uma nova tendência: o hardware. E vi claramente. Se quisesse participar da revolução seguinte, precisava vir ao sul da China. Porque não vai acontecer no Vale do Silício. Tudo o que tiver impacto virá da Ásia. E a China vai ser a locomotiva”. Mas não se instalou em Shenzhen, e sim na cidade vizinha, já quase a mesma, a 30 quilômetros em linha reta, e separada por uma fronteira que 80 milhões de pessoas cruzam por ano: Hong Kong, “a face ocidental da China”, assim a chama, uma das praças financeiras mais poderosas, em cujas ruas se misturam as raças, os dialetos, os investimentos; a região administrativa especial, democrática, futurista, onde se dirige pela mão esquerda, vigora uma lei baseada na common law e se completam 20 anos desde que foi devolvida pelo Reino Unido. Hoje faz parte do plano mestre de Pequim para o Delta do Rio da Pérola, esse conglomerado de cidades que desembocam no Mar do Sul, ao qual também pertence Shenzhen. Juntas somam 66 milhões de habitantes e pouco a pouco vão se unindo com trens de alta velocidade, pontes quilométricas e acordos de livre comércio, formando a maior megacidade do planeta.

McLaughlin é cofundador de uma aceleradora de start-ups no estilo da HAX. A sua se chama BRINC e tem a vantagem, diz, de estar deste lado da censura chinesa, com a propriedade intelectual bem protegida, e a um passinho de Shezhen, o paraíso de componentes eletrônicos ao qual os recém-chegados acodem para montar seus protótipos. É o que conta Florian Simmendinger, alemão de 28 anos, cofundador da Soundbrenner, uma empresa que desenvolveu metrônomos digitais em forma de relógio de pulso. O artefato vibra e marca o ritmo no pulso, um engenho interessante para grupos de música: seu tam-tam sincroniza todos os membros. A ideia começou em Berlim; desenvolveram protótipos de forma precária. O primeiro, que abre em uma mesa, é grande e feio. Parece um aparelho para medir a pressão sanguínea. Para aperfeiçoá-lo, precisavam de melhores motores de vibração. “Na maior loja de eletrônicos de Berlim encontramos apenas um modelo. Começamos a encomendá-los no eBay, mas chegavam três semanas depois”.

O BRINC os selecionou para seu programa, o que envolve um investimento e uma transferência para Hong Kong, onde fazem cursos, recebem ajuda e um espaço para desenvolver o negócio. Assim que aterrissaram, atravessaram Shenzhen e entraram no epicentro do ecossistema de componentes eletrônicos, o mercado Huaqiangbei. O lugar lembra um formigueiro, do qual entram e saem vendedores e clientes vão e vem empurrando carrinhos com sacos de chips, placas, interruptores. Tem um aspecto que está entre uma loja de departamentos e um mercado atacadista de verduras, mas com andares dedicados a áudio, leds, telefonia, informática. Dentro, se ouve constantemente o ruído da fita adesiva fechando embalagens, porque tudo parece ser vendido em caixas, a granel; é possível fazer uma réplica quase exata do iPhone procurando peças nas bancas. O alemão ficou impressionado: “Uma velhinha me ofereceu 300 motores de vibração diferentes em um carrinho. Pensei: “Viemos ao lugar certo”. Na semana, visitaram o fabricante dos motores e pediram um sob medida. “E em dois meses nós o transformamos nisso”. Deixa sobre a mesa essa espécie de relógio de pulso que vibra e acompanha com seu tam-tam as bandas ao redor do mundo: venderam cerca de 40.000 unidades.

Yu Chengdong, CEO da HuaweiYu Chengdong, CEO da Huawei JAMES RAJOTTE

O ritmo. Sobre isso também gosta de falar o surfista McLaughlin, cujo discurso augura um futuro estilo Blade Runner, em que o tempo, claro, é dinheiro e a eficiência é a vida: “O Ocidente não percebe isso. As pessoas aqui estão trabalhando muito duro. Bem-vindos à nova norma. Você acha que a Suécia é o mundo real? Estão fodidos. Não é que os europeus não gostem de trabalhar. Lá foi doutrinado que o equilíbrio é mais importante do que a produtividade. E é muito bom se o mundo vai nesse ritmo. Mas, adivinhe, ele mudou. Agora é global. E a Europa nem aparece no gráfico”. Nesse mundo que vislumbra, cujo magma está sob seus pés, marcado por horários diferentes, cruzamentos de idiomas e o encontro entre Leste e Oeste, o hardware, diz ele, é a chave. A Internet das coisas. E os dados que geram essas coisas. No momento, existe cerca de 1 bilhão de objetos conectados à Internet. Os cálculos mais exagerados apontam que haverá 100 bilhões em 2020. Um “superorganismo” diz um relatório da OCDE, que formará um “sistema nervoso digital global”. Com impulsos de informação individual atualizados a cada segundo. “A maior revolução desde a Internet”, segundo McLaughlin. Na opinião dele, “o software nos torna leves. Porque significa que você pode criar o Instagram enquanto está sentado em um porão. Mas tampouco é o mundo real. O mundo real é físico. Todos falam de big data e inteligência artificial. Bem, como coletamos os dados dos objetos físicos? É por isso que no BRINC começamos onde começa o valor. Com o hardware. Precisamos introduzir mais wearables, mais sensores, mais produtos domésticos inteligentes. Para extrair os dados e entregá-los aos especialistas em algoritmos para que possam explorá-los”.

5. O novo ouro

Os dados, hoje, são mais valiosos do que o ouro”, sorri David Chang, diretor da MindWorks, empresa de capital de risco com sede em Hong Kong e focada nas start-ups da China. Chang também migrou de Silicon Valley para esta terra. Sua família era dona do banco Kwong on em Hong Kong (eles o venderam para a DBS). Seu pai foi um investidor destacado nos Estados Unidos, discípulo de Arthur Rock, a quem se atribui ter cunhado o termo venture capital e apostado em uma das primeiras empresas de semicondutores de silício na Califórnia nos anos cinquenta, aquelas que moldaram o nome Silicon Valley. Chang, de 34 anos, nasceu em Mountain View. Frequentou a mesma escola que Steve Jobs. Voltou para casa porque daqui, garante, em um raio de três horas de avião, se tem acesso a 2,2 bilhões de pessoas. “É 30% da humanidade. Deixo vocês por um momento para que meditem sobre isso”.

Mercado de eletrônicos no bairro de Huaqiangbei, em ShenzhenMercado de eletrônicos no bairro de Huaqiangbei, em Shenzhen JAMES RAJOTTE

Depois da pausa dramática, acrescenta que 70% dessa população ainda não possui Internet. E que na próxima década, 1,3 bilhão de pessoas se conectará à Rede. “Uma loucura, como se toda a China se conectasse de repente”. Ele chama isso de “a próxima grande onda”. E quer surfá-la. Gerencia um fundo de 70 milhões de euros. Investiu em diferentes start-ups, como LaLa Move, um serviço de compartilhamento de carros tipo Uber, mas para mercadorias. Passar uma tarde com ele é como abrir um zíper e enfiar o nariz numa dimensão futura em que o eixo do mundo gravita em direção à Ásia. Fala sobre o guanxi, as relações de confiança necessárias para entrar nos investimentos chineses (e que ele conquistou nas filiais locais do Morgan Stanley e do Credit Suisse). Sobre a maneira como se deve lidar com o Governo. Sobre a diferença entre investir em software e em hardware (prefere o soft: custos fixos, maior retorno e em menos tempo). E por que muitos serviços de Internet não custam um tostão: “Se te oferecem algo de graça é porque você é o produto. Se você usa o Facebook ou o WeChat, você é o produto”.

Então ele nos convida para ir ao China Club, na cobertura da antiga sede do Banco da China. Pede um dedo de whisky e, entre pequenos goles, instalado em uma poltrona de brocado e cercado por uma decoração tipo Shanghai anos quarenta, se define como um “glocal”, fala do preço estratosférico do mercado imobiliário e de arrisca que, no caso de um apocalipse nuclear estilo Kim Jong-un, apenas as bitcoins sobreviverão. Aconselha a comprar. Define essa região como “o centro do comércio mundial” e Shenzhen como uma cidade “crua, o wild wild West”. E a cobertura parece estar a anos-luz das fábricas empoeiradas de Shenzhen, onde tudo começa e faz girar a roda. Na saída, um cartaz de propaganda comunista, que o dono do lugar coleciona e hoje custa uma fortuna, lembra essa origem. No desenho, um homem chinês com um chapéu de palha diante de uma fábrica. E um lema: “Rompamos com as convenções estrangeiras. Tracemos o nosso próprio caminho para o desenvolvimento industrial”.

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Digitalizar não é o mesmo que transformação digital

 por Paul Leinwand e Mahadeva Matt Mani 26 de março de 2021

Resumo. A Covid-19 acelerou o ritmo das iniciativas digitais de muitas empresas – e ainda assim muitos executivos expressam preocupação por estarem realmente ficando para trás nas escolhas importantes que levam à diferenciação. Para vencer no mundo pós-Covid, os líderes devem … mais

Se sua organização está mais ocupada do que nunca com “digitalização”, você não está sozinho. Os esforços digitais têm proliferado há anos, à medida que as empresas se esforçam para acompanhar a inovação tecnológica. A Covid-19 acelerou enormemente o ritmo, à medida que muitas de nossas atividades mais básicas, desde compras no supermercado até “ir para o trabalho”, passaram a ser on-line.

