Biden acaba de golpear a indústria de chips da China

Farhad Manjoo – New York Times – 20 de outubro de 2022(Tradução Google Tradutor)

Os semicondutores estão entre as ferramentas mais complexas que os seres humanos já inventaram. Eles também estão entre os mais caros de fazer.

Os chips mais recentes – do tipo que alimenta supercomputadores e smartphones de última geração – são densamente embalados com transistores tão pequenos que são medidos em nanômetros. Talvez as únicas coisas mais engenhosas do que os próprios chips sejam as máquinas usadas para construí-los. Esses dispositivos são capazes de trabalhar em escalas quase inimaginavelmente minúsculas, uma fração do tamanho da maioria dos vírus. Algumas das máquinas de construção de chips levam anos para serem construídas e custam centenas de milhões de dólares cada uma; a empresa holandesa ASML, que fabrica as únicas máquinas de litografia do mundo capazes de inscrever projetos para os chips mais rápidos, produziu apenas 140 desses dispositivos na última década.

O que nos leva a outro detalhe incrível sobre os microchips: eles são um triunfo não apenas da tecnologia, mas também do comércio e da cooperação global. No recém-publicado “Chip War: The Fight for the World’s Most Critical Technology”, Chris Miller, professor de história da Tufts University, descreve a expansão geográfica da cadeia de suprimentos de semicondutores:

Um chip típico pode ser projetado com projetos da empresa japonesa chamada Arm, com sede no Reino Unido, por uma equipe de engenheiros da Califórnia e de Israel, usando software de design dos Estados Unidos. Quando um projeto é concluído, ele é enviado para uma instalação em Taiwan, que compra pastilhas de silício ultrapuro e gases especializados do Japão. O design é esculpido em silício usando algumas das máquinas mais precisas do mundo, que podem gravar, depositar e medir camadas de materiais com alguns átomos de espessura. Essas ferramentas são produzidas principalmente por cinco empresas, uma holandesa, uma japonesa e três californianas, sem as quais os chips avançados são basicamente impossíveis de fabricar. Em seguida, o chip é embalado e testado, geralmente no Sudeste Asiático, antes de ser enviado à China para montagem em um telefone ou computador.

A fragilidade desse processo complicado ficou aparente na escassez de chips induzida pelo Covid no ano passado, que a Casa Branca estimou custar aos Estados Unidos um ponto percentual total da produção econômica, ou centenas de bilhões de dólares. Mas também há algo elegante e até reconfortante na diversidade global do negócio de chips. Tal como acontece com o petróleo, os porta-aviões ou as armas nucleares, a questão de quem controla a indústria de semicondutores tem significado geopolítico. Os chips são ingredientes cruciais não apenas em smartphones e laptops, mas em quase tudo no mundo moderno – incluindo, principalmente, armas, tecnologia de vigilância e sistemas de inteligência artificial. O domínio da indústria nas mãos erradas pode ser desastroso.

É por isso que fiquei tão impressionado com a forma agressiva e criativa que o governo Biden tem feito para reduzir o alarmante esforço de décadas da China para construir uma indústria doméstica de semicondutores independente do resto do mundo. Este mês, o Departamento de Comércio anunciou um conjunto de restrições que impedem a China de obter muito do que precisa para estabelecer uma posição de comando no negócio de chips. O governo disse que as regras visam impedir que “tecnologias sensíveis com aplicações militares” sejam adquiridas pelos serviços militares e de segurança da China. Com poucas exceções, as sanções proíbem a China de comprar os melhores chips americanos e as máquinas para construí-los, e até mesmo de contratar americanos para trabalhar neles. Analistas com quem conversei disseram que as regras vão devastar a indústria doméstica de chips da China, potencialmente atrasando décadas.

A IBM recebeu o presidente Biden em suas instalações em Poughkeepsie, NY, para comemorar o anúncio de um investimento de US$ 20 bilhões em semicondutores, computação quântica e outras tecnologias de ponta no estado.

A IBM recebeu o presidente Biden em suas instalações em Poughkeepsie, NY, para comemorar o anúncio de um investimento de US$ 20 bilhões em semicondutores, computação quântica e outras tecnologias de ponta no estado.

As regras “são um marco histórico absoluto”, disse Gregory Allen, membro do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais e ex-diretor da A.I. estratégia do Departamento de Defesa. Em um relatório recente, Allen escreve que as restrições de Biden “iniciam uma nova política dos EUA de estrangular ativamente grandes segmentos da indústria de tecnologia chinesa – estrangular com a intenção de matar”. Considerando as maneiras pelas quais a China pode usar os chips avançados – inclusive na expansão de seu regime distópico de vigilância e repressão com inteligência artificial – o estrangulamento é justificado.

Os semicondutores são um dos poucos setores dos quais a China ainda depende do resto do mundo; o país gasta mais dinheiro importando microchips a cada ano do que petróleo. O governo chinês investiu bilhões de dólares para “indigenizar” a indústria, mas seu progresso tem sido lento. E em algumas das áreas mais avançadas do negócio, os fabricantes chineses de semicondutores estão muito atrás de seus concorrentes internacionais.

Allen diz que, até agora, a maioria das restrições americanas ao acesso da China aos melhores semicondutores visava principalmente os militares chineses. Mas as corporações da China estão intimamente aliadas aos militares da China, permitindo que os militares evitem facilmente as restrições. A nova política deve tornar isso substancialmente mais difícil, pois suas restrições se aplicam a qualquer entidade na China, seja um ramo militar ou uma corporação teoricamente “civil”.

E as regras não impedem apenas a China de comprar tecnologia americana de semicondutores. Por meio da Regra de Produto Direto Estrangeiro, partes dos regulamentos se aplicam a qualquer empresa no mundo que use tecnologia de semicondutores americana. Portanto, se um fabricante de chips não americano concordar em fabricar chips projetados na China, poderá perder o acesso a máquinas americanas de fabricação de chips que não pode obter em nenhum outro lugar.

Finalmente, há as restrições ao pessoal americano. A China está desesperadamente com falta de engenheiros e executivos com experiência no negócio de semicondutores, e muitas de suas empresas do setor empregam americanos em cargos de alto escalão. As novas restrições proíbem todos os “U.S. pessoas” – tanto cidadãos americanos quanto portadores de green card – de continuarem a trabalhar na indústria chinesa de semicondutores. (As regras permitem que as pessoas solicitem isenções à política.)

Como a China pode responder? Uma maneira é fugir das regras. O país há muito tempo é mestre em contornar as sanções, e os microchips são pequenos e potencialmente fáceis de contrabandear. Também não está claro o quão bem o Bureau of Industry and Security, a agência do Departamento de Comércio responsável pelos controles de exportação, será capaz de fazer cumprir as regras. “A lista de tarefas do B.I.S. aumentou enormemente, e seu orçamento não aumentou nada”, disse Allen.

Allen também alertou que não sabemos quão grave é uma provocação que a China pode considerar essas regras. Ele ressaltou que, no período que antecedeu o ataque a Pearl Harbor, foi a recusa dos Estados Unidos em vender petróleo ao Japão Imperial que levou este último a concluir que estava “funcionalmente em guerra” com os Estados Unidos. As regras de semicondutores são mais restritas do que nossas restrições de petróleo no Japão. “Mas a China vai ver dessa forma?” perguntou Allan. “Eu meio que duvido.”

Por outro lado, que escolha têm os Estados Unidos?

“Essas tecnologias serão a base da força econômica nas próximas décadas, e há preocupações significativas sobre como seria o mundo se a China ganhasse vantagem”, Martijn Rasser, membro sênior do Center for a New American Segurança, me disse. “Não seria um mundo em que eu gostaria de viver, e não acho que a maioria dos americanos ou a maioria de nossos amigos e aliados também gostariam de viver nele.”

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Porto Digital terá novo centro tecnológico em Portugal

Iniciativa busca reter fuga de mão de obra qualificada para outros países

Giuliana Miranda – Folha – Lisboa 21.out.2022 

Um dos principais polos de tecnologia do Brasil, o Porto Digital de Recife ganhará um hub de inovação em Aveiro, no centro de Portugal. Além de internacionalizar o projeto, a iniciativa também quer estancar a perda de profissionais qualificados para outros países.

“Portugal nos pareceu o lugar mais claro por vários motivos, sendo o primeiro deles a língua e, depois, porque é a porta da Europa. Nós vimos que era mais fácil entrar para competir no continente europeu, que tem espaço para as empresas de software crescerem, do que ir tentar no mercado dos Estados Unidos, que é muito mais competitivo”, diz Pierre Lucena, presidente do Porto Digital.

