‘A economia prateada já move R$ 1,6 tri por ano’, diz presidente do Sebrae-SP

Em entrevista ao ‘Estadão’, Wilson Poit fala sobre o potencial econômico do grupo de pessoas acima de 60 anos

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo 19 de dezembro de 2021 

Apenas entre 2012 e 2021, 12,2 milhões de brasileiros ingressaram no grupo de pessoas com 60 anos ou mais. A expectativa é que esse crescimento seja ainda mais acelerado nos próximos anos com o maior envelhecimento da população brasileira. Hoje esse grupo soma mais de 37 milhões de pessoas. Mas, apesar do crescimento, essa população não tem sido atendida de forma satisfatória, diz o presidente do Sebrae-SP, Wilson Poit.

Hoje, afirma ele, a chamada “economia prateada” já movimenta R$ 1,6 trilhão por ano. Mas o valor poderia ser muito maior. “Temos pesquisas que mostram que esse grupo de pessoas está descontente com os produtos e serviços destinados a elas.” No caso da moda, exemplifica ele, ou as roupas são jovens demais ou velhas demais. Não há um meio termo. “Notamos que as empresas no Brasil ainda têm uma cultura muito baseada no culto à juventude, seja no comercial de TV, na propaganda ou nas mídias sociais. Veja a seguir, trechos da entrevista:

ctv-tcn-wilson-poitAs empresas ainda têm culto excessivo à juventude, afirma Poit Foto: Taba Benedicto/Estadão

O que é economia prateada?

Estamos falando de um mercado muito grande que envolve a população com mais de 60 anos de idade e não quer mais ser chamada de idosa. Trata-se da longevidade ativa, um mercado enorme e que não é muito explorado no Brasil, apesar do envelhecimento da população. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que desde a década de 50 essa faixa etária vem crescendo de forma importante (só entre 2012 e 2021, 12,2 milhões de pessoas entraram para esse grupo). E esse movimento vai continuar em alta. Aquela pirâmide que, nos meus tempos, mostrava um país jovem mudou. Agora é um país que está envelhecendo com pessoas que vão viver mais tempo. A longevidade não é só ter mais saúde e mais atividade. Esse público também consome produtos e serviços ligados à saúde e outras coisas.

Esse público não está sendo atendido?

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que essas pessoas – de um modo geral – têm poder aquisitivo um pouco maior. Pessoas com mais de 65 anos são 17% da fatia dos 5% mais ricos. E apenas 4% da grande fatia de 40% mais pobres. Temos estatísticas aqui no Sebrae que mostram que os mais velhos não estão satisfeitos com o mercado. Em São Paulo, vemos grandes shoppings para gatos, cachorros e pets em geral. Mas não há nenhum shopping center voltado para a economia prateada. Uma estatística da Hype60+ mostra que de cada 10 pessoas da economia prateada 6 estão descontentes com o mercado de moda. Ou elas acham as roupas jovens demais ou velha demais. Esse é um tipo de cliente que consome bem, tem autonomia de decisão e procura qualidade. Estamos falando de consumidores maduros, provedores de famílias, que definem um tipo de consumo e não gostam de ser tratados nem como millenials nem como idosos. É um mercado enorme para novos negócios e também para empresas já constituídas pensarem em produtos voltados para eles.

Não há iniciativa das empresas para atender esse mercado?

No Japão, onde tem muita gente com 100 anos ou perto de 100 anos, esse mercado é muito desenvolvido. Um exemplo prático é que há supermercados só para a economia prateada, com corredores mais largos e carrinhos com lupa. Precisamos de soluções para esses clientes. É preciso olhar as limitações desse público. Outra pesquisa da FGV mostra que 70% das empresas acham que os idosos não acompanham as transformações tecnológicas. No entanto, 90% desse pessoal tem smartphone e estão nas redes sociais. É uma oportunidade a ser explorada.

Qual o primeiro passo?

Acredito que é preciso pensar em programas de lazer, baseados em culturas, viagens e serviços para qualidade de vida. Esse pessoal é muito mais exigente quanto ao conforto na hora de comer, na hora de dormir, etc. São pontos de atenção para o setor empresarial, como alimentação fora de casa e turismo. Além das atividades físicas, é preciso pensar em serviços de acolhimento. Há o mercado de home care. Alguns fundos de investimentos compraram vários edifícios de flats em São Paulo para esse público específico, mas são poucas vagas. Hoje há pessoas que querem colocar o pai, a mãe ou querem morar num lugar com acesso à academia, tecnologia e fisioterapia, mas não conseguem vagas. Estão lotados. Acredito que também há espaço para negócios ligados à educação tecnológica desse grupo de pessoas. Às vezes eles têm um pouco mais de dificuldade para entender os aplicativos e acabam recorrendo aos netos. De novo, países como Japão e alguns da Europa são exemplos porque eles têm uma cultura voltada para esse público.

No Brasil, estamos distantes disso?

Notamos que as empresas no Brasil ainda têm uma cultura muito baseada no culto à juventude, seja no comercial de TV, na propaganda ou nas mídias sociais. Então o primeiro passo para qualquer empresa é olhar para esse público e descobrir o que pode oferecer para ele. Perguntar para essas pessoas, fazer pesquisa ou procurar pesquisas que estão sendo feitas sobre o assunto. É uma parcela da população que tem uma forte vontade de consumir. Guardou dinheiro e está aposentado. São pessoas que conquistaram coisas e querem desfrutar mais o momento. Lógico que o Brasil é um país de muita desigualdade. Estamos falando aqui daqueles que têm acesso e não são bem atendidos.

Além do Japão, que outros locais são exemplo na economia prateada?

Japão, França, uma pequena região da Costa Rica e Califórnia. Nesses países as empresas já têm um olhar mais profundo e percebem como atender as pessoas dessa faixa etária. Aqui temos um mercado que não conseguiu atender plenamente esse público e tem uma dificuldade em entender quem são essas pessoas e onde estão. São lacunas de mercado que podem virar oportunidades de negócios para satisfazer esse público.

O sr. disse que as empresas têm um culto à juventude…

Isso é bom também. Se vamos viver mais, os jovens têm de cuidar mais da saúde. Todos querem viver uma longevidade ativa. Mas é uma oportunidade a ser ocupada. Acabou aquela imagem de que esse público da economia prateada quer ficar em casa, aposentada e com pouca atividade. Isso está ultrapassado. Cada vez mais esse pessoal quer consumir produtos e serviços relacionados com os tempos atuais e querem se atualizar. Essas pessoas têm uma conexão com tecnologia, usam celular, computador e querem sair, querem ter uma vida social, querem ter lugar de encontro, querem se vestir bem. Podem consumir uma infinidade de produtos e serviços. Aqui no Sebrae estamos bem atentos a esse mercado. Temos vários cursos disponíveis e gratuitos para os 60+ que queiram virar empreendedores. Podem trabalhar em casa.

Qual o potencial desse mercado?

A economia prateada já movimenta no Brasil R$ 1,6 trilhão por ano. Esse mercado, por exemplo, está se duplicando. O Brasil está ficando mais velho. É um assunto que temos acompanhado bastante. Esse valor poderia ser muito maior porque há pessoas descontentes com os produtos oferecidos. Na retomada econômica, pós-covid, as empresas precisam e podem faturar mais.

Alguma empresa no Brasil já despertou para isso?

Já vi uma ou outra. Mas há até dificuldade para encontrar modelos para fazer fotos e propaganda. Tem gente muito bem de forma física. Muita gente correndo maratona.

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Urban living labs: quando a inovação aberta chega às cidades

Clayton Melo – Fast Company Brasil 03.03.2022

Na era da economia do conhecimento, não tem escapatória: é inovar ou inovar. E hoje essa busca passa, necessariamente, pela colaboração, pelo compartilhamento de experiências e por colocar o cliente no centro. Prova disso é que a inovação aberta conquistou o mercado nos últimos anos, com inúmeros programas que conectam empresas e startups para desenvolvimento de produtos e serviços.

