Habilidades digitais e em nuvem desafiam qualificação de profissionais

Pesquisa global da Amazon Web Services mostra que 85% das pessoas sentem necessidade de se atualizar digitalmente, mas só 45% treinaram em ferramentas baseadas em nuvem

Jayanne Rodrigues, Estadão 28 de novembro de 2021 

A automação já anuncia há décadas uma mudança da força de trabalho. Mas a transformação digital foi acelerada com a pandemia, e a alta demanda exigiu que grupos de diversas áreas focassem em programas de treinamento para funcionários. Uma pesquisa global da Amazon Web Services (AWS), divulgada com exclusividade pelo Estadão, ouviu 16 mil trabalhadores em 12 países, incluindo o Brasil, e revelou que 85% das pessoas sentem a necessidade de se atualizar com as mudanças de seus empregos.

“Passa a ser um aspecto quase de revolução, de sustentação para o futuro. Mas a gente enxerga que os trabalhadores não estão preparados”, diz o diretor geral para Setor Corporativo da AWS no Brasil, Cleber Morais.

De acordo com a pesquisa, apenas 45% dos entrevistados treinaram ou estão treinando em ferramentas baseadas em nuvem. Essa lacuna também deixa uma brecha para o desemprego. Dois em cada três trabalhadores podem ficar desatualizados pela lentidão em obter qualificação digital, diz o estudo. 

Essas habilidades não são apenas da área da tecnologia. Também representam serviços sob demanda, aplicativos ou outros recursos que são acessados via internet. Como por exemplo, representante de vendas, telemarketing e profissionais da área de saúde.

Cleber Morais - Amazon Web ServicesCleber Morais, diretor geral para Setor Corporativo da Amazon Web Services no Brasil.  Foto: Claudio Gatti

Os treinamentos online são uma alternativa para a qualificação da mão de obra que não necessariamente trabalha com tecnologia. Fernanda Scali, de 44 anos, começou a realizar cursos de programação durante a faculdade de Enfermagem. O trabalho de conclusão do curso foi sobre reprodução humana assistida. Com esse pé na tecnologia, ela decidiu migrar de profissão. Hoje, ela se prepara com treinamentos mais avançados, como o AWS re/Start, curso gratuito voltado para pessoas que querem iniciar uma carreira em computação em nuvem.

“No começo eu fiquei meio perdida. Mas depois eu vi que o desenvolvedor pode fazer softwares, aplicativos, é uma gama na tecnologia”, relata Fernanda. Ela já fez cursos sobre diferentes linguagens da programação, como Python e JavaScript. As novas habilidades possibilitaram à estudante desenvolver um chatbot que simulava um atendente virtual. 

Essas informações só fizeram sentido para Fernanda quando ela compreendeu como o armazenamento de nuvem está presente no dia a dia. Ela faz uma comparação com o antigo formato padrão em que as fotografias e os documentos eram guardados. “Hoje, você não precisa ficar mais andando com HD nem guardar um monte de DVD. Em qualquer lugar que você estiver, você acessa a nuvem.”

Aproximar pessoas comuns das novas tecnologias para perder o medo de entender um sistema é o primeiro passo para garantir uma requalificação maior dos trabalhadores. “Com isso, você aumenta o fluxo de tomada de decisão de adoção ou não de novas tecnologias que vai dar uma melhoria de performance na sua empresa ou instituição”, afirma Paulo Cunha, gerente geral para Setor Público da AWS no País.

O trabalho online

No Brasil, essa realidade ficou ainda mais palpável. Segundo dados do Ipea, cerca de 8 milhões de pessoas trabalharam de forma remota entre maio e novembro de 2020. Teresa Leonel, de 52 anos, foi uma delas. Professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e doutoranda da Federal de Pernambuco, ela precisou cultivar o interesse por tecnologia para se adaptar às aulas online, que começavam pela manhã e só tinham fim no turno da noite.

Fernanda ScaliFernanda Scali (a 4ª da esq. à dir.) com colegas de trabalho: ela fez curso de programação na faculdade de Enfermagem. Foto: Arquivo pessoal

A principal dificuldade foi estrutural: o currículo do curso de jornalismo não foi pensado para aulas a distância. Preparar professores e estudantes para lidar com ferramentas digitais se tornou uma necessidade não só na Uneb, como também em outras faculdades do País. “A gente teve esse ganho, mas precisava estar acessível para quem não é nativo digital”. No caso de Teresa, a universidade ofereceu cursos da Microsoft Teams, plataforma empregada para aulas e armazenamento de materiais. 

O envolvimento trouxe novas propostas. “Você pode marcar horários, envolver o aluno em um seminário de forma mais dinâmica, isso dá um up na produção do conteúdo”, destaca. O Google drive também foi utilizado para compartilhar materiais com as turmas, mas nem todos se adaptaram com a interface. “Ainda existe a resistência de alguns professores. Nós temos que ter cursos de menor duração a distância para pessoas que estão em outros lugares se capacitarem”, defende. 

Futuro próximo

Empresas preocupadas em seguir com cursos online mesmo após o contexto pandêmico já é uma realidade. “Nós tivemos que migrar para uma plataforma de treinamentos digitais, que antes não era tão utilizada”, conta Gisele Pelarim, gerente de talentos na Trimble Brasil. Com 370 colaboradores, a empresa concentrada em tecnologia contratou no último ano funcionários de diferentes regiões do País. 

Ferramentas digitais representam uma chave para otimizar o modelo híbrido, mas as empresas precisam investir nessas habilidades para os trabalhadores estarem alinhados, a exemplo de reuniões online. “O Google Meet representa muito bem essa demanda por conectividade colaborativa. No Brasil, de janeiro a abril deste ano, o uso da plataforma cresceu cerca de 275%”, ressalta Alberto Zafani, gerente de Google Workspace no Brasil.

A força do trabalho móvel qualificado é uma aposta para as próximas décadas. “As empresas estão disputando esse profissional que domina tecnologia e que sabe trabalhar com modelos ágeis”, reforça Leandro Figueira Neto, diretor de Pessoas e Cultura do Grupo Marista. 

Os negócios que conseguirem se ajustar com facilidade não terão automaticamente benefícios garantidos, mas provavelmente vão estar mais preparados para a transformação digital. “Todas as empresas que não nasceram nesse período digital estão tendo que se adaptar e mudar a mentalidade dos seus colaboradores”, afirma  Leandro Figueira Neto.

https://economia.estadao.com.br/noticias/sua-carreira,habilidades-digitais-e-em-nuvem-desafiam-qualificacao-de-profissionais,70003909845

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José Bonifácio de Andrada e Silva, o ecologista do Império

Por João Lara Mesquita – O Mar sem fim/Estadão 24 de novembro de 2021

Ele foi um pioneiro. Filho do Iluminismo, acreditava no progresso da ciência. Viveu 36 anos na Europa, falava e escrevia em seis idiomas e lia em 11. Um erudito, ávido leitor de estudos das diferentes áreas do pensamento. Foi membro das principais academias de ciências do planeta, mas acabou mais conhecido na história do Brasil como o “Patriarca da Independência”. Defendeu a reversão das terras não cultivadas à Coroa. Pediu reflorestamento obrigatório e preservação de um sexto das matas originais de toda propriedade. O assunto de hoje é José Bonifácio de Andrada e Silva, o ecologista do Império.

José Bonifácio de Andrada e Silva, dados biográficos

José Bonifácio de Andrada e Silva  nasceu em 1763, em Santos. Era filho de pai rico. Estudou em São Paulo e no Rio de Janeiro. Com 20 anos foi cursar Direito, Filosofia, e Ciências Naturais na Universidade de Coimbra. Poucos anos depois, em 1789, entrou para a Academia de Ciências de Lisboa.

gravura mostra biblioteca da Academia de Ciências de LisboaA biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa. Ilustração,https://www.postais-antigos.com/.

No ano seguinte foi mandado para estudar na França e Alemanha, onde se dedicou à Mineralogia e Silvicultura. Foi o primeiro cientista brasileiro a fazer pós-graduação no exterior. Depois de 36 anos na Europa voltou ao Brasil em 1819, aos 56 anos, pensando em se aposentar.

Mas, em vez do ócio, abraçou a política. Foi ministro do reino, e dos negócios Estrangeiros entre 1822 e 1823. Teve papel decisivo na Independência do Brasil. Acabou brigando com o imperador que o demitiu. Banido, exilou-se na França durante seis anos. E deu a volta por cima outra vez.

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pintura mostra Coroação de D. PedroA Coroação de D. Pedro I, 1828. De Jean-Baptiste Debret.

Voltou ao Brasil, reconciliou-se com o imperador e acabou como tutor de seu filho, Pedro II, até 1833 quando foi novamente demitido, desta vez pelo governo da Regência. Em 6 de abril de 1838, morreu em casa, na Ilha de Paquetá, Rio de Janeiro.

O ecologista do Império

Dizem os que estudaram a vida do Patriarca, que uma de suas maiores influências foi um dos professores da Universidade de Coimbra, o naturalista italiano Domingos Vandelli, célebre à época, e grande amigo de Lineu, que havia sido contratado para lecionar história natural e química.

A visão crítica da destruição da natureza

Teria sido com Vandelli que José Bonifácio adquiriu a visão crítica da destruição da natureza, a partir de quando teria desenvolvido grande preocupação com a questão ambiental.

Curso de química na França

Durante o primeiro período europeu, fez curso de química na França com Antoine François de Fourcroy, químico e político, responsável pela criação do Museu Nacional de História Natural, pela reorganização do ensino superior, e dos liceus e colégios da época.

Conheceu Humboldt e teve aulas com Kant

Na Alemanha conheceu as melhores cabeças da época, como Humboldt, curiosamente também conhecido como o primeiro ambientalista, e teve aulas com ninguém menos que Kant. Visitou as minas da Boêmia, e fez pesquisas na Dinamarca e Suécia.

Gravura de HumboldtHumboldt cercado por livros em sua casa.

A preocupação com a natureza

Ao falarmos que foi ‘ecologista do Império’ queremos destacar seu conhecimento e preocupação com a natureza, muito mais do que o que representa o termo ‘ecologista’ hoje. Naquela época não passava pela cabeça das pessoas o esgotamento das riquezas naturais tal qual vemos hoje.

quadro mostra matas brasileiras no século 19 A pintura Caçador de Escravos, de Jean-Baptiste Debret mostra como eram as matas no século 19.

Segundo José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e autor de Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (Zahar), ‘para Bonifácio, o desenvolvimento não poderia basear seu crescimento na destruição anticientífica das florestas, pois essas ações ameaçariam o futuro’.

Palavras de José Bonifácio de Andrada e Silva em 1828:

Nossas preciosas matas desaparecem, vítimas do fogo e do machado, da ignorância e do egoísmo. Sem vegetação, nosso belo Brasil ficará reduzido aos desertos áridos da Líbia. Virá então o dia em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos crimes

Pádua defendeu a tese de doutorado ‘A Decomposição do Berço Esplêndido’, que investiga as raízes da ecologia no Brasil. Para ele, “José Bonifácio foi um pioneiro. Foi o primeiro político a integrar a ecologia em um projeto nacional, um ecologista muito à frente de seu tempo’.

A ecologia e um projeto de nação

O professor José Murilo de Carvalho, do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, citado em matéria da Super Interessante, declarou: “Ele inovou ao passar do naturismo para o ecologismo, superando a admiração passiva da natureza para incorporá-la racionalmente a um projeto de nação.”