A pandemia da Covid-19 impulsionou a digitalização de vários serviços e acelerou ainda mais o crescimento do Porto Digital, que abriga atualmente mais de 350 empresas, organizações de fomento e órgãos de governo. São cerca de 14,7 mil profissionais e empreendedores, com faturamento anual de mais de R$ 3,67 bilhões em 2021.

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Área de trabalho da startup In Loco Media, instalada no parque tecnológico Porto Digital, no centro histórico do Recife – Bernardo Dantas/Folhapress

Segundo Lucena, a existência de um hub europeu ajudará a contratar talentos que, hoje, não mostram disposição de mudança para Recife, além de atingir em cheio aqueles que se sentem atraídos pela ideia de trabalhar no exterior. “Tem muita gente que quer morar fora, mesmo que seja só por uma temporada. Com o centro em Aveiro, vamos poder atrair esse profissional”, afirma.

Outra vantagem de ter um braço do Porto Digital em Portugal é a possibilidade de acesso aos generosos fundos de inovação concedidos pela União Europeia e outras instituições do velho continente.

“É um ponto muito importante para nossas empresas e nossos centros de pesquisa”, diz o executivo. “O Brasil hoje está sem recurso nenhum para inovação. Esse governo que está aí desmontou todos os que tinham. Não tem mais nada.”

“Tecnologia precisa de recursos iniciais de fundos sem fins lucrativos, porque a inovação tem riscos. Estados Unidos fazem isso, Israel faz isso”, completa o executivo.

A escolha de Aveiro, cidade com cerca de 81 mil habitantes a 75 km de distância do Porto, deveu-se à combinação de boa infraestrutura, de uma universidade com forte componente tecnológico e, principalmente, dos preços mais acessíveis do que nas grandes cidades.

A Câmara Municipal (equivalente à prefeitura) também se comprometeu a apoiar o projeto, fornecendo um prédio para instalar o hub tecnológico, além de facilitar matrículas nas escolas e acesso ao serviço de saúde.

“A ideia é de que as pessoas saiam do Brasil já com tudo acertado. Casa, colégios para os filhos, acesso à saúde. Tudo. É só chegar e começar a trabalhar”, diz o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena.

As autoridades municipais se dizem disponíveis ainda para auxiliar na integração dos novos moradores.

“A Câmara Municipal tem o compromisso de cooperar e de apoiar para que as pessoas tenham o tal ‘soft landing’, a chegada tranquila e facilitada”, diz o prefeito de Aveiro, José Ribau Esteves, do PSD (Partido Social-Democrata), de centro-direita.

Como Portugal tem um visto especial destinado aos profissionais de tecnologia, os trâmites relacionados à emissão do documento devem acontecer sem grandes sobressaltos para os interessados.

Devido à alta demanda, a questão da habitação pode ser mais complicada. Com um setor imobiliário bastante aquecido, várias cidades portuguesas têm enfrentado escassez de imóveis e aumento de preços.

“A oferta de habitação está a crescer, mas temos também um aumento muito forte da procura”, reconhece o prefeito.

“A minha convicção é de que, com o que temos em construção, o aumento da oferta será suficiente para acompanhar o aumento da procura que virá junto com o Porto Digital”, diz Ribau Esteves.

Além dos benefícios econômicos, a chegada dos profissionais brasileiros e de suas famílias pode ajudar nos indicadores demográficos de Portugal, que tem uma população envelhecida e com baixa taxa de natalidade.

A emigração de jovens altamente qualificados também é uma realidade portuguesa, ainda que em menor escala do que há uma década, em plena crise econômica.

Embora o mercado de informática tenha uma remuneração superior à média das outras profissões em Portugal, os salários ainda são mais baixos do que em outros países europeus, como Alemanha, Irlanda e França. Por isso, é comum que profissionais portugueses acabem migrando para outros países.

Na avaliação do prefeito de Aveiro, o Porto Digital é uma iniciativa com “sucesso reconhecido internacionalmente”, e a chegada dos profissionais altamente qualificados deve ajudar a impulsionar o já crescente ecossistema de inovação tecnológica da cidade.

“Estamos a falar de um setor de enorme crescimento em Portugal, no Brasil e em todo mundo. Portanto, os profissionais vão encontrar muitas oportunidades aqui”, avalia Ribau Esteves.

O novo hub também facilitaria o acesso das empresas portuguesas ao mercado brasileiro, através da integração do ecossistema do Porto Digital em Recife.

Além da universidade, onde os estudantes brasileiros formam a maior comunidade estrangeira, a cidade tem também um importante polo de pesquisa em telecomunicações.

A ideia é que o hub comece a funcionar no primeiro semestre de 2023. A data exata, e demais detalhes, devem ser acertados em novembro, quando ocorre uma visita de representantes de Aveiro a Recif

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2022/10/porto-digital-tera-novo-centro-tecnologico-em-portugal.shtml

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Trabalhador ou máquina? As 10 ocupações com maior (e menor) chance de sumir no Brasil

Laís Alegretti Da BBC News Brasil em Londres 23 julho 2022

Mais da metade das ocupações que existem hoje no Brasil podem desaparecer em cerca de duas décadas. Esta é a conclusão de pesquisadores brasileiros que usaram como base um modelo da Universidade de Oxford (Reino Unido) e adaptaram os cálculos para a realidade do mercado de trabalho do Brasil.

Eles calculam que 58,1% dos empregos no país podem desaparecer em cerca de vinte anos devido à automação, considerando as tecnologias já existentes. O estudo avança em relação a outros levantamentos ao incluir os postos de trabalho informal, além daqueles com carteira assinada.

O estudo conclui que trabalhadores no setor informal têm maior chance de ver seus empregos serem substituídos por máquinas do que aqueles com carteira assinada.

A pedido da BBC News Brasil, os pesquisadores vinculados à consultoria IDados e ao ISE Business School levantaram as dez ocupações com maiores chances de serem substituídas por máquinas, além das dez que estão menos “ameaçadas” pelos avanços tecnológicos.

Veja as listas e, em seguida, entenda o que essas ocupações têm em comum e como a previsão para o mercado brasileiro se compara com resultados em outros países.

10 ocupações com maiores probabilidades de automação

Operadores de entrada de dados (digitador) – 99%

Profissionais de nível médio de direito e afins (assistente) – 99%

Agentes de seguros – 99%

Operadores de máquinas para fabricar equipamentos fotográficos – 99%

Vendedores por telefone – 99%

Despachantes aduaneiros – 99%

Contabilistas e guarda livros – 98%

Secretários jurídicos – 98%

Condutores de automóveis, táxis e caminhonetes – 98%

Balconistas e vendedores de lojas – 98%

10 ocupações com menores probabilidades de automação

Dietistas e nutricionistas – 0.4%

Gerentes de hotéis – 0.4%

Especialistas em métodos pedagógicos – 0.4%

Médicos especialistas – 0.4%

Médicos gerais – 0.4%

Fonoaudiólogos e logopedistas – 0.5%

Trabalhadores do sexo – 0.6%

Dirigentes de serviços de bem estar social – 0.7%

Psicólogos – 0.7%

Dirigentes de serviços de educação – 0.7%

Fonte: ISE Business School e Consultoria IDados

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O que essas profissões têm em comum?

As ocupações com maior probabilidade de automação “são muito bem definidas, são coisas que você pode especificar com muita precisão o que tem que ser feito e que não precisam de muito juízo, de muita subjetividade humana para tomar uma decisão”, explica o diretor-presidente da consultoria IDados e professor da ISE Business School, Paulo Rocha e Oliveira, um dos autores do artigo.

Por outro lado, as profissões com menor chance de substituição são aquelas com “muita interação e muita subjetividade humana”, que envolvem “saber lidar com pessoas e resolver situações onde as emoções são muito predominantes”, resume Rocha e Oliveira.

O economista Bruno Ottoni, pesquisador do IDados e do Ibre/FGV e um dos autores do artigo, acrescenta que, além das habilidades socioemocionais, outros dois fatores-chave ajudam a entender se um trabalho está mais ou menos suscetível. Um trabalho com grande exigência de criatividade/originalidade está mais protegido, assim como ocupações que exigem habilidades motoras finas ou são realizadas em ambientes pouco estruturados.

Este último ponto explica, segundo Ottoni, porque trabalhos como de jardineiro e empregada doméstica não estão muito ameaçados pela tecnologia no curto prazo.