No entanto, essa onda acelerada de iniciativas digitais não deve ser confundida com a transformação real dos negócios necessária para o sucesso na era digital. O primeiro é principalmente para possibilitar os negócios normais e “permanecer no jogo”, enquanto o último é sobre a construção de uma vantagem competitiva real e de longo prazo para ter sucesso.

Apesar de tanta energia e investimento em digitalização, estamos ouvindo muitos executivos expressarem preocupação com o fato de estarem realmente atrasados ​​em fazer escolhas importantes que levam à diferenciação. Eles estão certos em se preocupar, porque vencer no mundo pós-Covid exigirá repensar não apenas como você trabalha, mas também o que você faz para criar valor na era digital. Não importa quantas iniciativas digitais você implemente, você não pode esperar vencer sendo o mesmo que seus concorrentes – e todos eles estão fazendo coisas semelhantes, embora em velocidades diferentes.

Em vez disso, as empresas precisam dar um passo atrás e fundamentalmente reconceber como criam valor. Eles precisam reimaginar seu lugar no mundo, repensar como criam valor por meio dos ecossistemas e transformar suas organizações para permitir novos modelos de criação de valor. O resultado final é que as empresas precisam moldar seu próprio futuro, reconhecendo que o mundo mudou fundamentalmente e que devem encontrar nele seu propósito. Se você não consegue responder às perguntas “Por que estamos aqui?” ou “Qual valor exclusivo agregamos para nossos clientes?” então você provavelmente estará, na melhor das hipóteses, apenas permanecendo no jogo.

Pesquisamos mais de uma dúzia de empresas que têm trabalhado arduamente para se transformar dessa forma, muito antes de a pandemia chegar. Essas empresas mantiveram o ímpeto em meio à pior recessão e crise de saúde pública de nossa vida, e suas experiências coletivas contrastam fortemente com aquelas focadas apenas em digitalizar o que já fazem.

A primeira mostra é a Philips, que antes da Covid havia olhado para o futuro e decidido se transformar de um conglomerado multi-setorial centrado na fabricação em uma empresa focada em serviços e soluções de tecnologia de saúde. Ela abandonou seu negócio básico (iluminação) e evoluiu da fabricação e distribuição de produtos em escala, para reunir hardware, software, dados, experiência clínica e conhecimentos habilitados para IA para apoiar a entrega de cuidados de saúde de melhor qualidade e menor custo.

Quando a Covid-19 chegou, a Philips não apenas projetou e produziu em massa um novo ventilador, mas também o complementou com biossensores que alimentavam as informações do paciente em uma plataforma de monitoramento remoto para permitir o cuidado seguro de pacientes Covid-19 altamente contagiosos. A Philips também implantou um portal online para ajudar médicos em hospitais holandeses a compartilhar dados de pacientes relacionados. Apesar dos negócios da Philips serem desafiados pela queda da demanda após a Covid, seu novo modelo de fazer negócios tem apoiado um rápido pivô para soluções que contribuíram para a empresa terminar o ano com um crescimento de receita estável.

A construção é conhecida como uma indústria tradicionalmente pesada e “não tecnológica”, mas a Komatsu tem evoluído da venda de equipamentos de construção para se tornar líder em soluções de construção inteligentes habilitadas digitalmente. Isso está ajudando seus clientes a melhorar drasticamente a produtividade e a realização de valor em um setor que experimentou um aumento de produtividade praticamente nulo nos últimos 20 anos.

A Komatsu inicialmente lançou máquinas de construção que utilizam GPS, mapeamento digital, sensores e conexões IoT para permitir que seus clientes usem os equipamentos Komatsu com mais eficiência. Desde então, a empresa foi mais longe e abriu sua plataforma Landlog e dados que permitem que clientes, concorrentes e outras empresas no ecossistema de construção coordenem melhor suas atividades e melhorem a produtividade total em um projeto de construção. 

Essas inovações do modelo de negócios pré-Covid desde então permitiram à Komatsu aumentar novas fontes de receita por meio de serviços gerenciados e plataformas automatizadas, e até mesmo acelerou o lançamento de novas ofertas após a Covid, apesar da queda na atividade de construção.

Outro exemplo é a Microsoft, que nos últimos cinco anos tem se transformado de maior fornecedora de software do mundo para oferecer soluções habilitadas por tecnologia (hardware, software, serviços e computação em nuvem) para ajudar os clientes B2B e B2C a melhorar suas operações e sua experiência de vida diária. A empresa reinventou totalmente sua organização legada, mudando de um foco em empurrar produtos para o mercado de massa, para equipes orientadas para a solução do cliente encarregadas de reunir as muitas habilidades multifuncionais necessárias para adaptar os serviços às necessidades específicas do cliente.

Tendo esclarecido seu propósito e radicalmente se reorganizado em torno de equipes voltadas para soluções, a Microsoft estava em posição de “agir como primeiros socorros digitais para os primeiros respondentes do mundo”, quando a pandemia atingiu, como Nadella observou em um e-mail para os funcionários. Alcançou níveis históricos de crescimento da receita da nuvem com soluções como o apoio a universidades para mover todo o seu “negócio” online. Esse nível de velocidade e capacidade de resposta às necessidades exclusivas dos clientes estava atrasado na Microsoft há 10 anos, apesar de seu legado de liderança digital.

O que aprendemos com esses três exemplos e com as outras empresas que estudamos é que os líderes que desejam garantir o futuro de sua organização devem:

Reimaginar seu lugar no mundo, em vez de se concentrar em digitalizar o que você já faz. As empresas que se transformam para o sucesso na era digital definem sua razão de ser em termos do valor ousado que criam para seus clientes (e os clientes de seus clientes) e por quê. Eles tiram vantagem da nova tecnologia não para copiar o que todo mundo está fazendo, mas para avançar em suas próprias missões, investindo nos recursos de diferenciação que lhes permitem cumprir seu propósito. Preencher seu novo lugar no mundo com vida muitas vezes exige que abandonem antigos modelos de negócios, ativos e crenças sobre a criação de valor.

Crie valor por meio dos ecossistemas, em vez de tentar fazer tudo sozinho. As empresas de sucesso na era digital reconhecem que a maneira de permanecer relevante é trabalhar em conjunto com um ecossistema de participantes para entregar as propostas de valor ambiciosas que os clientes desejam e para inovar rapidamente e ampliar os incríveis recursos necessários. Operar dessa forma requer que os líderes pensem na criação de valor com mais ousadia, questionem o que sua organização deve realmente possuir e estejam preparados para se abrir para os concorrentes e abrir mão de fontes tradicionais de receita a fim de atender a algumas das necessidades mais fundamentais dos clientes.

Reimaginar sua organização para permitir um novo modelo de criação de valor, em vez de pedir às pessoas que trabalhem de novas maneiras dentro dos limites do antigo modelo organizacional. Os vencedores na era digital quebram as velhas estruturas de poder para que novas ideias e recursos possam ser dimensionados de forma mais colaborativa. Eles colocaram em prática equipes orientadas a resultados com a tarefa de colaborar em toda a organização e trabalhar com seus parceiros do ecossistema para fornecer os recursos diferenciadores (e muitas vezes multifuncionais) de que precisam para vencer.

Os líderes invariavelmente terão que lidar com questões importantes sobre quanta mudança eles devem realizar, quão rápido seus negócios existentes podem ser interrompidos, quão longe a estratégia pode se estender das capacidades de hoje e como melhor gerenciar a transformação.

Mas essas perguntas não devem ser usadas como desculpas para manter os modelos de negócios atuais. Sem uma transformação de negócios mais fundamental, a digitalização por si só é um caminho para lugar nenhum. Lembre-se da famosa citação de Peter Drucker: “Administração é fazer certo as coisas ; liderança é fazer as coisas certas ”. Agora é a hora de as equipes executivas se apresentarem, se disruptarem e se tornarem líderes na era digital.

Paul Leinwand é o diretor-gerente global de estratégia e crescimento orientado a capacidades na Strategy &, o negócio de consultoria de estratégia da PwC. Ele é diretor da PwC US, professor adjunto de estratégia na Kellogg School e co-autor de vários livros, incluindo Strategy That Works: How Winning Companies Close the Strategy-to-Execution Gap (HBR Press, 2016) e os próximos Além do digital: como grandes líderes transformam suas organizações e moldam o futuro. (HBR Press, 2021).

Mahadeva Matt Mani lidera a plataforma de transformação da PwC e Strategy &, aconselhando executivos sobre transformações de modelos de negócios e criação de valor operacional e programas de produtividade. Ele é um diretor dos EUA atualmente destacado para a PwC Holanda e co-autor do livro Beyond Digital: How Great Leaders Transform their Organizations and Shape the Future. (HBR Press, 2021)

https://hbr.org/2021/03/digitizing-isnt-the-same-as-digital-transformation?ab=hero-subleft-1

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A indústria digital em xeque

Por Pedro Doria – O Globo 09/04/2021 

Este ano, 2021, é um ano de transformação para a indústria digital. A mudança não é uma — são muitas e simultâneas. Nenhuma é de novo aparelho, revolução em software, inovação de qualquer sorte. Mas, enquanto as fábricas de automóveis estão empacando mundo afora pela falta de microchips, centenas de bilhões de dólares se acumulam em ilhotas no Canal da Mancha, e gigantes ainda pairam na península logo abaixo de San Francisco — o Vale do Silício —, tudo pode mudar.

Sim, microprocessadores estão em falta. No mundo todo. Quem quer, mas ainda não conseguiu, comprar um PlayStation 5, o novo modelo de iMac, ou um carro bacana daqueles caros e cheio de apetrechos digitais, o problema é esse. De bate-pronto, nas lojas, a explicação é que a pandemia atrapalhou a logística do mundo. É verdade, mas é só parcialmente verdade.

