Nem as empresas de tecnologia estão convencidas sobre o trabalho remoto

Com a reabertura iminente dos EUA, gigantes como Amazon, Google, Microsoft e Apple tentam imaginar como será a relação de seus funcionários com os escritórios

 Por Heather Kelly e Rachel Lerman – The Washington Post/Estadão 12/06/2021 

Escritórios começam a ser repensados para o pós pandemia 

SÃO FRANCISCO – As grandes companhias de tecnologia foram algumas das primeiras a fechar, abrindo o caminho para o trabalho remoto já no início da pandemia. Agora, muitas estão avaliando o futuro; algumas decidiram optar por pelo menos retornos limitados para instalações de tecnologia dispendiosas, em que as maiores empresas investiram bilhões.

À medida que anunciam os seus planos, fica evidente: muitas das mesmas companhias por trás da tecnologia que tornou possível o trabalho remoto nos últimos 15 meses, não estão dispostas a adotar o trabalho remoto completamente.

Isto provocou tensões entre alguns funcionários, enquanto empresas tentam encontrar o equilíbrio preservando o controle entre as exigências dos empregados que se acostumaram a gerir seus próprios locais e horários. Eles expressaram simpatia pelos empregados em fóruns privados e voltaram atrás das ofertas iniciais.

Agora, muitas companhias decidiram convidar (ou solicitar) seus funcionários a voltar para o escritório alguns dias por semana, em geral três. Algumas, como Google e Apple, estão acrescentando períodos de trabalho remoto, para que as pessoas possam tirar duas ou mais semanas de férias funcionais de onde preferirem. Outras, como o Facebook, estão permitindo que algumas pessoas se habilitem a trabalhar remotamente o tempo todo, com planos de contratar mais gente para fazer isto no futuro.

Entretanto, em geral, os planos das companhias reconhecem que 2020 mudou o regime de trabalho das pessoas, e que não haverá possibilidade de voltar atrás, pelo menos não inteiramente.

“O que as chefias precisam compreender é que esta experiência que todos estamos vivendo influi consideravelmente na nossa maneira de pensar a vida como qualquer outro evento mundial na história”, disse Jared Spataro, executivo da Microsoft responsável por tecnologias de trabalho moderno. “Se você tentar administrar uma empresa como em 2019, os funcionários poderão dizer: Eles mudaram; e vocês, não? Então acho que vou ter de mudar alguma coisa”.

Escritórios começam a ser repensados para o pós pandemia 

Escritórios começam a ser repensados para o pós pandemia 

Segundo a Microsoft anunciou, a maioria dos seus funcionários poderá trabalhar remotamente até 50% do tempo depois que os escritórios estiverem totalmente abertos, desde que as suas funções o permitam e os funcionários assim preferirem. A companhia, como o Slack e o Twitter, realizou uma pesquisa entre os seus empregados para saber como eles queriam que fosse a sua vida de trabalho depois da pandemia. Em todas as empresas, muitos querem voltar para o escritório pelo menos em tempo parcial, e uma pequena parcela quer voltar em tempo integral.

A batalha por talentos

As companhias lentamente foram aos poucos desbloqueando e ajustando os seus planos de volta ao trabalho.

O Facebook ainda não se comprometeu com nenhuma das novas políticas sobre o trabalho em casa. Depois  que alguns escritórios começarem a abrir para uma parcela dos funcionários no dia 2 de julho, os que regressarem poderão trabalhar de sua casa um dia por semana, segundo a política da empresa antes da pandemia.

“À medida que nos aproximamos da reabertura escalonada dos nossos escritórios, estamos estudando a nossa estratégia para o expediente no escritório, e prevemos que isto irá evoluir”, disse a porta-voz do Facebook, Katelyn Brehony.

Alguns funcionários do Facebook não estão satisfeitos com o sistema que escolhe quem pode trabalhar totalmente em casa. A companhia permite que apenas os funcionários com determinados níveis de experiência se candidatem, embora isto varie de um departamento para outro. Segundo o Facebook, das pessoas que se candidataram ao trabalho totalmente remoto até o momento, cerca de 90% foram aprovadas.

Os planos do Google preveem que a maioria dos funcionários vá ao escritório três dias por semana, embora 20% do staff possa acabar trabalhando permanentemente em casa, e outros 20% possam mudar de escritório. Na companhia, ainda não está claro quais serão exatamente as expectativas e como serão diferentes entre os locais de trabalho e as equipes, disse um funcionário da área de engenharia que pediu para não ser identificado.

“Os planos de retorno aos escritórios anunciados até o momento para os trabalhadores burocráticos como eu, até o momento têm sido bastante vagos, por isso os empregados em geral estão esperando para ver como será à medida que outros detalhes são anunciados”, escreveu em um e-mail Andrew Gainer-Dewar, engenheiro de software no escritório do Google em Cambridge, Massachusetts, e membro da Alphabet Workers Union. “Entretanto, pessoas que trabalham em creches da Bay Area foram chamadas de volta ao trabalho sem qualquer provisão dos meios de transporte, anteriormente oferecidos pela rede de ônibus do Google”.

A companhia está ajudando os funcionários afetados pela medida a encontrar transporte no curto prazo, inclusive com caronas, informou a porta-voz Katie Hutchinson. Em um memorando datado de maio, o Google disse que os chefes poderiam informar sobre detalhes do trabalho remoto a equipes específicas em meados de junho.

As condições exatas de trabalho poderão variar consideravelmente em todas as grandes companhias, dependendo de equipes e gerentes específicos. Enquanto a Amazon planeja voltar à vida “centrada no escritório”, a gigante do e-commerce também observou que os funcionários desfrutavam de certa flexibilidade para administrar a sua vida de trabalho antes da pandemia, e que isto continuará. A companhia afirma que não se preocupa com o possível impacto disto na hora de recrutar talentos.

“Sabemos que as pessoas vão e vem e ficam na Amazon por causa do grande domínio que eles têm sobre o  próprio trabalho, e da inovação que ocorre em todos os lugares”, disse o porta-voz da Amazon, Jose Negrete.

A Apple disse que os funcionários voltariam ao escritório em setembro e que deveriam ir ao escritório três dias por semana. Trabalhar em casa será possível somente às quartas e sextas-feiras.

No entanto, as companhias poderão ser obrigadas a competir entre si pelos melhores talentos, e na hora de contratá-los poderão oferecer mais opções remotas.

“É isto o que é exigido para que possamos permanecer no topo do nosso ramo”, afirmou Nadia Rawlinson, principal diretora de recursos humanos. Ela destacou que o recrutamento na área de tecnologia há muito é competitivo e que a flexibilidade no trabalho hoje é imprescindível. Permitir o trabalho remoto é particularmente importante para as companhias que esperam ter uma maior diversidade racial e inclusão em seus próprios termos, disse Rawlinson.

O Slack permitirá que a maioria dos seus funcionários se candidate a permanecer em trabalho remoto, com os salários ajustados de acordo com a localização. O próprio diretor executivo Stewart Butterfield se mudou da Bay Area de São Francisco para o Colorado.

Ocupando prédios de bilhões de dólares

Um dos principais fatores que influenciam nas decisões das gigantes de tecnologia são os bilhões que elas investiram em suas instalações.

Antes de março de 2020, as grandes companhias  de tecnologia do Vale do Silício despejaram dinheiro em novas sedes elaboradas – desde as elegantes torres dos escritórios no centro da cidade às instalações suburbanas totalmente inclusivas com parques e espaços públicos. As instalações foram projetadas em parte como ferramenta de recrutamento; além disso, companhias como Google e Facebook oferecem benefícios como refeições gratuitas e até lugares para tirar uma soneca.

A Apple gastou US$ 5 bilhões em suas instalações de Cupertino, na Califórnia, que lembram uma nave espacial.

O Google está trabalhando no projeto de um edifício de mais de 55 mil metros quadrados em Mountain View e em instalações de 32,400 hectares, aproximadamente em San Jose. O Facebook expandiu recentemente as instalações acrescentando novos edifícios de Frank Gehry em Menlo Park.

A Amazon nunca fechou totalmente suas instalações urbanas de 1,22 milhão de metros quadrados de Seattle, pontilhadas de torres de escritórios, que alguns trabalhadores continuaram frequentando durante a pandemia. A companhia está construindo uma segunda sede na Virgínia do Norte, onde afirma que investirá US$ 2,5 bilhões. Ela planeja trazer de volta o restante dos seus trabalhadores de escritório já no início do segundo semestre, até os últimos meses do ano.

“O nosso plano é retornar a uma cultura centrada no escritório como nossa base”, afirmou a Amazon em um blog no final de março. “Acreditamos que isto nos permitirá inventar, colaborar, e aprender todos juntos de maneira mais efetiva”.

As novas instalações do Uber na Mission Bay Area de São Francisco foram concluídas durante a pandemia. O escritório, construído para 5 mil funcionários, ficou vazio durante meses, mas foi um dos primeiros a receber de volta um pequeno número de pessoas no final de março, embora os que trabalham em casa possam continuar até 13 de setembro. O Uber disse que está voltando às suas mesmas políticas sobre trabalho remoto anteriores à pandemia: todo funcionário tinha de ir ao escritório onde havia sido admitido para trabalhar pelo menos três dias por semana.

A cultura do trabalho no escritório mudou para sempre

Alguns dos primeiros voluntários que estão voltando já estão descobrindo a escassez dos benefícios habituais e, no caso das funcionárias das creches do Google, necessidades.

No escritório da Microsoft em Redmond, Washington, a comida quente foi momentaneamente substituída por almoços em caixas mais higiênicas. E os ônibus para o transporte dos funcionários entre as dezenas de edifícios em suas enormes instalações estão parados. A Microsoft informou que os serviços voltarão à medida que os funcionários forem retornando ao escritório.

