Uma sala de aula “inteligente” desenhada para aprimorar a aprendizagem

Instalar sensores em salas de aula apenas transforma a rotina escolar em um Big Brother ou realmente contribui para o aprendizado?

Elissaveta M. Brandon – Fast Company Brasil – 25-04-2023

Em um mundo onde tudo é inteligente – celulares, relógios, TVs e até bengalas –, era apenas uma questão de tempo até que as salas de aula também se tornassem.

A Academy for College Preparation & Career Exploration, uma escola localizada no bairro do Brooklyn, em Nova York, criou uma sala “inteligente” para alunos do 6º ano do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio.

A sala conta com uma pequena biblioteca, assentos confortáveis para leitura e cabines individuais de estudo. Também é equipada com um tablet que serve como painel de controle e dois sensores em cada parede.

Os sensores podem rastrear com que frequência os alunos falam, a qualidade de suas conversas, as palavras que usam e quantos deles estão falando durante a aula. É importante ressaltar que eles não são capazes de identificar alunos específicos, apenas o número de vozes, o que ajuda a proteger a privacidade dos estudantes.

“Funciona como um aplicativo de monitoramento para sala de aula”, explica Danish Kurani, que tem um escritório de arquitetura de mesmo nome e que projetou a sala.

A escola decidiu procurá-lo porque, há cinco anos, identificou lacunas na formação dos alunos, muitos dos quais falam inglês como segunda língua. Para tentar resolver o problema, a instituição começou a monitorar o progresso dos estudantes por meio de atividades e avaliações a cada seis semanas. “Isso ajudou bastante”, conta Joan Mosely, diretora da escola. 

No entanto, ela acredita que a tecnologia de Kurani pode levar as coisas a um novo patamar, permitindo monitorar o desempenho dos alunos diariamente e usar esses dados para tomar decisões informadas sobre como ensiná-los melhor. “Os professores costumam descobrir como seus alunos estão se saindo tarde demais”, argumenta Mosely.

À primeira vista, a ideia de uma sala de aula com vigilância constante, em que cada palavra é registrada, pode parecer controversa, mas esse conceito não é novo.

Em 2019, por exemplo, a Universidade Carnegie Mellon desenvolveu um sistema chamado EduSense, capaz de rastrear aspectos como a postura (um indicador de envolvimento) ou quanto tempo os professores esperam antes de chamar a atenção dos alunos. Ele foi testado em 45 salas de aula em três universidades.

De acordo com Andreas Schleicher, pesquisador que é atualmente diretor de educação e habilidades na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), sediada em Paris, a tecnologia, se aplicada de forma correta, tem o potencial de ajudar os professores a ficarem mais sintonizados com as necessidades dos alunos.

“A grande vantagem, para mim, é que os professores não são escravos desses algoritmos, mas sim os designers por trás dele”, acrescenta.

Kurani desenvolveu a tecnologia junto com a escola, ou seja, os professores foram, de fato, os designers da sala de aula “inteligente”. Antes de instalar os sensores, ele e um cientista da computação da Universidade Wesleyan testaram um protótipo no laboratório do campus para se certificar de que poderia capturar, identificar e transcrever corretamente várias vozes.

Para Kurani, isso pode servir como uma ferramenta de ensino para que os professores tenham mais consciência e informações sobre seus alunos, sobre o impacto do que ensinam ou mesmo sobre o interesse dos estudantes pela matéria.

Podem, por exemplo, informá-los de que apenas dois ou três alunos estão respondendo em um determinado momento, o que poderia sugerir que outros não se sentem à vontade para fazer o mesmo ou não estão prestando atenção.

Existem várias razões pelas quais isso pode acontecer, desde uma disposição ruim das carteiras, que não estimula a discussão, até um tema monótono ou irrelevante. O objetivo é promover “um momento de autorreflexão”, ressalta Kurani, que deu aula nas universidades de Stanford e Harvard.

“Talvez eu, como professor, esteja abordando mais coisas do que os alunos conseguem acompanhar. Talvez não esteja criando as condições para um aprendizado baseado em discussão. Talvez o formato da aula não seja convidativo para os alunos.” Sim, eu sei que são muitos “talvez”, mas o ensino é inerentemente cheio de incertezas.

É importante lembrar que os sensores são apenas parte de um design de sala de aula mais holístico, no qual cada elemento trabalha junto para melhorar a formação dos alunos.

A biblioteca da sala conta com livros e revistas escolhidos pelos próprios estudantes e jogos focados em linguagem. Além disso, na entrada, há um papel de parede feito sob medida para ajudá-los a aumentar seu vocabulário.

Em última análise, a ideia é que a tecnologia possa dar aos professores mais clareza e conhecimento sobre si mesmos e sobre seus alunos, o que, por sua vez, pode ajudar a abrir caminho para um ambiente de ensino mais flexível.


SOBRE A AUTORA

Elissaveta Brandon é colaboradora da Fast Company. saiba mais

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Uma sala de aula “inteligente” desenhada para aprimorar a aprendizagem

Instalar sensores em salas de aula apenas transforma a rotina escolar em um Big Brother ou realmente contribui para o aprendizado?


Elissaveta M. Brandon – Fast Company Brasil – 25-04-2023

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Os sensores podem rastrear com que frequência os alunos falam, a qualidade de suas conversas, as palavras que usam e quantos deles estão falando durante a aula. É importante ressaltar que eles não são capazes de identificar alunos específicos, apenas o número de vozes, o que ajuda a proteger a privacidade dos estudantes.

“Funciona como um aplicativo de monitoramento para sala de aula”, explica Danish Kurani, que tem um escritório de arquitetura de mesmo nome e que projetou a sala.

A escola decidiu procurá-lo porque, há cinco anos, identificou lacunas na formação dos alunos, muitos dos quais falam inglês como segunda língua. Para tentar resolver o problema, a instituição começou a monitorar o progresso dos estudantes por meio de atividades e avaliações a cada seis semanas. “Isso ajudou bastante”, conta Joan Mosely, diretora da escola. 

No entanto, ela acredita que a tecnologia de Kurani pode levar as coisas a um novo patamar, permitindo monitorar o desempenho dos alunos diariamente e usar esses dados para tomar decisões informadas sobre como ensiná-los melhor. “Os professores costumam descobrir como seus alunos estão se saindo tarde demais”, argumenta Mosely.

À primeira vista, a ideia de uma sala de aula com vigilância constante, em que cada palavra é registrada, pode parecer controversa, mas esse conceito não é novo.

Em 2019, por exemplo, a Universidade Carnegie Mellon desenvolveu um sistema chamado EduSense, capaz de rastrear aspectos como a postura (um indicador de envolvimento) ou quanto tempo os professores esperam antes de chamar a atenção dos alunos. Ele foi testado em 45 salas de aula em três universidades.

De acordo com Andreas Schleicher, pesquisador que é atualmente diretor de educação e habilidades na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), sediada em Paris, a tecnologia, se aplicada de forma correta, tem o potencial de ajudar os professores a ficarem mais sintonizados com as necessidades dos alunos.

“A grande vantagem, para mim, é que os professores não são escravos desses algoritmos, mas sim os designers por trás dele”, acrescenta.

