Nova inteligência artificial ameaça o reinado do Google em buscas

Por Nico Grant e Cade Metz – Estadão/NYT – 15/01/2023 

ChatGPT acendeu um ‘alerta vermelho’ na gigante de buscas da internet

THE NEW YORK TIMES -Nas últimas três décadas, alguns produtos, como o navegador da Netscape, o mecanismo de buscas do Google e o iPhone da Apple, realmente viraram a indústria de tecnologia de cabeça para baixo e fizeram o que veio antes deles parecerem dinossauros pesados.

Algumas semanas atrás, um chatbot (software capaz de “conversar” com seres humanos) experimental chamado ChatGPT fez questão de ser o próximo grande disruptor do setor. Ele pode fornecer informações em frases simples e claras, em vez de apenas uma lista de links da internet. Ele pode explicar conceitos de maneiras que as pessoas possam entender facilmente. Ele pode até gerar ideias do zero, incluindo estratégias de negócios, sugestões de presentes de Natal, tópicos de blog e planos de férias.

Embora o ChatGPT ainda tenha muito espaço para melhorias, seu lançamento levou a administração do Google a declarar um “código vermelho”. Para o Google, isso foi como acionar o alarme de incêndio. Alguns temem que a empresa esteja chegando a um momento que as maiores empresas do Vale do Silício temem – a chegada de uma enorme mudança tecnológica que pode virar o negócio de cabeça para baixo.

Por mais de 20 anos, o mecanismo de busca Google serviu como o principal portal mundial para a internet. Mas, com um novo tipo de tecnologia de chatbot pronta para reinventar ou mesmo substituir os mecanismos de busca tradicionais, o Google pode enfrentar a primeira ameaça séria ao seu principal negócio de busca. Um executivo do Google descreveu os esforços como decisivos para o futuro do Google.

Competição

O ChatGPT foi lançado por um laboratório de pesquisa agressivo chamado OpenAI, e o Google está entre as muitas outras empresas, laboratórios e pesquisadores que ajudaram a construir essa tecnologia. Mas os especialistas acreditam que o gigante da tecnologia pode ter dificuldades para competir com as empresas menores e mais novas que desenvolvem esses chatbots, por conta das muitas maneiras pelas quais essa tecnologia pode prejudicar seus negócios.

O Google passou vários anos trabalhando em chatbots e, como outras grandes empresas de tecnologia, buscou agressivamente a tecnologia de inteligência artificial. O Google já construiu um chatbot que pode rivalizar com o ChatGPT. Na verdade, a tecnologia central do chatbot da OpenAI foi desenvolvida por pesquisadores do Google.

Chamado de LaMDA, ou Language Model for Dialogue Applications, o chatbot do Google recebeu enorme atenção no verão, quando um engenheiro do Google, Blake Lemoine, afirmou que era senciente. Isso não era verdade, mas a tecnologia mostrou o quanto a tecnologia chatbot melhorou nos últimos meses.

Blake Lemoine foi demitido pelo Google após afirmar que IA da empresa tinha consciência

Blake Lemoine foi demitido pelo Google após afirmar que IA da empresa tinha consciência 

No entanto, o Google pode estar relutante em implantar essa nova tecnologia como substituta da pesquisa online porque ela não é adequada para a exibição de anúncios digitais, que responderam por mais de 80% da receita da empresa no ano passado.

“Nenhuma empresa é invencível; todas são vulneráveis”, disse Margaret O’Mara, professora da Universidade de Washington especializada na história do Vale do Silício. “Para empresas que se tornaram extraordinariamente bem-sucedidas fazendo uma coisa que define o mercado, é difícil ter um segundo ato com algo totalmente diferente.”

Como esses novos chatbots aprendem suas habilidades analisando grandes quantidades de dados postados na internet, eles têm uma forma de misturar ficção com fato. Eles fornecem informações que podem ser preconceituosas contra mulheres e pessoas não brancas. Eles podem gerar linguagem tóxica, incluindo discurso de ódio.

Tudo isso pode virar as pessoas contra o Google e prejudicar a marca corporativa que ele passou décadas construindo. Como a OpenAI mostrou, as empresas mais novas podem estar mais dispostas a arriscar reclamações em troca de crescimento.

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Canibalização

Mesmo que o Google aperfeiçoe os chatbots, ele deve enfrentar outro problema: essa tecnologia canibaliza os lucrativos anúncios de busca da empresa? Se um chatbot está respondendo a perguntas com frases curtas, há menos motivos para as pessoas clicarem em links de publicidade.

“O Google tem um problema de modelo de negócios”, disse Amr Awadallah, que trabalhou para o Yahoo e Google e agora dirige a Vectara, uma startup que está desenvolvendo tecnologia semelhante. “Se o Google lhe der a resposta perfeita para cada consulta, você não clicará em nenhum anúncio.”

Sundar Pichai, CEO do Google, esteve envolvido em uma série de reuniões para definir a estratégia de IA do Google e atuou no trabalho de vários grupos dentro da empresa para responder à ameaça que o ChatGPT representa, de acordo com um memorando e um áudio obtidos pelo The New York Times. Os funcionários também foram encarregados de criar produtos de IA que podem criar obras de arte e outras imagens, como a tecnologia DALL-E da OpenAI, usada por mais de 3 milhões de pessoas.

De agora até uma grande conferência que deve ser realizada pelo Google em maio, as equipes de pesquisa, confiança e segurança do Google e outros departamentos foram realocadas para ajudar a desenvolver e lançar novos protótipos e produtos de IA.

À medida que a tecnologia avança, acreditam os especialistas do setor, o Google deve decidir se vai reformular seu mecanismo de busca e transformar um chatbot completo em seu principal serviço.

O Google reluta em compartilhar sua tecnologia amplamente porque, como o ChatGPT e sistemas semelhantes, pode gerar informações falsas, tóxicas e preconceituosas. O LaMDA está disponível apenas para um número limitado de pessoas por meio de um aplicativo experimental, o AI Test Kitchen.

O Google vê isso como uma luta para implantar sua IA avançada sem prejudicar os usuários ou a sociedade, de acordo com um memorando visto pelo Times. Em uma reunião recente, um gerente reconheceu que as empresas menores têm menos preocupações sobre o lançamento dessas ferramentas, mas disse que o Google precisa entrar na briga ou a indústria pode seguir em frente sem ele, de acordo com uma gravação de áudio da reunião também obtida pelo Times.

Outras empresas têm um problema semelhante. Cinco anos atrás, a Microsoft lançou um chatbot chamado Tay, que vomitava linguagem racista, xenófoba e obscena, e foi forçado a removê-lo imediatamente da internet – para nunca mais voltar. Nas últimas semanas, a Meta derrubou um novo chatbot pelos mesmos motivos.

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Executivos disseram na reunião gravada que o Google pretendia lançar a tecnologia que impulsionou seu chatbot como um serviço de computação em nuvem para empresas externas e que poderia incorporar a tecnologia em tarefas simples de suporte ao cliente. Ele manterá seus padrões de confiança e segurança para produtos oficiais, mas também lançará protótipos que não atendem a esses padrões.

Ele pode limitar esses protótipos a 500 mil usuários e avisá-los de que a tecnologia pode produzir declarações falsas ou ofensivas. Desde seu lançamento no último dia de novembro, o ChatGPT – que pode produzir material tóxico semelhante – foi usado por mais de 1 milhão de pessoas.

“Uma amostra bacana de um sistema de conversação com o qual as pessoas podem interagir em algumas rodadas e que parece alucinante? Esse é um bom passo, mas não é o que realmente transformará a sociedade”, disse Zoubin Ghahramani, que supervisiona o laboratório de inteligência artificial Google Brain, em entrevista ao Times no mês passado, antes do lançamento do ChatGPT. “Não é algo que as pessoas possam usar de forma confiável no dia a dia.”