Para as companhias que estão lançando um modelo de trabalho híbrido, provavelmente os problemas se intensificarão. Especialistas em trabalho apontam para casos de possível desigualdade quando alguns trabalhadores conseguirem trabalho presencial e outros continuarem remotos. Outros ainda poderão mudar de opinião a respeito de voltar, quando virem seus colegas fazendo o mesmo.

“Eu me pergunto quanto estaremos perdendo enquanto as pessoas veem alguns dos seus colegas ou concorrentes voltando ao escritório”, disse Jed Kolko, economista chefe no site Indeed de anúncios de emprego. “É possível que eles se sintam passados para trás ou excluídos se trabalharem remotamente.”

No Slack, se uma pessoa precisa ligar para participar de uma reunião, todos os outros também terão – mesmo que isto signifique que as pessoas presentes no escritório responderão ao telefonema de suas mesas.

Na Microsoft, os funcionários que continuaram no escritório ainda vão para as salas de reuniões, mas são convidados a virar as suas cadeiras para grandes telas e discar no mute em seus próprios dispositivos. Desse modo, os trabalhadores remotos poderão ainda ver de perto os rostos (virtuais) dos colegas e se sentirem conectados.

O Google, que definiu o escritório do Vale do Silício de meados de 2000 e 2010 com suas faixas coloridas entre os pisos, quadras de vôlei ao ar livre e, a todo momento, comida gratuita, tem uma equipe tentando redefinir os seus espaços de trabalho durante toda a pandemia. Entre as várias ideias, há “paredes de balões” que podem ser inflados a fim de oferecer maior privacidade, e separação, ou salas de reuniões circulares com uma câmera no meio e grandes telas de TV nos lados para que os participantes que chamam não se sintam limitados pelo fato de não poderem ver os colegas pessoalmente, e vice-versa.

O Twitter, que anunciou uma política permanente de trabalho remoto já adotada durante a pandemia, transformou a sede de São Francisco, afirmou a diretora de recursos humanos, Jennifer Christie, em uma entrevista. Quando reabrir parcialmente no dia 12 de julho, não terá mais mesas identificadas e locais específicos para as equipes, mas algumas áreas estarão designadas como “silenciosas” e outras como “sociais”.

“Achamos que haverá uma corrida maluca de pessoas querendo vir, e provavelmente isto durará algum tempo”. Mas ela prevê que as coisas se acalmarão quando as pessoas pensarem em quantas vezes desejaram trabalhar em casa ou estar perto de outras pessoas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,nem-as-empresas-de-tecnologia-estao-convencidas-sobre-o-trabalho-remoto,70003744275

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As principais preocupações dos millennials e da geração Z, segundo estudo

Desemprego, saúde e segurança estão no topo das prioridades para 800 brasileiros nascidos entre 1983 e 2003, de acordo com pesquisa da Deloitte em 45 países

Por Barbara Bigarelli – Valor Econômico 18/06/2021 

Desemprego, saúde e segurança são as principais preocupações de brasileiros das gerações Y e Z entrevistados em uma pesquisa global da consultoria Deloitte. O estudo mapeia anualmente as percepções dessas gerações a respeito dos desafios mundiais e, neste ano, os dados refletem o impacto da pandemia, indica Marcos Olliver, líder da área de talento da Deloitte. “Certamente a preocupação com saúde veio para o topo da agenda, tanto em termos globais quanto nacionais e, para os millennials, o desemprego permanece como principal preocupação atual.”

A Deloitte ouviu 14,6 mil millennials (nascidos entre 1983 e 1994) e 8,2 mil da geração Z (nascidos de 1995 a 2003) em 45 países em fevereiro deste ano. No Brasil, foram 800 entrevistados – sendo 500 da geração Y (72% em um trabalho integral ou parcial) e 300 da geração Z (44% trabalhando integral ou parcialmente). Os millennials brasileiros preocupam-se, na ordem de prioridade, com desemprego (38%), saúde/prevenção (35%), segurança e combate ao crime (27%). A geração Z, no Brasil, apresenta os mesmos receios, com o desemprego no topo, mas seguido pelas questões de segurança.

Na média global, a saúde foi a principal preocupação apontada por 28% dos millennials, enquanto questões climáticas e de meio ambiente são uma preocupação para 26% da geração Z. “A geração Z já vinha demonstrando grande preocupação com essa questão climática e, neste ano, permanece no topo de agenda”, diz o executivo. A pesquisa trata essas questões de forma genérica, sem detalhar preocupações ambientais específicas, como desmatamento, emissão de carbono e consumo sustentável, por exemplo. Entre os brasileiros entrevistados, 41% dos respondentes da geração Z e 45% dos millennials acreditam que mais pessoas se comprometerão a tomar medidas sobre questões ambientais após a pandemia.

“Todas essas preocupações estão diretamente relacionadas à agenda ESG. As novas gerações olham para essa agenda para entender com quais empresas gostariam de se relacionar, tanto do aspecto do consumo quanto do emprego. E estão vendo o que elas fazem para ajudar a criar um mundo mais sustentável e equitativo”, avalia Olliver.

Mais de três quartos dos millennials (85%) e da geração Z (83%) no Brasil acham que a riqueza e a renda estão desigualmente distribuídas. Quando perguntados sobre quais fatores geram essa distribuição desigual, a ganância e a proteção dos interesses próprios das empresas/pessoas em melhor situação são os principais fatores apontados (para 39% dos millennials e 41% da geração Z).

Regulações e políticas que ajudam a perpetuar desigualdades são o segundo fator, indicado por 38% (Y) e 36% (Z). Em terceiro, os jovens apontaram a remuneração das próprias organizações. Para 26% (Y) e 34% (Z), o crescimento de bônus e salários para altos executivos, versus uma média salarial da força de trabalho que se mantém baixa, é um fator de contribuição.

“Essas gerações têm um olhar para distribuição de renda como um todo, mas também para ação das organizações, quando entendem, por exemplo, que o gap salarial existente é alto e algumas políticas favorecem quem já está em posições melhores”, diz Olliver.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2021/06/18/as-principais-preocupacoes-dos-millennials-e-da-geracao-z-segundo-estudo.ghtml

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Governo e grandes grupos japoneses se unem para desenvolver o ‘Concorde do século 21’

Por Nikkei Asia, Valor 17/06/2021 

Tradicionais fornecedores de peças para aeronaves ocidentais, algumas das principais empresas de engenharia japonesas, incluindo IHI e Mitsubishi Heavy Industries, estão unindo forças com a agência espacial do Japão em pesquisa e desenvolvimento de jatos supersônicos de passageiros, vistos como um passo importante na próxima geração de transporte.

A nova iniciativa público-privada, Japan Supersonic Research, foi anunciada na quarta-feira. Os membros também incluem Kawasaki Heavy Industries, Subaru e Japan Aircraft Development Corp. O grupo pretende participar de projetos internacionais com empresas como a Boeing, começando por volta de 2030.

O projeto pode criar novas oportunidades para a indústria aeroespacial do Japão, que hoje se limita principalmente à construção de asas e fuselagens para grandes fabricantes de aeronaves em outros lugares, como Boeing e Airbus. A criação de um único centro de pesquisa pode permitir que as empresas japonesas não apenas definam uma direção para essa nova tecnologia, mas também aumentem suas margens de lucro.

Jatos supersônicos podem reduzir o tempo de viagem entre Tóquio e São Francisco de dez para seis horas, por exemplo. Embora as tarifas provavelmente excedam as dos planos convencionais, as estimativas sugerem uma demanda de 1 mil a 2 mil aeronaves supersônicas na próxima década para atender a executivos corporativos, altos funcionários do governo e viajantes ricos. O voo supersônico também pode acelerar a resposta a desastres.

Imagem estilizada de jato supersônico em projeto da agência espacial japonesa Jaxa em conjunto com empresas — Foto: Divulgação: Jaxa

Entre os principais obstáculos para a comercialização da tecnologia estão os estrondos sônicos, as fortes ondas de choque criadas quando um avião cruza a barreira do som. O Concorde, jato supersônico de passageiros introduzido na década de 1970 e aposentado em 2003, foi impedido de voar mais rápido do que o som quando estava sobrevoando terra.

A Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (Jaxa) trabalha há uma década no problema da explosão sônica. Ela desenvolveu um projeto aerodinâmico de aeronave com um nariz longo e pontiagudo para minimizar os booms e agora está refinando os detalhes para desenvolver uma versão do Concorde adequada ao século 21.

Os fabricantes que participam da nova iniciativa trarão seus próprios conhecimentos de aviação para a mesa. A Kawasaki Heavy possui instalações em grande escala que podem medir o impacto do vento no chassi de uma aeronave e o ruído que ele produz, e a empresa planeja alavancar os pontos fortes do Japão em tecnologia ambientalmente amigável, um desafio no desenvolvimento de jatos. O IHI pode melhorar a eficiência de combustível dos motores das aeronaves.

Em 2020, a Jaxa conseguiu reduzir o consumo de combustível em 13% em comparação com a tecnologia usada no Concorde por meio de etapas como a redução do atrito do ar. Ele também deixou a aeronave 21% mais leve no geral e está fazendo testes para determinar o impacto sobre os requisitos de combustível.

Outras empresas também estão avançando nessa área, principalmente nos Estados Unidos. O modelo de abertura da startup Boom Supersonic, com sede no Colorado, acomodará até 88 passageiros e deve custar cerca de US$ 200 milhões. A United Airlines concordou em comprar 15 dos jatos, com o objetivo de iniciar o serviço comercial em 2029, e a Japan Airlines também investiu na empresa.

A indústria de aviação do Japão ficou atrás de suas contrapartes nos Estados Unidos e Europa. A unidade Mitsubishi Heavy da Mitsubishi Aircraft congelou um esforço há muito adiado para construir o primeiro jato de passageiros caseiro do país.

Mas, embora trazer planos supersônicos ao mercado seja um desafio, Masahiro Kanazaki, professor do departamento de aeronáutica e astronáutica da Universidade Metropolitana de Tóquio, acredita que os players japoneses têm uma chance de sair na frente.