Criticando o ensino no Brasil do século 19

 No Brasil, as ciências e as boas letras estão por terra. Tudo o que interessa é vender açúcar, café, algodão e tabaco

Uma viagem pela Mata Atlântica

Um ano depois de voltar ao Brasil, em 1820, fez uma viagem com um de seus irmãos, Martim Francisco, pelo sertão paulista, local de origem da Mata Atlântica. O que era para ser uma viagem mineralógica deixou profunda impressão.

desenho da Mata Atlântica no século 19Mata Reduzida a Carvão, 1830. De Félix-Émile Taunay.

Logo no início JB lamenta o ‘miserável estado em que se acham os rios Tietê (Até hoje problemático. Saiba mais em Núcleo União Pró-Tietê) e Tamanduateí, sem margens nem leitos fixos, sangrados em toda parte por sarjetas que formam lagos que inundam essa bela planície’. E, nos arredores de Itu, observa que ‘todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado.’

Potencial perdido pelo atraso e ‘desleixo’

Segundo a historiadora Berenice Cavalcante, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e autora de José Bonifácio: razão e sensibilidade (FGV), citada em excelente artigo da revista Fapesp, “diante do que encontrou, lamentou o imenso potencial perdido pelo atraso e ‘desleixo’ dos brasileiros no cultivo da terra. Irritou-se com a destruição despropositada da natureza e previu que, após esgotarem os recursos, as populações migrariam constantemente, dificultando ainda mais a chegada da civilização.”

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Escravidão, na visão de Jean-Baptiste Debret.

Miriam Dolhnikoff, da Universidade de São Paulo (USP) e autora da biografia  José Bonifácio (Companhia das Letras), também citada no artigo da revista Fapesp, diz que “a sua defesa da abolição seguia o mesmo princípio. A escravidão criava uma elite ociosa e violenta e, logo, inculta, obstáculo para o desenvolvimento. Também era responsável pela destruição inútil das matas.”

Propôs o confisco de terras improdutivas

Segundo esta autora, José Bonifácio ‘Bateu de frente com os grandes proprietários ao propor que as terras sem cultivo fossem confiscadas pelo governo e vendidas, destinando o dinheiro para os pobres, para que pudessem se incluir socialmente’.

‘Memória sobre a Pesca de Baleias e Extração de seu Azeite’

Este é dos célebres trabalhos de José Bonifácio, que mais uma vez destaca a sua faceta ecologista. Ele o redigiu em 1790, na Academia de Ciência de Lisboa, e se mostrava indignado com as ‘irracionalidades’ que aqui aconteciam.

Gravura de caça a bacia na Bahia, século 19Caça a baleia, século 19.

Em um trecho do trabalho ele registra “as desordens que vi e observei em algumas armações de baleias no Brasil”, promovidas por “feitores estúpidos e inteiramente ignorantes na arte de pescar baleias”.

Inconformado com a morte de baleias bebês

JB não se conformava com o costume de arpoar baleotes de mama, desmontando a cadeia reprodutiva, já que “por uma dessas sábias leis da economia geral da natureza as baleias só parem de dois em dois anos um único filho, morto o qual perecem com ele todos os seus descendentes.”

aquarela mostra baleias na Baía de GuanabaraBaleias na Baía de Guanabara, 1790.

País que desmata e a desertificação

Sobre este problema tão atual, e ainda pouco compreendido por muitas autoridades nacionais, dizia o Patriarca: “Todos os que conhecem por estudo a grande influência dos bosques e arvoredos da Economia geral da Natureza, sabem que os Paizes, que perderão suas matas, estão quasi de todo estereis, e sem gente. Assim succedeo à Syria, Phenicia, Palestina, Chypre, e outras terras, e vai succedendo ao nosso Portugal.”

desenho da Ponte Santa EfigêniaPonte Santa Efigênia, São Paulo em 1827. Jean-Baptiste Debret.

As futuras gerações

Algumas passagens da vida de José Bonifácio são emblemáticas, e demonstram como era avançado para a época. Veja este texto de 1821:

Destruir matas virgens, como até agora se tem praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza. Que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?

Em matéria da BBC, diz o historiador José Augusto Pádua: “Bonifácio foi um personagem muito importante, apesar de ainda pouco reconhecido, na construção dessa preocupação com o ambiente e o futuro das florestas em escala mundial.

Na mesma matéria, o historiador e jornalista Jorge Caldeira comenta: “Ele explicava com detalhes sobre a importância de preservar os bosques do Reino, isso não era nada comum nos tempos dele.”

Em defesa da preservação das baleias

Segundo Caldeira, ‘Era um ecologista prático, bastante apurado para os dias de hoje. Tanto é que seu primeiro trabalho científico foi em defesa da preservação das baleias.”

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A ótima matéria da revista Fapesp, de autoria de Carlos Haag, define José Bonifácio como ‘cientista reconhecido por seus pares, com carreira de nível mundial, raridade no século 18’.

E também, ‘É o único brasileiro ligado à descoberta de um novo elemento químico, o lítio, e, em sua homenagem, a granada de ferro e cálcio foi batizada de andradita’.

Carlos Haag, na abertura de sua matéria faz uma provocação aos atuais políticos, que usaremos para fechar este breve texto.

pintura mata virgemMata virgem, de Manuel de Araújo Porto-Alegre Segundo Império, 1841-1889.

‘Pesquisa feita em 2011 pelo Congresso Nacional revelou que apenas 8% dos 652 deputados e senadores têm mestrado ou doutorado. No Senado, 9,5% dos parlamentares nem sequer ingressaram num curso superior.’

E conclui Carlos Haag: ‘As estatísticas, talvez, não afetem o desempenho dos congressistas, como querem alguns especialistas, mas a comparação com o currículo de um político do passado, José Bonifácio, dá o que pensar’.

Importância da educação

O Mar Sem Fim não tem dúvida de que, para sair do buraco em que está, o Brasil  deveria fazer o que fizeram os Tigres Asiáticos ( Hong Kong, Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan, assim chamados na década de 70) com os quais o País já foi comparado: investir maciçamente em educação e qualificação profissional.

Mas nunca fizemos isso com seriedade e a obstinação necessárias, não por outro motivo patinamos indefinidamente no fundo do poço.

Enquanto os Tigres aumentaram barbaramente sua renda com a exportação de produtos com alto valor agregado, e muita tecnologia aplicada, o Brasil segue vendendo apenas commodities, ou seja, produtos básicos não industrializados (nada contra elas, mas tudo contra, APENAS, elas), perpetuando assim uma das piores divisões de renda do planeta.

Para finalizar, recomendamos ao leitor que conheça o portal José Bonifácio – Obra Completa.

Imagem de Abertura: Google

Fontes: https://revistapesquisa.fapesp.br/o-patriarca-da-ciencia/; https://super.abril.com.br/historia/patriarca-da-ecologia/; https://www.bbc.com/portuguese/geral-49572818; https://redib.org/Record/oai_articulo2312096-o-pensamento-ambiental-em-jos%C3%A9-bonif%C3%A1cio-de-andrada-e-silva.

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Os dados estão por aí – o segredo é saber captá-los, tratá-los e usá-los

Por Evandro Milet A Gazeta 26/11/2021

Obter dados para negócios sempre foi muito necessário, mas era muito caro. Computadores eram caros, armazenar dados em memórias era caro, processar dados era caro, captar dados de clientes era caro e difícil, cruzar dados e apresentá-los de forma visual simples e gráfica era caro e complicado, transmiti-los pelos meios de comunicação, quando não era impossível, era muito irritante. 

Os sistemas internos das empresas eram estanques, não compartilhavam dados. Negócios eram tocados no escuro, na adivinhação, na intuição, baseados em dados que apareciam só no final do mês ou no balanço anual, mesmo assim sem detalhes.

A infraestrutura digital mudou tudo. O processamento e o armazenamento de dados foram para a nuvem e o que era produto – computadores – virou serviço, não é mais necessário comprá-los e nem tomar conta deles. O custo para armazenar, processar e transmitir dados caiu exponencialmente. 

Alguém poderia dizer “mas agora eu gasto muito com isso tudo”. Claro, a queda de preços permitiu o surgimento das facilidades de sistemas e aplicativos sofisticadíssimos, como Internet das Coisas (IoT) e Inteligência Artificial, que entregam dados detalhados e consolidados, até sobre o futuro, para as empresas trabalharem. Vale o preço. 

Os ERP integram os dados dos sistemas internos, e os dados de clientes e mercado estão disponíveis em sistemas desenvolvidos para isso ou nas redes sociais.

Agora, uma empresa comercial pode monitorar o padrão de compras de todos os clientes em todas as suas lojas ao redor do mundo e reagir quase imediatamente com descontos, alterações no estoque, mudanças no layout das lojas e fazer isso 24 horas por dia, 7 dias por semana e 365 dias por ano. Robôs vasculham o preço dos concorrentes e modulam o preço dinâmico em vários segmentos. 

Com os mecanismos práticos do marketing digital, se consegue acessar e se comunicar individualmente com cada cliente, atraindo-o para uma verdadeira máquina de vendas, que faz com que ele seja alimentado com informações do seu interesse até uma conversão de compra efetiva. 

E os clientes entregam suas informações inocentemente nas suas redes sociais todos os dias, acreditando que usufruem de um mundo grátis e prazeroso, sem perceberem – ou sem se importarem -, que eles são o produto e suas informações sustentam o negócio das grandes empresas digitais altamente lucrativas. 

O Google pode ver o que as pessoas pesquisam, o Facebook o que elas compartilham, o Instagram o ambiente em que vivem, a Amazon o que elas compram e falam dentro de casa, o Tik Tok traz para o jogo a geração mais nova e a Apple registra por onde elas andam e com quem se comunicam.

As empresas têm que ir onde os clientes estão, para se comunicar com eles e conseguir dados. Antigamente, estavam lendo jornais impressos no café da manhã, desligados dentro de um escritório durante o dia ou sentados no sofá da sala, à noite, vendo TV unidirecional passivamente. Hoje, estão nas redes o dia inteiro, em qualquer lugar, nos smartphones, não mais passivamente. Estão reagindo, reclamando, dando opinião, consultando, postando, compartilhando, engajando e produzindo conteúdo.

Para os negócios, que assim seja: que se aproveite para conhecer profundamente os clientes e captar dados. Para esses, que as empresas coloquem no mercado exatamente aquilo que querem, fora a manipulação e a indução para comprar o que não precisam.

https://www.agazeta.com.br/colunas/evandro-milet/os-dados-estao-por-ai-o-segredo-e-saber-trabalhar-com-eles-1121

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O que são NFTs? Entenda como funcionam os tokens não fungíveis

Os NFTs se tornaram verdadeiras tendências no mercado de cripto. Traduzidos como tokens não fungíveis, entenda as vantagens e desvantagens

Infomoney

O Bitcoin (BTC) e o Ethereum (ETH) abriram caminho para o surgimento de novos formatos de ativos digitais que atraíram milhares de investidores e movimentaram bilhões de dólares. Os NFTs, sigla em inglês para token não fungível, é um deles.

Entre janeiro e setembro de 2021, segundo dados do site de análises DappRadar, o volume de vendas desses tokens chegou a US$ 13,2 bilhões, valor maior que o Produto Interno Bruto (PIB) do Acre, Amapá e Roraima somado.