Kurani desenvolveu a tecnologia junto com a escola, ou seja, os professores foram, de fato, os designers da sala de aula “inteligente”. Antes de instalar os sensores, ele e um cientista da computação da Universidade Wesleyan testaram um protótipo no laboratório do campus para se certificar de que poderia capturar, identificar e transcrever corretamente várias vozes.

Para Kurani, isso pode servir como uma ferramenta de ensino para que os professores tenham mais consciência e informações sobre seus alunos, sobre o impacto do que ensinam ou mesmo sobre o interesse dos estudantes pela matéria.

Podem, por exemplo, informá-los de que apenas dois ou três alunos estão respondendo em um determinado momento, o que poderia sugerir que outros não se sentem à vontade para fazer o mesmo ou não estão prestando atenção.

Existem várias razões pelas quais isso pode acontecer, desde uma disposição ruim das carteiras, que não estimula a discussão, até um tema monótono ou irrelevante. O objetivo é promover “um momento de autorreflexão”, ressalta Kurani, que deu aula nas universidades de Stanford e Harvard.

“Talvez eu, como professor, esteja abordando mais coisas do que os alunos conseguem acompanhar. Talvez não esteja criando as condições para um aprendizado baseado em discussão. Talvez o formato da aula não seja convidativo para os alunos.” Sim, eu sei que são muitos “talvez”, mas o ensino é inerentemente cheio de incertezas.

É importante lembrar que os sensores são apenas parte de um design de sala de aula mais holístico, no qual cada elemento trabalha junto para melhorar a formação dos alunos.

A biblioteca da sala conta com livros e revistas escolhidos pelos próprios estudantes e jogos focados em linguagem. Além disso, na entrada, há um papel de parede feito sob medida para ajudá-los a aumentar seu vocabulário.

Em última análise, a ideia é que a tecnologia possa dar aos professores mais clareza e conhecimento sobre si mesmos e sobre seus alunos, o que, por sua vez, pode ajudar a abrir caminho para um ambiente de ensino mais flexível.


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Banco recomenda a funcionários evitar roupa amassada, mau hálito e chulé

Itens fazem parte de carta a empregados em que instituição alerta para cuidados com imagem

Por Álvaro Campos, Valor — 19/04/2023

O Banco Inter enviou carta aos funcionários alertando para cuidados com a imagem, com uma espécie de cartilha de bons modos. “Os detalhes podem até parecer ‘nada demais’, mas eles podem prejudicar [e muito] a sua imagem”, diz o texto.

A comunicação traz uma lista de 14 itens a se evitar a todo custo. Elas incluem roupas com pelos de animais; celular com capinha suja; calçados estragados; mau hálito e chulé; barba mal feita; cabelo desarrumado; maquiagem excessiva; caneta com tampa mastigada; perfume forte; lingerie aparecendo; roupas com bolinhas; vestimentas amassadas ou manchadas; unhas e sobrancelhas mal cuidadas; e acessórios velhos e estragados.

“Sim, sabemos que esse é um assunto muito desagradável! Mas quem nunca, né? Todos estão sujeitos a essas coisinhas”, diz o documento.

Procurado, o Inter afirmou que respeita a individualidade de cada um de seus colaboradores. “O material em questão foi revisado e passou por alterações”, afirmou, sem dar mais detalhes.

Para Rachel Rua, diretora de conteúdo da iO Diversidade, uma consultoria com foco em diversidade e inclusão dentro dos ambientes corporativos, “boa aparência” já foi critério velado de exclusão racial em anúncios de emprego durante muitas décadas no Brasil. “Mesmo com os avanços recentes nas pautas de diversidade e inclusão, sabemos que dois terços dos profissionais brasileiros conhecem alguém que já sofreu preconceito, discriminação, algum tipo de humilhação ou deboche em seu ambiente de trabalho”, explica. 

Segundo ela, estilo e estética estão relacionados a diferentes formas de expressão cultural. “Corte de cabelo, uso de maquiagem, vestuário e acessórios são elementos culturais, e restrições ao seu uso são muitas vezes mobilizadas para reafirmar uma estética e cultura branca normativa, em detrimento de outras”.

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China acelera em inteligência artificial para fazer frente ao ChatGPT

Sequência de anúncios por gigantes de tecnologia do país asiático movimenta setor; comparação é complexa

Raphael Hernandes – Folha – 23.abr.2023

No fértil terreno encontrado pela inteligência artificial (IA) do tipo geradora de conteúdo nos últimos meses, empresas chinesas têm sido praticamente as únicas a fazer alguma frente à predominância das big tech dos EUA. Uma série de anúncios de sistemas chineses voltados à linguagem marca uma resposta na corrida que ganhou destaque com o lançamento do ChatGPT, no final do ano passado. Por mais que existam nomes de destaque em outras localidades, é do setor privado desses dois países que têm surgido boa parte das principais novidades recentes. Publicamente, as empresas chinesas apertaram o passo desde março, e nomes como Alibaba, Baidu, Huawei e Tencent divulgaram perspectivas de lançamentos ou aprimoramentos em suas versões dos chamados grandes modelos de linguagem —rivais do GPT, o motor do sistema da americana OpenAI. 

Trata-se de inteligências artificiais focadas em conteúdo textual: podem processar a comunicação escrita, responder perguntas, montar sequências de frases que parecem ter sido feitas por humanos, fazer traduções e gerar códigos de programação. Apesar de nuances na arquitetura dos algoritmos, as versões apresentadas por essas empresas chinesas têm estrutura semelhante àquelas de nomes como Google, Meta (Facebook) e Microsoft, e as tarefas desempenhadas são, em essência, as mesmas. 

Relatório encabeçado pela Universidade Stanford (EUA) lançado no início de abril destaca a participação de ambos os países no setor. E não só competindo. De acordo com o documento, a ponte entre China e Estados Unidos foi a líder nas colaborações entre nações para a produção de artigos científicos sobre IA na última década, por mais que o crescimento anual da parceria venha desacelerando. “Apesar de EUA e China continuarem a dominar a área de pesquisa e desenvolvimento de IA, os esforços estão se diversificando geograficamente”, ressalva o relatório, que teve apoio de empresas como Google, OpenAI, Linkedin e Github, as três últimas ligadas à Microsoft. A participação da Índia em estudos especializados, por exemplo, vem crescendo. 

O documento, no entanto, destaca a dianteira chinesa nas produções acadêmicas sobre IA, enquanto os EUA lideram no quesito investimento com, US$ 47,4 bilhões (cerca de R$ 234 bilhões) em 2022 ante US$ 13,4 bilhões (R$ 66 bilhões) da segunda colocada China. China, terra do meio Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados; exclusiva para assinantes. Carregando… Uma comparação entre os resultados práticos desse dinheiro gasto não é tarefa simples, primeiro devido à disponibilidade: apesar de anunciadas, as versões mais atuais desses sistemas não são de fácil acesso ao público. Além das comunicações oficiais das empresas, é possível apenas analisar documentos que acompanham algumas dessas tecnologias, com informações técnicas sobre sua estrutura e desempenho. PUBLICIDADE 

O rebuliço causado pelo ChatGPT, que conquistou a marca recorde de 100 milhões de usuários dois meses após seu lançamento, exigiu uma resposta rápida de concorrentes que não necessariamente tinham produtos no mesmo grau de maturidade, como o Ernie Bot, considerado um dos mais avançados na China. O robô da Baidu, empresa especializada em buscas, tem formato de conversas à la Bing (Microsoft), que tem o GPT por baixo dos panos. A ferramenta propõe funcionalidades semelhantes, além de geração de imagens e fala, como demonstrado em vídeos. Hoje só pode ser acessado por meio de convites seletos. O Ernie também mostra que o valor gasto não conta toda a história. 

