ESG: Por que a busca pelo termo cresceu 1200% em 2 anos

Levantamento no Google Trends revela aumento exponencial de busca pela sigla. Diretora da Exame explica por que ela não pode mais ser ignorada

Da Redação – Exame – Publicado em 12/09/2022 

São Paulo — Em 2004, o então secretário das Nações Unidas Kofi Annan publicou um artigo para o Banco Mundial, em que convidou os 55 CEOs de algumas das maiores empresas do mundo a incorporarem três letras nos seus resultados: ESG.

A sigla para Ambiental, Social e Governança, no inglês, era um chamado para que as grandes corporações incluíssem em suas estratégias algumas variáveis que até então não eram levadas em conta em seus balanços.

“Em um mundo em que 69 das maiores organizações do mundo são empresas e apenas 31 países, as empresas não podem mais entender os seus impactos sócio-ambientais como meras externalidades negativas”, explica Renata Faber, diretora de ESG da Exame e autora do Ebook Empresa de Impacto ESG, que pode ser baixado de graça aqui.

Embora o termo ESG tenha sido usado pela primeira vez há mais de 20 anos — e o conceito de sustentabilidade nos negócios exista há ainda mais tempo — foram nos últimos anos, contudo, que o termo entrou de vez no vocabulário da alta liderança das empresas.

Um levantamento no Google Trends revela que, após flutuar mais de uma década, a busca pelo assunto cresceu mais de 1200% no Brasil só nos últimos dois anos. 

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Enquanto isso, uma pesquisa recente da Aberje mostrou que 95% das empresas brasileiras têm ESG como prioridade em suas agendas.

E um levantamento do IBM Institute for Business Value (IBV) deste ano mostrou que o assunto está sendo tratado como prioridade máxima por 48% dos CEOs brasileiros, o que representa um aumento de 65% em relação ao ano anterior.

Mas, afinal, porque o interesse pelo tema cresceu exponencialmente em tão pouco tempo? 

“Nós temos percebido empiricamente a busca pelo assunto crescer muito, sobretudo no top-management das empresas”, afirma Faber. Segundo a executiva, há pelo menos três fatores que explicam essa tendência:

1 – A crise climática se tornou uma emergência

O que já era consenso na comunidade científica passou a encontrar respaldo no universo corporativo: a crise climática se tornou uma emergência.

“Os empresários têm cada vez mais consciência de que se não houver planeta, também não há empresa. E muitas empresas já estão percebendo isso da pior forma”, explica Faber. 

Para ficar em alguns exemplos, a ocorrência de eventos extremos pode comprometer a infraestrutura de transportes e toda a cadeia de suprimentos de uma região. 

Na agricultura, a escassez de chuvas pode inviabilizar safras inteiras. 

Nos oceanos, a mudança de 1 grau na temperatura é suficiente para elevar sua acidez e alterar sua química, ameaçando a biodiversidade e impossibilitando a pesca em regiões costeiras. 

“Já temos visto desastres naturais sacudindo inclusive o mercado de seguros, tornando inelegíveis empresas com muita exposição ao risco climático”, destaca Faber. 

Um estudo divulgado recentemente pela Allianz com 2650 especialistas em 89 países mostra que, no Brasil, as catástrofes naturais representam o segundo maior risco para as empresas.

Em um escopo mais amplo, o Banco Mundial estima que a crise climática irá causar a migração de mais de 216 milhões de pessoas até 2050 (praticamente um Brasil inteiro), potencializando conflitos por recursos como água e alimentos.

Para evitar eventos dessa magnitude, o Acordo de Paris em 2015, que contou também com forte apoio da iniciativa privada, impôs a meta de limitar o aquecimento global entre 1,5 e 2 graus celsius acima dos níveis pré-industriais até 2026.

Hoje, mais de 90% do PIB global já se comprometeu a neutralizar suas emissões líquidas de carbono, o chamado net zero. “Isso significa que se a pauta ambiental ainda não chegou em alguma empresa, é questão de tempo para que ela chegue por força de lei.”

2 – O mercado de investimentos

Faber lembra que, há 5 anos, poucos investidores olhavam para dados como pegada de carbono, condições de trabalho e diversidade no conselho em suas análises. “Hoje, esses números são analisados com lupa.” 

Para cada 3 dólares investidos globalmente hoje, 1 está alocado em ativos ligados à sustentabilidade. É uma área que já movimenta mais de US$ 35 trilhões no mundo, e esse número deve chegar a US$ 53 trilhões em 2025, segundo uma análise da agência americana Bloomberg.

Em plena pandemia, quando os mercados derretiam mundo afora, o presidente do banco UBS anunciou que as emissões de títulos de dívida com metas sustentáveis, os chamados green bonds, triplicaram em apenas um ano. 

No Brasil, 20% dos bonds, que são os títulos de dívida emitidos por empresas brasileiras, já têm aspectos ESG, o dobro da média mundial. 

E a mensagem por trás desses números é clara. Em 2020, Larry Fink, CEO da BlackRock, declarou em uma carta endereçada a CEOs que vai punir em suas estratégias de investimento empresas que não estiverem promovendo práticas ambientais, sociais e de governança.

“Em outras palavras, além de ser melhor para o planeta, uma estratégia sólida de ESG se tornou uma espécie de bilhete de entrada, ou permanência, das empresas no universo dos financiamentos”, ressalta a diretora da Exame.

Faber ressalta, ainda, que os gestores de fundos não fazem isso porque são bonzinhos, mas porque as práticas ESG dão resultado. 

“Diversos estudos em toda parte do mundo já demonstraram que, historicamente, empresas com uma estratégia ESG consolidada performam melhor do que seus pares em horizontes mais curtos de tempo”, destaca.

3 – A chegada da Geração Z ao mercado consumidor e de trabalho 

Para Faber, a Geração Z — os jovens nascidos após a virada do milênio — é a melhor expressão de uma mudança de paradigma já iniciada pelos millennials — estes nascidos após o início da década de 1980.  

“Essa é uma geração que leva o propósito para atitudes práticas. E o que isso significa? Que na hora de comprar um tênis, por exemplo, o jovem da geração Z não avalia apenas o conforto e o preço, mas também sua pegada de carbono”, diz. 

“Ao investir, ela busca empresas com crescimento sustentável, que contribuam para o progresso social. E na hora de escolher um trabalho, essa geração não quer mais apenas ganhar dinheiro. Ela quer uma missão.” 

Segundo Faber, essa mudança de comportamento também obriga as empresas a se manifestar sobre temas em que antes elas não se posicionavam. “Não dá mais para ficar em cima do muro”, diz.

Uma pesquisa recente da Fiep revelou que  87% dos brasileiros preferem comprar produtos e serviços de empresas sustentáveis. 

O mais interessante, contudo, é que 70% dos entrevistados dizem não se importar em pagar a mais por isso. 

“Ou seja, não olhar para essa agenda, além de ser ruim para o planeta, também significa deixar dinheiro na mesa”, afirma a diretora.

Como implementar uma estratégia ESG

Faber comemora que cada vez mais líderes se deem conta das oportunidades que o ESG representa para suas empresas.Ainda assim, avalia que existe um abismo entre uma “vontade genuína” de iniciar essa jornada e uma “estratégia consolidada” no tema. “ESG não é só propósito. É método”, defende.

Pensando nisso, a diretora da Exame publicou um Ebook gratuito para mostrar como implementar como você pode implementar na sua empresa a estratégia que se tornou obrigatória entre os grandes CEOs.

https://exame.com/esg/esg-por-que-a-busca-pelo-termo-cresceu-1200-em-2-anos/

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O que temos a aprender com o país mais inovador do mundo?