Busca

O Google já está trabalhando para aprimorar seu mecanismo de busca usando a mesma tecnologia que sustenta chatbots como o LaMDA e o ChatGPT. A tecnologia – um “grande modelo de linguagem” – não é apenas uma maneira de as máquinas manterem uma conversa.

Hoje, essa tecnologia ajuda o mecanismo de busca do Google a destacar resultados que visam a responder diretamente a uma pergunta que você fez. No passado, se você digitasse “Os esteticistas ficam muito em pé no trabalho?” no Google, ele não entendia o que você estava perguntando. Agora, o Google responde corretamente com uma breve sinopse descrevendo as demandas físicas da vida no setor de cuidados com a pele.

Muitos especialistas acreditam que o Google continuará a adotar essa abordagem, melhorando gradualmente seu mecanismo de busca em vez de reformulá-lo. “A pesquisa Google é bastante conservadora”, disse Margaret Mitchell, que foi pesquisadora de IA na Microsoft e no Google, onde ajudou a iniciar sua equipe de IA ética, e agora está no laboratório de pesquisa Hugging Face. “Tenta não atrapalhar um sistema que funciona.”

Outras empresas, incluindo a Vectara e um mecanismo de busca chamado Neeva, estão trabalhando para aprimorar a tecnologia de busca de maneiras semelhantes. Mas, à medida que a OpenAI e outras empresas melhoram seus chatbots – trabalhando para resolver problemas como toxicidade e preconceito –, isso pode se tornar um substituto viável para os mecanismos de busca atuais. Quem chegar primeiro pode ser o vencedor.

“No ano passado, fiquei desanimado por ser tão difícil desalojar o controle de ferro do Google”, disse Sridhar Ramaswamy, que anteriormente supervisionava a publicidade do Google, incluindo anúncios de busca, e agora dirige a Neeva. “Mas momentos tecnológicos como este criam uma oportunidade para mais competição.” / TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

https://www.estadao.com.br/link/empresas/nova-inteligencia-artificial-ameaca-do-reinado-do-google-em-buscas/

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Por que todos nós deveríamos ler mais livros de ficção

Se você quer uma visão de mundo mais rica, agarre aquele romance

Por Jemima Kelly, Valor/Financial Times 30/12/2022

A semana entre o Natal e o Ano Novo é uma época do ano maravilhosa para ler. Mas não para navegar compulsivamente no Twitter atrás de notícias ruins, procurar coisas para criticar no tabloide sensacionalista que secretamente é seu favorito, ou mesmo começar aquele livro de história que você ganhou no Natal — tudo isso pode esperar. Esse é muito mais um tempo, penso eu, para mergulhar de cabeça em uma grande obra de ficção (as únicas colunas que você deve ler, é claro, são aquelas dedicadas a essa atividade).

Não há nada mais aconchegante do que se enroscar no sofá, se enfiar na cama ou — minha opção favorita — se afundar em uma banheira cheia de água quente com um bom romance, para ser transportada para terras distantes, tempos longínquos ou as mentes de personagens estranhos, obcecados por sexo e sádicos (ou talvez seja só eu; atualmente estou lendo Philip Roth).

Muitos de vocês podem pensar que isso soa um pouco autoindulgente, e não sou imune a essas questões: minha avó costumava dizer que você nunca devia ler um romance antes de anoitecer porque eles “não são coisas sérias”. Os leitores do sexo masculino podem ser especialmente propensos a pensar dessa forma — estudos indicam que apenas 20% dos homens leem obras de ficção, enquanto 64% dos romances vendidos em 2021 no Reino Unido foram comprados por mulheres.

Mas a leitura de romances é mais do que mero hedonismo. Foi o próprio Aristóteles quem disse que “a poesia é uma coisa mais filosófica e mais elevada do que a história, pois a poesia tende a expressar o universal, e a história, o particular”.

Aristóteles escreveu isso antes de que o romance existisse como forma de arte, mas seu argumento pode ser aplicado à ficção em geral. Em um livro de história, impõe-se uma narrativa a uma mistura desordenada de acontecimentos; as histórias são contadas como se avançassem ordenadamente e até racionalmente. Isso não é uma crítica; é apenas a natureza do meio. No romance, porém, não existe tal imposição: o que é importante é a própria narrativa; não existe versão alternativa da verdade.

Um romancista é como um mágico: embora escreva ficção, ele tem uma certa autenticidade, porque compreendemos que estamos a ler algo que não é real. E, como sugere Aristóteles, é isso que permite que os personagens de uma obra de ficção pareçam, de alguma forma, mais reais para nós do que figuras históricas; cada um representa um tipo de personificação da condição humana com a qual podemos nos identificar.

Muitos estudos verificaram que a leitura de obras de “ficção literária” — em oposição à não-ficção ou à ficção popular — aumenta a capacidade de empatia e a inteligência emocional. Isso ocorre porque o leitor é exposto a uma gama muito mais ampla de experiências e culturas do que encontraria na vida real, o que o ajuda a compreender que outras pessoas têm crenças, desejos e perspectivas que diferem, e às vezes muito, das suas.

Um estudo recente, publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, concluiu que as pessoas que cresceram lendo ficção literária tinham “uma visão de mundo mais complexa” do que as que não o fizeram. Para os autores, essa visão é caracterizada por alguns fatores. Um deles é uma “complexidade atribucional aumentada”: essas pessoas se sentem confortáveis com a ambiguidade e podem entender comportamentos em termos de sistemas complexos. Outro é um grau menor de “essencialismo psicológico” — a ideia de que o comportamento humano pode ser explicado por certas características imutáveis.

“Encontrar diferenças, encontrar mentalidades diferentes, encontrar tipos diferentes de socialidade ajudam a fortalecer esta crença na complexidade do mundo”, diz Nick Buttrick, principal autor do estudo e professor de psicologia da Universidade de Wisconsin-Madison. “Se uma pessoa se depara sempre com apenas um tipo de mentalidade… e se só lê… coisas que são previsíveis, seguras, estáveis, essa pessoa acaba com uma visão de mundo que não tem complexidade, porque isso é o que é reforçado repetidamente para ela.”

O estudo traz à memória outro, de 2013, que concluiu que as pessoas que liam ficção literária tinham menos necessidade de resolução cognitiva — o desejo de remover ambiguidades e chegar a conclusões definitivas, mesmo que incorretas ou irracionais.

Em um mundo tão repleto de políticas polarizadas, qualquer coisa que possa contribuir para a construção de visões de mundo mais complexas e ricas em nuances deve ser acolhida de braços abertos. Assim, espero ter convencido todos vocês, os que procuram truques e atalhos para melhorar a eficiência e os gurus da produtividade, de que realmente não existe uma “maneira mais simples” de conseguir os benefícios que se obtém ao ler um grande romance.

Mas também escrevo esta coluna em parte como um lembrete a mim mesma de que devo ler mais livros desses — neste ano consegui ler apenas seis. No ano que vem, vou me dar a meta de um por mês, no mínimo. Talvez eu até me permita lê-los durante o dia, ocasionalmente. Porque na verdade eles são coisas muito sérias, vovó. (Tradução de Lilian Carmona)

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/12/30/por-que-todos-nos-deveriamos-ler-mais-livros-de-ficcao.ghtml

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Pesquisadores descobrem segredo que faz arquitetura romana permanecer intacta após séculos

Ingrediente já havia sido identificado por pesquisadores, mas foi negligenciado anteriormente

Por O Globo/AFP 10/01/2023

Como os antigos aquedutos de Roma e maravilhas arquitetônicas como o Panteão, que apresenta a maior cúpula de concreto não reforçado do mundo, resistiram ao teste do tempo? Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e de outras instituições acreditam ter descoberto o mistério da durabilidade das estruturas de 2 mil anos de idade: o concreto autorreparável.

