Metaverso atrai empreendedores brasileiros, que já fazem dinheiro com a nova fronteira da internet

No Brasil, só no setor audiovisual, há pelo menos 138 empresas atuando em experiências imersivas, segundo o “Mapeamento do Ecossistema XR

Carolina Nalin – O Globo 08/05/2022 

Traço virtual - A estilista Olivia Merquior é diretora criativa da Dacri Deviati, dirige sua própria start-up de moda digital e dá consultoria para marcas reais Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O GloboTraço virtual – A estilista Olivia Merquior é diretora criativa da Dacri Deviati, dirige sua própria start-up de moda digital e dá consultoria para marcas reais Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo

RIO – Aposta das gigantes da tecnologia, o chamado metaverso promete integrar os ambientes físico e digital por meio de uma combinação de novas soluções. Esse futuro já é realidade para muitas empresas, incluindo mais de 130 no Brasil que fazem dinheiro com inserções em realidade virtual (RV) e aumentada (RA) e outras inovações precursoras dessa evolução da internet que já estão em uso e têm grande potencial econômico, segundo especialistas.

A corrida por um lugar ao sol nesse mercado mobiliza não só big techs, mas empresas de diferentes portes que devem movimentar entre US$ 8 trilhões e US$ 13 trilhões no mundo até 2030, segundo um relatório do Citi, com cerca de 5 bilhões de usuários.

METAVERSO: VEJA COMO ESTÁ SENDO DESENVOLVIDO O ESPAÇO VIRTUAL IDEALIZADO POR ZUCKERBERG

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Metaverso: Ambiente que mescla físico e virtual é a nova aposta de Zuckerberg Foto: Reprodução/FacebookMetaverso: Ambiente que mescla físico e virtual é a nova aposta de Zuckerberg Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso idealizado por Zuckerberg, mundos virtuais em 3D poderão se conectar com experiências reais Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso idealizado por Zuckerberg, mundos virtuais em 3D poderão se conectar com experiências reais Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, corpos físicos se misturam com avatares e público poderá curtir um evento sem que o espaço físico limite o tamanho do público no local Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, corpos físicos se misturam com avatares e público poderá curtir um evento sem que o espaço físico limite o tamanho do público no local Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, fronteira entre o físico e o digital é interrompida Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, fronteira entre o físico e o digital é interrompida Foto: Reprodução/FacebookNo novo ambiente 'metaversal', artes serão em 3D e poderão proporcionar experiência imersiva Foto: Reprodução/FacebookNo novo ambiente ‘metaversal’, artes serão em 3D e poderão proporcionar experiência imersiva Foto: Reprodução/Facebook

No metaverso, ações do mundo físico podem ser reproduzidas no mundo digital e vice-versa Foto: Reprodução/FacebookNo metaverso, ações do mundo físico podem ser reproduzidas no mundo digital e vice-versa Foto: Reprodução/FacebookExperiência imersiva deve mudar a forma como realizamos compras Foto: Reprodução/FacebookExperiência imersiva deve mudar a forma como realizamos compras Foto: Reprodução/Facebook

No Brasil, só no setor audiovisual, há pelo menos 138 empresas atuando em experiências imersivas, segundo o “Mapeamento do Ecossistema XR (realidade estendida) no Brasil”, realizado entre julho e agosto de 2020 por UFSCar e UFRJ, com apoio do Instituto de Conteúdos Audiovisuais Brasileiros (ICAB). Embora cerca de 50% delas se encontrem no estágio emergente ou de start-up, empreendedores e empresas brasileiras contam que já estão lucrando nessa área.

Realidade aumentada

Uma delas é a R2U, start-up criada em 2016 em São Paulo com foco em realidade aumentada. A empresa tem soluções como a que permite ao consumidor visualizar um produto em 3D num site de vendas até a projeção do item customização em tamanho real do ambiente. Quem compra uma cadeira pode, por exemplo, checar se ela fica bem em sua mesa.

Simulação na tela - CEO da R2U, Caio Jahara, de 29 anos, testa solução de realidade aumentada que permite visualizar produtos como uma cadeira em uma sala Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O GloboSimulação na tela – CEO da R2U, Caio Jahara, de 29 anos, testa solução de realidade aumentada que permite visualizar produtos como uma cadeira em uma sala Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo

Comandada pelo CEO Caio Jahara, a empresa levantou, no início de 2020, US$ 800 mil numa rodada de investimentos liderada pelo fundo de capital de risco Canary, com a participação de NorteVC, EquitasVC e Coteminas. No ano passado, logo após o Facebook mudar seu nome corporativo para Meta — refletindo a aposta do fundador Mark Zuckerberg no metaverso —, a R2U lançou a Converge, unidade focada em serviços para o metaverso. E deslanchou no e-commerce.

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— Oferecemos uma solução para empresas entrarem no metaverso. Desenvolvemos a estratégia, o conceito e implementamos os anéis de valor necessários ao projeto: da locação de terras (digitais), passando pela modelagem 3D dos espaços, gamificação e montagem de NFTs até a portais de pagamento. Hoje, temos mais de 40 clientes — diz Jahara.

O desenvolvimento de espaços virtuais em 3D, com navegação 360°, é um dos serviços mais procurados pelos clientes da Pixit, criada em 2009. A martech (como são chamadas start-ups de marketing digital) paulistana comandada por Flávio Machado acompanhou boa parte da evolução da internet: começou com compressão de vídeos curtos, produziu conteúdo em vários formatos, e, desde 2019, cria ambientes virtuais — ou “metaversos”, como define o executivo — ao unir software 3D de arquitetura com sistema de gestão de conteúdo.

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Na carteira de clientes estão empresas que vão do agro à química, como Basf, Syngenta, Coopercitrus, Janssen e Braskem. Um dos seus primeiros desafios foi, no início da pandemia, realizar uma feira on-line com 140 expositores que ocuparia 12 mil metros quadrados na vida real.

— Foi nossa prova de fogo. Construímos esse ambiente em 40 dias e foi um sucesso no ar — conta Machado, que investe 22% da receita líquida em pesquisa e desenvolvimento e não para de contratar. — Em 2020, tínhamos 32 colaboradores, hoje temos 80, e provavelmente abriremos este ano de 40 a 50 vagas. No Brasil, não temos essa cultura de investir em pesquisa, mas isso sempre foi um drive nosso.

Olivia Merquior estuda há anos a relação entre moda e inovação e acabou se tornando uma das maiores especialistas na chamada moda imersiva do país. Em 2017, quando foi ao festival da indústria criativa South by Southwest (SXSW), nos EUA, o lançamento de uma jaqueta conectada da Google com a Levi’s a inspirou numa jornada rumo a criações disruptivas nessa área.

— Ali me deu um estalo. Entendi que a tecnologia ia migrar para a moda porque eles (as big techs) entenderam o que fazemos: criamos desejos imaginários — conta a estilista digital, que vive no Rio.

Em 2019, Olivia apresentou, junto com o designer Lucas Leão, um avatar em 3D na São Paulo Fashion Week (SPFW). Em 2020, os dois levaram uma coleção de roupas em vídeo 3D à Brasil Immersive Fashion Week, primeira semana de moda imersiva da América Latina criada por Olivia.

 Em outubro, a terceira edição vai reunir marcas tradicionais e digitais, com exposição de roupas virtuais, desfiles em realidade aumentada e outros recursos.

Feira on-line - Desenvolvimento de espaços virtuais em 3D para encontros empresariais é um dos serviços mais vendidos pela Pixit, dirigida por Flávio Machado Foto: Edilson Dantas / Agência O GloboFeira on-line – Desenvolvimento de espaços virtuais em 3D para encontros empresariais é um dos serviços mais vendidos pela Pixit, dirigida por Flávio Machado Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

A estilista também é diretora da Dacri Deviati, empresa onde presta consultoria para marcas do mundo real, e lidera a IaraLand, uma start-up que fundou com foco em experiências imersivas como usar uma roupa que na verdade é um filtro que só aparece na rede social. A mais recente produção foi para um camarote do sambódromo do Rio, que contemplou, entre as ações, uma réplica do espaço na plataforma Sandbox, além da criação de looks digitais ativados por QR Code.

Tudo projetado via realidade aumentada e com venda de NFTs (tokens não-fungíveis, espécie de certificado digital único cujo registro é feito via blockchain, a tecnologia por trás de moedas virtuais) de grandes personalidades femininas do samba.

— Com a Dacri, tenho feito workshops em grandes empresas que procuram uma educação sobre o tema. Muitas querem entender o que é metaverso, blockchain, Web3, como é possível usar filtros de roupas digitais. Já na IaraLand, as pessoas procuram a gente para a criação de coleções digitais, filtros e metaversos. São tantas possibilidades — afirma.

Habilidades valorizadas

Na avaliação de Rodrigo Terra, presidente da Abragames, que reúne produtores de jogos eletrônicos, o Brasil tem características como a alta adesão à tecnologia e às redes sociais, que podem posicionar bem o país no desenvolvimento dessa economia do metaverso:

— Somos conhecidos pelo talento, criatividade, soluções e nosso jeito de fazer. Esse nosso jogo de cintura é muito valorizado lá fora porque a gente consegue propor novas soluções em mercado onde as pessoas não estão acostumadas a trabalhar assim (de forma disruptiva).