O conceito de open innovation, criado por Henry Chesbrough, professor de da universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, já está bem amadurecido no setor privado. Mas tem um desdobramento relativamente novo que merece ser observado, especialmente por conta do impacto social e econômico que pode gerar. Estou falando da aplicação da inovação aberta no contexto das cidades por meio dos chamados urban living labs.  

Os laboratórios vivos urbanos são ecossistemas de inovação aberta centrados no usuário que têm a cidade como campo de testes. É mais ou menos como usar áreas urbanas para desenvolver MVPs de projetos pensados para resolver problemas diversos, como mobilidade, segurança, energia e meio ambiente. Da mesma forma que o conceito convencional de inovação aberta aplicado às empresas, ele acelera o desenvolvimento de tecnologias e reduz os custos dos projetos urbanos, com a vantagem de contar com a inteligência coletiva advinda da aproximação entre poder público, organizações, universidades, startups e cidadãos.   

OS LABORATÓRIOS VIVOS URBANOS SÃO ECOSSISTEMAS DE INOVAÇÃO ABERTA CENTRADOS NO USUÁRIO QUE TÊM A CIDADE COMO CAMPO DE TESTES.

O processo de um urban living lab cumpre algumas etapas. O ciclo começa com um diagnóstico dos desafios de inovação de uma determinada região. Após discussões entre os diversos atores sociais envolvidos, esses desafios são selecionados e abre-se uma chamada pública para inscrição de projetos que buscam solucionar os problemas listados. Geralmente, essas chamadas contam com a participação de startups, empresas e ONGs, por exemplo. Um ponto central em toda essa jornada é a participação efetiva da administração pública, pois a viabilidade de uma proposta depende de recursos e autorizações para intervenções no espaço público. 

A fase seguinte é a de desenvolvimento. É neste momento que as soluções são testadas na vida real – em um bairro, por exemplo, em contato direto com a população. Os projetos-piloto são monitorados e avaliados a partir de uma série de indicadores de desempenho. Os protótipos validados chegam à etapa final, que é a da escalabilidade. Nesta fase, são criadas estratégias para sua aplicação em mais áreas do município, ou até mesmo na cidade toda, dependendo do caso. 

Cases dentro e fora do Brasil

Existem experiências inspiradoras de urban living labs no mundo – e também no Brasil. No exterior, um dos cases mais reconhecidos é o do Barcelona Living Lab, iniciativa do conselho municipal que oferece a cidade para que startups e empresas apliquem projetos-piloto. Se validados, eles podem ser escalados em outros lugares. Entre as soluções testadas estão um método de gerenciamento de coleta de lixo, um mecanismo de iluminação inteligente e equipamentos para monitoramento e carregamento de carros elétricos. 

Outro exemplo é o Living Lab de Matosinhos, município que fica no norte de Portugal. O objetivo lá é criar um bairro carbono-zero, com a formação de um mercado local de carbono no qual os moradores são recompensados por terem hábitos de mobilidade mais sustentáveis. Pela iniciativa, a cidade se abre para testes de tecnologias inteligentes nas áreas de mobilidade, energia, construção civil e arquitetura. 

O LIVING LAB DE FLORIANÓPOLIS FOI LANÇADO EM 2018, COM METODOLOGIA DESENVOLVIDA PELO GRUPO DE PESQUISA VIA ESTAÇÃO DO CONHECIMENTO, DA UFSC.

“Este programa envolve o município, as empresas, os operadores de mobilidade, as comunidades e os cidadãos na construção de novos modelos de mobilidade que evitem emissões e que sejam adequados a quem vive e trabalha no município”, diz o site da prefeitura local. “Trata-se de um palco de cocriação e inovação aberta de produtos, serviços, software, hardware e intervenções urbanas de baixo carbono, onde interagem municípios, centros de conhecimento, empresas, empreendedores e cidadãos”. Em 2018, o projeto venceu o Prêmio Europeu de Promoção Empresarial, concedido pela Comissão Europeia.

No Brasil, uma das cidades que apostam nesse caminho é Florianópolis.  O living lab da capital catarinense foi lançado em 2018 pela Rede de Inovação de Florianópolis, uma parceria entre a prefeitura, a Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) e a Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (Acif). Entre as propostas selecionadas estão soluções voltadas a carros elétricos, hortas urbanas, automatização do fornecimento de energia e atendimento a combate a incêndios, entre outros. O programa contou com metodologia desenvolvida por um grupo de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, o Via Estação do Conhecimento. 

Essas e outras iniciativas do gênero indicam um caminho promissor de modernização da administração pública. Valendo-se dos princípios da inovação aberta, os urban living labs colocam o poder público como um articulador e um fomentador dos stakeholders locais em busca de inovação para resolver problemas reais das cidades. E o principal: colocam o cidadão no centro do processo, testando, avaliando e ajudando a construir as soluções que afetam diretamente a sua vida. 

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Clayton Melo é jornalista, cofundador da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital em áreas como inovação, tecnologia, negócios sociais e cenários futuros. Foi curador do Festival Path, de inovação e criatividade, e atuou em redações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e Meio e Mensagem. 

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Mais do que comunicar, iniciativas de impacto à geração Z devem criar diálogos genuínos

Por Arthur Wong* diretor de marketing da Samsung América Latina

Composta por pessoas nascidas entre a segunda metade dos anos 1990 até 2010, a Geração Z tem se tornado cada vez mais importante na definição de novas tendências de consumo. Não à toa, produtos, campanhas e serviços são cada vez mais pensados com foco nesse público, que além de influenciar as pessoas ao redor, sejam elas mais novas ou mais velhas, também têm grande impacto no mercado. Por se tratar de uma geração nascida no universo digital, não há limites para criar novos meios de conexão com eles.

Além de se tratar de um público que começa a conquistar sua independência financeira, os GenZ, como também são chamados, têm um forte espirito de curiosidade, principalmente quando se fala em tecnologia, games, esportes, artes e cultura em geral, o que torna essas pessoas mais dispostas a experimentar o novo e o diferente. E por estarem sempre conectados, as experiências em âmbito digital não apenas os aproximam uns dos outros, como aumentam o engajamento com seus artistas, influenciadores e marcas favoritas.

Essa geração é muito atenta a posicionamentos relacionados aos seus princípios e valores, que em geral estão alinhados com ações de apoio a minorias e de sustentabilidade, para a redução de impactos ambientais. Por ser um grupo que luta pelo que acredita, observa-se um comportamento de consumo mais focado em empresas que defendem essas mesmas ideias e apoiam esses movimentos.

Pensando nisso, a Samsung criou o Future Generation Lab, uma área global estratégica para se aproximar das novas gerações, com foco inicial na Geração Z. Composta – até o momento – por 73 funcionários Samsung de todo o mundo, o grupo é formado por colaboradores na faixa dos 20 anos que fazem parte da Geração Z e, por isso, foram selecionados para guiar a empresa no desenvolvimento de novas ações, produtos e serviços voltados para esse público. Mais do que isso, essas pessoas têm a missão de criar diálogos genuínos em torno de seus interesses em comum de uma forma totalmente inovadora, divertida e criativa.

Do ponto de vista organizacional, trata-se de mais uma inovação da Samsung, desta vez para criar laços ainda maiores com as novas gerações, ouvindo ainda mais o que elas têm a dizer, entendendo seus valores e interesses e, principalmente, atendendo às suas necessidades. Para isso, as funções do Future Generation Lab vão desde a experimentação e apresentação de produtos Samsung em plataformas digitais, até a organização e realização de eventos e novas parcerias com marcas e formadores de opinião relevantes para esse público.

No caso do Future Generation Lab, até mesmo os gostos, hábitos e demais particularidades de cada membro são levadas em consideração, já que podem influenciar na tomada de nossas decisões. O grupo é formado por pessoas da Coréia do Sul, América do Norte, Europa, Sudeste Asiático, Oriente Médio, África, Índia, Rússia, China e América Latina, no Brasil. Dessa forma, além de acompanhar e se relacionar com seu público-alvo em âmbito global, as equipes também têm autonomia para desenvolver projetos e campanhas locais, levando em conta, inclusive, a bagagem cultural de cada região.