Houve um tempo em que a Intel, empresa que inventou o Vale do Silício e a microcomputação, era líder mundial em microchips — o cérebro de qualquer coisa que se diga digital. Não mais. A força dominante é a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company. Todos a chamam de TSMC mesmo, e, com esse nome sem graça, sem uma marca que o valha, produz próximo de 60% dos microchips do planeta. Em segundo, com quase 20%, está a coreana Samsung. E simplesmente nenhuma empresa ocidental tem o nível de tecnologia e capacidade de miniaturização para fazer o que a TSMC faz. Dentro do seu celular, se for de ponta, o cérebro veio de Taiwan. (Até a Intel desenha algum de seus chips e terceiriza lá o fabrico.)

A pandemia atrapalhou a linha de produção, a logística de chegada de matéria-prima e partida de chips prontos, mas, se não fosse a briga comercial do ex-presidente Donald Trump com a China, parte dessa logística não estaria tão abalada. Quando se sai proibindo uso de tecnologia aqui e ali, nas brigas entre advogados sobre origem de dezenas de milhares de patentes, na tentativa de determinar se o aparelho X ou o Y usam isso ou aquilo, tudo atrasa. E o novo PlayStation não chega às lojas. Esse processo da globalização, que funcionava há 30 anos, quebrou e tem de ser remontado.

Enquanto isso, a ex-presidente do Banco Central americano, hoje equivalente a ministra da Economia Janet Yellen pôs perante os europeus uma proposta inusitada, talvez surpreendente. Garantir que toda nação cobre uma taxa mínima de corporações — fala-se num piso de 21%. No Brasil, passa dos 35% — não faz lá muito sentido botar empresa de alcance global por aqui. Na Irlanda, é 12,5%. Lá faz muito sentido — e muitas gigantes do Vale têm lá suas sedes europeias. Algumas ilhas autônomas na Europa cobram ainda menos e, num mundo em que compras são feitas online em território não lá muito claro, faturar onde convém é fácil. Corporações que valem trilhão de dólares no mercado pagam bem pouco imposto.

Se o projeto de Biden der certo, e o mundo comprar a ideia, haverá mais dinheiro para segurar o tranco do desemprego que a automação causará. Esse, afinal, é o problema de todos.

Esse, mas não só. Porque as duas crises — mais o antitruste que vem aí — se encaixam. No pano de fundo, está a guerra fria entre EUA e China, que Trump considerou dar para resolver numa guerra tarifária ou proibindo uso de patentes. Emperrou a logística mundial sem ter visto a crise real. Quando eram EUA contra União Soviética, o problema era quem podia explodir mais vezes o planeta. Com a China é mais complexo. Uma ditadura que se mostrou capaz de ser mais avançada tecnologicamente, gerar e distribuir riqueza, sugerindo que talvez tenha um modelo melhor que a democracia liberal.

Cabe às democracias provar o contrário.

https://blogs.oglobo.globo.com/opiniao/post/industria-digital-em-xeque.html

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Popularidade da ‘gig economy’ na Dark Web é uma ameaça crescente, alertam pesquisadores

Especialistas observam aumento nos anúncios de pedidos para hackers black hat. Aqui está o que eles estão almejando e como responder à ameaça

Andrada Fiscutean, CSO 01/04/2021 

“Preciso de um hacker de site por US$ 2.000”; “Quebre este site por US$ 10”; “Você pode coletar informações dos sites de nossos concorrentes?”; ou “Você pode excluir comentários? Budget US$ 300”.

Postagens como essas, em que indivíduos tentam contratar black hats, inundaram alguns dos fóruns de hackers mais ativos na dark web. A maioria dessas mensagens é sobre como atacar sites, comprar e vender bancos de dados de clientes ou obter acesso a recursos corporativos da web. A maioria das pessoas quer comprar, mas algumas também vendem. Tanto os cibercriminosos novos quanto os experientes anunciam o que podem oferecer, revelando sua experiência e disposição para infringir a lei.

Pesquisadores da empresa de segurança Positive Technologies analisaram os dez fóruns mais notórios da dark web e disseram que, no ano passado, eles viram um aumento de postagens como essas. Mais de oito milhões de usuários estão registrados nesses fóruns e publicaram mais de 80 milhões de mensagens no total.

Veja também Ataques cibernéticos em 2020 são maiores do que nos últimos 15 anos combinados Microsoft Teams lança programa de recompensa para bugs dedicado à plataforma Ciberataques estão em alta na pandemia – e não devem diminuir tão cedo

“Analisamos serviços de hackers que representariam uma ameaça à segurança de sites corporativos ou aplicativos da web”, disse Vadim Solovyev, Analista Sênior de Segurança da Informação. “Percebemos um aumento no interesse em hackear sites”.

Roman Sannikov, Diretor do Insikt Group, Recorded Future, diz que sua empresa também notou um aumento nessas atividades na dark web. Tudo começou antes mesmo da pandemia, mas se intensificou ainda mais à medida que mais funcionários passaram a trabalhar remotamente.

Romper um site normal geralmente custa menos de US$ 10.000, enquanto bancos de dados personalizados custam entre US$ 100 e US$ 20.000, ou entre US$ 5 e US$ 50 por 1.000 entradas, disse o relatório da Positive Technologies.

Como sempre, alguns hackers que oferecem suas habilidades gostam de se gabar de sua forte “ética” de trabalho. “Eu ofereço um serviço de hackeamento direcionado aos recursos de seu interesse na rede […] Nenhum pagamento – pagamento somente após fornecer evidências de que acessou o banco de dados, o shell preenchido ou um servidor comprometido”, diz um dos anúncios.

Foto: Adobe Stock

Serviços comprados e vendidos na dark web

A grande maioria das postagens (90%) vem de pessoas interessadas em comprar serviços de hacking, enquanto 7% são escritas por criminosos anunciando o que podem fazer. O restante é para vender ferramentas e programas de hacking (2%) e para encontrar cúmplices (1%) – pessoas dispostas a compartilhar sua experiência com “profissionais com ideias semelhantes”.

Solovyev diz, porém, que os 7% das postagens que oferecem serviços de hacking não devem ser subestimadas, pois é difícil saber quantos clientes eles atraem. Normalmente, os serviços oferecidos nesses fóruns são altamente especializados, diz ele, e pouquíssimas pessoas podem combinar várias competências. “Se estamos falando sobre hackear sites, alguns [black hats] são bons em hackear sites para ter acesso a eles, enquanto outros sabem o que pode ser feito com esses acessos”, diz ele.

Sannikov, da Recorded Future, concorda. “Uma vez que os indivíduos obtêm acesso não autorizado, muitas vezes eles próprios não fazem nada com ele, isso está fora de sua área específica de especialização”, diz. “Em vez disso, eles vendem o acesso a terceiros, que então extraem informações confidenciais, descartam malware, criam um botnet ou bloqueiam sistemas”.

Quando os pesquisadores da Positive Technology analisaram os anúncios postados por compradores, eles notaram que 69% estavam relacionados à invasão de sites, enquanto 21% visavam obter bancos de dados de usuários ou clientes de um alvo – o tipo de informação em que os concorrentes e spammers geralmente estão interessados, de acordo com Solovyev.

Algumas pessoas, cerca de 4% do total, queriam injetar código malicioso em sites, um comportamento que pode estar relacionado a ataques de watering hole ou skimmers da web. Um grupo menor de criminosos (3%) procurou alguém disposto a invadir um site para excluir dados específicos, como avaliações negativas sobre uma empresa. Por último, outra classe menor de postagens oferecia programas prontos e scripts de hacking para venda.

Websites, um alvo popular de atacantes de aluguel

Solovyev não se surpreende com o fato de os usuários em fóruns de hackers quererem ter como alvo sites. “Quando as empresas lançam sites, na maioria das vezes a segurança não é a preocupação número um”, diz ele. “Gostaríamos que as empresas entendessem que a segurança do site e do usuário deve receber muita atenção porque a reputação de uma empresa, a estabilidade dos negócios e a satisfação do cliente dependem disso”.

Hackear um site pode custar até US$ 10.000, de acordo com os anúncios encontrados pela equipe de Solovyev. No entanto, alguns compradores orçam apenas algumas centenas de dólares para esses trabalhos. O mercado é diversificado e tudo o que possa ser comprado para fins criminosos, será, possivelmente, por uma pechincha.

As pessoas querem adquirir shells da web, acessar as interfaces de administração de sites ou exploits prontos que podem ser usados para injetar código SQL. Shells da web (arquivos carregados em um servidor que um invasor pode usar para executar comandos do sistema operacional por meio da interface da web), por exemplo, podem custar entre alguns centavos a US$ 1.000, um preço baixo porque os privilégios obtidos são limitados, explica Solovyev.

O mercado da dark web para dados pessoais está prosperando

Entre os anúncios mais comuns estão aqueles que segmentam lojas on-line. Hackear essas empresas geralmente custa entre US$ 50 e US$ 2.000. Os invasores geralmente desejam injetar código JavaScript malicioso em sites para capturar dados inseridos pelos compradores. “Os clientes se cadastram nesses sites deixando seus dados pessoais. Eles fazem compras inserindo informações de cartão de crédito e usam serviços em nuvem para armazenar informações”, diz Solovyev.