As descobertas dos pesquisadores, publicadas na última edição da revista Science Advances, revelaram que o segredo está em um ingrediente do concreto antigo usado pelos romanos que havia sido negligenciado em estudos anteriores.

Com frequência, a durabilidade desse concreto havia sido atribuída ao uso de cinzas vulcânicas de Pozzuoli, na Baía de Nápoles. Mas o novo estudo concentrou sua atenção em outro componente da antiga mistura de concreto, pequenos pedaços brancos chamados “clastos de cal”.

— Desde que comecei a trabalhar com concreto romano antigo, sempre fui fascinado por esses recursos — disse Admir Masic, professor de engenharia civil e ambiental do MIT, autor do estudo. — Eles não são encontrados em formulações de concreto modernas, então por que estão presentes nesses materiais antigos?

Segundo os pesquisadores, os clastos de cal até então eram considerados o resultado de “práticas de mistura descuidadas” ou matérias-primas de baixa qualidade. Mas, na verdade, são eles que dão ao concreto antigo uma “capacidade de autocura anteriormente não reconhecida”.

— A ideia de que a presença desses clastos de cal fosse simplesmente atribuída ao baixo controle de qualidade sempre me incomodou — disse Masic. — Se os romanos se esforçaram tanto para fazer um excelente material de construção, por que se esforçariam tão pouco para garantir a produção de um produto final bem misturado?

Para o estudo, os pesquisadores examinaram amostras de concreto romano de 2 mil anos da argamassa de alvenaria de uma parede da cidade em Privernum, Itália. Eles descobriram que um processo conhecido como “mistura a quente” é o que deu ao concreto sua “natureza superdurável”, na qual os romanos misturavam cal virgem com água e cinzas vulcânicas em altas temperaturas.

— Os benefícios da mistura a quente são duplos — disse Masic. — Primeiro, quando o concreto geral é aquecido a altas temperaturas, ele permite reações químicas que não seriam possíveis se fosse usada apenas cal apagada, produzindo compostos associados a altas temperaturas que, de outra forma, não se formariam. Segundo, esse aumento de temperatura reduz significativamente os tempos de reparação e acomodação, pois todas as reações são aceleradas, permitindo uma construção muito mais rápida.

Pequenas rachaduras no concreto tenderiam a atravessar os clastos de cal e, quando expostas à água, recristalizariam como carbonato de cálcio, preenchendo a rachadura quase como cola.

— Essas reações ocorrem espontaneamente e, portanto, curam automaticamente as rachaduras antes que elas se espalhem — disseram os pesquisadores, que realizaram testes usando concreto moderno e fórmula antiga.

https://oglobo.globo.com/mundo/epoca/noticia/2023/01/pesquisadores-descobrem-segredo-que-faz-arquitetura-romana-permanecer-intacta-apos-seculos.ghtml

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Qual o papel da IoT para impulsionar a indústria 4.0?

Por Samir Vani – Canaltech 12 de Janeiro de 2023 

O termo Internet das Coisas (IoT) é mais antigo do que se imagina. Para se ter uma ideia, o dispositivo IoT mais antigo que se tem notícia é uma torradeira que podia ser controlada pela internet, criada no final dos anos 90. Foi um sucesso. Mas a pergunta que valeu milhões depois disso foi: o que mais poderia se conectar à internet?

Não demorou para entender que seria possível conectar qualquer coisa que tenha um protocolo eletrônico de comunicação embutido, seja bluetooth, Wi-Fi, ou mesmo por fios, e consiga executar funções como acender e desligar uma lâmpada com comando de voz, assim como deixar uma rotina programada para ligar as luzes pela manhã, acionar a cafeteira e levantar a cortina do escritório para começar a trabalhar.

Do lado da indústria, a visão de oportunidade também chegou rápido. A ideia de conectar máquinas que pudessem fazer auto gerenciamento de trabalho, além de se conectarem a outros dispositivos para agilizar processos, era um diferencial imenso perante a concorrência. E no conceito de indústria 4.0, onde a automação é o carro chefe, aliada à inteligência artificial (IA), a IoT é um ecossistema que oferece um mundo de possibilidades para conectar plataformas em nuvem, processos, robôs e outros dispositivos onde a imaginação é o limite.

A IoT dentro da indústria 4.0 já ganhou a sigla IIoT, ou, Internet das Coisas Industrial. Com um forte foco na conectividade máquina a máquina, aliada ao big data e aprendizado de máquina, ela permite que indústrias e empresas tenham mais eficiência e confiabilidade em suas operações. Portanto, a IIoT é complementar à Indústria 4.0, ou seja, pressupõe que as máquinas estão conectadas em uma rede onde o compartilhamento de dados é o maior benefício e possibilita tomadas de decisões mais estratégicas e assertivas.

Indo além de tomada de decisões, a conexão de dispositivos inteligentes na indústria, em conjunto com a IA, impulsiona os negócios a um patamar nunca visto antes. Ela aumenta incrivelmente a produtividade, diminui o número de falhas e acidentes, levando a uma economia de tempo e dinheiro.

Um exemplo de uso da IoT na indústria 4.0 é a manutenção preditiva. Equipamentos críticos parados por longos períodos, por motivo de manutenção manual, geram custos altos e perdas na produção. A IoT auxilia com dispositivos e sensores colocados no chão de fábrica, onde os dados coletados desses equipamentos são analisados ​​em um ambiente de nuvem seguro, otimizando a manutenção, detectando possíveis falhas em peças antes de acontecer um problema.

Mas esse exemplo é apenas a ponta do iceberg. Atualmente, especialistas já avaliam uma infinidade de oportunidades prontamente disponíveis da IoT nas indústrias. Alguns exemplos são a fabricação de dispositivos médicos, gerenciamento de ativos, transporte e logística (T&L), monitoramento de frete, aviação, sistemas de monitoramento da cadeia de suprimentos, rastreamento de veículos/transportes, rede inteligente para eletricidade, petróleo e gás, serviços habilitados para dados, robótica, mineração, agronegócio, controle de equipamentos, sistemas e aplicativos à distância com uso de celular, só para citar algumas aplicações. Em todas elas, os maiores benefícios que a IoT traz são: aumentar a eficiência, reduzir erros, manutenção preditiva, melhor segurança e redução de custos.

Ignorar isso, ainda Para ter uma ideia em números, uma pesquisa do McKinsey Global Institute prevê que o impacto econômico da IoT nas indústrias chegará a US$ 11 trilhões até 2025, e uma grande parte disso deve residir em aplicativos comerciais e industriais.

No Brasil, um estudo de setembro de 2022, da CETIC, mostra que mais de 70 mil empresas já utilizaram, ao menos, uma solução de IoT. 85% delas usam para segurança patrimonial. 44% usam para gerenciamento de consumo de energia. No centro estão a gestão de logística (39%), manutenção de equipamentos (38%) e atendimento ao cliente (31%). Por último está o controle de processos de produção, com 29% das empresas usando essa solução.