Neste guia, o InfoMoney explica o que são os NFTs, como comprar e que vantagens e desvantagens existem nesse jovem e aquecido mercado. Também revela quais são os exemplares mais valiosos do mundo.

• O que são NFTs?

• Como comprar NFTs

• Como um NFT é criado

• Diferenças entre NFTs e Criptomoedas

• Quais são os NFTs mais valiosos

• Riscos e vantagens

O que são NFTs?

NFT é a sigla em inglês para non-fungible token (token não fungível, na tradução para o português). Para entender bem o que é essa tecnologia, primeiro é importante saber o que significam os termos “token” e “fungível”.

Um token, no universo das criptomoedas, é a representação digital de um ativo – como dinheiro, propriedade ou obra de arte – registrada em uma blockchain, tecnologia que nasceu com o BTC no final de 2008. Exemplo: se uma pessoa tem o token de uma propriedade, significa que tem direito aquele imóvel – ou parte dele.

Já bens fungíveis, de acordo com o Código Civil Brasileiro, são aqueles “que podem substituir-se por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade”.

Exemplo: Uma nota de R$ 100 é fungível, já que é possível trocá-la por duas de R$ 50. A pintura “A Casa Amarela”, do pintor holandês Vincent van Gogh, por outro lado, não é fungível, pois é única e não pode ser trocada por outra igual.

Um NFT, portanto, é a representação de um item exclusivo, que pode ser digital – como uma arte gráfica feita no computador – ou física, a exemplo de um quadro. Além de obras de artes, músicas, itens de jogos, momentos únicos no esporte e memes podem ser transformados em um.      

O que significa ser um “token não fungível”?

Na prática, ser um token não fungível significa ser um certificado digital de propriedade que qualquer um pode ver e confirmar a autenticidade, mas ninguém pode alterar. Para entender, imagine a situação abaixo.

Uma pessoa pode acessar a Internet e baixar a obra digital “Crossroad”, do artista norte-americano Mike Winkelmann (conhecido como Beeple), que foi transformada em NFT. O item retrata o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nu e com palavrões rabiscados em seu corpo. Essa reprodução baixada, no entanto, é apenas uma cópia, sem valor comercial algum.

A posse real da obra, vendida no início de 2021 por US$ 6,6 milhões, é apenas daquele indivíduo que tem o token não fungível dela, que funciona como um certificado digital de propriedade. Indo um pouco mais a fundo, esse comprovante de autenticidade é basicamente um código de computador. OK, mas não é possível copiar esse código? 

Não, pois ele fica registrado em uma blockchain – grande banco de dados público e imutável – via smart contract. Esses contratos inteligentes (na tradução para o português) são programas guardados em rede descentralizada que se executam conforme regras pré-estabelecidas, sem o envolvimento de um intermediário para controlar.

Em síntese, tudo o que é guardado na blockchain por meio deles pode ser checado por todos os usuários. Isso ocorre por causa de algoritmos que estabelecem o que pode e o que não pode ser feito no sistema.

A rede do Ethereum é a mais usada para o desenvolvimento dos tokens não fungíveis. Para rodar nela, os NFTs devem seguir um padrão (conjunto de regras de programação) chamado de ERC-721. Outras blockchains, no entanto, também permitem a criação de NFTs, como a Tezos, a Solana, a EOS e a Binance Smart Chain. 

Como comprar NFTs?

O processo de compra é simples: basta se cadastrar em uma plataforma, ter fundos suficientes em criptomoedas e adquirir o NFT desejado. Cada marketplace, no entanto, tem suas próprias características, e aceita ativos digitais diferentes. Veja dois exemplos:

OpenSea:  É um marketplace baseado na rede do Ethereum. Para comprar NFT por lá, é preciso usar Ether ou os tokens Wrapped Ether ([ativo=WETH]), USD Coin (USDC) e Dai (DAI). O processo, de forma resumida, funciona da seguinte forma:

Ao entrar na plataforma, basta clicar em “Explore” (Explorar) e selecionar o ativo digital desejado. Há artes, coleções, músicas etc. Depois de escolher um, é só pressionar o botão “Buy now” (Compre agora). Nesse momento, a plataforma vai pedir que você conecte uma carteira digital que suporta a rede do Ethereum já com os fundos necessários para adquirir o NFT.

Se você ainda não tem uma wallet (carteira em português), a OpenSea sugere algumas opções compatíveis: MetaMask, Coinbase Wallet, Fortmatic e as compatíveis com o WalletConnect, por exemplo. O processo de instalação é muito simples. No caso da MetaMask, a mais famosa delas, basta clicar no link sugerido pela plataforma, fazer o download e adicioná-la como extensão do navegador (tem que ser o Chrome). Também é possível baixar em smartphones com iOS e Android.

Depois da instalação da carteira, é preciso transferir para ela o valor suficiente em cripto para pagar pelo NFT. Se o token que deseja custa 0,012 ETH (cerca de US$ 50), você precisa acessar uma exchange na qual tem conta e enviar essas frações de Ether de lá para a sua wallet.

Mas tem mais um ponto importante aqui: É necessário, também, enviar uns “trocadinhos” a mais para pagar pela taxa de transferência da blockchain do Ethereum, chamada de gas. Essa “tarifa”, paga aos mineradores que mantêm a rede, varia conforme o volume de transações. Quanto mais congestionada, mais cara ela fica. Portanto, reserve pelo menos o dobro do montante que iria gastar no NFT para arcar com isso.

Por fim, depois do processo de instalação da wallet e da transferência de ativos digitais, aí você consegue finalizar a compra de seu NFT.

Binance: A maior corretora do mundo em valor de mercado tem um marketplace chamado Binance NFT. O processo de compra de tokens não fungíveis lá é mais simples. Basta fazer o cadastro (se ainda não tiver) e transferir moeda fiduciária, como real, dólar ou euro. Depois disso, é só trocar o dinheiro por alguma criptomoeda aceita por lá. Além de ETH, é possível usar Binance Coin (BNB) e Binance USD (BUSD). Cabe lembrar que a exchange também permite a compra de criptos com cartões de crédito ou débito.

Depois do cadastro e da compra dos ativos, é só escolher o NFT desejado. Como no OpenSea, o marketplace de tokens não fungíveis da Binance tem obras de artes, músicas, NFTs de games e outros. Lembrando que esses ativos rodam na própria blockchain da corretora, a Binance Smart Chain. E para fazer transações nela, da mesma maneira que ocorre na blockchain do Ethereum, é necessário pagar taxas de gás – no caso, em BNB. Os valores também variam a todo momento, mas costumam ser mais em conta.

Onde comprar NFTs?

É possível comprar NFTs em marketplaces especializados na venda desses ativos digitais. Algumas das principais plataformas são as seguintes:

  • OpenSea
  • Binance NFT
  • Rarible
  • Solanart
  • Foundation
  • SuperRare
  • Nifty Gateway
  • 9Block (brasileira)

Leia também: Guia completo sobre ETF de Criptomoedas

Como criar NFTs?

Assim como comprar, criar NFTs também é um processo muito simples. No caso da OpenSea, por exemplo, basta entrar na plataforma, conectar a carteira de criptomoedas e subir seu projeto. Pode ser imagem, vídeo, música ou um modelo 3D. A plataforma permite arquivos de no máximo 100 MB. Após subir o projeto, é possível também incluir nome e descrição, bem como fazer personalizações.

Como criar NFTs também envolve o uso da blockchain do Ethereum, é necessário pagar a taxa de gas (por isso a necessidade de conectar a carteira). Além disso, a OpenSea cobra 2,5% de comissão quando seu NFT for vendido. As outras plataformas, como Rarible, SuperRare, Nifty Gateway e Binance NFT, têm valores semelhantes.  

O que pode virar um NFT?

Quadros físicos e digitais, músicas, itens de jogos, memes, fotos de momentos do esporte, domínios de sites, vídeos e até posts em redes sociais podem virar tokens não fungíveis.

No início de 2021, o presidente do Twitter, Jack Dorsey, vendeu seu primeiro tuíte por pouco mais de US$ 2,9 milhões como NFT. A mensagem, publicada em 21 de março de 2006, diz “just setting up my twttr” (apenas configurando meu twttr, na tradução para o português).

A NBA, liga de basquete americana, movimentou cerca de US$ 200 milhões em um fim de semana de fevereiro com negociações de NFTs na Top Shot, sua plataforma de comercialização de tokens. Nela, fãs podem comprar cards digitais de jogadas marcantes.

Diferenças entre NFTs e Criptomoedas

As criptomoedas, como o BTC e o ETH, são fungíveis. Se você enviar um Bitcoin para alguém, a pessoa poderá lhe devolver uma unidade da criptomoeda, e você continuará tendo o mesmo valor. As criptos também são divisíveis: ou seja, é possível enviar frações de BTC (chamados de satoshis) para alguém.

No caso de um NFT, no entanto, ele é único e indivisível. Não seria possível trocar o token não fungível de uma obra do pintor espanhol Pablo Picasso por outra igual, porque só existe uma. Além disso, não dá para transferir metade do quadro ou um terço dele para outra pessoa.

Os NFTs mais valiosos

De acordo com o DappRadar, site que rastreia informações sobre o mercado cripto, o volume de venda de NFTs entre janeiro e setembro de 2021 chegou a US$ 13,2 bilhões. O valor é maior que os PIBs dos estados do Acre, Amapá e Roraima somados. Veja abaixo alguns dos NFTs mais valiosos do mercado:

Everydays: The First 5000 Days: É um compilado com 5 mil imagens virtuais criadas pelo artista americano Mike Winkelmann, conhecido como Beeple. Ele desenhou uma por dia, ao longo de mais de treze anos. A obra foi vendida por US$ 69,3 milhões em março de 2021. Beeple foi pioneiro nesse mercado, e é um dos principais artistas da “criptoarte”.

CryptoPunk #7523: CryptoPunks é o nome de uma coleção de pixel art (tipo de arte digital) com 10 mil retratos de personagens, divididos nas categorias humanos (masculino e feminino), macacos, zombies e aliens. Foi lançada em junho de 2017 pelo estúdio Lava Labs, e é o projeto em NFT mais popular do mercado. A imagem número 7523, um alien usando brinco, boné e máscara, foi vendida por US$ 11,8 milhões em junho de 2021.

CryptoPunk #3100: É um CryptoPunk da categoria alien com uma bandana na cabeça. Ele foi vendido por US$ 7,58 milhões em março de 2021. O ativo digital, conforme a Larva Labs, está à venda por US$ 146 milhões. Se algum milionário resolver comprar o ativo digital, será a maior venda de um NFT já realizada.

CryptoPunk #7804: É um CryptoPunk alien com cachimbo na boca e boné na cabeça. Em março de 2021, ele foi vendido por Dylan Field, CEO do Figma, startup de design, por US$ 7,57 milhões. Detalhe: Field, um dos primeiros entusiastas a apostar nesse novo mercado, havia comprado o ativo por cerca de US$ 15 mil em janeiro 2018. Portanto, ele teve um ganho impressionante de 50.000% no período. Na época da compra do ativo digital, ele disse que o NFT tinha “potencial para ser a Mona Lisa digital”. Acertou!  