“Esses são trabalhos que, apesar de serem, em geral, executados por pessoas com menor grau de qualificação, eles exigem habilidade motora fina e exigem que o trabalhador saiba navegar num ambiente de trabalho muito pouco estruturado – por isso, também estão protegidos, porque a máquina não consegue substituir. Ainda não tem aquela coisa do humanóide, um robô com perna e braço e que vai realmente operar como um ser humano.”

Os critérios usados por eles estão baseados nas probabilidades de automação calculadas pelos pesquisadores Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford – aos quais Rocha e Oliveira se refere como “as maiores autoridades mundiais sobre o assunto”. O trabalho deles foi focado no mercado de trabalho dos Estados Unidos, conforme a BBC News Brasil noticiou em 2014.

Países vizinhos

E como a taxa brasileira de empregos que correm risco de desaparecer se compara a outros países? A proporção brasileira de cerca de 58% está pouco abaixo de taxas encontradas em outras pesquisas para países da América do Sul, como Uruguai (63%), Paraguai (63,7%) e Argentina (64,6%).

“Não apenas o Brasil, mas nossos vizinhos aqui têm que olhar para esse tema com atenção”, diz Ottoni.

Na Europa, estão entre as taxas mais baixas a Suécia e o Reino Unido (47% em ambos) e Irlanda e Holanda (49% em ambos). Mas também há países com probabilidades próximas às do Brasil, como Portugal (59%) e Croácia (58%), segundo dados apresentados no artigo.

Os pesquisadores apontam que a proporção de empregos que podem ser automatizados tende a ser maior nos países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos, devido à alta proporção de ocupações que exigem pouca qualificação e que são mais facilmente substituídas por máquinas.

Trabalho informal versus formal

No Brasil, até 62% dos empregos informais do país podem desaparecer nas próximas duas décadas, por causa da automação, enquanto a probabilidade é de 55% para os empregos formais, segundo os pesquisadores.

E quem são as pessoas que costumam ocupar os empregos sob maior risco de automação? “Em geral, estamos falando de pessoas com menos escolaridade. E, geralmente, o menor grau de escolaridade está relacionado também a algumas populações mais vulneráveis – o negro em vez do branco, e pessoas das regiões mais pobres do Brasil, Nordeste, Norte”, diz Ottoni.

‘Barreiras’ para o uso de novas tecnologias

Rocha e Oliveira defende que, mais do que pensar em profissões que vão sumir, como um todo, é necessário focar em quais atividades feitas por esses profissionais podem ser feitas por máquinas. Ele diz que é a natureza do trabalho que vai mudar, ao exigir que humanos se concentrem em tarefas que os computadores não podem fazer, como já vem ocorrendo.

“Quando a gente fala que o emprego vai desaparecer, o que a gente está dizendo é que muitas das tarefas que as pessoas hoje desempenham naquele emprego poderão ser substituídas por computadores. Isso quer dizer que as pessoas vão ser substituídas por computadores? Umas sim, outras não.”

Ele também aponta que o fato de existir tecnologia disponível para substituir tarefas hoje produzidas por seres humanos não significa que ela necessariamente será aplicada por todas as empresas.

O consultor lista ao menos três fatores que podem ser considerados barreiras para as empresas: dificuldades de importação de alguns equipamentos por empresas brasileiras; necessidade de treinamento de funcionários para usar a nova tecnologia de forma eficiente; e a competitividade de cada área.

“Se nenhum dos meus competidores for fazer esse investimento hoje, talvez não me convenha fazer. Isso pode levar alguns setores a atrasarem a adoção dessas tecnologias ou, eventualmente, até não adotarem”, diz Rocha e Oliveira, que coordena a criação de um centro do ISE Business School e da consultoria iDados para estudar questões de automação e produtividade nas empresas brasileiras.

‘Apagão de mão de obra’?

Os pesquisadores argumentam, no artigo, que os resultados encontrados não devem criar “pânico”, mas funcionar como “alerta”, ao indicar que novas tecnologias são tecnicamente capazes de substituir grande parte dos empregos brasileiros. Apontam que é “por meio de políticas efetivas” que o Brasil pode “aliviar, ou até mesmo evitar, a perda maciça de empregos devido à automação, nas próximas décadas”.

Ottoni diz que “a sociedade como um todo” deve se preparar para lidar com esse cenário – e cita governo, empresas, terceiro setor, academia e o próprio trabalhador. “Para todos os agentes que mencionei, a gente vai não vai ter como escapar de políticas de retreinamento de mão de obra.”

Especialista em mercado de trabalho, ele diz que as novas tecnologias levarão, ao mesmo tempo, a uma destruição de empregos, mas também à criação de novas vagas. O problema, diz o economista, é que haverá um descasamento entre esses tipos de vagas.

Se não houver profissionais retreinados, diz ele, podemos ter um cenário em que haverá muita vaga de emprego aberta, mas sem ser preenchida – ao mesmo tempo em que haverá muitos desempregados sem conseguir recolocação.

“As próprias empresas, se não se preocuparem em treinar, serão as mais afetadas pelo que a gente pode chamar de apagão de mão de obra”, diz Ottoni.

– Texto originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62223093

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62223093

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Grandes empresas buscam startups para acelerar inovação; confira o ranking

Por Renée Pereira – Estadão – 19/10/2022 

Trabalho mostra as companhias que mais fizeram parcerias entre julho de 2021 e junho deste ano; Ambev e Suzano lideram ranking de negócios com empresas de tecnologia

Enquanto os fundos de Venture Capital reduzem os investimentos nas startups, grandes corporações apostam nas parcerias com as empresas para garantir mais inovação no ambiente interno. Entre julho de 2021 e junho deste ano, o número de companhias que contrataram startups cresceu 30% e o volume de relacionamentos declarados, mais de 60% (42.588). Os negócios somaram R$ 2,7 bilhões em contratos no período, o que coloca o País no topo do modelo de open innovation (inovação aberta) no mundo, segundo dados da 100 Open Startups.

“Enquanto na Europa predomina os programas de P&D e nos Estados Unidos, os Venture Capital, por aqui vemos um avanço expressivo do open innovation com startup”, afirma Bruno Rondani, CEO e fundador da 100 Open Startup. O conceito de inovação aberta surgiu na Universidade de Berkeley (EUA) e consiste numa cultura de maior colaboração e parceria com terceiros para criar soluções inovadoras, ou seja, buscar novas opções fora do ambiente interno da empresa.

Num passado não muito distante, diz Rondani, as empresas eram muito fechadas e o nível de interação, baixo. O desenvolvimento de novos produtos e de soluções vinham de programas de P&D e laboratórios criados dentro das companhias. Com o avanço das startups e o surgimento de unicórnios (empresas que superaram US$ 1 bilhão em valor de mercado), o mercado de open innovation explodiu. “Hoje podemos dizer que não existe em nenhum lugar do mundo um ecossistema com mais de 25 mil startups e 4,4 mil empresas (fazendo negócios).”

Desde 2016, quando o primeiro Ranking 100 Open Corps foi lançado, a intensidade das negociações cresceu 94 vezes, com destaque para os setores de bens de consumo e alimentação, construção e imobiliário e serviços financeiros. O trabalho é baseado na pontuação dada às interações entre empresas e startups.

O resultado de 2022 traz a Ambev na liderança pelo segundo ano consecutivo. “Estamos cada vez mais próximos das startups”, diz o diretor de tecnologia da gigante de bebidas, Eduardo Horai. Segundo ele, a empresa fez 573 interações de negócios com 340 startups, o que representa um crescimento de 65% em relação ao ranking de 2021.

Eduardo Horai, diretor de tecnologia da Ambev

Eduardo Horai, diretor de tecnologia da Ambev 

As parcerias resultaram em diversas soluções para melhorar processos e a relação com a cadeia do setor, seja com clientes ou fornecedores. Horai destaca o lançamento o Bees Bank, uma fintech para atender cerca de 1 milhão de pontos de venda em todo País. Outro negócio importante e a Lemon energia – uma startup que ajuda bares e restaurantes a reduzir a conta de luz e, ao mesmo tempo, consumir energia renovável.

“Isso sem contar o Zé Delivery, que “bombou” durante a pandemia, entregando cerveja gelada a preço acessível em 30 minutos”, diz o executivo. Só no ano passado, o aplicativo chegou a 300 cidades e fez mais de 61 milhões de entregas. Neste ano, já conta com 4 milhões de usuários ativos por mês.

Segundo Horai, apesar de a empresa estar pelo segundo ano consecutivo na liderança, ainda há muito para crescer. “Buscamos soluções, por exemplo, para melhorar a logística, na última milha. São mais de 4 mil motoristas para fazer entregas.”