Ao criar iniciativas como essa, é importante definir objetivos que vão além do vender e comunicar. Entendendo que as próximas gerações têm muito a contribuir não apenas em questões de consumo, mas de inovação, sustentabilidade, tendências e novos modelos de interação, as empresas devem buscar implementar um ou mais canais de relacionamento em que o diálogo com esses jovens seja o mais aberto possível. Dessa forma, garantimos que suas vozes sejam ouvidas e que as grandes marcas acompanhem esse movimento de transformação de forma legítima e com toda a autenticidade característica da geração Z.

*Arthur Wong, diretor de marketing da Samsung América Latina

https://news.samsung.com/br/mais-do-que-comunicar-iniciativas-de-impacto-a-geracao-z-devem-criar-dialogos-genuinos#:~:text=OK%20Cancelar-,Mais%20do%20que%20comunicar%2C%20iniciativas%20de%20impacto%20%C3%A0,Z%20devem%20criar%20di%C3%A1logos%20genu%C3%ADnos&text=Composta%20por%20pessoas%20nascidas%20entre,de%20novas%20tend%C3%AAncias%20de%20consumo.

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Oportunidades do ‘nearshoring’

Vantagens comparativas não são destino e podem, sim, ser construídas

Por Jorge Arbache – Valor – 10/03/2022

O recente conflito no Leste Europeu deverá se somar à pandemia e levar a uma recuperação mais lenta da economia global. Deverá também ampliar a magnitude de um movimento que já estava em curso, qual seja, o de “geopolitização” do comércio e do investimento, que ganhou ímpeto com o tensionamento das relações econômicas entre os Estados Unidos e a China. Este movimento está na raiz de medidas de política como o nearshoring1.

Mas as medidas que emergiram têm sido ainda mais contundentes. Os Estados Unidos aprovaram pacotes de políticas industriais para substituir importações consideradas críticas e de controle das exportações de tecnologias e componentes e estão escrutinando fusões e aquisições. O Japão, por sua vez, submeteu recentemente ao parlamento um pacote de medidas para proteger as suas cadeias de suprimentos, promover a autonomia de setores e controlar fusões, aquisições e a exportação de bens e serviços selecionados. Outros países vêm adotando políticas similares, enquanto uns outros tantos instituíram margens de preferência para a produção nacional nas compras públicas e tarifas de exportação.

Os impactos dessas medidas serão devastadores para a globalização e, no horizonte previsível, teremos que conviver com uma economia global mais segmentada, com custos de produção mais elevados, com alguma ruptura nos mercados financeiros e de capitais e com mais intervenções públicas em mercados e na internet.

Vamos conviver com uma economia global mais segmentada, com custos de produção mais elevados

Tudo isto é negativo para a América Latina e Caribe, que sofreu com a covid e vem, a duras penas, promovendo políticas para impulsionar a reativação dos negócios e emprego. Ademais, também nos penaliza, posto que reduz a eficiência dos mercados internacionais dos quais a região se beneficia para abastecer as suas mesas com alimentos e as suas empresas com insumos, máquinas e tecnologias.

Se, de um lado, a região encontra-se bastante exposta aos efeitos da geopolítica nos mercados, de outro lado países da região poderão se beneficiar. De fato, México e países da América Central e Caribe parecem estar particularmente bem posicionados para tanto. Afinal, estão geograficamente próximos dos EUA, já têm experiências em investimentos industriais internacionais, tal como refletido na respeitável base de maquilas e zonas francas, e se beneficiam de tratados de livre comércio como o Acordo EUA, México e Canadá (USMCA) e o Acordo de Livre Comércio da América Central (DR-Cafta) firmado por EUA e República Dominicana, Costa Rica, El Salvador, Honduras, Guatemala e Nicarágua para acesso preferencial ao mercado americano. Também contam a favor estruturas demográficas jovens e custos laborais baixos, o uso do dólar como moeda oficial em alguns países, o emprego de padrões e metrologias americanas e a elevada integração dos mercados financeiros com o mercado americano.

Não por acaso, os manufaturados já representem nada menos que 79% das exportações do México, 73% de El Salvador, 57% da República Dominicana e Costa Rica, e 42% da Guatemala. Tudo isto torna aqueles países candidatos naturais ao nearshoring.

Por outro lado, países que pouco participam de cadeias de suprimentos dos Estados Unidos estão mais distantes de gozarem das mesmas condições de atratividade e devem buscar outros meios. O Paraguai, por exemplo, que está geograficamente distante dos Estados Unidos, está montando uma base de maquilas mirando os grandes vizinhos, Argentina e Brasil. Os benefícios potenciais do nearshoring são, portanto, assimétricos.

Embora o nearshoring ajude a promover o emprego e as exportações, maquilas e zonas francas não são panaceias e tampouco garantem um desenvolvimento econômico integral nem integração econômica sub-regional. As evidências empíricas sugerem que esse mecanismo deve ser visto como ponto de partida, e não de chegada de um processo de desenvolvimento econômico mais amplo.

Por certo, maquilas e zonas francas são mais que bem-vindas, ainda mais numa região com população tão urbanizada e com taxas de informalidade laboral que podem ultrapassar os 70%. Mas os países precisam ser mais ambiciosos e fazer de oportunidades como o nearshoring motores do crescimento com efeitos econômicos mais profundos e permanentes. Para tanto, são necessárias políticas públicas e privadas que capitalizem sobre aquela base de oportunidades.

Normas e mecanismos para regular a relação entre as zonas francas e o território aduaneiro nacional de forma a estimular uma industrialização mais abrangente e com sinergias e complementaridades com empresas locais; programas permanentes de capacitação da mão de obra; apoio das universidades locais para o desenvolvimento industrial; promoção da inovação e da tecnologia; promoção da formação de cadeias de suprimentos locais; diversificação de fornecedores; promoção da sustentabilidade como parte integral do modelo de negócio; programas de qualidade e competitividade; promoção de fatores habilitadores do e-commerce; promoção da infraestrutura; digitalização das empresas e das cadeias de produção; diversificação de mercados; acordos e facilitação do comércio; harmonização normativa; e fortalecimento das instituições públicas pertinentes estão entre as medidas para capitalizar o nearshoring como instrumento de desenvolvimento.

Por fim, o objetivo das políticas não deve ser apenas o de atrair empresas, mas o de criar as condições necessárias para que aquelas empresas finquem raízes, ampliem negócios e investimentos, atraiam fornecedores, agreguem mais valor e contribuam para a formação de clusters. É sempre válido lembrar que vantagens comparativas não são destino e podem, sim, ser construídas. China, Coreia do Sul e Cingapura estão aí para ajudar a contar esta história.

1 Nearshoring é uma política em que uma empresa, digamos, americana, transfere a sua produção que antes estava em terceiros países (ex: China) para países próximos ao país contratante (ex: México).

Jorge Arbache é vice-presidente de setor privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina – CAF e escreve mensalmente às quintas feira neste espaço.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/oportunidades-do-nearshoring.ghtml

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Os 4 vetores de transformação digital para empresas nativas analógicas

de Marcos Gouvêa de Souza – Mercado e Consumo  7 de março de 2022

Transformação digital só existe para quem não é nascido digital e tem sua lógica com DNA analógico. E se tornou mais fundamental priorizar esse tema para acompanhar ou se antecipar, se for possível, a velocidade de as todas as transformações que vivem a sociedade, o mercado e a realidade de forma abrangente.

Em especial no mundo do consumo e do varejo.

É cada vez mais difícil e desafiador transformar uma organização ou um negócio, nascido analógico, para incorporar valores, atitude, velocidade e, em especial, cultura digital.

Principalmente para lideranças e negócios com mais tempo de atuação.

Transformação digital significa um pacto com a inovação constante e focada em resultados, mesmo que, nesse aspecto dos resultados, num ritmo diferente do que o das empresas originalmente analógicas.

A evolução digital trouxe consigo uma reversão na lógica da atratividade dos negócios.

Na lógica analógica, melhor é o que gera receitas, rentabilidade, resultados e rápido retorno dos investimentos no prazo mais curto.