Ricardo Amorim no Linkedin  em 1 de agosto de 2022

Ricardo Amorim

Economista mais influente do Brasil de acordo com a Forbes, maior influenciador brasileiro no LinkedIn e ganhador do Prêmio iBest de Economia e Negócios.

271 artigos

Imagine um país com uma área de 1/6 a do estado de São Paulo e uma população menor do que a da cidade de São Paulo. O Fórum Econômico Mundial apontou este país como o mais inovador do mundo… pela 11ª vez. Some a isso, 28 ganhadores do Prêmio Nobel, mais do que qualquer outro país do mundo proporcionalmente ao tamanho da população. Estou falando da Suíça.

Recentemente, pude visitá-la, a convite do Turismo na Suíça. Lá, interagi com seu ecossistema de inovação com uma pergunta na cabeça: o que torna a Suíça o país mais inovador do mundo? A resposta curta é que a Suíça tem condições únicas para atrair e desenvolver os melhores cérebros do mundo, mas como ela consegue fazer isso?

Para começo de conversa, ela é a porta de entrada perfeita para testar e desenvolver produtos para o maior mercado de consumo global: a Europa. Com quatro idiomas e culturas distintas em seu pequeno território, ela é um campo de provas perfeito para produtos e serviços. Quem têm sucesso lá está pronto para ter sucesso em toda a Europa e no resto do mundo.

Além disso, a Suíça tem previsibilidade jurídica, estabilidade econômica e reguladores com a missão de fomentar negócios e o desenvolvimento, não de fiscalizar empresas para puni-las.

Como a Suíça criou este ambiente econômico? Uma confluência de fatores. Sua neutralidade ajudou a elevá-la a um dos principais centros financeiros globais. Valorização de pluralidade de pensamento ajudou a construir instituições de ensino e pesquisa de primeira, atraindo líderes científicos do calibre de Albert Einstein. No campo das ciências humanas, vieram de lá a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a Reforma Protestante de Calvino e Lutero e a filosofia iluminista de Jean-Jacques Rousseau, por exemplo. Com tudo isso, a Suíça também dá a luz a inovações mais corriqueiras, como os melhores relógios e chocolates do mundo.

Apesar da importância inegável dos fatores anteriores, se eu tivesse que escolher um único pilar fundamental para explicar o sucesso da inovação na Suíça, eu ficaria com o sistema de voto participativo. Indiretamente, ele criou as condições para a população suíça entender o valor de uma cultura de inovação forte no país. Os suíços sabem que só inovações garantem a melhoria da qualidade de vida e a elevação da riqueza das pessoas de forma sustentada. Não há desenvolvimento que se sustente sem um sistema que estimule continuamente a inovação

Na Suíça, questões fundamentais são votadas diretamente pelos eleitores, não por seus representantes. Com esta responsabilidade, os suíços desenvolveram uma compreensão de como a economia realmente funciona e uma qualidade de tomada de decisões que não existe em nenhum outro país. Toda proposta de um novo gasto público vem acompanhada de uma especificação de onde virá o aumento de impostos para bancá-la. Na Suíça, as pessoas sabem que dinheiro público não brota em árvores. Recentemente, os suíços rejeitaram um projeto que aumentaria suas férias em uma semana e outro que reduziria a sua carga horária diária de trabalho em duas horas. Por que? Porque sabem que uma redução da carga de trabalho aumentaria os custos de produção no país, reduzindo sua competitividade, o que acabaria diminuindo o número de empregos e os salários. Com este grau de maturidade, decisões que criaram um ecossistema de inovação que é líder global tornaram-se consequências naturais. E o sucesso do país em inovar explica porque ele tem uma renda per capita oito vezes maior do que a brasileira, a maior do mundo com exceção de Luxemburgo, que tem menos de 600 mil habitantes.

Tive a oportunidade de ver, na prática e in loco, os resultados de tudo isso a convite do Switzerland Global Enterprise. Visitei, por exemplo, o centro de pesquisa do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH), onde Einstein deu aulas e desenvolveu suas mais importantes pesquisas. Lá, encontrei gente de todo o mundo desenvolvendo, apoiando e financiando projetos que vão da regeneração do sistema nervoso central ferido a robôs voadores avançados e a replicação da percepção visual de seres humanos em robôs. Vi ainda projetos de robótica autônoma para substituir pessoas em trabalhos perigosos ou repetitivos em funções de segurança e monitoramento, como os da Ascento Robotics, desenvolvido no próprio ETH e os da ANYbotics, que já tem até clientes de peso no Brasil. Provei também um “peito de frango” produzido apenas com ingredientes vegetais pela Planted. Pelo gosto e consistência, ninguém diria que não é frango.

Voltei ao Brasil com três convicções fortes:

1.     As mudanças na nossa forma de viver, trabalhar e consumir serão muito maiores e vão acontecer muito rapidamente do que a maioria imagina. Se você acha que a vida mudou muito durante a pandemia, espere para ver as mudanças dos próximos anos;

2.     No Brasil, cada um de nós, cada empresa e o país como um todo precisam estar prontos para estas transformações o mais rapidamente possível. As consequências de ficar de fora delas serão dramáticas e as oportunidades que elas trarão para quem participar delas serão fantásticas;

3.     Uma maior conexão com o ecossistema suíço de inovação pode ser um ótimo caminho para acelerar a inovação para nós brasileiros, nossas empresas e nosso país.

Ricardo Amorim, autor do bestseller Depois da Tempestade, o economista mais influente do Brasil segundo a revista Forbes, o brasileiro mais influente no LinkedIn, único brasileiro entre os melhores palestrantes mundiais do Speakers Corner, ganhador do prêmio Os + Admirados da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças, presidente da Ricam Consultoria e cofundador da Smartrips.co e da AAA Plataforma de Inovação.

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Fábricas fechadas, empregos suspensos: alta da energia paralisa indústria europeia

Gás disparou após Guerra na Ucrânia. ArcelorMittal, maior siderúrgica da Europa, paralisa altos-fornos na Alemanha, Alcoa reduz produção na Noruega e nem papel higiênico escapa da crise

Por The New York Times/O Globo 20/09/2022 

A fornalha, a 1.500 graus Celsius, irradiava um vermelho brilhante. Trabalhadores da Arc International, fabricante francesa de louças de vidro, inseriam aos poucos areia e massa fundida no forno. Logo depois, máquinas transformavam o líquido incandescente que saía da fornalha em milhares de taças de vinho, que seriam vendidas para restaurantes e famílias ao redor do mundo.

Por anos, as fábricas da Arc foram abastecidas por energia barata que ajudou a empresa a se tornar a maior produtora global de utensílios de mesa feitos de vidro – e um empregador crucial para o norte da França.

Mas o impacto do corte abrupto no fornecimento de gás russo para Europa, após a eclosão da guerra na Ucrânia, trouxe novos riscos ao negócio. Os preços da energia subiram tanto que o CEO da Arc, Nicholas Hodler, teve de refazer as previsões para o desempenho de sua atividade seis vezes nos últimos dois meses.

Recentemente, ele teve que colocar um terço dos 4.500 funcionários da companhia em licença parcial para economizar. Quatro das nove fornalhas da fábrica serão paralisadas. As demais serão convertidas para uso do diesel, em substituição ao gás, um combustível mais barato porém mais poluente.

– É a mais dramática situação por que já passamos. Para negócios intensivos em energia como o nosso, isso é devastador – disse Hodler.

A Arc não é um caso isolado. Os preços altos de energia estão golpeando a indústria europeia, forçando fábricas a cortar produção rapidamente e colocando milhares de empregados em suspensão temporária de contratos.

A produção industrial na zona do euro caiu 2,3% em julho em relação a igual mês no ano passado, a maior queda em mais de dois anos, ampliando o risco de recessão.