O relatório de Stanford coloca a produção de sua versão 3.0, lançada em 2021 e uma das bases do Bot, como cerca de cinco vezes mais barata do que a do GPT-2, de 2019, e 180 vezes mais barata que a do GPT-3, de 2020. No geral, o gasto tem subido ao longo do tempo. Para redução de custos, os artigos técnicos da Baidu citam um conjunto de técnicas propostas por pesquisadores da Universidade Tsinghua, baseada em Pequim. 

Impor limites para o comportamento das IAs é uma dificuldade enfrentada pelo setor como um todo. A principal diferença é no rigor da linha traçada, mais estrita no caso chinês. Os termos de uso do GLM-130B, modelo especializado em inglês e chinês lançado pela Universidade Tsinghua em 2022, incluem restrições para aplicações que minem o governo do país. “Você não usará este software para qualquer ação que possa minar a segurança ou unidade nacionais da China, prejudicar o interesse público da sociedade ou infringir direitos e interesses de seres humanos”, diz trecho da licença. 

Nos EUA, os termos de uso não fazem referência a segurança nacional ou interesses do país, mas, para os sistemas criados por empresas como Google e Microsoft, o desafio de limitar as respostas surge ao tentar evitar que as ferramentas falem abobrinhas ou forneçam, por exemplo, orientações para criar armas químicas. A China também responsabiliza os criadores dos algoritmos, que deverão fornecer os detalhes de seus sistemas para um registro estatal, por eventuais conteúdos inapropriados gerados. 

 A dificuldade de manter o conteúdo dentro das linhas impostas pelo regime chinês já levou à suspensão de outras tecnologias semelhantes, mesmo as projetadas no próprio país, onde conteúdos da internet com temas considerados sensíveis pelo governo são barrados. O ChatGPT também não funciona por lá. Como os grandes modelos de linguagem são gerados ao analisar bilhões de textos, em que a IA detecta padrões e passa a reproduzi-los, uma alternativa pode ser limitar a informação que alimenta os robôs, embora essa filtragem traga desafios. Como o conteúdo é volumoso, é difícil descartar tudo o que pode ser problemático, e adotar um conjunto já previamente censurado, por outro lado, pode reduzir demais a quantidade de entradas para o modelo, derrubando seu desempenho. Assim como a OpenAI, a Baidu não esclarece que dados usou para montar seu software mais moderno. 

A revista Wired especula que o conteúdo veio da internet chinesa, ou seja, com limitações devido à censura. Nesses sistemas, num primeiro momento, tudo o que é absorvido está para jogo, incluindo conteúdos perigosos, imprecisos ou eticamente reprováveis. Na sequência, inicia-se um outro processo de treinamento com humanos para definir o que o robô pode ou não dizer. Nada disso é 100% eficaz. Na prática, após testar o Ernie, jornais como The Washington Post e Nikkei Asia relataram uma experiência menos fluída do que com o GPT. Em partes, pelas restrições impostas pelo governo chinês. Ao ser questionado sobre o líder do país, Xi Jinping, o sistema afirma ser um robô que ainda está aprendendo e, na sequência, força o recomeço da conversa, relata a publicação americana. 

Além do direcionamento fornecido por humanos, os pesquisadores da Baidu dizem que também conseguiram melhorias na qualidade das informações ao incluir uma camada de “conhecimentos” factuais para o robô. Assim, o Ernie obteve resultados expressivos em testes de referência. Só que ele não está sozinho. Nesses ensaios, as ferramentas são submetidas a tarefas padronizadas para medir seu desempenho. Um robô que classifica imagens, por exemplo, analisa um conjunto de fotos catalogadas por humanos para ver o quanto acerta —na prática, as missões são bem mais complexas. É o que possibilita algum tipo de comparação entre os sistemas, mas isso só vai até a página dois. 

De acordo com os pesquisadores de Stanford, essas referências estão ficando saturadas: após avanços a galope registrados ano a ano há até pouco tempo, há hoje pouquíssimo avanço no desempenho a cada lançamento porque as medidas não foram feitas para comportar as tecnologias atuais. No fim, muitas dessas ferramentas podem alardear resultados expressivos em algumas das principais referências usadas hoje. E fica em aberto onde exatamente estão as falhas de cada um. O Ernie 3.0 chegou a liderar o SuperGLUE, conjunto de testes para robôs focados em linguagem criado em 2019 por pesquisadores das universidades Nova York e Washington, do Facebook, da Deepmind e da Samsung. 

Agora, o modelo da Baidu é o quarto colocado na lista liderada pelo Vega, da varejista chinesa JD. Não trata-se, porém, de uma métrica geral das melhores IAs. É uma medida entre várias disponíveis, e alguns concorrentes de peso, entre os quais o GPT-4, nem sequer foram oficialmente aferidos nessa régua. Sem contar que os sistemas podem ter versões otimizadas para se dar melhor em determinadas provas. A ferramenta da OpenAI é destaque retumbante em uma série de outros testes. Lidera um bastante popular no setor, o MMLU. Numa comparação direta, um estudo feito por pesquisadores da universidade Hainan (China) —ainda não publicado oficialmente e sem revisão por pares— analisa GPT-4, Ernie e Tongyi Qianwen (Alibaba). Com uma bateria de tarefas feitas para entender o desempenho dos sistemas ao extrair e interpretar informações, a conclusão é a de que o modelo da OpenAI é o mais maduro. 

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/04/china-acelera-em-inteligencia-artificial-para-fazer-frente-ao-chatgpt.shtml

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Brasil está prestes a se tornar o maior exportador de milho do mundo

O país pode superar os Estados Unidos como maior exportador de milho, algo que aconteceu apenas em 2013

A produção brasileira de milho deve alcançar 124,9 milhões de toneladas (+10,4% em relação ao ano passado), das quais 76,3% correspondem a esta segunda safra (Álvaro Resende/Embrapa Milho e Sorgo/Exame)

Exame/AFP – Publicado em 21 de abril de 2023 

Em sua fazenda em Sinop, no Mato Grosso, o produtor rural Ilson José Redivo terminou o plantio de milho há algumas semanas, imediatamente depois da colheita de soja no mesmo terreno. 

A “safrinha”, que começou nos anos 1980 como um cultivo secundário, superou há uma década a colheita de verão e, graças a ela, espera-se que o Brasil alcance um novo recorde de produção.

Com isso, o país pode superar os Estados Unidos como maior exportador de milho, algo que aconteceu apenas em 2013.

Nesta região do Centro-Oeste, os campos se estendem até perder de vista.

Ilson José encadeia as duas culturas, soja e depois milho, em “quase 100%” de suas terras, que ocupam 1.550 hectares. A colheita do grão acontece em junho.