Na lógica digital, melhor é o que maximiza o valor do negócio pela atratividade e potencial de crescimento das receitas e ocupação de espaço no mercado. E que possa gerar resultados num momento futuro. Como é a história da Amazon e muitos outros negócios que demoraram para mostrar a que vieram.

Mas, ainda que desafiadora e complexa, a transformação digital se impõe para sobreviver e, se possível, liderar no cenário atual e futuro.

Nos últimos tempos, avançar no digital passou a ser condição necessária, mas não suficiente, para revitalizar negócios e assegurar um passaporte para o futuro.

Os vetores da transformação digital envolvem a integração de novos negócios digitais no conjunto dos negócios atuais, a incorporação de ferramentas e recursos digitais na gestão do conjunto de negócios, a incorporação de instrumentos digitais na execução dos negócios analógicos e, o mais desafiador, a evolução da cultura nascida analógica para uma cultura híbrida analógica com digital.

E tudo isso monitorado com metas pré-definidas que permitam o acompanhamento da evolução pretendida.

A medida da maturidade digital de um negócio se tornou um fator de avaliação efetiva das possibilidades estratégicas de curto, médio e longo prazo das empresas e passou a ser prioritariamente observada como decisiva na avaliação do potencial futuro dessa organização.

De forma habitual medidas possíveis envolvem a participação das receitas e dos resultados de negócios digitais, integrados ao longo do processo, no conjunto total dos negócios.

Vamos analisar cada um desses vetores para entender o processo de transformação de forma ampla.

1. Integração de novos negócios digitais no conjunto dos negócios atuais

Talvez a estratégia aparentemente mais simples, não fosse os desafios operacionais e culturais envolvidos no processo de transformação digital de uma organização.

Nas fases precursoras do e-commerce, muitas organizações globais, como Walmart, Carrefour e outras no Brasil, como Pão de Açúcar, optaram por desenvolver ou incorporar negócios nessa área numa operação apartada dos negócios tradicionais, com o argumento, aparentemente lógico, de que isso permitiria maior agilidade, autonomia e foco, sem comprometer os negócios existentes. Num primeiro momento até fez sentido separar estruturas, estoques, tecnologia e muitos outros recursos com a visão de que o foco e a velocidade compensariam a perda gerada pela desintegração.

No momento seguinte foi percebido que a lógica não se sustentava, pois o cliente era o mesmo, no digital ou no físico, e a falta da integração plena cobrava um preço alto pela experiência mais pobre oferecida por essa opção segmentada.

Na realidade atual, as empresas que têm buscado acelerar sua transformação digital têm usado e abusado das alternativas de incorporação de novos negócios nascidos digitais, startups ou mais maduros, e preferem integrar de forma plena aos negócios atuais, mais ou menos digitais, zelando para que essa integração ocorra da forma mais fácil possível. Cuidam dos temas de diferença cultural, valores e questões operacionais para tornar o processo o mais indolor possível sob o ponto de vista do omniconsumidor, que é o epicentro de tudo.

Esses são os bons exemplos da Magalu, Soma ou mais recentemente da Americanas e Arezzo por aqui, ou Ikea, Tesco e Walgreens, que evoluíram mais rapidamente na percepção da importância de transformar a organização de dentro para fora e de fora para dentro, simultânea e rapidamente.

2. Incorporação de ferramentas e recursos digitais na gestão do conjunto de negócios

Outro elemento importante da transformação digital das organizações e negócios envolve a necessária incorporação de ferramentas e recursos mais evoluídos e digitais para monitorar, avaliar e medir a evolução dos negócios e do desempenho do conjunto de todos os negócios de uma organização.

Aparentemente é um caminho simples de ser trilhado até por conta da crescente oferta de alternativas que vão das plataformas e sistemas de conhecimento e monitoramento, combinando potencialmente elementos analógicos e digitais. Sistemas integrados globais como Oracle, SAP, Zoho, Salesforce e mais os de origem local como Linx, Totvs, Vtex, ClearSale e muitos mais.

Sem falar nas perspectivas que se abrem com as opções No Code, permitindo que empresas criem soluções customizadas para sua própria realidade de forma mais rápida e com menores custos envolvidos.

São todos recursos avançados em suas propostas e de alguma forma “forçam” a evolução e transformação das organizações, das suas lideranças e de suas equipes pela lógica de sua estrutura e flexibilidade de recursos oferecidos. Sem falar em todo o processo da implantação em si que, usualmente, exige uma reciclagem ampla dos processos e dos profissionais envolvidos.

De alguma forma essas plataformas transcendem em sua proposta de controlar, informar e monitorar no que se propõem seja feito, pois aceleram a transformação da própria organização e sua cultura e sua comunicação interna e externa ao incorporar linguagem, recursos e lógica digitais, obrigando uma natural evolução cultural associada à sua finalidade específica.

3. Incorporação de instrumentos digitais na execução dos negócios analógicos

Em muitas organizações nascidas analógicas, a maior parte dos processos e operações é apoiada por instrumentos analógicos ou até mesmo alguns poucos digitais.

Isso é particularmente presente no mundo do varejo e do consumo com as operações de lojas, especialmente nos formatos mais tradicionais como supermercados, conveniência, hipermercados, cash and carry, lojas especializadas em material de construção, eletrônicos, moda e mais farmácias e drogarias.

E podem sobreviver e até expandir com a mesma lógica que viviam anteriormente.

Mas irão perdendo relevância e participação de mercado à medida que as novas gerações, predominantemente com comportamento e cultura digitais, atinjam maior participação no processo de decisão ou compra efetiva, em canais físicos ou digitais.

Daí a importância de buscar a inovação constante por meio de novos recursos que, ao mesmo tempo que racionalizam e facilitam, criem a dimensão da desejável expansão da experiência para o omniconsumidor.

Exemplos dessa prontidão em buscar alternativas para inovar, diferenciar e amplificar a experiência podem ser vistos na Nike, Ralph Lauren, Sephora em âmbito global e, no, Brasil no Boticário, Carrefour e Reserva.

Sem dúvida os ecossistemas chineses como JD.com, Alibaba e Tencent em suas operações de varejo e mais as plataformas exponenciais como Amazon, com Whole Foods e Amazon Go, assim como Boticário, Natura e Cacau Show, são geradores de benchmarks importantes nesse aspecto, ao adotarem inovações que integram experiências analógicas e digitais para avançarem e se diferenciarem incorporando às suas marcas essa componente importante de inovação e atualidade.

4. Evolução da cultura nascida analógica para uma cultura híbrida com digital

Este é um dos temas mais desafiadores nas discussões que envolvem a transformação digital.

Simples de enunciar, diagnosticar e desenhar modelos, como se sabe, tudo que envolve cultura organizacional e mudança de comportamento humano é mais complexo e difícil de implementar, em especial quando pressupõe mudanças de visão e atitude. E são limitadas todas as outras alternativas se não houver a necessária, ampla e irreversível mudança de comportamento e atitude que é o elemento mais importante dentre os vetores relacionados.

Por mais sensível que esteja a liderança em relação ao tema, quem nasceu analógico enfrenta naturais dificuldades para liderar na cultura digital. E a recíproca seguramente também é verdadeira.

Nesse vetor, os elementos que podem reduzir o desgaste envolvem a mixagem de culturas, a valorização da diversidade em todos os seus aspectos, o estímulo à inovação como atitude, a condescendência com erro quando na tentativa de acerto e muitos outros elementos mais.

Inegável que o diálogo, a tolerância, a conexão constante e assídua aos eventos e atividades que possam sensibilizar e direcionar a transformação e até a resignação em alguns aspectos são necessários.

Mas essa transformação da lógica dos negócios em ambiente digital comparativamente com a lógica daqueles nascidos analógicos é um desafio que muitas empresas e lideranças estão enfrentando nesse momento no mundo e também no Brasil, aprendendo no processo e buscando caminhos que indiquem a melhor forma de evoluir.

Em âmbito mais global, entre organizações e negócios em movimento positivo de evolução nesse caminho, do analógico para o híbrido analógico-digital, podemos incluir Walmart nestes últimos anos depois de sua reconfiguração organizacional, Costco, Walgreens Boots, Tesco, Ikea, Loblaw e Sonae, entre outros.

