Como proteger o cérebro da tecnologia?

Hoje há cinco pilares aceitos para os neurodireitos

Ronaldo Lemos 2.out.2022 Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Existe um novo campo de batalha para o avanço da tecnologia. Trata-se do cérebro humano. Desde 2010 tem havido uma virada neural na forma como as aplicações tecnológicas se desenvolvem. A atenção tornou-se um recurso precioso e escasso. Se você a dedica para uma coisa, deixa de dedicar a outra. Por isso a competição por atenção hoje é brutal. Filmes, TV, streaming, vídeos curtos, redes sociais, games e aplicativos, todos competem por nossa atenção. Para ganhá-la, está se tornando necessário adentrar nas preferências cerebrais mais profundas, inclusive inconscientes. 

Neurônio piramidal digitalizado na plataforma Neuroglancer. Cientistas lançam mapa interativo do cérebro humano que permite ‘viagem’ pelo órgão. Plataforma interativa criada por pesquisadores do Google e da Universidade Harvard mostra detalhes do sistema nervoso – Google/Lichtman Laboratory-8.jun.2021/Divulgação 

É nesse contexto que surgiu o debate global sobre neurodireitos. Como o nome indica, trata-se do esforço de construir limites para o quanto a tecnologia pode adentrar o cérebro humano para extrair dados e preferências, ou mesmo para influenciar e modular o funcionamento neural. A origem dos neurodireitos é a constatação de que as neurotecnologias estão sendo aplicadas aqui e agora, não são mais só da ficção científica. 

Por exemplo, em 2014 o professor da universidade de Berkeley, Jack Gallant, conseguiu com seu time criar algoritmos que decodificam em tempo real o que o cérebro humano está vendo. Sua equipe exibiu vídeos para pessoas dentro de um equipamento de ressonância magnética. Com os dados captados conseguiu reconstruir com surpreendente sucesso as imagens em movimento que estavam sendo vistas. 

A questão é entender os limites das neurotecnologias. No caso de Gallant, o equipamento usado é caro e pesado (ressonância). No entanto, hoje todos nós carregamos no bolso um dispositivo tecnológico íntimo, com o qual convivemos o tempo todo: nossos celulares. Em que medida o uso de algoritmos e inteligência artificial é capaz de modelar nossas reações cerebrais mais profundas, inconscientes até? Seja pelo deslocamento do olho, pelo deslizamento do dedo sobre tela, pelo movimento das pupilas, expressões faciais, mini-reações físicas, entonações da voz, reflexos involuntários, e assim por diante? Para cada uma dessas áreas existem estudos comportamentais abrangentes, cada vez mais incorporados nas tecnologias que chegam pelo celular. 

O pioneiro em proteger neurodireitos foi o Chile. Fez inclusive uma emenda constitucional em 2021 que determina que o “desenvolvimento tecnológico deve estar a serviço das pessoas, respeitando a integridade psíquica. A lei deverá resguardar a atividade cerebral e a informação proveniente dela”. 

Hoje há cinco pilares aceitos para os neurodireitos. O direito à privacidade mental, à proteção da identidade e da consciência, ao livre arbítrio, à igualdade de acesso ao benefício mental e o direito à proteção contra discriminação feita por algoritmos. Como dá para ver, a preocupação é que o avanço das tecnologias sobre o cérebro possa afetar até mesmo a forma como construímos nossa identidade, nossa percepção do mundo e nossa capacidade de tomar decisões livremente. 

Seriam esses 5 pilares suficientes? Estariam os neurodireitos focados demasiadamente em tecnologias novas, como as interfaces entre cérebro e máquina? E se esquecendo de que tecnologias atuais podem ser também invasivas com relação à integridade cerebral? 

Vale dizer claramente: o que está motivando a corrida tecnológica pela colonização profunda do cérebro em boa medida não é compreender ou melhorar a condição humana, mas sim vender mais anúncios, cada vez mais irresistíveis. 

Já era — não se importar nem com proteção dados nem com privacidade

Já é — leis gerais de proteção de dados sendo adotadas globalmente 

Já vem — neurodireitos 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2022/10/como-proteger-o-cerebro-da-tecnologia.shtml

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CUFA, Dom Cabral e Favela Fundos criam Escola de Negócios da Favela para formar empreendedores

Por meio de uma plataforma digital e com uma linguagem mais próxima dos desafios do dia a dia, os alunos vão aprender conteúdos específicos para cada tipo de empreendimento; a iniciativa nasceu na Expo Favela 2022

Empreendedores de favelas podem se formar em nova iniciativa (Germano Lüders/Exame)

Empreendedores de favelas podem se formar em nova iniciativa (Germano Lüders/Exame)

Marina Filippe – Exame – Publicado em 28/09/2022 

A Escola de Negócios da Favela é uma parceria entre a Central Única das Favelas(CUFA), Fundação Dom Cabral (FDC) e Favela Fundos que reúne jornadas de desenvolvimento para empreendedores das favelas de todo o Brasil. Nesta quarta-feira, 28, em Nova Lima (MG), a primeira turma receberá o diploma de formação da escola, sendo os primeiros alunos os 10 finalistas da Expo Favela 2022.

Por meio de uma plataforma digital e com uma linguagem mais próxima dos desafios do dia a dia, os alunos vão aprender conteúdos específicos para cada tipo de empreendimento, conectando oportunidades e construindo um ecossistema econômico saudável dentro das favelas. O público-alvo da Escola de Negócios são moradores da favela brasileira, que já tenham seu próprio negócio, independentemente do estágio de maturidade.

Esta é a primeira iniciativa no Brasil que nasce da junção da experiência no território periférico em 20 anos de existência da CUFA, presente em cinco mil favelas brasileiras e em quatro países, com os 46 anos de história da FDC, escola de educação executiva da América Latina.

Desde o ano passado, a FDC oferece educação empreendedora e conhecimento em gestão para um público que histórica e globalmente não tem acesso às escolas de negócios. Com isso, passou a atuar também com empreendedores populares, jovens em situação de vulnerabilidade social, e organizações sociais e seus gestores.

“As escolas de negócios não são isoladas da sociedade – elas precisam seguir os desafios impostos pelo território em que operam. Somos reconhecidos no mundo e temos um compromisso ético com o Brasil. Portanto, não podemos ficar indiferentes diante do persistente ciclo de pobreza e da gigantesca desigualdade social no nosso país. Por isso, nos associamos à CUFA e à Favela Fundos, e suas lideranças, para colocar de pé a primeira escola de negócios para empreendedores da periferia brasileira. É uma honra para a FDC construir, junto com os players da periferia, uma escola que poderá mudar a vida de muita gente”, destaca Ana Carolina Almeida, líder da iniciativa na Fundação Dom Cabral.

“50% da população de favela e periferia sonha em empreender. Empreendedor por necessidade ou não, a verdade é que o caminho do empreendedorismo é árduo, e no dia a dia os empreendedores esbarram com desafios inerentes a todo negócio, como por exemplo: separar caixa pessoal, do caixa profissional, como divulgar seus produtos nas redes sociais, e outros. Há muito conteúdo disponível no mercado, mas, para falar com a favela, precisamos traduzir esse conteúdo para o “favelês”. A Escola de Negócios da Favela nasce com uma abordagem diferenciada, produzindo e curando conteúdo, entregando trilhas de formação numa linguagem que dialoga com o empreendedor da favela”, comenta Celso Athayde.

Histórico

A parceria teve início na realização da primeira edição da Expo Favela, em abril deste ano, no WTC, em São Paulo, que reuniu 30 mil pessoas em três dias de feira. Foram 20 mil inscritos, dois mil empreendedores selecionados e 300 foram classificados para estarem presencialmente na Expo Favela.

Durante o evento, um rigoroso processo de avaliação identificou os dez empreendedores para formarem a primeira turma da Escola de Negócios da Favela, e premiados com uma jornada híbrida de educação empreendedora e mentoria. A capacitação iniciou no mês de agosto e será encerrada no dia 30 de setembro, no Campus Aloysio Faria, sede da FDC.

Como funciona

Os 300 participantes da Expo Favela serão os próximos alunos da Escola de Negócios, que poderão fazer a inscrição nas jornadas digitais nas próximas semanas. Os demais participantes serão selecionados durante as etapas preparatórias da segunda edição da Expo Favela, que será realizada no primeiro semestre de 2023.

A potência da favela

O Brasil possui hoje 13.151 favelas espalhadas por 743 cidades.17,1 milhões de pessoas vivem nas favelas brasileiras.

Empreender para 57% dos empreendedores de favela é questão de sobrevivência. Mas ao empreenderem por necessidade, eles têm poucos recursos formais para embasar os negócios. A maioria dos empreendedores permanece, atualmente, na informalidade: 63% não possuem CNPJ! Ou seja, não têm empresa formalmente aberta para exercer a atividade remunerada.

O acesso a capital para investimento é apontado como uma das dificuldades na condução dos negócios para 40% dos entrevistados, seguidos pela falta de equipamentos adequados, em 25% dos casos. E 14%, a maior dificuldade está em fazer a gestão financeira do empreendimento.

(Fonte: Data Favela, 2022)

Os TOP 10

Conheça os primeiros empreendedores formados na iniciativa:

Empreendedor/Marca: Silvana Santos – La Piel Negra Lingeries – Bahia

Tipo: Negócio Tradicional

Mercado: Vestuário e Acessórios

Resumo: A La Piel Negra é uma marca de lingeries artesanais feitas sob medida e sem limitação de tamanho. Proporcionando a venda de produtos de altíssima qualidade, elaborados com foco na autoestima de todos os tipos de corpos.

Empreendedor/Marca: Liliane Vicente – AMITIS – AL

Tipo: Startup

Mercado: Alimentação e bebidas (Bar, restaurantes, buffet, etc.)

Resumo: A AMITIS chegou para inovar o mercado de alimentos, realizando a venda de hortas hidropônicas e melhorando a distribuição de alimentos no meio urbano, diminuindo os desperdícios gerados na cadeia produtiva. A startup atua na micro-agricultura distribuída, com uma ampla rede de micro agricultores urbanos que vendem e colhem através de delivery virtual, rede de convênio e feiras livres, possibilitando que o alimento chegue a diversas pessoas e espaços e gerando renda.

Empreendedor/Marca: Matheus de Lima – Todas por Uma

Tipo: Startup

Mercado: Tecnologia e informação (Site, aplicativo, etc.)

Resumo: O “Todas Por Um” é um APP 100% nacional feito para mulheres que sofrem algum tipo de violência, seja doméstica ou não. O app foi feito a partir de uma inteligência artificial que consegue localizar mulheres sequestradas com um simples balanço do celular. O TPU possui funções únicas e o principal papel é conectar e salvar VIDAS, através da construção de redes de apoio/segurança e fortalecendo comunidades de mulheres em todo o mundo.

Empreendedor/Marca: Silvana Aparecida Bento – Trucs

Tipo: Startup

Mercado: Vestuários e Acessórios

Resumo: A Trucs é uma marca de moda íntima e moda praia que se propõe a levar mais conforto e saúde pélvica para as mulheres trans de todo Brasil. A marca surgiu a partir da necessidade deste público de “aquendar a neca” sem riscos à saúde, utilizando calcinhas e biquínis em formato de funil, possibilitando que o volume da região não fique aparente e aumentando a autoestima destas mulheres.