CONHEÇA OS NEGÓCIOS DE ELON MUSK, HOMEM MAIS RICO DO MUNDO

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O primeiro negócio de Musk foi a Zip2, empresa de software web que fundou com seu irmão Kimbal e com o sócio Greg Kouri. Companhia foi vendida em 1999 por US$ 305 milhões para a Compaq Computer Foto: ArquivoO primeiro negócio de Musk foi a Zip2, empresa de software web que fundou com seu irmão Kimbal e com o sócio Greg Kouri. Companhia foi vendida em 1999 por US$ 305 milhões para a Compaq Computer Foto: ArquivoMusk co-fundou a X.com em 1999, empresa de pagamento de serviços financeiros on-line e de e-mail. O negócio se fundiu com a Confinity, uma instituição de operações financeiras. Fusão entre as duas companhias deu origem ao Paypal, depois vendido para o Ebay por US$ 1,5 bilhão em 2002 Foto: .Musk co-fundou a X.com em 1999, empresa de pagamento de serviços financeiros on-line e de e-mail. O negócio se fundiu com a Confinity, uma instituição de operações financeiras. Fusão entre as duas companhias deu origem ao Paypal, depois vendido para o Ebay por US$ 1,5 bilhão em 2002 Foto: .Musk se tornou dono do Twitter ao anunciar compra da plataforma por US$ 44 bilhões Foto: Michael Nagle / BloombergMusk se tornou dono do Twitter ao anunciar compra da plataforma por US$ 44 bilhões Foto: Michael Nagle / BloombergDepois de acumular uma fortuna de cerca de US$ 100 milhões ao vender seus empreendimentos, Musk fundou a Space Exploration Technologies Corp. em maio de 2002 Foto: ReproduçãoDepois de acumular uma fortuna de cerca de US$ 100 milhões ao vender seus empreendimentos, Musk fundou a Space Exploration Technologies Corp. em maio de 2002 Foto: ReproduçãoMusk liderou a rodada de investimento na Tesla em 2004 e se tornou presidente do conselho de administração da empresa, hoje maior montadora de veículos elétricos do mundo. Valor de mercado da Tesla subiu para mais de US$ 1 trilhão este ano, tornando-a mais valiosa do que a Ford e a General Motors juntas Foto: Aly Song / REUTERSMusk liderou a rodada de investimento na Tesla em 2004 e se tornou presidente do conselho de administração da empresa, hoje maior montadora de veículos elétricos do mundo. Valor de mercado da Tesla subiu para mais de US$ 1 trilhão este ano, tornando-a mais valiosa do que a Ford e a General Motors juntas Foto: Aly Song / REUTERS

Start-up Neuralink foi criada em 2016 por Musk e visa unir a mente humana a computadores. Projeto inclui implantar chips no cérebro para ajudar a curar doenças neurológicas e, finalmente, fundir a humanidade com a inteligência artificial Foto: BloombergStart-up Neuralink foi criada em 2016 por Musk e visa unir a mente humana a computadores. Projeto inclui implantar chips no cérebro para ajudar a curar doenças neurológicas e, finalmente, fundir a humanidade com a inteligência artificial Foto: BloombergOutra start-up de Musk é a Boring Company, empresa de infraestrutura que tem o objetivo de melhorar a mobilidade nas cidades a partir da construição de redes de transporte em túneis subterrâneos profundos Foto: ROBYN BECK / AFPOutra start-up de Musk é a Boring Company, empresa de infraestrutura que tem o objetivo de melhorar a mobilidade nas cidades a partir da construição de redes de transporte em túneis subterrâneos profundos Foto: ROBYN BECK / AFP

As empresas que exploram o metaverso estão atrás de pessoas familiarizadas não só com tecnologia, mas também com metodologia ágil, forma comum de conduzir projetos na área de TI. Surgem profissões como modelador 3D, artista técnico, world builder e level designer. No campo criativo, profissionais com capacidade de visualizar espaços e contar histórias de maneira imersiva (storyliving e storytelling) também são demandados

— Tem o desafio da escassez de talentos de tecnologia, muito devido ao pouco incentivo para que o país se desenvolva nessa área, além da evasão de cérebros, com oportunidades melhores no exterior — diz Luiz Othero, diretor executivo da Abstartups, que reúne empresas de base tecnológica. — Outro desafio é a exclusão digital. É necessário que as pessoas tenham acesso a uma boa conexão à internet, e essa não é a realidade no Brasil. Ainda é cedo para dizer como esses desafios serão contornados.

Outra companhia que já usa tecnologias do metaverso é a produtora Broders, criada em 2016. Seu braço de interatividade desenvolve experiências imersivas de entretenimento e educação a partir de projetos de realidade virtual. Com operação também em Miami, nos EUA, já lançou projetos em mais de 20 países.

Entre os clientes estão companhias como Ford, Samsung, Mobil, Mastecard, Claro e Ericsson. Com estas duas últimas, atuou com a YDreams Global para viabilizar a holografia ao vivo, via 5G, de um show dos estúdios da Claro, exibido no palco do Allianz Parque, em São Paulo. Cinco estações de streaming 360º filmavam o palco no estúdio e transmitiam as imagens para os óculos de realidade virtual usados pelo público.

— Ao colocar o headset, era como se você estivesse com a orquestra no palco. Foi uma experiência bem bacana. Deu pra gente experimentar essas novas redes e pôr à prova a velocidade e a latência que elas são capazes de entregar — conta Bruno Pedroza, sócio-fundador e gerente de XR da Broders Interactive.

Pedroza revela que a companhia tem trabalhado internamente na criação de uma start-up spin-off voltada para empresas do ramo educacional, prevista para ser lançada no ano que vem. O intuito é abarcar todo o know-how construído até agora, que envolve a criação de conteúdo e softwares de realidade virtual para plataformas de ensino.

No mercado publicitário, os sócios Claudio Lima, Bernardo Mendes e Evandro Guimarães fundaram a Druid Creative Gaming, em janeiro do ano passado, preenchendo uma lacuna do setor que não desenvolvia soluções robustas para a conexão de grandes marcas com os influenciadores e o público gamer.

Os números dão a tônica do sucesso da agência: o faturamento registrado no ano passado foi próximo de R$ 58 milhões, e a empresa já conta com 78 funcionários em pouco mais de um ano. Entre os 35 clientes já atendidos estão empresas como o Itaú, grupo Boticário, Submarino, que querem conectar suas marcas com o público gamer — hoje, cerca de 74,5% da população brasileira afirma jogar algum tipo de jogo, segundo a nona edição da Pesquisa Game Brasil (PGB).

Desde a sua criação, a Druid já participou de 29 integrações de marcas em jogos, a chamada estratégia de in game integration. Uma das mais recentes foi o show do rapper Emicida, no Fortnite, no último 29 de abril.

Emicida se tornou o primeiro artista brasileiro a ter um show no jogo. A iniciativa contou com a cocriação da equipe do Lab Fantasma e da própria Epic Games, junto com a divulgação e comunicação da Druid.

— Acho que as próprias marcas estão começando a olhar essas plataformas de games não só como algo para trazer a sua marca e fazer parte, mas também criar produtos e serviços específicos para esse tipo de comunidade. Hoje já se testam modelos de negócio de marcas dentro dessas plataformas, o que, se bem sucedido, vai causar um boom ainda maior nesse mercado como um todo. Nossas expectativas são positivas para o crescimento desse assunto no país — conta Bernardo Mendes, fundador e diretor executivo de negócios da Druid.

O que as empresas buscam

Familiaridade com tecnologia

  • As empresas que exploram o metaverso estão atrás de pessoas familiarizadas não só com tecnologia, mas também com metodologia ágil, forma comum de conduzir projetos na área de TI.

Habilidades com game engine

  • A indústria de XR traz bastante profissionais da indústria de jogos. Profissões como modelador 3D, artista técnico – responsável por construir a parte de textura e materiais dos objetos e personagens nas game engines -, level designer – criação de níveis, campanhas e missões em jogos eletrônicos -, world builder – capaz de criar mundos complexos – também seguem em alta.

Desenvolvimento

  • O setor técnico que continua sendo requisitado é o de desenvolvedores. Programador de C#, programador C++, blueprints, e Script Visual são bem requisitados. “Com certeza web developers com habilidade em WebGL e alguns outros motores gráficos que permitem renderização 3D e RA e RV na web, além de desenvolvedores acostumados com mobile pra desenvolver RA, desenvolvedores Android e iOS“, complementa Pedroza, da Broders.
  • “Hoje, existem muitas vagas para programadores especializados nessas inúmeras linguagens e plataformas de metaverso. É difícil achar mão de obra qualificada. Não é necessário você ser formado numa graduação clássica, você pode ser muito bom em uma linguagem, como fazem muitos desenvolvedores hoje”, diz Mendes, da DRUID.

Criatividade:

  • No campo criativo, profissionais com boa capacidade de visualizar espaços e contar histórias de maneira imersiva – storytelling e storyliving – também são demandados. “O mercado criativo é o que faz experiência acontecer”, complementa Mendes.

Community manager:

  • O profissional dessa área é responsável por construir e gerenciar as comunidades e redes sociais, fazendo interações e representando a forma como a marca se comunica com os usuários. Aqui se encaixam profissionais de diferentes áreas, incluindo comunicação e marketing.
  •  “O importante é se envolver, ter curiosidade, não ter preguiça de se jogar, mergulhar nas notícias do meio, participar das comunidades, ficar atento ao que está saindo de novidade. Se tiver condições, comprar óculos e experimente participar do mundo”, sugere Pedroza.

 ttps://oglobo.globo.com/economia/negocios/metaverso-atrai-empreendedores-brasileiros-que-ja-fazem-dinheiro-com-nova-fronteira-da-internet-25503298

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Cadê todo mundo que pediu demissão? Eles estão trabalhando

Movimento de demissões em massa nos EUA e em outros países acabou se tornando troca de emprego por melhores salários e benefícios

Emma Goldberg, The New York Times/Estadão 29 de maio de 2022 | 

Se o Applebee’s fosse o sistema solar – e durante quase seis anos, foi isso que ele pareceu para Nick Haner – o cliente sempre foi o sol. Tudo girava em torno dele. O cliente estava sempre certo, disseram a Haner. Até mesmo quando o cliente cuspiu na cara dele. Quando gritou que a salada deveria ter sido servida quente, não fria. Mesmo quando o cliente rasgou pela metade a gorjeta de U$2.

Mas algo aconteceu no ano passado e fez mudar aquela órbita. Tudo começou com as placas que Haner viu surgindo nas vitrines enquanto dirigia para o trabalho: “Estamos contratando!”. O McDonald’s estava contratando. A Walgreens estava contratando. O Taco Bell estava fechando mais cedo devido à falta de funcionários. Todos em Midland, no Michigan, ao que parecia, precisavam de trabalhadores. Então Haner começou a se perguntar: por que o trabalho não deveria girar em torno de pessoas como ele?

ctv-mpo-porsha-sharon-emprego-carreira-foto-brittany-greeson-new-york-t i m e sPorsha Sharon deixou o trabalho em uma pizzaria e aceitou uma oferta de emprego para trabalhar como assistente administrativa em um escritório de advocacia. Foto: Brittany Greeson/The New York Times

“É uma loucura absoluta”, disse Haner, 32 anos, que pediu demissão do Applebee’s no ano passado e aceitou um emprego totalmente remoto no setor de vendas de uma empresa de tecnologia. “Decidi arriscar porque pensei: ‘se não der certo, posso encontrar outras cem vagas por aí’.”