Sua equipe notou que bancos de dados que já foram hackeados podem custar até US$ 20.000 ou até US$ 50 por 1.000 entradas. As entradas do usuário geralmente contêm informações como nome de usuário, endereço de e-mail, nome completo, número de telefone, endereço residencial, data de nascimento e, às vezes, até mesmo número do social security (documento do cidadão estadunidense correspondente ao CPF brasileiro).

“A compra e venda tradicional de bancos de dados roubados ou vazados ainda é amplamente comum devido às oportunidades criminosas em potencial que podem surgir delas”, de acordo com Stefano DiBlasi, Pesquisador de Ameaças da Digital Shadows. “Por exemplo, adversários com motivação financeira podem explorar detalhes de cartões de crédito roubados extraídos de um banco de dados para lavar dinheiro roubado. Além disso, as informações de identificação pessoal podem ser aproveitadas por cibercriminosos para vários fins, incluindo desemprego e fraudes fiscais, bem como roubo de identidade e apropriação de contas”, diz ele.

Por essas razões, DiBlasi diz que o mercado de banco de dados está prosperando mais do que o mercado de hacking de sites, que é caracterizado por alta demanda e baixo fornecimento.

Como mitigar o risco de crimes cibernéticos de aluguel

Obviamente, as empresas devem monitorar as postagens de anúncios da dark web para solicitações ou ofertas direcionadas a elas ou ao seu setor. Além disso, aqui está o que os especialistas acreditam que as organizações devem se concentrar em:

Melhore a segurança do site

A equipe de Solovyev encontrou muitos anúncios direcionados a recursos da web. As empresas, diz ele, não os protegem o suficiente e as consequências podem ser devastadoras. Se o serviço da web estiver hospedado em um servidor conectado à rede interna, o invasor poderá teoricamente penetrar na infraestrutura corporativa. “Se um hacker obtém controle sobre um recurso da web, ele pode alterar as informações nele, colocar software malicioso e interceptar os números de cartão de crédito que os usuários inserem ao pagar por bens e serviços”, diz ele.

Além disso, um relatório anterior publicado pela Positive Technologies em agosto de 2020 mostrou que 86% das empresas que foram submetidas à pentestação provaram ser vulneráveis devido à proteção insuficiente de aplicativos da web. “Os aplicativos da web são frequentemente criados internamente por empresas com pouca ou nenhuma experiência no desenvolvimento de software comercial e consideram a segurança apenas como uma reflexão tardia, então não é surpresa que os sites tenham se tornado o ponto de entrada preferido para os ladrões cibernéticos”, diz Solovyev.

Hackear os aplicativos da web de uma empresa pode levar a vazamentos de dados ou violações da regulamentação de privacidade, mas um invasor também pode usar os recursos dessa organização como uma plataforma para espalhar malware ou para armazenar ferramentas que serão baixadas durante outros ataques.

Revise a abordagem para segurança de aplicativos da web

A probabilidade de uma empresa se tornar vítima de um ataque aumentou significativamente porque os grupos criminosos não precisam mais invadir sites propositalmente: eles podem simplesmente comprar um pacote de acessos na dark web inteiros, diz Solovyev. Ele acredita que as empresas podem se encontrar “sob ataques intensos de hackers pouco qualificados que procuram em massa por vulnerabilidades conhecidas em sites”.

“Para minimizar os ataques aos recursos da web, as organizações devem empregar uma abordagem abrangente para a segurança de aplicativos da web que inclui análises e testes detalhados, bem como implementar tecnologias como firewalls de aplicativos da web ou proteção proativa contra ataques”, diz Solovyev. Ao construir um sistema de segurança, ele recomenda seguir os princípios de uma abordagem orientada ao risco, que leva em conta a magnitude das consequências negativas que a empresa pode tolerar.

Proteja-se contra phishing e comprometimento de e-mail comercial

Sannikov, da Recorded Future, argumenta que uma das maiores áreas de preocupação para as organizações deve ser o phishing e o comprometimento do e-mail comercial. “Com tantas informações disponíveis por meio de credenciais comprometidas via coisas como sniffers e web injects, bem como documentos vazados em sites de extorsão, tornou-se muito mais fácil para os atacantes acessarem contas de funcionários e, em seguida, moverem-se lateralmente pela empresa para realizar escalonamento de privilégios ou comprometimento de e-mail de negócios”, diz ele.

“Além disso, com os documentos vazados em sites de extorsão, os atores de ameaça podem desenvolver mais facilmente iscas convincentes para atingir as organizações parceiras das empresas vítimas. Se um ator de ameaça encontrar uma fatura da vítima para um terceiro, ele pode facilmente falsificá-la e enviá-la para a mesma pessoa do terceiro que estava trabalhando nela”, diz Sannikov.

Ele aconselha as empresas a se manterem informadas e a acompanhar todas as web injects anunciadas nas plataformas dark web. “Ficar de olho nos sites de extorsão para ver se um terceiro com o qual você está trabalhando foi vitimado o ajudará a colocar alertas vermelhos em qualquer comunicação ou interação que você possa ter tido com essa empresa”, diz Sannikov.

Corrija e siga uma boa higiene de segurança

DiBlasi acrescenta que os hackers black hat costumam ser oportunistas e provavelmente tentarão atacar primeiro as frutas mais fáceis de se alcançar. “A maneira mais eficaz de prevenir esses ataques é garantir que sua empresa seja um alvo seguro, instalando patches de segurança atualizados e implementando as melhores práticas de higiene cibernética”, disse ele. “Além disso, ter uma equipe de inteligência de ameaças cibernéticas interna ou terceirizada pode apoiar os esforços das equipes de segurança para priorizar medidas de segurança e mitigar ameaças potenciais”.

De acordo com DiBlasi, as empresas que operam on-line devem sempre presumir que os cibercriminosos estão ativamente direcionando seus dados ou o farão no futuro.

Popularidade da ‘gig economy’ na Dark Web é uma ameaça crescente, alertam pesquisadores

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O poder da liderança silenciosa: por que os introvertidos podem ser bons chefes

Jacqueline Baxter, da Open University, no Reino Unido, afirma que é hora de repensar nossos conceitos sobre o que consideramos uma ‘liderança eficaz’.

Terra 21 mar 2021 

Jacqueline Baxte aponta que líderes introvertidos são menos propensos a se corromper em busca de recompensas como dinheiro ou poder

Como é o seu chefe? Confiante? Decisivo? Tem resposta para tudo?

É certamente isso que a maioria das pessoas pensa quando questionada sobre as características que fazem de alguém um bom líder.

Mas precisamos repensar esse conceito agora mesmo, de acordo com Jacqueline Baxter, professora adjunta de Políticas Públicas e Gestão na Open University, no Reino Unido.

O filósofo chinês Lao Tzu disse que os melhores líderes são aqueles que ‘falam pouco’ e, quando o trabalho está pronto, seus seguidores dirão: ‘Nós mesmos fizemos’

“Olhe para os líderes ao seu redor”, diz ela. “Você vê indivíduos calmos, racionais, que ouvem e fazem julgamentos ponderados? Ou algo muito diferente?”

O argumento de Baxter é simples: indivíduos barulhentos e confiantes, com soluções rápidas e agilidade mental invejável, nem sempre são o chefe ideal.

Extrovertidos ‘super-representados’ na liderança… e funcionários não tão felizes

A esmagadora maioria dos líderes seniores são extrovertidos, de acordo com Baxter

“Eu diria que as crises do nosso tempo precisam de uma abordagem mais ponderada. Uma abordagem mais silenciosa”, afirma.

“Os extrovertidos são representados de forma exagerada em posições de liderança sênior. Um estudo mostrou que 98% dos executivos de alto escalão obtiveram pontuação ‘muito alta’ ou ‘acima da média’ na escala de extroversão. Mas as pessoas em geral não estão satisfeitas com seus líderes.”

Um levantamento do instituto de pesquisa Gallup de 2017 sobre o ambiente de trabalho americano confirma a teoria dela. Ele revelou que apenas 13% dos funcionários concordavam fortemente que a liderança de sua organização estava se comunicando de forma eficaz com o resto.

Aqueles que se sentiam “entusiasmados” em relação ao seu futuro somaram apenas 15%. E apenas um em cada cinco funcionários disse que a liderança em sua organização tinha uma direção clara.

Poderia haver então uma conexão entre as duas coisas?

O treinamento de liderança se concentra em ‘atividades extrovertidas’, como apresentações

Baxter argumenta que as pessoas mais caladas, muitas vezes, erroneamente, pensam que não seriam um bom líder.

Baxter acredita que não é mera coincidência. “Acho que precisamos reexaminar a maneira como nossa sociedade vê a liderança eficiente.”

Por experiência própria, Baxter diz que muitos cursos de liderança tendem a focar em atividades extrovertidas de equipe, como networking e apresentações.

“Isso faz com que as pessoas mais caladas talvez acreditem erroneamente que simplesmente não têm as qualidades de um ‘bom líder'”, afirma.

Quem poderia ser um bom ‘líder silencioso’ e quais são os benefícios?

Baxter diz que Bill Gates, Rosa Parks e Mahatma Gandhi são bons exemplos de liderança silenciosa.

Ela insiste que os introvertidos têm muitas contribuições a oferecer, porque “são mais propensos a ouvir e processar as ideias de sua equipe e considerar essas sugestões profundamente antes de agir de acordo com elas”.

Longe de serem lentos, ela acrescenta, os introvertidos são, na verdade, “mais atenciosos e mais propensos a dar crédito aos membros da equipe por suas ideias e desempenho”.