Empreendedor/Marca: Raimundo das Graças – Miritilab

Tipo: Startup

Mercado: Educação e Tecnologia – EduTech

Resumo: Os Kits Educacionais MiritiLab para Aprendizagem Criativa são desenvolvidos para contribuir com o aprendizado mão na massa – o aprender fazendo, buscando o desenvolvimento do processo criativo, de habilidades e de competências que ofereçam oportunidades para pessoas serem protagonistas dentro do processo de ensino-aprendizagem. Além de ajudar na maturação das relações socioemocionais a serem desenvolvidas de forma eficiente, objetivando, também, maior sustentabilidade ao utilizar materiais da natureza em seu processo. Todo material dos kits e sua proposta foram construídos a partir da filosofia educacional do aprender fazendo, pensando e compartilhando com a mão na massa, levando acesso a uma educação diferenciada nas periferias e favelas do Brasil.

Empreendedor/Ariane Santos – Badu Design Circular

Tipo: Startup

Mercado: Sustentabilidade e Meio Ambiente (Reciclagem, Reflorestamento)

Resumo: A Badu Design é um negócio de impacto socioambiental com foco em ESG. A startup tem como propósito gerar economia circular e mobilidade social nas comunidades, através da formação de mulheres periféricas em design circular. Com os conhecimentos técnicos adquiridos, essas profissionais iniciam a produção de peças de design utilizando resíduos industriais, gerando renda e fomentando a consciência ecológica.

Empreendedor/Thais Bernardes – Notícia Preta

Tipo: Startup

Mercado: Comunicação / Redes / Anúncio

Resumo: A Notícia Preta é um portal jornalístico antirracista composto por um coletivo de jornalistas negros e periféricos. Dentro da NP foi construída a incubadora de jovens jornalistas onde são realizadas curadorias de notícias e formação de comunicadores jovens e periféricos.

Empreendedor/ Alan Almeida – Parças Developers School

Tipo: Startup

Mercado: Educação

Resumo: A Parças Developers School tem como proposta reescrever a realidade carcerária brasileira através da educação e da tecnologia. Para isso, a startup oferece treinamento e acompanhamento técnico para egressos do sistema penitenciário e faz a ponte entre as empresas de tecnologia e estes novos profissionais.

Empreendedor/ Victor Garcez – Vision03

Tipo: Startup

Mercado: Tecnologia e Informação

Resumo: A Vision03 é um estúdio de games e marketing que possui como propósito o empoderamento da imaginação de grupos marginalizados a partir da construção de novas narrativas através de jogos digitais. Em suas produções, criações e consultorias, a startup busca ampliar as visões e perspectivas de mundo do usuário e de desenvolvedores de jogos, visando uma mudança social que se inicia no digital.

Empreendedor/ José Márcio Macêdo- Avia! Delivery de comida

Tipo: Startup

Mercado: Tecnologia e Informação

Resumo: A Avia é uma ferramenta de transformação social que tem como propósito solucionar o problema da exclusão e distanciamento dos serviços de delivery tradicionais via aplicativo dos empreendedores do setor da alimentação, sejam eles autônomos ou donos de pequenos negócios, residentes em regiões que estão à margem dos grandes centros urbanos (cidades do interior, periferias e favelas). A Startup conecta consumidores a empreendedores e cria uma rede marginal de consumo fortalecendo a microeconomia emergente, gerando autonomia, renda e emprego para famílias e comunidade

https://exame.com/esg/cufa-dom-cabral-e-favela-fundos-criam-escola-de-negocios-da-favela-para-formar-empreendedores/

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A globalização não está morrendo, está mudando

O comércio de bens pode estar desacelerando, mas o potencial do comércio de serviços viabilizado pela tecnologia continua enorme

Martin Wolf 13/09/2022 Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics.

Qual é o futuro da globalização? Esta é uma das maiores perguntas do nosso tempo. Em junho, argumentei que, contrariamente à opinião cada vez mais difundida, “a globalização não está morta. Talvez nem esteja morrendo. Mas está mudando”. Entre as formas mais importantes de mudança está o crescimento dos serviços prestados à distância.

Desde a revolução industrial, vimos, como argumenta Richard Baldwin em seu livro The Great Convergence (A grande convergência), três ondas de oportunidades para o comércio.

Primeiro, a industrialização e a revolução nos transportes geraram oportunidades para o comércio de mercadorias. Mais recentemente, as novas tecnologias da informação permitiram o “comércio de fábricas”: tornou-se lucrativo deslocar fábricas inteiras para onde a mão de obra era barata.

Hoje, no entanto, a internet de banda larga permite o “comércio de escritórios”: se alguém pode trabalhar para seu empregador em casa, alguém na Índia também pode fazê-lo.

Além disso, uma diferença importante entre a primeira e a segunda ondas, que exigem o deslocamento de objetos, e a terceira, que movimenta a informação virtualmente, é que é muito mais fácil impor obstáculos ao comércio físico do que ao comércio virtual. Não é impossível impor os últimos, como mostra a China. Mas exige um grande esforço.

Como argumentou Baldwin em quatro blogs recentes, essa estrutura analítica nos permite ver o futuro do comércio sob uma luz diferente daquela que está na moda. Em particular, o que ele chama de visão “preguiçosa” da história da globalização e do comércio é enganosa em várias dimensões. Qual é essa visão? É que, após cerca de duas décadas de crescimento muito rápido, o comércio mundial de bens atingiu o pico em 2008, sob o golpe mortal da crise financeira, quando o mundo se afastou do comércio.

Essa visão do que aconteceu e do porquê é enganosa.

Primeiro, a proporção do comércio do segundo maior comerciante de bens do mundo, a China, atingiu o pico antes de 2008 (em 2006). As do terceiro e quarto maiores comerciantes de bens, Estados Unidos e Japão, atingiram o pico após 2008 (em 2011 e 2014). A proporção do maior comerciante, a União Europeia, não atingiu o pico, embora tenha estagnado.

Em segundo lugar, a maior queda na proporção do comércio é na China. Mas isso não reflete o protecionismo no exterior ou um afastamento deliberado do comércio pela própria China. O país apenas normalizou a dependência do comércio em relação a seu tamanho econômico.

Terceiro, em termos monetários, a maior causa do declínio da proporção do comércio foi a queda no preço das commodities, não uma redução no volume de comércio. Essa queda de preços foi responsável por 5,7 pontos percentuais da queda de 9,1 pontos na proporção entre o comércio de bens e a produção mundial entre 2008 e 2020.

Finalmente, há de fato evidências de um desmanche das cadeias de suprimentos transfronteiriças, mas o ponto de virada parece ser em 2013, após a crise financeira, mas antes da eleição de Donald Trump. A principal explicação é a mudança das cadeias de suprimentos dentro dos novos fornecedores, especialmente a China, a predominante. Em vez de montar intermediários importados, a China agora os produz ela mesma.

Ao todo, existem explicações perfeitamente naturais para a queda na proporção do comércio mundial de bens em relação à produção. Mas a desaceleração na desagregação da cadeia de suprimentos é real. Entre outras explicações, muitas dessas cadeias agora mudaram dentro da China.

Os serviços são uma história diferente. A proporção entre o comércio de serviços e a produção mundial, embora muito menor que a de bens, continuou a aumentar. Os serviços são um conjunto muito heterogêneo de atividades, algumas das quais requerem movimentação de pessoas (turismo, por exemplo). Mas atividades na categoria excepcionalmente dinâmica de “outros serviços comerciais” (OCS) podem, em grande parte, ser fornecidas virtualmente. Estes incluem uma gama muito diversificada de atividades. O crescimento do comércio de OCS também é excepcionalmente dinâmico: entre 1990 e 2020, o comércio de mercadorias quintuplicou enquanto o de OCS multiplicou 11 vezes.

Um ponto crucial é que a expansão do comércio desses serviços dependeu pouco de acordos comerciais. A regulação das atividades de serviços se concentra nos serviços finais, não nos intermediários. Existem, por exemplo, regras rígidas sobre a venda de serviços contábeis nos Estados Unidos. No entanto, há poucas regras sobre a qualificação dos trabalhadores que fazem a papelada por trás da prestação desses serviços.

Assim, um “contador americano pode empregar praticamente qualquer pessoa para contabilizar as despesas de viagem de um cliente e compará-las com os recibos de despesas”. Exemplos de ocupações que fornecem serviços intermediários em oposição aos finais incluem guarda-livros, contadores forenses, revisores de currículos, assistentes administrativos, pessoal de ajuda online, designers gráficos, editores de texto, assistentes pessoais, leitores de raios-X, consultores de segurança de TI, engenheiros de software, advogados que verificam contratos, analistas financeiros que escrevem relatórios. A lista continua.

Como argumenta Baldwin em The Globotics Upheaval (A revolução da globótica), o potencial desse tipo de comércio habilitado pela tecnologia é enorme. Também será altamente perturbador: os trabalhadores de colarinho branco que prestam esses serviços em países de alta renda são uma parte importante da classe média. Mas será difícil protegê-los.

Ao todo, as evidências sugerem que as forças econômicas naturais foram em grande parte responsáveis pelas mudanças no padrão do comércio mundial. A crescente preocupação com a segurança das cadeias de suprimentos sem dúvida aumentará essas mudanças, embora seja duvidoso se o resultado será “reshoring” [o retorno da terceirização aos países de origem] ou “friendshoring” [terceirização para amigos]. O mais provável é um padrão complexo de diversificação. Enquanto isso, a tecnologia está abrindo novas áreas de crescimento em serviços.

Desnecessário dizer que desastres podem mudar esse quadro: a Covid foi disruptiva; o mesmo acontece com a atual crise energética; e a guerra ou a ameaça dela perturbaria ainda mais. O comércio global saudável é um sinal de paz, mesmo que não possa causá-la. Ninguém em sã consciência desejaria as alternativas sombrias.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/martinwolf/2022/09/a-globalizacao-nao-esta-morrendo-esta-mudando.shtml

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Governadores republicanos lideram reação anti-ESG nos EUA; especialistas veem riscos às economias

Por Luis Filipe Santos – Estadão – 29/09/2022 | 

Estados como Texas e Flórida adotaram medidas contra a pauta que defende que empresas tenham responsabilidade social e ambiental

O avanço da pauta ESG (ambiental, social e governança, na sigla em inglês) é um fato e está cada vez mais presente no mercado financeiro. As empresas que seguem os padrões ESG buscam privilegiar o stakeholder – as pessoas interessadas, que podem ser investidores, clientes, fornecedores, comunidades afetadas pelos negócios, etc. – em vez do shareholder, apenas os acionistas. Os EUA estão passando por um momento em que governadores e legisladores estaduais, principalmente republicanos, estão tomando atitudes contra a pauta ESG. Estas decisões podem prejudicar a economia americana como um todo, pensando nas próximas gerações e na concorrência que o país deve sofrer de outras nações (veja mais abaixo).

Procuradores de 19 Estados pediram informações à empresa de análise de riscos Morningstar neste mês de setembro para definir se ela violou as leis de proteção aos consumidores com suas avaliações ESG, como forma de iniciar uma investigação. Na Flórida, o governador Ron DeSantis determinou que os fundos de pensão administrados pelo Estado abandonem as considerações ESG ao definir onde serão feitos os investimentos, e as avaliações considerem unicamente o potencial de retorno.

Em Utah, autoridades como o governador Spencer Cox, os senadores Mitt Romney e Mike Lee e o chefe do Tesouro estadual, Marlo M. Oaks, se manifestaram contra a pauta após a consultoria S&P avaliar riscos ambientais para o fornecimento de água no Estado e propuseram uma legislação parecida com a que foi adotada pela Flórida – outras 11 unidades federativas, incluindo algumas governadas por democratas, como a Califórnia, receberam a mesma avaliação.

No Texas, os legisladores aprovaram regras para que os fundos de pensão não possam fazer negócios com corretoras que investissem em produtos ESG anti-combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão) e anti-armas de fogo. Vale lembrar que o petróleo é uma parte importante da economia texana e os fundos de pensão estaduais são alguns dos principais investidores institucionais do país norte-americano.