Mais de 40 milhões de pessoas deixaram seus empregos no ano passado, muitas nos setores de varejo e hospitalidade. Isso foi chamado primeiramente de a Grande Renúncia, e, depois, por uma enxurrada de outros nomes: a Grande Renegociação, a Grande Reorganização e o Grande Repensar. Mas as pessoas não estavam deixando de trabalhar completamente. Elas ainda precisavam ganhar dinheiro. Grande parte das ajudas financeiras devido à pandemia pararam no segundo semestre, e os montantes disponíveis nas poupanças caíram para o menor nível em nove anos, 6,4%; em janeiro. O que os trabalhadores perceberam, no entanto, é que eles poderiam encontrar maneiras melhores de ganhar a vida. Melhores salários. Expedientes estáveis. Flexibilidade. Eles esperavam mais de seus empregadores e pareciam estar conseguindo isso.

O Applebee’s disse que a segurança de seus funcionários e clientes era uma prioridade. “Comportamento agressivo de qualquer tipo não é permitido”, disse Kevin Carroll, diretor de operações da empresa.

Em todo os Estados Unidos, os trabalhadores tinham oportunidades abundantes e podiam rejeitar o que antes eram forçados a tolerar – fossem chefes rígidos ou abuso de clientes. E para manter os negócios funcionando, os chefes tiveram que começar a escutá-los.

“As pessoas veem isso como uma rejeição ao trabalho, mas eu vejo como as pessoas tirando proveito de uma abundância de oportunidades de emprego”, disse Nick Bunker, diretor de pesquisa econômica para a América do Norte no laboratório de contratação do site Indeed.  “As pessoas precisam pagar as contas.”

Conforme as vacinas e as ajudas financeiras foram disponibilizadas no ano passado, os governos estaduais e locais incentivaram um retorno à normalidade, as empresas ficaram desesperadas por trabalhadores. Os profissionais aproveitaram o momento para reavaliar o que esperavam de seus empregadores. Isso não quis dizer que milhões ficaram sem trabalhar para sempre e se livraram de seus computadores. Significou que os trabalhadores com salários baixos penduraram os aventais e se dirigiram para outros locais de trabalho com a placa “estamos contratando” na porta. Também quis dizer que os trabalhadores de escritório, encorajados pelo mercado de trabalho aquecido, disseram aos seus empregadores exatamente como e onde queriam trabalhar.

“Nossos funcionários têm o poder”, disse Tim Ryan, presidente da PwC nos EUA, que está no meio de uma transição de três anos que possibilita um estilo de trabalho mais flexível, inclusive permitindo que grande parte dos funcionários continue trabalhando de forma remota permanentemente, um processo que Ryan calcula ser um investimento de US$ 2,4 bilhões.

Essa transição de local de trabalho é tão magnífica que o executivo da empresa de 55 mil funcionários teve de descrevê-la com uma referência da Disney de 2003.

“Há uma fala em ‘Piratas do Caribe’ – tenho seis filhos – onde um dos personagens diz a Elizabeth: ‘Você acredita em pesadelos? Deveria, porque estamos vivendo em um’”, continuou Ryan, com uma memória impressionante, mas um pouco equivocada do capitão. O diálogo do personagem Hector Barbossa é sobre histórias de fantasmas. “Estamos vivendo essa transformação incrível do local de trabalho e nem nos damos conta porque estamos imersos todos os dias participando dela.”

Muitos daqueles que pediram demissão no ano passado, na verdade, são pessoas que costumam trocar de emprego, de acordo com dados da Secretaria de Estatísticas Trabalhistas dos EUA e do censo americano, que mostram uma correlação de quase 1 para 1 entre a taxa de pedidos de demissão e a troca de emprego. Esses profissionais tendem a ser de setores como lazer, hospitalidade e varejo. A taxa de demissão de trabalhadores dos ramos de lazer e hospitalidade subiu de 4% para quase 6%, desde o início da pandemia. No varejo, ela saltou de 3,5% para quase 5%. Os empregadores de trabalhadores de escritório ainda estão tendo dificuldades para contratar, mas viram muito menos pessoas deixando seus empregos. A taxa de pedidos de demissão no setor de finanças, por exemplo, caiu no início da pandemia e agora está um pouco abaixo de 2%, e nas atividades de mídia e tecnologia, ela permaneceu quase estável, também abaixo de 2%.

Quando os trabalhadores trocavam de emprego, muitas vezes passavam a ganhar mais. Os salários cresceram aproximadamente 10% nos setores de lazer e hospitalidade no último ano, e mais de 7% no do varejo. Os profissionais também conseguiram aumentar o número de horas trabalhadas, já que as porcentagens daqueles que trabalhavam meio período diminuíram involuntariamente.

Uma pequena parcela de pessoas deixou completamente de trabalhar, embora a maior parte dela tenha sido de homens mais velhos que se aposentaram antes dos 65 anos – e alguns deles agora estão voltando ao batente. A discrepância entre baby boomers que se aposentam e um grupo menor de jovens que ingressam no mercado de trabalho também contribuiu para a escassez na oferta de mão de obra. Mas, de um modo geral, as pessoas não deixaram de trabalhar e não podem se dar ao luxo de fazer isso. O ano passado trouxe menos pedidos de demissão e mais negociações – para novos empregos, melhores expedientes e salários.

ctv-96k-lyssa-walker-white-emprego-carreira-foto-sarah-silbiger-new-york-t i m e sLyssa Walker White trocou de emprego no início deste ano por causa da expectativa de seu antigo empregador de que ela voltasse ao local de trabalho. Foto: Sarah Silbiger/The New York Times

Na verdade, os trabalhadores não mudaram seus sentimentos em relação ao trabalho; eles mudaram suas expectativas. “A maioria das pessoas nunca quis trabalhar e só trabalha porque precisa disso para viver”, disse Rebecca Givan, professora de estudos do trabalho da Universidade Rutgers. “Agora os trabalhadores estão dizendo: ‘Vamos fazer nossos chefes assumirem a responsabilidade e exigir mais deles’.”

Porsha Sharon, 28 anos, ainda lembra dos acessos de raiva que testemunhou de clientes que ela atendeu no ano passado na Buddy’s Pizza em Troy, no Michigan. Uma mulher entrou no restaurante e simplesmente pediu uma pizza e Porsha respondeu, apontando para o extenso cardápio: “De qual sabor?”.

“Você não ouviu o que eu disse?”, a cliente respondeu, de acordo com a lembrança de Sharon. “Você é burra?”

Outros clientes zombaram de Porsha por ela usar uma máscara. Os expedientes de oito horas terminavam com pés inchados e doloridos. Ela recebeu uma oferta de emprego em março para começar a trabalhar como assistente administrativa em um escritório de advocacia, algo que já havia feito temporariamente durante a faculdade, e no mês passado pediu demissão do restaurante.

“A geração anterior se sentia péssima em seus empregos, mas continuava neles porque supostamente era aquilo que deveriam fazer”, disse Porsha. “Nós não somos assim, e eu amo isso na gente. Somos do tipo, ‘Este trabalho está me sobrecarregando, estou ficando doente porque meu corpo está falhando e já deu para mim.’”

Katy Dean, diretora de operações da Buddy’s Pizza, uma rede de restaurantes de Michigan, disse que clientes agressivos são um “elemento desafiador” do clima atual nos serviços de alimentação. “Quando um cliente se recusa a se acalmar e a tratar nossos funcionários com respeito, encorajamos nossos gerentes a pedir que esse cliente saia do restaurante”, disse Katy.

Este momento no local de trabalho tem sido tachado como falta de ambição. Mas para muitos trabalhadores, a frustração deu passagem para uma explosão de solicitações ambiciosas por melhores empregos: por promoções, trocas de setor, expedientes estáveis, licença médica, licença por luto, licença maternidade, planos de aposentadoria, medidas de segurança e férias. “Ninguém quer mais trabalhar”, dizia uma placa do lado de fora do McDonald’s em um vídeo que se tornou viral no TikTok. Ao qual o ex-secretário do Trabalho dos EUA Robert Reich respondeu: “Ninguém quer mais ser explorado”.

No ano passado, quando milhões disseram “peço demissão”, o acerto de contas foi muito além dos limites das empresas e das indústrias em seu centro. Os trabalhadores de escritório não estavam deixando os empregos no mesmo ritmo rápido que os de setores como hospitalidade e varejo. Mas eles fizeram exigências ousadas a seus empregadores mesmo assim, cientes de que o desemprego estava baixo e a competição por talentos, acirrada.

“Existe a ameaça de pedir demissão no lugar do pedido de demissão de verdade”, disse Bunker. “Os funcionários se deram conta de que têm poder de barganha.”

Eles estão exercendo esse poder, sobretudo, no que diz respeito à flexibilidade. O fechamento dos escritórios deu aos trabalhadores uma sensação de autonomia que eles não estavam dispostos a abrir mão. Até mesmo alguns dos chefes aparentemente mais inflexíveis de Wall Street reconheceram que os antigos padrões não podiam ser mantidos. Citigroup, Wells Fargo e BNY Mellon, por exemplo, disseram aos funcionários que o retorno deles ao escritório seria no esquema híbrido, e não significaria se deslocar até o local cinco dias por semana.

Apenas 8% dos trabalhadores de escritório de Manhattan estão de volta ao local de trabalho cinco dias por semana, de acordo com dados divulgados pela organização sem fins lucrativos Partnership for New York City.

“Minha qualidade de vida aumentou tanto que não haveria como me convencer de que voltar a um escritório valeria a pena”, disse Lyssa Walker White, 38 anos, que trocou de emprego no início deste ano por causa da expectativa de seu antigo empregador de que ela voltasse ao local de trabalho.

Alguns empregadores continuaram pedindo que seus funcionários voltassem aos escritórios, pelo menos durante uma parte da semana, e descobriram que enfrentariam resistência absoluta. A Apple, por exemplo, que exigia a presença dos trabalhadores no escritório três dias por semana, recebeu recentemente uma carta aberta dos funcionários detalhando sua forte oposição ao trabalho presencial.