Se olharmos na realidade brasileira, merecem destaque Magalu, Via, Boticário, Americanas, Natura, Arezzo, Petz e Raia Drogasil, para ficarmos com aqueles que estão entre os maiores nos seus setores e que, mesmo durante a pandemia, fizeram movimentos estratégicos decisivos para promoverem sua transformação digital.

O tema é ainda inesgotável em seu aprofundamento, pois esse processo transformacional digital ocorre de forma intensa e global, acelerado em muitos aspectos pela pandemia da qual recém emergimos, e os movimentos se sucedem contínua e permanentemente, redesenhando a realidade desses setores no Brasil e no mundo.

Até por falta de opção e absoluta necessidade.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo e este artigo foi escrito com apoio de líderes do Ecossistema Gouvêa, a quem agradecemos o apoio e sugestões

https://mercadoeconsumo.com.br/2022/03/07/os-4-vetores-de-transformacao-digital-para-empresas-nativas-analogicas/

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Quantidade de plástico nos oceanos vai quadruplicar até 2050, diz estudo

É necessário agir agora para evitar uma catástrofe irreversível

Por André Sollitto Atualizado – Veja – 4 mar 2022

Em meados de 2015, o mundo se comoveu com um vídeo gravado na Costa Rica que mostrava o sofrimento de uma tartaruga marinha enquanto um biólogo usava alicates de metal para extrair de seu nariz um canudinho de plástico. As imagens viralizaram graças à firme disposição dos ativistas ambientais, que alertaram sobre o risco do uso excessivo do produto e do descarte inadequado nos oceanos. A justa indignação estimulou o surgimento de um movimento global de proteção da vida nos oceanos. Algumas das maiores redes de alimentos e bebidas do planeta, como McDonald’s, Burger King e Starbucks, deram os primeiros passos e abandonaram as versões plásticas, que passaram a ser substituídas por alternativas feitas de papel. Nos anos seguintes, conglomerados empresariais se comprometeram a reduzir o uso do material nas atividades industriais e governos criaram leis que restringiram a sua adoção. Era de supor, portanto, que os mares estivessem irremediavelmente no caminho da salvação. A realidade, porém, mostrou um cenário bem diferente.

POLUIÇÃO - Tartarugas marinhas: ingestão de lixo industrial põe em sério risco a população da espécie – EyeEm/Getty Images 

Apesar das boas intenções, as medidas tiveram pouco efeito prático. Um novo relatório da organização WWF, centrada na conservação e recuperação ambiental, mostra que a situação é dramática — e pode piorar. A partir da análise de 2 590 estudos, o documento adverte que até o fim do século uma área marítima duas vezes e meia o tamanho da Groenlândia terá excedido os limites ecologicamente perigosos de concentração de microplásticos. O cálculo é baseado na projeção de que a produção de plástico dobrará até 2040 e, com isso, o volume de resíduos jogados no mar terá quadruplicado até 2050. Os efeitos já são sentidos: 2 144 espécies encontraram resíduos plásticos em seu hábitat e 88% dos animais marinhos são impactados negativamente pelo lixo jogado no oceano. A conclusão: o plástico continua onipresente e, se não for contido, provocará estragos ainda maiores no planeta.

POUCO EFEITO - Canudo de papel em refrigerante do McDonald’s: medida louvável, mas ainda insuficiente – ./Divulgação 

“Eliminar a contaminação plástica do oceanos é muito complicado”, diz Heike Vesper, diretora do Programa Marinho da WWF Alemanha. “O plástico se degrada constantemente e, portanto, permanece nos mares por anos a fio.” A situação é dramática, mas nem tudo está perdido. Não há muito que fazer a respeito da degradação iniciada no passado, mas é possível criar mecanismos no presente que protejam o meio ambiente no futuro. 

Segundo especialistas, uma medida decisiva seria reduzir a zero a produção de plástico virgem a partir de combustíveis fósseis. O Brasil, contudo, parece ir na direção contrária. Um levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) aponta que, em 2020, o país concedeu 124 bilhões de reais, ou 2% do PIB, em subsídios aos combustíveis fósseis, 25% a mais do que em 2019.

Ninguém duvida da relevância do plástico na sociedade moderna — e seu uso hospitalar, durante a pandemia, tem se mostrado vital —, mas ele só poderá continuar a ser usado em larga escala se os efeitos deletérios não ameaçarem o ambiente. Um caminho possível é investir na produção de alternativas, como o bioplástico feito a partir de fontes renováveis de biomassa, mercado em que o Brasil tem enorme potencial. Iniciativas como a coleta, reciclagem e reintrodução de embalagens na cadeia produtiva também são louváveis. Tudo isso depende da boa vontade de governos, empresas e dos próprios cidadãos. 

A pressão pela mudança existe. Dois milhões de pessoas assinaram uma petição da WWF defendendo a adoção de um tratado global sobre o tema, e o documento recebeu apoio de 100 empresas multinacionais e 700 organizações da sociedade civil. A Assembleia da ONU para o Meio Ambiente se reuniu nesta semana em Nairóbi, no Quênia, para debater um acordo sobre a poluição plástica que pode definir os rumos da política ambiental. O futuro da vida nos oceanos depende de um compromisso imediato. As tartarugas agradecem — e nós, bípedes supostamente inteligentes, também.

Publicado em VEJA de 9 de março de 2022, edição nº 2779 

https://veja.abril.com.br/ciencia/quantidade-de-plastico-nos-oceanos-vai-quadruplicar-ate-2050-diz-estudo/

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Guerra torna ‘soberania digital’ mais relevante

“Internet paralela” e isolada do restante do mundo ajuda Rússia a enfrentar sanções, dizem especialistas

Por Denis Kuck — Valor 07/03/2022 

A Rússia construiu, principalmente depois das revelações do ex-agente americano Edward Snowden, um sistema de comunicações batizado de ru.net que pode funcionar desconectado da internet comercial global, o que permite ao país manter alguns serviços digitais aos cidadãos e se proteger de ataques cibernéticos. Essa rede independente, dizem especialistas, foi montada por questões estratégicas e de proteção em casos de conflito, como agora na guerra com a Ucrânia.

Luca Belli, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que as sanções internacionais impostas contra Moscou pela invasão à Ucrânia são mais fortes do que se imaginava, mas esse sistema de comunicações ajuda a Rússia a “sobreviver” ao isolamento, ainda que com dificuldade.

Para Claudio Miceli de Farias, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a questão da “soberania digital” terá que ser enfrentada nos próximos anos pelos Estados, inclusive o Brasil, tendo em vista a maior importância da conectividade no dia a dia e, até mesmo, nas crises geopolíticas.

“O Snowden não está de férias na Rússia”, diz Belli, que é professor da FGV Direito Rio e coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV. Após revelar, em 2013, segredos de espionagem dos Estados Unidos – que envolveria até mesmo a intercepção de comunicações da ex-presidente Dilma Rousseff -, o ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança (NSA) buscou exílio na Rússia.

“Os russos entenderam que eram vulneráveis e estão construindo, há pelo menos oito anos, a possibilidade de desconectar seu segmento da internet global”, diz Belli. “É questão de política pública de cibersegurança. A abertura da internet poderia causar vulnerabilidades, sobretudo em caso de conflito. No exílio, Snowden ajuda os russos a identificar esses riscos.”

Farias explica que a internet é uma “rede de redes”, com diversos provedores operando ao redor do mundo. “Países como Rússia e China, no entanto, têm controle maior do tráfego de sua rede e, caso se desliguem da internet, têm uma estrutura interna de comunicação, aplicativos e serviços”, diz o professor do Instituto Tércio Pacitti e do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da UFRJ.

A capacidade de se desligar da rede global garante a manutenção de alguns serviços em caso de sanções tecnológicas, aplicadas contra a Rússia desde 2014, após anexação da Crimeia. À época, o sistema Visa e Mastercard foi bloqueado na região, o que fez Moscou adotar um sistema de pagamento eletrônico próprio, chamado Mir.