Uma lei parecida foi proposta em Indiana e recebeu o apoio do ex-vice-presidente Mike Pence, que afirmou que as políticas ESG estão dando prioridade a valores de esquerda em detrimento das corporações e seus funcionários. Já West Virginia aprovou uma lei que visa punir as empresas contrárias à indústria do carvão mineral, e Idaho e Kentucky também discutem o tema em seus congressos locais.

As novas regras atingem alguns dos principais bancos e corretoras de investimentos dos Estados Unidos e do mundo, como BlackRock, JP Morgan Chase, Goldman Sachs e outros. Em resposta à nova lei texana, o chefe de operações da BlackRock nos Estados Unidos, Mark McCombe, defendeu que a medida não faria sentido, que o fundo nunca deixou de financiar projetos de petróleo e gás e que a competitividade das economias locais seria diminuída. “Como tomadores de recursos do mercado de capitais, esses Estados podem ter o perfil de dívida comprometido, com taxas de juros maiores, ou com o acesso a mercado de capitais dificultado. A falta de questões ESG podem afetar qualquer ator público no mercado”, explica Gustavo Pimentel, CEO da Nint, consultoria focada em ESG.

Um estudo feito pelos pesquisadores Ivan T. Ivanov, do Federal Reserve (o Banco Central americano), e Daniel Garrett, professor da Universidade Wharton, na Pensilvânia, caminha para a mesma conclusão. Ivanov e Garrett estimaram que as taxas de juros podem acabar sendo elevadas para as administrações municipais do Texas, levando a um custo extra estimado entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões por ano, ou seja, a um peso a mais no bolso do contribuinte, por deixar de realizar as avaliações de riscos e oportunidades ligadas ao ESG.

Ideologia

Os investimentos ESG se tornaram alvo dos legisladores republicanos tanto por questões práticas, como a importância dos combustíveis fósseis para a economia de alguns Estados, quanto por razões ideológicas: o tema acabou se tornando mais uma pauta da divisão no país norte-americano, em que os conservadores se opõem por considerar como “politicamente correto”. “As reações anti-ESG estão inseridas no contexto da chamada ‘guerra cultural’, na qual diferentes pautas alcançam o extremo da polarização e dividem-se entre republicanos, de um lado, e democratas de outro, o que inviabiliza qualquer forma de negociação entre as partes”, explica Thais Dória, doutoranda em relações internacionais pela USP.

Assim, os republicanos argumentam que as políticas ESG limitam a margem de manobra e a autonomia de indivíduos e corporações, e põem em risco setores chave da economia estadunidense, uma vez que priorizariam investimentos verdes e dificultariam o investimento em setores tradicionais, como o de combustíveis fósseis. Por sua vez, os democratas rebatem que a própria economia dos estados como um todo pode ser prejudicada, ao deixarem de investir em empresas rentáveis. “Entretanto, para avaliar se as decisões acarretarão prejuízos para os estados é necessário tempo, principalmente para avaliar se os fundos de pensão foram investidos em empresas que apresentam tanta rentabilidade, ou até mais, que a BlackRock, por exemplo”, comenta Doria.

Problemas

Ao deixar de levar os fatores ESG em conta, pode-se deixar de considerar riscos capazes de prejudicar a rentabilidade dos negócios no futuro, em questões como escassez de água, esgotamento dos recursos naturais disponíveis e redução de terras cultiváveis, ou aspectos sociais e de governança, menos presentes nos discursos dos governadores.

Também pode-se perder oportunidades para receber investimentos na transição para uma economia de baixo carbono. Pimentel cita como exemplos uma montadora que esteja planejando produzir carros elétricos ou usinas que querem expandir a geração de energia a partir de hidrogênio verde. “A reação pode afetar investimentos estruturantes, que podem acabar indo para territórios que consigam dar uma visão de energia renovável”, afirma.

A população seria afetada devido à perda de dinamismo da economia, como explica Vinicius Dias, pesquisador de economia do meio ambiente do Núcleo de Inovação Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Federal Fluminense (NIMAS/UFF). “Para a população em geral, com uma economia que está fortemente ligada à queima de recursos fósseis, caso os governos locais não preparem um plano de transição, serão observados níveis maiores de desemprego e dificuldade de realocação da força de trabalho em outras atividades quando as atividades ligadas às indústrias intensas em emissões perderem de fato tração, além de perda de recursos para o próprio governo que receberá menos impostos e também investimentos”, cita o pesquisador.

Pesquisas apontam que o ESG pode, na verdade, ser benéfico também para a rentabilidade para as companhias. Estudo feito pelos pesquisadores alemães Laura Mervelskemper e Daniel Streit, da Universidade de Ruhr-Bochum, apontaram que a lucratividade das companhias cresce ao publicar relatórios ESG. Já Bahaaeddin-Alareeni e Allam Hamdan, professores da Universidade Técnica do Oriente Médio, analisaram o impacto das questões ESG nas principais empresas dos Estados Unidos, listadas no índice S&P 500, e encontraram resultados positivos operacionais, financeiros e de performance no mercado quando as práticas eram adotadas.

“São temas que fazem parte de uma agenda saudável de negócio e de vida em sociedade que não podem mais ser ignoradas ou deixadas em segundo plano. Os custos de se ignorar essas questões se tornarão cada vez maiores e em algum tempo nos perguntaremos como foi possível não termos pensado nisso, e agido, antes”, avalia Marcos Olmos, sócio e diretor de Venture Capital na VOX Capital, gestora focada em investimentos de impacto.

Divisões internas

As economias estaduais também acabariam afetadas por estarem remando na contramão do direcionamento federal, já que a gestão de Joe Biden apoia agendas ESG, e de outros estados importantes, como Nova York e Califórnia. “Os governadores apostam que podem resistir e conseguir dobrar um movimento que tem avançado no mundo todo. Para mim, parece fazer pouco sentido e é uma aposta bastante arriscada”, analisa Pimentel.

As decisões podem prejudicar a economia americana como um todo, pensando nas próximas gerações e na concorrência que o país deve sofrer de outras nações. “Esses políticos podem empurrar o país na contramão do mundo, considerando o fato que os EUA, apesar de ainda serem a maior e mais dinâmica economia do mundo, vem perdendo espaço para outras potências que ascenderam nas últimas décadas”, prevê Dias.

Outro ponto é que se deixaria de considerar os anseios das novas gerações, que já crescem levando em conta as preocupações ambientais como relevantes para seu futuro- e que, ao final, serão as principais afetadas. “As gerações pós-millenials estão cada vez mais engajadas nos temas afetos à sustentabilidade, e por mais que ainda não sejam representativas economicamente, serão por mudanças nos padrões de consumo”, completa o pesquisador da UFF.

Além do peso que os fundos de investimento estaduais têm para o mercado de capitais nos Estados Unidos, também é importante lembrar que os governadores têm o poder de definir políticas públicas, e não levar as questões a sério pode prejudicar para que a pauta seja adotada pelas companhias privadas que desejarem. “A agenda ESG passa por um envolvimento significativo do governo, não só nas decisões de alocação, mas também na agenda de regulação e mensuração, algo que em muitas jurisdições está em estágios bem iniciais de discussão e desenvolvimento”, comenta Olmos.

Apesar da reação, nada indica que a pauta ESG esteja caindo. Em 2021, o total de dinheiro investido relacionado à pauta chegou a US$ 35 trilhões, cerca de um terço de todos os ativos gerenciados no mundo. Uma pesquisa do instituto Gallup nos Estados Unidos indicou que, apesar de poucas pessoas conhecerem a sigla, as ações ligadas às causas ambientais, sociais e de governança são aprovadas pelo público, com o máximo de 84% afirmando que consideram importante que a empresa leve em conta o bem-estar dos funcionários e o mínimo de 68% aprovando os esforços para tornar mais diversa a base de consumidores e a força de trabalho, entre outras medidas. A situação é parecida com a vista no Brasil, de acordo com uma pesquisa do Google. A conscientização sobre as questões ESG no mundo financeiro e na população segue em crescimento.

https://www.estadao.com.br/economia/governanca/esg-estados-unidos-republicanos/

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Como encontrar emprego em companhias de tecnologia nos EUA e Europa nos sites especializados

Por Bruna Klingspiegel – Estadão – 16/08/2022 

Remuneração em dólar, acima do mercado, e flexibilidade são as principais vantagens em atuar nesse modelo de trabalho; empresas oferecem capacitação e mentoria

Do escritório de casa em São João Del Rei, em Minas Gerais, Luiz Carlos Oliveira atua como engenheiro de software sênior para uma empresa americana desde janeiro deste ano. Após experiências como freelancer e CLT, ele encontrou em um marketplace global de talentos remotos a oportunidade perfeita para facilitar seu acesso ao mercado de trabalho estrangeiro e aumentar o salário.

O engenheiro foi selecionado por três empresas e pôde escolher a que mais se encaixava com seu perfil. “Tentaram me ganhar pelo salário, mas escolhi a que eu mais me identificava”, conta. Ainda assim, Oliveira destaca que o lado financeiro é a principal vantagem em trabalhar nesse formato. “Eu recebo U$ 7 mil por mês (R$ 35,6 mil, na cotação atual). As empresas daqui não conseguem me pagar isso”, diz ele.

Desde a pandemia e a popularização do home office, a busca por um trabalho flexível, em que o profissional pode decidir onde, quando e como trabalhar cresceu muito, a ponto de se tornar um pré-requisito para os profissionais aceitarem algum emprego. Nesse contexto, de grandes transformações no mundo corporativo, os marketplaces surgem como resposta ao desejo cada vez maior por autonomia e também à demanda do mercado por especialistas em tecnologia.

Os profissionais podem se cadastrar de forma gratuita nessas plataformas e, ao serem selecionados para determinado projeto ou empresa, assinam um contrato com a rede de talentos. Ou seja, o vínculo trabalhista que o profissional tem é com o marketplace. Por isso, para fazer parte do banco de talentos das plataformas é preciso passar por um processo de seleção que avalia competências técnicas de acordo com a área de atuação e, em alguns casos, por uma análise de perfil profissional e habilidades socioemocionais. Às vezes, as empresas contratantes do serviço também fazem seus próprios testes e entrevistas com os candidatos.

No caso de Oliveira, o processo seletivo envolveu entrevistas e testes para analisar as competências técnicas. O sistema de inteligência artificial da Andela, marketplace ao qual ele aderiu, reúne inúmeras informações sobre o profissional para registrar no banco de dados e facilitar o processo de “match” com as empresas que buscam esses profissionais.

Luiz Oliveira trabalha há 8 meses como engenheiro de software sênior para uma empresa americana

Luiz Oliveira trabalha há 8 meses como engenheiro de software sênior para uma empresa americana 

Avaliada em US$ 1,5 bilhão, a empresa africana está presente em cem países e chegou ao Brasil em agosto de 2021. Segundo o diretor de Marketplace da companhia, Álvaro Oliveira, o mercado brasileiro é conhecido por ter muitos profissionais capacitados na área de desenvolvimento e esse foi um fator chave para a vinda da organização ao País. “Nossas vagas são globais e a ideia é que pessoas de qualquer canto do mundo possam ter acesso às nossas oportunidades”, afirma.

A exemplo de Oliveira, todos os profissionais cadastrados e contratados pela Andela recebem o salário em dólar e têm contrato de trabalho com prazo de 1 ano. Para o engenheiro, há uma segurança maior durante a contratação, tanto para o freelancer quanto para o contratante. As empresas estrangeiras, diz ele, têm medo de contratar profissionais de outros países e a existência de alguém para intermediar essa relação facilita o processo. “É muito mais fácil as empresas aceitarem contratar um estrangeiro quando tem alguém assumindo o risco e a responsabilidade”, diz o profissional.