Diante disso, fica claro que a IoT nas indústrias é essencial para alavancar negócios, sejam quais forem. A IA, nuvem e aplicações com aprendizado de máquina, mais do que nunca, precisam receber e processar dados de “coisas”, de dispositivos que coletam dados e geram insights automaticamente para os gestores de uma empresa. E isso permite uma maneira mais eficiente para que as organizações reajam às mudanças do mercado de forma mais rápida e eficiente. Quem ficar de fora dessa realidade corre sério risco de ficar permanentemente atrás da concorrência.

https://canaltech.com.br/internet-das-coisas/qual-o-papel-da-iot-para-impulsionar-a-industria-40/

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Empresas encaminham projetos de geração de energia eólica em alto-mar

Chega a 70 o número de projetos na costa brasileira protocolados no Ibama para licenciamento ambiental

Por Gabriel Vasconcelos – Estadão – 03/01/2023 

Grandes petroleiras e empresas de energia têm interesse crescente na geração de energia eólica offshore (em alto-mar) no Brasil. No início de dezembro chegou a 70 o número de projetos protocolados no Ibama para licenciamento ambiental. Ao todo, esses projetos têm potencial de gerar 176,6 gigawatts (GW). Joga contra a lentidão na regulamentação da atividade, que já empurrou os primeiros leilões de cessão de área no mar para 2024.

Mesmo assim, segundo especialistas, a busca para desenvolver a atividade no Brasil deve se manter devido à pressão da transição energética e às condições naturais da costa. A previsão é levantar as primeiras usinas eólicas em alto-mar do País só no fim da década ou depois de 2030, mas os interessados já se movimentam. Em função da escala do investimento necessário, algumas empresas do setor de energia, as chamadas “majors”, começam a alinhar parcerias.

Viabilidade de usina na Bacia de Campos está em estudo

São movimentos ainda iniciais, mas que apontam o caminho do setor nos próximos anos. Exemplos são o acordo para estudo de viabilidade entre a Petrobras e a norueguesa Equinor para a instalação de usina offshore no litoral do Rio de Janeiro, na Bacia de Campos e, mais recentemente, a cooperação técnica assinada entre Shell e Eletrobras, para eventual investimento conjunto e operação de usinas desse tipo no futuro.

“É factível imaginar que (parcerias) sejam uma tendência do setor sim”, diz a gerente de assuntos regulatórios da Shell Brasil, Monique Gonçalves. “Ainda há muitos riscos envolvidos, riscos tecnológicos, de medição (do potencial eólico) e financeiros mesmo. Além, é claro, do custo elevado de um investimento”, acrescenta. Ela atribui a iniciativa com a Eletrobras principalmente à sinergia das estratégias de ambas as empresas e suas expertises – de um lado na geração de energia elétrica e, do outro, em atividades offshore.

Empresas buscam licenças para primeiros projetos

Sozinha, a Shell já tem seis projetos protocolados no Ibama. As áreas visadas para a instalação das usinas em alto-mar contemplam praticamente toda a costa brasileira, nos Estados do Piauí (2,5 GW), Ceará (3 GW), Rio Grande do Norte (3 GW), Espírito Santo (2,5 GW), Rio de Janeiro (3 GW) e Rio Grande do Sul (3 GW). A Equinor, que mantém conversas com a Petrobras, tem outros seis projetos comunicados ao Ibama em seu nome.

Projetos de parques eólicos offshore devem mirar uma capacidade instalada de no mínimo 1 GW, mas, idealmente, devem ter entre 2 GW e 3 GW em função da rentabilidade, dizem executivos ouvidos pela reportagem. Além da complexidade da operação e da tecnologia envolvida, esse volume de energia encarece os projetos.

Investimento para construção de usinas é alto

De fato, para além dos gastos iniciais com estudos, que podem chegar a US$ 50 milhões, a expectativa de investimentos para a construção de usinas está na casa dos bilhões. Um executivo do setor, que prefere não se identificar, estimou que cada gigawatt de capacidade instalada pode custar até R$ 16 bilhões. Em agosto de 2022, porém, a gerente de tecnologia em renováveis da Shell, Camila Brandão, fez estimativa bem mais conservadora: entre R$ 5 bilhões e R$ 7 bilhões por gigawatt instalado.

Isso porque os materiais a serem aplicados na costa brasileira podem ter características, como densidade, diferentes daqueles utilizados por exemplo no Mar do Norte, onde os aerogeradores instalados no mar se multiplicam. Essa especificidade, aliada à infraestrutura offshore já estabelecida por grandes petroleiras no Brasil, poderia reduzir significativamente custos.

Metades dos projetos se concentra no Nordeste

Os 70 projetos protocolados no Ibama para licenciamento ambiental somam capacidade de geração de 176,6 GW. Em 2023, a listagem deve ser reforçada pela entrada mais decisiva da Petrobras nessa fonte, conforme indicado por membros da transição de governo.

De setembro a dezembro, entraram no sistema do Ibama quatro novos projetos, um da Cemig Geração e Transmissão, com capacidade prevista de 1,5 GW, e outro da Energia Itapipoca, de 720 MW, ambos planejados para a costa do Ceará; e dois da Monex Geração de Energia, um também no mar do Ceará e outro no do Rio Grande do Norte, de 2,96 GW e 1,96 GW respectivamente.

Os 70 projetos se dividem em três áreas principais: no Sul, no litoral de Rio Grande do Sul e Santa Catarina; Sudeste, entre Rio de Janeiro e Espírito Santo; e Nordeste, na costa do Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará e Maranhão.

Metade deles, 35 projetos, concentra-se no Nordeste, sendo 21 no mar do Ceará, onde a infraestrutura do porto de Pecém (CE) e a presença de grandes consumidores de energia atraem as empresas. O mesmo acontece com o Porto do Açu (RJ), que torna Rio e Espírito Santo pontos atraentes à indústria. O Rio Grande do Norte corre por fora, por ter menos infraestrutura, mas ser o principal “hotspot” do País para eólica offshore devido às condições da costa, mais rasa, com ventos fortes, constantes e pouca variação de direção.

Além de Shell e Equinor, outra grande petroleira dona de projetos de eólica offshore é a francesa Total. Há ainda empresas mais afeitas à energia elétrica, como Engie e EDP, que atuam juntas, por meio da joint venture Ocean Winds, com cinco projetos que somam 15 GW em capacidade.

Petrobras deve acelerar aportes na área

Embora a Petrobras tenha acumulado pesquisa e desenvolvimento relacionados à eólica offshore nos últimos anos, sobretudo no mapeamento de áreas, as últimas gestões da estatal reduziram o ritmo de desenvolvimento dessa frente de negócio para focar em exploração e produção de petróleo e ampliar as margens da companhia. Isso deve mudar no novo governo, do presidente Lula (PT).

No plano estratégico até 2027, divulgado em novembro, a eólica offshore aparece como opção para diversificação rentável de portfólio, mas somente para aprofundamento de estudos. Sob a diretriz de reforçar atuação em renováveis e, pelo domínio da infraestrutura offshore, a Petrobras deve acelerar investimentos nessa área, acirrando ainda mais a competição em um mercado por nascer no País.

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Mostra do protagonismo que a Petrobras pode alcançar a partir de uma reorientação estratégica está no desenvolvimento de uma tecnologia de medição de ventos no mar, que entrou em fase de testes no fim de dezembro. A Bravo, Boia Remota de Avaliação de Ventos Offshore, foi desenvolvida pela Petrobras em parceria com institutos de inovação do Senai no Rio Grande do Norte e Santa Catarina.

No mundo, boias desse tipo são uma alternativa às torres fixas de medição, com alto custo de instalação. Até então, essas tecnologias não existiam no Brasil e deveriam ser contratadas no exterior. Segundo a Petrobras, a futura entrada da Bravo no mercado, deve baratear em cerca de 40% os custos envolvidos no aluguel de equipamentos do tipo.