Crossroad: Criada por Beeple, essa NFT retrata o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caído no chão com palavrões escritas em seu corpo nu. A arte digital foi projetada, no entanto, para mudar conforme o resultado das eleições. Se Trump tivesse vencido, ele apareceria andando entre chamas, usando uma coroa na cabeça. O NFT foi vendido por US$ 6,6 milhões em fevereiro de 2021.

CryptoPunk #8857: Em setembro de 2021, um CryptoPunk da categoria zombie, com cabelos “selvagens” e usando óculos 3D, também foi vendido por US$ 6,6 milhões. O detalhe é que em maio do mesmo ano o mesmo NFT era avaliado em US$ 1,7 milhão – ou seja, valorizou quase 300% em sete meses. 

Ocean Front: No final de março de 2021, o NFT Ocean Front, também do Beeple, foi vendido por US$ 6 milhões. O dinheiro, no entanto, foi para a organização não governamental Open Earth Foundation, e não para o bolso dele. “Seis milhões de dólares para as mudanças climáticas. Isto é o que precisamos para promover mudanças realmente significativas … para trabalharmos juntos em vez de lutarmos uns contra os outros”, escreveu em seu Twitter.

Ringers #879: Criado pelo artista canadense Dmitri Cherniak, o NFT foi vendido por US$ 5,8 milhões, em agosto de 2021, para a Three Arrows Capital, empresa de criptomoedas baseada em Singapura. O ativo foi negociado na Art Blocks, plataforma que reúne obras de “cripto artistas”. 

CryptoPunk #5217: Outro CryptoPunk que entrou para a lista dos NFTs mais valiosos do mercado foi o avatar número 5217. Ele é um macaco com uma corrente de ouro no pescoço e uma touca na cabeça. Foi arrematado em julho de 2021 por US$ 5,4 milhões. O personagem, assim como todos os outros da coleção, é basicamente uma arte pop de 24 X 24 pixels.

NFT do código da web: O NFT do código-fonte original da World Wide Web (WWW), escrito pelo físico e cientista da computação Tim Berners-Lee no início da década de 90, também merece um espaço na lista. O token foi vendido por US$ 5,4 milhões em junho de 2021, em um leilão online da Sotheby’s, casa de leilões sediada na Inglaterra.

Riscos

Todo mercado tem riscos, e o de NFTs não é diferente. Veja abaixo alguns dos pontos a serem levados em consideração antes de entrar nesse universo de tokens não fungíveis.

Shitcoins – Como qualquer um pode criar um NFT, há muitas shitcoins (termo para se referir a ativos digitais sem fundamento) por aí, bem como tokens não fungíveis fake. Por isso, para não investir em furada, é preciso estudar bem o projeto, bem como as pessoas por trás dele.

Liquidez – A liquidez dos NFTs é baixa. Se você compra um token não fungível, e depois de um tempo resolve vendê-lo, não é de uma outra para outra que se consegue achar um comprador. Nesse ponto, portanto, o segmento de NFTs é mais parecido com o mercado de arte do que com o de criptomoedas.

Volatilidade – Assim como no caso do BTC, ETH, Cardano (ADA) e demais altcoins, os NFTs também são muito voláteis. Isso acontece porque o segmento é novo, e os ativos digitais ainda estão passando por um período de formação de preços.

Fraudes – Golpistas podem se apropriar de trabalhos feitos por outros indivíduos, transformá-los em NFT e vendê-los como se fossem seus. Portanto, é importante pesquisar se o token realmente é de determinado autor.

Vantagens

Investir em NFTs também tem algumas vantagens, conforme as relatadas aqui embaixo:

Valorização – Assim como obras de arte se valorizam com o tempo, NFTs também podem seguir o mesmo caminho. O próprio CryptoPunk #7804, que viu seu preço subir 50.000% em pouco mais de três anos, é um exemplo. Vale ressaltar, no entanto, que isso não acontece com todos.

Escassez – Os NFTs, assim como as obras de pintores famosos, também são escassos. Apesar de todo mundo conseguir copiar o material digital, só o proprietário realmente tem a posse dele, e pode vendê-lo no futuro.

Facilidade – Um token não fungível pode ser transferido de um canto do mundo para o outro em minutos, assim como ocorre com as criptomoedas. No caso de uma obra de arte física, o processo seria mais complexo, e envolveria custos elevados de transporte. 

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Metaverso é um mundo maravilhoso, mas ainda distante

A criação de um universo virtual conectado ao mundo físico trará oportunidades para novos negócios, mudanças nas relações sociais e provocará inúmeras implicações éticas difíceis de serem resolvidas; o problema inicial, contudo, tem nome: falta de infraestrutura tecnológica

Pablo Sáez – MIT Sloan Review 15 de Novembro 2021

No final de outubro, Mark Zuckerberg, CEO e fundador do Facebook, anunciou o lançamento da nova marca, Meta, que será uma companhia adaptada ao metaverso. De lá para cá, o tema passou a ser mais explorado. Contudo, ainda parece haver pouca compreensão sobre o que, de fato, o metaverso é e, principalmente, os desafios para sua criação e as transformações que esse novo mundo irá provocar nas vidas e nos negócios. Importante deixar claro desde já: estamos longe de desenvolver a tecnologia necessária para dar vida ao metaverso.

Metaverso vem do prefixo meta, que significa transcendente, e verso, de universo: universo transcendente, que descreve um mundo virtual interconectado com o mundo físico. A palavra apareceu no livro Snowcrash, de Neal Stephenson, de 1992.

No entanto, a ideia de mundos virtuais habitáveis por nós sempre existiu na cultura e fantasias humanas. Apareceu, por exemplo, em 1982, no filme Tron, que ganhou remake em 2010, bem como em Matrix e em vários episódios da série Black Mirror. Jogos como Second Life e Fortnite também se apoiam nesse universo virtual.

Artigo Metaverso é um mundo maravilhoso, mas ainda distante

O que é o metaverso

O conceito de metaverso – também chamado de web 3.0 ou spatial web – pressupõe a criação de uma “internet em 3D” que se conecta ao mundo físico de forma natural. Nessa nova web, é possível interagir com entidades virtuais “trazidas” para o mundo real, da mesma forma que nos leva para o mundo virtual.

O usuário, ao invés de consumir texto, vídeo e áudio por uma tela, pode “entrar” num mundo virtual, com a possibilidade de sentir, fisicamente, sensações vividas pelo seu avatar, que seria a sua “persona” neste mundo.

Exemplos? Pense no trabalho remoto hoje e como ele poderia ser se você “entrasse” num ambiente e pudesse interagir com seus colegas de trabalho; imagine uma compra online num ambiente que coloque você numa loja virtual imersiva, parecida a uma loja virtual, em que você (ou seu avatar) entraria na loja e escolheria um livro, roupa ou um automóvel – que tal fazer um test drive de um Porsche num universo que simula uma estrada nos alpes alemães? A imaginação é o limite para as experiências que podem ser criadas.

Quando se tornar realidade, o metaverso poderá ser o nosso local de trabalho, de socialização e de divertimento. Duvida? Pense na quantidade de horas que jovens passam nas redes sociais e compare com a intensidade das experiências do metaverso (quem assistiu ao episódio Striking Vipers, da série Black Mirror, consegue entender. O apelo será muito grande para ser ignorado.

Todavia, o metaverso vai além da inserção num mundo virtual; trata-se de um mundo bidirecional, que proporciona experiências físicas no mundo virtual – e experiências virtuais no mundo físico. Nesse segundo caso, podemos pensar numa pessoa planejando a decoração de uma casa nova. Ela posiciona o sofá virtual no local escolhido na casa – usando óculos ou lente de realidade aumentada. Quando o entregador chegar, poderá, com os óculos dele, saber exatamente onde instalar o sofá real.

Podemos pensar em outras aplicações como um guia virtual que acompanha o turista numa cidade, ou treinamento em que uma pessoa possa apertar um parafuso virtual com uma chave de fenda real.

Implicações do metaverso

A criação do metaverso forçará a sociedade (pessoas, governos e empresas) a repensar questões relativas à lei, direitos, liberdade, privacidade. Com o desenvolvimento do metaverso, será possível uma pessoa criar um avatar independente, que emula o comportamento da “pessoa” por meio de inteligência artificial e aprendizado de máquina.

Se esse avatar cometer um crime cibernético, quem deverá responder criminalmente? Uma pessoa poderá ser demitida caso seu avatar desrespeite um colega ou não cumpra um prazo?

O metaverso terá um “dono”? Quem irá controlá-lo? Uma bigtech? O governo de um país? Ou um grupo formado por governos e empresas? Quem vai escolher esse grupo? Os códigos para sua criação serão abertos? Quem será o “juiz” para resolver disputas no mundo virtual?

Há questões mais existenciais: uma pessoa poder ter vários avatares e interagir anonimamente? Será possível assumir a imagem de uma pessoa famosa viva ou de um personagem histórico? Nesse caso, como identificá-la em situações em que isso seja relevante? E o que fazer com o avatar de uma pessoa morta? Ele poderá sobreviver no metaverso? Ou deverá “morrer” com seu duplo?

Além dos aspectos legais e éticos, o metaverso tem potencial para criar uma economia. As oportunidades de novos negócios para as empresas são enormes. É evidente que os objetivos das grandes empresas para o desenvolvimento da Metaverso são econômicos. Um novo mundo com infinitas possibilidades de criação de experiências e jornadas é um grande mercado potencial para trabalhar.

A criação de uma economia virtual paralela, que suporte todos os processos comerciais do novo mundo e com um nível de complexidade ainda maior do que o atual mercado econômico global, será, portanto, inevitável.

Estamos perto de entrar no metaverso?

Apesar da empolgação de Zuckerberg e de muita gente, o desenvolvimento do metaverso passa pela superação de desafios tecnológicos que, hoje, são consideráveis. As atuais redes de transmissão de dados não suportam o montante de dados para renderizar um mundo virtual em altíssima resolução, assim como os processadores ainda estão aquém do necessário. E precisamos desenvolver tecnologias para aumentar a interação entre o mundo físico e virtual – entre outros desafios.

Assim, por enquanto, o metaverso é apenas uma ideia fascinante e empolgante.

Pablo Sáez

É sócio líder de Digital Technology da NTTDATA.

https://mitsloanreview.com.br/post/metaverso-e-um-mundo-maravilhoso-mas-ainda-distante

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HABILIDADES DO FUTURO. PARA DESENVOLVER SUA CARREIRA AGORA

Áreas como transformação digital, autogestão, resolução de problemas e relacionamento interpessoal se destacam na lista do Fórum Econômico Mundial; especialistas apontam capacidades complementares

Nathalia Molina e Fernando Victorino, Estadão / Ilustrações: Marcos Müller 21/11/2020

Em até cinco anos, 40% das habilidades essenciais exigidas atualmente dos profissionais vão mudar. No mesmo período, o tempo gasto em tarefas executadas por seres humanos e máquinas tende a se igualar. As conclusões apontadas no relatório The Future of Jobs 2020, divulgado em outubro pelo Fórum Econômico Mundial, destacam disrupções relacionadas à pandemia, observadas até o momento em 15 setores econômicos de 26 países. O documento também projeta a expectativa de mudança nas habilidades valorizadas no cenário futuro.

As dez principais a serem desenvolvidas até 2025, segundo o Fórum Econômico, estão relacionadas a fatores como transformação digital, autogestão, resolução de problemas e capacidade de lidar com pessoas. “Percebemos uma combinação de habilidades técnicas e comportamentais na lista, além da tendência das competências ligadas à tecnologia”,  diz Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina.