Empresas de recrutamento como a Robert Half, Michael Page e Randstad também fazem esse papel de terceirizar o trabalho. Elas contratam o brasileiro, cobram da empresa estrangeira e repassam para o trabalhador, que responde aos líderes no exterior.

Equipes de alta performance

Outro exemplo de marketplace é a BossaBox, uma rede qualificada de freelances de designers a desenvolvedores de software, que trabalham em equipes na construção de produtos digitais para os clientes. “As pessoas querem ser donas da própria carreira, mas não encontravam isso nas agências ou em empresas prestadoras de serviço”, explica o cofundador, André Abreu.

Para fazer parte da plataforma, os profissionais também passam por um processo seletivo. Mas, uma vez parte do banco de talentos, eles têm liberdade para se candidatar às vagas para projetos de curto, médio e longo prazos dentro de um painel interno. “São profissionais que trabalham por projeto, mas que exibem um nível de comprometimento e entrega acima ou digno de um CLT”, conta.

Segundo André Abreu, os profissionais exibem um nível de comprometimento e entrega acima ou digno de um CLT.

Segundo André Abreu, os profissionais exibem um nível de comprometimento e entrega acima ou digno de um CLT. Foto: Taba Benedicto/Estadão

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Fundada em 2017, a companhia tem mais de 25 mil profissionais cadastrados na plataforma e atua nos projetos de acordo com o estágio de evolução do produto, desde a pesquisa de mercado até o desenvolvimento. A valorização dos profissionais, segundo Abreu, é um dos diferenciais da plataforma.

Os prolancers, como são conhecidos os freelances profissionais, também recebem capacitação e mentoria. “Estamos sempre pensando em como podemos ajudar esse profissional, seja treinando ele de alguma forma ou conectando-o a alguma referência da nossa comunidade.”

Para ampliar a gama de profissionais, Abreu conta que uma das estratégias usadas pela empresa na atração de talentos é a fomentação da diversidade cultural dentro da comunidade. Em parceria com ONGs e escolas de programação, a BossaBox acessa cada vez mais profissionais de grupos sub-representados ou que não têm acesso a esse tipo de plataforma. “Aqui trabalhamos com metas internas em relação à alocação de pessoas diversas nas equipes dos projetos”, explica.

Do lado das companhias, a ideia é tornar o processo de busca por profissionais cada vez mais ágil, simples e intuitivo. Após a escolha da equipe que irá atuar no projeto, a empresa acompanha todo o desenvolvimento por meio de um dashboard que recebe atualizações recorrentes.

“Eu quero que meu cliente veja os meus profissionais como uma extensão da sua força de trabalho, mas sem ter de se preocupar com a gestão e todos os trâmites que envolvem a contratação de um profissional”, destaca Abreu.

Em 2021, o grupo Locaweb também lançou um marketplace para conectar profissionais da área da tecnologia, mas com foco em atender a demanda de pequenas e médias empresas. Com o intuito de ajudar as PMEs a crescerem digitalmente, o projeto Profissionais da Internet não cobra nenhum tipo de taxa dos clientes e oferece serviços em quatro áreas de atuação: marketing digital, programação, redes sociais e relacionamento.

Oportunidade de conexão

Para o diretor da BossaBox, André Abreu, a pandemia trouxe uma grande mudança de perspectiva das empresas e dos profissionais em relação ao trabalho. Com o mercado cada vez mais acirrado em relação a tecnologia e com o aumento do déficit de profissionais, novos formatos são testados e diversos estigmas em relação ao trabalho foram quebrados.

“Enquanto os trabalhadores tem buscado cada vez mais oportunidades para ganhar mais e ter uma renda extra, as empresas começaram a perceber que dá pra ter resultado em um modelo de trabalho flexível e remoto”, afirma Abreu. Além disso, os profissionais viram a oportunidade de prestar serviço para empresas estrangeiras e que pagam em dólar. Se por um lado isso é bom para os trabalhadores brasileiros que tem a chance de ampliar a renda, por outro desabastece um mercado que já é carente de mão de obra.

A projeção é que, até 2025, o déficit anual de talentos de tecnologia alcance 106 mil profissionais, de acordo com a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom). A diretora executiva da associação, Mariana Rolim, enxerga os marketplaces como uma nova oportunidade para conectar os profissionais às empresas, mas alerta para importância de formalizar essas novas relações de trabalho.

Enquanto os trabalhadores têm buscado cada vez mais oportunidades para ganhar mais e ter uma renda extra, as empresas começaram a perceber que dá para ter resultado em um modelo de trabalho flexível e remoto

André Abreu, diretor da BossaBOX

“O formato é a boa aplicação da tecnologia, mas é preciso atenção para não fomentar ainda mais a informalidade nesse mercado”, afirma. No caso

Para trabalhar numa empresa americana, por exemplo, o brasileiro precisa seguir a legislação do país, diz o diretor de recrutamento da Robert Half, Lucas Nogueira. A restrição, no entanto, tem sido contornada com intermediação de empresas brasileiras – alternativa permitida desde a nova lei trabalhista de 2017, no governo Temer.

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30 tendências de negócios para 2030

Para onde o mundo vai nos próximos anos em relação a tecnologia, clima, saúde e economia

Luís Rasquilha MIT Sloan Review 20 de Setembro 2022

Artigo 30 tendências de negócios para 2030

Neste artigo, divido as principais tendências retiradas do relatório What’s Next 2030, divididas por forças-motrizes. O relatório completo, a apresentação do relatório e o curso gratuito sobre o relatório podem ser acessados nos links.

1- Tecnologia e conectividade

Transformação digital

Uma nova abordagem, em que as TIC desempenham um papel-chave na transformação da estratégia, estrutura, cultura e processos de uma empresa, utilizando o alcance e o poder da conectividade, da internet e da tecnologia. Por meio de novos investimentos em tecnologias e modelos de negócio, espera-se melhorar o envolvimento dos clientes em todos os pontos de contato no ciclo de vida de sua experiência.

Data driven enterprise

Ter bases construídas em anos de resultados consistentes é ótimo, mas, hoje, é fundamental entender que a experiência anterior das empresas não garante sucesso no mercado digital. A hora é a de olhar para o futuro, e não há forma de fazer isso se a companhia não tiver informação qualificada.

Aqui falamos de dados e da habilidade de trabalhá-los. É necessário ter uma cultura guiada por dados, uma cultura data driven, na qual as informações certas são captadas constantemente, servindo como base para as tomadas de decisão.

Tecnologias exponenciais

A tecnologia é um meio a serviço da melhoria transversal das empresas, dos negócios, da sociedade e da vida, para que todos possam ganhar com isso. A evolução da tecnologia, cada vez mais acessível, tem transformado mercados, empresas e pessoas.

A velocidade de produção e difusão de informação tem impactado e continuará a impactar a forma como as empresas desenvolvem os seus negócios e se relacionam com os seus públicos. Nesse sentido, existe a oportunidade de aplicar o conhecimento atualmente disponível para a criação, facilitação e implementação dessas tecnologias, com conteúdo relevante para clientes e para a sociedade.

Trabalho híbrido

Um modelo de trabalho que vai cada vez mais possibilitar que a jornada seja cumprida na empresa, presencialmente e, também, à distância, em sua casa ou outro local. Dessa forma, o profissional pode desempenhar suas funções dando resposta ao desejo de maior flexibilidade e liberdade de trabalho, alinhado à nova revolução industrial.

Negócios de plataforma e de ecossistema

A dependência de plataformas e ecossistemas tirará as empresas do “eu” e as levará para o ”nós”. A construção de ecossistemas integrados de gestão gera melhor entrega e diferenciação no mercado, além da adoção de sistemas que se ajustem ao contexto. A integração das funções com transição para um sistema empresarial com o mínimo de silos – de fora para dentro – criará plataformas capazes de incorporar pessoas e tecnologias, automatizando os processos.

2- Ambiente e clima

ESG

Governança ambiental, social e corporativa é uma avaliação da consciência coletiva de uma empresa em relação aos fatores sociais e ambientais. Normalmente, é uma pontuação compilada de dados coletados em torno de métricas específicas relacionadas a ativos intangíveis dentro da empresa e que agora ganha mais uma denominação com o foco econômico que defende a geração de resultados sustentáveis, permitindo manter a performance responsável de forma sistemática.

3 R’s: reduza, reuse, recicle

Alinhado com a preocupação crescente com a saúde do planeta, os comportamentos estão caminhando na direção de uma maior sustentabilidade. Hoje e no futuro, o ato de adotar a filosofia dos 3 R’s da sustentabilidade contribuirá para uma maior relevância no mercado, deixando um legado mais relevante na sociedade e no mundo.

O maior desafio estará na capacidade de transformação que as empresas e pessoas precisarão ter para manter novos comportamentos mais alinhados com essa nova realidade. Reuse, recicle e reutilize serão palavras-chave nas estratégias e nas missões das empresas no futuro.

Logística reversa

Alinhado com a preocupação ambiental e de otimização dos recursos, cresce a abordagem da logística que trata do fluxo físico de produtos, embalagens ou outros materiais, desde o ponto de consumo até o local de origem.

Uso racional de recursos

Reforçando os movimentos sustentáveis, a preocupação com o não desperdício e o uso correto (e racional) dos recursos é tema corrente nas pautas da gestão, não apenas por uma questão de pressão externa, mas também pela adoção empresarial de posturas mais responsáveis com o devido impacto no crescimento e nos resultados.

Resultados responsáveis

O “Environment Value Add” (EVA) tradicional é um indicador que demonstra a criação ou destruição de valor, e representa o custo de oportunidade do capital aplicado por credores e acionistas como forma de compensar o risco assumido no negócio. Agora, com o emergir de conceitos mais sustentáveis e responsáveis, o conceito evolui para a compensação de forma mais sustentável e integrada com o ecossistema, respeitando o entorno. Ou seja, não vale focar no resultado a qualquer custo.

3 – Política e economia

Governança corporativa

Governança corporativa ou governo das sociedades ou das empresas representa o conjunto de processos, costumes, políticas, leis e regras que regulam a maneira como uma empresa é dirigida, administrada ou controlada. Para estruturar e responder ao contexto de transformação, esse é um tema cada vez mais relevante na forma de administrar e regular as empresas e os negócios.

Compliance

Do verbo inglês “to comply”, que significa agir de acordo com uma ordem, um conjunto de regras. Estar em conformidade com tais regras, que também se refere aos controles internos e de governança corporativa, é hoje o que garante às empresas a atuação dentro dos parâmetros legais e acordados por todos.

Reset (de verdades, ideologias e modelos)

Novas realidades estão desenhando o presente e o futuro das empresas com a certeza de que as práticas definidas no século 20 são hoje bem diferentes. Nos dias atuais, as empresas precisam de revisão e readequação a um mundo em constante mudança.

Novos centros de poder e de produção

Diversos estudos têm mostrado a mudança de poder global com o crescimento de China e Índia em contraponto à queda de Europa e EUA. Aqueles que antes eram países não estratégicos estão mudando a tabela da classificação, seja pela adoção de novas tecnologias, seja pela mudança de mentalidade e maior capacidade de adaptação e flexibilidade. Israel, Norte da Europa, algumas cidades na América Latina, sem esquecer a sempre imprevisível África, terão papéis importantes. O mapa do mundo terá novos desenhos.

Economia circular, comportamental, donut e plataforma

O surgimento dos conceitos de capitalismo consciente ou social, de economia circular, de economia criativa, entre outros, têm ganhado força, desde que em 2016 o Fórum Econômico Mundial se referiu à necessidade de encontrar um novo modelo econômico, que consiga, ao mesmo tempo, entregar resultado às empresas e pessoas, mas também garantir o bem-estar de todos, mesmo dos mais necessitados, possibilitando o acesso universal a meios de energia limpa, à comida saudável e, no limite, a um planeta mais equitativo e justo para todos, reduzindo as desigualdades e as intolerâncias.