“A Jaxa e outros no Japão acumularam algumas das tecnologias e pesquisas de mais alto nível do mundo para aeronaves supersônicas”, disse Kanazaki.

E a pesquisa e desenvolvimento nessa área pode beneficiar outros campos. “A tecnologia para conter o ruído e reduzir a resistência do ar pode ser aplicada a drones e outras aeronaves”, disse Hiroki Nagai, professor do Instituto de Ciência de Fluidos da Universidade de Tohoku.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/06/17/governo-e-grandes-grupos-japoneses-se-unem-para-desenvolver-o-concorde-do-sculo-21.ghtml

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O que os clientes da Amazon não veem: o trabalho na gigante do e-commerce é um ambiente selvagem

Reportagem do New York Times revela como um sistema de gestão de pessoas hostil e automatizado colapsou na pandemia de Covid. Doentes foram demitidos ou tiveram benefícios cortados

Do New York Times O Globo 18/06/2021 

NOVA YORK – Em setembro passado, a fisioterapeuta Ann Castillo viu um e-mail da Amazon que não fazia sentido. Seu marido havia trabalhado para a empresa por cinco anos. A empresa agora queria que ele voltasse ao turno da noite.

“Notificamos seu gerente e o RH sobre seu retorno ao trabalho em 1º de outubro de 2020”, dizia a mensagem.

Ann não acreditou no que estava lendo. Seu marido de 42 anos, Alberto, estava entre a primeira leva de funcionários do local a testar positivo para o coronavírus. Afetado por febres e infecções, ele sofreu extensos danos cerebrais.

Durante meses, ela alertara  a empresa que seu marido, que sempre teve orgulho de trabalhar para o gigante do varejo, estava gravemente doente.

As respostas foram desconexas e confusas. E-mails e ligações para os sistemas automatizados da Amazon geralmente acabavam num beco sem saída.

O gigantesco armazém de Staten Island da Amazon, que atende Nova York: desempenho dos funcionários é monitorado em tempo real, com metas de ritmo de empacotamento por minutos Foto: CHANG W. LEE / NYT

O gigantesco armazém de Staten Island da Amazon, que atende Nova York: desempenho dos funcionários é monitorado em tempo real, com metas de ritmo de empacotamento por minutos Foto: CHANG W. LEE / NYT

‘Eles não sabem o que há com ele?’

Os benefícios da empresa eram generosos, mas Ann entrou em pânico quando os pagamentos por invalidez foram misteriosamente interrompidos. Ela conseguiu falar com vários funcionários de recursos humanos, um dos quais restabeleceu os pagamentos. Mas, depois disso, o diálogo passou a ser feito apenas por respostas automáticas e mensagens de correio de voz no telefone de seu marido perguntando se ele voltaria.

— Eles não acompanharam o que aconteceu com ele? — ela se perguntou. — Seus funcionários são descartáveis? Vocês podem simplesmente substituí-los? — queria questionar a empresa.

O local de trabalho de Alberto Castillo, o armazém gigante em Staten Island que é o único centro de fornecimento da Amazon para Nova York, vinha fazendo o impossível durante a pandemia.

Ann Castillo cuida do marido, Alberto, gravemente doente com Covid: empresa quis que ele voltasse ao trabalho mesmo após inúmeras tentativas de avisar sobre problema Foto: SARAH BLESENER / NYTAnn Castillo cuida do marido, Alberto, gravemente doente com Covid: empresa quis que ele voltasse ao trabalho mesmo após inúmeras tentativas de avisar sobre problema Foto: SARAH BLESENER / NYT

Com as empresas de Nova York sofrendo um colapso em massa, o armazém, chamado JFK8, absorveu funcionários de hotéis, atores, bartenders e dançarinos, pagando quase US$ 18 por hora.

Impulsionado por um novo senso de missão para atender clientes com medo de comprar pessoalmente, o JFK8 ajudou a Amazon a quebrar recordes de remessas, atingir vendas estratosféricas e obter o equivalente aos lucros dos três anos anteriores reunidos em um só.

Esse sucesso, velocidade e agilidade foram possíveis porque a Amazon e seu fundador, Jeff Bezos, foram os pioneiros em novas formas de gerenciamento em massa de pessoas por meio da tecnologia, contando com um labirinto de sistemas que minimiza o contato humano para crescer sem restrições.

Mas a empresa estava vacilando de maneiras que as pessoas de fora não podiam ver, de acordo com uma investigação do New York Times do armazém JFK8 no ano passado.

Gerenciamento de pessoas falho

Em contraste com seu processamento preciso e sofisticado de pacotes e produtos, o modelo da Amazon para gerenciar pessoas – altamente dependente de métricas, aplicativos e chatbots – era desigual e tenso mesmo antes da chegada do coronavírus. Muitas vezes, os trabalhadores tinham que se virar sozinhos para explicar seus problemas.

Em meio à pandemia, o sistema da Amazon resultou em demissões inadvertidas e benefícios paralisados e impedia a comunicação.

Trabalhadores como Alberto Castillo, do JFK8, eram instruídos a tirar tantas folgas não remuneradas quanto precisassem e, em seguida, fazer horas extras obrigatórias.

Quando a Amazon ofereceu aos funcionários licenças pessoais flexíveis, o sistema que cuidava delas travou, emitindo uma enxurrada de avisos de abandono de emprego aos funcionários. A equipe responsável teve que correr para preservar as pessoas, de acordo com empregados do RH e do armazém.

Número de vítimas ocultado

Depois que as ausências inicialmente dispararam e interromperam as entregas, a Amazon deixou os funcionários praticamente no escuro sobre o real número de vítimas do vírus.

A empresa não informou aos trabalhadores do JFK8 ou de outros depósitos o número de casos de Covid na empresa. Enquanto a Amazon disse publicamente que estava divulgando os números confirmados às autoridades de saúde, em Nova York os registros não mostram nenhum caso relatado até novembro. A empresa e autoridades municipais contestam o ocorrido.

A Amazon continuou a monitorar cada minuto dos turnos da maioria dos trabalhadores do armazém, desde a rapidez com que embalavam a mercadoria até o tempo que durava uma pausa. Esse é o tipo de monitoramento que estimulou uma tentativa frustrada de sindicalização liderada por um grupo de funcionários negros em um depósito do Alabama.

‘Não somos números, somos humanos’

Se a produtividade caía, os computadores da Amazon presumiam que a culpa era do trabalhador.

No início da pandemia, a varejista on-line interrompeu a demissão de funcionários por baixa produção, mas essa mudança não foi anunciada claramente no JFK8, então alguns trabalhadores ainda temiam que trabalhar devagar custaria seus empregos.

Funcionária empacota ecomenda no armazém de Staten Island: "não somos números, somos seres humanos" Foto: CHANG W. LEE / NYTFuncionária empacota ecomenda no armazém de Staten Island: “não somos números, somos seres humanos” Foto: CHANG W. LEE / NYT

“É muito importante que os gerentes de área entendam que os trabalhadores são mais do que apenas números”, escreveu um funcionário no quadro de feedback interno do JFK8 no fim do ano passado.

“Somos seres humanos. Não somos ferramentas usadas para fazer suas metas diárias/semanais”, acrescentou.

A empresa divulgou números impressionantes de criação de empregos: somente de julho a outubro de 2020, ela conseguiu 350 mil novos trabalhadores, mais do que a população da cidade americana de Saint Louis.

Muitos dos novos recrutados — contratados por meio de triagem de computador, com pouca conversa ou verificação — duraram apenas dias ou semanas.

Alta rotatividade

Mesmo antes da pandemia, mostram dados, a Amazon perdia cerca de 3% de seus funcionários horistas a cada semana, o que significa que a rotatividade entre sua força de trabalho era de cerca de 150% ao ano. Essa taxa, quase o dobro das indústrias de varejo e logística, fez com que alguns executivos se preocupassem com a possibilidade de ficar sem trabalhadores nos EUA.

Em abril último, Bezos disse que estava orgulhoso da cultura de trabalho da empresa, das metas de produtividade “alcançáveis”, do pagamento e dos benefícios.

A Amazon reconheceu alguns problemas com demissões inadvertidas, perda de benefícios, avisos de abandono de emprego e licenças, mas se recusou a revelar quantas pessoas foram afetadas.

Mas vários ex-executivos que ajudaram a projetar os sistemas da Amazon disseram que a alta rotatividade, a pressão sobre a produtividade e as consequências da ampliação acelerada do número de funcionários se tornaram graves demais para serem ignoradas.

A empresa não abordou essas questões com a importância que o tema merece, disse Paul Stroup, que até recentemente liderava equipes corporativas dedicadas a atender os trabalhadores de armazéns.

— A Amazon pode resolver praticamente qualquer problema que quiser — disse ele em uma entrevista.

A divisão de recursos humanos, porém, afirmou o ex-funcionário, estava longe do foco, rigor e investimento vistos nas operações logísticas da Amazon, onde ele havia trabalhado anteriormente.

— [No RH], parecia que eu estava em uma empresa diferente.

Maior empregador dos EUA

Até mesmo Bezos, em seu último período como CEO da empresa que criou, agora está, surpreendentemente, admitindo algumas falhas. Em uma carta recente aos acionistas, ele disse que o esforço sindical mostrou que “precisamos de uma visão melhor de como criamos valor para os funcionários”.

A Amazon também está a caminho de se tornar o maior empregador privado do país dentro de um ou dois anos, à medida que continua se expandindo. Cerca de 1 milhão de pessoas nos Estados Unidos, a maioria deles trabalhadores por hora, agora dependem dos salários e benefícios da empresa.

https://oglobo.globo.com/economia/epoca/o-que-os-clientes-da-amazon-nao-veem-trabalho-na-gigante-do-commerce-um-ambiente-selvagem-25063593

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Na falta de profissionais de TI, empresas treinam os funcionários que já têm

Diante do desemprego recorde no país, área oferece salários acima da média pela escassez de profissionais

Bruno Rosa e Raphaela Ribas O Globo 13/06/2021 

RIO – Para acelerar processos de inovação e digitalização, impulsionados na pandemia, e superar o crescente déficit de profissionais de Tecnologia da Informação (TI) no Brasil, as empresas decidiram investir nas pratas da casa.