“Parem de tentar controlar com que frequência vocês podem nos ver no escritório”, escreveram os profissionais da Apple. “Por favor, parem de fazer isso, não existe uma solução única para todos, nos deixem decidir como trabalhamos melhor e nos permitam fazer o melhor trabalho de nossas vidas.”

A empresa não quis se pronunciar. Sua exigência de retorno ao escritório permanece em vigor.

Em outros locais de trabalho, sindicatos recém-formados abraçaram a causa do trabalho remoto. O sindicato Nonprofit Professional Employees, por exemplo, aumentou seu número de associados de 12 organizações e 300 trabalhadores em 2018 para aproximadamente 50 organizações e 1.300 profissionais este ano. Uma organização afiliada ao sindicato garantiu um acordo de que os gestores cobririam os custos de deslocamento dos trabalhadores obrigados a voltar ao escritório. Outra conseguiu que sua diretoria concordasse em dar justificativas aceitáveis para qualquer funcionário cujo retorno ao local de trabalho fosse exigido.

Em uma recente conferência da indústria, Jessica Kriegel, chefe de pessoas e cultura da Experience.com, empresa de tecnologia, reuniu-se com colegas de recursos humanos e eles compartilharam todos os tipos de relatos sobre como enfrentar as solicitações de profissionais corajosos. Havia histórias de pessoas pedindo aumentos que quadruplicavam o tamanho de seus salários. Outras de reuniões de estratégia da empresa que antes eram realizadas como retiros a portas fechadas em Napa, na Califórnia, e agora foram expandidas para incluir funcionários de nível júnior em prédios públicos.

Jessica disse que deu um aumento impressionante a um profissional de desempenho excepcional e viu outra disputa por três promoções, passando de colaborador a diretor e vice-presidente, em apenas um ano.

“Eles estão pedindo mudanças de títulos que nem mesmo estão associados a promoções financeiras para colocar em seu LinkedIn”, disse Jessica. “As pessoas que estão começando a trabalhar estão recebendo títulos de nível de diretoria.”

Por isso, a chefe de recursos humanos levanta uma sobrancelha quando escuta os colegas dizerem que as pessoas não estão querendo trabalhar, porque ela está vendo seus funcionários se mexerem para conseguirem exatamente o tipo de trabalho que querem realizar. “Estamos começando a ver as pessoas perceberem que não precisam viver com medo”, disse ela. “Não se trata de falta de ambição. Trata-se de uma ambição inacreditável.”

Haner, que deixou de trabalhar no Applebee’s, recebeu recentemente um aumento de 16%, o que o fez ganhar por hora um valor consideravelmente maior do que recebia no antigo emprego. Quando os amigos perguntam a respeito de seu novo trabalho, ele menciona as conversas atenciosas que tem com seu gerente. Quando pediu para não trabalhar por causa do funeral de seu avô, o que, segundo ele, teria provocado hesitação no Applebee’s, foi informado de que seu empregador atual dá direito a licença por luto.

Embora o trabalho continue sendo trabalho, quando o despertador toca de manhã, Haner não sente mais aquele sentimento de pavor, pois ele deu espaço a uma nova sensação: “Eles nos tratam com respeito”.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Transição energética perde espaço para a segurança energética e alimentar

Mudanças surgem como consequências da pandemia de covid-19 e da guerra na Ucrânia; Brasil precisa entender a sua vantagem comparativa como grande produtor de energia e de alimentos

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo 28 de maio de 2022 | 

Em tempos de eleição, o País precisa olhar e refletir sobre o novo mapa geopolítico da energia e as mudanças que trazem novos paradigmas de política energética, que virão como consequência da pandemia e da guerra da Ucrânia. Esse novo momento poderia ser traduzido pela seguinte frase: perde espaço na discussão a transição e entram a segurança energética e a alimentar. Nesse sentido, o Brasil precisa entender a sua vantagem comparativa como grande produtor de energia e de alimentos.

Para tanto, deveríamos elaborar uma política para substituição do diesel tanto pelo gás natural como pelo biometano e o biodiesel. Temos um pré-sal caipira de biogás. Para que isso ocorra é fundamental adotar medidas como a criação de corredores azuis, semelhantes aos que existem na Europa, onde só circulam caminhões movidos a gás fóssil e gás verde. Ao invés de falar de carros elétricos, temos de usar nossa vantagem comparativa e estimular o consumo de biocombustíveis.

petrobrasRefinaria da Petrobras; correto seria socializar os lucros da Petrobras, além de reduzir ineficiência logística e acelerar a privatização das refinarias. Foto: Paulo Whitaker/Reuters – 01/07/2017

Como grandes produtores de petróleo, deveríamos construir um programa de subsídios permanentes que seria acionado por meio de um trigger, ou gatilho, usando recursos do Tesouro. O correto seria socializar os lucros da Petrobras e as receitas do setor de óleo e gás. Não é justo essas receitas irem na sua integralidade para o Tesouro.

Ainda no campo dos combustíveis, temos de discutir três pontos que trarão preços mais competitivos e atração de investimentos. O primeiro são os impostos. Não podemos tributar combustível como se fossem produtos supérfluos. Segundo, é preciso reduzir a nossa ineficiência logística com a construção de dutos e, terceiro, promover o aumento da concorrência acelerando a privatização das refinarias.

No setor de energia elétrica, a discussão deveria ser centrada em como construir uma matriz diversificada que nos deixasse menos refém da natureza e nos trouxesse mais confiabilidade e custos mais baixos, levando energia de qualidade para todo o País, afastando apagões e racionamentos. Todas as energias possuem atributos. Muitos não têm essa compressão e pensam que a energia gerada com gás natural compete com as fontes renováveis e outros são míopes e não enxergam a importância de interiorizar o uso do gás, chegando a regiões como o Centro-Oeste e beneficiando o agronegócio.

O fato é que as termoelétricas promovem a redução de custos com o seu despacho na base, reduzindo as incertezas para a operação com a nova matriz renovável. Isso aumenta o controle sobre a água nos reservatórios, liberando as hidrelétricas para realizarem o balanço sistêmico elétrico, para atenderem à intermitência das renováveis e fazerem outros usos da água, principalmente irrigação e saneamento, preservando as nossas bacias hidrográficas.  

*DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

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Como Toronto tornou-se o centro de tecnologia que mais cresce nas Américas

Com planejamento, incentivos fiscais e apoio à inovação, a maior cidade canadense passou a atrair grandes empresas do setor

Por Ernesto Neves – Veja –  24 Maio 2022

Depois de reinar durante décadas como o inquestionável epicentro da economia digital do planeta, o Vale do Silício, na Califórnia, dobrou-se sob o peso da fama: os salários são altíssimos, o custo de vida é caríssimo, a competição é ferocíssima e os gigantes que se desenvolveram na região estão buscando alternativas em outras direções. A realocação, em geral lastreada por mão de obra abundante e generosos incentivos fiscais, tem beneficiado metrópoles americanas como Austin, no Texas, e Miami, na Flórida. Mas é mais ao norte, na gélida Toronto, a maior cidade do Canadá, que as empresas de tecnologia mais miram nos dias de hoje.

Praticamente todas as grandes do setor já fincaram o pé na área metropolitana, de Apple e Amazon a Uber, TikTok, Netflix e Pinterest. A Microsoft inaugurou em fevereiro uma nova sede em uma torre de cinquenta andares. O Google recebeu a volta ao trabalho presencial em novas instalações no centro da cidade. O Twitter triplicou sua equipe local. Resultado: o ritmo de contratação é quatro vezes mais rápido do que no Vale do Silício — só no ano passado, a metrópole canadense criou 80 000 vagas no mercado digital, mais do que Nova York, Seattle e Boston juntas. Transformada em frenético polo de atração, Toronto tem hoje 5 200 startups e 15 000 empresas de alta tecnologia e assumiu o posto de terceiro maior hub tecnológico das Américas, atrás de São Francisco e Nova York, sendo o que mais cresce.

Conhecida por investir pesadamente em planejamento urbano, a província de Ontário, onde se localiza Toronto, sempre ofereceu estímulo à inovação, o que facilitou a atração das big techs. O ponto de partida do boom atual foi a criação, em 2017, do Vector Institute for Artificial Intelligence, bancado por 130 milhões de dólares do governo e da indústria com o propósito específico de manter talentos na cidade e estimular a abertura de centros de pesquisa. Em apenas cinco anos, a cidade se transformou. “É o efeito de políticas públicas sólidas, capazes de sustentar planos de longo prazo”, diz Tristan Jung, engenheiro do escritório canadense do Twitter. Na Grande Toronto funcionam onze universidades de ponta, formadoras de profissionais altamente qualificados, os quais, junto com estrangeiros contratados graças a uma política acolhedora de imigração, fazem com que 10% da mão de obra esteja ligada ao universo high-tech, o dobro de outras metrópoles. O salário médio de 90 000 dólares anuais é outro atrativo para as startups, impactadas pela média de 165 000 dólares por ano registrada no Vale do Silício. “O crescimento do setor tem sido exponencial. Em 2021, quase 3 bilhões de dólares foram investidos em startups, mais do que nos dez anos anteriores somados”, afirma Chris Albinson, diretor da Communitech, organização de suporte a empresas de tecnologia.

Toronto, da mesma forma que outras cidades canadenses, saiu ganhando com a política anti-imigração do ex-presidente americano Donald Trump, que logo no início de seu mandato suspendeu a concessão dos vistos essenciais para importar profissionais do exterior. O governo do Canadá, em contrapartida, simplificou seus processos de imigração para atrair talentos. A população canadense cresceu 5% entre 2016 e 2021, o dobro da taxa dos Estados Unidos, e em Toronto 52% dos moradores nasceram no exterior. “É fácil e rápido contratar talentos dos mais variados cantos do mundo”, afirma Liran Belenzon, ele mesmo um israelense que decidiu imigrar para fundar, em 2016, a BenchSci, empresa especializada em inteligência artificial biomédica.

Convidada a dar aulas na Universidade de Toronto, a cientista alemã Jessica Burgner-Kahrs comanda um laboratório de ponta onde desenvolve robôs parecidos com cobras, capazes de alcançar qualquer ponto do corpo humano e atuar em tumores considerados inoperáveis. “Eles podem revolucionar a cirurgia”, explica. A expansão não para: a mesma Universidade de Toronto, uma das principais do Canadá, acaba de anunciar que vai iniciar a construção de um polo de inteligência artificial orçado em 100 milhões de dólares e totalmente bancado por empresas locais. “Toronto empregou tempo e dinheiro para conquistar a reputação de centro promissor de negócios e agora colhe os frutos”, diz Martin Basiri, fundador de uma startup voltada para a educação universitária. Equilibrando com habilidade políticas públicas bem coordenadas, empresas interessadas e incentivos à entrada de estrangeiros, a cidade segue firme na trilha do desenvolvimento do século XXI.