4 – Social e humano

Intrageracionalidade

Com o aumento da expectativa de vida, crescem situações de coexistência geracional nas empresas. É cada vez mais comum ver equipes de trabalho com pessoas de diferentes gerações, com o desafio crescente de gerenciar expectativas, opiniões, energias e aspirações de grupos com diversas visões e comportamentos.

Colaboração & cocriação

São as palavras do momento. Não há super-heróis isolados, mas sim heróis que trabalham juntos, compartilham conhecimento e ideias e que, conjuntamente, desenvolvem soluções ajustadas aos contextos em que se vive. Capacitar para o trabalho colaborativo ajudará a ultrapassar as barreiras que se avizinham

Diversidade, inclusão e equidade

Diversidade nada mais é do que variedade. A diversidade está presente em todos os âmbitos da nossa vida, mas quando falamos de empresas, diversidade se refere a pessoas com características, backgrounds e formas de pensar diferentes. Diversidade no ambiente corporativo é sempre algo que precisa ser olhado e evoluído – avanços sempre são possíveis.

Inclusão, por sua vez, é a sensação de pertencimento. Apenas a existência de pessoas diversas em uma empresa não significa, necessariamente, que elas se sentirão incluídas naquele ambiente. A inclusão é algo que passa por cultura organizacional, comportamento dos colaboradores e segurança para todos compartilharem (e serem apreciados por) suas ideias.

Equidade é busca por igualdade por meio de processos e práticas que entendam que cada jornada é individual. A equidade entende que as pessoas não partem do mesmo lugar e que enquanto alguns começam com vantagens, outros começam com barreiras.

Liderança colaborativa e compartilhada

Sistemas hierárquicos tradicionais estão perdendo espaço para modelos de empresa mais flexíveis, participativos e focados em exposição, engajamento e cocriação, colaboração e competição. Cada vez mais a retenção do talento humano está na ordem do dia nas empresas.

Mais do que reter pessoas, é necessário engajá-las e motivá-las para novos desafios e novas metas, nunca alcançadas. A liderança assume um papel de mentoria e orientação colaborativa, abandonando as visões puramente impositivas. Em tempos de mudança exponencial motivada pelo avanço tecnológico, as empresas adotarão estruturas mais flexíveis, menos hierarquizadas e principalmente capazes de se adaptar na mesma velocidade em que os mercados e os clientes mudam.

Complementaridade de competências

Mais do que as competências técnicas, as comportamentais e as de gestão surgem como preponderantes na preparação dos gestores do presente e do futuro, alterando as lógicas de gestão, liderança e treinamento.

5- Saúde e bem-estar

Valorização das soft skills

Está provado que pessoas felizes produzem mais, são mais criativas e conseguem resultados surpreendentemente melhores do que pessoas cujo estado de espírito é considerado como um estado neutro ou negativo. E para garantir um ambiente saudável que possibilite melhores índices e melhores performances, é necessário garantir o equilíbrio das competências técnicas com as comportamentais e as de gestão, incluindo de forma permanente e efetiva a gestão dos chamadas soft skills.

Segurança psicológica

A segurança psicológica diz respeito a um ambiente detentor de um clima no qual as pessoas se sentem confortáveis para falar as suas opiniões e compartilhar experiências e ideias. Dessa forma, todos ficam tranquilos e seguros para se expor diante de outros colaboradores da empresa. Essa possibilidade se torna cada dia mais importante quando se trata de inovar ou apenas lidar com os contextos de mudança que estamos vivendo.

Clima de autenticidade

Um dos muitos significados da palavra autenticidade é “aquilo que é verdadeiro”. A pessoa que age com verdade expressa os seus sentimentos e opiniões sem temer retaliação. Ela não possui segundas intenções e, quando quer alguma coisa, expressa a sua vontade para que não haja desentendimentos futuros.

Na gestão, um clima autêntico reforça a inovação e a relevância das empresas nos mercados. Tal atitude obriga a uma mudança de valores culturais na busca de maior autonomia e flexibilidade (mas também de autorresponsabilização) de todos.

Automação de funções operacionais

A adoção de soluções tecnológicas tem aumentado a discussão sobre o quanto a automação pode eliminar empregos, mas a realidade nos mostra que a automação ocorrerá de qualquer forma.

Vestíveis e implantáveis

A chegada dos smart watches mudou a forma como passamos a entender a tecnologia ao serviço das pessoas. Gadgets vestíveis são hoje lugar-comum, mas, no futuro, o que hoje é usado no corpo estará embutido nele. Chips farão parte das nossas vidas, abrindo um mundo de oportunidades para quem conseguir utilizar essa informação e alimentar a sua base de conhecimento para decidir quais iniciativas deve aplicar.

6 – Educação, empresas e negócios

Ambidestria corporativa

A evolução tecnológica, a mudança do comportamento do consumidor, a turbulência política e a incerteza econômica reafirmaram aos gestores a importância da adaptabilidade (a capacidade de se mover rapidamente em direção a novas oportunidades, se ajustar a mercados voláteis e evitar complacências), sem prejudicar o negócio atual. Para uma empresa ter sucesso a longo prazo, ela precisa dominar a adaptabilidade e o alinhamento – um atributo que às vezes é conhecido como ambidestria.

Cultura ágil e estratégia adaptável

A cultura ágil vem ajudando muitas equipes a encarar a imprevisibilidades por meio de entregas incrementais e ciclos interativos, sendo uma alternativa aos métodos tradicionais. Essa capacidade gera vantagem competitiva e reflete uma abordagem estratégica mais flexível, que transformará o planejamento e a gestão tradicionais.

Educação híbrida e continuada (lifelong learning)

Com a velocidade do avanço do conhecimento humano, é fácil perceber o quanto nos desatualizamos em tão pouco tempo. A educação formal, que, antigamente, se garantia com uma graduação e um MBA, já não é mais fator de diferenciação. Estar antenado e preparado para o futuro nos obriga a uma educação continuada que consiga manter uma base permanente de conhecimento sobre o que está acontecendo no mundo, no mercado e nas empresas.

Identificação de tendências

É provado, ano após ano, que os gestores de sucesso são aqueles que olham para fora, identificam cenários e tendências e, munidos desse conhecimento, se viram para dentro para desenvolver iniciativas alinhadas com o que os mercados estão solicitando. Mais que uma metodologia, essa é uma mentalidade que se propõe a inovar por meio das tendências.

Centralidade do cliente, poder de marca e reputação

Conhecer o cliente, identificar as suas necessidades e descobrir a tarefa para a qual somos contratados são iniciativas que farão a diferença na gestão de portfólios, estratégias de comunicação e de relacionamento futuros. Branding é definido como o conjunto de ações que a empresa define em termos de marketing e comunicação, alinhadas com o seu propósito, posicionamento e valores defendidos e que visam a fortalecer a relação e reputação com os clientes. Em um mundo onde as marcas são cada vez mais importantes, a diferenciação delas estará mais centrada na sua capacidade de contar histórias verdadeiras e que se conectem emocionalmente com o seu cliente. Para as marcas, é fundamental essa abordagem.

Colunista

Luís Rasquilha

CEO da Inova TrendsInnovation Ecosystem e professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Hospital Albert Einstein e Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP).

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Inteligência Artificial: riscos e oportunidades

                Resenha do livro de Kissinger et al. “A Era da Inteligência Artificial e o nosso futuro humano” (Dom Quixote, 2021)           

                                                   Antonio Carlos Barbosa de Oliveira – Revista Cebri     ANO 1 / 3 / JUL-SET 2022                                                                            

Em janeiro de 1956, o futuro Prêmio Nobel de Economia Herbert Simon anunciou, no início de uma aula, que ele e seu colega Allen Newell haviam inventado, nos feriados de Natal, uma “máquina de pensar” (McCorduck 1979).  Alguns meses depois, durante o verão, John McCarthy – um jovem matemático – organizou um projeto de pesquisa que reuniu durante dois meses no Dartmouth College os pequenos grupos que estavam se dedicando a essa área. Precisando de um nome para atrair pessoas e ideias, McCarthy usa pela primeira vez a denominação Artificial Intelligence. O único software pronto e funcionando apresentado nessa conferência foi o programa de Simon e Newell, que demonstrava teoremas de lógica formal. 

A partir deste início singelo, a Inteligência Artificial (IA) cresceu e se transformou. Está hoje integrada, muitas vezes sem nos darmos conta, a inúmeras atividades humanas. Os três autores deste livro trabalharam durante quatro anos motivados pela visão de que a IA terá enormes impactos no futuro da humanidade. Eles são expoentes em suas respectivas áreas de atuação. Henry Kissinger é ex-secretário de Estado dos EUA e um dos mais influentes intelectuais na área de segurança e diplomacia. Eric Schmidt é empresário e ex-CEO da Google, responsável por liderar a empresa no período 2001-2011. Daniel Huttenlocher é diretor do MIT College of Computing, criado em 2018 com investimento de US$1 bilhão para coordenar as atividades do Instituto na área de computação. O livro não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas se propõe a fornecer ao leitor não especializado os instrumentos e a base intelectual para participar da construção de nosso futuro populado por máquinas inteligentes. 

Por meio de três exemplos (jogo de xadrez, descoberta de antibióticos e entendimento de linguagem), os autores introduzem o leitor ao mundo da IA. A programação de computadores para jogar foi sempre um foco das pesquisas em IA. Em 2017 o programa AlphaZero passou a liderar o ranking de programas de xadrez, após vencer outros programas em torneios. Até então, todos os programas escritos para jogar xadrez utilizavam técnicas que os humanos haviam desenvolvido e, através de sua grande capacidade computacional, eram capazes de explorar a enorme árvore de possíveis jogadas com maior eficiência. AlphaZero foi criado apenas com as regras do jogo, sem nenhuma codificação de estratégias ou jogadas humanas. O conhecimento que permitiu ao AlphaZero ser o melhor foi obtido através de aprendizado jogando contra ele mesmo. Em apenas quatro horas e somente avaliando seus resultados jogando contra uma cópia do programa, AlphaZero desenvolveu estratégias incríveis nunca consideradas por jogadores humanos. 

Halicina é um novo antibiótico descoberto no MIT em 2020 mediante uso de IA. O processo de descoberta de novas drogas envolve anos de experimentos em laboratórios em que milhares de moléculas são analisadas. A abordagem por meio de IA começou com a elaboração de um banco de dados contendo duas mil moléculas conhecidas. Para cada uma delas foram registrados dados químicos e efeitos biológicos. Com a técnica de deep learning, o software de IA analisou essas moléculas e aprendeu como detectar moléculas efetivas em matar bactérias e que não sejam tóxicas. Esse programa, treinado pelos exemplos codificados em sua base de dados, foi então alimentado com 61 mil novas moléculas e identificou uma delas com as propriedades desejadas. 

GPT-3 é um programa capaz de produzir frases e miniensaios sobre qualquer assunto ao ser alimentado com uma pergunta ou algumas frases. O texto produzido pelo programa a partir de curtas questões filosóficas colocadas pelos autores do livro é incrível. Essa capacidade de produzir textos coerentes e assustadoramente similares a frases humanas foi adquirida sem nenhuma codificação de regras, mas apenas por meio da análise da enorme quantidade de textos disponíveis na internet.

Os três exemplos escolhidos pelos autores são representativos da moderna abordagem da IA e muito diferentes dos programas desenvolvidos após a conferência em Dartmouth. Estes eram baseados em algoritmos detalhados e cuidadosamente codificados após análise de como a mente humana funciona. Esta abordagem, conhecida como a fase simbólica da IA, chegou aos anos 1980 com alguns resultados importantes, mas acabou estagnada. Durante cerca de dez anos, conhecidos como o inverno da IA, as verbas de pesquisa diminuíram e os resultados se tornaram cada vez mais escassos.  