Em vez de buscar profissionais cada vez mais disputados — e caros — fora, companhias de diferentes setores investem na formação para tecnologia dentro, com programas de capacitação em áreas cada vez mais presentes no dia a dia dos negócios, como computação em nuvem, análise de dados, robótica e inteligência artificial

Essa tendência, uma espécie de retrofit de recursos humanos, é reflexo da escassez de mão de obra especializada em meio às estatísticas recordes de desemprego. Segundo a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação (Brasscon), o Brasil forma anualmente cerca de 45 mil pessoas na área de tecnologia, mas as companhias abrem 70 mil vagas por ano.

Além de cursos e treinamentos internos, a estratégia das empresas envolve a criação de universidades corporativas e programas para ajudar na recolocação de funcionários dentro da própria companhia de forma mais ágil. Segundo a consultoria IDC, os investimentos em TI devem subir 11% no país este ano.

— A vertente educação se tornou uma prioridade no investimento em TI, pois a tecnologia passou a ser uma sustentação de crescimento das empresas — diz Luciano Saboia, gerente de Pesquisa e Consultoria da IDC Brasil.

Na TIM, o treinamento em TI passou a fazer parte do seu plano estratégico. A meta da empresa de telecom é treinar em tecnologia cinco mil funcionários de diversas áreas até o fim de 2023. Já foram 1.500 desde o ano passado, conta Giacomo Strazza, diretor de Desenvolvimento de RH da TIM.

William Costa Lima trabalha na Ocyan: TI passou a fazer parte do seu dia a dia Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O GloboWilliam Costa Lima trabalha na Ocyan: TI passou a fazer parte do seu dia a dia Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo

Empresas criam universidades

Dos R$ 11 milhões por ano gastos em tecnologia, metade vai para capacitação interna.

— A educação para um futuro cada vez mais digital é importante. São temas como 5G, nuvem, internet das coisas (IoT, na sigla em inglês), ciência de dados e cibersegurança — explica Strazza.

Outra tele, a Oi criou uma universidade para oferecer cursos aos cerca de 11 mil colaboradores. Dos 455 oferecidos, 203 são voltados à tecnologia. Segundo Marcos Mendes, diretor de Gente e Gestão, quase sete mil funcionários já fizeram treinamentos em TI:

— A pandemia acelerou esse processo. Analisamos o perfil da pessoa e desenvolvemos um treinamento específico.

A Ocyan, que atua na área de petróleo e gás, criou uma Diretoria de Inovação para ajudar na capacitação tecnológica das equipes.

Salários acima da média

Com isso, profissionais das áreas de administração, comunicação, sustentabilidade e RH passaram a ter formação em temas como chatbot (sistema de interação baseado em inteligência artificial), ciência de dados e segurança da informação. Serão R$ 2 milhões investidos neste ano em treinamento em TI.

— Há deficiência de mão de obra. Hoje, há cientistas de dados aqui que vieram das áreas de suprimentos e de sustentabilidade — afirma Hygo Souza, diretor de TI da petroleira.

Daniele Sant'ana trabalha na TIM e passa por treinamento em TI Foto: Fabio Rossi / Agência O GloboDaniele Sant’ana trabalha na TIM e passa por treinamento em TI Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

Sergio Gallindo, presidente da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), diz que o alto investimento em formação decorre da expectativa de que o déficit de profissionais na área crescerá ainda mais nos próximos anos com a transformação digital.

Segundo ele, só nos três primeiros meses de 2021, foram contratados 41 mil profissionais de TI no país, quase o mesmo que em todo o ano passado: 47 mil.

— É a criação de um novo ecossistema. Há um esforço de capacitação. Além disso, a remuneração da área é até três vezes maior que a média brasileira, e isso pode ser transformacional para muitas pessoas e suas famílias — diz Galindo.

Demanda estrangeira

Os salários são mais altos porque a rotatividade também é. Afinal, os profissionais de TI são sempre assediados por outras empresas, inclusive do exterior.

Junto com os trabalhadores da área de saúde, os de TI estão entre os que mais vão morar fora. Com a ampliação do home office, muitas empresas estrangeiras contratam brasileiros sem que eles precisem deixar o país.

Wagner Pontes, CEO da D4U USA, que assessora profissionais interessados em imigrar legalmente para os EUA, diz que a busca de profissionais da área de tecnologia pelos serviços da empresa aumentou 30% em 2020 em relação a 2019.

E segue forte este ano com a flexibilização das normas de imigração e de emissão de vistos de permanência (green cards) nos EUA para profissionais que fazem falta à recuperação econômica do país, como os de TI.

— Além da situação delicada que o Brasil atravessa, um dos grandes atrativos para esses profissionais imigrarem é a remuneração mais alta — diz Pontes.

Essa demanda global por especializados em TI aumenta para as brasileiras não só o desafio de contratar, mas o de reter profissionais.

Carolina Veroneze trabalha na Nespresso Foto: Edilson Dantas / Agência O GloboCarolina Veroneze trabalha na Nespresso Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Na incorporadora imobiliária RNI, do grupo Rodobens, Nilson Neves, gerente de TI, diz que, dependendo do caso, treinar é mais econômico do que contratar fora da empresa:

— Se o cargo for mais básico, preferimos treinar, pois a pessoa já conhece todo o funcionamento da empresa. A parte técnica é mais fácil de ensinar do que a vivência do negócio, que nosso funcionário já tem.

‘Mola da digitalização’

A Riachuelo já contratou 400 profissionais em TI desde o ano passado, mas sabe que vai precisar de mais. Então, resolveu treinar, a partir deste mês, cem trabalhadores de outras áreas de olho na necessidade de reforço de suas equipes digitais no futuro.

— TI virou a mola propulsora da digitalização do varejo. Estamos saindo do modelo focado no físico para o de app de moda e logística — diz Mauro.

Rafael Nascimento, presidente da Associação Brasileira de Líderes em Tecnologia e Inovação (Ablti), observa que as empresas estão atrás principalmente de trabalhadores que tenham conhecimento sobre aplicativos, automação e comércio eletrônico.

Para Carlos Gothe, gerente de Inovação da Engie, que atua na área de energia, é preciso que diferentes profissionais desenvolvam competências na área de tecnologia, que, para ele, serão essenciais no futuro em quase todas as áreas.

— No nosso curso de Data Analytics (análise de dados), mostramos que é imperativo saber ler, utilizar e analisar esses dados — diz Gothe.

Foco em inovação

A tecnologia é cada vez mais diretamente ligada aos processos de inovação nas empresas. Na Embratel, dos R$ 10 milhões investidos em um centro de desenvolvimento de aplicações em nuvem, 30% foram para capacitação.

Agora, a empresa criará outro programa, com foco em segurança digital. Mario Rachid, diretor-executivo de Soluções Digitais da Embratel, diz que, desde 2020, já foram formadas 500 pessoas de áreas como financeira, call center e atendimento.

A empresa quer formar mais 300 internamente e planeja um outro programa, com foco em segurança digital.

Na Nespresso, a formação em tecnologia é voltada para a aceleração digital, com foco no comércio eletrônico. Bianca Carmignani, responsável pelo RH da empresa, explica que o funcionário pode ser treinado mesmo que, a princípio, não tenha aptidão para a tecnologia.

Na rede de farmácias Pague Menos, que tenta expandir sua atuação para serviços digitais, 20 empregados começam em julho um curso de seis meses para aprender programação e desenvolvimento de softwares e plataformas, entre outras habilidades.

— A concorrência por um profissional já pronto é muito alta. Então, vamos buscar na base — diz o diretor de Transformação Digital do grupo varejista, Gilberto Caray. (Colaborou Martha Imenes)

https://oglobo.globo.com/economia/na-falta-de-profissionais-de-ti-empresas-treinam-os-funcionarios-que-ja-tem-25058974

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Ganho de escala: a nova rotina das start-ups após a enxurrada de aquisições por gigantes do varejo

Empresas se adaptam ao mundo corporativo, mas sem deixar de lado inovação e agilidade na tomada de decisões

Carolina Nalin – O Globo – 12/06/2021 

RIO – A enxurrada de aquisições de start-ups por grandes varejistas já muda a rotina destas pequenas empresas de tecnologia inovadoras. Em um universo em expansão, que já reúne 13.813 startups no país, ao menos 26 foram alvo de aquisições de companhias como B2W, Magalu e Via (antiga Via Varejo, dona de Casas Bahia e Ponto Frio) desde o ano passado.

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Da noite para o dia, a dezena de funcionários passou a fazer parte de uma equipe de milhares. O que era decidido em minutos agora precisa ser comunicado a várias diretorias ou debatido em reuniões. Em compensação, a infraestrutura e a rede de contatos se multiplicaram.

Executivos de startups que se juntaram a grandes nomes do comércio afirmam que, passado o choque inicial de culturas, o caminho é mesmo manter o espírito de empresa de tecnologia. O boom do e-commerce na pandemia fez com que o consumidor deixasse de lado o hábito de flanar entre vitrines e decidisse em segundos a oferta certa para clicar e comprar.

A competição entre varejistas impôs um senso de urgência na busca por soluções inovadoras. O caminho foi aglutinar quem tinha respostas prontas e não para de correr atrás de novas formas de solucionar problemas.

Marco Zolet, CEO da plataforma SuperNow, uma start-up comprada recentemente pela B2W Digital, dona das marcas Americanas.com e Submarino Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Marco Zolet, CEO da plataforma SuperNow, uma start-up comprada recentemente pela B2W Digital, dona das marcas Americanas.com e Submarino Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Marco Zolet, CEO do SuperNow, plataforma de marketplace de supermercados, conta que o match com a cultura da B2W foi importante na decisão de vender a empresa em janeiro do ano passado. Integrar as atividades exigiu adequação a uma série de processos internos da varejista. A empresa passou para o escritório físico da companhia em São Paulo, embora o home office ainda seja adotado pela maior parte da equipe.