Publicado em VEJA de 25 de maio de 2022, edição nº 2790 

https://veja.abril.com.br/tecnologia/como-toronto-tornou-se-o-centro-de-tecnologia-que-mais-cresce-nas-americas/

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Energia solar gratuita para todos? Segundo a Absolar, é possível

Calma, não é para hoje. Mas, de acordo com o presidente do conselho da associação, Ronaldo Koloszuk, em 30 anos, a fonte será tão acessível quanto um Wi-Fi

Ronaldo Koloszuk deve ser reeleito para a presidência do conselho da Absolar (Reuters/Amanda Perobelli)

Ronaldo Koloszuk foi reeleito para a presidência do conselho da Absolar (Reuters/Amanda Perobelli)

Por Rodrigo Caetano – Exame –  30/03/2022 06:00 

A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), que representa o setor de energia solar, realizou em 30/03, a eleição do novo Conselho de Administração para o período de 2022 a 2026. Novo, na realidade, é mais uma forma de expressão. Com chapa única, Ronaldo Koloszuk foi oficializado como presidente por mais quatro anos. “É um sinal claro da confiança dos associados em nosso trabalho”, afirmou Koloszuk à EXAME.

No período em que está à frente do conselho da entidade, Koloszuk viu o setor de energia solar disparar. Em março, a fonte chegou a 14 gigawatts de potência operacional, ultrapassando a usina de Itaipu, a maior hidrelétrica do país. Desde 2012, a energia solar garantiu ao Brasil quase 75 bilhões de reais em investimentos, e gerou 420 mil empregos.

Para o dirigente, há um certo charme nessa fonte de energia. “Tem tecnologia e traz a questão da economia”, afirma Koloszuk. “Com um dia de instalação, o cliente consegue uma redução de até 90% na conta de luz. Em três anos, o investimento se paga.”

A solar pode superar a hidrelétrica?

Em 20 ou 30 anos, é possível que a energia solar supere a hidrelétrica e se torne a fonte de energia número 1 do país. Koloszuk usa dados da Bloomberg para corroborar sua previsão. “Não tenho dúvidas”, diz ele. “A solar está ficando cada vez mais barata. Quem cotou uma instalação há dois e achou caro, hoje não acha mais.”

A facilidade de instalação também colabora para isso. Uma usina de grande porte, por exemplo, é concluída em um ano e meio, uma fração do tempo para se construir uma hidrelétrica ou, até mesmo, um parque eólico. A título de comparação, concluir a construção da usina nuclear de Angra 3 deve levar, pelo menos, 10 anos.

Essa fonte de energia está ficando tão barata, que pode até sair de graça. “É o que mostra um estudo da Singularity University”, diz Koloszuki. “O carro elétrico trará uma grande transformação no setor de energia. A oferta crescerá tanto que a energia será compartilhada como se faz com o Wi-Fi.”

Os riscos da guerra

O cenário otimista permanece mesmo com a crise atual do petróleo, em função da Guerra na Ucrânia. “É algo que olhamos no começo, mas, agora, parece improvável que gere alguma ruptura”, diz o dirigente. A pior hipótese possível seria a divisão do mundo, com a China do lado oposto ao do Brasil – nesse caso, haveria dificuldades em comprar equipamentos, já que o gigante asiático é o maior produtor. As chances, no entanto, são remotas.

Impedir a proliferação dos painéis solares só será possível com uma tecnologia, que seja mais eficiente e barata. “Não vemos nada no horizonte”, diz Koloszuk. De qualquer forma, o que poderia ser melhor do que “de graça”?

https://exame.com/esg/energia-solar-gratuita-para-todos-segundo-a-absolar-e-possivel/

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Biodiversidade: o tema que pode implodir tudo

Os impasses na negociação internacional sobre biodiversidade parecem longe de serem dissolvidos

Daniela Chiaretti – Valor – 24/05/2022 

Há cheiro de Copenhague no ar. Com o perdão aos dinamarqueses, a expressão é usada em negociações ambientais internacionais quando o caldo está com jeito de querer entornar. A referência é o fiasco da COP15, a conferência climática das Nações Unidas que ocorreu em Copenhague, em 2009, e onde se tinha a expectativa de o mundo conseguir fechar um acordo de proteção ao clima. Deu tudo errado e a história daquele inverno é conhecida – por sorte e com muito trabalho, o Acordo de Paris surgiu na França, seis anos depois. Pois as rodadas internacionais que preparam a conferência de Kunming, na China, só exibiram até agora desacordo entre as delegações das mais de 190 nações que tentam se acertar em torno a uma agenda global de proteção à biodiversidade. Não está dando certo.

A pandemia não ajudou, claro. A última reunião de negociação presencial sobre este tema foi em fevereiro de 2020, em Roma. Depois se tentou avançar com reuniões virtuais, mas só quem conseguia ouvir algo eram os delegados de países ricos com computadores e internet decentes – os dos países pobres e megadiversos participavam em modo randômico. As negociações retomaram fisicamente em Genebra, em março. Avançaram milimetricamente.

DSI parece ficção científica, mas é um grande nó político

Nos 45 textos das minutas de decisão para Kunming, 23 estão entulhadas de colchetes. O sinal, na linguagem das Nações Unidas, significa “sem consenso”. Existem parágrafos com colchetes dentro de colchetes dentro de colchetes, um desentendimento gráfico que coloca em risco o futuro da humanidade e de 1 milhão de espécies de animais e vegetais ameaçados de extinção.

“A maioria das pessoas não faz a menor ideia do porquê é importante preservar a biodiversidade”, diz Braulio Dias, professor de ecologia da Universidade de Brasília e que foi secretário-executivo da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica, a CDB, de 2012 a 2017. “Pensam que a agenda da biodiversidade se resume a proteger alguns bichos bonitinhos, coloridos e peludos.” É também isso, mas muito mais. “Dependemos enormemente da biodiversidade”, segue.

O biólogo é didático: “Precisamos de oxigênio para respirar, que vem das plantas e das algas. Se continuarmos a destruir as florestas e poluir os mares, haverá redução na oferta de oxigênio. Também precisamos tomar água ao longo do dia e ela tem que ser limpa e em quantidade. A água da chuva passa por vegetação e solos que a filtram e a colocam no lençol freático. É dali que a coletamos para abastecimento, irrigação da agricultura, hidrelétricas. Também precisamos comer, e comida não vem do supermercado. Vem do campo. Estudos sobre mudança do clima e produção de alimentos mostram impactos imensos. Muitas culturas não conseguirão se adaptar. Para se adaptar é preciso ter recursos genéticos.”

Se no parágrafo anterior se entende por que preservar a biodiversidade é crucial, há motivos mais complexos. O Marco Global da Biodiversidade, a nova agenda mundiial para o pós-2020, é a principal decisão esperada da COP15 – ainda sem data para ocorrer. Como há muitos temas e poucos avanços, nova reunião foi marcada para este mês, em Nairóbi. A decisão sobre o uso de sequências digitais dos recursos naturais pode colocar tudo a perder. “Há aqui um conflito político enorme”, diz Braulio Dias.

O debate de biodiversidade segue os três pilares expressos na convenção: trata-se de promover a conservação da diversidade biológica, seu uso sustentável e a distribuição justa dos benefícios que vierem de sua utilização econômica. Este último pilar resultou em um mecanismo conhecido por ABS, que garantiria o acesso à biodiversidade e a repartição de benefícios. Para entender: quem conhece biodiversidade são as comunidades tradicionais e os povos indígenas. Eles podem apontar, por exemplo, qual planta usam para aliviar a dor. Um pesquisador analisa o material e um laboratório desenvolve um anestésico a partir dali. Parte dos lucros obtidos com a venda do remédio é repartida com o país dono da biodiversidade. Isso tudo no mundo ideal e no texto acordado em reuniões anteriores.

A tecnologia avançou e o tema se complicou. O enrosco atende pela sigla DSI, sigla de Digital Sequence Information. O genoma de milhares de plantas e animais foi mapeado. Já não é preciso acessar recursos naturais físicos para desenvolver um remédio ou um cosmético, basta acessar bancos de dados no mundo com bilhões de informações digitais disponíveis. Isso tem potencial de implodir o princípio da CDB que diz que países com biodiversidade devem receber por tal riqueza.

É uma polêmica tremenda. O Japão entende que se trata de uma discussão de dados, e não de biodiversidade. Países ricos e com laboratórios não querem repartir benefícios dizendo que é impossível rastrear a origem do recurso genético. O grupo de países africanos já disse que ou se dissolve este nó e se paga aos donos da biodiversidade ou não tem acordo algum. Parece ficção científica. É tema fundamental para a ciência, economia, saúde.

Há três grandes bancos de dados de sequenciamento genético no mundo – nos Estados Unidos, no Japão e na Europa. Existem ali mais de 228 milhões de sequências. Os dados destes bancos são baixados 34 milhões de vezes ao ano. Estudos mostram que 111 países usam sequências genéticas do Brasil, enquanto pesquisadores brasileiros usam dados de 153 países. “O Brasil é muito mais usuário de material do que provedor em relação a sequências genéticas”, diz a microbiologista Manuela da Silva, gerente geral do Biobanco Covid 19 da Fiocruz e que acompanha o tema há anos. “Defendemos que os bancos de dados continuem abertos e a criação de um fundo global com repartição multilateral de benefícios”, diz ela. O tema só não está mais travado porque os países concordaram em seguir negociando. DSI é tão novo e complexo que não existe definição global sobre o termo.

Outro impasse das negociações é o de sempre: países desenvolvidos querem a maior ambição possível em conservação, mas minimizam discussões sobre repartição de benefícios e como financiar a preservação. O mundo gasta ao ano US$ 1,8 trilhão em subsídios danosos ao ambiente. Enquanto não se chega a acordo, o planeta segue perdendo bichos e plantas.