Este texto foi publicado no Broadcast Energia no dia 29/12/2022, às 09h00

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Para saber mais sobre o Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse.

https://www.estadao.com.br/economia/coluna-do-broad/empresas-encaminham-projetos-de-geracao-de-energia-eolica-em-alto-mar/

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Geração Z impõe uma nova forma de trabalhar; saiba como

Estudo da consultoria LLYC mostra como esse grupo questiona a obrigatoriedade do expediente presencial, exige políticas voltadas à saúde mental e ESG, entre outras mudanças

Por Jacílio Saraiva, Para O Valor 10/01/2023

A geração Z, composta por profissionais nascidos entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000, está impondo uma nova forma de trabalhar às empresas: com menos presença no escritório e mais ações voltadas à agenda ESG, sigla usada para medir as práticas ambientais, sociais e de governança de um negócio. É o que aponta o relatório Talent Trends 2023, elaborado pela consultoria LLYC, em colaboração com a DCH (Organização Internacional de Administradores de Capital Humano), entidade que reúne mais de 3,5 mil gestores de RH na Europa, Estados Unidos e América Latina.

“Essa geração, que será 30% da força de trabalho global até 2030, tem influenciado muito mais as relações das pessoas com as empresas do que as antecessoras”, explica Naira Feldmann, diretora de engagement da LLYC no Brasil. “A começar pelo fato de que suas demandas, hábitos e propósitos impõem a ética e a sustentabilidade como princípios básicos para um bom empregador.”

Segundo a especialista, o ESG deixa de ser apenas um acrônimo para o público especializado e passa a ser uma alavanca de proposta de valor para novos funcionários. “Esse grupo também vai questionar, cada vez mais, a obrigatoriedade do expediente presencial e exigir políticas que resguardem a saúde mental”, diz. “São empregados mais propensos às entregas assíncronas e ao ‘anywhere office’ [trabalhar de qualquer lugar, na tradução livre]”.

Diante dos dados do estudo, baseados em uma série de pesquisas sobre o futuro do trabalho, Feldmann recomenda que as chefias invistam na comunicação com as equipes.

“O ato de ouvir as pessoas, por mais óbvio que pareça, nem sempre é feito com o objetivo real de escutá-las”, destaca. De acordo com ela, isso será essencial para alcançar uma identificação dos funcionários com os objetivos da organização.” Além do maior peso da geração Z na criação de novos modelos de trabalho, o levantamento apontou outras tendências que marcarão a gestão de talentos em 2023.

Veja as principais:

1. Inteligência artificial (IA) aperfeiçoa a gestão de pessoas

A projeção é de que o mercado global de IA cresça mais de 20% entre 2022 e 2029. Isso permitirá o desenvolvimento de análises preditivas que ajudarão na tomada de decisões em relação ao capital humano. A tecnologia pode melhorar os processos seletivos com algoritmos que refinam a triagem curricular e criar chatbots capazes de sanar as dúvidas dos profissionais a distância.

2. Integração demanda ainda mais atenção

Estudos indicam que 90% dos trabalhadores decidem se vão continuar ou não na companhia nos seis primeiros meses de convivência. Neste sentido, o onboarding é o primeiro passo para fortalecer o relacionamento entre funcionário e empresa, sendo uma boa oportunidade para integrar o profissional à cultura organizacional.

3. Maior rotatividade exige flexibilidade nos planos de carreira

Fenômenos como a grande renúncia e o “quiet quitting” (desistência silenciosa), que se instalaram em 2022, trouxeram uma realidade comum à maioria das organizações: o aumento da rotatividade indesejada. Apesar das dificuldades que isso traz às equipes de RH, não parece que esses movimentos irão diminuir em 2023. Por outro lado, um maior “vai e vem” de currículos pode ser uma oportunidade de incorporar perfis mais seniores à equipe. No entanto, conviver com a dança das cadeiras exige reformulação de políticas de mobilidade interna e de planos de carreira.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/01/10/geracao-z-impoe-uma-nova-forma-de-trabalhar-saiba-como.ghtml

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Como ganhar dinheiro usando inteligência artificial?

É raro ver especulações sobre mudanças tecnológicas no longo prazo; para suprir essa falta, farei algumas perguntas

Ronaldo Lemos* – Folha –  1º.jan.2023 

Atenção, leitor: este é um artigo puramente experimental. Como Ano Novo é época de fazer balanços e previsões, há sempre textos apontando para o que se espera da tecnologia no ano que está começando.

Só que é relativamente raro ver especulações sobre mudanças tecnológicas no longo prazo, ou mesmo no longuíssimo prazo. Para suprir essa falta, este artigo faz algumas perguntas puramente especulativas: “e se…”

E se inteligências artificiais como o ChatGPT, Midjourney, Stable Diffusion e outras se tornarem as formas dominantes de produção de conteúdo na internet? Na semana passada viralizou um vídeo ensinando a ganhar dinheiro com essas ferramentas de inteligência artificial na internet.

A fórmula é a seguinte: vá até o ChatGPT e peça para ele produzir o roteiro de um vídeo com 1500 palavras sobre qualquer assunto que você queira. Pegue o texto e cole na ferramenta Pictory, na função “script to video”. A ferramenta irá, então, criar automaticamente um vídeo completo baseado no roteiro que você inseriu, usando também inteligência artificial.

Vá na ferramenta Synthesia e escolha um ser humano virtual para ser o personagem do seu vídeo. Cole o texto lá também e o personagem escolhido irá ler o texto, como se fosse um ser humano real (há muitas opções de etnias e tipos físicos). Insira recortes da fala do personagem no primeiro vídeo. Vá então para o Fiverr e pague US$ 2 (R$ 10,45) para alguém desenhar uma capa impactante para o seu vídeo.

Poste tudo no Youtube e outras plataformas, e ganhe dinheiro na medida que o vídeo ganhar visualizações. Se estiver com preguiça, vá no Upwork e contrate um assistente remoto que pode ficar fazendo todo esse processo acima para você, ao custo de US$ 4 (R$ 20,90) por hora, infinitamente.

E se o resultado disso for a inundação da internet e suas plataformas com conteúdo autogerado por inteligências artificiais? Na superfície, o conteúdo aparenta ser coerente, interessante e até sedutor. Na realidade, o conteúdo é cheio de erros, informações falsas, dicas perigosas e insanidades que não fazem o menor sentido.

Com isso, a internet é envenenada com infinitos conteúdos produzidos por inteligência artificial (incluindo pornografia). Ninguém mais consegue distinguir o que é gerado por humanos ou máquinas e isso acaba com os incentivos para se criar qualquer coisa nova de verdade.

A possibilidade dessa situação cria a necessidade urgente de marcar os conteúdos gerados por inteligência artificial como tais, distinguindo-os de conteúdos “reais”. Nenhum país ocidental consegue criar uma solução para isso, e o problema se perpetua em uma câmara de eco informacional para sempre.

E se a fusão nuclear, que em 2022 teve progressos concretos e relevantes, se tornar realidade? Isso significaria que a humanidade poderia obter uma cobiçada independência energética, de forma limpa e sustentável? Quais seriam as consequências dessa abundância energética?

Pode ser que ela seja a base para nos tornarmos uma civilização interplanetária. Por exemplo, com fusão nuclear dominada, a humanidade poderia cobiçar a construção de um “enxame de Dyson” em torno do sol. Uma megaestrutura composta por espelhos capazes de capturar e redirecionar parcelas da energia solar.

Essa quantidade inimaginável de energia poderia ser usada para projetos de “terraformação” na lua, em Marte e além. Permitindo que aqueles que estejam insatisfeitos com os caminhos da humanidade no seu planeta de origem possam olhar para o céu e sonhar com um recomeço em um astro distante.

Feliz 2023!