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— Éramos uma empresa pequena passando a fazer parte de um grande grupo. Tivemos um tempo para integrar os sistemas e entender a forma de pensar da companhia. Mas mantemos nossa velocidade e cultura de start-up, vendo oportunidades de crescimento dentro dos ativos da B2W — diz o fundador, que também é head da Americanas Mercado, voltada para compra e entrega de produtos do dia a dia.

Zolet diz que o negócio foi benéfico para as duas partes. A tecnologia e a expertise da startup possibilitaram a criação da Americanas Mercado, que integra o app da varejista. E a start-up ganhou capilaridade com a logística e o atendimento da B2W. Ela cresceu oito vezes desde a aquisição.

Rafael Mendes, CEO da ASAP Log Foto: Agência O GloboRafael Mendes, CEO da ASAP Log Foto: Agência O Globo

Depois da venda, é preciso reconhecer a vocação e delimitar a atuação de cada parte envolvida no negócio. Foi assim com a ASAP Log, empresa de logística criada em 2014 por Rafael Mendes.

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A startup foi vendida para a Via em abril do ano passado. Cresceu o time de TI no escritório em Curitiba e manteve a oferta de serviços a outros 8 mil clientes além da Via. O crescimento foi de 36 vezes em oito meses.

— A Via é um transatlântico e a ASAP é uma lancha. E a gente tem que usufruir do benefício de ser uma lancha porque assim conseguimos ser mais rápidos— conta Mendes. — Nessa sinergia conseguimos otimizar e evoluir mais rápido na hora de criar e testar produtos. Quando vejo que está burocrático demais, mudamos a forma de fazer as coisas. Se eu estiver em reunião toda hora, que horas vou trabalhar?

Ganhar escala e simplificar processos continua sendo uma preocupação da SmartHint, plataforma de busca inteligente para e-commerce criada por Rodrigo Schiavini e Marlon Korzune em 2017. Ela foi comprada pelo Magalu em abril e, de lá pra cá, manteve o escritório em Curitiba e o serviço aos mais de 1,1 mil clientes em nove países.

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No contrato, temos a liberdade de atuar no mercado e, inclusive, de poder vender a nossa tecnologia para concorrentes. Nada foi bloqueado. A concepção do Magalu não é uma estratégia destruidora, é uma estratégia agregadora conta Schiavini.

Liberdade de atuação

Na avaliação de Alexandre Pierantoni, diretor da consultoria financeira Duff & Phelps no Brasil, os investidores devem ter a mentalidade de que comprar uma empresa inovadora está mais ligado a oferecer o suporte financeiro do que comandar a inovação:

— Grande parte do conhecimento, da inovação e da tecnologia está na mão de quem está criando (soluções). Mesmo na transação de grandes empresas de tecnologia, a parte da gestão das pessoas é muito importante.

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Na Estante Virtual, parte das atividades administrativas e burocráticas passou para o Magalu, que comprou a empresa em janeiro. O time de TI da empresa migrou para o LuizaLabs, laboratório de tecnologia e inovação da varejista. O próximo plano é dividir o escritório com o Magalu e Época Cosméticos quando o modelo presencial for retomado:

— Houve muita troca e integração de serviços. Somos a primeira marca do grupo a trazer produtos seminovos e usados ao ecossistema. Isso traz desafios na integração dos catálogos e na apresentação dos produtos — conta Erica Cardoso, gerente de comunicação e marketing da Estante Virtual.

Em 2020, segundo a consultoria PWC, foram feitas 1.038 fusões e aquisições, o maior patamar desde 2002. Só no primeiro trimestre deste ano foram 333.

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— Os investidores buscam oportunidades nos segmento de tecnologia, saúde, logística e as de impacto nas chamadas ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança)— diz Gualtiero Schlichting, CBO da Stark, plataforma que liga investidores a empresas.

https://oglobo.globo.com/economia/investimentos/ganho-de-escala-nova-rotina-das-start-ups-apos-enxurrada-de-aquisicoes-por-gigantes-do-varejo-25058202

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Futurismo: os futuros de hoje não são mais como os de antigamente

O principal benefício dos estudos de futuros é evitar a miopia do curtoprazismo, cada vez mais perigosa não apenas para os futuros de negócios, como também, e principalmente, para os futuros da humanidade.

by Martha Gabriel MIT Technology Review Junho 11, 2021

Se por um lado não é possível prever o futuro, por outro, podemos, sim, escolher as melhores opções de caminhos para cria-lo. Enquanto o futuro acontece para alguns, ele é determinado por outros — a diferença entre ser vítima ou estrategista do tempo reside na habilidade de conseguir enxergar no presente as sementes dos possíveis cenários emergentes. O domínio dessa competência nos permite modificar nossas ações no presente para evitar futuros indesejados (como, por exemplo, uma catástrofe climática) e favorecer os que mais nos beneficiariam (como um mundo human-centric super smart da Sociedade 5.0).

Para tanto — estudar e criar futuros —, contamos com inúmeras metodologias que configuram um campo de estudo denominado Foresight, Futures Studies, ou, mais popularmente conhecido no Brasil como Futurismo. Essa disciplina existe formalmente há décadas e tem sido praticada com sucesso por inúmeros institutos de futuros, think tanks, e indivíduos notáveis do século passado, como Arthur Clarke, Buckminster Fuller, Alvin Toffler, entre outros. No entanto, se o assunto não é novidade, por que temos visto recentemente um aumento tão significativo no interesse pelo tema? Porque os futuros de hoje não costumam ser mais como os de antigamente, fazendo com que os conhecimentos e práticas de estudos de futuros tornem-se cada vez mais necessários para o sucesso de qualquer instituição ou indivíduo. Vejamos…

Futurismo e a Aceleração Tecnológica

Os estudos de futuros normalmente focam em um período de 10 anos à frente, como pode ser visualizado por meio do cone de futuros — uma heurística bastante utilizada para mapear as várias versões de futuros: possíveis, preferíveis, plausíveis, prováveis.

No passado, quando o ritmo de mudança no mundo era lento, não havia grandes diferenças entre as versões dos presentes e dos vários futuros possíveis. Nesse contexto, o aprendizado sobre o passado solucionava grande parte dos problemas que enfrentaríamos no futuro — em outras palavras, os futuros próximos tendiam a ser muito parecidos com os passados recentes.

Considerando o tempo de duração de cada era evolutiva nas formas de viver da humanidade, podemos notar que esse ritmo de mudança lento foi o tom predominante da vida humana durante quase toda a nossa história, e acelerou de forma mais perceptível apenas nas duas últimas décadas, com a 4ª Revolução Industrial:

  • Caça e coleta – vários milhões de anos
  • Era Agrícola – vários milhares de anos
  • Era Industrial (1a e 2a Rev. Ind) – alguns séculos
  • Era da Informação (3a Rev. Ind) – décadas
  • Era Cognitiva (4a Rev. Ind) – mudanças constantes

Assim, com exceção dos indivíduos que viveram especificamente os períodos de transições das revoluções tecnológicas (ou climáticas e ambientais) do passado, o ser humano foi evoluindo sem ter que lidar com grandes transformações de mundo durante o tempo de duração da sua vida no planeta. Nesse sentido, não evoluímos treinando como antecipar cenários, mas para reagir a situações previamente conhecidas. Desenvolvemos assim, predominantemente habilidades reativas, não preditivas — e essa tem sido a base da nossa educação tradicional. Isso funcionava bem até recentemente, porque até poucas décadas atrás o ritmo de mudança ainda era lento — observe no gráfico a seguir como o crescimento tecnológico era pequeno entre 1980 e 1990, mesmo essa sendo uma década pertencente à 3ª Revolução Industrial:

No entanto, conforme o ritmo de mudança começa a acelerar no mundo, mais notadamente a partir do início do século XXI e mais acentuadamente desde 2010, quando consideramos o período de estudo de 10 anos, as versões de futuros passam a se tornar cada vez mais diferentes do momento presente (veja, por exemplo, a projeção de ritmo de mudança tecnológica entre 2020 e 2030 no gráfico anterior). Como consequência, as estratégias de vida que usam fórmulas do passado para solucionar os futuros tendem a não funcionar mais. Passamos a precisar de novas estratégias para lidar com os diversos futuros distintos que emergem e que chegam cada vez mais rapidamente. Sim, mas por que os futuros estão acelerando?

Tecnologia & Realidades

A tecnologia é o principal vetor de aceleração de mudanças no mundo que que causa essa expansão do leque de futuros próximos. Desde o início da história da humanidade, a tecnologia vem recriando a nossa realidade — consequentemente, quanto mais rapidamente a tecnologia muda, mais rapidamente muda também a realidade. Esse ritmo não tende a parar ou diminuir, muito pelo contrário, e se não conseguirmos acompanhá-lo, ficamos literalmente perdidos no tempo. Dessa forma, a habilidade de enxergar o ritmo da mudança e os seus direcionamentos — aka, cenários futuros — passa a ser valiosíssima, para que possamos estar sempre preparados e nos adaptar rápida e constantemente.

Nesse sentido, estudos de futuros deveria ser disciplina obrigatória desde a educação básica, nos capacitando a traçar cenários, escolher e criar estrategicamente futuros melhores, minimizando os impactos do acaso em nossas vidas.

Criando futuros estrategicamente

Considerando-se, portanto, a importância dos estudos de futuros, não poderíamos finalizar esse texto sem discutir os seus fundamentos, que estruturam o mindset estratégico para criação de futuros.