A produção brasileira de milho deve alcançar 124,9 milhões de toneladas (+10,4% em relação ao ano passado), das quais 76,3% correspondem a esta segunda safra, segundo o último relatório da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), publicado na semana passada.

E tudo isso apesar do “atraso na colheita de soja” devido ao “excesso de chuva” em Mato Grosso, o principal produtor de soja e milho do país e onde o inverno temperado e a distribuição de chuvas possibilitam uma segunda safra anual.

– Com ajuda dos transgênicos –

O aumento do preço do milho, impulsionado especialmente pela abertura de usinas de etanol produzido com base neste cereal a partir de 2017, estimulou os produtores a investirem na “safrinha”, explica o produtor rural à AFP. 

“A segunda safra de milho se tornou mais atrativa, compramos mais fertilizantes, sementes geneticamente melhoradas e máquinas agrícolas que permitem um plantio mais rápido e preciso”, afirma Ilson José.

Além disso, foi possível “aumentar a superfície” destinada ao grão, “melhorar nossa produtividade e, com isso, aumentar nossa produção de forma significativa”.

As variedades transgênicas ocupam atualmente quase a totalidade dos campos de milho no país.

Com as previsões atuais de produção, “o país deve aumentar seu excedente para exportação”, opina João Pedro Lopes, analista de mercado de commodities para a consultoria StoneX.

Existe alta demanda pelo milho brasileiro, em especial devido aos problemas que enfrentam exportadores tradicionais como Estados Unidos e Argentina, afetados pelo clima, e também a guerra na Ucrânia.

Ademais, essa demanda é impulsionada pela abertura do mercado chinês, após a assinatura de um acordo entre o governo brasileiro e Pequim no início de 2022, destaca Lopes.

– Desafios –

De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), o Brasil poderia exportar 52 milhões de toneladas de milho este ano, frente às 31,9 milhões de toneladas em 2022, e superar assim o país norte-americano, cujas projeções de exportação são estimadas em 49 milhões de toneladas.

“O Brasil está se impondo como concorrente dos Estados Unidos e tem capacidade de fazer sua produção crescer ainda mais. Ainda há muita superfície disponível para o cultivo”, em espaços agrícolas já existentes, “e podemos melhorar nossa produtividade”, garante Enori Barbieri, vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho).

Contudo, para continuar melhorando o seu desempenho internacional, ao mesmo tempo em que lida com uma demanda interna crescente – impulsionada pelas necessidades do setor de proteína animal e de etanol -, o Brasil deverá superar alguns desafios.

O país deve “ter condições de elevar os investimentos em máquinas e equipamentos no campo”, para que “as atividades de semeio e colheita sejam realizadas de forma mais acelerada”, além de continuar melhorando “a infraestrutura logística para o escoamento da produção”, adverte Lucilio Alves, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea).

Por outro lado, a capacidade de armazenamento continua sendo insuficiente, assinala Ricardo Arioli, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

De acordo com as suas estimativas, o déficit de armazenamento apenas em Mato Grosso foi “de quase 60 % nas últimas safras” de soja e milho.

https://exame.com/agro/brasil-esta-prestes-a-se-tornar-o-maior-exportador-de-milho-do-mundo/

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Por que a política industrial está de volta

Ricardo Hausmann – project-syndicate Jan 26, 2023 

CAMBRIDGE – Após décadas relegada às margens do pensamento econômico, a política industrial está ensaiando um retorno. Com mais países implementando medidas para apoiar determinados setores e estabelecer outros novos, o renascimento da política industrial foi um tópico importante na reunião deste ano do Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Os US$ 280 bilhões dos EUA para a Lei CHIPS and Science são um exemplo desse argumento. A nova legislação busca expandir o setor de semicondutores americano, a fim de diminuir a dependência do país da China e assegurar sua supremacia tecnológica. De modo parecido, a enganosamente chamada Lei de Redução da Inflação (Inflation Reduction Act – IRA) dispõe de US$ 370 bilhões em subsídios à transição energética. Os países da União Europeia, em pé de guerra com a discriminação dos programas americanos contra fornecedores estrangeiros e com a violação de normas internacionais e da UE que proíbem subsídios estatais específicos para um setor, planejam responder aliviando suas próprias regras de subsídios. Enquanto isso, um terço do € 1,8 trilhão (US$ 2 trilhões) em financiamento de investimentos no Plano de Recuperação NextGenerationEU financiará o Green Deal Europeu, introduzido em 2019 para ajudar países-membros a investir em projetos de energia limpa.  E a tendência não se resume aos países ocidentais: a Indonésia impôs um veto às exportações de minério de níquel para promover seu setor de baterias de veículos elétricos. Taís políticas econômicas existem desde a aurora da Revolução Industrial. Nas últimas décadas, contudo, economistas têm questionado a utilidade delas. 

Governos não deviam escolher vencedores, diz o argumento, mas sim deixar o mercado alocar recursos entre setores de modo a refletir as preferências do consumidor e as possibilidades tecnológicas. Pela mesma lógica, legisladores deveriam intervir no mercado somente quando tiverem informação o bastante para concluir que alguma externalidade está fazendo o mercado funcionar mal. E mesmo assim, diriam os detratores, governos podem piorar as coisas somando seus próprios fracassos – por exemplo, o sequestro de políticas econômicas por atores em busca de lucro – àqueles do mercado. Com a revolução Reagan-Thatcher e a emergência do chamado Consenso de Washington na década de 80, esses argumentos se tornaram consagrados em uma nova ortodoxia. Contudo, desde então teóricos econômicos têm passado a reconhecer o valor de políticas industriais. Hoje sabemos que há muitos casos em que a intervenção do governo se justifica. A pergunta, portanto, não é se políticas industriais deviam existir, mas como devem ser administradas. 

Por exemplo, aprender fazendo era visto como um fenômeno grande e importante que exigia intervenções na política econômica muito antes dos economistas se atinarem a isso. Há farta evidência de que muitas empresas e setores melhoram ao longo do tempo à medida que acumulam experiência de produção. Em 1936, o engenheiro aeronáutico Theodore Wright formulou o que hoje é conhecido como Lei de Wright, que estabelece que os custos caem de modo exponencial com o acúmulo da produção. Durante a Segunda Guerra Mundial, o exército dos EUA usou essa lei em seus contratos de aquisição para se beneficiar da economia de custos. A ideia, porém, só apareceu na economia com um artigo de Kenneth Arrow publicado em 1962. Desde então, ela foi usada para justificar proteção a setores nascentes, compromissos de mercado avançados e subsídios como aqueles incluídos na IRA.

Poder de mercado é outra imperfeição que exige intervenção pública. Para esse fim, a Lei CHIPS permite aos EUA combater o domínio chinês. O receio é que a China possa usar esse domínio como uma arma econômica, do mesmo modo que os EUA usam seu domínio do sistema financeiro e de certas tecnologias para sancionar outros países. A Lei CHIPS busca reduzir a vulnerabilidade da economia americana à pressão chinesa.