  • Já era – saber distinguir entre o que é criado por humanos ou por IA
  • Já é – perigo de inundação da internet com conteúdos gerados automaticamente por IA
  • Já vem – tentativa de resolver o problema por meio de regulação, com chances incertas de sucesso

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/01/como-ganhar-dinheiro-usando-inteligencia-artificial.shtml

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Brasil vai estrear no mercado mundial de lítio para bateria

Mina da Sigma Lithium, no notre de Minas Gerais, está prevista para iniciar operação ao longo do primeiro trimestre de 2023

Por Ivo Ribeiro — Valor – 20/12/2022 

Projeto da Sigma, em Araçuaí/Itinga, terá capacidade de produzir 104 mil toneladas de carbonato de lítio ao ano em 2024 — Foto: Divulgação

Entre as maiores do mundo, a indústria brasileira de mineração e metais estreia em 2023 na produção de um dos minerais mais importantes desta década, o lítio, que ganhou projeção global ao se tornar primordial para a onda de eletromobilidade.

O projeto, em fase final de implantação em Minas Gerais pela Sigma Lithium, deve se consolidar em escala global, posicionando a empresa entre as quatro maiores fabricantes mundiais.

A demanda por lítio cresce em ritmo frenético para uso na fabricação de baterias elétricas de automóveis e outros veículos. Estima-se que a montagem de veículos elétricos passe de 6,5 milhões de unidades do ano passado para 10,5 milhões neste ano e chegue a 51 milhões de carros em 2030.

Valor médio da tonelada de carbonato de lítio saiu de US$ 13,89 mil em 2021 e bateu em US$ 84 mil a tonelada neste ano

Diversas companhias de mineração de vários países – China, Austrália, EUA -, desenvolveram projetos que já se encontram em produção. Outras, como a Sigma, vão entrar em operação a partir de 2023, visando garantir pedidos de montadoras e fabricantes de baterias.

Até mineradoras tradicionais, caso da australiana Rio Tinto (segunda player global de minério de ferro), já estão se posicionando na produção dos chamados metais críticos, vistos como estratégicos. São todos puxados pelos mercados surgidos com a eletrificação, transição energética e o conceito de produtos “verdes”.

Com a demanda em alta e oferta apertada, os preços do lítio no mercado global – na forma de concentrado, carbonato ou de hidróxido – foram às alturas. O valor médio do carbonato de lítio saiu de US$ 13.890 a tonelada em 2021 e bateu em US$ 84,071 neste ano – seis vezes mais. O valor médio previsto para 2022 é de US$ 71.245 por tonelada.

O mineral é o elemento básico na fabricação de todos os tipos baterias com íon de lítio para carros elétricos, compondo com diversos outros metais e minerais: cobalto, níquel, manganês, fosfato e ferro. Correm por fora o nióbio, grafeno e outros.

O Brasil está bem posicionado para ocupar espaço nessa nova onda de consumo, com reservas de relevância mundial. Por exemplo, o nióbio, que tem a maior do mundo. Há ainda níquel, manganês, ferro, grafita e outras.

No momento, as maiores produtoras de lítio no mundo são a americana Albemarle, a chilena SQM e as australianas e Allkem e Pilbara Minerals. No todo, entre companhias já em operação e novatas debutando no mercado, destacam-se cerca de 20.

A produção mundial de lítio contido em concentrado prevista para este ano é de 540 mil toneladas. Estima-se que vai duplicar – 1 milhão de toneladas em 2025 – e alcançar 2,2 milhões de toneladas no final da década.

No mundo, a maior parte da produção de lítio vai para fabricação de baterias elétricas – em torno de três quartos do total. Cerca de 14% vão para cerâmica e vidro e 3% para graxas e lubrificantes. Fundição, produção de alimentos e outros – 7%.

De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), órgão estatal de pesquisas, as reservas no país desse mineral, que se tornou estratégico para a transição energética global, estão localizadas no Ceará, no eixo Rio Grande do Norte/Paraíba, no sul de Tocantins com o nordeste de Goiás, na Bahia e em Minas Gerais – no chamado médio Jequitinhonha, na região leste e São João del Rei.

Segundo as informações, o Brasil detém uma importante reserva de minério de lítio, espalhada nessas regiões, principalmente no Norte de Minas. As grandes reservas estão localizadas no Chile, Austrália, Argentina e China, seguidos por outros países.

As reservas de lítio do tipo salmoura são encontradas na Bolívia, Chile e Argentina, além de China e EUA. Já depósitos de lítio em pegmatitos (rochas, como os da Sigma) estão localizados na Austrália, Áustria, Brasil, Canadá, China, Congo, República Tcheca, Finlândia, Alemanha, Mali, Namíbia, Peru, Portugal, Sérvia, Espanha, EUA e Zimbábue.

Até agora, apenas duas empresas produzem lítio no Brasil: a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) e a AMG Brasil. Mas trata-se de lítio para outras aplicações, como graxas e lubrificantes.

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), os requerimentos para autorização de pesquisa do mineral de lítio passou de 35, em 2017, para 417 neste ano (até novembro), estimulados pela corrida global para atender a demanda por lítio voltado à eletrificação de veículos.

No plano de negócios da Sigma, de origem canadense, com sede em Vancouver e negociada nas bolsas de Toronto e Nova York (Nasdaq), a produção começa com 270 mil toneladas de concentrado de lítio (tipo espodumênio, “grau bateria”), e saltará, com expansões, a 768,2 mil toneladas ao final de 2024.

O volume de carbonato de lítio contido no concentrado foi ajustado para 104 mil toneladas ao final de 2024. A mineradora começa com capacidade de 36,7 mil toneladas no próximo ano.

Ao todo, são cerca de R$ 2 bilhões de investimentos nas três fases de produção – a segunda e a terceiras estão sendo aceleradas pela empresa em 2023 e 2024. Foram adicionados quase R$ 800 milhões de aportes para a terceira fase, que foi antecipada.

Com esse projeto, cuja vida útil das operações no atual escopo é de 13 anos, a empresa prevê receita líquida de R$ 1,55 bilhão no primeiro ano (2023), US$ 3,52 bilhões do segundo ao oitavo ano (quando terá as três fases de produção), e de US$ 1 bilhão nos cinco anos restantes. Será 100% voltado ao mercado externo.

A Sigma diz que seu produto, de grau bateria, tem pureza acima de 99% e já conta com contratos de fornecimento fechados com a fabricante de baterias sul-coreana LG Energy Solution, além da trading japonesa Mitsui.

O principal site mineral do projeto da Sigma está na propriedade Grota do Cirilo (adjacente ao rio Jequitinhonha), apontado como o maior depósito de rocha dura (hard rock) de lítio das Américas. O empreendimento começou a ser explorado em escala piloto em 2018. As reservas totais de minério atuais – medidas e provadas -, foram reavaliadas para 77 milhões de toneladas.

As 28 áreas de concessão da empresa estão localizadas nos municípios de Araçuaí e Itinga, no chamado Vale do Jequitinhonha – rio que corta a região, uma das mais pobres do país.

A operação em escala industrial deve ter início ao longo do primeiro trimestre e as entregas dos primeiros lotes comerciais do concentrado estão previstas para o mês de abril. As instalações de beneficiamento do minério estão em fase final de montagem.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/12/20/brasil-vai-estrear-no-mercado-mundial-de-litio-para-bateria.ghtml

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Gincana do aluguel: o drama de encontrar lugar para viver numa capital europeia

Coquetel explosivo de fatores torna problema da moradia uma emergência; governos e Comissão Europeia se mobilizam, sem grande sucesso por enquanto

Por Alessandro Soler, O GLOBO — Madri 08/01/2023 

De Lisboa a Berlim, de Roma a Londres, de Paris a Madri, grandes metrópoles europeias compartilham um problema que já ganha contornos de emergência: a crise do aluguel. Deficit de novas construções, compra de milhares de imóveis por fundos de investimento, efeito Airbnb — que tira propriedades do mercado para despejá-las no setor turístico — e altas taxas de inflação são o coquetel que provocou a tempestade perfeita.