“Imagina o imposto de renda. Se o cidadão quer entregar a declaração, isso não é afetado pelo fato de não haver internet externa. Não ter essa dependência de infraestrutura é algo muito poderoso”, afirma Farias.

Essa resistência, no entanto, não é ilimitada. Para Belli, as sanções internacionais contra Moscou podem ter sido mais fortes do que o presidente russo, Vladimir Putin, previa. “A Rússia se preparou para continuar a funcionar, diminuindo a dependência da tecnologia estrangeira. Porém, os russos estão vendo como fazer isso é difícil, eles não têm uma autonomia total, como a China”, diz. Belli pesquisa e organiza um estudo sobre cibersegurança nos países do Brics.

Para Farias, a digitalização de todos os setores da sociedade, inclusive de segurança, será aprofundada com o 5G e vai obrigar os países a elaborar políticas públicas de “soberania digital”. Segundo ele, os Estados Unidos também têm essa preocupação: “Apesar de [os EUA] serem superabertos e da disputa acirrada das operadoras, há um controle estatal sobre a infraestrutura de comunicação”, diz.

Integrantes das Forças Armadas do Brasil discutem o assunto, mas o tema não é uma questão de Estado, diz Farias. “Não vemos isso como um problema. Ainda. Essa pode ser uma das consequências desse conflito: os países olharem para sua infraestrutura de tecnologia da informação e enxergarem um desafio para as próximas décadas. Até onde vai a internet comercial e até onde vai uma internet de valor, estratégica para o país”, diz.

Farias ressalta que o Exército brasileiro tem uma rede separada da internet comercial. “Isso é o que podemos chamar de deep web, sempre associada a ataques hackers, a algo negativo, mas que, na verdade, pode ser apenas outro tipo de estrutura”, afirma.

Para Belli, na Europa, a questão da “soberania digital” passou a ser mais discutida recentemente. “Eles se deram conta de que são totalmente dependentes da tecnologia americana.” No Brasil, o pesquisador afirma que o assunto foi abandonado. “O país promovia a tecnologia de software livre, que evita a dependência tecnológica, é libertadora. Atualmente, há o uso maciço de softwares americanos.”

Danilo Bragança, doutor em ciência política pela Universidade Federal Fluminense e especialista em defesa, diz que o Exército brasileiro passou a desenvolver programas institucionais para garantir certa autonomia digital, sobretudo após o caso Snowden. “Foi criado um centro de defesa cibernética. Mas nosso sistema é frágil, os recursos são poucos. O país não se deu conta da importância do assunto, tanto no âmbito de governo civil, haja vista o vazamento de dados como os do Sistema Único de Saúde, como militar.”

Bragança diz que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ganhou proeminência sob o governo do presidente Jair Bolsonaro, assumindo funções de defesa cibernética que, segundo o especialista, deveriam ser do Exército, segundo a Política Nacional de Defesa (PND) e a Estratégia Nacional de Defesa (END).

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/03/07/guerra-torna-soberania-digital-mais-relevante.ghtml

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Brasil quer largar na frente na corrida mundial da ‘internet dos sentidos’. Conheça a sexta geração da telefonia

Analistas e governo já discutem padrões do 6G, que permitirá, por exemplo, sentir o peso e a força de uma bola de tênis em um jogo virtual

Manoel Ventura – O Globo – 06/03/2022 

BRASÍLIA – A implementação das redes 5G no Brasil ainda está no início, mas o governo, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e especialistas já se mobilizam para criar as aplicações e os padrões da próxima geração de redes móveis, o 6G

Essa nova tecnologia tende a ser ainda mais revolucionária que sua antecessora, abrindo possibilidades com ares futuristas. Os técnicos do setor querem que o Brasil tenha papel determinante na escolha das normas da rede, o que é considerado fundamental para colocar o país na linha de frente da sexta geração.

A supervelocidade do 6G e outras características vão permitir recursos até agora inexplorados, como holografia, aplicações táteis, maior integração de hardware com software, o uso da inteligência artificial e da virtualização de redes.

Também permitirão a maior possibilidade de comunicação sem fio intra e entre chips, além de novos formatos de wearables (como são conhecidas as tecnologias vestíveis), que poderiam até mesmo dispensar o uso de smartphones.

O professor José Marcos Câmara Brito, pró-diretor de Pós-graduação e Pesquisa do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), afirma que já há definições sobre como será o 6G.

Enquanto a quinta geração é voltada principalmente para aplicações corporativas, a próxima faixa será para os consumidores.

Além da supervelocidade, a tecnologia 6G vai permitir holografia, aplicações táteis e o uso da inteligência artificial, entre outros Foto: Fábio Cordeiro / Agência O Globo

Além da supervelocidade, a tecnologia 6G vai permitir holografia, aplicações táteis e o uso da inteligência artificial, entre outros Foto: Fábio Cordeiro / Agência O Globo

Maior integração

A possibilidade de aplicações táteis, afirma o professor, vai permitir a sensação do peso e da força de uma bola de tênis em um jogo virtual, por exemplo.

— A primeira coisa que aparece como um consenso entre diversos atores que estão pensando o 6G é que ele vai permitir aplicações que integrem o mundo físico, o mundo digital e o mundo biológico. Um exemplo disso é uma aplicação de gêmeo digital, ou seja, que você replica no digital tudo do mundo físico. Com isso, consegue ter uma infinidade de novos usos. Essa virtualização vai permitir a criação, para o ser humano, de um uma espécie de sexto sentido — afirma Câmara Brito.

Essa integração permitiria, explica o especialista, configurar aplicações para segurança e entretenimento, por exemplo. Como um mapa que replica em tempo real o mundo físico para avisar sobre riscos de segurança ou opções de música ao vivo.

— Passa a ter aplicações que são relacionadas ao humor das pessoas, ao sentimento. Com captação da imagem das pessoas se poderá fornecer aplicações casadas com o humor daquele momento— diz o professor.

O que faz cada geração da telefonia móvel

Multiplicação de antenas

Para toda essa modernidade, será preciso definir uma série de padrões, nos quais o Brasil tenta se inserir. O 6G vai atingir pela primeira vez a frequência do terahertz, ou THz — atualmente, as frequências operadas vão até o gigahertz (GHz).

Com uma largura de banda conhecida como “nova fronteira” de frequências, seria possível atingir velocidades na casa de 1 terabyte (TB) por segundo no pico, com média de 100 gigabytes (GB).

O 5G opera em outra escala, de cem megabytes (MB) a 1GB de taxa média, com 20GB de pico. Ou seja, o 6G tem cem vezes mais velocidade.

O problema é que, quanto mais alta a frequência, menor a distância que ela é capaz de percorrer. Como consequência, é necessário um número muito maior de antenas para vencer a barreira e assegurar a propagação do 6G. São desafios como esse que precisam ser superados nos estudos conduzidos no Brasil e no mundo.

A previsão é que a padronização para o 6G seja finalizada apenas em 2030. Mas isso será feito a partir de definições que já começaram a ser estudadas pelas multinacionais do setor, pela academia e pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência ligada às Nações Protagonismo na agenda

Para técnicos do setor, é fundamental que o Brasil tenha protagonismo nas definições das aplicações e dos padrões do 6G. Isso pode beneficiar, por exemplo, a indústria nacional, como empresas que produzem equipamentos voltados para as redes de comunicações ou para quem vai usar as ferramentas.

O país não teve papel decisivo no 4G e no 5G. Isso prejudicou, por exemplo, o desenvolvimento de aplicações para agricultura, setor fundamental para o PIB brasileiro. Nessas duas versões das redes móveis, não houve um foco para conexão em áreas remotas.

A Anatel avalia que o Brasil deve se engajar nas discussões sobre a tecnologia, bem como sobre as aplicações, equipamentos e espectro, se quiser protagonismo nessa agenda. Conselheiro da agência e indicado para a presidência da Anatel, Carlos Baigorri afirma que o Brasil perdeu participação na definição do 3G, do 4G e do 5G:

— A participação na definição das tecnologias é uma posição vantajosa na disputa desse mercado. O Brasil pode ser um player relevante na indústria de comunicações. Uma coisa é ver para onde a coisa está indo, outra é participar do debate — defende.