Para Beck, o profissional do futuro deve estar preparado para as mudanças do mercado, que já estão acontecendo e modificando o modo como as empresas montam seus times. “Mais do que conseguir  realizar determinada tarefa, as pessoas precisam saber trabalhar em equipe, pensar de forma criativa e crítica, e se comunicar de maneira efetiva.”

Entre as competências essenciais, algumas vêm ganhando importância nos últimos anos, caso das soft skills. As empresas já perceberam a importância de ter profissionais com habilidades socioemocionais fortes. E começam a modificar seus processos seletivos para identificar talentos nessa área. Às vezes, antes mesmo de fazer uma análise das chamadas hard skills, ligadas ao desempenho técnico.

“As empresas perceberam que contratavam por capacidade técnica e, na maioria das vezes, demitiam por comportamento”, conta Luiza Helena Trajano, presidente do conselho da empresa (leia entrevista no fim desta reportagem). “No Magazine Luiza, começamos a realizar os primeiros testes cegos, nos quais analisam-se os comportamentos. Só depois dessa fase inicia-se a análise técnica.”

SOFT SKILLS

DE OLHO EM 2025: HABILIDADES VALORIZADAS

Pensamento analítico e inovação: capacidades ajudam a planejar e a concretizar projetos para resolver problemas de modo inovador

● Aprendizado ativo: aqui entram atividades de lifelong learning

● Resolução de problemas complexos: quanto maior a habilidade, melhor o profissional vai gerenciar os desafios no mercado

● Pensamento crítico e análise: garantem autonomia e ampliam a capacidade de avaliar e se posicionar diante de diferentes situações

● Criatividade, originalidade e iniciativa: ter ideias fora da caixa é fator de diferenciação

● Liderança e influência social: habilidades são fundamentais para lidar com pessoas e se comunicar bem

● Habilidade tecnológica: em diferentes frentes, como uso, controle e monitoramento

● Autonomia tecnológica: para programação e design tecnológico

● Resiliência, gestão de estresse e flexibilidade: essas três soft skills são muito destacadas também por especialistas

● Raciocínio, solução de problemas e ideação: todas as habilidades que ajudam na solução de problemas vêm ganhando atenção

FONTE: Fórum Econômico Mundial

TIMES MULTIDISCIPLINARES

Outro aspecto que reforça a importância das soft skills é a forma como as companhias estão se estruturando, em equipes formadas por profissionais de áreas diversas. “Uma habilidade muito valorizada no mercado é a capacidade de trabalhar com perfis diferentes, entendendo que cada um tem pontos fortes e fracos”, diz Lachlan de Crespigny, cofundador da Revelo, startup de recursos humanos. “Você tem de desenvolver um jeito para conseguir se comunicar.”

Além de empresas novas, como o Nubank, o Quinto Andar e a própria Revelo, ele menciona que até organizações tradicionais vêm se adaptando ao modelo. “No Itaú, os novos departamentos já estão sendo criados nesse formato também”, diz Crespigny.

‘Uma habilidade muito valorizada no mercado é a capacidade de trabalhar com perfis diferentes’

Lachlan de Crespigny, cofundador da Revelo

A Mondelez International é outra empresa que está investindo agora para acelerar as soft skills e mover a cultura da empresa. “Todo time de executivos participa atualmente de um programa de formação customizado, em parceria com a Harvard, chamado Grow, que combina a teoria, mas estimula principalmente a prática de novos comportamentos”, conta Betina Corbellini, diretora de Recursos Humanos da Mondelez Brasil.

Toda habilidade é treinável, e isso não é diferente com as comportamentais. As soft skills mudam de pessoas para pessoa, tanto as que o profissional já tem quanto aquelas escolhidas para focar em desenvolver. Sandra Betti, sócia-diretora da consultoria MBA Empresarial, lembra que um estudo da Universidade de Stanford constatou que 85% do sucesso tem a ver com atitudes positivas e 15% com as hard skills.

No vídeo abaixo, Sandra cita as principais habilidades – entre as socioemocionais e as técnicas – que estão sendo valorizadas no mercado de trabalho. Leia também, nesta página, trechos da entrevista que a especialista deu para o projeto de Lives do Sua Carreira.

As soft skills estão dentro dessas atitudes mais positivas de vida. “Tem outro estudo que indica que três fatores muito importantes são compaixão, perdão e gratidão. Antes, quem falava essas coisas era meio ridicularizado. Hoje, é um professor de Stanford que diz”, conta a especialista em desenvolvimento gerencial e identificação de talentos.

O aprendizado contínuo, então, é o caminho natural para o aperfeiçoamento. “Antes, nos 20 primeiros anos, você estudava; nos 35 anos seguintes, trabalhava; e nos 15 anos finais, aproveitava a vida. Hoje, faz tudo junto”, diz Daniela Diniz, diretora de Conteúdo e Eventos da Great Place to Work (GPTW). “Isso é o lifelong learning: a vida juntou tudo. E a pandemia só catalisou essas mudanças.”

‘Os mais velhos também querem trabalhar por propósito, também querem um alinhamento de valores’, diz Daniela Diniz

Daniela esteve entre os convidados das lives do Estadão sobre carreiras. No vídeo abaixo, ela fala sobre como profissionais de diferentes faixas etárias estão interagindo no mercado de trabalho – baby boomers e integrantes das gerações X, Y e Z.

Para Daniela, não é correto imaginar que algumas características, que geralmente são atribuídas a uma ou a outra geração, são exclusivas delas. Vai ocorrendo uma mescla. Ela dá um exemplo, dizendo que algumas pessoas  atrelam o desejo de trabalhar com propósito, pensando em valores, é algo típico da geração Y ou da geração Z. “Mas os mais velhos também querem trabalhar por propósito, também querem um alinhamento de valores. Eles não querem fazer como antigamente e apenas ganhar o salário no fim do mês.”

ENTREVISTA

LUIZA HELENA TRAJANO

PRESIDENTE DO CONSELHO DO MAGAZINE LUIZA

‘Uma equipe diversa é mais criativa e inovadora’

‘Cada vez mais, as características socioemocionais devem ser valorizadas pelas empresas’FELIPE RAU/ESTADÃO

Ao longo da sua experiência profissional, o mundo e, consequentemente, as empresas foram mudando. Atualmente, habilidades socioemocionais são, em algumas carreiras, até mais valorizadas do que as técnicas. Como você vê essas transformações e como você mesma se adaptou e se desenvolveu para atuar nesta nova realidade?

Essa mudança já está ocorrendo há algum tempo. As empresas perceberam que contratavam por capacidade técnica e, na maioria das vezes, demitiam por comportamento. No Magazine Luiza, começamos a realizar os primeiros testes cegos, nos quais analisam-se, em primeiro lugar, os comportamentos. Somente após essa fase, inicia-se a análise técnica. Cada vez mais as características socioemocionais devem ser valorizadas pelas empresas.

Como a inclusão das chamadas minorias (mulheres, negros e LGBTs, por exemplo) nas empresas é importante para o desenvolvimento das habilidades socioemocionais de toda a equipe, como liderança, empatia, comunicação e flexibilidade?

Uma empresa não é uma ilha. Como ela pode falar com seus consumidores se internamente não existe diversidade? Uma equipe diversa é mais criativa e inovadora, e sabe se comunicar melhor com a sociedade.

O empreendedorismo foi incluído na reforma do ensino médio como uma competência a ser desenvolvida nos estudantes, incluindo aspectos como resolução de problemas e melhor uso de recursos humanos e naturais. Ter uma atitude empreendedora ajuda na carreira?

No Magazine Luiza, nós treinamos e cobramos uma visão empreendedora de todos os colaboradores há muito tempo. Atitude empreendedora é fundamental para qualquer profissional que deseja se destacar em qualquer organização. Desenvolver competências empreendedoras nas escolas será um diferencial para a carreira desses estudantes.

ENTREVISTA

SANDRA BETTI

PSICÓLOGA, MASTER COACH E ESPECIALISTA EM DESENVOLVIMENTO DE PESSOAS E TALENTOS

‘Quer treinar liderança? Tente ser síndico do seu prédio’

‘Se você quiser aprender a nadar, não adianta ficar só lendo livro ou vendo vídeo’, diz Sandra Betti RICARDO BETTI/DIVULGAÇÃO

Na hora de desenvolver uma habilidade socioemocional, estudar é apenas parte do caminho. Sandra Betti recomenda que a pessoa também busque exercitar na prática a competência, seja liderança, desenvoltura ou qualquer outra soft skill. Seguindo esse conceito, fazer teatro pode ajudar, por exemplo. Ou mesmo enfrentar a função de síndico de prédio. Confira:

Qual é a melhor maneira de desenvolvermos soft skills? Existe um curso para melhorar ou adquirir uma nova?

Primeira coisa, 70% do nosso aprendizado é na prática. Se eu quero desenvolver comunicação, eu posso assistir a Ted Talks de comunicação, ler livros sobre comunicação, fazer cursos. Mas isso é 10 ou 20%. O ideal é viver situações que vão exercitar aquela competência. Se você quiser aprender a nadar, não adianta ficar só lendo livro ou vendo vídeo. Você tem de entrar na piscina. On the job, na prática. Quero ficar mais desenvolta? Passada a pandemia, se matricule em um curso de teatro amador. Lembro de um rapaz que trabalhava em informática e queria exercer liderança, mas diziam que ele tinha perfil técnico e ninguém deixava ele se desenvolver. Falei: por que você não tenta ser síndico do prédio? ‘Pô, mas todo mundo briga’, ele respondeu. Eu disse: ‘Acho ótimo porque você vai aprender a negociar, a mediar conflitos, e ainda não vai pagar condomínio’.

Em relação à diversidade e à questão dos vieses inconscientes, peca-se no recrutamento de candidatos exigindo hard skills que, às vezes, eles não adquiriram porque pertencem a grupos de baixa renda, sem acesso a uma melhor formação educacional? Como lidar com isso?

Na consultoria em que trabalho, havia muitas pessoas com problemas de português. A gente contratou um professor, deu aulas. Empresas e escolas podem ajudar muito, mas cada um de nós tem de ser uma máquina de aprendizagem. Para aprender, é preciso ter um plano, um projeto, e ralar. Hoje em dia, tem cursos gratuitos na internet. Tem a Coursera, por exemplo. As melhores faculdades do mundo têm cursos online e dão certificado. Com inglês, você pode acelerar muito a sua carreira. A maioria dos empregos não requer inglês, mas exige se você quiser subir.

Como faço para que minha mensagem como empresa chegue ao mercado e eu consiga atrair os talentos certos? No processo de seleção, como saber que aquele talento tem o fit cultural para a vaga?