Daniela Chiaretti é repórter especial

E-mail: daniela.chiaretti@valor.com.br

É repórter especial de Ambiente desde 2005. Foi editora-chefe da revista “Marie Claire” e trabalhou na “Gazeta Mercantil”, “Folha de S. Paulo”, “Veja” e “UOL”

https://valor.globo.com/brasil/coluna/biodiversidade-o-tema-que-pode-implodir-tudo.ghtml

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Como aumentar o valor e a percepção de qualidade do café brasileiro no mundo

FÁBIO CARDO Fast Company 23-05-2022

Segundo a Organização Internacional do Café (OIC), o Brasil é, com folga, o maior exportador mundial. Nos últimos 12 meses, o país exportou 44,8 milhões de sacas, seguido pelo Vietnã, com 25,6 milhões, e pela Colômbia, com 12,4 milhões. E seguimos crescendo em volume de exportação.

Já em termos de valor obtido por saca, não estamos tão bem assim: a OIC aponta que a Colômbia obteve US$ 285,8 por saca, contra US$ 217,8 do Brasil, ou seja, 31,3% a menos (base de preços de maio/22). Tamanho gap faz uma grande diferença em termos de receita para os produtores e para o país.

Por que tanta diferença? O café nacional tem menos qualidade do que o colombiano, que justifique o menor preço? Um dos pontos consensuais no mercado é que a Colômbia realizou um ótimo trabalho de branding para seu produto há décadas, conseguindo posicioná-lo como de alta qualidade.

MERCADO EVOLUI PUXADO PELA QUALIDADE

Existem alguns movimentos que, somados, dão boas diretrizes para a  indústria e os produtores pensarem em estratégias para melhor posicionamento dos produtos. Apontamos cinco pontos a serem observados:

1 . Os jovens estão adotando o consumo de café, seja nas cafeterias ou buscando produtos no varejo com características diferenciadas, para ter a experiência de beber um café varietal. Realizar ações promocionais para esse público é bom e relevante.

2 . As opções de preparo em casa ou no escritório são múltiplas. Muitas máquinas de cápsulas, mas também meios tradicionais – tais como prensa francesa e máquinas domésticas de moagem – estão sendo experimentados e adotados. O café também vem sendo consumido gelado e adicionado em receitas culinárias.

3 . Microlotes de cafés especiais atraem a atenção de consumidores mais exigentes, ganhando muito valor agregado. Esse é um parâmetro essencial para quem busca boa rentabilidade, uma vez que os valores ganham múltiplos principalmente quando recebem altas pontuações e entram em leilões internacionais.

4 . Sustentabilidade, sempre um tema a ser considerado na pauta de avaliação dos consumidores mais antenados quanto ao futuro da alimentação no mundo. Para produzir café, é preciso muita água. Qualquer iniciativa que reduza o consumo de água e outros impactos decorrentes do processamento, logística e consumo é sempre bem-vinda e a percepção no mercado melhora bem.

5 . Cafeterias ajudam a promover os cafés das mais variadas procedências e qualidades. São ótimas opções para experimentação. Fora do Brasil, elas buscam opções junto a importadores e processadores locais que elaboram blends. Os gestores das cafeterias nem sempre sabem ao certo a origem do produto ou dispõem de mais informações sobre qualidade da bebida.

CONSUMO DOMÉSTICO E NOVOS PÚBLICOS

CAFETERIAS AJUDAM A PROMOVER CAFÉS DAS MAIS VARIADAS PROCEDÊNCIAS E QUALIDADES E SÃO ÓTIMAS OPÇÕES PARA EXPERIMENTAÇÃO DO PRODUTO.

O mercado de cafés especiais mantém um ritmo de crescimento acima dos 10% ao ano, superior ao registrado no consumo do produto convencional. Essa questão pode ser abordada por três vertentes, explica Henrique Cambraia, presidente da BSCA (Brazilian Special Coffee Association), entidade que agrega os produtores de cafés especiais no Brasil e promove o produto no mercado internacional.

O primeiro ponto a ser levado em conta é que o grande impacto sofrido pelo setor de cafés especiais foi o fechamento de hotéis, restaurantes e cafeterias, principais pontos de venda. “Vivemos um momento de recuperação, observando alguns nomes retornando, outros novos aparecendo. É um cenário desafiador para a reconstrução desse setor”, comenta o presidente da BSCA.

A segunda vertente é o consumo caseiro, que manteve boa parte da indústria – a que estava preparada para a venda online. As marcas conseguiram surfar no momento e até expandir de forma impressionante, tomando grande percentual desse share, especialmente no período pandêmico.

“O mercado online veio para ficar, pois as empresas que foram para esse meio conseguiram bancar a mudança. É uma venda na qual o consumidor que passou a adquirir café especial manteve-se fiel ao segmento. Isso é algo para nos deixar otimistas”, reforça Cambraia.

O terceiro fator é que a pandemia elevou a consciência do consumidor, que busca não só qualidade, mas também sustentabilidade, com uma preocupação ambiental e social, querendo saber de onde o produto veio e como é feito. Assim, a rastreabilidade é uma tendência que continuará cada vez mais forte, mesmo no pós-pandemia.

VENDAS DIRETAS

Su Jung Ko, sócia-fundadora da consultoria Golden Hawk, entende que a aceitação dos cafés brasileiros no mercado internacional é grande, principalmente na Ásia e em especial na China, com imenso contingente de potenciais consumidores. A consultoria está desenvolvendo um trabalho de internacionalização junto a pequenos produtores para que possam vender direto aos consumidores. Já existe uma iniciativa de venda de produtos prontos para consumo em Hong Kong.

A PANDEMIA ELEVOU A CONSCIÊNCIA DO CONSUMIDOR, QUE QUER SABER DE ONDE O PRODUTO VEIO E COMO É FEITO.

“Os maiores desafios são o frete e os custos agregados no produto pronto para consumo. Muitos produtores pequenos não têm experiência em exportar grão torrado em embalagem. Não exportam diretamente, acabam vendendo para as cooperativas e elas fazem o processo”, explica a consultora. Para ela, o Brasil tem muita oportunidade de posicionar melhor o produto pronto para o consumo e promover mais os produtos nacionais, destacando as diversas variedades, qualidades e procedências.

PROMOVER INFORMAÇÃO É ESSENCIAL

O Brasil já tem seu primeiro lote de café especial com rastreabilidade blockchain, exportado para o Japão. A startup Arabyka, especializada em rastreabilidade via blockchain, é a responsável por implementar essa tecnologia em um lote de café orgânico Minamihara. De acordo com o cafeicultor Anderson Minamihara, trata-se de um lote de café super especial, que pode chegar a 90 pontos na classificação.

“Esse primeiro lote, de nove sacas, utiliza 100% de tecnologia blockchain da Arabyka, capaz de fornecer informações como época e tipo de colheita, secagem, lote, variedade, tempo de descanso, dia e padrão de exportação. Os outros membros da cadeia, como torrefadores e cafeterias, também podem inserir suas informações durante o processo de venda, até chegar ao consumidor final”, explica.  A produção do café Minamihara conta com manejo orgânico próprio, em 100 hectares sombreados por abacateiros, em Franca (SP).

A STARTUP ARABYKA IMPLEMENTOU RASTREABILIDADE VIA BLOCKCHAIN EM UM LOTE DE CAFÉ ORGÂNICO SUPERESPECIAL.

Para George Hiraiwa, CEO da Arabyka, com o avanço da digitalização há um empoderamento do consumidor, que passa a ser o protagonista da cadeia. “Acredito que será uma grande oportunidade para o Brasil mostrar ao mundo que produzimos alimentos seguros e sustentáveis.”

Essas informações podem ser facilmente compartilhadas com os consumidores a partir de iniciativas bem simples. O uso de QR Codes nos pontos de venda e nas embalagens pode promover uma imersão do consumidor e estreitamento de relacionamento com os produtos: local de origem, informações sobre o café quanto a qualidade e sustentabilidade, entre outras, tudo em links de web e redes sociais. O uso de blockchain é mais uma boa opção para garantir a qualidade das informações.

O governo e os produtores colombianos fizeram muito bem a lição de casa há algumas décadas. Investiram em ações promocionais, principalmente nos Estados Unidos, maior mercado consumidor de café no mundo.

Hoje, as opções de ações de marketing são mais diversificadas. É bem provável que governo, entidades de classe e produtores brasileiros tenham que investir menos que os colombianos em ações promocionais e de branding para agregar mais valor ao produto nacional.


SOBRE O AUTOR

Fábio Cardo é economista de formação, atua em comunicação empresarial e empreendedorismo e é co-publisher do canal FoodTech da Fast Company

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Desenvolvedores, designers, cientistas de dados: o que importa para atrair e reter os talentos mais disputados do mercado

Até 2030, a lacuna de talentos digitais no Brasil deve chegar a 1 milhão de vagas não preenchidas

Por Marina Mansur e Paula Castilho*   Estadão 23 de maio de 2022 | 

Empresas que querem montar ou acelerar seus negócios digitais precisam estar prontas para enfrentar um dos maiores gargalos do mercado: talento. Este obstáculo tem duas grandes origens: uma demanda acelerada e uma oferta que não caminha na mesma velocidade.

Digitalização virou uma questão de sobrevivência para novas empresas. Foto: Pexels

Digitalização virou uma questão de sobrevivência para novas empresas. Foto: Pexels

Do lado da demanda: o Brasil é um dos países mais conectados do mundo, com mais de 70% da população grudada na internet, navegando em média 10 horas por dia. Soma-se a isto um volume de investimento em inovação sem precedentes – só em 2021, investiu-se em venture capital quase o mesmo volume de todos os anos anteriores somados – e têm-se a fórmula perfeita para provocar a ebulição de novos negócios digitais. Era de se esperar, portanto, que a quantidade de postos de trabalho relacionados à tecnologia tenha acelerado de forma vertiginosa desde 2017, aumentando dez vezes mais do que a média de outros postos no mesmo período.

Mesmo com um cenário atual mais cauteloso – redução de PIB, aumento da SELIC, diminuição do fluxo de capital – o ritmo de crescimento das vagas em tecnologia não deve diminuir. Digitalização virou uma questão de sobrevivência para novas empresas e incumbentes. No ano passado, por exemplo, o Facebook anunciou seu plano de contratação de mais de dez mil talentos digitais para a construção do seu metaverso; a Amazon deve contratar mais 55 mil funcionários globalmente, muitos destes no Brasil. Esta demanda só aumenta. E a população também segue se digitalizando em ritmo acelerado. Até 2026, espera-se que 185 milhões de brasileiros estejam conectados nas mídias sociais; o e-commerce deve crescer 55%; e mais de metade da população deve estar usando um banco digital.

