The Economist: Região central do Brasil agora se parece com o Texas

De acordo com a revista britânica, interior brasileiro é uma terra de ‘brutos’, não de playboys

Por Estadão/The Economist – 24/09/2023 

Pense no Brasil e, se você for como a maioria das pessoas, a imagem de praias com palmeiras, samba e caipirinhas virá à sua mente. Esse clichê precisa ser atualizado. Nas últimas duas décadas, o centro de gravidade da política e da economia começou a mudar das costas úmidas, às quais se dizia que os brasileiros se agarravam “como caranguejos”, para as vastas e áridas planícies da região central do País. A trilha sonora de lá é o sertanejo. A bebida preferida é a cerveja gelada.

O censo do Brasil, o primeiro em 12 anos, mostrou uma tendência importante quando foi publicado em junho. Sete dos dez municípios que mais cresceram estão na região agrícola do Sudeste e no Centro-Oeste do País. A população do Centro-Oeste, que inclui os Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além da capital Brasília, cresceu 1,2% ao ano, mais do que o dobro da taxa nacional.

O Sudeste ainda tem a maior parcela da população brasileira e do dinheiro – o Estado de São Paulo, sozinho, é responsável por um terço do PIB do Brasil e é o lar de um quinto da população nacional. Mas, até mesmo em terras paulistas, é na região agrícola onde a população e a economia estão crescendo mais.

As migrações no Brasil não são novidade. O deslocamento daqueles do Nordeste pobre para o polo industrial em torno da cidade de São Paulo influenciou bastante a economia e a cultura do País na segunda metade do século 20. O atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, é o mais famoso dos milhões que fizeram essa travessia. Depois de a fome assolar sua cidade natal em Pernambuco, sua mãe colocou os oito filhos em um pau-de-arara e seguiu em direção ao sul do País.

Lula ganhou destaque como líder sindical na indústria automobilística nas proximidades de São Paulo. Agora, quando as pessoas saem do Nordeste, elas tendem a ir para a região central do Brasil. O que mudou foi a percepção de quais atividades podem proporcionar uma vida melhor, disse Carlos Vian, da Universidade de São Paulo (USP). “Antes, era a indústria; não mais.”

O ímã que atraiu Lula para São Paulo perdeu força. Em meados da década de 1980, a indústria representava um terço do PIB do Brasil; hoje ela responde por apenas 10%. O superávit do País no setor, US$ 6 bilhões em 2005, tornou-se um déficit de US$ 108 bilhões em 2019. A produção na indústria e nos serviços estagnou ou encolheu.

A agricultura, a base da economia brasileira no século 19, está de volta. O País ainda exporta café e açúcar, que já foram cultivados em plantações onde pessoas escravizadas trabalhavam. Desde o início dos anos 2000, a demanda voraz da China tem estimulado um aumento da produção de soja, grãos e carne. As exportações agrícolas, como parte do total, mais do que quadruplicaram desde 2000, para 40%.

Atualmente, o setor é responsável por um quarto do PIB e emprega uma parcela semelhante de trabalhadores. De 2002 a 2020, a economia de Mato Grosso, o reduto da soja, cresceu 4,7% ao ano em termos reais, mais do que a de qualquer outro Estado e mais do que o dobro da taxa nacional.

O boom do agronegócio está mudando aos poucos a demografia e a cultura. Na década de 1970, mais de quatro quintos do crescimento populacional ocorriam nas maiores cidades. Nos últimos 12 anos, durante os quais a população cresceu mais lentamente, dois terços do crescimento ocorreram em cidades de médio porte.

A cidade de Sinop, um polo da soja em Mato Grosso, é um exemplo da tendência. O Estado tinha poucos habitantes até meados do século 20. Sucessivos governos se propuseram a povoar a região central do País. Órgãos foram criados para oferecer terrenos e crédito baratos às pessoas que se mudassem para lá. Eles se multiplicaram durante a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. Sinop, fundada em 1974, tem o nome de uma das empresas que se propôs a povoar esta parte do País.