Da mesma forma que em qualquer outra área do conhecimento, em Futurismo existem diversas linhas de pesquisa e metodologias, como Protocolos de Pensamento Antecipatório, Backcasting, Workshops de Futuros, Simulação e Modelagem, Visioning, Role-playing adaptatico, entre outros. Normalmente uma pesquisa de estudos de futuros envolve vários métodos combinados de forma a atender às especificidades do tema em questão, que pode variar desde uma área com abrangência genérica e ampla, como, por exemplo, o futuro do clima (ou filantropia, educação, dinheiro, etc.), até tópicos mais específicos, como o futuro da educação na minha região.

Além da condução por profissionais capacitados em futurismo (foresight practioners, ou futuristas), que saberão escolher e utilizar os métodos mais adequados para cada caso, outro pilar importante de um estudo de futuros é a seleção dos participantes do estudo. O futuro não é criado apenas por um único indivíduo, mas por todos os que estão envolvidos de alguma forma em ações que o determinarão, portanto, um estudo de futuros deve sempre abranger membros representativos de todas as áreas de interesse relacionados com o ecossistema do tema em análise, para garantir que o máximo de visões sejam consideradas. Quanto mais multidisciplinar for o grupo de indivíduos, menores serão as chances de enviesamento do processo. Com isso, conseguimos traçar cenários de futuros nas suas mais diversas, amplas e possíveis versões, tanto boas quanto ruins, e esse é um dos principais benefícios do futurismo: combater os vieses individuais e setoriais nos planejamentos estratégicos que, frequentemente, resultam em fracassos.

Portanto, o principal benefício dos estudos de futuros é evitar a miopia do curtoprazismo, cada vez mais perigosa não apenas para os futuros de negócios, como também, e principalmente, para os futuros da humanidade. O futurismo é, assim, o instrumento que favorece as melhores tomadas de decisão no presente, que possibilitam a melhor criação de futuros para todos e cada um de nós, garantindo a nossa humanidade, diversidade e sustentabilidade.

How future ready are you?


Este artigo foi produzido por Martha Gabriel, Futurista, autora de best-sellers, CEO da Martha Gabriel Consultoria e sócia de startup, Palestrante, TEDx speaker e colunista da MIT Technology Review Brasil.

https://mittechreview.com.br/futurismo-os-futuros-de-hoje-nao-sao-mais-como-os-de-antigamente/

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Ransomware: Por que tantas empresas bilionárias viraram alvos de hackers?

Cada vez mais frequentes, invasões que visam o sequestro de dados de empresas estão se tornando especializadas e complexas. O lucro para os criminosos é tanto que a linha de corte para selecionar um alvo é ter receita acima de 1 bilhão de dólares

Por André Lopes –  Revista Exame – 12/06/2021 

Entre os dias 30 e 31 de maio, os sistemas que controlam a operação da gigante brasileira dos alimentos JBS sofreram um colapso. Partindo da Austrália, uma invasão planejada por hackers ainda desconhecidos deu sumiço em dados importantes das unidades da empresa em países como Canadá, Estados Unidos e Reino Unido, e causou a interrupção das atividades do frigorífico nestas e outras áreas por quase uma semana.

Sequestro de dados como este não é uma novidade para as equipes de segurança digital de grandes empresas. A ferramenta usada para travar as informações já tem um nome conhecido entre os especialistas: os ataques de ransomware. No entanto, segundo um estudo conduzido pela empresa de segurança Trend Micro, os criminosos que usam deste artifício estão voltando suas ações cada vez mais para corporações de porte semelhante ao da JBS, com receitas superiores a 1 bilhão de dólares por ano.

No caso da brasileira, o The Wall Street Journal apurou que na quarta-feira, 9, a empresa preferiu aceitar a oferta de resgate dos dados e pagou a bagatela de 11 milhões de dólares aos hackers. O pagamento foi feito, claro, em bitcoin. Numa tentativa por parte dos hackers de impedir o rastreamento da quantia. 

Segundo o jornal, a JBS se viu em uma situação de último recurso para garantir a proteção das plantas do frigorífico de novas interrupções e limitar o impacto a restaurantes, lojas e fazendeiros que dependem da companhia, afirmou ao jornal André Nogueira, diretor da divisão americana da JBS. “Foi muito doloroso pagar aos criminosos, mas fizemos o que era correto para os nossos consumidores”, disse, reiterando que a empresa só pagou a quantia depois que os sistemas foram restabelecidos nas plantas da empresa.

JBS

Em uma ocorrência semelhante, no mês de maio, a Colonial Pipeline, operadora de oleodutos responsável por quase metade do abastecimento de combustíveis para a Costa Leste dos Estados Unidos, também aceitou pagar um resgate de 5 milhões de dólares em criptomoedas a um grupo de hackers após quase 10 dias de operações limitadas. Os cibercriminosos ameaçavam divulgar informações confidenciais roubadas dos computadores da companhia e, segundo o que disse o presidente da Colonial Pipeline, Joseph Blount, o ataque ocorreu usando um sistema antigo de rede privada virtual (VPN) que não possuía autenticação multifator. 

Em termos mais simples: todo o sistema da empresa foi acessado usando uma única senha. Nenhuma grande artimanha tecnológica foi necessária. “No caso dessa VPN antiga em particular, ela só tinha um único fator autenticação de fator único”, disse Blount. “Era uma senha complicada, quero deixar isso claro. Não era uma senha do tipo Colonial123”, disse o CEO.

Ataques de ransomware, o tipo de invasão que sequestra dados de empresas, cresceram 767% em 2020, segundo a Kaspersky (Olemedia/Getty Images)

Como os alvos são escolhidos?

A lista de companhias invadidas em 2021 é grande e alguns nomes são conhecidos. Vai Edward Don, centenária fornecedora de alimentos nos Estados Unidos, até o McDonalds, e as duas gigantes dos videogames Electronic Arts e CD Projekt Red. O objetivo em todos os casos é conseguir extorquir o dinheiro do resgate. Em desfavor das empresas está o fato de que, quanto maior elas forem, mais suscetíveis estão à paralisação de suas atividades — e mais dispostas elas se mostram a pagar pra se verem livres dos invasores. Outro agravante é o fato de que as gigantes estão sempre efetuando muitas aquisições, e no caminho, as empresas fundidas deixam brechas em seus sistemas, em alguns casos, do tempo em que ainda eram apenas startups.

Assim, é levado em conta tudo que possa abalar a segurança digital das corporações. Segundo o estudo da Trend Micro, entidades criminosas que em meados de 2016 atuavam contra pequenas empresas e até com dados domésticos, agora já possuem lucro suficiente para explorar vulnerabilidades em alvos de alto perfil. Para se infiltrar em organização, os grupos usam métodos como phishing, exploração de brechas de segurança e até mesmo pagamentos para funcionários que trabalham nas companhias-alvo.

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Um relatório da Kaspersky, empresa russa líder mundial em segurança digital, destaca que ataques de ransomware aumentaram 767% em 2020 entre sua base de clientes, em comparação com 2019. De 985 para 8.538. E atenta para o novo detalhe: quanto maior o tamanho da empresa, mais frequente é a tentativa de ataque, já que uma operação criminosa sofisticada rende valor maior para o resgate. 

Em outro levantamento, realizado pela McAfee e pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), os ataques geram prejuízos à economia global na casa de 1 trilhão do dólares, equivalente a 1,14% do PIB do planeta em 2019. Só em resgates, a consultoria especializada em blockchain, Chainanalysis, estima que foram gastos 350 milhões de dólares em criptomoedas no ano passado. Ransomware é o maior problema global quando se trata de crimes em todas as áreas.

Quem são os criminosos?

Para entender melhor quem está por trás das invasões mais recentes, a Kaspersky se infiltrou em fóruns da darknet e seguiu o rastro de alguns grupos para produzir um relatório. A intenção era identificar as táticas dos criminosos e como eles se organizavam.

Para a surpresa dos pesquisadores, o atual ecossistema do ransomware se profissionalizou. Há quem trabalhe com o desenvolvimento do malware, quem venda o acesso às redes e os donos de ferramentas de automação. Em um sistema de prestação de serviços, eles negociam parcerias entre o operador do grupo de ransomware e seus afiliados – “sendo que o operador fica com 20%-40% dos lucros enquanto os 60-80% restantes são divididos com os afiliados”.

Por que as invasões aumentaram?

As empresas estão mais vulneráveis. Considere que a pandemia forçou milhares de companhias a adotarem o home-office. Milhões de computadores pessoais começaram a acessar redes e arquivos profissionais remotamente. Consequentemente, milhões de portas abertas para a atuação dos cibercriminosos.

Além disso, esse crime não tem fronteiras físicas e consegue escapar das leis. A maioria dos crimes cibernéticos ocorridos em países ocidentais partem da Rússia ou de outros países que faziam parte da extinta União Soviética, fato que já causa até mesmo mal estar diplomático.

Em maio, o presidente americano, Joe Biden, afirmou que conversaria com seu par russo, Vladimir Putin, para cobrar uma “ação decisiva contra essas redes de ransomware”. Ataques eletrônicos contra negócios e órgãos do governo americano são considerados parte de uma estratégia de desestabilização promovida, ou no mínimo tolerada, pelo governo russo.

O resgate pago em bitcoin impede as investigações?

A moeda digital é a preferência para os negócios ilícitos, mas não é um atravancante para investigar os hackers. Um anúncio feito por autoridades federais dos Estados Unidos trouxe uma boa notícia neste sentido: parte dos bitcoins pagos pela Colonial Pipeline foram recuperados. A ação dos agentes confirmou que atualmente as criptos já não são tão difíceis de rastrear quanto os criminosos imaginam.

Para se desvencilhar dos investigados, o dinheiro foi movimentado por pelo menos 23 contas eletrônicas diferentes pertencentes ao grupo de hackers DarkSide, que no fim, mesmo com os despistes, foi confiscada pelo FBI. Isso mostra que a competência das agências policiais e das autoridades está crescendo junto com o conhecimento geral sobre o blockchain das criptomoedas.