“Liderança é algo complexo, mas em um mundo de frases de efeito, estratégias pé na porta e pensamento preto no branco, talvez recuar e ouvir pode ser empoderador para os líderes e seus seguidores”, finaliza.

https://www.terra.com.br/noticias/ciencia/o-poder-da-lideranca-silenciosa-por-que-os-introvertidos-podem-ser-bons-chefes,11f165be1599ea699bc16b0e92084efeqlywy0c4.html

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Oito mitos que você precisa saber sobre o Bitcoin

Com um valor de mercado de mais de R$ 5.78 trilhões, a criptomoeda segue ganhando espaço e credibilidade entre os investidores

Por MoneyLab 23 mar 2021 

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

A economia digital ganha cada vez mais força. Puxada pelas criptomoedas e encabeçada pelo bitcoin, essa nova era de pagamentos e investimentos já está revolucionando o mercado financeiro. Estima-se que o valor de mercado dos bitcoins já supere os R$ 5 trilhões.

Junto com a onda de novidades, as dúvidas e, por vezes, desconfianças também rondam os resultados surpreendentes da criptomoeda, que já conquistou nomes importantes como Elon Musk, Paul Tudor Jones, Stanley Druckenmiller e Scott Minerd. Para te ajudar a compreender melhor esse universo, a seguir você confere oito mitos sobre o bitcoin.

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Números estimados com data base de 09/03/2021

Mito 1: Bitcoin é muito volátil para ser uma reserva de valor

O bitcoin tem de fato um histórico de ser um ativo bastante volátil. Isso é um comportamento esperado para um ativo que surgiu em 2009 com valor zero e em uma década alcançou valor de mercado de mais de R$ 5.78 trilhões.

Essa oscilação acaba gerando desconfiança sobre a capacidade de ser uma boa reserva de valor, já que uma das principais funcionalidades desse conceito é preservar o valor ao longo do tempo.

Mas afinal, por que a volatilidade do bitcoin é tão alta? Duas óticas devem ser observadas para explicar essa volatilidade: microestrutura e assimetria de informações.

Do ponto de vista de microestrutura de mercado, o Bitcoin é negociado 24 horas por dia e 7 dias por semana, em centenas de exchanges ao redor do mundo com diferentes níveis de controles e regulação. Portanto, é um mercado bastante fragmentado. Tecnicamente falando, o processo de formação de preços é livre de intervenções. Ou seja, não existem leilões de abertura/fechamento ou limites e bandas de variação de preços, como é o normal nos mercados mais tradicionais, como os de ações e commodities listadas em Bolsas.

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Além disso, diferentemente das moedas fiduciárias, não há para o Bitcoin um banco central para intervir e reduzir a volatilidade da moeda, como é o caso em moedas como o Real. Isso faz com que os preços do Bitcoin variem de forma significativa como função de sua oferta e demanda, sem mecanismos já estabelecidos nos mercados tradicionais para agregar liquidez e facilitar a formação de preços.

Olhando o ponto de vista macro, a volatilidade do Bitcoin reflete a grande assimetria de informações e as divergências sobre seu valor para a sociedade. Enquanto alguns dos maiores investidores do mundo, como Paul Tudor Jones, Stanley Druckenmiller e Scott Minerd, se debruçaram sobre o tema e possuem um posicionamento otimista com relação ao Bitcoin, vários outros investidores de peso, como Ray Dalio, ainda não se convenceram. Essa diferença tão grande de opiniões gera incertezas que influenciam os investidores e dificultam uma convergência dos preços para um valor de equilíbrio.

Esses dois fatores que influenciam a volatilidade do bitcoin tendem a perder força à medida que o entendimento dos investidores institucionais sobre o Bitcoin vai amadurecendo, possibilitando  desenvolver mercados regulados, com processo de formação de preços e instrumentos de derivativos similares ao mercado tradicional.

Apesar do bitcoin ter um valor de mercado significativo, seu valor ainda é de magnitude abaixo das outras reservas de valor globais, como ouro e dólar. Por isso, o bitcoin deve ser encarado como uma “reserva de valor emergente”, ou seja, que possui boas características, uma adoção crescente, mas ainda não atingiu o mesmo nível de maturidade de seus pares. Assim, é de se esperar que sua volatilidade continue reduzindo ao longo dos anos até que ele atinja o mesmo nível de maturidade e aceitação que o ouro possui hoje.

Mito 2: Bitcoin falhou como meio de pagamento

Apesar de não ser a melhor solução para pagamentos de varejo, como cartão de crédito ou PIX, a rede do Bitcoin tem propriedades únicas que fazem dela um meio de pagamento para valores altos e transações internacionais.

A rede do bitcoin foi projetada de forma intencional para ter uma capacidade limitada a cerca de 10 transações por segundo. Isso é muito menos  tempo que a rede de cartão de crédito pode atingir nos horários de pico.

Por outro lado, o bitcoin oferece propriedades únicas e muito importantes, como liquidação global independente de alto valor, que funciona em qualquer lugar e a qualquer hora do dia, não requer um intermediário e não pode ser revertida.

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A rede do Bitcoin liquida hoje mais de R$ 25 bilhões por dia, em centenas de milhares de transações, com um valor médio de transação médio de R$25 mil, o que é bem mais alto se comparado com as redes de pagamento de varejo como cartão de crédito ou PIX e é condizente com o seu uso principal hoje como uma reserva de valor emergente.

Portanto, o bitcoin de fato não é a melhor solução para utilização como meio de pagamento para varejo, mas é uma excelente solução para transferências de altos valores ao redor do mundo.

A entrada recente do Paypal, que permite que o bitcoin seja utilizado como forma de pagamentos para mais de 26 milhões de lojistas dentro de sua plataforma ou soluções descentralizadas, como a Lightning Network pode permitir que o bitcoin seja utilizado para realizar milhares de transações por segundo no varejo e possibilitar até mesmo novas formas de pagamento como micropagamentos e pagamentos em streaming.

Mito 3: Bitcoin gasta muita energia

A rede do bitcoin consome energia para fazer duas atividades: infraestrutura, para permitir que qualquer pessoa participe da rede em condições de igualdade, e segurança, para criar garantias de liquidação das transações, evitando que elas possam ser revertidas ou fraudadas.

Essas garantias são extremamente relevantes e elas não vêm de graça. Outros sistemas de pagamento também exigem essas atividades de uma forma ou de outra. No caso do ouro, por exemplo, enormes quantidades de esforço e energia são gastas para extraí-lo e armazená-lo com segurança. Já as moedas fiduciárias modernas exigem uma infraestrutura bancária física e bastante capital humano para fazer tudo funcionar corretamente, o que é extremamente caro e consome bastante energia.

Com o bitcoin, o processamento de transações e as garantias em torno de sua segurança está incluído no processo chamado de mineração que deliberadamente gasta energia. A energia é gasta como uma “prova de trabalho”, cuja soma garante que as transações registradas na rede do bitcoin não possam ser alteradas. Isso é essencial para a segurança da política monetária do bitcoin, bem como para outras propriedades importantes.

Há uma demanda claramente significativa pelos serviços que o bitcoin fornece, e a mineração de bitcoin gasta energia para dar suporte a esses serviços. Este gasto de energia não é desperdiçado; o mercado o exige explicitamente. Além disso, ao contrário dos outros sistemas de pagamento, grande parte da mineração de bitcoin depende fortemente de energia renovável e a natureza competitiva e global da mineração de bitcoin faz com que até mesmo fontes de energia que seriam naturalmente desperdiçadas, como o stranded gas, sejam utilizadas, o que pode até mesmo contribuir para a redução da pegada de carbono no mundo.

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Mito 4: Bitcoin só é utilizado para atividades ilícitas

Ao longo dos anos, a utilização do Bitcoin por criminosos recebeu bastante atenção da mídia. Porém, o percentual de transações ilícitas na rede do bitcoin é muito pequeno, da ordem de 0,4% do valor total de bitcoin transacionado por dia.

Isso acontece principalmente devido à evolução das ferramentas de monitoramento e nas regras de prevenção à lavagem de dinheiro, que foram implementadas pelos principais países do mundo para se adaptar à nova tecnologia.

De acordo com dados do “The United Nations Drugs and Crime Office” e da Chainalysis, para cada $5 gasto em bitcoin na darknet, pelo menos $800 são lavados utilizando o dólar em papel moeda.

Mito 5: Bitcoin não tem lastro

Uma crítica bastante comum é de que o bitcoin não tem valor, pois não possui um lastro com as ações ou moedas fiduciárias.  Mas, afinal, o que é lastro? Lastro é uma garantia implícita de um ativo. Por exemplo, o lastro da ação de uma empresa é seu fluxo de caixa futuro, o lastro do ouro é sua composição química que garante que ele existe de forma escassa na natureza e que não pode ser criado artificialmente ou fraudado. Já as moedas fiduciárias são definidas por decreto e seu único lastro é a confiança no governo que o emitiu.

O lastro, ou garantia implícita, do bitcoin é sua rede de milhares de computadores ao redor do mundo, que garantem que as transações sejam executadas de forma segura e que a criação de novos bitcoin seja limitada, seguindo uma política monetária determinística. Essa rede existe há mais de 10 anos sem nunca ter sido fraudada.

Mito 6: Bitcoin não é escasso porque qualquer um pode criar novas criptomoedas

Qualquer um pode clonar a base de código de bitcoin, que possui o código aberto, a qualquer momento e lançar sua própria moeda, mas não pode clonar a aceitação, o reconhecimento de nome e a segurança de que apenas a rede de bitcoin desfruta.