Produtores de metais, papel, fertilizantes e outros produtos que dependem de gás e eletricidade apertaram os cintos. Metade da produção de alumínio e de zinco na Europa foi paralisada, segundo a Eurometaux, que reúne os comercializadores de metais.

Entre eles está a Arcelor Mittal, maior siderúrgica da Europa, que está paralisando altos-fornos na Alemanha. A Alcoa, uma produtora global de produtos de alumínio, está cortando um terço da produção em sua fundição na Noruega. Na Holanda, a Nyrstar, maior produtora de zinco do mundo, está pausando a produção até novo aviso.

Nem mesmo o papel higiênico está imune: na Alemanha, a Hakle, uma das maiores fabricantes, anunciou que entrou em insolvência por causa de uma “crise energética histórica”.

O turbilhão enervou os habitantes de Arques, uma cidade cujas fortunas estão ligadas à fabricação de vidro há mais de um século. O arco moderno foi fundado em 1825 como a Verrerie Cristallerie d’Arques, então uma pequena fabricante local de taças de cristal fino.

Hoje, as operações da Arc são enormes, abrangendo uma área com quase metade do tamanho do Central Park de Nova York. Sua massa é tal que a Arc gera indiretamente outros 15.000 empregos na região, desde fábricas de papelão que embalam seus vidros até empresas de transporte que transportam seus produtos. As outras fábricas da Arc estão na China; Dubai, Emirados Árabes Unidos; e Nova Jersey.

“O desligamento dos fornos é uma má notícia”, disse um trabalhador, um veterano de 28 anos da fábrica, que falou sob condição de anonimato por medo de comprometer seu emprego. “Claro, os altos preços da energia estão tendo um impacto”, acrescentou, “mas é assustador a rapidez com que está acontecendo”.

Até certo ponto, a crise é um retrocesso das sanções europeias que pretendiam punir a Rússia por sua invasão da Ucrânia. A dor minou a confiança nas empresas europeias e sua capacidade de planejar.

Na semana passada, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs compensar o impacto limitando a receita de geradores de eletricidade de baixo custo e forçando as empresas de combustíveis fósseis a compartilhar o lucro que obtêm com os preços crescentes da energia.

Mas as soluções podem não ser rápidas o suficiente. Os custos já subiram além do que muitos fabricantes podem pagar. Milhares de empresas europeias estão perto do fim dos contratos fixos de energia assinados quando os preços eram mais baratos, e devem renová-los em outubro a preços atuais.

Os preços da eletricidade com um ano de antecedência, vinculados ao custo do gás, estão em torno de 1.000 euros (cerca de US$ 1.000) por megawatt-hora na Alemanha e na França, enquanto o gás natural está em recordes de cerca de 230 euros por megawatt-hora.

A porcelana Eschenbach sobreviveu à transição da Alemanha do comunismo para o capitalismo depois de 1989. Mas quando seus contratos de energia terminarem no final deste ano, a empresa terá contas anuais de energia de 5,5 milhões de euros, ou cerca de seis vezes o que está pagando agora, disse Rolf Frowein, seu diretor.

“Isso significa que temos que dobrar nossos preços, e ninguém pagará isso por nossos copos e pratos”, disse ele. A Eschenbach, uma empresa de 130 anos no estado oriental da Turíngia, está conversando com políticos locais sobre uma possível solução. É uma das dezenas de pequenas e médias empresas na Alemanha que temem fechar definitivamente.

A uma hora ao norte da fábrica Arc, a Aluminium Dunkerque, maior produtora de alumínio da França, dispensará parte de sua força de trabalho de 620 pessoas e reduzirá a produção em mais de 20%, pois enfrenta um potencial aumento de quatro vezes em seus custos de energia.

“O tempo que passamos lidando com questões de energia foi multiplicado por 10”, disse Guillaume de Goÿs, CEO. “Esperamos que a crise seja de curta duração, mas se durar, a indústria europeia estará com grandes problemas.”

Hodler está trabalhando para afastar a Arc dos problemas, após anos de dificuldades financeiras ligadas à superexpansão e, mais recentemente, bloqueios pandêmicos. Em dezembro, logo após Holder assumir o cargo em uma mudança de gestão, Arc recebeu um empréstimo de emergência de 45 milhões de euros apoiado pelo Estado francês e agora está pedindo ao governo um alívio adicional das altas contas de energia.

O local, que consome tanta energia quanto 200.000 casas, produz “arts de table”, incluindo pratos Luminarc e utensílios de mesa e bar da marca Cristal d’Arques. Ao todo, a Arc produz 4 milhões de copos por dia, além de itens como castiçais para Bath & Body Works e copos promocionais para Heineken e McDonald’s.

Funcionário verifica uma máquina de produção de vidros na Arc International, especializada no design e na fabricação de vidraria de mesa — Foto: Denis Charlet/AFP

Funcionário verifica uma máquina de produção de vidros na Arc International, especializada no design e na fabricação de vidraria de mesa — Foto: Denis Charlet/AFP

Isso requer calor intenso para derreter a areia em vidro em fornos que devem permanecer acesos 24 horas por dia. No verão, a crise de energia na Europa elevou a conta de energia da Arc para US$ 75 milhões, de 19 milhões de euros um ano atrás. Além disso, os consumidores de repente pararam de comprar itens como castiçais e máquinas de lavar, para os quais a Arc fabrica janelas de vidro, com os pedidos despencando.

“As pessoas estão preocupadas com suas contas de energia no inverno e estão dizendo: ‘Vou esperar para comprar esse item não essencial’”, disse Hodler.

O golpe duplo fez com que a equipe de gerenciamento da Arc lutasse por soluções – todas elas menos do que desejáveis.

Este mês, 1.600 trabalhadores foram convidados a ficar em casa dois dias por semana para cortar custos. E, pela primeira vez, os fornos da Arc passarão a ser movidos a diesel em vez de gás natural, que é alimentado diretamente para a fábrica por meio de um gasoduto. O diesel aumentará a pegada de carbono da Arc em 30% e deve ser entregue em grandes quantidades por caminhões-tanque.

Ainda mais assustadora era a perspectiva de fornos Arcs inativos. “Você não pode simplesmente desligar um forno de vidro, isso o destruiria”, disse Hodler. “Se eles forem desligados suavemente, eles sobreviverão, mas levarão mais de um mês para serem reaquecidos.”

Dois fornos que foram planejados para manutenção programada podem agora permanecer fora de serviço num futuro próximo. Outros dois serão temporariamente suspensos para compensar a queda na demanda.

“Não queremos interromper completamente as operações”, disse Hodler. “Mas não vamos produzir se perdermos dinheiro.”

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O que falta para as indústrias fazerem maior uso da energia solar térmica?

Para o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Térmica (Abrasol), Luiz Antonio dos Santos Pinto, uma série de fatores precisa mudar no Brasil para a plena adoção da energia solar térmica

Marina Filippe – Exame – 08/09/2022 

O Brasil é um país rico em sol, que apresenta boas condições para a implantação da energia solar térmica, de acordo com especialistas. Por receber uma radiação solar média entre 4,2 e 6,2 kWh/m² por dia, há um potencial anual de energia solar de 1.500 a 2.264 kWh/m², que pode ser absorvido pelos coletores solares térmicos. Além disso, e apesar das adversidades macroeconômicas, há um significativo parque industrial. Então, o que falta para as indústrias fazerem maior uso desse tipo de energia?

Para o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Térmica (Abrasol), Luiz Antonio dos Santos Pinto, uma série de fatores atrapalha a plena adoção da tecnologia já tão utilizada em outros países com menos insolação: legislação desfavorável para investimentos em eficiência energética; ausência ou não adequação de linhas de financiamento; falta de incentivo das autoridades; e desconhecimento em relação à tecnologia.