Uma coisa que é muito clara: é uma relação de confiança. Para mim, o mais importante é a coerência entre o que a empresa fala e o que a empresa faz. Muitas empresas falam de cuidado com as pessoas, respeito com as pessoas. E de diversidade também. Discurso bonito todas elas têm. Se você entrar nos valores, é tudo muito parecido. Às vezes, muda um pouquinho a redação. O mais importante não é o que a empresa fala, mas o que ela faz. Sob a perspectiva dos funcionários, a referência para mim sempre foi importante. Se quiser saber da cultura de uma empresa, converse com quem saiu de lá ou com alguém que está lá. Daí a gente vai ver se o discurso que é bonitinho existe na prática.

https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,habilidades-do-futuro-para-desenvolver-sua-carreira-agora,1132782

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Não ligue, mande um áudio: geração do milênio já não conversa por telefone devido ao estresse

Na era do pós-texto e do consumo frenético de informações, a comunicação assíncrona (ou seja, a conversa fragmentada) ganha terreno. O telefonema é visto como algo quase invasivo

NOELIA RAMÍREZ – El País 21/11/2021

Cada vez que um veículo de comunicação rotula os millennials como “geração muda” devido ao abandono gradual das ligações telefônicas nas comunicações, a jornalista especializada em cultura digital Janira Planes revira os olhos. “Se essa geração se caracteriza por algo, é por não se calar nunca. Estamos nos comunicando mais do que em qualquer outro período da história

Uma coisa é não querer telefonar, e outra é não se expressar verbalmente”, aponta a também diretora de comunicação da startup educacional Wuolah. Planes lembra que embora tudo indique que a geração do milênio, também conhecida como geração Y, telefona menos, o áudio é uma ferramenta mais do que integrada nas plataformas de comunicação e redes sociais. Até para paquerar

Aí está o caso do Hinge, um aplicativo de encontros que desde o final de outubro oferece a possibilidade de enviar notas de áudio em conversas privadas entre usuários que já tiverem se conectado anteriormente para, como explica a empresa, “dar mais autenticidade e personalidade aos seus perfis”.

Se algo notamos na última década foi que a alergia global às ligações telefônicas se tornou uma realidade onde as mensagens instantâneas ganharam o jogo das comunicações pessoais. O estudo La Sociedad Digital en España (“a sociedade digital na Espanha”) já revelou que, em 2018, 96,8% dos espanhóis entre 14 e 24 anos preferiam o WhatsApp como canal para se comunicar com familiares e amigos. 

Outra pesquisa, realizada em 2018 pela empresa de compra e venda de celulares BankMyCell (responsável por esse rótulo de “geração muda” que causou tanto alvoroço na conversa digital), detalha que sete de cada dez millennials nos EUA evitam os telefonemas e que 81% sentem ansiedade ao fazê-los ou recebê-los.

 “A questão das ligações ou de não querer atendê-las está mais relacionada com a ansiedade social que pode ser gerada por interagir com uma pessoa sem tê-la conhecido antes e sem estar diante dela”, afirma Planes. Por que será que é cada vez mais angustiante telefonar e falar em tempo real com os outros?

Agonia pela sincronia na multitarefa

Embora o desejo de se comunicar continue existindo, a vontade de espaçar as conversas realmente aumentou. “Todos nós estamos fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Parar tudo para atender um telefonema é cada vez mais complicado. Podemos enviar um áudio enquanto esperamos na fila do supermercado e ouvir a resposta depois que tivermos colocado as compras no carro. Essa flexibilidade é muito valorizada”, aponta a professora Cristina Vela, do Departamento de Língua da Faculdade de Comunicação da Universidade de Valladolid.

Sem um protocolo claro sobre como usar os áudios quando o receptor não é do círculo de confiança pessoal —em ambientes profissionais existe uma regra não escrita que aconselha sempre recorrer primeiro ao correio eletrônico como canal menos intrusivo e mais respeitoso em relação ao tempo do destinatário—, se agora atendemos uns aos outros fora de hora, com áudios nos quais controlamos o que dizemos, quando os enviamos e em que momento escutamos as respostas, é porque o estresse anula a vontade de interagir

É isso que conclui o recente estudo publicado no final de outubro pela equipe da doutora em Psicologia Meghan L. Meyer, professora da universidade Dartmouth, que se infiltrou durante dois meses nos microfones dos celulares dos sujeitos analisados para relacionar a quantidade de conversa telefônica diária com seus níveis de estresse. Os resultados combinaram com as descobertas de “evitação social induzida por estresse” que os pesquisadores já haviam comprovado em ratos. 

Induzir estresse em um roedor diminui sua interação social no dia seguinte, e nos humanos participantes do estudo ocorreu a mesma coisa: “Um maior estresse em um dia predisse uma menor interação social no dia seguinte”, destaca a pesquisa. O estresse fez esses participantes perderem a vontade de falar por telefone.

Vela, que também é analista e pesquisadora do discurso digital, lamenta que esse estresse que agora nos faz priorizar a comunicação assíncrona possa reduzir a horizontalidade da conversa em tempo real (“os áudios oferecem mais vantagens ao emissor do que ao receptor”). Lamenta também que se perca pelo caminho desses clipes de áudio para lá e para cá “a conversa autêntica, essa em que estamos mutuamente disponíveis, em que cooperamos com nosso interlocutor”.

Rumo a uma voz irreal na era do pós-texto

Em uma sociedade que normalizou o consumo fragmentado de informação, saltando de um link para um tuíte, de uma notícia para um meme ou para uma publicação do Instagram, por meio de movimentos repetitivos e quase imperceptíveis —ou seja, quando nossos passeios digitais e consumo de internet são cada vez menos lineares—, faz sentido que nossa própria voz também se fragmente e aposte nessa não linearidade, nesse descompasso com que atuamos na rede. 

Agora que os analistas falam da “era do pós-texto” devido às mudanças no consumo de informação provocadas pela integração acelerada do áudio e do vídeo em nossas vidas na última década —dinâmicas que abandonaram o texto puro e simples no consumo digital—, também não deveríamos ficar surpresos com a normalização da aceleração de nossas vozes nos áudios do WhatsApp. 

A voz humana, do modo como a entendemos, também está destinada a se transformar em meio a este consumo fragmentado e pós-textual. Essa questão foi abordada recentemente pela analista de cultura visual Lauren Collee no ensaio Real Talk (“falando claramente”), publicado na revista Real Life, no qual investigou por que a voz, como a entendemos, é escondida ou alterada nos vídeos do TikTok, a rede social predileta da geração Z, pós-millennial

Diferentemente da leva anterior de criadores de conteúdos em vídeo para plataformas como Vine e Periscope, que apostavam na fala e deixavam sua voz natural ser ouvida por seus seguidores para transmitir empatia e calor humano, no TikTok é relativamente comum que influencers que movimentam o mercado e têm os maiores números de seguidores, como Charli d’Amelio (128,5 milhões de seguidores), Addison Rae (85,6 milhões) e a estrela emergente Loren Gray (54,2 milhões), nunca falem com sua voz humana para seus seguidores e optem, em sua maioria, por mímica, sincronização labial (movendo os lábios enquanto dançam) ou sons robóticos que leem mecanicamente os textos que aparecem sobrepostos aos clipes dessa rede social. 

Em seu ensaio, Collee especula que essa mudança vocal pode estar ligada à ideia de que a voz é a marca da nossa singularidade humana frente ao mundo digital e que talvez essa alteração de referentes “seja uma pequena tentativa de conservar algo do ‘eu puro’, ou da alma, um núcleo ‘não corrompido’ pela mediação tecnológica”. 

A voz humana é vista aqui como a última fronteira da nossa intimidade, o último resquício pessoal em um mundo que exige que nos expressemos e sejamos vistos sem parar. E também nesse áudio que deixamos como visualizado em nossa última interação no WhatsApp, que acabará sendo acelerado.

https://brasil.elpais.com/estilo/2021-11-21/nao-ligue-mande-um-audio-geracao-do-milenio-ja-nao-conversa-por-telefone-devido-ao-estresse.html

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A ascensão do capitalismo intangível

As únicas empresas que mantiveram as taxas de crescimento de 2019 após a pandemia foram as que tinham investido na linha completa de intangíveis

Por Eric Hazan, Jonathan Haskel e Stian Westlake – Valor 22/11/2021

Em livro de 2014, o economista Joseph E. Stiglitz, laureado com o prêmio Nobel, e Bruce C. Greenwald argumentaram que o dom mais importante da sociedade é a capacidade de aprender. Atualmente, é cada vez mais evidente que a “sociedade do aprendizado” (sociedade do conhecimento) não apenas foi criada como começa a impulsionar nossas economias.

Desde o século XIX até cerca de 25 anos atrás, as empresas, em grande medida, investiram em infraestrutura física e em maquinário, desde ferrovias até veículos. Mas no último quarto de século, os investimentos nos ativos conhecidos como intangíveis – como propriedade intelectual, pesquisa, software e qualificações de gestão e organizacionais – dispararam.

As únicas empresas que conseguiram manter as taxas de crescimento de 2019 após o advento da pandemia, foram as que tinham investido significativamente na linha completa de intangíveis: inovação, dados e análise, e capital humano e capital da marca

Recente pesquisa do McKinsey Global Institute (MGI) detectou que, em 2019, os intangíveis respondiam por 40% de todos os investimentos nos Estados Unidos e em dez economias europeias, o que representava um crescimento de 29% em relação a 1995. E o investimento em intangíveis parece ter voltado a disparar em 2020, com a aceleração da digitalização desencadeada em resposta à pandemia de covid-19.

Acreditamos que essa tendência aponta fortemente para o surgimento de um novo modelo de capitalismo, no qual o sucesso das empresas será medido mais por seu corpo de funcionários e pela capacitação deles do que por suas máquinas, produtos ou serviços. Além disso, consideramos que não há volta. Empresas como a Amazon, a Apple, o Facebook e a Microsoft estão inquestionavelmente passando por drástica ampliação e alcançando o hipercrescimento.

Os intangíveis podem estar comandando esse fenômeno. Afinal, existe, certamente, uma correlação entre os investimentos em intangíveis e o aumento da produtividade e o crescimento. A pesquisa do MGI detectou que empresas do quartil superior do crescimento investem 2,6 vezes mais em ativos intangíveis do que os 50% das empresas que ocupam o limite inferior da distribuição. No mesmo sentido, setores da economia que investiram mais que 12% de seu valor agregado bruto (VAB) em ativos intangíveis cresceram com rapidez 28% maior do que outros setores.

Economias nas quais os investimentos intangíveis estão crescendo também registram crescimento na produtividade total dos fatores. Notadamente as únicas empresas que conseguiram manter as taxas de crescimento de 2019 após o advento da pandemia, no começo de 2020, foram as que tinham investido significativamente na linha completa de intangíveis: inovação, dados e análise, e capital humano e capital da marca. Em um mundo desmaterializado, digitalizado, impulsionado pelo conhecimento, os retornos corporativos, a produtividade e o crescimento econômico estarão cada vez mais vinculados a esses ativos.

Pesquisa realizada pelo MGI entre mais de 860 executivos indica que a principal diferença entre empresas de crescimento acelerado e empresas de crescimento lento é que as primeiras não apenas investem mais em intangíveis e valorizam sua importância para aumentar a vantagem competitiva como também focam em utilizá-los de forma eficiente.

Pesquisa anterior do MGI constatou que uma característica fundamental das empresas “superstar” é seu investimento em intangíveis, que inclui gastos de grande escala para elevar as qualificações e capacitações de seus funcionários. Em 2019, por exemplo, a Amazon anunciou planos de gastar US$ 700 milhões ao longo de seis anos para retreinar 100 mil funcionários. Outras gigantes, como o Google e a IBM, desenvolveram programas semelhantes.