O que faz com que o bitcoin possua valor para a sociedade não são meramente as linhas de código do seu software, que são facilmente replicáveis. O valor do bitcoin está nos efeitos de rede extremamente fortes. Este efeito é criado pelas dezenas de milhares de mineradores ao redor do mundo que garante a segurança da rede, as dezenas de exchanges e custodiantes que viabilizam a negociação e o armazenamento do bitcoin e milhões de usuários e investidores que possuem bitcoins.

Uma rede de agentes engajados como essa não se organiza facilmente, ainda mais quando já existe uma estabelecida. É por isso que, apesar dos diversos projetos já concebidos com a ambição de desbancar o bitcoin, ele segue extremamente dominante entre as criptomoedas, e que a facilidade de criação de novos criptoativos não afeta sua escassez.

Mito 7: Se o Bitcoin for bem sucedido, os governos vão banir

A natureza descentralizada do bitcoin torna impossível para qualquer pessoa, até mesmo governos, eliminá-lo totalmente. Apesar disso, os governos podem proibir exchanges e instituições financeiras de negociar bitcoin, afastando o capital institucional e colocando o bitcoin como um mercado negro. Porém, o que temos visto nos países desenvolvidos na verdade é o contrário.

Nos Estados Unidos, por exemplo, bancos federais já foram autorizados a realizar custódia de criptoativos para seus clientes e já existem regulações claras em alguns estados para as pessoas e empresas que utilizam criptoativos.

Além disso, várias empresas com capital aberto já possuem a moeda ou oferecem aos seus clientes. Portanto, seria extremamente difícil para os governos de países desenvolvidos banirem o bitcoin hoje em dia.

Governos de países menores ou com menores níveis de segurança jurídica podem tentar banir o bitcoin, mas acabariam criando uma dinâmica de arbitragem jurisdicional, em que empresas e investidores  migrariam para países com previsibilidade maior, prejudicando a própria economia do país que baniu.

Mito 8: Quântico computador vai acabar com o Bitcoin

Em outubro de 2019, quando o Google apresentou o resultado de seu protótipo de computador quântico, surgiram imediatamente vários artigos na imprensa apresentando a ameaça que um computador quântico representaria para o bitcoin.

Isso porque o método de criptografia que o bitcoin e vários outros criptoativos utilizam para garantir a segurança de suas transações poderia ser facilmente quebrado com computadores quânticos, o que tornaria suas redes inseguras e, portanto, obsoletas.

É importante ressaltar também que a criptografia utilizada no bitcoin é a mesma usada pela maioria dos grandes bancos e pela internet como um todo. Ou seja, o surgimento de um computador quântico seria uma ameaça para a segurança de toda a sociedade moderna, sendo o bitcoin apenas um pequeno pedaço dela.

A boa notícia é que já existem algoritmos de criptografia que são resistentes a computadores quantos. O NIST, que é o órgão americano responsável por definir padrões da indústria, está em processo de seleção de um desses algoritmos para ser o novo padrão de criptografia na internet. A previsão é que essa escolha seja feita até 2022 e, a partir daí, todos os serviços, incluindo o bitcoin, podem começar seus processos de upgrade para esse novo padrão de criptografia.

Como as estimativas mais otimistas apontam que um computador quântico de uso geral ainda pode levar de 15 a 30 anos para virar realidade, isso dá tempo o suficiente para todos os serviços se adaptarem a esse novo padrão mais seguro e eliminar a ameaça de segurança que um computador quântico poderia trazer.

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Sensemaking: empresas com propósito têm mais chances de sobreviver, diz escritor

Para consultor de carreiras, que lança sétimo livro, busca de sentido e colaboração horizontal com foco no coletivo vão prevalecer no ‘novo normal’; mais jovens devem ter protagonismo

Entrevista com

Ricardo Oliveira Neves, autor de ‘Sensemaking: Liderança por Propósito’

Cris Almeida, especial para o Estadão 14 de fevereiro de 2021

Em algum momento da sua jornada profissional, você já se perguntou por que trabalha? Se a resposta for apenas pelo lucro, o escritor e consultor de estratégias Ricardo Oliveira Neves convida empresas e funcionários a viverem com um propósito maior do que esse. Em seu livro Sensemaking: Liderança por Propósito, Ricardo garante que não há mais espaço no mundo atual para organizações e pessoas que não saibam o sentido das funções que desempenham em sua carreira e como elas impactam ao seu redor, principalmente pós-pandemia do coronavírus.

Do inglês “fazer sentido”, o sensemaking é um método de gestão na qual a liderança é capaz de promover e conduzir, de forma horizontalizada e não mais autoritária, uma convivência colaborativa, para construir uma nova linha de criação de sentido em empresas e organizações. O autor atribui à geração Z, dos mais jovens (nascidos entre 1995 e 2010), boa parte da responsabilidade por essa mudança de mindset nas empresas, já que os mais velhos, treinados para dar prioridade ao lucro e ao prestígio, têm mais resistência em aceitar o convite proposto no início desta reportagem. Para o escritor, a colaboração e a comunicação estratégica, pensando no coletivo, vão prevalecer no “novo normal”.

A importância do propósito é ratificada por pesquisa de 2020 da consultoria Deloitte, em que marcas que valorizam isso aparecem como as mais lembradas pelos consumidores na pandemia – organizações que equilibram propósito e lucro tiveram 63% mais chances de sobreviver do que outras de tamanho semelhante. O estudo ainda indica a necessidade de empresas firmarem um compromisso autêntico com objetivos maiores do que lucratividade. 

Em entrevista de vídeo ao Estadão, diretamente de Berlim, onde mora há seis meses, Ricardo falou da urgência de transformação dessa mentalidade, ao apresentar seu sétimo livro, lançado em janeiro deste ano. O autor, que já escreveu livros sobre economia do crescimento e transformações no meio corporativo, entre eles Tempo de Pensar Fora da Caixa, acumula quase 30 anos de experiência em consultorias a empresas que querem transformar sua cultura organizacional. 

Ricardo também trabalha como empreendedor social e, desde 2006, é membro da Ashoka, organização internacional promotora de desenvolvimento de impacto social. Atualmente, ministra workshops e palestras em diferentes países.

“Em um mundo onde o novo normal é a demanda incessante por transformação, as organizações precisam de líderes que apoiem o desenvolvimento de seus funcionários em busca de seu propósito de vida. A crise é o cotidiano em um mundo de permanência da volatilidade, da incerteza, da ambiguidade, ou seja, o mundo da complexidade exponencial.” Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Ricardo Oliveira NevesRicardo Oliveira Neves tem quase 30 anos de experiência em consultorias a empresas que querem transformar sua cultura organizacional. Foto: Divulgação

O que quer dizer o termo sensemaking, na prática?

O sensemaking é uma expressão muito cara para mim, que é o “fazer sentido”. É basicamente a ideia de olhar o mundo procurando fazer sentido a partir dos problemas que a gente recebeu e da urgência de não poder mais perder tempo. Eu penso que essa é a década que vai fazer a diferença, que dirá se a espécie humana vai vingar ou não. Então, liderança por propósito nas empresas, nas organizações e nas ONGs passa por reconhecer o propósito. 

Esta palavra emergiu com força em meados da década e é uma pergunta que não quer mais calar: qual o seu propósito? Essa é a grande pergunta hoje em dia. Você está trabalhando porque você quer ganhar uma grana para fazer suas coisas, você está trabalhando porque tem prestígio, mas o que faz a diferença é o propósito, o recado que o ser humano precisa dar no tempo de vida dele. 

Quem seriam os principais atores a quem o sensemaking se destina?

A mais nova geração que está entrando, os millenials (geração Y, de nascidos entre 1980 e 1994) e os Zs (de nascidos entre 1995 e 2010), porque eles têm uma perspectiva completamente diferente dos caras que são as múmias, que tinham uma perspectiva de trabalho baseada no prestígio da empresa, baseada no quanto estava recebendo, no bônus. Essa nova geração tem uma característica diferente, porque eles já sentiram que foram logrados e receberam um monte de problemas. É como se tivesse um armário que você abre e, de repente, as coisas começam a cair em cima de você. 

Os millenials estão percebendo que querem mais do que isso, mais do que uma aposentadoria dourada, até porque estão sem saber se vão se aposentar ou não, como vai ficar isso. Essa conversa é sobre eles, também. As lideranças que buscam esses talentos precisam conhecer a bagagem e as exigências que vêm com eles. 

Por que você propõe essa abordagem para as empresas? Qual a importância de fazer sentido? 

Eu sou, há quase três décadas, consultor de empresas e sempre tive uma questão que era a comunicação ser a chave nas organizações e sociedades. A partir da emergência das redes sociais, percebemos que estamos numa Torre de Babel. Você tem empresas que estão com um modelo muito antigo de gestão, chamado comando e controle, onde a liderança ainda é centralizada, burocrática, hierárquica e prescreve para as pessoas o que elas têm que fazer. Mas as pessoas, sobretudo os jovens, não querem seguir simplesmente um script, eles querem ir atrás do propósito.

O ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’ não faz mais sentido, está em dissonância com o que estamos vivendo

Ricardo Oliveira Neves, autor de ‘Sensemaking: Liderança por Propósito’

É importante fazer times efetivamente colaborativos, entender que as organizações só vão sobreviver se perceberem que o modelo da orquestra sinfônica, que é o maestro ditador, controlando todo mundo, não funciona mais. O modelo organizacional mais interessante é o da banda de jazz, que você não sabe quem é o maestro, a liderança é fluida e um conversa com o outro. 

Como foi o processo de construção do livro? A pandemia influenciou? 