Segundo ele, ampliar o uso dos aquecedores solares neste momento seria uma contribuição relevante ao Brasil para reduzir os custos de produção e atender ao Acordo de Paris (tratado mundial que tem como objetivo reduzir o aquecimento global). “O setor industrial consome apenas 4% das vendas de aquecedores solares — um número pequeno em comparação aos segmentos residencial (76%) e comercial (14%)”, afirma.

É importante destacar que a produção brasileira de aquecedores solares em 2021 somou 1,81 milhão de metros quadrados, o que significou um aumento de 28% em relação a 2020. “Nos últimos 25 anos, chegamos à marca de 21 milhões de metros quadrados instalados, com potência energética superior à Usina de Itaipu, evitando anualmente a emissão de mais de 4 milhões de toneladas de CO₂ no meio ambiente brasileiro”, diz Santos Pinto.

Energia solar na indústria

A energia solar térmica pode ser utilizada para fornecer água quente até 100 ºC ou vapor para uma grande variedade de processos de produção: lavagem, branqueamento e tingimento na indústria têxtil; fabricação de cerveja; recurtimento em fábricas de couro; pasteurização de leite em laticínios; limpeza e tratamento de superfícies de máquinas de produção e chapas metálicas; além de secagem de dejetos orgânicos e lodo de esgoto para produção de fertilizantes agrícolas. Ou seja, seu uso pode ocorrer em segmentos como Alimentos e Bebidas, Papel e Celulose, Químico, Têxtil e Couro, entre outros.

Segundo o presidente da Abrasol, boa parte da demanda de calor industrial está abaixo de 90 ºC e consegue ser atendida de forma eficiente por tecnologias termossolares produzidas atualmente pelas indústrias nacionais de aquecedores que já vendem para residências e comércios, com suas instalações projetadas e instaladas por engenheiros e técnicos.

Há também uma grande demanda de calor até 150 ºC atingida facilmente por coletores importados de tubo a vácuo e fornecidos por várias indústrias brasileiras, com possibilidade de serem produzidas no País se houver maior demanda. Além disso, equipamentos específicos de aquecimento solar podem atingir mais de 1.000 ºC e atender quase toda a demanda de calor nas indústrias, mas ainda são economicamente inviáveis, embora com tecnologia totalmente dominada pelas indústrias nacionais.

“O aquecimento solar para processos industriais pode economizar uma quantidade significativa de custos de energia e combustíveis fósseis ao longo dos 30 anos de vida útil dos equipamentos, contribuindo significativamente para a competitividade industrial brasileira. As aplicações podem produzir calor o ano inteiro e incluir sistemas de armazenamento, que permitem operar durante a noite”, diz.

De toda a energia demandada pela indústria, apenas cerca de 20% é energia elétrica; o restante, cerca de 80%, é energia térmica, dos quais cerca de 35% com temperatura até 150 ºC, viável tecnicamente e economicamente para ser produzida por aquecedores solares no País como já mencionado. Para atender apenas esta demanda seriam necessários 170 milhões de m² de aquecedor solar, que evitariam a emissão de mais de 35 milhões de toneladas de CO₂ no meio ambiente e gerariam dezenas de milhares de empregos.

https://exame.com/esg/o-que-falta-para-as-industrias-fazerem-maior-uso-da-energia-solar-termica/

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Paul Krugman: O mundo está ficando menos globalizado

Por Paul Krugman – NYT/Estadão – 08/09/2022 

Podemos estar vendo os primeiros indícios de um recuo parcial da globalização, e isso não é necessariamente uma coisa boa

Lembram-se das guerras comerciais de Donald Trump? Na verdade, muitas das tarifas impostas por Trump ainda estão em vigor apenas, eu suspeito, porque Joe Biden não quer dar aos republicanos uma desculpa para que o acusem de ser brando com a China. Mas, de qualquer forma, as questões comerciais estão sendo ofuscadas por tudo, desde a inflação até a guerra na Ucrânia.

Sob o radar, no entanto, parte do que Trump queria, mas não conseguiu – um retorno da fabricação aos Estados Unidos – pode realmente estar acontecendo sob seu sucessor. Uma recente análise da Bloomberg encontra uma enorme onda de palavras-chave do economês como onshoring, reshoring e nearshoring, todos indicadores de planos para produzir nos Estados Unidos (ou possivelmente em países próximos) e não na Ásia.

Também houve uma enxurrada de notícias, apoiadas por alguns dados inconsistentes, sugerindo que as empresas realmente estão construindo novas fábricas nos Estados Unidos e em outros países de alta renda.

Portanto, podemos estar vendo os primeiros indícios de um recuo parcial da globalização. Isso não é necessariamente uma coisa boa, o que é assunto para outro dia. Por enquanto, vamos falar sobre por que isso pode estar acontecendo.

A primeira coisa a saber é que, se virmos algum declínio no comércio mundial nos próximos anos, não será a primeira vez que isso acontecerá. É comum supor que o mundo está cada vez menor, mais “plano”, que a crescente interdependência internacional é uma tendência contra a qual não se poder lutar. Mas a história diz o contrário.

Na verdade, a economia mundial foi surpreendentemente integrada às vésperas da 1ª Guerra. Em “As Consequências Econômicas da Paz”, John Maynard Keynes escreveu sobre o “episódio extraordinário” que ele afirmou ter terminado em agosto de 1914 – uma era em que “o habitante de Londres poderia encomendar por telefone, tomando seu chá matinal na cama, os vários produtos de toda a terra, na quantidade que lhe aprouvesse, e razoavelmente esperar a entrega antecipada à sua porta”.

E essa primeira era da globalização, de fato, retrocedeu após a Grande Guerra. As estimativas do comércio mundial total – exportações mais importações – como porcentagem do produto interno bruto para anos selecionados desde 1913 mostram isso. Houve um grande declínio no comércio entre o início da 1ª Guerra e as consequências da 2ª Guerra. A recuperação levou muito tempo: até 1980, o comércio dificilmente era maior, em relação à economia mundial, do que havia sido no final da era eduardiana.

O que se seguiu, no entanto, foi de fato um salto sem precedentes no comércio, às vezes chamado de “hiperglobalização”. Esta foi a era descrita no famoso livro do meu colega Tom Friedman, “The World Is Flat” (O mundo é plano), publicado pela primeira vez em 2005; muitas pessoas esperavam que o comércio crescente continuasse indefinidamente.

Na verdade, porém, a hiperglobalização parou por volta de 2008; o comércio internacional como parte da economia mundial tem estado mais ou menos estável por 14 anos. E há três razões para acreditar que a globalização realmente recuará nos próximos anos, embora provavelmente não na medida em que ocorreu nos anos entre guerras.

A primeira razão, a mais benigna, é a ascensão dos robôs – com isso me refiro à tecnologia que economiza mão-de-obra em geral. As pessoas geralmente assumem que melhorias na tecnologia de transporte significam necessariamente mais comércio. Mas isso só é verdade se o progresso no transporte for mais rápido que o progresso na tecnologia de produção. Eu escrevi um pequeno modelo sobre isso alguns anos atrás, mas aqui está um reductio ad absurdum: imagine que todos nós tivéssemos acesso aos replicadores em Jornada nas Estrelas – máquinas que sintetizariam qualquer coisa que você quisesse na hora. Se tudo o que você tivesse que fazer fosse dizer “Chá, Earl Grey, quente” e uma xícara fumegante se materializasse, você não precisaria importar as coisas do Sri Lanka.

De fato, as empresas que falam em reordenar a produção muitas vezes afirmam que técnicas modernas, em alguns casos, permitem que produzam com relativamente poucos trabalhadores, caso em que as economias de custos da terceirização para países de baixos salários são mínimas – e são superadas pelas vantagens logísticas de produzir perto de casa.