Em 1990 uma revolução transformou a metodologia da IA. Uma nova abordagem baseada em redes neurais permitiu a construção de programas capazes de aprender. 

Em 1990 uma revolução transformou a metodologia da IA. Uma nova abordagem baseada em redes neurais permitiu a construção de programas capazes de aprender. As redes neurais, inventadas na década de 1950 e inspiradas no funcionamento dos neurônios biológicos, tiveram um renascimento após terem sido esquecidas no período da IA simbólica. Curiosamente foram os chips desenvolvidos para processamento de videogames que permitiram a construção de redes neurais com milhares de componentes interligados. Novos algoritmos matemáticos utilizando essas unidades de processamento gráfico consolidaram a abordagem que passou a ser conhecida como machine learning –  aprendizado de máquina. 

No aprendizado de máquina, a rede neural é treinada utilizando uma base de dados. Por exemplo, um programa para identificar gatos em fotos pode ser alimentado com milhares de fotos rotuladas se têm ou não um gato. A rede neural, contendo milhares de componentes, será configurada automaticamente sem nenhuma necessidade de intervenção do programador humano. Na etapa seguinte, o programa será capaz de fazer inferências: dada uma nova foto, detectar ou não a presença de um gato. A disponibilidade na internet de uma enorme quantidade de imagens e textos facilita o processo da aprendizagem de máquina. Essa metodologia é conhecida como aprendizado supervisionado. Outra técnica importante é o aprendizado não supervisionado, em que os dados brutos sem serem rotulados previamente são analisados, e a rede neural se configura para agrupar casos similares e identificar anomalias.

Uma outra técnica, conhecida como aprendizagem reforçada (reinforcement learning), não se limita a analisar os dados disponíveis. O método é baseado no conceito de um agente que observa seu entorno, executa ações e recebe recompensas em função da qualidade de suas decisões. À medida que este agente toma decisões e recebe recompensas, vai aprendendo, de maneira que, no final do processo, possui um conjunto de políticas que permitem executar decisões com alta qualidade – como no caso do AlphaZero, que utiliza essa metodologia.

A origem e evolução da IA ocupa os autores nos primeiros capítulos e, em seguida, dá lugar a uma análise profunda e detalhada do impacto da IA nas plataformas de rede e na segurança e ordem mundial. As plataformas de rede são os aplicativos que usamos diariamente: redes sociais, buscas na internet, streaming de vídeos, navegação e transporte urbano. A principal característica desses sistemas é que sua utilidade aumenta exponencialmente à medida que novos usuários são incorporados. Este efeito positivo favorece uma configuração com algumas poucas empresas, cada uma com um grande número de usuários. A IA tem sido incorporada às plataformas de rede de maneira quase imperceptível, mas muito intensa. Nossa vida diária já está marcada pela interação com uma forma de inteligência não humana. 

A IA tem sido incorporada às plataformas de rede de maneira quase imperceptível, mas muito intensa. Nossa vida diária já está marcada pela interação com uma forma de inteligência não humana.

Os algoritmos de busca da Google foram inicialmente codificados por programadores que sabiam exatamente quais resultados seriam obtidos. Em 2015 a Google passou a utilizar IA com uma significativa melhora na qualidade das respostas obtidas. Entretanto, os programadores perderam a capacidade de entender como as respostas eram produzidas. Eles sabem que a IA melhorou o resultado de uma busca, mas não é mais possível explicar como o sistema chegou a esta resposta.

No caso do Facebook, a atividade de remoção de conteúdo impróprio, que chega a um bilhão de postagens por trimestre, só é possível com a utilização de IA em conjunto com milhares de pessoas dedicadas a essa tarefa. IA também é usada pela Amazon, Netflix e outras plataformas, em que a história passada de consumo é analisada e comparada com outros usuários para sugerir novas recomendações. 

A crescente utilização de IA nas plataformas de rede está criando um novo tipo de relacionamento entre usuários e essa tecnologia, que opera com uma lógica não humana. Segundo os autores, isto é algo absolutamente novo e que nunca existiu na história. As plataformas de rede foram concebidas e criadas para atender a necessidades imediatas de seus usuários, mas acabaram adquirindo uma dimensão social e política completamente inesperada. O exemplo mais claro é o impacto das redes sociais no processo de informação (e desinformação) política, que podem  impactar a sociedade e as estruturas de governo.

A interação de plataformas de rede baseadas em IA com governos nacionais tende a ser extremamente complexa, na medida em que tentativas de regulamentação podem gerar conflitos com as empresas e com os usuários, produzindo crises imprevisíveis. A IA vem sendo utilizada de forma crescente, tanto na elaboração como na neutralização de desinformação. A tecnologia atual chamada deep fake permite a criação de textos e imagens com conteúdo totalmente falso, mas com uma precisão e qualidade que nos enganam. A supressão desse tipo de desinformação em larga escala só será possível por meio da IA. 

As plataformas de rede estão tendo um impacto geopolítico, na medida em que as empresas, apesar de sediadas em um país, atendem consumidores globais. Os autores mostram EUA e China como líderes no desenvolvimento de plataformas e constatam que a Europa, apesar de sua tradição acadêmica e científica, não mostrou interesse em desenvolver plataformas de rede próprias, procurando liderar na regulamentação das plataformas existentes. A Rússia também ficou fora da competição internacional desenvolvendo algumas plataformas para uso interno. Em um ranking[1] de países segundo sua capacitação em IA, EUA e China lideram, enquanto o Brasil ocupa o trigésimo nono lugar.

Os países que não produzem plataformas de rede incorporando IA e que têm grande parte de sua atividade econômica dependente dessas plataformas estão vulneráveis às restrições criadas por governos hostis. Podem administrar esse risco incentivando a operação simultânea de várias plataformas, ou mesmo a criação de plataformas nacionais.

A análise feita pelos autores do impacto da IA na segurança e na ordem mundial parte do estudo dos mecanismos que funcionaram na Guerra Fria evitando o confronto nuclear. Enquanto as armas atômicas são entes físicos que podem ser contados e avaliados objetivamente, as tecnologias de ciberataques (cyber), incorporadas recentemente pelas grandes potências ao seu arsenal, têm uma natureza completamente diferente. É muito difícil avaliar a capacidade cyber dos adversários, com a tecnologia evoluindo rapidamente e os mecanismos de ataque mantidos em segredo.

A estratégia cyber consiste em detectar falhas ou vulnerabilidades em sistemas computacionais e, através de programas enviados remotamente, desabilitar esses sistemas. A IA pode ser usada para incrementar os mecanismos de defesa, detectando e corrigindo falhas antes que os inimigos possam lançar um ataque. Na área ofensiva, os vírus utilizando IA podem se transformar e mutar, evitando a detecção e atacando com maior velocidade e persistência. A efetividade de uma arma cyber muitas vezes depende de mantê-la em segredo, o que complica muito qualquer negociação visando à não proliferação. 

Outro aspecto analisado pelos autores é o impacto do uso da IA, com sua lógica não humana, nos sistemas militares. A força aérea americana já testou aviões autônomos que selecionam alvos e decidem ataques sem intervenção humana. A lógica do conflito militar sempre envolveu a avaliação das estratégias do adversário. Quando ambos os lados estão usando IA, entender a lógica das decisões do inimigo fica muito mais difícil, senão impossível.

Os autores propõem que cada país líder no uso de IA crie um organismo nacional para discutir os aspectos de defesa e segurança da IA, com o objetivo de garantir a competitividade e limitar a escalada sem controle em uma crise. Em um artigo publicado depois do livro, um dos autores, E. Schmidt (2022a), coloca EUA e China como os dois únicos países capazes de liderar a IA e defende vigorosamente a criação de um programa nacional para manter a liderança americana.

Ao tentar antever a direção da pesquisa em IA, os autores analisam a Inteligência Geral Artificial (IGA). Até agora, todos os programas utilizando IA têm objetivos claros definidos pelos seus programadores para executar uma tarefa específica, como jogar xadrez ou achar novos antibióticos. Os sistemas com IGA serão capazes de definir seus próprios objetivos e criar os algoritmos e programas para lograr esses objetivos. Os especialistas divergem sobre a viabilidade da IGA. Alguns consideram impossível, enquanto outros acham que em 20 anos teremos IGA (Schmidt 2022b).

IGA será capaz de obter novos conhecimentos científicos que poderão ter enormes impactos econômicos. Como provavelmente essa tecnologia necessitará enorme poder computacional, só disponível em grandes organizações, segundo os autores será necessário que governos, universidades e o setor privado definam limites para que IGA possa ser usada de maneira justa e democrática.  

Para os autores, ao longo da história, a humanidade entendeu o mundo através da fé e da razão. A IA seria uma terceira maneira. Estamos acostumados ao monopólio da inteligência, e a IA desafia essa visão e transforma a experiência humana.  

Para os autores, ao longo da história, a humanidade entendeu o mundo através da fé e da razão. A IA seria uma terceira maneira. Estamos acostumados ao monopólio da inteligência, e a IA desafia essa visão e transforma a experiência humana.  O livro coloca mais questões do que fornece respostas, mas deixa clara a necessidade de pensar seriamente como controlar a explosiva evolução da IA e garantir que seu uso seja para nosso benefício.

Notas

[1] The Global AI Index (Tortoise s.d.): https://www.tortoisemedia.com/intelligence/global-ai/.   

Referências Bibliográficas 

Kissinger, Henry, Eric Schmidt & Daniel Huttenlocher. 2021. The Age of AI and Our Human Future. New York: Little, Brown and Company. 

Kissinger, Henry, Eric Schmidt & Daniel Huttenlocher. 2021. A Era da Inteligência Artificial e o nosso futuro humano. Lisboa: Dom Quixote. 

McCorduck, Pamela.  1979. Machines Who Think: A Personal Inquiry Into the History and Prospects of Artificial Intelligence. San Francisco: WH Freeman. 

Schmidt, Eric. 2022a. “AI, Great Power Competition & National Security”. Daedalus 151 (2):288-298. https://doi.org/10.1162/daed_a_01916.  

Schmidt, Eric. 2022b. “#280 – The future of Artificial Intelligence. A Conversation with Eric Schmidt”. Produced by Sam Harris. Making Sense, April 22, 2022. Podcast, Online Streaming, 38:03. https://www.samharris.org/podcasts/making-sense-episodes/280-the-future-of-artificial-intelligence

Tortoise. s.d. “The Global AI Index”. Acessado em 6 de agosto de 2022. https://www.tortoisemedia.com/intelligence/global-ai/

Como citar: Oliveira, Antonio Carlos Barbosa de. “Inteligência Artificial: riscos e oportunidades”. Resenha de A Era da Inteligência Artificial e o nosso futuro humano (Lisboa: Dom Quixote, 2021), de Kissinger et al. CEBRI-Revista Ano 1, Número 3 (Jul-Set): 175-181.

Inteligência Artificial: riscos e oportunidades

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Navegações Vikings, afinal, como eram orientadas?

Por João Lara Mesquita – Estadão/Mar sem fim – 21 de setembro de 2022

Navegações Vikings, afinal, como eram orientadas?

Todos os povos antigos que lograram se tornar os mais poderosos em suas respectivas épocas o fizeram dominando a navegação. A história aí está para provar. Assim foi com os fenícios, cartagineses, egípcios, gregos, romanos e, mais tarde, os portugueses entre tantos outros. E duas habilidades superiores eram essenciais: a engenharia náutica capaz de desenvolver um barco melhor que os anteriores, e a arte da navegação, ou seja, a orientação em mar aberto. Os vikings, por exemplo, desenvolveram o fantástico Drakkar, superando a engenharia náutica de seu tempo. Mas, e as navegações vikings, como, afinal, eles conseguiam se orientar em mar aberto?