Todas essas intervenções têm a ver com interferir nos preços de mercado para tornar certos setores, como os de semicondutores ou energia renovável, mais lucrativos e, portanto, maiores do que seriam sem elas. Mas outra forma de intervenção governamental diz respeito à complementaridade entre bens públicos e privados. Por exemplo, carros exigem estradas, semáforos, regras de condução e policiais. Trens precisam de trilhos e estações. Veículos elétricos exigem estações de recarga amplamente disponíveis. E todos os setores dependem de trabalhadores com capacitações específicas. Esses insumos são afetados de modo explícito e implícito pelas políticas econômicas dos governos, que são essenciais para criar as condições adequadas para o crescimento e a prosperidade amplamente compartilhada. O único jeito de os governos conseguirem fornecer a combinação certa de bens públicos é se envolver com o maior número de setores possível. 

Políticas industriais não têm a ver com escolher vencedores, mas com garantir que a oferta de bens públicos melhore a produtividade o máximo possível. Como não podem contar com a mão invisível do mercado para coordenar as ações de milhares de agências públicas e os efeitos de milhões de páginas de legislação, governos têm de estar embutidos e comprometidos. Por isso é que, nos países democráticos, há tantas câmaras de comércio e grupos lobistas tentando influenciar o fornecimento de bens públicos de maneiras que ampliem as oportunidades para criação de valor de seus setores. Sem dúvida, esses grupos também podem se envolver em busca de lucro, mas a competição democrática é capaz de manter tal comportamento longe. Nada disso significa que todo governo deveria imitar as políticas caras que parecem estar na moda nesses dias. Legisladores deveriam focar nos problemas atuais de seus países e escolher as soluções mais apropriadas. 

Copiar as soluções de outros países para problemas que não se tem, ou focar em temas do momento que não são realmente importantes, é uma receita para a ineficácia, se não para um desastre. Por exemplo, diversificar para novos setores – um objetivo-chave em muitos países – requer identificar os bens públicos de que esses setores precisam e ajudá-los com o processo de aprendizagem. À medida que a descarbonização leva à emergência de novos mercados e setores, governos vêm tentando entender como ser parte da transição verde

Outros países podem querer diminuir as desigualdades regionais, integrar suas universidades em um vibrante ecossistema de inovação ou acelerar o desenvolvimento abordando falhas antigas no fornecimento de insumos cruciais como eletricidade, água, mobilidade, capacitação e serviços digitais. Para enfrentar esses desafios, governos precisam ter acesso a todas as ferramentas de política econômica que possam ajudá-los a encontrar soluções. Descartar essas ferramentas como “política industrial”, como alguns costumam fazer, não faz delas menos necessárias. Tradução por Fabrício Calado Moreira

Ricardo Hausmann

Ricardo Hausmann, a former minister of planning of Venezuela and former chief economist at the Inter-American Development Bank, is a professor at Harvard’s John F. Kennedy School of Government and Director of the Harvard Growth Lab.

https://www.project-syndicate.org/commentary/why-economists-have-rediscovered-industrial-policy-by-ricardo-hausmann-2023-01/portuguese?barrier=accesspaylog

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Google entra em pânico com a possibilidade da Samsung adotar o Bing como buscador padrão

Por Nico Grant – Estadão/NYT – 18/04/2023

As mudanças começaram após a Samsung dizer que considera substituir o Google pelo Bing

THE NEW YORK TIMESEm março, funcionários do Google ficaram chocados quando souberam que a Samsung estava considerando substituir o Google pelo Bing da Microsoft como mecanismo de busca padrão em seus dispositivos. Por anos, o Bing foi um mecanismo de busca em segundo plano. Mas se tornou muito mais interessante para os especialistas do setor quando adicionou recentemente nova tecnologia de inteligência artificial (IA).

A reação do Google à ameaça da Samsung foi “pânico”, de acordo com mensagens internas revisadas pelo New York Times. Um valor estimado de US$ 3 bilhões em receita anual estava em jogo com o contrato da Samsung. Um adicional de US$ 20 bilhões está vinculado a um contrato semelhante da Apple, que será renovado este ano.

Competidores turbinados por IA, como o novo Bing, estão se tornando rapidamente a ameaça mais séria ao negócio de busca do Google em 25 anos, e em resposta, o Google está correndo para construir um novo mecanismo de busca totalmente novo. Ele também está atualizando a ferramenta atual com recursos de IA, de acordo com documentos internos revisados pelo The New York Times.

As novas funcionalidades, sob o nome de projeto Magi, estão sendo criadas por designers, engenheiros e executivos que trabalham em salas de sprint para ajustar e testar as últimas versões. O novo mecanismo de busca ofereceria aos usuários uma experiência muito mais personalizada do que o serviço atual da empresa, tentando antecipar as necessidades dos usuários.

Lara Levin, porta-voz do Google, afirmou em um comunicado que “nem todas as ideias de produto ou conceitos de brainstorming levam a um lançamento, mas, como já dissemos antes, estamos animados em trazer novas funcionalidades alimentadas por IA para a busca e compartilharemos mais detalhes em breve”.

Bilhões de pessoas usam o mecanismo de busca do Google todos os dias para encontrar desde restaurantes e direções até entender um diagnóstico médico – essa simples página branca com o logo da empresa e uma barra vazia no meio é uma das páginas mais usadas no mundo. Mudanças nela teriam um impacto significativo na vida das pessoas comuns, e até recentemente, era difícil imaginar qualquer coisa desafiando-a.

O Google tem se preocupado com concorrentes alimentados por IA desde que a OpenAI, startup de São Francisco que trabalha com a Microsoft, apresentou o ChatGPT em novembro. Cerca de duas semanas depois, o Google criou uma força-tarefa em sua divisão de busca para começar a construir produtos de IA, disseram duas pessoas com conhecimento dos esforços, que não foram autorizadas a discuti-los publicamente.

Modernizar seu mecanismo de busca se tornou uma obsessão no Google, e as mudanças planejadas podem colocar novas tecnologias de IA em telefones e casas em todo o mundo.

A ameaça da Samsung representou a primeira rachadura potencial nos negócios de busca aparentemente invulneráveis do Google, que valiam US$ 162 bilhões no ano passado. Embora não estivesse claro se o trabalho da Microsoft com IA era a principal razão pela qual a Samsung estava considerando uma mudança depois dos últimos 12 anos, essa foi a suposição dentro do Google. O contrato está em negociação e a Samsung pode continuar com o Google.

Mas a ideia de que a Samsung, que fabrica centenas de milhares de smartphones com Android (do Google) todos os anos, sequer consideraria a troca de mecanismos de busca chocou os funcionários do Google. Depois que alguns trabalhadores foram informados de que a empresa estava procurando voluntários neste mês para ajudar a reunir material para uma apresentação à Samsung, eles reagiram com emoji e surpresa. “Uau, OK, isso é louco”, respondeu uma pessoa.

Um porta-voz do Google disse que a empresa está continuamente melhorando seu mecanismo de busca para dar aos usuários e parceiros mais motivos para escolher o Google, e que os fabricantes de telefones Android são livres para adotar tecnologias de diferentes empresas para melhorar a experiência de seus usuários.

Samsung e Microsoft se recusaram a comentar.

A busca do Google por IA

O Google tem feito pesquisas em inteligência artificial há anos. Seu laboratório DeepMind em Londres é considerado um dos melhores centros de pesquisa em IA do mundo, e a empresa tem sido pioneira em projetos de IA, como carros autônomos e os chamados modelos amplos de linguagem (LLM), que são usados no desenvolvimento de chatbots.