Uma segunda razão, menos benigna, para o declínio da globalização é a crescente percepção de que o mundo é um lugar perigoso. É especialmente perigoso permitir-se depender economicamente de países com regimes autoritários, que podem subitamente interromper as relações como parte de um jogo de poder ou simplesmente porque os ditadores tendem a se comportar de forma errática. A Europa está percebendo agora que tornar-se dependente do gás natural russo foi um erro terrível. A China não se envolveu em chantagem econômica – ainda não, pelo menos – mas tanto o exemplo russo quanto a arbitrariedade dos lockdowns por causa da covid de Xi Jinping deixaram as empresas temerosas sobre depender de fornecedores chineses.

Aliás, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio – o documento fundamental para o moderno sistema de comércio mundial – dá explicitamente a cada nação o direito de tomar “qualquer ação que considere necessária para a proteção de seus interesses essenciais de segurança”. Esse direito às vezes foi abusado – Trump, de forma absurda, invocou a segurança nacional para impor tarifas ao alumínio canadense – mas, dados os eventos recentes, é difícil negar o sucesso de políticas como o Science Act que subsidiam a produção de semicondutores nos EUA.

Finalmente, vamos admitir: agora que os Estados Unidos estão finalmente fazendo algo sobre as mudanças climáticas, algumas das políticas que estão introduzindo serão, na prática, pelo menos levemente protecionistas. O novo crédito fiscal para compras de veículos elétricos se aplicará apenas a veículos montados na América do Norte.

Por que fazer isso? Política – política por uma boa causa, eu diria, mas política mesmo assim. Conseguir uma ação climática foi um grande impulso político; alguns de nós ainda estão se beliscando para saber se realmente aconteceu. Mas, para vendê-lo, os democratas precisavam ser capazes de mostrá-lo como um programa que criaria empregos, o que significava incluir cláusulas de compra de produtos americanos.

Essas cláusulas violam os acordos comerciais existentes? Possivelmente. Mas vamos encarar os fatos: honrar a carta de acordos comerciais é menos importante do que salvar o planeta. Se é isso que é necessário para combater as emissões de carbono, que assim seja. Mas voltando ao meu tema original: por essas e outras, parece provável que estejamos prestes a ver algum recuo da globalização.

Paul Krugman é Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2008, e colunista do The New York Times

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Dessalinização: solução para a escassez de água?

A tecnologia pode ser a chave para evitar uma crise hídrica global, mas ainda existem algumas grandes questões


Kiran Tota Maharaj – Fast Company Brasil 15-09-2022 | 

Água doce e limpa é fundamental para sustentar a vida humana. No entanto, 1,1 bilhão de pessoas ao redor do mundo não têm acesso a este recurso natural. A dessalinização – processo de extração de sal da água do mar para torná-la potável – vem cada vez mais ganhando destaque como uma solução para o problema.

Existem dois tipos principais de dessalinização. A térmica usa o calor para transformar a água em vapor, separando-a dos sais minerais. Esse processo continua dominante em todo o Oriente Médio, onde quase metade da água dessalinizada do mundo é produzida. 

O segundo é a dessalinização por membrana, comumente chamada de osmose reversa. Este processo é utilizado em 60% das usinas em todo o mundo. Sob alta pressão, a água salgada passa por uma membrana semipermeável, cujos poros são pequenos demais para a passagem das moléculas de sal.

ONDE A DESSALINIZAÇÃO É USADA?

A dessalinização é usada para levar água potável a lugares onde não há uma fonte natural disponível. Portanto, regiões com escassez de água são bastante dependentes da tecnologia. Nos Emirados Árabes Unidos, a dessalinização é responsável por atender 42% da demanda.

Devido ao baixo custo de bombeamento, esse processo é mais econômico em regiões costeiras. No entanto, as mudanças climáticas estão agravando a escassez de água em áreas tipicamente amenas, exigindo a expansão de usinas de dessalinização para o interior. A China, os EUA e a América do Sul estão investindo para aumentar sua capacidade de dessalinização.

POR QUE ELA CONTINUA TÃO CARA?

Grandes quantidades de energia são necessárias para conduzir o processo. Em especial para a dessalinização térmica, cujos custos de energia representam até metade do custo total de produção de uma usina.

O processo de osmose reversa, em geral, utiliza menos energia. No entanto, isso não ocorre quando a água é altamente salina, já que requer mais pressão para fazer com que ela passe através da membrana.

Além disso, fontes de água com níveis altos de poluição precisam ser tratadas antes da dessalinização, o que exige uma infraestrutura cara, como tanques de sedimentação e sistemas de filtragem. O tratamento evita o acúmulo de detritos nas superfícies da membrana, que podem atrapalhar o processo de osmose reversa.

Cerca de 1,1 bilhão de pessoas em todo o mundo não têm acesso a água potável.

Os custos serão ainda maiores com o aumento da dependência da dessalinização e com a aplicação do processo em fontes de água poluída. O estado da Califórnia, que enfrenta um clima mais seco, agora tem 23 usinas.

A produção de um litro de água potável gera 1,6 litros de salmoura, um resíduo altamente salino. Os depósitos de salmoura no fundo do mar podem levar à destruição dos ecossistemas marinhos, já que o material reduz o teor de oxigênio da água.

O descarte seguro de salmoura é caro. A maior parte é bombeada de volta ao mar e está sujeita a padrões de qualidade ambiental. Caso eles não sejam alcançados atenda, é necessário tratamento adicional.

A salmoura pode ser tratada em lagoas de evaporação ou diluída antes de ser descartada. Mas o custo elevado continua sendo um enorme obstáculo para uma aplicação mais ampla da dessalinização.

O PROCESSO PODE FICAR MAIS BARATO?

Diminuir a quantidade de energia no processo pode resultar em consideráveis ​​reduções de custos. Atualmente, estão sendo desenvolvidas tecnologias como osmose direta, que permitem que a dessalinização ocorra em temperatura e pressão mais baixas.

Embora promissoras, essas tecnologias ainda estão em estágio inicial. O mercado é pequeno e existem poucas instalações comerciais. Serão necessários mais desenvolvimentos para garantir que esses processos possam produzir água potável em escala comercial.

Apesar da crescente insegurança hídrica, a dessalinização continua sendo um processo caro demais para uso generalizado.

Membranas mais duráveis ​​também podem ajudar a reduzir o custo da dessalinização. Usando diferentes materiais, fabricantes japoneses construíram membranas que retém com sucesso partículas de sal em baixas pressões operacionais. Isso reduz o custo de substituição de membranas e a quantidade de energia do processo.

A dessalinização também poderia ser feita com fontes mais baratas de energia renovável. A energia solar térmica gera calor direto e pode ser usada para evaporar a água do mar. Ainda em construção na Arábia Saudita, a usina solar Metito terá inicialmente capacidade para produzir 30 mil metros cúbicos de água potável por dia.

No entanto, esta é uma tecnologia repleta de complexidades. O fornecimento de energia é inconsistente e o armazenamento é caro, o que dificulta uma aplicação mais ampla. Isso torna os projetos de dessalinização solar incapazes de produzir água potável para uso comercial.

Apesar da crescente insegurança hídrica em todo o mundo, a dessalinização continua sendo um processo caro demais para uso generalizado. Vários esforços foram feitos para reduzir seu custo, e muitos se mostraram promissores. Mas a evolução tecnológica demora e levará décadas até que seja viável uma adoção mais ampla da dessalinização.


SOBRE O AUTOR

Kiran Tota-Maharaj é professor associado de Engenharia Civil e Ambiental na Aston University.

https://fastcompanybrasil.com/impacto/dessalinizacao-solucao-para-a-escassez-de-agua/

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Os trabalhadores que se aproveitam do home office para acumular empregos em segredo

Bryan Lufkin BBC Worklife 19 outubro 2021

Dois endereços de e-mail profissionais, dois computadores, dois patrões?