Eu fui fazer um período sabático, com início em 2017, especificamente em cima das questões de liderança, propósito e comunicação estratégica. Essas palavras me guiaram ao longo de dois anos onde eu estive fazendo estudos, pesquisando e lendo sobre como a liderança pode conduzir seus colaboradores num caminho diferente do comando e controle. Daí, então, saiu a palavra sensemaking, que emergiu como uma espécie de bandeira que permite a gente liderar por propósito. Foi quando veio a pandemia e fiquei de lockdown, em Portugal, escrevendo. 

A liderança sensemaking, com propósito, está apta a lidar com o que eu chamo de complexidade exponencial. Então, o livro nasce a partir da ideia de que a liderança são pessoas que estão prontas para lidar com um nível de complexidade que a gente precisa admitir que não sabe fazer. Ou o cara bate na mesa e diz “vamos fazer isso e aquilo, a pandemia vai acabar”, como o Trump, ou é uma liderança como a Angela Merkel, que percebeu que ninguém sabe lidar com isso e que precisa conversar com todos. 

O senso comum acaba nesses momentos, as pessoas saem das zonas de conforto delas. Nesse momento, a liderança, ao invés de bater na mesa, tem que lidar com o que eu chamo de “os quatro Cs”: calma, coragem, conversa e colaboração. 

Você divide o livro em quatro partes: complexidade exponencial, sensemaking, propósito e impacto e mudança de mentalidade. Como essa estrutura pode ajudar líderes que buscam o sensemaking?

A percepção do líder tem que ser de que as pessoas não são robôs. É isso que eu quero mostrar. As pessoas fazem o trabalho que o algoritmo não faz, que é criar e resolver problemas. Elas são diferentes de uma inteligência artificial, elas são subjetivas, que é mais importante do que a objetividade. O líder tem que ter a capacidade de se colocar no sapato do outro, o chicote não retém as pessoas, o que retém é você lidar com os propósitos das pessoas. Ele precisa estar ligado às questões subjetivas. 

Desde 2009, trabalho em empresas ajudando com processos colaborativos de tomada de decisão. Em vez de você, na direção, imaginar o que fazer e depois contar aos colaboradores, você já envolve eles antes, aí as pessoas terão clareza do que precisa ser feito. O papel chave da liderança, frente à complexidade exponencial, é ajudar as pessoas a mudarem a mentalidade.  

Quais as principais características que esse novo líder precisa ter no pós-pandemia?

Não me interessa só se sua empresa tem lucro, quero saber qual o impacto ambiental ela está tendo. Ela garante só o lucro de homens brancos ou ela tem mulheres, negros? Ela ajuda ou não a desmontar a bomba do racismo cultural? Sua empresa tem transparência ou é uma caixa preta? Você se aproveita das pessoas, meramente? Elas são um produto para você? 

Essa filosofia ESG (ambiental, social e governança) expressa muito bem que não só as grandes empresas precisam estar antenadas com o novo normal onde o ESG é tão importante. O líder precisa entender que ele precisa conversar com as pessoas. O investidor será cada vez mais ESG. Se as pequenas e médias empresas, também, não estão sintonizadas nessas ideias, terão dificuldade para atrair e reter talentos. É necessário que o líder esteja atento a essas questões, é impossível seguir em frente sem isso.

O que significa Mindset Transformation Process (MTP), citado na última parte do livro? 

É uma metodologia que eu procuro passar para as lideranças sobre como elas colocarão em prática aquilo que aprenderam com o livro. O que você vê na sua frente? O novo normal num mundo pós-pandemia. Então, a primeira coisa que você tem de fazer é ajudar os seus parceiros a fazer um processo de transformação de mentalidade. 

O líder precisa atrair, reter, co-criar, de forma colaborativa, soluções junto com seus colaboradores. O objetivo principal é orientar e facilitar o processo colaborativo de tomada de decisão para equipes no desafio da mudança sistêmica e transformação da mentalidade nas empresas.

Na prática, como fazer um sensemaking eficiente? 

Qualquer trabalho que é feito com o ser humano, no curto prazo, se puder ser feito por um algoritmo, será substituído. O trabalho humano será, cada vez mais, aquele que as máquinas não são capazes de fazer: resolver problemas, buscar criatividade, novas soluções e novos caminhos. Isso é no que os líderes têm de estar atentos. Devem atrair pessoas criativas, questionadoras, que funcionam a partir de um propósito que está dentro delas. 

As empresas que vão florescer, depois que a poeira baixar, são as que buscam talentos e novos estilos de vida. O trabalho remoto mostrou isso. A forma de medir a performance das pessoas será muito diferente. As várias empresas dinossauros vão morrer. O sensemaking eficiente só é alcançado se você estiver, o tempo todo, procurando fazer sentido das transformações que fazem com que a normalidade tenha de mudar. Tudo na sua vida pode ser interessante, desde que você tenha a capacidade de buscar o que é o seu propósito.

Sensemaking: Liderança por PropósitoNo livro ‘Sensemaking: Liderança por Propósito’, Ricardo Oliveira Neves garante que não há mais espaço no mundo atual para organizações e pessoas que não saibam o sentido das funções que desempenham em sua carreira. Foto: Divulgação

Ficha Técnica

Sensemaking: Liderança por Propósito

Autor: Ricardo Oliveira Neves

Editora: Neo 21 

Preço: R$ 49,90 (247 págs.)

https://economia.estadao.com.br/noticias/sua-carreira,sensemaking-empresas-com-proposito-tem-mais-chances-de-sobreviver-diz-escritor,70003614518

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Fabio Coelho: 10 lições de uma década na liderança do Google Brasil

Em artigo exclusivo, o presidente do Google no Brasil faz uma reflexão sobre os dez anos à frente da empresa de tecnologia no país

Por Fabio Coelho* Exame Publicado em: 02/04/2021 

Em março deste ano, completei uma década no comando do Google no Brasil. Desde que cheguei por aqui, muita coisa mudou, mas a imagem do primeiro escritório, ainda pequeno e com apenas alguns computadores de mesa, está gravada em minha cabeça. Hoje, temos uma equipe com mais de 1.200 pessoas que estão trabalhando de casa há mais de um ano por causa da pandemia.

Nesses dez anos, o Brasil se tornou um dos mercados mais relevantes para o Google no mundo, a despeito de todos os desafios locais. Nossos produtos fazem parte da vida e do cotidiano de milhões de brasileiros — seja para ver receitas novas durante a quarentena ou para encontrar informações de qualidade sobre vacinas, apenas para citar alguns exemplos recentes.

Fabio Coelho, presidente do Google Brasil

Fabio Coelho: “Para evoluir seu negócio, é preciso de muito mais do que um time engajado” (Google/Divulgação)

Refletindo sobre tantas mudanças, compartilho os dez principais aprendizados da última década e as lições de liderança que impactam minha carreira e meu dia a dia.

1) Filtre os excessos

Vivemos em uma sociedade de grande abundância de fatos, acontecimentos e informações, o que muitas vezes pode gerar o chamado “FOMO” (medo de ficar de fora, em tradução livre, ou fear of missing out, em inglês). Controlar essa ansiedade e desenvolver capacidade de síntese, escolhendo fontes confiáveis e o que realmente é útil para o seu dia é fundamental para se manter produtivo e presente, assim como não permitir que esse enorme volume de acontecimentos externos  paralise você na tomada de decisões.

2) Desenvolva um ambiente confiável

Para evoluir seu negócio, é preciso de muito mais do que um time engajado. É preciso gerar um cenário de confiança em que pessoas extremamente capacitadas sejam capazes de desempenhar seus papéis de maneira independente, em um equilíbrio essencial que não sobrecarregue nenhum dos lados dessa delicada equação, seja dentro ou fora da empresa.

3) Invista na transformação do seu cliente

Os relacionamentos comerciais são o combustível de qualquer empresa e eles não podem se resumir a assinaturas de contrato e planos de ação. Essas relações precisam estar amparadas de forma estratégica, com uma visão de três a cinco anos, que considere onde o cliente quer estar quando atingir seus objetivos e como você pode ajudá-lo a chegar lá.

4) Tenha ambição para crescer

É senso comum que todos querem crescer e desenvolver suas carreiras, mas a diferença entre o desejo e a execução passa pela visão ambiciosa sobre o negócio. É a ambição que permite criar oportunidades que fazem crescer não apenas o indivíduo com seu projeto pessoal, mas o grupo como um todo.

5) Promova a diversidade

O conceito de uma empresa diversa, equânime e inclusiva é muito mais complexo e amplo do que imaginávamos anos atrás. A execução da estratégia de diversidade deve ser ampla, considerando não apenas etnias, gêneros e perspectivas, mas também diversidade cognitiva, de estilos e tudo o que isso embarca. Em última análise, são pessoas diferentes que formam a base de uma empresa saudável.

6) Seja grato

Uma das principais coisas que aprendi no Google é que devemos sempre agradecer e valorizar as pessoas. Na pandemia, ter isso como valor deixou mais evidente a necessidade de demonstrar nossa gratidão e atenção com nossos colegas. Para mim, é um benefício tão importante quanto todos os outros reconhecimentos materiais disponíveis.

7) Esteja disponível

A agenda é desafiadora, mas vivo em uma tentativa permanente de estar disponível, tanto para o público interno como o externo, para entender necessidades e demandas vindas das mais diversas fontes. Estar presente é um exercício ímpar para um líder, pois para ter repertório também é preciso ouvir e praticar essa troca constante.