Para Baigorri, o maior valor do 6G, no entanto, está nas aplicações, e não nas redes. Por isso, argumenta, o país precisa desenvolver essa tecnologia:

— O valor para o consumidor e que o mercado percebe não está na rede, mas nas aplicações que rodam em cima dessa rede.

Países na corrida tecnológica

Globalmente, a corrida tecnológica já começou, com previsão de incentivos locais para a indústria no Reino Unido e na Índia e estratégias em curso em União Europeia, China, Japão e Estados Unidos.

Depois de a corrida pelo 5G apontar a proeminência da gigante chinesa Huawei nos mercados internacionais — apesar das sanções aplicadas por EUA e Reino Unido —, representantes americanos e japoneses firmaram um acordo este ano na tentativa de dominar as redes 6G.

Os dois países querem construir, juntos, equipamentos adaptados à tecnologia, em uma estratégia de minar a participação da China nesse mercado. Pequim também já tem anunciado conquistas na área, dando um indicativo de que essa guerra está só começando.

Os americanos pressionaram diversos países, inclusive o Brasil, a banir a Huawei na construção das redes 5G. A alegação é a de possibilidade de espionagem, sempre negada pela empresa. Em fevereiro, em evento do mercado financeiro, o diretor de Soluções e Cibersegurança da Huawei, Marcelo Motta, disse que a empresa já estuda o 6G do ponto de vista de investimentos:

— A gente começou a investir em 5G em 2009, para a primeira rede sair em 2018. Investimentos pesados em pesquisa e desenvolvimento, metade dos nossos funcionários estão nessa área. Estamos fazendo esses investimentos no 6G.

Enquanto isso, um ecossistema nacional para o tema já está em formação a partir do Projeto Brasil 6G, que foi iniciado no ano passado com liderança do Inatel e da Rede Nacional de Pesquisa e Ensino, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

O Projeto Brasil 6G é dividido em várias frentes de pesquisa e conta com a participação de seis universidades e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD).

Confira três aplicações futuras do 6G

Táteis

Será possível transmitir o toque, no que já é chamado de “internet tátil”. Permitiria, por exemplo, emular a força de uma jogada. O desafio é criar pressão contra a pele sem haver um objeto físico.

Holografia

Com técnicas de captura, transmissão e renderização 3D em tempo real, seria possível a criação de hologramas. A Samsung diz que para isso é necessária uma velocidade altíssima, não atingida no 5G.

De um chip a outro

A comunicação sem fio entre chips pode ajudar na criação de cidades inteligentes e abrir caminho para mais funcionalidades para a indústria, por exemplo. Isso só é possível com a faixa do THz, do 6G.

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De Vale da Rapadura a Ilha do Silício, cidades competem por título de polo tecnológico brasileiro

Apesar dos apelidos, entrevistados negam a possibilidade de repetir ecossistema americano

Daniela Arcanjo – Folha – 05/03/2022

Viajantes do início da década de 1940 que passavam pelas estradas adjacentes à cidade de Santa Clara, na Califórnia, se deleitavam com a paisagem bucólica da região. Uma vista repleta de pomares de damasco e árvores frutíferas era o que encontravam os que se aventuravam na costa oeste do país, oposta à que abrigava o centro financeiro da potência mundial.

“Era uma região agrícola que havia se especializado em produção e processamento de frutas”, afirma a historiadora americana Margaret O’Mara. “Era muito, muito rural.”

Santa Clara é o coração do icônico Vale do Silício, como ficou conhecida a região sul da baía de São Francisco após o jornalista de tecnologia Don Hoefler assim a nomear em uma série de artigos publicados no jornal Electronic News, em 1971.

A antiga cidade rural hoje é casa da Intel, a mais famosa fabricante de microchips do mundo, tem como vizinha Cupertino, onde está a sede da Apple, e fica a quase 30 km de Menlo Park, que abriga a gigante Meta, dona do Facebook, do WhatsApp e do Instagram.

Décadas depois da transformação da Califórnia, regiões do Brasil tentam repetir o feito. Em pelo menos 21 cidades, há comunidades de empreendedores ou gestores públicos que se reivindicam vales do silício brasileiros. A lista inclui locais improváveis e propostas curiosas, como Sandwich Valley, em Bauru, no interior de São Paulo, e Vale da Rapadura, em Fortaleza.

O Vale da Eletrônica, no município mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi um dos pioneiros na comparação, em 1985.

A fama da cidade remonta ao final dos anos de 1950, quando ela passou a contar com uma Escola Técnica de Eletrônica —uma grande novidade na época. Já em 1965, antes mesmo de a região começar a concentrar indústrias de microeletrônicos, o município inaugurou o Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações).

A mais recente investida ocorreu no Rio de Janeiro. A ideia de Eduardo Paes (PSD) é reabilitar a zona portuária da cidade, um projeto que havia sido colocado na gaveta após a euforia das Olimpíadas de 2016.

O plano do chamado Porto Maravalley, um balcão de 2,8 mil metros capaz de abrigar 144 startups que lá receberão mentorias, foi anunciado em 2019, e desde o meio do ano passado vem sendo alardeado pelo secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Francisco Bulhões. O espaço terá um coworking e receberá eventos.

A antiga promessa de um Vale do Silício na Floresta Amazônica também foi revivida por declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Durante participação na COP26 (26ª Conferência Mundial do Clima), no ano passado, o ministro defendeu isenção de impostos a big techs, como Google, Amazon e Tesla, e afirmou ser preciso transformar a vocação da região, para que ela se torne a “capital mundial da economia verde e digital”.

A proposta revisita a ideia da Zona Franca de Manaus, parque industrial no Amazonas que dá vantagens fiscais a empresas ali instaladas —​e ameaçada por Guedes desde 2018. O grosso da produção é de itens como computadores e tablets, embora as fábricas sejam essencialmente montadoras, e não produtoras de tecnologia.

Em 2021, o estado concentrou apenas 0,11% dos aportes de capital de risco, responsáveis por financiar inovação.

Empresa no polo Porto Digital em Recife – Leo Caldas/Folhapress

Para além de promessas e projetos, o Brasil já tem algumas cidades que entregam um ecossistema de inovação tecnológica robusto. Alguns exemplos são Florianópolis, com uma rede de inovação distribuída na cidade; Porto Alegre, com um parque tecnológico universitário; Recife, com um espaço de inovação na antiga zona portuária da cidade; e São José dos Campos, com alguns dos principais institutos de tecnologia do país.

A corrida pelo título de “vale do silício” tem causado a aprovação de uma enxurrada de leis do setor nas câmaras das cidades pelo Brasil. A reportagem apurou que ao menos 11 leis que se relacionam com o setor foram aprovadas em dez grandes cidades nos últimos cinco anos.

Há ainda os gestores que planejam novas legislações, como o Distrito Federal, que segundo a sua Secretaria de Inovação está trabalhando para “passar legislações que reduzam o imposto pago pelas startups”.

“Não estamos brincando quando falamos que queremos transformar o Distrito Federal no próximo Vale do Silício”, afirma a pasta por email.

No premiado livro O Código (Alta Books, 2021), a historiadora americana e professora da Universidade de Washington Margaret O’Mara destrinchou o papel decisivo que o Departamento de Defesa dos EUA desempenhou na ascensão do Vale do Silício.

“O principal fator foi o investimento dos Estados Unidos em tecnologia militar durante a Guerra Fria”, afirma O’Mara.

“Foi o começo da indústria de eletrônicos no Vale do Silício, porque havia instalações militares na região, e a Universidade Stanford era muito focada em construir seus programas de ciência e engenharia para conseguir parte do dinheiro que vinha de Washington.”

A microeletrônica, tipo de tecnologia desenvolvido ali, atendia perfeitamente os militares: permitiu que os computadores ficassem cada vez menores e mais potentes, base da revolução digital a que o mundo assistiria décadas depois.