Com o aumento do trabalho remoto nos últimos dois anos, cada vez mais pessoas vêm silenciosamente assumindo dois cargos em tempo integral, se aproveitando do fato de estarem longe dos olhos dos seus superiores.

O esquema do chamado home office permitiu que eles trabalhassem secretamente em dois empregos remotos ao mesmo tempo — e alguns trabalhadores estão ganhando centenas de milhares de dólares a mais por ano.

Um emprego adicional pode ser uma mão na roda como fonte extra de renda e experiência , que são ferramentas importantes em uma era de desemprego em massa, incerteza econômica e contínua depreciação do bem-estar no trabalho.

Entretanto, trabalhar em mais de um emprego por tempo integral é uma escolha ousada — é preciso ser discreto e estar disposto a correr riscos.

Alguns trabalhadores estão se arriscando com duplo emprego para recuperar a sensação de controle, ou para desafiar um sistema no qual, segundo acreditam, foram explorados por anos.

 

O desenvolvimento do sistema

Não é incomum encontrar pessoas empregadas em tempo integral fazendo bicos adicionais para complementar sua renda: como motorista de Uber após o expediente, vendendo joias no (site de produtos artesanais) Etsy ou montando móveis no fim de semana como “faz-tudo” do (site que intermedia trabalhos domésticos) TaskRabbit. Mas o “duplo emprego” é diferente: um mesmo funcionário poderá ter empregos em tempo integral separados e simultâneos, usando computadores diferentes.

O duplo emprego não é um fenômeno totalmente novo.

Ele é um “segredo aberto” na indústria de tecnologia há anos, segundo um trabalhador em duplo emprego, de pouco menos de 40 anos de idade, na região da Baía de San Francisco, nos Estados Unidos, conhecido como “Isaac” na comunidade de duplo emprego. Ele vem trabalhando em dois empregos há anos e diz que ganha mais de US$ 600 mil (R$ 3,3 milhões) por ano com eles.

Em abril de 2021, Isaac lançou o website Overemployed, com artigos sobre como navegar mantendo vários empregos remotos (a regra número 1? Não fale sobre manter vários empregos remotos). Ele conta que, nos últimos 20 anos, alguns trabalhadores exploraram nichos da indústria de tecnologia com trabalho remoto muito antes da pandemia. Agora que outros trabalhadores de diversos campos em todo o mundo tiveram a oportunidade de trabalhar em casa, evidências pontuais sugerem que mais pessoas estão explorando o estilo de vida oferecido pelo duplo emprego.

Isaac conta que o seu site tem visitantes de todo o mundo e abrange todas as idades, desde pessoas com pouco mais de 20 anos que estão apenas começando (já eventualmente com a possibilidade de trabalhar em dois estágios remotos ao mesmo tempo) até 60 anos e mais. Mas ele afirma que a maioria dos usuários tende a estar na faixa de 35 a 40 anos e idade, “já tem muita experiência e está um pouco cansada do mundo corporativo”.

Isaac afirma que, de forma geral, foi raro ouvir falar de alguém que tivesse sido descoberto durante a pandemia e antes dela. Ele diz que isso normalmente ocorre quando a pessoa é descuidada ao manter os dois trabalhos separados.

Para ele, o emprego duplo não significa necessariamente dias de trabalho excessivamente longos; os trabalhadores podem dedicar 30 horas por semana ao seu emprego original, por exemplo, e usar o tempo que seria preenchido por reuniões não obrigatórias ou usando a internet fora do trabalho para manter o segundo emprego.

É claro que, legalmente, o duplo emprego é uma situação delicada: sua possibilidade depende do tipo de contrato assinado com a empresa original e se este tem uma cláusula de não-concorrência. Ele pode ser visto como uma ação antiética, pois em geral o trabalhador está essencialmente mentindo (por omissão ou de outra forma) para o seu empregador “principal”.

Muitos veículos de imprensa classificaram essa “bigamia laboral” como desonesta e errada quando leitores escreveram pedindo conselhos se deveriam denunciar colegas em duplo emprego no trabalho.

Mas, se for possível fazer a combinação funcionar — tanto legalmente quanto em termos de logística —, então esses trabalhadores teriam, segundo Isaac, muito a ganhar.

 

‘Momento de ajustar as contas’

Para Isaac, a principal razão de assumir um segundo emprego secreto em tempo integral é a diversificação de fontes de renda. Mas ele acredita que o dinheiro não é o único motivo.

Catherine Chandler-Crichlow, diretora-executiva de gestão de carreiras da Faculdade de Administração Ivey, da Western University em Ontário, no Canadá, concorda que haja outros motivos.

“Como fomos forçados a trabalhar de casa, as pessoas provavelmente começaram a se perguntar: ‘Onde as minhas habilidades podem ser realmente otimizadas?’ ‘Quais são as minhas verdadeiras paixões — e como posso usar essas habilidades de forma diferente?'”, afirma ela.

Chandler-Crichlow, que se especializou no estudo do capital humano (as habilidades, competências e conhecimentos que os trabalhadores trazem para os seus empregos), afirma que esse conceito é muito relevante para a discussão do duplo emprego. Alguém pode ter, por exemplo, um emprego como analista financeiro, mas também gostar de fazer outras coisas, como programação ou escrever. A situação atual de trabalho remoto generalizado permite que esse analista encontre um emprego programando ou escrevendo e coloque essas habilidades em ação.

“Eu agora sou quem controla o que eu gostaria de fazer e onde gostaria de passar meu tempo”, afirma Chandler-Crichlow. Ela afirma que, para trabalhadores em grupos socioeconômicos inferiores, manter diversos empregos é um meio de sobrevivência. Mas a diferença é que “os profissionais que poderiam ser descritos como altamente capacitados estão assumindo um maior comando das suas carreiras”.

Erin Hatton, professor de Sociologia que estuda trabalho e emprego na Universidade Estadual de Nova York concorda. “Talvez [os trabalhadores estejam] tentando coisas novas. Acho que este é um momento de ajustar as contas com o mundo do trabalho e discutir o papel desempenhado pelo trabalho em nossas vidas.”

O duplo emprego pode “liberar as pessoas para talvez avaliar outros empregos; talvez conseguir trabalho adicional que pode não pagar bem, mas ser mais significativo para elas”, afirma Hatton.

Por isso, não é coincidência que cada vez mais pessoas estejam tentando coisas novas nos últimos meses. “Acho que a pandemia pode ter incentivado as pessoas a pensar mais profundamente no que elas passam a vida fazendo e concluir que provavelmente poderiam fazer mais com as suas vidas”, afirma Chandler-Crichlow.

Quando procuram o duplo emprego, mais trabalhadores parecem estar dizendo a si mesmos: “Sim, eu realmente quero usar as minhas habilidades e capacidades — e, se alguém quiser me pagar, eu vou fazer”, afirma ela.

 Protesto contra os empregadores

O fato de que as pessoas estão buscando o duplo emprego é também um indicativo de importantes questões sistêmicas dos locais de trabalho.

Por muito tempo, muitos trabalhadores consideraram seus empregos insatisfatórios ou sem sentido — gerando problemas como burnout (esgotamento profissional) e boreout (tédio no trabalho) — e sentem que buscaram constantemente o sucesso em um sistema que fornece poder desproporcional aos gerentes nas relações de trabalho. Esta pode ser uma das razões da popularização do duplo emprego, segundo os especialistas.

E os chefes que não perceberam o que esses trabalhadores estão fazendo, seria maus administradores? “Minha impressão é que eles simplesmente não têm sistemas disponíveis para vigiar os trabalhadores dessa forma”, afirma Hatton.