Drakkar (réplica) navegando em mar forte. Imagem, http://www.vikingeskibsmuseet.dk.

Navegações Vikings, o Drakkar

Como já mostramos, o Drakkar surgiu no século 9 (Não foi único tipo, havia muitos outros). Tinha um comprimento médio de 28m. Largura, 3m. Velocidade de até 12 nós (22 Km), excelente para a época, e forte o suficiente para os tempestuosos mares do Norte em que navegava.

Construído com toras de carvalho, o Drakkar era comprido (longships), e podia levar até 40 tripulantes, ou mais. Em média tinha 32 remos, 16 de cada lado, além da vela quadrada. O drakkar enfrentava bem o mar, e tinha pouco calado (mas com quilha, uma novidade para a época) o que permitia que encalhasse facilmente nas praias, e um dos poucos barcos oceânicos capazes de, igualmente, navegar por rios.

área das navegações vikingsÁrea das navegações vikings em mar aberto.

Com estes barcos, os habitantes do que hoje conhecemos por Escandinávia, colonizaram a Groenlândia, a 1.600 Km de distância, e a Islândia; aterrorizaram a Europa desde o final do século 8, desembarcaram na América do Norte, e foram os primeiros a chegar aos Açores, além de cruzarem o continente europeu pelos rios (fundaram o primeiro Estado russo cuja capital era Kiev), estabelecendo redes comerciais até Constantinopla – hoje Istambul, Turquia.

O www.lifeofsailing.com, por exemplo, calcula que para navegar à Inglaterra ou ao norte da Grã-Bretanha em particular, os vikings levariam cerca de 3 a 6 dias em condições boas e favoráveis ​​a uma velocidade média de 8 nós. Mas com mau tempo, poderiam atrasar sua partida, correr à frente da tempestade ou viajar a uma velocidade média de 3 nós com várias paradas, o que significa que levariam até oito semanas se uma tempestade séria explodisse.

A arte da navegação viking

A bússola, por exemplo, só chegou à Europa por volta do fim do século 12, começo do século 13. Então, como os vikings navegavam? Como todos os antigos, quando possível eles simplesmente seguiam o litoral, mantendo-se longe o suficiente da costa e dos bancos de areia e recifes.

navegações vikingsPintura de 1893 de Christian Krogh supõe a viagem de Leif Erikson para a América do Norte por volta de 1000 d.C. Domínio Público.

Para atingirem a Europa, a navegação era costeira, enxergando terra quase todo o tempo. O www.viking.archeurope diz que evidências de topônimos indicam que marcos proeminentes na costa ajudaram a navegação. A maioria dos ataques à França e à Inglaterra poderia ter sido realizada dessa maneira.

Além disso, contribuía para a orientação, observações do sol, nuvens, estrelas, aves, mamíferos marinhos, bem como o comportamento dos ventos, das ondas, e até mesmo a temperatura da água e a circulação das correntes. E, sempre que possível, esperavam em terra firme até que o vento fosse favorável. Com as velas quadradas que usavam, significava vento a favor, ou seja, de popa. Os remos eram usados sobretudo em rios, ou para manobras de atracamento especialmente.

Ainda assim, deve ter sido muito difícil. Quanto mais ao Norte, maior a chance de cerração, ou céus  claros durante todo o verão, o que lhes impediria a observação dos astros.

Pedra de sol e o prumo

Contudo, para atingir a Groenlândia e a América, tiveram que atravessar grandes porções de mar aberto. Como? Segundo matéria do New York Times, “As sagas nórdicas referem-se a um  “sunstone” (pedra de sol, em tradução livre) que tinha propriedades especiais quando apontadas para o céu.”

“Em 1967, um arqueólogo dinamarquês, Thorkild Ramskou, propôs que estes cristais revelavam padrões distintos da luz no céu, causados ​​pela polarização que existe mesmo em tempo nublado ou quando o sol se põe abaixo do horizonte.”

Drakkar viking Drakkar viking. A navegação viking tem fascinado estudiosos e curiosos há anos. A Feira Mundial de 1893 em Chicago apresentou esta réplica de um navio do século IX escavado em Gokstad, Noruega. DOMÍNIO PÚBLICO.

“Um estudo publicado na Royal Society Open Science avança essa ideia, sugerindo que os vikings tinham uma grande chance de chegar a um destino como a Groenlândia (apesar de a terem descoberto por acaso) em dias nublados ou de neblina se usassem pedras do sol e as verificassem pelo menos a cada três horas.

Se de fato a pedra do sol ajudava, os vikings teriam noção da latitude. E até sem ela poderiam fazê-lo pela observação do sol e das estrelas, especialmente a estrela polar, ou marcando a altura máxima do sol ao meio-dia e comparando sua latitude com lugares conhecidos. Esta seria outra forma de ajudar na sua localização, assim navegavam os nautas lusitanos pelo Atlântico Sul, Norte, e Índico.

Lembremos que a latitude nos dá a posição em relação ao eixo Norte-Sul; para sabermos a posição no eixo Leste-Oeste, só com o cronômetro muitos séculos depois.

Experimentos modernos com a pedra do sol

Segundo o atlasobscura.com, a pedra do sol era na verdade pedaços de cristal de calcita. Thorkild Ramskou, um arqueólogo dinamarquês, apontou como a calcita trata a luz polarizada – ou seja, ondas de luz vibrando em um único plano, em vez de em todas as direções – de uma maneira que cria padrões que os observadores podem ver.

Rotas das navegações vikings. Ilustração, http://www.iro.umontreal.ca.

Pesquisa da Universidade de Rennes identifica o sol 

“Em 2011, um grupo de pesquisa da Universidade de Rennes relatou sucesso ao identificar o sol,  colocando um ponto em cima de um cristal de calcita e observando-o de baixo. Ramskou propôs que os marinheiros poderiam ter usado o cristal para acompanhar a posição do sol e, em seguida, manobrar o navio na direção geral que eles queriam.”

A mesma fonte diz que, no início de 2018, Dénes Szás e Gábor Horváth, físicos da Universidade Eotvos de Budapeste, publicaram um relatório na Royal Society Open Science descrevendo como eles modelaram 36.000 viagens durante várias estações. 

Réplica do Drakkar. Imagem, http://www.vikingeskibsmuseet.dk.

“Com base em seus cálculos, os pesquisadores relatam que, se uma equipe viking calibrasse uma pedra do sol e a verificasse a cada três horas, havia mais de 90% de chance de chegar perto o suficiente para ver a costa da Groenlândia.”

Além dela, usavam o prumo. Com este simples instrumento, também usado pelos nautas e outros antigos navegadores, ao aproximarem-se de terra podiam saber não só a profundidade, mas igualmente o material do fundo do mar.

Contudo, é certo que, por sua importância, os conhecimentos de navegação provavelmente eram passados ​​de uma geração para outra em razão de seus sucessos pioneiros.

Os vikings desempenharam um papel fundamental na história escandinava e europeia. Grande parte de sua capacidade de controlar várias regiões do norte da Europa e contribuir para o comércio e o transporte dependia de sua capacidade de criar embarcações incríveis e nelas saberem navegar.

1948, descoberta de um disco de madeira

De uma forma ou de outra, não resta dúvida de que os vikings conheciam os segredos da navegação. Em 1948, diz o www.viking.archeurope.info, arqueólogos descobriram um fragmento de um disco de madeira em um local na Groenlândia que havia sido ocupado por colonos nórdicos no século X.

Disco de madeiraO disco de madeira descoberto em 1948. Imagem,

Este disco foi interpretado por alguns estudiosos como uma forma simples de bússola solar, mas um estudo recente sugere que pode ser um dispositivo para determinar a latitude. Este disco foi igualmente objeto de estudo publicado na National Library of Medicine.

Alguns feitos de uma sociedade extraordinária

Nossa fonte, a partir de agora, passa a ser o escritor Neil Price, autor do esplêndido Vikings – A história definitiva dos povos do Norte (Ed. Crítica).

Claramente, um dos principais componentes do fenômeno viking foi o navio. Os rápidos avanços na tecnologia da energia do poder naval não foram de forma alguma o único gatilho, mas as aventuras escandinavas no mundo mais amplo não poderiam ter acontecido sem os barcos.

Por sorte os reis vikings eram enterrados com seus barcos. Desse modo a arqueologia pode descobri-los. A imagem mostra a descoberta do navio Gokstad em 1904.

Neil Price diz que não foi apenas uma questão de desenho aprimorado, de navios com calado mais raso e melhor manejo. O mais importante destes fatores, pois por sua própria natureza era fundamental para o sucesso da navegação viking, foi a introdução da vela.

Velas no hemisfério Norte a partir do século 8

E conclui: embora comum nas culturas clássicas do Mediterrâneo, as velas parecem ter aparecido pela primeira vez no Norte durante o século 8. Para que ficassem menos permeáveis ao fluxo de ar, as velas eram untadas com sebo, óleo de peixe ou outras substâncias como alcatrão.

E o autor nos mostra que a produção de barcos, mesmo naquele período, era ‘quase’ industrial. ‘No século 10, frotas de 200 navios ou mais não eram incomuns nas campanhas fluviais europeias.’ E mais: ‘Isso exigiu nada menos que uma reorganização da economia fundiária.’

São dados que provam a organização da sociedade viking muitos antes do que seria imaginável. Price mostra a que ponto chegava esta ‘organização’. Tente imaginar, por exemplo, a quantidade de tecido necessária para a produção de velas, e roupas de frio, para uma frota de 200 embarcações (às vezes mais…).

O autor conta que arqueólogos calcularam que as necessidades de tecidos, por volta do século 11, ‘teriam chegado a cerca de 1 milhão de metros quadrados, em outras palavras, a produção anual de cerca de 2 milhões de ovelhas.’

Necessidade de madeira

Para o autor, não só a construção de navios, mas também de edifícios, aspectos de infraestrutura e obras de defesa exigiam tempo, conhecimento especializado e imensas quantidades de madeira de florestas cuidadosamente gerenciadas.

Por último, Neil Price conta sobre a reconstrução de um navio viking ‘meticulosamente’ utilizando as mesmas técnicas tradicionais. E diz: ‘Daí se deduziu que sua fabricação teria levado 2.650 dias/pessoa. Além de 13.500 horas adicionais de trabalho no ferro para os rebites e outros acessórios. Todo o processo também teria usado mais de dois quilômetros de cordas e 120 metros quadrados de vela.”

Manejo de florestas pelos vikings

“O acesso a terras florestadas e o direito de explorá-las eram, portanto, fatores de grande importância na economia e transmitidos através das gerações. A gestão de ambientes florestais complexos exigia planejamento e, sobretudo, investimentos a longo prazo. Um carvalho totalmente crescido que era derrubado para a construção de um navio podia ter sido plantado para essa finalidade sessenta anos antes ou mais.”

Navio Gokstad reconstruído, hoje no Museu de História Cultural da Universidade de Oslo.

Portanto, fica claro que, ao contrário do estereótipo que mostra ‘hordas de  sanguinários guerreiros em aparente baderna’ investindo contra inimigos e usando capacetes com chifres laterais (que nunca existiram), era uma sociedade bem organizada. Ainda que de fato sanguinária, cujo maior feito foi a descoberta e controle das rotas comerciais do período e em uso até hoje.

Rotas estas que incluíam não apenas o Mar do Norte e o Oceano Ártico. “Seu alcance se estendia para além de Bizâncio e até mesmo do mundo Árabe (vikings negociavam com Bagdá, entre muitos outros),  adentrando a estepe asiática para se conectar com as lendárias Rotas da Seda.”