Maior engajamento com startups

Na avaliação de Bruno Rondani, a Ambev passou por uma transformação cultural nos últimos anos e fez a transição para virar uma empresa de tecnologia. “E ganhou o jogo.” Outra que surpreendeu no ranking deste ano foi a maior produtora de celulose do mundo, a Suzano. A empresa subiu nove posições e ficou em segundo lugar entre as companhias com maior engajamento com startups.

Bruno Rondani, CEO e fundador da 100 Open Startup, diz que não existe em nenhum lugar do mundo um ecossistema com mais de 25 mil startups e 4,4 mil empresas fazendo negócios

Bruno Rondani, CEO e fundador da 100 Open Startup, diz que não existe em nenhum lugar do mundo um ecossistema com mais de 25 mil startups e 4,4 mil empresas fazendo negócios 

Neste ano, foram 369 conexões, 275 startups em pitch day e mais de 75 projetos em andamento, diz o gerente executivo Digital da Suzano, Jefferson Ticianelli. “Acreditamos nesse modelo e tivemos um retorno de R$ 30 milhões.” Antes de qualquer operação, diz ele, há sempre a pergunta: “Temos uma solução para esse problema dentro de casa? Se a resposta é não, vamos procurar fora.”

Mais eficiência

Foi o que ocorreu com uma ferramenta para dar mais eficiência ao processo florestal da empresa. A coleta de ocorrência era feita em planilhas. “Quando olhamos e vimos que isso poderia ser feito por uma startup, fomos atrás e encontramos.” Na área industrial, há processos manuais que estão sendo substituídos por sensores que melhoram a qualidade da informação e dá mais segurança na operação. O objetivo, diz Ticianelli, é desburocratizar o processo. E boa parte desse trabalho tem sido feito em parceria com empresas de tecnologia.

Na Suzano, inovação aberta tem o objetivo de desburocratizar processos

Na Suzano, inovação aberta tem o objetivo de desburocratizar processos Foto: Ricardo Teles

A inovação aberta tem um caminho de forte crescimento no Brasil nos próximos anos. Isso porque, até então, esse era um mundo limitado a grandes corporações e que agora começa a ser descoberto por mais empresas. A velocidade das mudanças tecnológicas tende a ser um dos motores desse movimento.

Nos últimos anos, as empresas entenderam que, se ficassem fechadas em seus ambientes, teriam mais dificuldades para inovar e poderiam perder competitividade diante dos concorrentes. Normalmente, o tempo e o dinheiro gastos dentro dos centros de pesquisa das empresas são maiores quando comparados à exploração do ecossistema de startups.

Ranking 2022

1º) Ambev

2º) Suzano

3º) ArcelorMittal

4º) Raízen

5º) BASF

6º) IBM

7º) Stefanini

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8º) Unimed

9º) Vivo

10º) Bradesco

Ranking 2021

1º) Ambev

2º) ArcelorMittal

3º) BMG

4º) BASF

5º) Nestlé

6º) Stefanini

7º) Natura

8º) Unimed

9º) Raízen

10º) Suzano

https://www.estadao.com.br/economia/grandes-empresas-buscam-startups-para-acelerar-inovacao-confira-o-ranking/

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Internet dos satélites Starlink chegará a aviões em 2023, diz SpaceX

Por Danielle Cassita | Editado por Patrícia Gnipper | – Canaltech – 19 de Outubro de 2022 

A SpaceX revelou que não falta muito para a internet dos satélites Starlink estar disponível a bordo de aviões. Em um comunicado publicado nesta terça-feira (18), a empresa explica que lançará oficialmente o serviço Starlink Aviation no ano que vem, que promete conexão de até 350 Mbps para passageiros realizarem chamadas de vídeo, jogarem e realizarem outras atividades em aeronaves equipadas com o Aero Terminal.

Segundo a SpaceX, a conexão com latência de 20 ms estará disponível durante o taxiamento da aeronave, decolagem, voo sobre áreas terrestres e oceanos e, por fim, no pouso. Para isso, será preciso usar o Kit de Aviação Starlink, que conta com um Aero Terminal, uma fonte de energia, dois pontos de acesso sem fio e cabos. O sistema já pode ser reservado.

A empresa explica que, como os satélites que fornecem a conexão estão em movimento constante na órbita baixa da Terra, há sempre algum deles sobre a aeronave ou perto o suficiente para oferecer sinal a altas altitudes e em regiões polares. “Contanto que o equipamento esteja conectado e o [terminal] Starlink tenha uma visão do céu sem obstruções, a conexão é possível”, escreveram.

Alex Wilcox, CEO da companhia de aviação JSX, afirmou que pretende tornar a internet Starlink disponível para passageiros em breve. Segundo ele, a ideia é que cada uma das aeronaves da empresa tenha o sistema até o fim do ano. Wilcox afirmou que, durante testes, a internet Starlink em aeronaves Embraer 135 e 145 se saiu “incrivelmente bem”.

A JSX confirmou que o serviço será oferecido sem custos extras para os passageiros. “Assim que você entra no avião, tudo que terá que fazer é clicar no SSID e pronto”, explicou ele. “Não há login, não há cartão de crédito, nada, é aberto para todos”, disse. A Hawaiian Airlines também oferecerá o serviço aos seus passageiros sem custos adicionais, e deverá equipar os terminais nas aeronaves no ano que vem.

A SpaceX começou a sinalizar que iria expandir a conexão dos satélites Starlink para veículos em março do ano passado. Naquele mês, enviou à Federal Communications Commission (FCC), a agência que regula telecomunicações nos Estados Unidos, uma solicitação de aprovação regulatória para levar a internet a embarcações, carros e aeronaves.

Já em dezembro, Jonathan Hofeller, vice-presidente de vendas comerciais da SpaceX, afirmou que a internet Starlink chegaria a voos comerciais. Na ocasião, ele afirmou que a empresa estava negociando com empresas aéreas para oferecer a conexão a bordo das aeronaves, mas ainda não havia detalhes de como isso seria feito.

Fonte: SpaceX; Via: Aviation Today

https://canaltech.com.br/avioes/internet-dos-satelites-starlink-chegara-a-avioes-em-2023-diz-spacex-227680/

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Projeto Starline: cabines de telepresença do Google serão testadas em escritórios

Por Redação Estadão 15/10/2022 

Após resultados positivos durante avaliações iniciais, empresa decide levar os testes para fora da empresa

Em 2021, o Google revelou o Projeto Starline, uma cabine para videochamadas capaz de transmitir imagens 3D super-realistas de cada participante – a ideia dela é simular a sensação de presença de conversas cara a cara. Com os resultados positivos obtidos na fase de avaliação inicial, a empresa decidiu fazer novos testes fora das fronteiras da empresa.

No final deste ano, o Google vai instalar protótipos da cabine de chamadas 3D em escritórios parceiros selecionados para os testes regulares. Até aqui, as instalações do Starline estavam disponíveis apenas em escritórios do Google nos EUA, podendo ser testados pelos funcionários para fazer reuniões. Agora, a empresa convidou mais de 100 parceiros de áreas diversas para divulgar e testar a tecnologia.

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A Salesforce, empresa parceira do Google, afirma que tem interesse em testar a tecnologia. Em comunicado, o vice-presidente de tecnologia de negócios da Salesforce, Andy White, disse que “Na Salesforce, estamos constantemente explorando novas maneiras de oferecer experiências incríveis para nossos funcionários e clientes em todo o mundo. O Projeto Starline tem o potencial de gerar conexões mais profundas entre as pessoas, unindo experiências pessoais e virtuais”.

Em resposta ao interesse gerado pela ferramenta, o Google diz que vai compartilhar mais sobre o Projeto Starline no próximo ano.

Aqueles que puderam testar as cabines aprovaram a tecnologia e descreveram a experiência como incrivelmente realista e impressionante. Apesar disso, há dúvidas sobre o uso do projeto no cotidiano. Ainda não se sabe se o Google planeja comercializar o Starline, porque outras ferramentas de videochamada já são consideradas boas alternativas para reuniões online, como Google Meets e Zoom.

O sistema, que usa câmeras de alta resolução, foi apresentado na última edição do Google I/O

O sistema, que usa câmeras de alta resolução, foi apresentado na última edição do Google I/O 

Além do Starline poder ser utilizado para reuniões virtuais, a área da saúde também poderia se aproveitar da nova tecnologia para realizar atendimentos online.