“Para muitos trabalhadores com salários baixos, tanto remotos quanto presenciais, há vários tipos de vigilância que impedem efetivamente esse tipo de duplo emprego. Veja os funcionários de call centers que trabalham remotamente, por exemplo — a tecnologia monitora o número de chamadas que eles fazem. Para os trabalhadores que normalmente [estariam] no local de trabalho e não são vigiados dessa forma, os gerentes simplesmente não têm um sistema instalado para monitorá-los”, afirma ele.

E como os empregadores estão reagindo? Segundo Chandler-Crichlow, há desde aqueles que não aceitam isso de forma alguma a companhias que, “de alguma forma, manifestam sua concordância, desde que (o duplo emprego) não prejudique suas responsabilidades na organização”.

Como trabalhador em duplo emprego e com base na atividade do seu website, Isaac afirma que um dos motivos para o segundo emprego secreto é a desilusão com as realidades da vida corporativa. Alguns trabalhadores acreditam que o duplo emprego os ajuda a livrar-se daquele empregador que não lhes deu aquela promoção ou aumento salarial que eles vinham buscando há anos.

“Existe uma percepção de que os nossos chefes são um pouco nossos donos e vejo esse movimento como uma reação interessante contra essa percepção normativa de propriedade”, segundo Hatton. “Imagina-se que nós realmente devemos alguma coisa a eles. Que nós somos deles. Mas, quando chega o momento, eles podem nos demitir amanhã sem nenhum motivo. (Esta situação nova) está retirando um pouco dessa sensação de poder.”

Depois de ter conseguido manter o emprego após uma onda de cortes na companhia em que trabalhava, Isaac tomou a resolução de que ele não seria mais um entre os muitos empregados anônimos.

“Vocês me tratam como um número, então vou tratar vocês como um número”, ele conta. Por isso, armado com dois laptops separados, ele trabalha em dois empregos diferentes, e ainda faz um bico em meio período. Ele diz que nunca sequer chegou perto de ser descoberto.

 O que acontece agora?

O duplo emprego pode estar chamando atenção, mas as pessoas que buscam o segundo emprego em segredo ainda são minoria — e essa iniciativa ainda carrega consigo muitos riscos.

Além disso, como o aumento do duplo emprego é relativamente novo, ainda há muita coisa que funcionários e empregadores ainda desconhecem.

Não está claro, por exemplo, como as companhias reagirão caso se sintam vulneráveis a esse tipo de situação. Talvez os gerentes passem a monitorar mais de perto a atividade dos funcionários nas redes sociais para encontrar algo que os incrimine ou venham a instalar software nas máquinas da companhia para detectar atividades suspeitas.

Mas, por enquanto, pelo menos até que sejam descobertos por seus supervisores, alguns trabalhadores abraçarão o duplo emprego

https://www.bbc.com/portuguese/geral-58953572

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A Europa sem gás olha para o Brasil

Crises hídricas vividas no país podem ajudar os europeus na formulação de saídas para a escassez do gás provocada pela Rússia

Por Alvaro Gribel – O Globo – 14/09/2022 

Os europeus querem aprender com o Brasil como enfrentar o período de racionamento de energia. É o que conta o consultor Luiz Augusto Barroso, da PSR Consultoria que tem sido chamado para conversas com autoridades da Comissão Europeia. Há várias semelhanças entre as crises hídricas vividas pelo país em 2001 e 2021 e a escassez de gás na Europa provocada pela Rússia. Segundo Barroso, uma das dificuldades dos europeus será a coordenação da crise. Se no Brasil houve centralização de comando pelo governo federal nas conversas com os governadores, por lá, os países têm soberania, ainda que no mesmo bloco econômico.

— O Brasil tem 27 estados, a União Europeia tem 27 países. A coordenação será muito mais difícil e já começamos a ver um clima de salve-se quem puder. Estamos falando de dois, talvez três invernos seguidos com problemas de fornecimento — afirmou.

A estratégia será a mesma: redução de consumo, geração de todos os tipos de energia, incluindo termelétricas a carvão, e manutenção dos reservatórios de gás. A diferença é que por aqui o governo podia torcer pelas chuvas — o que aconteceu em 2021 e evitou o pior cenário — mas faltou em 2001. Por lá, ao contrário, o gás só chegará de navio, transformado em gás natural liquefeito (GNL). E a oferta mundial é limitada.

Além disso, conta Barroso, desde a crise fiscal de 2010, quando Grécia, Portugal, Espanha e Itália entraram na mira dos investidores, há um forte rancor contra os alemães, que não facilitaram o socorro. Agora, acontece o inverso: o epicentro é a Alemanha, a maior economia do bloco e a mais dependente do gás da Rússia.

— O governo da Espanha, por exemplo, disse que não vai racionar energia para permitir o excesso de vida do Alemão. O pior é que a economia da Alemanha é ancorada na benesse do gás barato da Rússia para exportar produtos de alta tecnologia — afirmou.

Do ponto de vista geopolítico, os EUA saem em vantagem. O país virou o maior exportador mundial de GNL e, de janeiro a maio, aumentou em 66% as suas exportações para os europeus. Ou seja, a Europa está trocando a dependência da Rússia pela dependência americana.

O Brasil também pode sair ganhando. Com o aumento dos preços internacionais, o país pode ter uma enorme vantagem comparativa para atrair investimentos externos se conseguir desonerar a sua geração de energia.

— O preço lá fora está alto. E o Brasil hoje tem produção de vários tipos de energia, incluindo o gás. Se fizer o dever de casa, pode entregar energia barata para o consumidor industrial e atrair investimentos — afirmou

A guerra na Ucrânia está mudando rapidamente o mercado mundial de energia. O Brasil precisa acompanhar essas transformações.

https://oglobo.globo.com/economia/alvaro-gribel/coluna/2022/09/a-europa-sem-gas-olha-para-o-brasil.ghtml?li_source=LI&li_medium=news-page-widget

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É melhor dar ouvidos aos consumidores descontentes

Entenda de uma vez por todas por que as reclamações são importantes para melhorar a customer experience e fortalecer o negócio

André Schröder – MIT Sloan Review 06 de Junho 2022

Não é apenas para resolver problemas ou preservar a imagem da empresa. Escutar o que consumidores descontentes têm a dizer é uma ferramenta poderosa a favor do negócio. Quem ignora a dica arrisca perder fregueses – e, claro, dinheiro. Um relatório feito em 2021 pela empresa de pesquisas Hibou mostra que 53% dos brasileiros mudam de marca após um atendimento ruim. Mas o estrago não para por aí: 45% dos insatisfeitos falam sobre a experiência negativa para amigos e 16% compartilham o aborrecimento nas redes sociais, influenciando outras pessoas.

Guru do marketing, o professor Philip Kotler ensina que manter um cliente custa até sete vezes menos do que conquistar um novo. O problema é que muitas empresas ainda não aprenderam a lição. Segundo a 2020 Customer Rage Study Survey, pesquisa feita pela Customer Care Measurement & Consulting (CCMC), os Estados Unidos perderam 494 bilhões de dólares ao tratar de forma inadequada as reclamações.

No Brasil, o prejuízo estimado é bem menor. Mas ainda é expressivo. De acordo com a pesquisa Global Consumer Pulse, divulgada em 2018 pela Accenture Strategy, as companhias brasileiras têm pelo menos 400 milhões de reais de perdas anuais por causa do mau atendimento.

O brasileiro reclama

Em 2021, a Secretaria Nacional do Consumidor registrou 3,3 milhões de queixas de produtos e serviços no Brasil, somando números do portal Consumidor.gov.br e dos Procons estaduais e municipais. Bancos, financeiras e administradoras de cartão são responsáveis por 29% das reclamações na plataforma do governo, com um índice de soluções de 79,3% em sete dias. Empresas de telecomunicações representam 21% do total, com 89,3% dos casos resolvidos em até uma semana. O relatório destaca ainda que a quantidade de queixas no setor de seguros, capitalização e previdência cresceu 214,6% em relação ao ano anterior.