8) Abrace o caos

Em uma empresa como o Google, um dos primeiros ensinamentos que tive foi abraçar a amplitude de diferentes opiniões e abordagens. Sou uma pessoa muito objetiva, mas conclusões rápidas frequentemente ficam incompletas. Enriquecer o processo de criação passa por exercitar a escuta de diversos “ruídos” e ter a habilidade de sintetizar o melhor do que foi dito. É o que chamo de caos produtivo.

9) Não tenha grandes certezas

O rápido desenvolvimento da tecnologia pede que as pessoas se reinventem, afinal são ciclos curtos em constante evolução. Para se manter relevante, esteja aberto a aprender sem vaidades e grandes certezas, já que o que funcionou ontem não necessariamente funciona para o dia de amanhã.

10) Adapte-se

Processos são importantes, mas ser resiliente anda de braços dados com a precisão. Vivi 14 anos nos Estados Unidos e, somando essa experiência com minha cultura brasileira, aprendi a importância da eficiência com escala ligada à volatilidade. É a cultura do “E”, ou seja, não é um cenário de “ou”, escolher entre um e outro modelo, mas sim somar e agregar para atingir o melhor resultado.

Certamente aprendi muito mais do que ensinei durante esse período de dez anos. Acredito que melhorei e agradeço por isso. Agradeço a todas as pessoas que de alguma forma participaram dessa caminhada e me tornaram não apenas um profissional melhor, mas mais importante, uma pessoa melhor; melhor marido, pai, filho, amigo e colega. Com todas as transformações que estamos vivendo, cada vez mais aceleradas, mal posso esperar pela próxima década.

* Fabio Coelho é presidente do Google no Brasil

https://exame.com/blog/opiniao/fabio-coelho-10-licoes-de-uma-decada-na-lideranca-do-google-brasil/

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Onde estarão os empregos do futuro? Veja lista com 21 locais – SP está lá

Relatório da empresa de tecnologia Cognizant mostra os elementos ideais para formar os novos pólos de empregos do futuro

Por Luísa Granato – Exame – Publicado em: 03/04/2021 

“Como faço para ter esses empregos do futuro na minha cidade?”, esse foi o questionamento que Ben Pring, futurista e cofundador do centro de futuro do trabalho da empresa de tecnologia Cognizant, recebeu após a publicação do primeiro estudo sobre o futuro do trabalho em 2017. Era um telefonema inesperado, vindo de um candidato à prefeitura de Milwaukee, principal cidade do estado americano de Wisconsin.

Assim como outras cidades no Cinturão da Ferrugem dos Estados Unidos, Milwaukee prosperou com a indústria de manufatura nos anos 1970 e começou a ver um declínio de oportunidades nas décadas seguintes.

“Os trabalhos foram embora e ele queria entender como construir esse mercado novamente. E eu não tinha uma boa resposta, mas a questão ficou: o que faz uma cidade crescer e prosperar? Se houvesse uma fórmula para sucesso ou fracasso no futuro do trabalho, quais seriam os fatores?”, conta o executivo em entrevista à EXAME, que teve acesso exclusivo ao relatório 21 Places of the Future (21 lugares do futuro, numa tradução livre).

E as respostas que o pesquisador encontrou neste novo relatório para o questionamento de anos atrás mostram lugares não tão óbvios. A expectativa é de capitais que ilustram os destinos turísticos mais famosos e são grandes centros econômicos mundiais estarem no topo da lista.

Pring entendeu que tamanho e relevância da economia local estão longe de garantir empregos do futuro. Tanto é que, na avaliação dele, a pequena Dundee, uma cidade da Escócia com 154.000 habitantes, tem um potencial superior ao de Londres na geração de empregos do futuro. Na Coreia do Sul, a cidade planejada de Songdo, construída a partir de 2004 e atualmente com pouco mais de 50.000 habitantes, aparece na lista. A capital sul-coreana Seul, não.

E, infelizmente, Milwaukee não entrou para a lista de lugares do futuro, mas o estudo mostra diversos pontos de aprendizado para cidades do mundo todo.

Songdo, Coreia do Sul

Songdo: a cidade inteligente construída do zero na Coreia do Sul é uma aposta para o futuro (Sungjin Kim/Getty Images)

Mas, afinal, o que faz uma cidade ser um local atrativo para os empregos no futuro? “Criamos um átomo do sucesso, com diferentes elementos, alguns centrais e outros periféricos. Os três centrais são a qualidade do governo local, o investimento disponível e a educação na área. Fora isso, outros fatores têm impacto na atração de pessoas, como a infraestrutura ou a cultura”, explica o pesquisador.

Ao acelerar a tendência do trabalho mais remoto e mais virtual, as cidades precisarão competir pela atenção dos profissionais do mundo todo. Entre cidades tão diferentes listadas no estudo, alguns dos ingredientes em comum que se destacam são os investimentos em tecnologia, a agilidade para criar novos negócios e a existência de centros de inovação. No entanto, Pring frisa que a maioria dos lugares são bons para jovens morarem. E, claro, com um custo de vida acessível.

A boa notícia para os brasileiros é que, num momento de desilusão de boa parte da população com a polarização crescente na política, o ritmo claudicante da economia e o colapso sanitário causado pela covid-19, a cidade de São Paulo entrou para a lista de Pring dos 21 locais com empregos do futuro. Por trás da inclusão da metrópole paulistana está a boa oferta de imóveis e serviços urbanos, como alimentação, a preços baixos.

“Isso é chave para São Paulo. Muitos lugares, como Londres, Nova York, Boston ou Paris são tão caros que pessoas jovens não conseguem arcar com os custos de vida. São Paulo é relativamente acessível, um elemento crucial para o futuro do trabalho”, diz. Por isso, o estudo também leva em conta elementos menos tangíveis, como a diversidade ou a culinária local.

De São Paulo ao espaço sideral, confira o mapa dos lugares do futuro:

Big Bang de empregos?

Enquanto pesquisadores de instituições como a Cognizant ou o Fórum Econômico Mundial alertam há anos para as mudanças do futuro do trabalho, a pandemia tornou bastante tangível a principal diferenciação da mão de obra nos próximos anos.

O executivo da Cognizant usa os termos “cabeça para cima” e “cabeça para baixo” (em inglês, heads up work e heads down work). Ou seja, aquelas funções que são realizadas com a cabeça abaixada em um computador ou levantada para o mundo.

Essa é uma maneira simples de entender quem pode fazer home office e quem precisou continuar frequentando o local de trabalho durante a pandemia.  “É uma forma de medir o impacto futuro da pandemia na nossa relação com o trabalho”, diz Pring.

“O trabalho ‘heads down’ pode ser feito de qualquer lugar, mas isso não exclui a necessidade de estar com os colegas, colaborar, discutir ideias e criar”, explica o futurista. “Da mesma forma, ainda haverá empregos em serviços, nos escritórios, hospitais, restaurantes e transportes”.

Por causa do trabalho ‘heads down’, que pode ser realizado de qualquer lugar do mundo, dependendo apenas de um computador e uma boa conexão de internet, o relatório dos lugares do futuro aponta também locais mais conceituais.

Na lista estão Remotopia, um nome fantasia para o trabalho de qualquer lugar; o Espaço Virtual, que é o trabalho em ambientes paralelos criados com tecnologias de realidade virtual; a Nova Hanseática, nome para os empregos criados em zonas econômicas com regras próprias, mais liberais que a dos países onde essas zonas estão localizadas (exemplos disso são a coreana Songdo e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos); e, por fim, o Espaço Sideral, que designa os trabalhos abertos com a retomada da corrida espacial na esteira do interesse crescente da iniciativa privada no tema.

“Estamos na beirada de uma virada muito grande. Hoje, há pessoas no Facebook que trabalham em espaços virtuais. E, com os investimentos de Elon Musk (bilionário sul-africano fundador da montadora Tesla) e de Jeff Bezos (fundador da Amazon) na nova corrida espacial, veremos muitos empregos criados nessa empreitada. Pode parecer louco, mas com o uso de tecnologias como impressão 3D, ainda veremos uma revolução espacial na nossa vida”, diz Pring.

No início de abril, a Blue Origin, empresa de exploração espacial de Bezos, tinha 340 vagas abertas. A Space X, companhia de Musk, lista mais de 800 oportunidades em seu site. A Cognizant identificou um crescimento de 70% nas posições para engenheiros aeroespaciais nos Estados Unidos no último ano.

De acordo com a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, essa indústria já vale mais de 400 bilhões de dólares. Até 2040, o Morgan Stanley estima que o valor alcance um trilhão de dólares no mundo todo. A China tem sua aposta estratosférica: a zona econômica de serviços entre a Lua e a Terra vai valer 10 trilhões de dólares até 2050.

Quanto a Nova Hanseática, o futurista explica que esse seria o mais conceitual dos lugares – e uma provocação para pensarmos em como se configura uma nação no mundo digital. Com inspiração na Liga Hanseática, uma zona econômica entre 200 cidades no fim da Idade Média, o relatório prevê a aparição de novas zonas, agora ligadas pela internet e códigos.

“Para nós, algumas configurações de países não fazem mais sentido. Vemos uma mudança de como pensamos em lugares e comunidades. Aqui em Boston temos o Acela Corridor, que leva o nome do trem que liga a cidade com Nova York e Washington DC. As pessoas nesse corredor, que usam esse trem para trabalhar ou fazer negócios, já apresentam uma certa cultura ou personalidade em comum. Vamos começar a ver mais organizações assim daqui pra frente”.

https://exame.com/carreira/onde-estarao-os-empregos-do-futuro-veja-lista-com-21-locais-sp-esta-la/

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