Além dos preços em recordes históricos, inquilinos se queixam de ter de enviar documentos detalhados e extratos bancários antes sequer de ver o apartamento. Proprietários e imobiliárias cobram taxas aos candidatos pelo simples direito de disputar um imóvel. E as frequentes negativas fragilizam quem está na busca, que vira presa fácil dessas e de outras práticas abusivas. Apesar das iniciativas de alguns governos e da Comissão Europeia, a solução ainda não está no horizonte.

Tradicionalmente mais barata que as capitais das outras grandes economias europeias, a alemã Berlim vive um choque de preços sem precedentes, segundo a BMV, a associação dos inquilinos da cidade. Em 2009, ainda era possível encontrar apartamentos de dois quartos por coisa de € 500 (R$ 2.800); hoje, giram ao redor de € 1.100 (R$ 6.200), 120% de aumento. Numa cidade onde 85% das pessoas vivem de aluguel, nas contas da BMV, a alta foi de mais de 30% só de 2020 para cá.

Concentrados e vazios

Em 2021, Berlim foi palco de um histórico plebiscito que pedia a expropriação de 240 mil imóveis hoje nas mãos de um punhado de megaproprietários e fundos de investimento. Sem uso, muitos desses apartamentos seriam transformados em moradias sociais, ajudando a baixar os preços. A maioria dos votantes apoiou a proposta, mas o plebiscito não era vinculante, e o tema ainda precisará ser debatido no Legislativo local.

Em Londres, estima-se que mais de 400 mil casas e apartamentos estejam nas mãos de grandes investidores. Segundo a consultoria imobiliária CBRE, o último ano teve uma injeção recorde de £ 4,1 bilhões (R$ 26,2 bilhões) de vários fundos. Um deles, ligado ao Lloyds Bank, anunciou ter a intenção de comprar mais de 50 mil imóveis até 2030, só na cidade, para alugá-los.

Muitos desses fundos são acusados de manipular os preços, segurando os imóveis para promover uma inflação artificial no valor médio do aluguel. A engenheira espanhola Teresa Alonso, gerente de projeto numa start-up fabricante de carros elétricos, sentiu na pele essa escalada. Recém-mudada para Londres, ela precisou ficar quatro meses entre hotéis e apartamentos turísticos do Airbnb, enquanto procurava e via os preços subirem. Morar sozinha ali, onde o aluguel de um apartamento de 40 metros quadrados pode passar facilmente de £ 2 mil (R$ 12.700), ela nem cogitou:

— Um quarto simples custa mais de £ 1 mil (R$ 6.380), fora as contas, mas voa no mesmo dia. Quem trabalha não tem tempo de procurar. E as exigências são enormes: histórico de crédito de cinco anos, contrato permanente de trabalho, contatos de locadores anteriores para serem consultados. Até o telefone do seu chefe no trabalho eles pedem, para saber se você é confiável.

Na Espanha natal de Alonso, brasileiros se queixam de condições similares. A soteropolitana Laís Souza, gerente de projeto numa empresa de tecnologia, e seu marido, Eduardo Lubisco, tradutor, acumulam histórias que beiram a ilegalidade em Madri.

— Os donos ou os corretores pedem antecipadamente documento de identidade, extrato bancários, contrato de trabalho, contracheques e um novo seguro bancário. É quase um casting. Só então vão decidir se mostrarão o apartamento a você — descreveu Souza. — Recém-chegada, eu mandei toda a documentação a um corretor que sumiu. Fiquei muito preocupada e fui à polícia. Ele terminou reaparecendo. Ali entendi que é uma prática abusiva, mas comum.

Peneira agressiva

A preocupação dela não é paranoia. Há uma semana, o jornal El País publicou o caso de uma jovem equatoriana que também precisou se submeter a essa peneira agressiva na busca por apartamento. De posse dos seus documentos e histórico bancário, alguém — presumivelmente de uma imobiliária, a polícia ainda investiga — fez um empréstimo de € 7 mil (R$ 39.480) no nome dela. Com os juros, a financeira exige a quitação dos quase € 9 mil (R$ 50.760) de uma dívida que a vítima não contraiu.

Também em Madri, segundo um relatório do portal Fotocasa, um dos mais usados na busca de imóveis, além de os preços estarem “no máximo histórico”, acumulam-se exigências como o pagamento de uma taxa — que pode chegar a € 200 — tão somente para ver o apartamento. Se o contrato for fechado, o valor é descontado da longa lista de pagamentos com que o inquilino deve arcar: até três meses de fiança, um mês para a imobiliária, um mês de “garantia adicional”. Se não houver acordo, a devolução do “sinal” pode demorar vários dias.

Há alguns meses, a imprensa do país relatou que proprietários passaram a exigir cartas de motivação, como aquelas que as empresas pedem aos candidatos a um posto de trabalho. Nada que seja muito estranho em outra grande capital europeia, Paris, onde o mercado está saturado há anos, em parte também pela ausência de grandes áreas para novas construções — problema compartilhado por Londres e Lisboa, por exemplo. O processo de procura de imóvel na “Cidade Luz” virou gincana.

— Já estou chegando ao terceiro mês, e nada. Na vez anterior, há oito anos, eu dividia com meu ex-companheiro, então tínhamos duas rendas. Foi mais fácil. Ainda estou de luto por um apartamento que vi logo no início da busca de agora. Fiquei em terceiro lugar na disputa — contou a curitibana Ana Senn, formada em nutrição e coordenadora de uma associação, referindo-se a um sistema de pontos comum na área metropolitana da capital francesa.

Driblando o teto

Cada candidato elabora um dossiê em que anexa coisas como toda a sua documentação, comprovações de renda, aval bancário, carta de motivação e o que mais julgar necessário para “sair na frente”. Nem pensar em ir ver o imóvel sem isso. Um método que Ana julga anacrônico, ao demandar arraigo de longo prazo na cidade e, portanto, não contemplar os novos fluxos de teletrabalhadores que já se deslocam por um mundo pós-pandêmico e cada vez mais interconectado.

Paris e, também, Berlim têm há anos leis que impõem limites ao preço do metro quadrado de aluguel. Bairro, metragem do apartamento e ano de construção do edifício entram numa complexa conta que estabelece os valores máximos a serem cobrados. Mas a resposta dos proprietários evitou que as leis pegassem totalmente. Uma análise do Instituto Alemão de Pesquisas Econômicas (DIW) mostrou que muitos deles retiraram seus imóveis do mercado berlinense, provocando uma subida média nos preços. Outros apenas desrespeitam o teto, mesmo arriscando-se a multas de até € 500 mil (R$ 2,8 milhões).

Em Paris, a líder do partido de esquerda Génération:s Anne Joubert, ao falar no Parlamento sobre a crise dos aluguéis, afirmou que 40% dos apartamentos da Île de la Cité, uma das zonas mais gentrificadas da capital, estão permanentemente desabitados. Como em outras áreas onde os governos tentam impor limites à ciranda dos preços, os donos preferem não alugar. E, assim, os ciclos de subidas de preços derivados da baixa oferta vão se perpetuando.

UE quer regular Airbnb

Enquanto países como Espanha e Portugal anunciaram nos últimos meses tetos de 2% nos reajustes de preços dos aluguéis até 2023 — mirando a inflação —, diversos parlamentos nacionais discutem soluções de mais longo prazo para o problema da explosão dos preços das moradias. Mas ainda falta um debate conjunto entre os 27 países da União Europeia sobre uma questão que é transnacional.

Pelo menos uma das pernas da crise do aluguel ganhou atenção da Comissão Europeia, órgão executivo do bloco. Em novembro, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, apresentou uma proposta que endurece as regras para apartamentos turísticos de plataformas como Airbnb. Proprietários precisarão se submeter a registros públicos, em número limitado por área e cidade, bem como a inspeções-relâmpago para a checagem do cumprimento das regras.