Nos últimos anos, o Google tem utilizado LLMs para melhorar a qualidade dos seus resultados de busca, mas tem evitado adotar completamente a IA porque ela é propensa a gerar declarações falsas e tendenciosas.

Agora, a prioridade é vencer a próxima grande corrida da indústria. No mês passado, o Google lançou seu próprio chatbot, Bard, mas a tecnologia recebeu críticas.

Os planos para o novo mecanismo de pesquisa, que demonstram as ambições do Google em reimaginar a experiência de pesquisa, ainda estão em estágios iniciais, sem cronograma claro para quando lançará a nova tecnologia de pesquisa.

O sistema aprenderia o que os usuários querem saber com base no que estão pesquisando quando começam a usá-lo. E ofereceria listas de opções pré-selecionadas para objetos para comprar, informações para pesquisar e outras informações. Também seria mais conversacional – um pouco como conversar com uma pessoa prestativa.

Conheça o Magi, do Google

Mas muito antes de o mecanismo de pesquisa ser reconstruído, o Magi adicionará recursos ao mecanismo de pesquisa existente, de acordo com documentos internos. O Google tem mais de 160 pessoas trabalhando em tempo integral nele, disse uma pessoa com conhecimento do trabalho.

O Magi manteria anúncios misturados aos resultados da pesquisa. Consultas de pesquisa que poderiam levar a uma transação financeira, como comprar sapatos ou reservar um voo, por exemplo, ainda apresentariam anúncios em suas páginas de resultados.

Isso é importante para o Google, uma vez que os anúncios de pesquisa são a principal forma de obter receita. O Bard não apresenta anúncios, e há uma expectativa na indústria de tecnologia de que as respostas de IA em mecanismos de pesquisa possam tornar os anúncios menos relevantes para os usuários.

As adições de pesquisa planejadas também podem responder perguntas sobre codificação de software e escrever código com base no pedido do usuário. O Google pode colocar um anúncio sob as respostas de código de computador, de acordo com um documento.

Na semana passada, o Google convidou alguns funcionários para testar os recursos do Magi e os encorajou a fazer perguntas de acompanhamento ao mecanismo de busca para avaliar sua capacidade de manter uma conversa. Espera-se que o Google lance as ferramentas ao público no próximo mês e adicione mais recursos no outono, de acordo com o documento de planejamento.

A empresa planeja lançar inicialmente os recursos para um máximo de 1 milhão de pessoas. Esse número deve aumentar progressivamente para 30 milhões até o final do ano. Os recursos estarão disponíveis exclusivamente nos EUA.

Outros produtos com IA

O Google também explorou possibilidades para permitir que as pessoas usem a tecnologia de mapeamento do Google Earth com ajuda da IA e procurem música por meio de uma conversa com um chatbot, escreveu um diretor do Google em um documento. Outras ideias de produtos estão em vários estágios de desenvolvimento. Uma ferramenta chamada GIFI usaria a IA para gerar imagens nos resultados de imagens do Google.

Outra ferramenta, Tivoli Tutor, ensinaria aos usuários um novo idioma por meio de conversas de texto aberto com a IA. Outro produto, o Searchalong, permitiria que os usuários fizessem perguntas a um chatbot enquanto navegam na web pelo navegador Chrome do Google. As pessoas poderiam perguntar ao chatbot sobre atividades próximas a um aluguel do Airbnb, por exemplo, e a IA analisaria a página e o resto da internet em busca de uma resposta.

Jim Lecinski, ex-vice-presidente de vendas e serviços do Google, disse que a empresa foi provocada à ação e agora precisa convencer os usuários de que é tão “poderosa, competente e contemporânea” quanto seus concorrentes. “Se somos o principal mecanismo de busca e esta é uma nova atribuição, um novo recurso, uma nova característica dos mecanismos de busca, queremos ter certeza de que estamos nessa corrida também”, disse Lecinski, professor de marketing na Northwestern University, em uma entrevista. /TRADUÇÃO DE ALICE LABATE

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Reciclagem, coprocessamento e economia circular: um caminho sem volta

É urgente aplicar os princípios da economia circular de ponta a ponta em toda a cadeia produtiva

Simon Sinek: para o antropólogo, o objetivo não é fazer negócios com alguém que apenas quer o que você tem, mas com pessoas que acreditam no que você acredita (TED/Divulgação)

Simon Sinek: para o antropólogo, o objetivo não é fazer negócios com alguém que apenas quer o que você tem, mas com pessoas que acreditam no que você acredita (TED/Divulgação)

Enrico Milani, colunista Exame – Publicado em 14 de abril de 2023

Na indústria como um todo, atingimos um patamar no qual é inviável não pensarmos mais em alternativas como reciclagem e coprocessamento quando o assunto são os resíduos. Não podemos mais produzir da mesma forma que fazíamos décadas atrás.

Quais são os desafios da economia circular na indústria?

Falando especificamente do setor em que atuo, a indústria de alimentos, é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que é essencial para a sociedade, gera muitos resíduos, especialmente quanto aos efluentes industriais – biológicos e químicos – além dos resíduos sólidos.

Segundo o estudo “Cidades e Economia Circular dos Alimentos”, da Fundação Ellen MacArthur, precisamos superar o chamado sistema moderno linear de produção de alimentos, conhecido pela extração de recursos finitos, desperdício e poluição, prejudicial ao meio ambiente.

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Getnet retira 4.3 milhões de peças de plástico nas bobinas de papel

O levantamento aponta que, de modo geral, para cada dólar gasto em alimentos, pagamos dois dólares em custos ambientais, econômicos e de saúde. Metade desse montante – cerca de US$ 5,7 trilhões anuais – está relacionado à maneira como os alimentos são produzidos.

A pesquisa também traz o dado de que o setor agroalimentar responde, globalmente, por quase um quarto das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e que o equivalente a seis caminhões de lixo de alimentos próprios para o consumo são perdidos ou desperdiçados a cada segundo. Ainda, nas cidades, menos de 2% dos nutrientes biológicos de coprodutos e resíduos orgânicos, excluído o esterco, são compostados, valorizados ou reaproveitados de outra forma.

Diante desse cenário, é urgente fazermos da produção de alimentos um processo pautado pela economia circular, sendo necessário pensarmos em ações de ponta a ponta da cadeia. Para os resíduos orgânicos, as possibilidades de destinação vão além da compostagem e incluem o reaproveitamento em biodigestores, capazes de transformar lixo em energia, que pode ser utilizada na própria indústria ou na comunidade.

Resíduos como plásticos, papéis, vidros e metais, por sua vez, são enviados para a reciclagem, em parcerias com cooperativas, fomentando a economia sustentável. Já o coprocessamento é o destino do que não tem como ser encaminhado para biodigestores ou reciclagem, tornando-se combustível para cimenteiras.

Contudo, não devemos pensar apenas em soluções para o pós-produção. Evitar o uso excessivo de açúcares, gorduras e aditivos – como os conservantes, corantes, emulsificantes, etc. – também reflete positivamente na sustentabilidade, já que é comprovado que os alimentos ultraprocessados causam impactos negativos não apenas na saúde de quem os consome, mas também no meio ambiente.