A saga viking e a saga lusitana

Para o Mar Sem Fim, estes aspectos que demonstram a organização da sociedade viking em seu périplo marítimo comercial só teve equivalência com a saga náutica lusitana, séculos mais tarde. Ela começou com o rei D. Diniz que, depois da reconquista aos muçulmanos, organizou a marinha portuguesa ainda em 1317, sem a qual nada seria possível.

Em seguida, os reis que o sucederam, assim como fizeram os vikings, cuidaram de plantar e proteger florestas ainda nos séculos 13 e 14 para que, a partir de século 15, com as melhorias da engenharia naval aplicada à caravela no que foi o drakkar para os vikings, pudessem, a partir de 1415, iniciar seu movimento expansionista quando o país descobriu o sistema de ventos e correntes, em consequência, controlou as rotas comerciais do Atlântico Sul, e do Índico, dominando a Carreira das Índias por mais de cem anos. As mesmas rotas do comércio mundial usadas até hoje.

Desse modo, Portugal também deixou uma herança, a exemplo dos vikings. Ou seja, levou sua língua e cultura aos cinco continentes, estendendo o território aos arquipélagos dos Açores e da Madeira, assim estabelecendo um regime colonial em vários países africanos, Timor-Leste e até mesmo na Índia.

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Como a saúde se transformou em uma das prioridades do consumidor

Física, mental, social e espiritual: os bons resultados do setor farmacêutico e de beleza mostram que a pandemia colocou a saúde em destaque

Farmácia: o setor teve crescimento bruto de mais de 19% (Leandro Fonseca/Exame)

Farmácia: o setor teve crescimento bruto de mais de 19% (Leandro Fonseca/Exame)

Darcio Oliveira – Exame -Publicado em 13/09/2022 

Desde que a britânica Margaret Keenan, uma avó de 90 anos na época, deu o ombro para a primeira agulhada mundial de uma vacina contra a covid-19, o mundo parece ter não apenas experimentado certo alívio com a chegada do premente e promissor antídoto, mas também despertado pelo simbolismo das palavras de Maggie.

“Estou muito orgulhosa por ter sido a primeira, por rolar a bola e mostrar que esse é o caminho”, declarou, no histórico 8 de dezembro de 2020, diante das câmeras de TV aglomeradas no University Hospital em Coventry, na Inglaterra. “Agora, espero a segunda dose [ministrada 18 meses depois] para sair de férias, viajar e ver meus filhos e netos… Estou sozinha há mais de um ano.”

O antídoto, a esperança, a vontade de viajar, um toque de spray no cabelo — que ela pediu à enfermeira May Parsons que lhe aplicasse antes da vacinação transmitida via satélite; afinal, autoestima também é saúde —, são todos símbolos de algo que aflorou no início da pandemia e se estendeu por 2021: a busca prioritária e incessante pelo bem-estar, uma busca que se traduz na percepção de que não há nada mais importante do que isso no momento.

É como se o mundo parasse (e parou) para que as pessoas refletissem sobre a real necessidade de se cuidar, de todas as formas. Parafraseando James Carville, assessor e marqueteiro preferido de Bill Clinton: “É a saúde, estúpido!” Física, mental, social e até espiritual. Todo o resto é detalhe.

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Ora, parece um tanto óbvio dizer que a prioridade de um mundo curvado a um vírus letal é a incessante corrida para debelar a doença ou, pelo menos, mitigar seus danos, seja com campanhas públicas de saúde, com estímulo ao isolamento, seja com medidas individuais preventivas, entre elas a corrida aos balcões de farmácia.

Em cenários assim, a venda de produtos que ajudam a fortalecer mente e corpo tende a aumentar, o que explica, em parte, o crescimento bruto de mais de 19% do setor farmacêutico e de beleza na comparação com 2020, como mostra o ranking da EXAME MELHORES E MAIORES.

“Estamos falando de um crescimento líquido de 9% e de uma rentabilidade média de 17%, margem não tão usual assim para esses setores”, diz Samuel Barros, pró-reitor de pós-graduação no ­Ibmec do Rio de Janeiro e no de Belo Horizonte e coordenador técnico do anuário.

Dados do Sindusfarma, o sindicato que reúne a indústria farmacêutica, mostram que a procura por vitaminas, em geral a C e a D, cresceu mais de 70% no biênio 2020/2021, e a compra de antitussígenos e antigripais foi 28% maior do que em 2020. Isso sem contar o aumento do recei­tuá­rio de produtos para o sistema nervoso central.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), houve um crescimento de mais de 25% nos casos mundiais de depressão e ansiedade durante a pandemia. “Tivemos, por um lado, uma atitude preventiva, a busca por maior proteção física por meio de vitaminas, antigripais. Por outro, a busca pelo equilíbrio mental”, afirma Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma.

É essa atitude preventiva, elevada a padrões inéditos, que conta mais do que os números. Dito de outra forma: a percepção do que realmente importa. “As pessoas sabem que essa não é a última pandemia do mundo e estão cada vez mais atentas ao futuro e à qualidade de vida”, diz Mussolini.

A consultoria McKinsey mapeou recentemente — e pela primeira vez — a percepção do que se pode chamar de wellbeing ou wellness (o bem-estar), por meio de uma pesquisa com 1.000 cidadãos de 19 países. As perguntas foram formuladas com base nas quatro dimensões do que os especialistas do recém-criado McKinsey Health Institute estruturaram para compor a sensação holística do mens sana in corpore sano.

São elas: saúde física, mental, social e espiritual (que nada tem a ver com religião, e sim com aspectos como o propósito de fazer algo, a identidade no mundo ou a sensação de pertencimento). “Segundo a OMS, saúde é um estado de bem-estar completo, e não somente a ausência de doenças e enfermidades”, diz Marcus Frank, sócio da McKinsey.

“Um mapa de percepção teria, portanto, de ser holístico, buscar algo além do físico e do mental.” Entre outras conclusões, a pesquisa apontou que a saúde física e mental é considerada prioridade para 92% dos brasileiros, ante a média de 85% no mundo. Na saúde social, os índices ficam em 83% para o Brasil e 70% para o mundo e, na espiritual, em 78% e 62%, respectivamente.

Se a ausência de uma série histórica do recém-criado instituto impede a comparação de percepção de bem-estar com períodos pré-pandemia, outro estudo da McKinsey dá uma boa ideia da transformação provocada pelo evento covid-19 na mente e no bolso de 7.500 consumidores em seis países.

A pesquisa mostra que o mercado global do bem-estar é uma arena de 1,5 trilhão de dólares, formada por seis categorias, que cresceram entre 5% e 10% em 2021: saúde médica; saúde física; nutrição; estética e aparência; qualidade do sono; e equilíbrio psicológico.

Também revela que o investimento do brasileiro em bem-estar aumentou na pandemia, chegando a ser duas vezes maior do que o de consumidores dos outros países pesquisados (estamos falando, claro, de um estrato social com alguma renda, capaz de driblar a conjuntura e comprar bem-estar sem precisar fazer escolhas — uma parcela cada vez menor da população).

Em valores, esse gasto equivale a 1.200 reais per capita por ano, sobretudo com as categorias saúde médica e bem-estar psicológico. A tendência, segundo o estudo, é de que 80% dos consumidores mantenham ou aumentem os gastos com corpo e mente.

“A visão geral é de investimento maior no ‘eu’, no equilíbrio interno”, diz Frank. “Observe as novas gerações, o apego ao propósito, às questões sociais, ao bem-estar… É um movimento que já vinha se consolidando, a pandemia foi só o acelerador da tendência.”

Essa mudança de percepção sobre as várias dimensões da saúde, claro, alcançou as empresas. Cresce o número de companhias que adicionaram a seus benefícios a categoria mental health, com psicólogos à disposição dos funcionários, ou que estudam novas formas de manter o equilíbrio emocional do time, sem comprometer a produtividade.

Experiências recentes na Europa e nos Estados Unidos — e algumas no Brasil — com a semana de quatro dias mostram que a produtividade se manteve intacta ou até mesmo cresceu ao se instituir o respiro de um dia, geralmente às quartas-feiras.

É inteligente de todas as formas. Reduz custos com estrutura, algo que já se observava com o advento dos sistemas híbridos de expediente, preserva a saúde física e mental do funcionário e aumenta os níveis de engajamento.

“O mundo precisa descansar. Como diz um amigo do mercado financeiro, a gente vem nos últimos 40 anos numa batida de fundo de investimento, em que tudo tem de gerar resultado financeiro a qualquer custo”, diz Barros, do Ibmec. “Isso não é necessariamente uma verdade. As empresas também têm de gerar riqueza num aspecto mais amplo para a sociedade, e isso passa pelo bem-estar coletivo.”

LEIA TAMBÉM:

https://exame.com/revista-exame/voce-em-primeiro-lugar/

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NASA cria plataforma para controlar cada árvore do mundo

A CTrees usa inteligência artificial para rastrear árvores por todo o planeta, fornecendo uma importante ferramenta para a medição do carbono

Redação Fast Company – 20-09-2022 

Enquanto startups se esforçam para construir dispositivos que retirem CO2 do ar, as três trilhões de árvores do mundo já fazem a mesma coisa, em escala massiva. Uma nova plataforma monitora exatamente o quanto elas contribuem, contando a quantidade de carbono armazenada em cada árvore do planeta.

Uma nova entidade sem fins lucrativos, a CTrees (seu lema: “veja a floresta e as árvores”), usa inteligência artificial para analisar dados e imagens de satélite, junto com informações sobre o número de árvores.

Conforme elas crescem, ou quando desaparecem (cortadas ou queimadas, por exemplo) a CTrees vai usando novas imagens de satélite para manter atualizadas as estimativas da quantidade de carbono capturado.

O método, baseado em duas décadas de pesquisas científicas, “tem uma precisão que é quase padrão ouro” em termos de mensuração, garante Sassan Saatchi, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e um dos líderes do projeto.

 Algumas startups, como a Pachama, localizada em San Francisco (Califórnia) também utilizam IA e sensoriamento remoto para rastrear alterações em florestas para projetos específicos de sequestro de carbono. Mas a CTress olha o panorama global.

Estima-se que, no ano passado, o conjunto de todas as árvores do planeta armazenou 400 bilhões de toneladas de carbono.

Ela também consegue identificar o que está acontecendo em regiões específicas. Dados em alta resolução captados por satélites comerciais tornam possível até focar em uma determinada árvore, individualmente.

Os dados serão cruciais para países que dependem de florestas para capturar a quantidade de carbono necessária de modo a conseguir cumprir com os compromissos firmados no Acordo de Paris.

Empresas e ONGs que vendem créditos de carbono para proteger e restaurar áreas de mata também precisam de uma ferramenta desse tipo para ajudar a convencer os compradores de que estão mensurando de forma legítima o valor de seu trabalho.

“Elas precisam ter dados confiáveis para monitorar a floresta e esses dados têm que ser muito precisos”, diz Saatchi.

Dados anuais serão liberados para consulta pública no website do projeto, incluindo números globais e por país. Clientes que queiram projetos específicos de medição pagarão uma taxa, cujo valor ainda não foi fixado.

A plataforma pode ser usada pelos mais variados motivos, do monitoramento de árvores em áreas urbanas à identificação de áreas desmatadas. Segundo Satchi, grupos que trabalhem com comunidades indígenas ou com pequenos agricultores em ações de reflorestamento ou de créditos de carbono também podem usar os dados.

“Ao mesmo tempo, vamos incluir os esforços de todos para ver exatamente como estamos nos saindo globalmente”, informa. Pesquisadores estimam que, no ano passado, o conjunto de todas as árvores do planeta armazenou 400 bilhões de toneladas de carbono.

Com base em reportagem de Adele Peters.


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