O Google, porém, não está só no desenvolvimento de tecnologias de telepresença. O Facebook anunciou na semana passada que está desenvolvendo o Codec Avatar. Trata-se de um tipo ultrarrealista de avatar, que reproduz quase fielmente os traços e a textura da pele humana. A intenção também é aumentar a sensação de presença em mundos virtuais.

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Moisés Naim: Qual é o maior boom econômico do mundo?

A Guiana, uma diminuta faixa de floresta tropical na costa norte da América do Sul, está em meio a um boom petroleiro de proporções quase inimagináveis

Moisés Naim – Estadão- 17/10/2022 

Qual economia crescerá mais rapidamente nos próximos anos? Tente adivinhar. Talvez você esteja pensando no Vietnã, que vem levando a cota de mercado de uma China menor por sua má resposta à crise da covid. Ou no campeão africano de crescimento, Ruanda, cuja economia quintuplicou desde 1995. Ou talvez Bangladesh, cujo setor exportador é catalisador da maior explosão econômica na Ásia.

Mas não é nenhum deles. O campeão mundial de crescimento econômico nos próximos anos será a Guiana. Porque essa diminuta faixa de floresta tropical na costa norte da América do Sul, de que quase não se ouve falar, está em meio a um boom petroleiro de proporções quase inimagináveis.

Desde 2015, a Guiana é líder mundial em descobertas de petróleo em alto-mar, tendo descoberto 11,2 bilhões de novos barris, quase um terço de todas as novas descobertas de petróleo no mundo. Investigadores da consultoria Nexus Group preveem que o país se converterá em alguns anos em um dos cinco principais produtores de petróleo em alto-mar no mundo, deixando para trás países como Estados Unidos, México e Noruega.

Estima-se que, em meados da próxima década, a Guiana produzirá mais petróleo per capita que qualquer outro país do mundo. Os lucros do governo com o petróleo poderiam ascender a US$ 21 mil por habitante, quase o dobro do PIB per capita de hoje.

Este ano, a economia da Guiana poderia crescer 58%, uma cifra exorbitante. O PIB petroleiro poderia crescer 30% ao ano entre 2023 e 2026. O país que até pouco tempo atrás era um dos mais pobres da América já ultrapassou a média mundial de renda per capita, e o boom acaba de começar.

O maior boom econômico do mundo não é o que você pensa.

O que é boa notícia para a Guiana poderia parecer má notícia para o clima, mas não é. A intensidade das emissões do petróleo da Guiana — ou seja, a quantidade de carbono liberada por barril produzido — é apenas metade da média mundial e continua diminuindo. Se o petróleo guianês substituir o produzido por seus competidores, o boom petroleiro da Guiana poderia fazer as emissões de carbono cair.

Mas essa bonança ajudará realmente o povo guianês? Não necessariamente. O país está enriquecendo, mas muitos de seus habitantes continuam pobres. A Guiana ocupa a 108.ª posição, entre 191 países, no Índice de Desenvolvimento da ONU. A Unidade de Inteligência da The Economist classifica a Guiana como uma “democracia defeituosa”: as eleições são competitivas, mas nem sempre limpas. Um conflito eleitoral, em 2020, deu lugar a um duro enfrentamento que durou meses e desencadeou várias ondas de violência entre os partidários das facções em oposição.

Tensão étnica definiu por muito tempo a política desse país dividido demograficamente pelo legado do Império Britânico: 40% dos guianeses têm ancestrais vindos da Índia; e 30%, da África; enquanto 10% são indígenas; e os 20% restantes, mestiços. Os guianeses tendem a votar em blocos étnicos, algo que raramente anda de mãos dadas com a estabilidade política. E a corrupção, por uma desgraça, é sumamente arraigada.

Por décadas temos visto como booms petroleiros quase sempre acabam mal. Grupos rivais lutam ferozmente pelo controle das rendas petroleiras em vez de trabalhar juntos por um futuro melhor para todos. O fenômeno é tão comum que tem seu próprio nome: a maldição dos recursos. Em face às suas divisões étnicas e seu histórico de corrupção, a Guiana marca dois campos na lista de sinais de risco de cair na maldição dos recursos. Será que os guianeses serão capazes de evitar esse destino?

Talvez sim, porque eles também contam com um par de ases na manga: por mais defeituosa que seja, a Guiana é uma democracia, o que ajuda a vacinar os povos contra a maldição dos recursos. E a enorme magnitude da bonança petroleira que espreita a Guiana e sua diminuta população poderia tornar possível satisfazer a todos, sem o país ter de entrar em conflitos empobrecedores pelo butim petroleiro.

Sem uma gestão política sábia e prudente, a riqueza petroleira pode facilmente se converter em desgraça. Tomara que os líderes da Guiana saibam evitar esse triste destino. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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Um pedaço da história em imagens: o YouTube entra na sala

Fábio Coelho, CEO do Google Brasil, fala sobre a trajetória de sucesso do YouTube no país

Fábio Coelho, CEO do Google no Brasil (Leandro Fonseca/Exame)

Fábio Coelho, CEO do Google no Brasil (Leandro Fonseca/Exame)

André Lopes – Exame – Publicado em 13/10/2022.

Com 17 anos de história, o YouTube é atual­mente a maior plataforma de audiovisual do mundo. Ainda que dispute pela atenção de mais de 1 bilhão de pessoas com gigantes como Netflix, TikTok e Instagram, o site de vídeos do Google assumiu a liderança da difícil tarefa de prender os olhares diante das telas.

A audiência cativa do streaming passa 80% mais tempo no YouTube do que em outras plataformas.

Por trás do sucesso, mais do que a experiência de quase duas décadas, está um robusto sistema de pagamentos para os criadores de conteúdo. Capaz de criar até uma nova profissão, a de youtuber, só no Brasil o ecossistema criativo do aplicativo contribuiu em 2021 com mais de 6 bilhões de reais para o Produto Interno Bruto (PIB), o dobro do ano anterior. Na paralela, o número de empregos gerados direta ou indiretamente passou de 160.000 postos.

O CEO do Google no Brasil, Fábio Coelho, completou recentemente dez anos à frente da operação local. Além de acompanhar a penetração do serviço nos smartphones brasileiros, o executivo participou das decisões que criaram o YouTube à brasileira. Para Coelho, o destaque na trajetória de adaptação foi a escala com a qual a empresa conseguiu incluir diferentes tipos de conteúdo e os cuidados que tiveram para manter o espaço saudável para quem o acessa.

Em entrevista à EXAME, durante o evento YouTube Brandcast, o executivo comentou como a empresa enxerga o seu legado de 15 anos de presença no Brasil, as mudanças para atender as novas gerações, e os desafios que se apresentam logo à frente — que devem mudar a forma de consumo de vídeo e como as marcas vão se comportar em meio a isso. O entendimento geral é de que a relevância do conteú­do ainda é a chave do negócio, independentemente da plataforma em que ele for hospedado. 

O Google defende que o YouTube mudou, mas como se deu essa mudança?

A plataforma alcançou uma escala gigante nos últimos quatro anos. Tanto globalmente quanto no Brasil. Por isso, temos feito esse trabalho anual, por meio do evento YouTube Brandcast, de entrar em contato com quem produz, criadores ou marcas, e atualizá-los sobre como o YouTube tem ido para muito além de ser um lugar para assistir a ­vídeos. E também para mostrar que não é por acaso que a plataforma movimenta 50 bilhões de dólares em monetização por ano. Eu bato na tecla de que não é só música, lazer e educação, é também uma força econômica para negócios. Essa é a principal mudança. Hoje temos o poder de compartilhar os ganhos do YouTube­ de diversas formas e, por consequência, gerar um enorme impacto social.

Mas a audiência também está se transformando. Como acompanhar?

A audiência na verdade vê muito mais YouTube do que antes. Pense que, quando o brasileiro precisou ficar em casa por causa da covid-19, ele ficou assistindo a lives, podcasts e aprendendo novas coisas pelos vídeos. Ele fez isso sobretudo pelo ­YouTube. Esse comportamento tornou a plataforma uma parte de sua rotina. Nesse sentido, a gente consegue até mensurar que a mudança foi deixar de ser um app estritamente do smartphone para chegar a ser um app da sala dos usuários. São 120 milhões de espectadores, mas, desses, 75 milhões assistem ao YouTube na TV. Com essa força, podemos pensar em alçar novos voos, já que agora somos maiores do que os canais de televisão do país. Um exemplo do que já fazemos nesse sentido são as comunidades que são financiadas pelo Google. No momento, temos incentivo para criar mais produtores gamers, da comunidade LGBTQIA+, do futebol — que agora conta com a transmissão ao vivo do Paulistão por lá. E isso não deve parar. Eu, pessoalmente, assisto aos campeonatos de surfe que também estão no YouTube. O fato de existirem tantas opções de conteúdos mostra que temos acompanhado o interesse dos usuários.