Adquirir insumos da agricultura familiar e de produtores orgânicos é outro caminho para a indústria de alimentos. Afinal, como pontua Simon Sinek em Comece pelo porquê: como grandes líderes inspiram pessoas e equipes a agir, “o objetivo não é fazer negócios com alguém que apenas quer o que você tem, mas com pessoas que acreditam no que você acredita.”

É também de Sinek que empresto a reflexão final deste texto. Para um negócio ser efetivamente sustentável, é crucial que isso seja incorporado aos princípios da organização. Colaboradores precisam ser envolvidos e essas questões devem estar claras no recrutamento.

De nada adianta ter processos focados em sustentabilidade se as pessoas ao redor são excluídas. Os resultados são naturalmente melhores quando nos vemos em uma companhia em que a cultura dá match com a nossa, em lugares onde vemos nossos próprios valores impressos.

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Enrico Milani

ColunistaEnrico Milani atua como CEO da Vapza Alimentos desde 2018, empresa familiar que atua desde 2005. Tem em seu currículo a formação em Engenharia de Produção pela PUC-PR e Advanced Management Program pela ESADE Barcelona.

https://exame.com/esg/reciclagem-economia-circular-industria/

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Subsídios de Biden já atraíram US$ 200 bi em investimentos

Compromissos de investimentos de empresas americanas e estrangeiras nos EUA neste ano já são o dobro do registrado em 2021 e 20 vezes mais o total de 2019, segundo levantamento do ‘Financial Times’

Por Amanda Chu e Oliver Roeder — Valor/Financial Times – 17/04/2023

Os compromissos de investimentos no setor industrial dos EUA já somam mais de US$ 200 bilhões desde que o Congresso aprovou amplos subsídios no ano passado, mostrando que o esforço do presidente Joe Biden para desencadear uma nova revolução industrial estão ganhando ímpeto.

Os investimentos em tecnologias limpas e semicondutores são quase o dobro dos compromissos feitos nos mesmos setores em 2021, e quase vinte vezes mais que o total de 2019, segundo dados compilados pelo “Financial Times”.

Em 2019, o “FT” identificou quatro projetos avaliados em torno de US$ 1 bilhão em cada um desses setores, e depois de agosto de 2022 havia 31 projetos desse tamanho.

Mais de US$ 40 bilhões em investimentos estavam planejados desde o começo do ano. Mas depois que as gigantes asiáticas LG, Hanwha e LONGI anunciaram acordos no último mês, o total dos grandes investimentos subiu para US$ 204 bilhões em 14 de abril.

“Vemos agora uma significativa movimentação com relação a investir nos EUA”, disse a secretária de Energia americana, Jennifer Granholm, na semana passada, referindo-se ao aumento dos investimentos nos últimos meses.

A Lei de Redução da Inflação (IRA, na sigla em inglês), sancionada em agosto, inclui US$ 369 bilhões em créditos fiscais para tecnologias limpas, como parte das promessas do governo Biden para descarbonizar a economia americana. A Lei dos Chips, também aprovada em agosto, inclui US$ 39 bilhões em recursos para estimular a produção de semicondutores e US$ 24 bilhões em créditos fiscais para sua fabricação. Ambas visam romper a dependência dos EUA das cadeias de suprimentos chinesas.

As políticas industriais atraíram críticas de aliados europeus e asiáticos, que alegam que os grandes subsídios e exigências feitas pelos EUA configuram protecionismo. O presidente da França, Emmanuel Macron, que visitou a China na semana passada numa tentativa de melhorar as relações de Paris com Pequim, disse que a IRA poderá “fragmentar o Ocidente”.

A União Europeia (UE) anunciou em março sua própria estratégia industrial, com cláusulas para equiparar subsídios em projetos sob o risco de ir para o exterior.

Embora a maioria das promessas de fabricação nos EUA desde agosto tenha vindo de fornecedores internos, cerca de um terço é de empresas sediadas no exterior, segundo os dados do “FT”. Taiwan, Coreia do Sul e Japão respondem pela maior parte dos investimentos estrangeiros.

O “FT” rastreou mais de 75 projetos industriais avaliados em pelo menos US$ 100 milhões cada, para fábricas de semicondutores, veículos elétricos, baterias e componentes de energia renovável, que foram anunciados desde que as leis foram sancionadas em agosto.

Os anúncios criarão cerca de 82 mil empregos, aponta a análise. Mais projetos deverão ser anunciados nos próximos meses, conforme o governo americano fornece mais informações às empresas sobre os créditos fiscais.

“A magnitude desses investimentos é bastante impressionante”, diz Cullen Hendrix, pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics. “Isso é uma tentativa de ir do zero aos 100 km/h em termos de desenvolvimento de cadeias de suprimentos de uma forma que não víamos há muito tempo.”

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2023/04/17/subsidios-de-biden-ja-atrairam-us-200-bi-em-investimentos.ghtml

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O home office vai acabar? No pós-pandemia, empresas começam a questionar modelo

Por Felipe Siqueira e Bruna Klingspiegel – Estadão – 14/04/2023

Big techs como Meta e Twitter, por exemplo, têm preferido modelos cada vez mais presenciais, o que pode impactar as empresas no cenário nacional; discussão pode virar queda de braço entre empregador e empregado

Três anos após o início da pandemia que forçou o home office nas empresas, a discussão sobre o melhor modelo de trabalho ainda não foi superada. Se de um lado há profissionais que se recusam a trabalhar em empresas que não permitem o trabalho remoto, do outro, executivos e empresários começam a demonstrar incômodo em relação à ausência dos funcionários no ambiente corporativo. Entre as justificativas estão a perda do chamado fit cultural e até de queda na eficiência dos profissionais.

No exterior, o movimento é liderado pelas big techs. Recentemente, Mark Zuckerberg movimentou as redes sociais com um post sobre o futuro da Meta, conglomerado que abarca companhias de tecnologia como o Facebook – que fundou em 2004 -, Instagram e Whatsapp. No texto, ele elencou os objetivos para 2023, em uma espécie de “carta aberta” aos funcionários, e explicou quais caminhos deverão ser tomados para uma guinada “mais eficiente”, nas palavras do executivo.

Além do cortes de vagas, redução no volume de contratações e cancelamentos de projetos com baixa prioridade, ele também encorajou os funcionários a encontrarem mais oportunidades de trabalho com os colegas presencialmente. Segundo Zuckerberg, isso tem a ver com produtividade.

“Em nossa análise inicial, que vai demandar ainda mais estudos, percebemos que tanto engenheiros que começaram a trabalhar conosco de maneira presencial e depois foram para o modelo remoto quanto os que se mantiveram no escritório tiveram melhores performances em relação aos que iniciaram a jornada de maneira remota”, disse ele, em comunicado.

Essa mudança para mais trabalho presencial, visando produtividade, não é peculiaridade só da Meta. Após concluir a compra do Twitter, Elon Musk aboliu o trabalho remoto, obrigando os funcionários – que restaram após a onda de demissões – a estarem presentes nas respectivas sedes – seja da rede social ou da Tesla (empresa de carros elétricos). No comunicado aos funcionários, ele teria dito que o home office já não é mais aceitável.