Além de trazer maior transparência aos aluguéis de temporada, analistas creem que as medidas poderão se traduzir em novos apartamentos para o mercado. Isso porque, quando deixarem de ser beneficiados por um setor turístico desregulado, muitos proprietários poderiam optar pelo aluguel tradicional.

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/01/gincana-do-aluguel-o-drama-de-encontrar-lugar-para-viver-numa-capital-europeia.ghtml

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Quem são os sobre-educados, brasileiros com ensino superior que não encontram trabalho qualificado

Por Luiz Guilherme Gerbelli – Estadão – 01/01/2023

Número chega a 5,4 milhões de pessoas em todo o País, equivalente à população da Noruega

O mercado de trabalho brasileiro carrega uma estatística perversa. Entre as pessoas ocupadas com ensino superior completo, 5,4 milhões não conseguem exercer um trabalho na área de formação e que exija alta qualificação, mostra um levantamento da consultoria IDados. Na prática, o elevado contingente dos chamados sobre-educados – equivalente à população da Noruega – mostra que o Brasil desperdiça recursos aplicados no ensino superior e, sobretudo, boa parte do seu capital humano.

“O Brasil é um país que investe muito em educação de nível superior. Esse dado indica que parte desses recursos não está atingindo o objetivo principal”, afirma Ana Tereza, pesquisadora do IDados e responsável pelo levantamento. “Essas pessoas sobre-educadas recebem mais na comparação com aquelas que têm um nível médio. Não é um capital humano totalmente perdido, mas, frente ao trabalhador que está numa ocupação que exige ensino superior, elas vão ganhar menos.”

MAIS SOBRE MERCADO DE TRABALHO

Nos últimos anos, o número de trabalhadores graduados em funções que exigem uma qualificação menor foi crescente, na esteira da fraqueza do mercado de trabalho. Em 2015 e 2016, houve uma dura recessão econômica, seguida apenas por uma lenta retomada nos anos seguintes, que foi interrompida pelos estragos provocados pela pandemia de coronavírus. No último trimestre de 2019, antes, portanto, da crise sanitária, o contingente de sobre-educados era de 4,5 milhões de pessoas.

“Duas coisas podem ter acontecido. Primeiro, a pessoa ocupava um trabalho de nível superior, ficou desempregada durante a pandemia e, agora, não consegue encontrar um trabalho de nível superior”, afirma Ana. “E segundo, a entrada dos jovens na força de trabalho pode levá-los a ocupar esses cargos de nível superior, fazendo com que a sobre-educação aumente entre os mais velhos.”

Engenheiro virou marceneiro

Desde que se formou em engenharia civil em 2016, Tales Fernando Lima, de 30 anos, enfrentou uma série de crises e nunca conseguiu trabalhar na sua área de formação. Sem emprego, decidiu, então, ajudar na marcenaria do pai em Pirituba, zona norte de São Paulo. “Quando eu entrei na faculdade, a área de engenharia civil estava bem quente. Havia muita oferta de trabalho, mas a crise pegou, e as empresas pararam de contratar”, diz.

Formado em engenharia civil, Tales não encontrou emprego e foi trabalhar na marcenaria do pai

Formado em engenharia civil, Tales não encontrou emprego e foi trabalhar na marcenaria do pai Foto: TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Sem experiência, Tales deixou de buscar trabalho como engenheiro. “Se eu arrumar um emprego como engenheiro, também não vou conseguir ganhar o que recebo na oficina de marcenaria. Virou uma questão material também”, afirma.

Agora, ele decidiu partir para uma segunda graduação, em história. Em 2023, vai para o segundo ano. “Decidi fazer o que eu gosto, e espero dar aulas nos próximos anos”, afirma Tales. “Eu me enquadro numa categoria que busca um trabalho na área em que se formou, mas não encontra.”

No interior da Bahia, em Tanhaçu, Iris Naraiana Silva, de 27 anos, enfrenta o mesmo problema. Formada em pedagogia no início de 2020, não consegue exercer a sua profissão, porque não há mais concursos públicos na região. Para ter uma renda, trabalha como assistente administrativa na Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), uma obra do governo federal que pretende ligar o porto de Ilhéus a Tocantins.s. “Como a cidade é pequena, não existem muitas escolas particulares, e as vagas já estão preenchidas.”

Dos colegas de classe, Iris diz que só trabalham como pedagogos aqueles que já “atuavam na área” durante o curso de graduação. “Mas o restante, não. Trabalha em supermercados e lojas.”

‘Efeito cicatriz’

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Entre os jovens, a demora para se inserir no mercado de trabalho na área de formação leva a um cenário ainda mais crítico, porque os primeiros anos de formação são considerados essenciais para o desenvolvimento profissional.

“O atraso para se inserir no mercado de trabalho acaba gerando o chamado efeito cicatriz. Os jovens que iniciam a carreira em uma crise vão estar em uma desvantagem duradoura. É uma força de trabalho que acaba desaprendendo como realizar as tarefas”, afirma Lucas Assis, economista da consultoria Tendências.

Num recorte específico realizado entre a população ocupada de 22 a 29 anos, o levantamento do IDados apurou que o País tem 1,06 milhão de trabalhadores com ensino superior completo, mas em funções que exigem baixa qualificação.

Na leitura dos analistas, o Brasil precisa definir como um dos seus principais objetivos a capacidade de abrir oportunidade para os trabalhadores qualificados, como foco especial na população mais jovens.

“Por conta do envelhecimento da população e desse baixo crescimento esperado para a economia até o final da década, é preciso colocar esses jovens no centro de uma política pública ambiciosa”, diz Lucas Assis, economista da consultoria Tendências.

O desafio da economia brasileira é urgente e grande para criar empregos qualificados, porque cada vez mais o mercado de trabalho deve receber trabalhadores com graduação completa. Mas a avaliação é que a economia brasileira só vai conseguir dar um salto com investimento em ciência e tecnologia e se endereçar questões ligadas à qualidade educacional, sobretudo, reduzindo a diferença entre escolas públicas e privadas.

“Eu vejo um problema estrutural na educação que acaba afetando a economia no longo prazo. E há alguns problemas que precisam ser resolvidos no campo educacional, como essa discrepância muito grande entre as escolas públicas e privadas”, afirma Bruno Imaizumi, economista da consultoria LCA. “O País precisa pensar em como o mundo está mudando e se estamos formando pessoas com as habilidades requeridas pelas empresas.”

Futuro do mercado de trabalho

Há ainda uma entrave para os próximos anos, com a perspectiva de que a concorrência aumente no mercado de trabalho com o retorno de boa parte da população em busca de emprego, agora que a fase mais aguda da pandemia foi superada e a vacinação está avançada em boa parte do País.

”Ainda não houve um retorno massivo dos inativo a força de trabalho”, diz Assis.

Ao longo de 2022, o mercado de trabalho surpreendeu positivamente. A taxa de desocupação caiu a 8,3% no trimestre encerrado em outubro – o último dado disponível –, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo período de 2021, estava em 12,1%.

Além da concorrência, um outro entrave tem a ver com a perda de fôlego esperada para a criação de vagas de trabalho neste ano, diante da expectativa de um crescimento econômico mais fraco do Brasil. O País vai lidar com os impactos cumulativos da alta da taxa básica de juros e o esgotamento do impulso na atividade provocado pela normalização dos serviços presenciais.

“Não se espera uma queda da ocupação ao longo do ano, mas uma ampliação do número de desocupados, de pessoas fazendo um busca efetiva por um emprego”, diz o economista da consultoria Tendências.

https://www.estadao.com.br/economia/brasileiros-sem-emprego-qualificado/

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