Como deverá ser o consumo de vídeo no futuro?

Será uma atividade cada vez mais coletiva. Em uma comparação entre junho de 2020 e junho de 2019, o tempo de exibição do YouTube visualizado nas telas da TV cresceu 115%. Uma tendência que se manterá no futuro é a audiência requisitando que haja diversidade de vozes e representatividade.

Mas tanta variedade não torna as coisas mais difíceis para as marcas? O usuário recebe o que ele quer, mas as empresas chegam a quem elas precisam?

O usuário na internet está mais exigente. Ele precisa cada vez mais de conteúdo personalizado e autêntico, e os novos formatos entram para ajudar essa dinâmica. Os vídeos curtos são uma das tendências. A venda de produtos por live commerce é outra. Aí entram os criadores, que conseguem fazer essa parte da linguagem direta com o espectador. No YouTube, temos incluído isso nos projetos experimentais de transmissões voltadas para dias inteiros de vendas, em momentos como a Black Friday e outras datas comemorativas. É um bom exemplo de conteúdo diferente que junta as frentes de influenciadores e marcas. Mas, se for um vídeo curto ou longo, a relevância ainda é o que define o interesse.

YouTube Brandcast 2022: evento comemorativo feito para marcas, agências de publicidade e produtores de conteúdo da plataforma (Luciana Aith/Divulgação)

Algumas pesquisas mostram que a geração Z, dos nascidos após o ano 2000, está pesquisando no TikTok em vez de no Google. Para o buscador, como contornar essa mudança geracional?

Essa transformação não é do tipo que se contorna, e sim do que se abraça. O grande pilar do momento são os vídeos curtos. Esse formato está no YouTube por meio do Shorts, que hospeda vídeos de até 60 segundos, e que agora também compartilha a receita de publicidade com quem produz conteúdo ali. Essa nova plataforma é só mais uma das opções que temos disponíveis para fazer uma busca na internet. Não só por texto e vídeo, mas a procura por uma informação pode começar, por exemplo, com uma foto tirada pelo aplicativo Google Lens, que encontra um resultado por meio de imagens feitas no smartphone, ou por voz , com uma assistente virtual. Cabe apenas darmos a opção para o usuário, e ele fará o uso. Dentro disso, claro, há o perfil de cada um desses usuários. No momento, os mais jovens preferem pesquisar algumas coisas por vídeo.

O Google se mostra bastante ativo na sociedade brasileira e em suas diferentes realidades. Não é muita responsabilidade? Como vocês enxergam isso?

Nós participamos ativamente do tecido social brasileiro. E sabemos que qualquer coisa que fazemos hoje tem impacto. Por exemplo, na pandemia, 2 milhões de crianças chegaram a estudar pelo Google Classroom. Isso é gigante. Nesse período, o comércio também se voltou para soluções que passavam pelo Google. Comida foi vendida e entregue com a ajuda de nossas plataformas no momento de incerteza sobre poder ou não se aglomerar. A própria PlayStore foi fundamental para distribuir o auxílio emergencial sem que as pessoas precisassem pegar filas para cadastrar seus documentos. Logo, é fato que nosso papel tem crescido. Ajudamos o brasileiro a tomar decisões das menores às mais importantes. Vai desde o trajeto mais rápido para casa até informações-chave para o país, como é o caso de decisões políticas. Neste ano a gente fez mais de 115 parcerias com publishers, para que fosse possível passar pela eleição com informações qualificadas. Nos mantivemos, claro, apartidários e apolíticos, mas trabalhamos ativamente para que as informações e os conteúdos de qualidade fossem valorizados. E esse cuidado com o Brasil vai até em aspectos mais singelos. Um exemplo é o acervo do Museu Nacional, que pegou fogo, mas está disponível digitalmente pelo Google Arts para toda a humanidade. 

E para as empresas, existe mais a ser feito?

A digitalização dos últimos três anos foi avassaladora. Se olharmos para o e-commerce vemos um avanço tremendo. Agora estamos em uma fase em que é possível entrar em sistemas antigos, que faziam processos por servidores internos das companhias, e levar a nuvem para escalar projetos em outro nível. Em um processo que leva tecnologias que até pouco tempo atrás não eram pensadas para certos negócios. Tome o exemplo da compra de dois produtos que ficam armazenados em centros de distribuição diferentes. Quando entramos nessa seara com a nossa solução, que usa os avanços que tivemos em inteligência artificial e geolocalização nos últimos anos, é possível traçar uma rota precisa da frota de entregadores até que esses produtos se cruzem e cheguem juntos à casa do consumidor. Uma entrega mais rápida, mais barata e integrada com toda uma cadeia de centenas de milhões de pacotes. Esse tipo de experiência logística é um passo fundamental para dar conta de um Brasil continental. E aí, se você olha para o varejo brasileiro, você tem uma capacidade espetacular de transformar negócios que já são gigantes, mas que podem usar recursos que os tornarão ainda maiores

https://exame.com/revista-exame/o-youtube-entra-na-sala/

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Nizan Guanaes: “Nas redes sociais, parece que ninguém tem problema”

Publicitário conta como se reinventou para não sucumbir ao seu próprio ego, o que incluiu luta contra a depressão e tratamento para perder mais de 40 quilos

Por Felipe Branco Cruz -Veja –  7 out 2022 

Nizan Guanaes – Marcelo Navarro/.

O baiano Nizan Guanaes, de 64 anos, viu sua vida tomar um novo rumo há quase duas décadas, após uma cirurgia bariátrica para perder parte dos 140 quilos que pesava. O procedimento, feito sem acompanhamento psicológico, fez com que ele começasse a beber de maneira descontrolada e só dormisse com a ajuda de remédios. Alertado por seu médico de que corria risco de vida, Nizan procurou ajuda com o psiquiatra Arthur Guerra. 

Mas, em vez de mais remédios, a receita foi exercício físico e foco na qualidade de vida. A mudança veio acompanhada também de outras decisões: em 2015, ele vendeu por 1 bilhão de reais seu grupo ABC, referência da publicidade no país. Desde então, define-se como um “ex-publicitário”, agora focado em sua nova empresa, a consultoria N Ideias. Mudou também a maneira como trata seus colaboradores: “Percebi que pessoas são mais produtivas se forem felizes”. Agora, ao lado do mesmo psiquiatra que o ajudou a mudar de vida, ele lança o livro Você Aguenta Ser Feliz?, da editora Sextante. Nizan conversou com VEJA por vídeo de Harvard, nos Estados Unidos, onde cursa um programa na famosa universidade voltado para líderes empresariais.

No livro Você Aguenta Ser Feliz?, o senhor narra a superação de diversos dramas pessoais que o afligiam, mesmo sendo um dos publicitários mais bem-sucedidos do país. Por que decidiu compartilhar os altos e baixos da sua história? 

Você tem de ter uma vida com propósito. Não dá para viver uma vida só para si. Quando você tem o talento de se comunicar, é importante dividir isso com os outros. Por exemplo: as pessoas que vão fazer uma cirurgia bariátrica certamente vão ficar mais atentas ao processo do que simplesmente ir assim, na raça. Ou pessoas que têm vergonha de assumir qualquer tipo de processo depressivo. Me sinto feliz de poder fazer isso. Escrevi o livro com paixão, reli com medo e publiquei com coragem, pois ninguém gosta de se expor no mundo dos perfeitos e da perfeição, que é o mundo das redes sociais.

Em 2006, o senhor pesava cerca de 140 quilos quando fez a cirurgia bariátrica, mas depois lamentou não ter feito o preparo correto. O que ocorreu? 

Parei de me pesar quando cheguei a 140 quilos. Meu pai morreu aos 45 anos, de infarto, e os irmãos dele também. Em 2006, eu estava diante de uma situação que exigia uma escolha. Só que não me preparei. A bariátrica é uma operação maravilhosa, mas perigosíssima. Meu médico perguntou se eu bebia e, como não abusava do álcool, fui lá e fiz. Mas é preciso ter apoio psicológico. A partir daí, eu comecei a ter um comportamento comum que é o abuso de alguma coisa. Alguns bebem, outros fumam, outros gastam. Eu digo que só não virei alcoólatra porque não gosto de bebida, mas comecei a ter comportamentos que nada tinham a ver comigo.