Mas a crescente concentração da receita e do lucro em um pequeno grupo de empresas bem-sucedidas corre o risco de aumentar as disparidades de renda e patrimônio. Empresas “superstar” altamente concentradas em intangíveis tendem a empregar menos pessoas, mais  qualificadas e mais bem-pagas, que são geralmente mais produtivas do que funcionários de empresas menos digitalizadas. Se essas “superstars” assumirem ainda mais a dianteira, a parcela da renda nacional nas mãos da mão de obra – o percentual que vai para remuneração do trabalhador – poderá cair ainda mais.

Não se pretende com isso defender que empresas bem-sucedidas, alicerçadas em intangíveis deveriam ser impedidas de continuar a se expandir ou de retreinar seu próprio quadro de funcionários. Essas empresas são fontes importantes de inovação e de crescimento de alta produtividade, e têm incentivos enormes para continuar investindo em intangíveis. Em vez disso, as empresas e governos deveriam fazer tudo o que puderem para disseminar as habilidades que abrirão oportunidades para mais pessoas físicas e jurídicas na economia digital.

Está em jogo um valor incalculavelmente grande. Em vista da crescente evidência da correlação entre investimento em intangíveis e o crescimento do VAB, executivos e autoridades deveriam se perguntar o que será necessário para concretizar as oportunidades representadas pelos intangíveis. Se um adicional de 10% das empresas chegar à mesma parcela de investimento em intangíveis e de crescimento do VAB que as campeãs de crescimento, poderá ser gerado um adicional de US$ 1 trilhão em VAB, ou um aumento de 2,7% em todos os setores das economias da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os governos podem desempenhar papel-chave em reciclagem profissional e em garantir a instauração da infraestrutura de conhecimento correta. Isso significa concentrar-se em educação, em internet e em outras tecnologias das comunicações, em gastos públicos com planejamento urbano e com a ciência.

A economia digitalizada, desmaterializada, já chegou, e sua propagação é irrefreável. O desafio é gerenciar a transição de uma maneira que beneficie os muitos, e não apenas os poucos. (Tradução de Rachel Warszawski).

Eric Hazan é sócio administrativo da McKinsey & Company e membro do Conselho do McKinsey Global Institute.

Jonathan Haskel é professor de economia do Imperial College de Londres

Stian Westlake é diretor-executivo de política e Pesquisa da Nesta. Copyright: Project Syndicate, 2021.

http://www.project-syndicate.org

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/a-ascensao-do-capitalismo-intangivel.ghtml

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Humboldt: a fascinante história do primeiro ambientalista

Por João Lara Mesquita/ Estadão 24 de novembro de 2017

Humboldt fez viagens incríveis, espantou-se com o desmatamento alertando para os efeitos no clima ainda no séc. XIX

O início do que viria a ser o movimento ambientalista no despertar do séc. 19. É disso que trata o belíssimo livro ‘A invenção da Natureza‘, contando a vida de Alexander von Humboldt. Escrito por Andrea Wulf, em 2015, foi considerado o melhor livro de não ficção pelo New York Times, The Guardian, e Time. Agora  no Brasil, em ótima tradução de Renato Marques,  editora Crítica.

desenho de Humboldt no EquadorEm viagem no Equador.

Humboldt alertou que ‘humanos estavam interferindo no clima’, isso ‘teria impacto imprevisível sobre futuras gerações’

“Ele foi o primeiro a explicar a capacidade da floresta de enriquecer a atmosfera com umidade, seu efeito resfriador, a importância da retenção da água e a proteção contra a erosão do solo. Ele alertou que os humanos estavam interferindo no clima e que isso poderia ter um impacto imprevisível sobre ‘as futuras gerações”.

A invenção da Natureza, imagem de livro A invenção da NaturezaA invenção da Natureza.

Amigo de Goethe, colega de Símon Bolivar, guru de Darwin, admirado por Thomas Jefferson; Humboldt influenciou até John Muir, o ‘pai dos parques nacionais’ norte-americanos

Ele foi o maior cientista de seu tempo. Uma ‘celebridade’ internacional. Nascido em 1769, ao longo da vida teve grande intimidade com os maiores protagonistas do momento,  e foi testemunha de alguns dos capítulos mais importantes da história moderna. Ascensão e queda de Napoleão Bonaparte, a revolução francesa e  a norte-americana; e a ‘libertação’ da América do Sul, por Símon Bolívar, foram apenas alguns. Sua maior realização foi tornar a ciência acessível e popular através de seus livros, quase todos best sellers à época; além de palestras, encontros sociais.  Influenciou toda uma geração.

Desafiando crenças milenares

Humboldt desafiou os maiores filósofos que “fizeram a cabeça” da sua, e das gerações anteriores, pelo modo de ver a natureza. Aristóteles, talvez  o primeiro, disse que ‘a natureza fez todas as coisas especificamente para os homens’; o botânico Carl Lineu, mais de 2 mil anos depois ainda evocava o mesmo sentimento. Em 1749,  insistiu que ‘todas as coisas são feitas para o homem’. Descartes  e Francis Bacon também  foram  desmistificados. O primeiro disse que ‘os humanos eram os senhores possuidores da natureza’; o segundo, que ‘o mundo é feito para os homens’. Estas eram as verdades que dominavam o sentimento mundial à época de Humboldt. Até que ele conheceu a América do Sul, e a floresta tropical…

 gravura de Humboldt em sua casaHumboldt cercado por livros em sua casa

John Muir, o pai dos parques nacionais norte-americanos

No final do verão de 1867, oito anos depois da morte de Humboldt, John Muir, então com 29 anos, fez as malas e partiu de Indianápolis para a América do Sul. Então, teria dito…

Com que intensidade desejo ser um Humboldt para ver os Andes de cumes nevados e as flores do Equador

Muir cruzou a pé os estados de Indiana, Kentucky, Tennessee, Geórgia e depois Flórida. Um périplo de 45 dias, quando seu pensamento começou a mudar. Influenciado pelos livros de Humboldt, coletava plantas, observava insetos, dormia no meio do mato, ao relento. Chegou até Cuba, mas, doente, teve que voltar. Escolheu a Califórnia.

De São Francisco, partiu a pé para Sierra Nevada, cordilheira que se estende por 643 Km de norte a sul do estado. Seu pico mais alto, 4.570 metros, fica na área central do vale de Yosemite, famoso por suas quedas-d’água circundado por gigantescos blocos de granito e despenhadeiros. Ao lado desse cenário, as ancestrais sequoias, com 90 metros de altura e cerca de 2 mil anos. Muir começou a fazer campanha a favor da criação de um parque nacional. E foi uma questão de tempo.

O Parque Nacional de Yellowstone, em Wyoming, foi o primeiro e até então único do país, inaugurado em 1872. Obra de Muir, influenciado por Humboldt. Todos os outros que vieram a seguir, e copiaram o modelo, foram extremamente bem sucedidos (Saiba mais sobre os parques nacionais norte-americanos).

Na Amazônia, o  primeiro ambientalista, Humboldt, percebeu as consequências do desmatamento e sua influência no clima

O cientista, a quem Goethe disse que ‘em oito dias lendo livros uma pessoa não aprende tanto quanto em uma hora de conversa com Humboldt’, era genial. Em pouco tempo percebeu as consequências da ação humana sobre as florestas.

Em 7 de fevereiro de 1800, Humboldt e seu criado saíram de Caracas para chegar ao Orinoco. Ao atravessarem um vale cercado por montanhas encontraram o lago de Valência. O cientista ficou fascinado. Milhares de garças, flamingos, e patos selvagens enchiam o céu de vida. Parecia idílico, mas os moradores disseram a Humboldt que os níveis de água do lago estavam baixando rapidamente.

Humboldt mediu, examinou, questionou. À medida que investigava, concluiu que o desmatamento das florestas adjacentes, e a transposição de cursos d’água para irrigação, haviam sido as causas.

Nasce a ideia da mudança do clima

Segundo Andrea Wulf,

foi lá, no lago de Valência, que Humboldt desenvolveu sua ideia de mudança do clima induzida pela ação humana.

Quando publicou suas observações, prossegue, não deixou dúvidas:

Quando as florestas são destruídas, como o são em toda parte na América por obra dos plantadores europeus, com uma precipitação imprudente, as fontes de água secam por completo.

E mais:

Desaparecendo a vegetação das encostas das montanhas, as águas das chuvas não sofrem obstrução em seu curso; durante as chuvaradas as águas sulcam os declives das colinas, empurram para baixo o solo solto, formam inundações que devastam o país.

‘Efeitos incalculáveis no clima’

Já, naquela época, Humboldt afirmava que,

os efeitos da intervenção da espécie humana eram incalculáveis e poderiam tornar-se catastróficos se o homem continuar a perturbar brutalmente o mundo

Afetando as futuras gerações

E alertou:

a ação da humanidade pode afetar as gerações futuras

‘O homem não pode agir sobre a natureza’

Mais tarde ele escreveu, desafiando tudo que se sabia até então,

O homem não pode agir sobre a natureza e não pode apropriar-se de nenhuma de suas forças para uso próprio se ele não conhecer as leis naturais.

Nascia o primeiro ambientalista.

imagem de nota de marco alemão com a figura de Humbolt

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Humboldt antecipou a teoria das placas tectônicas mais de um século antes

Ele observou a conexão entre a África e a América do Sul, para chegar à conclusão que espantou o mundo. Falou de ideias evolutivas, muito antes de Darwin publicar A Origem das Espécies.

Aliás, sua influência sobre os britânicos foi tão grande que inspirou Darwin a se engajar na viagem do Beagle… E os livros e ideias de Humboldt, criticando o colonialismo europeu, e a escravidão, fomentaram a libertação da América Latina…

Segundo Humboldt,

o colonialismo era desastroso para as pessoas e o meio ambiente (em razão da destruição das florestas para a implantação da monocultura)

E…

o dominador colonial explorava as colônias para extrair matérias-primas e, no processo, destruía o meio ambiente. Foi a barbárie europeia que criou este mundo injusto

Humboldt e Thomas Jefferson

Humboldt sempre admirou Jefferson pelo país que ele ajudara a forjar, mas se desesperava com o fato de que os líderes estadunidenses

não fazem muita coisa em nome da abolição da escravidão

Quando listou as três maneiras pelas quais a espécie humana estava alterando o clima, Humboldt citou,

desmatamento, irrigação inclemente e, talvez a forma mais profética, as grandes massas de vapor e gás produzidas nos centros industriais

Aventuras na América do Sul, Rússia, e Américas

Para chegar a estas conclusões Humboldt fez três grandes viagens, maravilhosamente descritas no livro. Entre 1799 e 1804, saiu da Europa, rumou para a Venezuela. Depois da exploração que incluiu escalar vulcões, atravessar rios, e conhecer a  floresta tropical que o fascinou, navegou para Cuba, para mais explorações.

Retornou para Bogotá, de onde foi até Lima, no Peru, atravessando os Andes. De Lima para  Guayaquil; em seguida, Cidade do México. De lá para Cuba, depois, Filadélfia, para bater um papo com Thomas Jefferson. Tentou convencer seus amigos norte-americanos, e sul-americanos, que um canal através do istmo do Panamá seria uma importante rota comercial…

E retornou para a Europa com sua bagagem lotada de anotações, medições, rochas, plantas. Escreveu dezenas de livros traduzidos para todas as línguas importantes da época.

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A invenção da Natureza. Rota da viagem pelas Américas, 1799 – 1804

A segunda viagem foi para a Venezuela, em 1800. Foi nela que ele desceu o Orinoco, e descobriu o Canal Cassiquiare, que liga as bacias do Orinoco à do Amazonas.