O Reclame Aqui – principal site de reclamações do país, onde 30 milhões de pessoas cadastradas podem avaliar o atendimento de 360 mil empresas – registrou mais de 5 bilhões de consultas em 2021. Com média diária de 45 mil novas reclamações, o site listou 78% das queixas como resolvidas. As lojas online ocuparam o topo do ranking de reclamações (22,6%), seguidas por bancos (11,6%) e empresas de delivery (7%).

Segundo o relatório “Justiça em Números 2021”, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o direito do consumidor é um dos temas mais recorrentes, o que sobrecarrega o sistema. Também é o assunto principal das turmas recursais dos Tribunais Estaduais.

A quantidade de queixas no país é elevada. E olha que uma pesquisa da FGV Direito Rio estima que apenas 38% dos brasileiros reclamam quando enfrentam problemas com produtos e serviços adquiridos.

E qual é o impacto das reclamações? Por um lado, elas ferem a reputação das empresas. No entanto, também são a chave para a solução de problemas. Basta que as organizações desenvolvam mecanismos para fazer bom uso das queixas. Ou seja, transformar as críticas de clientes insatisfeitos em insights na busca por inovação. É a velha história de “fazer do limão uma limonada”.

O cliente no centro da estratégia

A FGV aponta que o Brasil tem 242 milhões de smartphones. Contando notebooks e tablets, são 352 milhões de aparelhos portáteis, mais de um por habitante. A grande maioria dos brasileiros está conectada, o que tem feito o comércio online crescer em ritmo acelerado no país. Segundo dados da Neotrust, o e-commerce teve recorde de faturamento em 2021 — R$ 161 bilhões, um crescimento de 27% em comparação ao ano anterior. É nesse cenário de expansão digital que as empresas buscam maneiras apropriadas de lidar com os consumidores, mas o desafio é infindável diante de comportamentos e tecnologias em constante evolução.

Uma das principais tendências em comportamento do cliente é a estratégia Customer Centric — a experiência do consumidor no foco das decisões da empresa. Segundo especialistas da área, conhecer o cliente e propiciar uma experiência satisfatória ajuda a fidelizar o consumidor. Mas essa tática é complexa, pois envolve uma série de fatores:

  • Coletar e avaliar informações sobre o cliente
  • Transformar informações em insights
  • Integrar diferentes canais de atendimento
  • Ficar disponível 24 horas por dia
  • Desenvolver interações personalizadas
  • Garantir agilidade, velocidade e eficiência
  • Ouvir o que o cliente tem a dizer (incluindo reclamações!)

Na era atual, a satisfação do cliente passa pelo investimento em tecnologia capaz de oferecer certa autonomia ao atendimento. Os serviços bancários viveram uma revolução nesse sentido. É possível abrir conta, consultar saldo, realizar pagamentos e solicitar empréstimos por conta própria, na tela do smartphone, sem sair de casa nem interagir com atendentes. Ferramentas modernas permitem que empresas entreguem uma experiência melhor e instantânea na mão do cliente. Pouca gente acha que o serviço piorou diante de tanta facilidade.

A tecnologia também gerou avanços na relação de empresas e consumidores — e aqui podemos incluir as reclamações. Inteligências artificiais capazes de tirar dúvidas, solucionar problemas e aprender sobre os clientes são uma realidade consolidada. Os chatbots significam economia para as empresas e agilidade para os consumidores.

Entretanto, o robô só é bom quando consegue resolver o problema do consumidor. Sendo assim, é fundamental que as reclamações coletadas por esse tipo de tecnologia sejam avaliadas cuidadosamente pelas companhias. É uma oportunidade para conhecer as dores do cliente, solucionar os problemas, pensar em melhorias, propor inovações e prosperar no segmento.

Nubank, um case de sucesso

Criado há menos de 10 anos, o Nubank atingiu a marca de 59 milhões de clientes em 2022. O sucesso está ligado à oferta de serviços financeiros considerados disruptivos no setor bancário brasileiro — menos burocracia para abertura de conta, cartão sem anuidade, programa de fidelidade simplificado, navegação intuitiva pelo aplicativo e um atendimento empático, rápido e eficiente.

As avaliações positivas dos “brand lovers” não acomodaram o Nubank, que continua inovando para escutar cada vez mais os clientes — estejam eles descontentes ou não. Em 2019, o banco criou a NuCommunity, uma espécie de rede social onde clientes e até mesmo quem não é cliente podem criar fóruns para trocar experiências sobre os serviços da instituição. As conversas são acompanhadas por funcionários do banco e transformadas em insights. Hoje, a comunidade do Nubank conta com mais de 300 mil membros, muitos deles dispostos a se engajar de maneira orgânica nos debates criados na plataforma.

Para a instituição, a escuta ativa dos feedbacks de produtos e serviços impulsiona melhorias para esses mesmos consumidores. E a reclamação vira uma relação de “ganha-ganha”.

Autoria

André Schröder

Colaborador de MIT Sloan Review Brasil

https://mitsloanreview.com.br/post/e-melhor-dar-ouvidos-aos-consumidores-descontentes

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Pequim obriga empresas de tecnologia chinesas a revelarem seus algoritmos

Companhias tendem a manter seus motores para apps e serviços de internet em segredo

Folha 16.ago.2022

PEQUIM

Algumas importantes empresas de tecnologia chinesa como Tencent, Alibaba e a ByteDance, proprietária do Tiktok, entregaram detalhes de algoritmos usados em seus produtos a um regulador estadual. O gesto inédito faz parte da tentativa de Pequim de controlar o setor, anunciou o regulador.

De acordo com uma lei aprovada em março, as empresas devem garantir ao regulador chinês que seus algoritmos se enquadrem dentro do marco regulatório.

“No momento as autoridades não pediram explicitamente para que as empresas modifiquem seus algoritmos”, Angela Zhang, especialista em direito chinês na Universidade de Hong Kong, explica à AFP.

“Os reguladores, no momento, estão coletando informações”, acrescenta Zhang.

Por outro lado, a Administração do Ciberespaço da China publicou pela primeira vez na sexta-feira (12) detalhes do uso de seus algoritmos pelas empresas de tecnologia.

O líder do comércio online Alibaba recomenda, por exemplo, novos produtos com base no histórico de pesquisa e navegação dos usuários.

A Douyin, versão do aplicativo do TikTok para o mercado chinês, faz recomendações a partir do tempo que as pessoas gastam em cada conteúdo.

Com essas ferramentas é possível analisar grandes quantidades de dados sobre um usuário e automatizar recomendações de acordo com suas práticas ou hábitos.

Os algoritmos, base da economia digital, servem de motor para grande parte dos aplicativos e serviços da internet, razão pela qual as empresas tendem a mantê-los em segredo.

LEIA TAMBÉM

Diante dessa opacidade de informações, as autoridades buscam redefinir a legislação de algoritmos.

Há dois anos, as autoridades chinesas têm sido particularmente intransigentes com o setor de empresas de tecnologia, que monitoram por meio de práticas até então amplas.

Várias grandes empresas foram multadas por abusos em termos de proteção de dados pessoais, concorrência e direito dos usuários.

No mês passado, a empresa Didi, líder em VTC (veículos com motoristas), foi multada em US$ 1,215 bilhão (R$ 6,1 bilhões) por violar as regras de proteção de dados.

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2022/08/pequim-obriga-empresas-de-tecnologia-chinesas-a-revelarem-seus-algoritmos.shtml

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