    “Ninguém gosta de mostrar suas fragilidades. Quase fiquei alcoólatra. Tive depressão. Todo mundo é maravilhoso no Instagram. Nas redes, parece que ninguém tem problema”

 A falta de apoio psicológico antes da cirurgia o levou a abuso? 

Em 2011, Roberto Kalil, meu médico cardiologista, disse que eu iria morrer se continuasse fumando, bebendo e comendo demais. Eu tomava remédio para dormir. Kalil, então, me indicou o Arthur Guerra — que, em vez de dar mais remédio, me botou para fazer esporte e cuidar do sono. Estou hoje aqui em Harvard e trouxe minha balança. Eu me peso diariamente e mando uma foto para o Guerra. Desde então, já fiz três maratonas, duas meias maratonas e um triatlo. Hoje estou com 96 quilos. Só não vou correr a maratona de Chicago porque surgiu uma hérnia na cervical. Brinco que ele me pegou quase alcoólatra e me deixou quase atleta.

Seu livro seria de autoajuda ou saúde? 

Não gosto do rótulo de autoajuda. As pessoas tentam arrumar classificações para desqualificar, como se fosse um livro babaca. Temos de lembrar que antes de “ajuda” vem a “auto”. Todo mundo tem de fazer sua parte.

Em 2015, após a mudança de vida, o senhor vendeu o grupo ABC por 1 bilhão de reais. Enfrentou uma crise existencial por ficar sem seu negócio? 

Era uma crise normal. Todas as pessoas que vendem suas empresas passam por um momento em que você está perdido no meio do deserto. Isso é absolutamente comum na minha idade. Fiz uma venda boa do ponto de vista financeiro, mas precisei ressignificar minha vida — como ao apostar nesse curso que estou fazendo, aos 64, aqui na Harvard Business School, para lideranças de empresas. Aqui em Harvard conversamos muito sobre os desafios das pessoas que vendem seus negócios e precisam se reinventar. Meu psiquiatra fez até uma comparação com um grande jogador de futebol, tipo Ronaldo Fenômeno. Já fui um jogador, agora eu sou o técnico, sou o Guardiola, o cara que está do lado de fora do campo.

E o senhor é disciplinado? 

Mark Twain dizia que você só chega longe comendo o que não gosta, bebendo o que não gosta e fazendo o que não gosta. Ninguém curte acordar cedo e no frio. Você gosta do que vem depois. O desafio é fazer coisas que não são saborosas naquele momento, mas que depois rendem frutos maravilhosos. Essa é a disciplina que prego. Eu sou de uma geração para a qual disciplina era uma coisa careta — mas hoje, para mim, é libertadora.

Apesar do sucesso profissional, sua carreira acumulou também fracassos. Como lidou com eles? 

Não gosto de endeusamento. Meu mérito não é a perfeição. Costumo dizer que o livro é um striptease meu. Ninguém gosta de ficar nu na frente dos outros. Ninguém gosta de mostrar suas fragilidades. Tive depressão. Enquanto isso, todo mundo é maravilhoso no Instagram. Minhas palestras que fazem mais sucesso são aquelas em que eu conto os perrengues que passei. As pessoas veem empatia nisso, porque o fracasso não é criativo. Ele é repetitivo. Você se ferra pelas mesmas coisas. O sucesso é que é criativo. Eu sou uma pessoa de relativo sucesso e as pessoas tendem a achar que eu não errei.

Por falar em Instagram, como é sua relação com as redes sociais? 

Quando vou dormir, meu médico me orienta a deixar o celular lá longe, no banheiro. O celular mata a saúde mental. Eu já cheguei a ter um tempo de uso de quinze horas. Estou tentando reduzir para cinco a sete horas. O celular é a nova droga que está enlouquecendo as pessoas e causando dependência. Digo isso porque é um vício que enfrento.

A publicidade na internet matou a publicidade tradicional ou ainda há espaço para grandes campanhas, como no passado? 

As duas coisas vão caminhar juntas e são complementares. A maior prova disso é o Big Brother Brasil, que é um programa de televisão de poder digital. Ou o Super Bowl americano. É preciso tomar cuidado com essas definições pétreas. Na última campanha presidencial americana, foi fortíssima a presença da televisão. Mas elas têm de jogar juntas. O futuro é “figital” (união do físico e digital). Sempre falo que uma das maneiras de pensar fora da caixa é pensar dentro da caixa. Porque tem muita oportunidade dentro da caixa.

Campanhas publicitárias do passado, com tiradas machistas ou piadas preconceituosas, fariam hoje as marcas serem “canceladas”. O politicamente correto revolucionou a publicidade? 

A publicidade tem de acompanhar o tempo e as circunstâncias. É o desafio de ser criativo sem ser ofensivo. Como é ser engraçado dentro dos códigos de hoje? No mundo das redes sociais, uma coisa pode ter um estrago brutal na reputação de uma marca. É impossível estar imune a isso. Por isso, as agências têm hoje comitês de diversidade que analisam antes as coisas que serão veiculadas. É importante ouvir outras perspectivas e acompanhar os tempos.

Por que o senhor se considera um ex-publicitário? 

Eu sempre digo que eu era um telefone. Hoje, sou um celular. Sou um ex-publicitário. Não estou cuspindo na indústria em que cresci. O tempo mudou. Antigamente, a propaganda era a alma do negócio. Hoje é a estratégia. Quando meus amigos me chamam de fênix, é sobre a capacidade de me reinventar. Jaime Lerner já dizia que quem cria nasce todo dia.

Apesar disso, ao chegar aos 50 anos, em 2008, o senhor se definiu como alguém “destruído pelo sucesso”. O que quis dizer com isso? 

A publicidade é uma máquina de moer carne. Você não vê seus filhos, só vive no trabalho. Não tem mais relacionamentos. Não é uma coisa do Nizan. É uma coisa padrão desse mercado. Tanto que você vê as pessoas do mundo da publicidade se afastando das grandes estruturas para ter qualidade de vida.

    “A publicidade é uma máquina de moer carne. Você não vê seus filhos, só vive no trabalho. Não tem relacionamentos. Tanto que as pessoas se afastam para ter qualidade de vida”

O senhor já foi considerado um chefe rigoroso, que exauria seus funcionários. Arrepende-se dessa postura? 

O Nizan lá de trás era muito ignorante em relação a isso. Eu trabalhava de manhã, de tarde e de noite e, sim, exauria minha equipe. Eu achava que sábado e domingo eram extensões da semana. Isso é uma ignorância. Uma das réguas da minha nova empresa é a felicidade. Pessoas felizes rendem mais, especialmente quando tem tempo para viver. Quem vive alimenta a criatividade. Eu tinha um raciocínio ignorante: “Eu pago e você vai ficar rico comigo. Mas eu vou exauri-lo”. Até hoje você vê esse comportamento em escritórios de advocacia e no mercado financeiro. Mas as pessoas querem mais qualidade de vida e elas são mais produtivas quando são felizes. Tenho uma régua muito simples: se você não gosta de fim de semana, está com problema no seu casamento. Se você não gosta de segunda-feira, está com problema no trabalho.

Como o senhor lida hoje com sua saúde mental? 

Existe uma epidemia de problemas mentais. Veja a quantidade de suicídios, burnout, depressão. É o que eu falo: todo mundo é feliz no Instagram. E, se você olhar as redes sociais, parece que ninguém tem problema. Ninguém fala que teve depressão ou flertou com o alcoolismo. Não dá para ser feliz sem saúde mental. Pessoas que não dormem não têm a menor chance de ser felizes. Elas pensam mal, rendem mal.

Ser hoje maratonista dá orgulho a um ex-sedentário? 

A triatleta Fernanda Keller me disse uma vez: “Nizan, você que é verdadeiro maratonista”. Ela disse que faz essa prova em três horas. Eu faço em sete. Só ganho de mim.

Afinal, o senhor aguenta ser feliz? 

Eu tento. Eu diria que estou com um nível de aproveitamento bom. Cerca de 20% das pessoas da humanidade já nascem com a felicidade na cabeça. A Donata, minha esposa, é uma delas. Ela já veio feliz de fábrica. Eu sou feliz porque me esforço, invento problema, fico ruminando as coisas. Eu não cheguei ao nirvana. Nós, os outros 80% da humanidade, temos de ser felizes por merecimento. As pessoas dizem: vou ser feliz quando eu tiver aquele carro, aquela casa. A gente está sempre postergando a felicidade. Não defendo um culto à felicidade. Temos dias ruins, em que você não quer levantar da cama. O que não pode é ficar ruminando por coisas pequenas.