A terceira, e última, foi para a Rússia, em 1829, quando atravessou o imenso país de Leste para Oeste; e de volta ao Leste. Percorreu mais de 16 mil quilômetros nesse périplo, mais uma vez, fazendo incríveis descobertas.

Alguns amigos de Alexander von Humboldt

O capitão Willian Blight, do famoso motim do Bounty; Joseph Banks, botânico de James Cook; Louis Antoine de Bougainville, seu herói de infância,  e primeiro explorador a pôr os pés no Taiti, em 1768; Símon Bolívar, a quem influenciou para que libertasse a América Latina, e que o desapontou ao se impor como ‘Imperador”.

Celebrou seu aniversário de 60 anos na companhia do boticário local, um homem de quem a história se lembraria como avô de Vladimir Lenin; sem falar em dezenas de reis, poetas, escritores, artistas, e toda a aristocracia europeia que o admirava profundamente.

imagem de selo alemão com figura de HumboltA invenção da Natureza

imagem de selo venezuelano com figura de Humboldt
imagem de selo-mexicano com figura de Humbolt

Foi etnógrafo, antropólogo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico, vulcanólogo e humanista.

Morreu aos 90 anos, em 1859, coberto de glória e reconhecimento.

Seus livros se tornaram best sellers

Escreveu dezenas de livros que venderam milhares de cópias em todo o mundo mas, segundo a autora,

uma de suas maiores realizações foi tornar a ciência acessível e popular.

E a autora conclui:

A sensação é que fechamos o ciclo. Talvez agora seja o momento em que nós e o movimento ambientalista devamos corrigir os desvios de rota, recolocando Alexander von Humboldt no papel de nosso herói.

A invenção da Natureza. Todo ambientalista tem que ler

Incrivelmente, ele é pouco reconhecido hoje

Este o grande valor de,  ‘A invenção da Natureza – A vida e as descobertas de Alexander von Humboldt‘, recolocar o personagem em seu lugar de destaque.

Que este belo livro seja lido, e suas lições aprendidas, ainda que mais de 150 anos depois da morte de seu protagonista. Quem sabe deixemos de fazer as bobagens que hoje são feitas, que persistem destruindo nossa biodiversidade.

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Quais dados íntimos a Amazon coleta de seus clientes e como faz isso

Empresa pode manter contatos de telefone, pesquisas, hábitos de leitura e condições de saúde de usuários

Chris Kirkham e Jeffrey Dastin LONDRES | REUTERS/Folha 19/11/2021

Como legislador no Estado norte-americano da Virgínia, Ibraheem Samirah estudou questões de privacidade na internet e debateu a regulamentação da coleta de dados privados pelas empresas de tecnologia. Ainda assim, ele ficou surpreso ao saber todos os detalhes que a Amazon.com coletou sobre ele.

A empresa possuía mais de mil contatos de seu telefone. Também tinha registros de exatamente qual parte do Alcorão ele ouviu em 17 de dezembro do ano passado. A Amazon sabia ainda todas as pesquisas que ele fez na plataforma da empresa, incluindo uma busca por livros sobre “organização comunitária progressiva” e outras mais delicadas, relacionadas à saúde, e que ele acreditava serem privadas.

“Eles estão vendendo produtos ou espionando pessoas comuns?” questionou Samirah, um membro do partido democrata na casa legislativa da Virgínia.

Logo da Amazon – Reuters

Samirah esteve entre os poucos legisladores da Virgínia que se opuseram a um projeto de lei estadual sobre privacidade, elaborado pela Amazon e favorável à indústria. O texto foi aprovado no início deste ano. À pedido da Reuters, Samirah solicitou à Amazon a divulgação dos dados que coletou sobre ele.

A companhia reúne uma vasta gama de informações sobre seus clientes nos EUA e começou a disponibilizar esses dados para todos, mediante solicitação, no início do ano passado. O movimento ocorreu depois que a Amazon tentou, e não conseguiu, derrotar uma medida de 2018, na Califórnia, que exigia tais divulgações. (Os clientes da Amazon nos EUA podem obter seus dados preenchendo um formulário na Amazon.com.)

Sete repórteres da Reuters também obtiveram seus respectivos arquivos mantidos pela Amazon. Os dados revelam a capacidade da empresa de reunir retratos incrivelmente íntimos dos consumidores.

A empresa coleta dados por meio de sua assistente de voz Alexa, de seu marketplace, do Kindle, de audiolivros pelo Audible, de suas plataformas de vídeo e música, de câmeras de segurança doméstica e de monitores de atividade física. Dispositivos habilitados para a Alexa fazem gravações dentro das casas das pessoas, e câmeras de segurança Ring capturam todos os visitantes.

Essas informações podem revelar a altura, o peso e as condições de saúde de uma pessoa; sua etnia (por meio de pistas contidas em dados de voz) e inclinações políticas; seus hábitos de leitura e compra; seu paradeiro em um determinado dia e, às vezes, quem ela encontrou.

O dossiê de um repórter mostra que a Amazon coletou, por meio da Alexa, mais de 90 mil gravações de familiares entre dezembro de 2017 e junho de 2021 —uma média de cerca de 70 por dia. As gravações incluem detalhes como os nomes de seus filhos pequenos e suas músicas favoritas.

A companhia gravou as crianças perguntando como convencer os pais a deixá-las “brincar”, e recebendo instruções detalhadas da Alexa sobre como persuadi-los a comprar videogames. Estejam totalmente preparadas, aconselhou a Alexa às crianças, para refutarem argumentos comuns dos pais, como “é muito violento”, “muito caro” e “você não está indo bem na escola”. A informação veio de um site externo utilizado pela Alexa, chamado “wikiHow”, que fornece instruções sobre como fazer algo através de mais de 180 mil artigos, de acordo com o site da Amazon.

A Amazon disse que não é dona do wikiHow, mas que a Alexa, às vezes, responde a solicitações usando informações retiradas de sites.

Algumas gravações envolveram conversas entre membros da família, que usaram a Alexa para se comunicarem entre diferentes partes da casa. Várias gravações capturaram crianças se desculpando com seus pais após serem advertidas. Outras registraram os pequenos, de 7, 9 e 12 anos, questionando à Alexa sobre termos como “pansexual”.

Em certa gravação, uma criança pergunta: “Alexa, o que é uma vagina?” Em outra: “Alexa, o que significa escravidão?”

O repórter não percebeu que a Amazon estava armazenando as gravações antes da divulgação dos dados.

A Amazon diz que os produtos Alexa são projetados para gravar o mínimo possível: começa após a palavra de gatilho, “Alexa”, e encerra quando o comando do usuário chega ao fim. Os registros da família do repórter, no entanto, às vezes capturavam conversas mais longas.

Em um comunicado, a Amazon disse que tem cientistas e engenheiros trabalhando para melhorar a tecnologia e evitar gatilhos falsos que levam à gravação. A empresa afirmou que alerta os clientes sobre o armazenamento das gravações quando a conta na Alexa é configurada.

Além disso, a companhia disse que a coleta dados pessoais serve para melhorar produtos e serviços e personalizá-los para os indivíduos. Questionada sobre os registros de Samirah ouvindo o Alcorão, a Amazon disse que tais informações permitem aos clientes continuar de onde pararam anteriormente.

A única maneira de os consumidores excluírem muitos desses dados pessoais é encerrando suas contas, disse a Amazon. Ainda assim, a empresa afirmou que retém algumas informações, como o histórico de compras, mesmo depois do encerramento da conta devido a obrigações legais.

A Amazon também disse que permite aos clientes o ajuste das configurações em assistentes de voz e outros serviços, para limitar a quantidade de dados coletados. Os usuários da Alexa, por exemplo, podem impedir que a empresa salve o conteúdo coletado ou optar por excluí-lo automaticamente de forma periódica. É possível ainda, segundo a companhia, desconectar seus contatos ou calendários dos dispositivos, caso o cliente não queira usar as funções de ligação ou de agenda da Alexa.

Um cliente pode optar por não ter suas gravações da Alexa analisadas, mas deve navegar por uma série de menus e dois avisos que dizem: “Se você desligar isso, o reconhecimento de voz e os novos recursos podem não funcionar bem.” Questionada sobre os avisos, a Amazon disse que os consumidores que limitam a coleta de dados podem não ser capazes de personalizar alguns recursos, como a reprodução de música.

Samirah, 30, ganhou uma Alexa no final do ano passado. Ele disse que usou o produto por apenas três dias antes de devolvê-lo, após perceber a coleta de gravações.

O aparelho já havia reunido todos os seus contatos telefônicos, como parte de um recurso de ligações. Segundo a Amazon, os usuários da Alexa devem dar permissão de acesso aos contatos telefônicos. Para excluir os registros de sua conta Amazon, os clientes devem desabilitar esse acesso, não apenas excluir o aplicativo da Alexa.

Samirah afirmou que também ficou nervoso com o fato de a Amazon ter registros detalhados de suas sessões de leitura em audiolivros e no Kindle. Encontrar informações sobre como ouviu o Alcorão, disse ele, fez-o pensar sobre a história da polícia e das agências de inteligência dos EUA, que vigiam muçulmanos por suspeitas de ligações terroristas após os ataques em 11 de setembro de 2001.

“Por que eles precisam saber disso?”, questionou. O mandato de Samirah termina em janeiro, já que ele não foi reeleito ao cargo.

Às vezes, agências de segurança dos Estados Unidos procuram dados sobre clientes de empresas de tecnologia. A Amazon diz que cumpre os mandados de busca e outras ordens judiciais relacionadas, mas se opõe a “solicitações excessivas ou inadequadas”.

Dados da empresa referentes aos três anos encerrados em junho de 2020, os mais recentes disponíveis, mostram que a empresa cumpriu pelo menos parcialmente com 75% das intimações, mandados de busca e outras ordens judiciais que miraram dados de clientes nos EUA. Foram atendidas plenamente 38% dessas solicitações.

No ano passado, a empresa parou de divulgar a frequência com que atende a essas solicitações. Questionada sobre o motivo, a Amazon disse que expandiu o escopo do relatório para torná-lo global e tornou mais simples as informações de cada país.

A Amazon afirmou que é obrigada a cumprir decisões válidas e vinculativas, mas que seu objetivo é liberar “o mínimo” exigido por lei.

Amazon anuncia novos dispositivos

A política de privacidade da Amazon, documento que contém mais de 3.500 palavras, além de links para mais de 20 outras páginas, dá a empresa ampla liberdade para coletar dados. A Amazon disse que a política descreve a coleta, uso e compartilhamento de dados “de uma forma que seja fácil para os consumidores entenderem”.

Essas informações coletadas podem ser bastante pessoais. O Kindle, por exemplo, rastreia com precisão os hábitos de leitura de um usuário, mostrou o arquivo de dados da Amazon de outro repórter. A divulgação incluiu registros de mais de 3.700 sessões de leitura desde 2017, incluindo data e hora —até o milissegundo— do conteúdo consumido. A Amazon também rastreia palavras destacadas ou pesquisadas, páginas viradas e promoções vistas.

O registro mostrou, por exemplo, que um membro da família do repórter leu “The Mitchell Sisters: A Complete Romance Series” em 8 de agosto de 2020, a partir das 16h52 até 19h36, folheando 428 páginas.

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