Embora a moeda digital possa ser criada, movida e armazenada sem supervisão de qualquer governo ou instituição financeira, cada pagamento é registrado. Isso significa que todas as transações em bitcoins acontecem de forma aberta. O livro-caixa do bitcoin pode ser visto por qualquer pessoa conectada ao blockchain. Para os hackers, trata-se de uma brecha que precisa urgente de uma atualização de segurança.

https://exame.com/tecnologia/ransomware-por-que-tantas-empresas-bilionarias-viraram-alvos-de-hackers/

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Netflix lança site de e-commerce e abre caminho para geração de receita

Fãs já podem comprar produtos de suas séries favoritas. Iniciativa acontece em um momento que o mercado de streaming está vivendo uma disputa acirrada

Por Agência O Globo 11/06/2021 

Travesseiros “Lupin”, bonés, pingentes e moletons. Esses e outros itens podem ser comprados no Netflix.shop, site que entrou no ar nesta quinta-feira, no momento em que a maior empresa de streaming do mundo finca uma bandeira no território do e-commerce.

O site de compras oferece à Netflix uma nova maneira de gerar dinheiro após um trimestre em que seu crescimento explosivo mostrou sinais de desaceleração no campo cada vez mais concorrido do streaming, que agora inclui um rival formidável no Disney+.

Ao contrário de alguns de seus concorrentes, incluindo Hulu e HBO Max, Netflix, a casa de “Bridgerton”, “The Witcher” e “The Crown”, não tem comerciais, contando com as taxas mensais pagas por seus mais de 200 milhões de assinantes ao redor o mundo. É aí que entra o Netflix.shop.

O site é o próximo passo lógico para uma empresa que levou a sério o negócio de varejo no ano passado, um esforço liderado pelo executivo Josh Simon, que dirige a divisão de produtos de consumo da Netflix.

Simon ingressou na empresa em março de 2020, depois de trabalhar em uma função semelhante na Nike.

Sob seu comando, a equipe de produtos de consumo cresceu de 20 para 60 pessoas, e a Netflix fez acordos com Walmart, Sephora, Amazon e Target para vender roupas, brinquedos, kits de beleza e utilidades domésticas, entre outros itens, relacionados a séries e filmes.

Quanto custam os serviços de streaming no Brasil e como economizar

A Netflix criou a loja on-line com a empresa de tecnologia Shopify. Simon a descreveu como uma “butique”, acrescentando que produtos vinculados a apenas alguns programas da Netflix serão incluídos nas primeiras semanas.

“Lupin”, o agitado programa policial francês sobre um ladrão especialista em arte, estará em destaque no Netflix.shop no fim deste mês. Além de bonés de beisebol, camisetas, moletons e suéteres, a mercadoria relacionada a “Lupin” incluirá almofadas (US $ 60 cada) e uma mesa lateral (US $ 150), tudo projetado e produzido em colaboração com o Museu do Louvre.

Nos próximos meses, produtos vinculados a outros programas da Netflix, incluindo “Stranger Things” e “Money Heist”, aparecerão nas prateleiras on-line.

A demanda parece estar lá: milhares de produtos feitos por fãs relacionados à série de documentários da Netflix “Tiger King”, incluindo velas, máscaras e cartões comemorativos, já estão à venda no Etsy e sites semelhantes, sem a aprovação da empresa.

O Netflix.shop permitirá que a empresa se mova mais rapidamente para atender à demanda por itens relacionados ao streaming.

O desejo de tempos de resposta rápidos influenciou a decisão da empresa de administrar sua loja por meio do Shopify, cuja tecnologia oferece suporte a uma variedade de fornecedores, incluindo Allbirds, Kith, The New York Times e Skims de Kim Kardashian.

Novas fontes de receita

As empresas de tecnologia estão agora entrando em ação à medida que procuram novas fontes de receita. O Google recentemente anunciou planos para abrir uma loja em Nova York, e o Instagram aumentou seus recursos de compras no aplicativo.

Vendas de licenciados ligados a programas, filmes e personagens movimentaram cerca de US $ 49 bilhões nos Estados Unidos em 2019 e US $ 128 bilhões globalmente, de acordo com o estudo mais recente da indústria da Licensing International, um grupo comercial. O maior jogador, por ordens de magnitude, é a Disney.

Simon, o executivo da Netflix, disse que o dinheiro gerado pelo site de compras não deve corresponder à quantia que a Netflix ganha por meio de seus acordos com cadeias de lojas e marcas de moda.

— Em termos práticos, a receita virá mais desses parceiros ao redor do mundo em termos de pegada e número de locais e magnitude — afirmou.

Ao contrário da Disney, que estima gerar dezenas de bilhões de dólares em vendas anuais de mercadorias, a Netflix não tem planos para lojas físicas em shoppings ou na Times Square.

Mark A. Cohen, diretor de estudos de varejo e professor adjunto da Escola de Negócios da Universidade de Columbia, disse que estava cético quanto à longevidade da loja Netflix depois que a empolgação em torno de sua inauguração acabar, em parte por causa do ciclo de vaivém de hits da empresa.

— A maioria deles tem uma vida útil curta, ao contrário de uma propriedade da Disney, que é uma longa jornada de gerações.

https://exame.com/negocios/netflix-lanca-site-de-e-commerce-e-abre-caminho-para-geracao-de-receita/

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Dispositivos de tecnologia querem ler nossa mente. O que pode dar errado?

Neurable, NextMind, Facebook e outras empresas de tecnologia defendem que dispositivos controlados pelo cérebro são a próxima grande tendência

 Por Dalvin Brown – The Washington Post/Estadão 13/05/2021 

Ramses Alcaide passou mais de uma década pensando a respeito do pensamento.

Quando cursava PhD na Universidade de Michigan, em 2015, ele desenvolveu uma interface entre computadores e cérebros que permitiria às pessoas controlar softwares e objetos físicos com o pensamento. Hoje, essa interface está por trás de planos de uma startup com base em Boston, a Neurable, para iniciar a produção de uma linha de headsets com sensores cerebrais que permitem aos usuários saber em quais momentos estão prontos para atingir picos de produtividade.

Usar os pensamentos para realizar tarefas fisicamente no mundo real já foi coisa de ficção científica. Agora, está se tornando realidade, e a interface da Neurable é apenas um dos produtos que empresas estão tentando desenvolver capazes de revolucionar o consumo de eletrônicos.

Tecnologia comandada pelo cérebro já permite a jogadores de videogames manipular avatares quando o usuário se concentra em determinadas partes das telas. E o Facebook revelou no mês passado planos de interpretar sua intenção de mover o dedo para disparar comandos digitais.

Pesquisadores consideram que esses avanços poderão levar à próxima grande revolução tecnológica – dando aos seres humanos essencialmente um sexto sentido: ao pensarmos em algo, o computador será capaz de capturar esse pensamento, exibi-lo em uma tela e até pronunciá-lo em voz alta. Pense nisso como uma telecinese movida a tecnologia, que nos permitirá escrever textos com a mente, compartilhar pensamentos sem falar ou navegar pela internet apenas pensando no site que quisermos acessar.

Os possíveis desdobramentos dessa realidade preocupam alguns especialistas em ética. Eles ressaltam que não há leis regulamentando a maneira que as tecnologias ligadas ao pensamento podem ser utilizadas em produtos de consumo e que não existe controle a respeito do que as empresas de tecnologia têm permissão de fazer com informações extraídas do nosso cérebro.

Alguns afirmam que, conforme as coisas avançam, as empresas serão capazes até de alterar o órgão que, essencialmente, faz você ser você.

“O cérebro é o que torna você humano. Você é o seu cérebro. Se a tecnologia entra no seu cérebro, está entrando em você”, afirmou Rafael Yuste, diretor do Centro de Neurotecnologia da Universidade Columbia. Ele dirige a equipe de pesquisas que descobriu, em 2019, que pode ser possível não somente decodificar nossos pensamentos, mas também inserir memórias neles.

Por agora, o objetivo da Neurable é ajudar as pessoas a saber quando estão mais atentas e mais bem dispostas para tomar decisões de trabalho e também saber em que momento estão menos capazes de ser produtivas. Instalada dentro de headsets aparentemente comuns, a interface, espera-se, será capaz de possibilitar novas categorias de métricas, tais como a frequência com que você fica impaciente, bebe água ou sorri. Essa tecnologia é destinada a pessoas que querem usar seu tempo com mais eficiência e pessoas que querem melhorar sua saúde mental, afirma a empresa.

“Pense nela como uma pulseira fitbit para o cérebro”, afirmou Alcaide.

A Neurable produz headsets com intuito de avisar aos usuários quando estão prontos para atingir picos de criatividade

A Neurable produz headsets com intuito de avisar aos usuários quando estão prontos para atingir picos de criatividade

Promessas

Mas não é nisso que Alcaide espera que essa tecnologia resulte. Ele antevê o dia em que poderemos controlar nossos smartphones sem usar as mãos ou a voz. “Quer atender um telefonema ou tocar a próxima música da playlist? Não precisa usar as mãos”, afirma um site que arrecada fundos para a Neurable, divulgando o sistema de controle por movimento da empresa.

Essa tecnologia – prometendo que basta os usuários pensarem que acontece – seria um passo monumental para os dispositivos eletrônicos.

Neurotecnologia é um termo genérico que abrange uma indústria que tem como objetivo conectar o cérebro das pessoas a computadores. Alguns mecanismos requerem intervenções cirúrgicas; outros, não. Trata-se de um cativante campo da biotecnologia que evolui rapidamente, permitindo às máquinas interpretar ou alterar nossa consciência.

A neurotecnologia já demonstra valor na medicina, ajudando pacientes de Parkinson que tentam diminuir problemas com o equilíbrio, tremores e dificuldades para andar, segundo o Departamento de Vigilância Sanitária dos Estados Unidos. No campo da medicina, a neurotecnologia se mostra promissora para tratamento de pessoas com outros problemas neurológicos, como TDAH, Alzheimer e epilepsia.