Outro exemplo veio do mercado financeiro. O JP Morgan anunciou na quarta-feira, 12, que orientou seus diretores administrativos a trabalhem todos os cinco dias úteis da semana no escritório. Com isso, o banco encerra oficialmente o modelo híbrido de trabalho para os executivos administrativos, adotado pela instituição ao longo da pandemia de covid.

“Nossos líderes desempenham um papel crítico no reforço de nossa cultura e na administração de nossos negócios”, destaca o banco, em comunicado enviado para os funcionários por e-mail. “Eles devem estar visíveis no local, devem se reunir com os clientes, precisam ensinar e aconselhar e devem estar sempre acessíveis para feedback imediato e mensagens improvisadas.”

No Brasil, o movimento também tem ganhado corpo. A XP Investimentos, por exemplo, já sinalizou que o modelo de trabalho à distância não tem ajudado a empresa. Em março, o fundador da companhia, Guilherme Benchimol, se encontrou com analistas do mercado e admitiu que contratou demais nos últimos anos e que o modelo de trabalho remoto prejudicou o desempenho da empresa.

A instituição chegou a iniciar um projeto, durante a pandemia, de mudança de sede, para uma complexo em São Roque, chamado Villa XP. O espaço seria um local para os funcionários se confraternizarem e interagirem. A ideia remetia ao modelo de sede da Apple, em Cupertino, no Estados Unidos. Hoje o projeto está sendo reestruturado, segundo entrevista de Benchimol ao InfoMoney, que faz parte do grupo.

Para o diretor executivo do PageGroup, Lucas Oggiam, o movimento de empresas de grande porte tende a ditar o ritmo dos negócios em determinados setores. Na opinião do executivo, o home office será cada vez menos visto neste ano e nos próximos. Isso porque as companhias têm seguido para modelos de trabalho híbrido, com um, dois ou três dias em casa durante a semana, ou até mesmo regimes presenciais.

“Mais de 95% das empresas para quem a gente recruta trabalha com o modelo híbrido, com exceção daquelas funções que efetivamente as pessoas precisam exercer presencialmente. Então, nos parece que o caminho vai continuar sendo esse”, diz.

Segundo Oggiam, para muitos gestores, há uma percepção de produtividade ligada ao fato de as pessoas estarem sentadas em um local apropriado para desempenhar determinada função, ao lado dos colegas. Além disso, a vasta maioria das companhias teve de avançar radicalmente em 2020 em direção ao modelo de trabalho remoto. O problema é que elas não estavam preparadas para essa movimentação – nem os gestores nem os colaboradores.

Como algumas experiências podem ter sido negativas, por causa dessa falta de preparo e também de experiência, os empregadores agora querem voltar a uma realidade anterior à pandemia. “Muitos chefes não se sentem confortáveis com a gestão à distância, seja por insegurança em relação à tecnologia necessária ou até mesmo porque não se sentem confiantes de que o time vai efetivamente trabalhar e respeitar o horário”, explica Oggiam.

Muitos chefes não se sentem confortáveis com a gestão à distância,

Lucas Oggiam, diretor executivo da PageGroup

Um reflexo desse movimento contrário ao home office pode ser visto nas vagas para trabalho remoto no mercado. Dados recentes do LinkedIn, rede social voltada para carreiras, mostram que as ofertas de emprego em home office estão “sumindo” do radar. Em fevereiro de 2022, 40% dos anúncios publicados na plataforma eram na modalidade remota. No mesmo período deste ano, a proporção caiu para 25%.

O interesse dos profissionais, no entanto, não tem desacelerado na mesma medida, o que acaba provocando uma queda de braço entre empregador e empregado. Um levantamento da empresa de recrutamento Robert Half mostra que 57% dos profissionais empregados estão dispostos a procurar um novo trabalho caso a empresa opte pelo retorno 100% presencial.

Para especialistas na área de recrutamento, a dificuldade de adaptação às transformações do mercado podem criar obstáculos na contratação de talentos e de retenção de profissionais-chave. Eles destacam que é preciso avaliar com cuidado a questão da produtividade quando o assunto é trabalho presencial.

Além disso, as empresas têm de considerar os custos com o retorno ao escritório, como energia, alimentação, vale-transporte de funcionários e até mesmo locação de espaço, que podem pesar muito no balanço para as companhias. E o trabalho presencial pode se tornar ainda mais caro se os colaboradores estiverem insatisfeitos.

Uma das coisas que Oggiam, do PageGroup, destaca é a adequação de espaços físicos para as empresas. “Muitas companhias reduziram o espaço que tinham, por exemplo, na Faria Lima, que saíram de dois andares e se mantiveram com apenas um.” Para o executivo, as empresas precisam encontrar o equilíbrio. “Ter pedidos de demissão porque a pessoa não está satisfeita (por conta do deslocamento ao trabalho, por exemplo) torna-se uma dor de cabeça gigantesca. O maior custo dentro de uma empresa é não ter a pessoa certa na cadeira certa”, conclui Oggiam.

O Estadão consultou as big techs sobre o assunto. Apple, Meta e XP afirmaram que não iriam comentar o tema. A reportagem não conseguiu contato com o Twitter. Amazon e Microsoft explicaram que o trabalho híbrido tem sido a tônica nas companhias, sendo que o remoto pode ser oferecido em áreas específicas de cada empresa.

Como saber qual o modelo de trabalho ideal para a empresa?

Para entender o que precisa ser considerado na hora de uma empresa decidir qual modelo de trabalho é o ideal, o Estadão pediu para o PageGroup e para a Robert Half elencarem pontos que necessitam atenção neste tema. Confira os principais a seguir:

  • O primeiro ponto é entender que tipo de empresa se quer construir, qual a cultura organizacional será implementada e qual o objetivo eu tenho. É preciso entender como o trabalho híbrido, remoto ou presencial se encaixa dentro de tudo isso.
  • Quem é seu cliente? É necessário saber qual a expectativa que o cliente tem em relação ao serviço que vai ser prestado e se é possível executá-lo de maneira remota. O tipo de função vai ser determinante neste tema
  • Conheça o seu público interno: antes de escolher um modelo de trabalho. É importante entender as necessidades e desejos dos funcionários da empresa. Isso pode ser feito por meio de pesquisas, rodas de conversa, entrevistas de contratação ou de desligamento.
  • Considere as características da empresa: infraestrutura, localização e facilidade de acesso da empresa também são fatores importantes a serem considerados ao escolher um modelo de trabalho.
  • É importante avaliar o que outras empresas do mesmo segmento estão fazendo em relação ao modelo de trabalho. Observe a movimentação, mas considere o contexto em que a empresa está inserida. O que funciona para uma big tech pode não funcionar para uma empresa de química no interior de São Paulo, por exemplo.
  • Com base em informações nesta linha, explica o gerente da Robert Half, Leonardo Berto, a empresa deve fazer uma matriz de risco para avaliar as vantagens e desvantagens de cada modelo de trabalho em relação ao negócio, ao perfil do público interno e aos objetivos da empresa. E ele também ressalta que é importante lembrar: o modelo de trabalho escolhido não precisa ser definitivo e pode ser adaptado conforme as mudanças nas necessidades da empresa e do mercado. “A flexibilidade é essencial para garantir a competitividade da empresa”, diz.

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