Publicado em VEJA de 12 de outubro de 2022, edição nº 2810

https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/nizan-guanaes-nas-redes-sociais-parece-que-ninguem-tem-problema/

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Geração Z adota ‘consumo ativista’ e rastreia racismo, poluição e trabalho escravo

No Brasil, dois terços dos jovens dizem pesquisar sobre atuação das marcas antes de escolher produtos ou serviços

Daniele Madureira – Folha – 13.out.2022 

O estudante de educação física Victor Oliveira e Silva, 21 anos, já não pratica crossfit – treinamento que mescla exercícios aeróbios e modalidades esportivas, como levantamento de peso. Não que ele não goste da modalidade, ela é bem adequada para garantir condicionamento físico ao seu trabalho como professor de vôlei e futevôlei.

Mas depois que o americano Greg Glassman, o fundador da CrossFit Inc., empresa que deu origem ao programa de treinamento esportivo, fez uma ironia no Twitter após o assassinato de George Floyd em maio de 2020 (o homem asfixiado até a morte por um policial branco nos EUA), Silva deixou de praticar a modalidade.

Para piorar, um áudio vazado de uma reunião de Glassman com sua equipe, logo após o episódio do Twitter, reforçou a postura racista do empresário.

“O racismo é um tema que me toca profundamente”, diz Silva. “Eu não seria capaz de consumir nada de qualquer empresa que estivesse envolvida em casos de racismo ou que apoiasse manifestações racistas.”

jovem pardo de camisa azul aberta faz sinal de positivo

Victor Oliveira e Silva, 21, professor de vôlei e futevôlei – Divulgação

Depois do escândalo, em meio ao movimento “Black Lives Matter” (vidas negras importam), a CrossFit perdeu patrocinadores de peso, como a Reebok, e diversas academias ao redor do mundo encerraram seus contratos de filiação. Glassman pediu desculpas e na sequência renunciou ao cargo de CEO da companhia. A sangria não estancou e ele acabou vendendo a empresa no final de junho de 2020, um mês depois do assassinato de Floyd.

Nada disso, porém, fez Silva mudar de opinião.

Assim como o estudante de educação física, milhões de jovens da geração Z, que hoje têm entre 14 e 26 anos, se mostram cada vez mais dispostos a direcionar o seu consumo por suas convicções pessoais. Segundo o estudo global “Edelman Trust Barometer 2022: A Nova Dinâmica da Influência”, 67% dos jovens nesta faixa etária no Brasil praticam ativismo ao escolherem marcas de produtos ou serviços. No mundo, este índice chega a 73%.

A pesquisa ouviu 20,4 mil pessoas (entre elas, 6.700 jovens de 14 a 17 anos) entre maio e junho deste ano, no Brasil e em mais 13 países –entre eles, Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, Índia, China e Arábia Saudita.

“O comportamento de consumo dos jovens da geração Z está intrinsecamente ligado à sua visão de mundo”, diz Marcília Ursini, vice-presidente de clientes de consumo da agência de comunicação Edelman Brasil. “É o que os leva a praticar a cultura do cancelamento: se uma marca não correspondeu aos seus valores e crenças, eles a abandonam.”

Mais do que praticar ativismo, o estudo identificou que a geração Z está disposta a atuar ao lado das marcas: 72% dos brasileiros dessa faixa etária buscam ação conjunta com as marcas para tratar questões como mudanças climáticas, pobreza, racismo, qualidade da informação e desigualdade de gênero. No mundo, esta disposição é verificada em 62% dos jovens.

Quando confiam no nome comercial, 78% da geração Z no Brasil “compram novos produtos que a marca apresenta” e “compram a marca mesmo se ela não for tão barata” –um índice maior que o da população brasileira em geral, de 72%. No mundo, 61% da geração Z tomam a mesma atitude, frente a 58% da média global de todas as faixas etárias.

“Quando as marcas apoiam publicamente ou demonstram compromisso com tópicos relevantes para a sociedade, os brasileiros se sentem mais propensos a comprar ou usar seus produtos”, afirma Marcília.

Menos carne, menos leite, menos fast fashion

O estudo identificou que, no Brasil, marcas que atuam por “acesso à saúde” têm 13 vezes mais propensão de serem adquiridas do que aquelas que não atuam. Os nomes de produtos ou serviços vinculados à defesa dos “direitos humanos” tem 12,5 vezes mais chances de consumo, mesmo índice da defesa de “justiça racial”. As marcas que atuam contra as “mudanças climáticas” têm 10,5 vezes mais chances de serem consumidas e, pela “igualdade de gênero”, 8 vezes mais apelo.

Depois de se formar em Administração e sair da casa dos pais, em setembro do ano passado, Enzo Rodrigues Nogueira, 23 anos, afirma ter mudado sua relação com as marcas de consumo. “Passei a ter total controle sobre o que iria consumir em casa”, diz ele, especialista em marketing digital. “Busquei o máximo de alinhamento com as coisas que eu acredito, especialmente no que se refere à sustentabilidade.”

jovem branco, de barba, usa camisa branca

Enzo Rodrigues Nogueira, 23 anos, especialista em marketing digital – Divulgação

Um exemplo, afirma, é a redução do consumo de carne e laticínios. “Tomo leite vegetal e priorizo marcas que tenham uma produção mais consciente, com menor impacto no ecossistema”, diz ele, que deixou de consumir vestuário de redes fast fashion por conta dos impactos da cadeia produtiva.

Nestas redes de moda rápida, a maioria das roupas é feita de poliéster, um material que demora 200 anos para se decompor e solta micropartículas de plástico quando lavado.

“Também procuro prestar atenção nos produtos de cuidado pessoal, para fazer escolhas que poluam o mínimo o possível”, diz ele, referindo-se ao menor uso de embalagens.

Entre as suas marcas preferidas está a Linus, uma sandália de plástico 100% reciclável, que exibe selos como o PETA-Approved Vegan (que garante que o produto é vegano) e Carbonext (certificação de carbono negativo, que significa compensar o dobro das emissões de carbono vinculadas à operação).

“Também gosto da Not Milk, uma marca de leite vegetal, pela proposta de substituir produtos de origem animal como resposta ao impacto ambiental gerado pela indústria pecuária“, diz.

Dados do Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP (Universidade de São Paulo), apontam que, no Brasil, 85% das terras são dedicadas à produção de soja e milho, sendo que a maior parte disso é destinado à ração animal.

No mundo, o levantamento apontou que 70% da geração Z estão envolvidos em uma causa social ou política. No Brasil, 92% dos entrevistados entre 14 e 26 anos afirmam ter inquietações relativas à segurança, saúde, finanças e conexões sociais –um percentual muito superior ao global, de 56%.

Mídia social perde força em todo o mundo como epicentro de mudanças

Embora muito dessa inquietação seja levada e discutida nas redes sociais, a pesquisa da Edelman apontou uma desaceleração, em nível global, na confiança deste canal como “epicentro de mudanças na sociedade”.

Considerando os brasileiros de todas as faixas etárias, que postam ou criam conteúdo online regularmente, 74% veem as mídias sociais como uma forma de mudar o mundo –no levantamento de 2018, este índice era de 78%. O país é, depois da África do Sul, o que mais aposta nas mídias sociais como um canal para incentivar mudanças de comportamento.

“Mas em todo o mundo, o que vemos, comparando os números de 2018 e 2022, é um pé atrás nesta aposta nas redes sociais, como se elas fossem perdendo um pouco o encanto, justamente pela quantidade de notícias falsas e discursos distorcidos que estão presentes nestes meios”, diz Marcília.

Na comparação entre os dois levantamentos, o Japão aparece como o menos entusiasmado nas mídias sociais como epicentro de mudanças (43% da população têm esta opinião agora, frente a 68% de 2018).

O estudo apontou que a geração Z também gera influência sobre as demais. Considerando brasileiros de todas as faixas etárias, 62% acreditam que adolescentes e jovens os influenciam no que compram e 59% na sua mudança de comportamento. Marcília, da Edelman, é um exemplo.

“Minha filha Nina, de 18 anos, gosta muito de moda e, ao mesmo tempo, tem uma grande preocupação com a origem dos produtos”, conta Marcília. “Ela me instruiu a baixar um aplicativo, o Moda Livre, que indica o quanto as marcas de vestuário estão comprometidas com o combate ao trabalho escravo. Agora, me baseio por ali para decidir compras.”

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/10/geracao-z-adota-consumo-ativista-e-rastreia-racismo-poluicao-e-trabalho-escravo.shtml

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