Do lado da oferta: para cada novo profissional formado em áreas relacionadas a tecnologia, o país forma mais de onze alunos de direito ou administração. Este desequilíbrio entre áreas de negócio e tecnologia é comum no mundo todo, mas no Brasil ele é substancialmente maior. Nos EUA e na Alemanha, por exemplo, essa proporção é de um para cinco. Se continuarmos neste ritmo de crescimento e de formação de talentos, teremos uma lacuna de 1 milhão de vagas de tecnologia não preenchidas no país até 2030. Globalmente, estima-se que até 3 milhões de vagas de cybersecurity não consigam ser preenchidas pelo simples fato desses talentos ainda não existirem.

Os profissionais mais em falta são: DevOps, infraestrutura de TI, automação e IA, designers de UX, cyber, cientistas e engenheiros de dados e desenvolvedores de cloud. Os poucos disponíveis são altamente disputados. Para acirrar mais a batalha por atração e retenção, o mundo de trabalho remoto globalizou a alocação de vagas, com empresas de fora entrando na briga para contratar os escassos talentos locais.

Líderes de empresas estão sentindo o calor deste desafio. De acordo com uma pesquisa que fizemos com 1.500 executivos em cargos de gestão, 87% declararam que sua empresa não está preparada para lidar com a lacuna de talentos digitais. Dos profissionais de RH, 61% considera que contratar e reter desenvolvedores será o maior desafio que enfrentarão no próximo ano.

Para entender os critérios de decisão deste grupo disputado, fizemos uma pesquisa com estudantes e profissionais de mercado, e o que encontramos foi o seguinte:

  1. A remuneração permanece em primeiro lugar na ordem de importância: se antes da pandemia o salário de um desenvolvedor já tinha crescido, agora a opção de trabalho remoto fez esse valor disparar ainda mais, abrindo o leque de oportunidades em empresas globais que pagam salários em moeda estrangeira. Mas além de pagar um salário competitivo, é importante acrescentar incentivos de longo prazo – bônus e stock options. As stock options são opções de ações da própria empresa, distribuídas de acordo com critérios de desempenho, uma demonstração clara de que o colaborador faz parte do crescimento do negócio. Hoje as stock options se tornaram quase tão generalizadas quanto o bônus de final de ano e integram o pacote de benefícios de grande parte das equipes, e não mais só de alguns poucos desenvolvedores sêniores.
  1. Em segundo lugar, o que profissionais de tecnologia mais prezam é a possibilidade de trabalharem de onde quiserem: Cargos de tecnologia passaram a ser ocupados de maneira 100% remota durante a pandemia e, diferente de outros cargos que aos poucos voltaram para o físico, ou modelo híbrido, eles seguem em casa. Alguns profissionais começaram, inclusive, a trabalharem turnos dobrados, atendendo clientes globais em fusos horários distintos – uma nova realidade, difícil de mudar. As empresas precisam se adaptar a esta nova proposta de valor, o que inclui aprender a garantir a cibersegurança, a qualidade e a produtividade do desenvolvimento em ambientes fora do seu escritório original – lembrando que, embora a maioria das empresas temesse que o trabalho remoto acarretasse uma perde de controle, a experiência da pandemia mostrou que, para grande parte das funções, a produtividade aumentou.
  1. O terceiro aspecto, não muito distante em importância, é a experiência do desenvolvedor: além de poderem trabalhar de casa, profissionais de tecnologia – e principalmente desenvolvedores – exigem também modernidade da ferramenta de trabalho. Empresas tradicionais, com códigos antigos e sistemas de alta complexidade e baixa velocidade, têm dificuldade em reter esses profissionais, que procuram lugares para produzir com velocidade e autonomia. Como referência, vale a comparação do tempo médio para gerar o primeiro código: em uma startup nativa digital, desenvolvedores colocam o primeiro código na rua nos primeiros 45 minutos do seu primeiro dia de trabalho. Em empresas tradicionais, esse tempo de onboarding pode demorar até 45 dias. Para uma geração com sede de fazer a diferença, essa discrepância de experiência pode ser determinante.
  1. Em quarto lugar está a oportunidade de desenvolvimento: a velocidade da transformação tecnológica é inexorável; quem não se mantém atualizado em seus skill sets perde o bonde. Para profissionais desta área, é crucial oferecer um plano de desenvolvimento claro e constante ao longo da carreira.

É importante frisar que o abismo entre oferta e demanda é tão grande, que além de gabaritar os quatro pontos acima, é preciso pensar em planos adicionais que ajudem a cobrir o buraco. Em uma pesquisa que fizemos com CIOs globais, 82% mencionaram que, além de investir em contratação, estão focando no upskilling e reskilling de funcionários existentes como plano de contingência.

Com plano A ou plano B, esta batalha por talentos digitais está só no começo. Tão importante quanto vencer na proposta de valor para o cliente é vencer na proposta de valor para o colaborador.

* Marina Mansur e Paula Castilho são sócias da McKinsey & Company no escritório de São Paulo.

https://economia.estadao.com.br/blogs/mckinsey-insights/desenvolvedores-designers-cientistas-de-dados-o-que-importa-para-atrair-e-reter-os-talentos-mais-disputados-do-mercado/

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The Economist: A Índia pode ser um motor econômico para o mundo?

Dado o seu tamanho e potencial, parece razoável questionar se a Índia poderia ser o próximo motor econômico do mundo

The Economist, O Estado de S.Paulo 22 de maio de 2022 

O mundo precisa de mais esperança econômica. A guerra na Ucrânia provocou um golpe severo nas perspectivas de crescimento econômico global. Os lockdowns e a desaceleração da atividade imobiliária enfraqueceram a China, o antigo motor de crescimento da pujança do mundo.

Dado o seu tamanho e potencial, parece razoável questionar se a Índia poderia ser o próximo motor econômico do mundo. Em abril, o Fundo Monetário Internacional (FMI) calculou que o PIB indiano poderia crescer mais de 8% este ano – sem dúvida o ritmo mais veloz entre os países grandes. Uma expansão tão rápida, se sustentada, teria um impacto profundo no mundo. Mas, em grande parte por conta da mudança na estrutura da economia global, as coisas não são tão simples para a Índia herdar a posição da China.

Fábrica têxtil em Hindupur; vocação tecnológica, de serviços e domínio do inglês favorecem a Índia Foto: Samuel Rajkumar/ Reuters

Nos anos 2000, a China era responsável por quase um terço do crescimento global – mais do que os Estados Unidos e a União Europeia juntos –, adicionando nova capacidade produtiva, a cada ano, equivalente à produção atual da Áustria. Na década de 2010, a contribuição do país quase dobrou, de modo que cada ano de crescimento valia como mais uma Suíça. 

Da virada do milênio às vésperas da pandemia, a China se tornou o maior consumidor da maioria das principais commodities (matérias-primas cotadas em dólar) do mundo e sua participação nas exportações globais de mercadorias aumentou de 4% para 13%.

A Índia poderia repetir tamanhas façanhas? Trata-se da sexta maior economia do mundo – como a China era em 2000. E sua produção hoje está em grande medida onde estava a da China duas décadas atrás. Pequim continuou a lidar com uma taxa média de crescimento anual de cerca de 9%. A Índia cresceu pouco menos de 7% ao ano durante o mesmo período. No entanto, o país poderia ter tido um desempenho melhor, não fosse por erros de política – como a decisão chocante do primeiro-ministro Narendra Modi de tirar de circulação algumas notas em 2016 – e vulnerabilidades macroeconômicas, entre elas um setor financeiro sobrecarregado. 

O governo talvez tenha aprendido com os erros políticos, e tanto os formuladores de políticas quanto os bancos vêm trabalhando para solucionar o segundo ponto. Antes da guerra na Ucrânia, o FMI calculava que a Índia poderia crescer 9% este ano. Alguns otimistas defendem que, nas circunstâncias certas, a Índia poderia administrar essas taxas de forma contínua.

Um olhar mais atento, entretanto, sugere que a Índia não é um substituto da China. Um problema é que a economia mundial é muito maior do que costumava ser, tanto que um crescimento como este do PIB da Índia aumenta menos o crescimento global. Um crescimento anual de 9% mantido melhoraria bastante a vida dos indianos e alteraria de forma significativa o equilíbrio do poder econômico e político no mundo. Mas isso não significaria que a economia mundial giraria em torno da Índia como aconteceu com a China nas últimas duas décadas. A contribuição da Índia para o crescimento global continuaria menor do que a dos Estados Unidos e a da Europa juntas, por exemplo.

Cenário hostil

Talvez mais relevante, as condições econômicas globais podem ser consideravelmente mais hostis do que aquelas que permitiram a ascensão da China. De 1995 a 2008, o peso do comércio mundial subiu de 17% do PIB global para 25%. A porcentagem das exportações de mercadorias presentes nas cadeias globais de valor subiu de cerca de 44% das exportações mundiais para 52%. A China estava na vanguarda de ambas as tendências. Foi o país mais dominante no comércio desde a Grã-Bretanha Imperial, de acordo com uma análise de “hiperglobalização” publicada em 2013 por Arvind Subramanian, da Universidade Brown, e Martin Kessler, economista da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A Índia, por outro lado, é peixe pequeno no setor. Às vésperas da pandemia, representava menos de 2% das exportações globais de mercadorias. O país espera aumentar essa porcentagem investindo em infraestrutura, oferecendo subsídios públicos aos fabricantes e negociando acordos comerciais com entusiasmo fora do comum. Mas os tempos mudaram. O comércio mundial caiu como parte do PIB global desde o início dos anos 2010. O nacionalismo econômico poderia impedir uma recuperação. Contudo, a Índia talvez espere aumentar suas exportações conquistando participação no mercado de outras economias – inclusive na China. Mas as empresas e os governos que antes estavam dispostos a depender fortemente de Pequim em nome da eficiência se tornaram mais cautelosos. A relutância deles em se tornarem dependentes demais de qualquer fonte de suprimentos poderia atrapalhar as ambições da Índia.