Cientistas a utilizam para estudar depressão, ansiedade e fobias.

Com o passar do tempo, porém, a pesquisa avança para além das instalações médicas.

Desde 2014, startups como Muse, Dreem e BrainCo têm desenvolvido faixas de cabeça e outros dispositivos vestíveis para consumidores usarem em casa. O complemento da NextMind para controlar com a mente óculos de realidade virtual e o headset da Urgotech destinado a nos ajudar a dormir melhor são realidade. A Versus lançou fones de ouvido de US$ 1.500 que leem ondas cerebrais, destinados a ensinar você a limpar a mente e reduzir o estresse.

A Neurable quer ser a próxima. A empresa começou a aceitar pré-encomendas para headphones mais baratos que os da Versus que um dia permitirão que selecionemos músicas usando movimentos faciais.

Ainda mais usuários estão a caminho nos próximos anos, enquanto empresas como Facebook e Neuralink, de Elon Musk, investem num mundo em que os impulsos cerebrais poderão substituir os cliques no mouse do computador.

A teoria é que interfaces entre cérebro e computador inauguram um novo setor de empreendimento, fazendo com que usuários sejam capazes de controlar com a mente hardware e software com mais rapidez do que com os dedos.

A adoção em massa dessa tecnologia significaria que as pessoas seriam capazes de usar a mente para fazer buscas na internet, em vez de ter de tocar na tela de um smartphone ou digitar em um teclado de computador. Isso poderia acabar de vez com a necessidade de smartphones, substituindo-os por óculos ou lentes de contato inteligentes, que exibiriam imagens com base nos nossos pensamentos.

“Imagine se você fosse capaz de digitar 100 palavras em um minuto somente com o pensamento. Seria o fim dos teclados”, afirmou Yuste, o especialista em neurotecnologia de Columbia.

Preocupações 

Agora, a grande preocupação é com o que vai acontecer quando e se esse conhecimento for comercializado e aplicado por empresas de tecnologia com poucas regulações e intenções voltadas ao lucro. Afinal, os EUA não criam leis significativas para defender a privacidade das pessoas há décadas.

“Já existem regulações no contexto médico, mas em relação a neurotecnologias não invasivas, a indefinição é muito maior”, afirmou Dario Gil, vice-presidente sênior e diretor de pesquisas da IBM. “Acreditamos que é preciso haver um diálogo muito mais intenso para definir a maneira que os dados são coletados [e] como podem ser usados. O assunto é importante demais para ser deixado numa terra de ninguém.”

Avanços em neurociência mostram que os pensamentos são resultado de uma vasta rede de neurônios que se ativam por todo nosso sistema nervoso. Eles são detectáveis, mas decifrar esse intrincados padrões é complicado.

Toda vez que pensamos ou colocamos atenção em algo, os neurônios do nosso cérebro geram sinais elétricos que viajam como ondas, pulsando nos nossos crânios e em outras partes. Sensores presos à nossa cabeça são capazes de captar esses sinais sutis, enquanto algoritmos trabalham para transformar essa informação em algo que tenha sentido, como uma intenção de acionar “play” na tela do computador.

Poucas tarefas, porém, podem ser realizadas por meio dessa tradução atualmente, em parte porque decodificar ondas cerebrais é uma ciência muito complexa.

“Não estamos nem perto hoje de um entendimento completo a respeito da maneira que o cérebro funciona”, afirmou Polina Anikeeva, neurocientista do Instituto Massachusetts de Tecnologia que estuda bioeletrônica. “Temos boas noções a respeito de algumas funções fundamentais, mas que também ainda estão sob investigação.”

Fabricantes de eletrônicos têm menos informação ainda para avançar com dispositivos que são pouco precisos na captação desses sinais.

No laboratório, cientistas conseguem estudar o funcionamento do cérebro rastreando individualmente neurônios que se acionam e usando equipamentos de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI) para medir alterações no cérebro no momento que elas acontecem. Fabricantes de eletrônicos não têm essa capacidade, pois sensores menos invasivos são menos precisos.

Ler pensamentos é um processo sutil. Ínfimos pulsos neurais têm de atravessar o crânio, o couro cabeludo e os cabelos antes de serem captados por um sensor. Esse sinal é então amplificado e capturado. Cada passo aumenta as chances de interferência exterior. Movimentos musculares, como piscar, são muito mais ruidosos e podem inutilizar os dados.

Mesmo sem todas as respostas, empresas de neurotecnologia estão acessando partes específicas do cérebro obter conhecimento a respeito da maneira que os pensamentos se manifestam, em uma tentativa de descobrir quais serviços de escaneamento cerebral as pessoas estariam dispostas a comprar.

O método mais comum usa eletroencefalografia (EEG), basicamente eletrodos grudados na nossa cabeça.

Uma maneira que isso está se desenvolvendo é por meio dos dispositivos vestíveis que detectam atividade cerebral, usados por desenvolvedores da NextMind, que podem ser instalados na parte de trás de bonés, próximo ao córtex visual, a parte do cérebro que processa imagens captadas pela retina. O dispositivo é projetado para aprender onde está o seu foco e traduzir isso para “comandos cerebrais diretos”, como mover objetos em videogames.

“O que o todo mundo quer é interagir o mais facilmente possível com os dispositivos do cotidiano”, afirmou Sid Kouider, fundador e diretor executivo da NextMind, uma empresa com base em Paris. “Ter essa conexão direta é criar uma simbiose entre você e os seus dispositivos.”

Mas leva tempo para um computador ler nossos pensamentos e inferir o que pretendemos fazer. Esse é um assunto latente que pesa contra grande parte da neurotecnologia desenvolvida atualmente. Conseguimos tocar a tela de nossos smartphones com muito mais rapidez do que um computador consegue descobrir o que queremos e responder a isso. Conseguimos apertar os botões do joystick bem rapidamente, também.

O tempo de resposta do dispositivo da NextMind é inferior a um segundo, o que é uma experiência “alucinante”, de acordo com o vlogger do YouTube Tyriel Wood, de 33 anos, que faz demonstrações de jogos e equipamentos de realidade virtual para viver. Ele testou o dispositivo em janeiro e notou atrasos na resposta em alguns casos, mas ficou impressionado mesmo assim.

“Eu conseguia colocar a atenção numa área e me teletransportar para lá. Mas algumas vezes esses movimentos poderiam ser mais rápidos se eu estivesse usando um mouse ou algo do tipo”, afirmou Wood.

Ainda assim, nossas mãos também possuem limitações. Somos limitados pelos movimentos dos dedos, enquanto o poder do cérebro pode acrescentar um novo tipo de interação na internet. Por exemplo, imagine digitar um texto em uma tela usando os dedos, ao mesmo tempo em que grifa certos trechos com a mente.

Outra abordagem da neurotecnologia é usar eletromiografia (EMG) para registrar sinais neurais em outras partes do corpo ou detectar nossa intenção de mover um músculo.  A BrainCo, uma startup de pesquisa robótica usa esse mecanismo para acionar próteses de pessoas amputadas. A Microsoft está pesquisando aplicações dessa tecnologia para controle de estresse. O Facebook quer usá-la para fabricar óculos de realidade aumentada em até dez anos.

A gigante rede social publicou sua pesquisa a respeito do tema em março, para que as pessoas pudessem expressar seus medos e preocupações em relação à tecnologia.

“A realidade é que não conseguimos antecipar nem resolver todas as questões éticas associadas a essa tecnologia sozinhos”, afirmou Sean Keller, diretor de pesquisa e ciência do Facebook Reality Labs.

Uma terceira proposta, menos favorável ao consumo, é perfurar buracos nas nossas cabeças algum dia, uma ideia que tem como arauto Elon Musk. Em 2016, o diretor executivo da Tesla lançou a Neuralink, com objetivo de aprimorar seres humanos com inteligência robótica artificial. Ele investiu US$ 100 milhões em seu sonho, que, segundo afirmam neurocientistas, poderá beneficiar pessoas com doenças e síndromes que prejudicam o cérebro.

Até lá, a empresa tem como foco os animais. Em 8 de abril, a Neuralink lançou um vídeo que mostrava um macaco aparentemente usando a tecnologia para jogar um videogame com a mente. O animal teve um chip de computador implantado no cérebro cerca de seis semanas antes do vídeo ser gravado, de acordo com a startup. Musk afirma que essa interface um dia permitirá às pessoas que padecem de certos distúrbios neurais controlar smartphones e computadores com a mente, “com mais rapidez do que alguém que usa os dedos”.

A empresa está longe de demonstrar resultados com humanos.

Mesmo startups que oferecem há anos na internet produtos acionados pela mente em estágio inicial de desenvolvimento, ainda não está claro se alguma interface neural vestível conquistará o mundo, quanto custaria e quando estaria disponível no mercado.

Ainda assim, as aplicações dessa tecnologia parecem infinitas.

E se pudéssemos saber de verdade o que nossos pets estão pensando? E se pudéssemos facilmente exibir em uma tela imagens da nossa cabeça? E se pudéssemos transcender a linguagem e compartilhar ideias com as pessoas sem dizer nem escrever nenhuma palavra? E se um computador pudesse organizar nossas ideias e criar um novo roteiro de filme, ou um trabalho acadêmico, ou uma apresentação profissional mais capazes de causar impacto?

Poderá ser difícil não investir nisso.

“Não seria ótimo se pudéssemos ter uma ferramenta lógica de inteligência artificial para organizar tudo o que temos na cabeça? Poderia ser a ferramenta pessoal de produtividade definitiva”, afirmou Mary Lou Jepsen, cientista da computação e fundadora da Openwater, uma startup com foco em imagiologia interna não invasiva. “Quando entendermos como nosso cérebro funciona, seremos capazes de resolver muitos problemas. Seremos capazes de nos transformar em algo melhor.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

https://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,dispositivos-de-tecnologia-querem-ler-nossa-mente-o-que-pode-dar-errado,70003712830

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