As condições ali criadas abriram as portas para uma cultura empresarial muito específica. Por estar longe do grande centro financeiro do país, na costa leste, a região inteira tornou-se altamente especializada nesse tipo de negócio. Grande parte dos estabelecimentos focava no setor, de escritórios de advocacia a fundos de capital de risco —que, amparados pelo investimento e interesse do Estado, tinham mais confiança no investimento.

VIsta aérea da sede da Apple em Cupertino, na Califórnia – Carlos Barria – 28.out.2021

“Eu odeio a frase: ‘Quando o governo não atrapalha, ele já ajuda bastante’. Isso está completamente errado”, diz a secretária de Inovação de Curitiba, Cris Alessi. A cidade, que se destacou no início dos anos 2000 por iniciativas no campo da tecnologia, vem tentando retomar seu espaço.

“Só o poder público tem o poder de legislar. Se nós não tivéssemos um programa de incentivos fiscais, Curitiba não teria metade das startups importantes que tem hoje, porque essas startups estariam em outros lugares”, defende a secretária.

Em 2017, durante o primeiro mandato da gestão atual, foi criado o Vale do Pinhão, projeto que quer colocar Curitiba novamente no mapa da inovação. Em 2018, eles revisaram uma lei de incentivos fiscais de 2006, que abrangia apenas uma parte da cidade, para atender todo o território.

O caminho é oposto ao traçado pelo Porto Digital, parque tecnológico que há 22 anos restaurou a antiga zona portuária de Recife por meio de reduções fiscais.

  1. Porto Digital, parque tecnológico instalado no centro histórico de Recife
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Porto Digital, parque tecnológico instalado no centro histórico de Recife Leo Caldas – 4.mar.2022/Folhapress

A ideia de um parque do tipo era bastante inovadora para a época. “Os parques tecnológicos, que são engrenagens de transferência de conhecimento por meio do empreendedorismo, nasceram muito ligados à universidade”, diz Francisco Saboya, um dos acadêmicos que pleitearam o parque em Recife.

“[Ficavam] em um lugar relativamente distante dos centros urbanos, aquele lugar mais idílico, onde os passarinhos cantam, onde tem um laguinho, porque os gênios estão trabalhando.”

Nos anos 1990, Saboya e outras lideranças queriam estancar a fuga de cérebros que ocorria no estado com a quebradeira que o país vivia, recuperando o pioneirismo tecnológico que Pernambuco experimentara nos anos 1950 e 1960.

“Nos anos 1990 acontece um paradoxo daqueles que ou você enfrenta para resolver ou você perde a onda”, conta ele. “Ao mesmo tempo que a economia pernambucana tradicional realmente declinava, nasciam as bases de um novo ativo econômico chamado conhecimento. Capital humano qualificado, em especial na área de tecnologia da informação.”

Em destaque por seu tamanho, São Paulo não conta com parques tecnológicos tão reconhecidos como outros municípios do país —cidades do interior do estado, como São José dos Campos e Piracicaba, lembrado como o Agtech Valley, ficam com os louros.

Tentativas mais tímidas de união de empresários em um único local, como a Praça do Silício, na República, e o Potato Valley, no Largo da Batata, despontam na metrópole de tempos em tempos.

Luciano da Silveira Araújo, diretor do Conecta.Hub.SP —orgão da capital que visa integrar as iniciativas de inovação—, diz que classificaria o ecossistema paulistano como um cluster, uma concentração de empresas que guardam características semelhantes. “São Paulo precisa ter essa estrutura mais descentralizada como um organismo, um tecido urbano”, afirma.​

“São Paulo tem uma capacidade de criar propriedade intelectual de maneira incrível. Para o desenvolvimento de uma empresa, São Paulo tem absolutamente tudo para fazer essa parte humana de uma maneira exponencial”, afirma Araújo, referindo-se à diversidade da população e à quantidade de profissionais na cidade. “O que faz um ambiente inovador é a multidisciplinaridade.”

A despeito do poder de divulgação que um “valley” brasileiro pode ter, a maioria dos entrevistados rejeita a ideia de copiar o modelo do Vale do Silício, que deu luz às companhias mais ricas da história —mas atualmente em crise.

Mark Zuckerberg, dono da Meta, já depôs no Congresso americano quatro vezes em quatro anos, sob críticas de prejudicar da saúde dos jovens à democracia com seu modelo de negócios. Google e Twitter, também frutos da região, já estiveram na mesma posição. Há ainda as ameaças de regulamentação, especialmente na União Europeia, e do fenômeno das big techs chinesas.

O próprio vale já não é mais o mesmo, diz a historiadora Margaret O’Mara.

“Você tem de ser muito rico para comprar uma casa lá e viver confortavelmente. Há uma desigualdade econômica enorme, muitas pessoas sem-teto ou vivendo em trailers estacionados na rua”, afirma. “A região não funciona mais como funcionava, é mais difícil para pequenas empresas ganhar escala.”

“Construir um polo tecnológico deveria ser construir uma região dinâmica e que ofereça oportunidades para um grande número de pessoas. É aí que o Vale do Silício falhou. Tem seus benefícios econômicos, mas eles não foram compartilhados de forma suficientemente ampla”, diz a historiadora.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/03/de-vale-da-rapadura-a-ilha-do-silicio-cidades-competem-por-titulo-de-polo-tecnologico-brasileiro.shtml?origin=folha

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Miami está se tornando a capital da inovação e das criptomoedas

A atração pela cidade vai além das praias e incentivos fiscais: ela é parte de um fenômeno maior

 Por Maurício Benvenutti – O Estado de S. Paulo 23/02/2022

Completei 2 meses em Miami. O ambiente vibrante, repleto de pessoas do mundo inteiro interagindo entre si e criando coisas novas, me fez lembrar os 5 anos que vivi no Vale do Silício, de 2015 a 2020. A atmosfera pró-empreendedorismo do sul da Flórida está transformando a região.

Vale lembrar que a economia desse lugar já impressiona há décadas. A Flórida é o 4º estado mais rico dos EUA. Se fosse um país, seria a 17ª maior economia do mundo. Só a cidade de Miami, sozinha, ocuparia a 40ª posição desse ranking com um PIB anual de quase U$ 300 bilhões, na frente de Portugal e Chile, por exemplo.

Mas a pandemia colocou um novo ingrediente nessa receita: a tecnologia. Em dezembro de 2020, um investidor de São Francisco cogitou em seu Twitter que poderia se mudar para Miami. Imediatamente, Francis Suarez, prefeito da cidade, respondeu: “como posso ajudar?”.Depois disso, importantes nomes do venture capital californiano e do private equity nova iorquino se mudaram para a Flórida. E os bilhões que essa turma tem para investir acabaram atraindo milhares de empreendedores e startups.

Miami aos poucos se torna um grande polo da inovação 

Miami aos poucos se torna um grande polo da inovação 

Mais de 220 mil pessoas se mudaram para Flórida entre julho de 2020 e 2021. Ou seja, 605 novos residentes por dia. Isso supera os números de qualquer outro estado americano. Para atender a demanda, há pelo menos 22 arranha-céus sendo construídos em Miami no momento, algo também não visto em outro lugar.

Entre as tecnologias desenvolvidas na cidade, o universo das moedas digitais se destaca. Miami trabalha para ser a “capital mundial das criptomoedas”. Ela sediou o Bitcoin Conference, um dos mais importantes eventos dessa indústria. O ginásio local da NBA passou a se chamar FTX Arena, nome de uma das principais bolsas de criptoativos da atualidade. Além disso, o poder público entrou de cabeça nessa área. O município recém anunciou a MiamiCoin, a primeira CityCoin a ser lançada que reverterá 30% dos seus ganhos para o governo investir na região. O prefeito passou a receber 100% do seu salário em bitcoin. E, logo, os funcionários da prefeitura poderão receber também. Não é à toa que o Financial Times elegeu Miami como a cidade mais importante dos EUA atualmente.

Tudo leva a crer que o motivo da atração do mundo por Miami vai muito além das suas praias e incentivos fiscais. O que estamos vendo na Flórida é mais um capítulo desse fenômeno anywhere que está provocando uma verdadeira dispersão dos hubs de inovação pelo mundo.

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