Potência em serviços 

Dominar as cadeias de suprimentos globais talvez não seja o único caminho para a influência econômica. A Índia é um avançado exportador de tecnologia e de serviços para as empresas; embora seu PIB seja apenas um sexto do da China, suas exportações de serviços ficam apenas um pouco atrás das de Pequim. 

Pesquisa publicada em 2020 por Richard Baldwin, do Instituto Superior, em Genebra, e Rikard Forslid, da Universidade de Estocolmo, defende que a mudança tecnológica está ampliando a gama de serviços exportáveis e oferecendo mais oportunidades para trabalhadores de países pobres competirem com trabalhadores de serviços no mundo rico. Mas, embora a tecnologia e os serviços para empresas possam continuar a prosperar na Índia, a expansão deles talvez seja limitada por um sistema educacional inadequado, que se sai bem no número de matriculados, entretanto não nos resultados de aprendizagem, e pela natureza protecionista dos setores de serviços do mundo rico, que talvez esteja mais protegida contra a concorrência estrangeira do que os trabalhadores industriais contra as importações chinesas.

Rumo à 3ª economia

Mesmo que a Índia dê conta de uma taxa de crescimento mais próxima de 6% do que de 9%, o resultado não seria nada desprezível. Isso tornaria a Índia a terceira maior economia do mundo em meados da década de 2030. Nessa altura, ela contribuiria mais para o PIB global a cada ano do que Reino Unido, Alemanha e Japão juntos. 

A demanda indiana por recursos, então, impulsionaria os preços das commodities; seus mercados de capitais encantariam investidores estrangeiros. Uma população grande que fala inglês e um sistema político democrático, se a Índia puder mantê-lo, talvez permitam que as exportações de tecnologia e de cultura indianas exerçam mais influência global do que a China conseguiu em níveis de renda semelhantes.

Mas, até lá, o mundo já terá reconhecido, caso não o tenha feito ainda, que a ascensão da China foi um acontecimento único. O crescimento indiano mudará o mundo. Mas não se deve esperar, nem temer, uma reprise da experiência chinesa./TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,the-economist-india-motor-economico-mundial,70004072734

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Home office torna mais difícil tirar licenças médicas

Trabalhar doente em casa agora é comum. Mas qual o custo disso?

Por Emma Jacobs — Do Financial Times/Valor 28/04/2022 

Quando Rachel* pegou covid, seu empregador quis que ela fizesse o trabalho de forma remota, em vez de pegar um dia de licença médica. “Estava muito cansada”, diz. “Era muito difícil ter foco”. A professora de alunos com necessidades especiais, que mora na Inglaterra, deu as aulas, estando em casa, para alunos presentes na sala de aula, auxiliada por uma assistente. “Você tinha a sensação de que se não fizesse isso [trabalhar doente], estaria decepcionando as pessoas.” 

Trata-se de um exemplo claro da forma como as ferramentas introduzidas na pandemia para ajudar no isolamento de estudantes e professores transformaram a vida laboral. Reuniões por Zoom, os e-mails e os canais Slack facilitaram o trabalho durante o isolamento e tornaram mais fácil para os funcionários ficarem em casa quando pegavam covid, mas também tornaram mais difícil para as pessoas tirarem dias de licença médica.

Elizabeth Rimmer, executiva da LawCare, organização beneficente que trabalha para defender a comunidade jurídica em questões de saúde mental, participou de vários encontros virtuais nos quais também participaram pessoas com covid-19. “Elas não pareciam nada bem. As pessoas podem deitar na cama com seus laptops e seguir adiante mesmo sentindo-se mal.”

Jane van Zyl, executiva-chefe da Working Families, um grupo de defesa dos assalariados, faz ressalvas na mesma linha. “Precisamos ter em mente que a lição da pandemia é o trabalho flexível, e não o trabalho o tempo todo.”

É uma questão importante para os empregadores. Anne Sammon, sócia da banca de advocacia Pinsent Masons, tem recebido um número cada vez maior de consultas de empresas preocupadas com o presenteísmo digital dos funcionários- quando eles estão a postos para trabalhar, mas sem condições de dedicação plena. “Os empregadores querem definir qual é o tom adequado quanto ao que se espera do funcionário. O desafio, do ponto de vista do empregador, é como encontrar o equilíbrio. O que você quer que os gestores digam é: ‘Use seu bom senso’, mas isso não deixa a questão clara para as pessoas.”

Não se trata apenas de que a tecnologia facilite que trabalhemos estando de cama por alguma doença, mas também do fato de que o trabalho remoto e o híbrido podem enfraquecer os laços entre colegas. Uma pesquisa concluiu que os funcionários que contam com “apoio social” têm maior inclinação a não esconder doenças, o que reduz a pressão para que trabalhem quando não se sentem bem.

Os dados sobre o impacto da adoção generalizada do trabalho remoto na solicitação de dias de licença médica ainda estão surgindo. Em 2021, no Reino Unido, a Agência de Estatísticas Nacionais divulgou o menor patamar histórico no número de dias em que as pessoas se ausentaram do trabalho. A proporção caiu de 3,1% de horas de trabalho perdidas em razão de faltas por doença em 1995 para 1,8% em 2020. A agência apontou como causas prováveis para a queda os programas de licença remunerada em estabelecimentos obrigados a fechar durante o lockdown e o trabalho remoto, dois fatores que contiveram a propagação de vírus como a gripe. Por outro lado, o Chartered Instititute of Personnel and Development, órgão de profissionais de recursos humanos, concluiu que a maioria das pessoas que consultou (84%) apontou como motivo o “presenteísmo” – quando as pessoas trabalham mesmo estando doentes.

Nos Estados Unidos, pesquisa de 2020 mostrou que os trabalhadores tinham menor propensão a tirar folgas quando trabalhavam em casa por acreditarem que pedir licença nessa situação seria malvisto pelos empregadores. Pesquisas pré-pandemia em uma empresa chinesa cujos funcionários trabalhavam de forma remota também mostraram que eles tiravam menos dias de licença médica.

Alguns empregadores responderam às novas pressões enfrentadas pelos funcionários que trabalham remotamente durante a pandemia oferecendo mais dias livres para cuidar do bem-estar, como é o caso do LinkedIn e do Hootsuite, que deram aos funcionários uma semana extra. A licença remunerada é fundamental para encorajar os funcionários a pedirem um tempo para se recuperarem.

A pandemia mudou a atitude dos empregadores em relação às doenças, segundo Laura Empson, professora de administração na Bayes Business School, da Universidade de Londres. “Está se tornando possível dizer, ‘preciso dar uma parada pelo meu bem-estar mental’. Não é que seja normal dizer isso, mas pelo menos está sendo dito. Coisas que eram inimagináveis antes da covid, agora são pelo menos possíveis, ainda que não aceitáveis”. Clientes percebem que se alguém está trabalhando quando não se sente bem, isso pode ser contraproducente e afetar o empenho do funcionário, diz Sammon.

Alun Baker, executivo-chefe da GoodShape, empresa especializada em bem-estar, diz que “o risco financeiro, empresarial e pessoal de trabalhar quando não se está bem fisicamente ou mentalmente é significativo”. Isso deveria encorajar empregadores a propagarem uma cultura “garantindo que os funcionários não se sintam pressionados a trabalhar a todo custo”.

A questão é que políticas relacionadas à ausência por doença apenas são eficazes quando comunicadas de forma adequada às equipes, e bem compreendidas. A chave é fazer com que gestores entendam os riscos quando funcionários doentes continuam trabalhando e com que esses gerentes administrem a distribuição da carga de trabalho de forma a reduzir a pressão para que funcionários sentindo-se mal não peçam licenças.

O trabalho remoto acrescenta uma camada de complicações, ao tornar mais difícil para o empregador monitorar o bem-estar do funcionário. “Quando alguém vem para o escritório e está visivelmente mal, você pode identificá-lo”, diz Sammon. “Quando estão remotos, você pode ficar o dia inteiro sem falar com eles”. Problemas de saúde mental podem ser mais difíceis de identificar, embora alguns sinais possam ser a falta de empenho ou que se conectem à rede em horários estranhos. “Estamos vendo um foco verdadeiro no treinamento de gerentes para que sejam melhores gestores”, diz Sammon.

Sam Rope, vice-presidente de RH no Reino e Irlanda da firma de recrutamento Adecco, diz que a empresa deixa a decisão sobre os primeiros sete dias de alguma licença nas mãos dos funcionários, o que “garante que não existam requerimentos complicados de prestação de contas”.

Sobre as preocupações quanto ao presenteísmo, Maria Karanika-Murray, professora de psicologia da saúde ocupacional na Universidade Nottingham Trent, ressalta que a palavra pode ter um caráter negativo exagerado. Ela sugere que o presenteísmo deveria ser visto como um “continuum” de comportamentos, que pode incluir desde um efeito de revigoramento, já que ajuda um trabalhador a manter contato com colegas, trazendo certo estímulo, até um impacto disfuncional, que prejudica tanto a saúde quanto o desempenho. Há uma diferença entre o “presenteísmo funcional” e o comportamento que realmente é prejudicial – para ela, há elementos para contestar a suposição de que seria sempre negativo. É como as empresas que perceberam que certa dose de estresse é útil para o desempenho, mas uma dose muito grande é esmagadora e pouco estimulante. “Há, no meio, um ponto ideal para o desempenho.”

Em uma situação de trabalho híbrido flexível, inevitavelmente parte disso depende da avaliação do próprio trabalhador. “Em um mundo ideal, se o trabalho flexível oferecer opções suficientes, talvez nem precisemos de licença médica”, diz Karanika-Murray. “Será tudo uma questão de ajustes.”

Uma consultora que trabalhou com sintomas de covid, por exemplo, achou útil ter continuado executando um projeto. “Ironicamente, a adrenalina da campanha realmente ajudou a clarear minha cabeça”. Ela ressalta, porém, que não vai ao escritório quando não está bem, mesmo por aflições menores. “Senti que nunca fez sentido estar com um resfriado e deixar meus colegas doentes.” Em última análise, tudo se resume a confiar nos funcionários para que tenham um tempo livre quando precisarem, sem abusar da flexibilidade que lhes é dada.

*Nome fictício

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/04/28/home-office-torna-mais-dificil-tirar-licencas-medicas.ghtml

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