No início, a vida era difícil para esses novos moradores (embora tenha sido ainda mais difícil para os povos indígenas que eles expulsaram). A terra cor de ferrugem produzia pouco e as doenças se alastravam depressa. A tecnologia veio para ajudá-los. Na década de 1980, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu uma variedade de soja que prosperava nos solos ácidos da região. Entre os beneficiários estava o pai de Juliano Antoniolli, que chegou em Sinop em 1981, antes de as fazendas terem acesso à eletricidade. Naquela época, o centro da cidade era “apenas uma grande poça de lama”, disse Antoniolli, fazendeiro, 38 anos.

Agora, quatro mil cabeças de gado perambulam ao lado das plantações de soja e milho em sua propriedade de 2.400 hectares perto de Sinop. Drones pulverizam fertilizantes e tratores John Deere puxam arados. Três receptores da Starlink, empresa de internet via satélite de Elon Musk, conectam a fazenda à internet. Antoniolli emprega 12 pessoas em tempo integral e outros trabalhadores temporários durante a época da colheita. Ele paga em média um salário de RS 8 mil por mês, três vezes o salário médio do Brasil. Ele vende a maior parte de seus produtos para a Cofco, uma gigante chinesa do setor de alimentos.

O soft power do sertanejo

Graças ao dinheiro e aos empregos trazidos pelo boom agrícola, não apenas para os agricultores, mas para os trabalhadores da construção civil e outros, a população de Sinop aumentou 73% nos últimos 12 anos, chegando a 200 mil. Hoje uma cidade com rotatórias e concessionárias de automóveis, ela se assemelha mais a um povoado no sul dos Estados Unidos do que às metrópoles na costa do Brasil. Um posto de gasolina se autodenomina Texas, e um açougue, Super Beef.

Com a influência econômica vêm outros tipos de influência. O sertanejo tornou-se o estilo musical mais popular do Brasil. Em 2003, 16% das músicas mais tocadas nas rádios brasileiras eram desse gênero. Em 2022, três quartos delas eram sertanejo. Um subgênero, o agronejo, faz referências ao agronegócio. O cantor Luan Pereira compôs um hit com menções a uma Dodge Ram, uma caminhonete americana robusta e a favorita dos barões da soja.

O vídeo teve quase 100 milhões de visualizações nos últimos seis meses no YouTube. Alguns cantores sertanejos se autodenominam “brutos”, em oposição aos “playboys” da cidade. “Cinco playboy não faz o que um bruto faz (sic)”, vangloria-se na música o DJ Kévin, usando um chapéu de cowboy, ao lado de Pereira.

A confiança do sertanejo representa um desafio para Lula e seu governo. Por um lado, o Planalto acolhe o crescimento econômico que acompanha a expansão agrícola. Por outro, preocupa-se com seu custo ambiental e suas implicações políticas. A agricultura está crescendo em parte às custas do cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, ficando atrás apenas da Amazônia.

Os donos dessas terras tendem a ser fãs de Jair Bolsonaro, o presidente de direita que Lula derrotou nas eleições do ano passado. (Aliás, segundo um site de notícias, Antoniolli estava entre os apoiadores do ex-presidente que atacaram as sedes dos três poderes em Brasília, em janeiro, em protesto contra a posse de Lula. Ele disse ao site ter saído dali assim que o vandalismo começou.)

Em resposta ao censo, o Supremo Tribunal Federal do Brasil fixou um prazo em agosto para a primeira redistribuição de cadeiras na Câmara desde 1993. O Nordeste favorável a Lula sairá perdendo, enquanto a região central agrícola ganhará.

Lula iniciou seu terceiro mandato em janeiro (ele esteve no poder de 2003 a 2010) como inimigo da agropecuária. Durante a campanha eleitoral, propôs limitar as exportações de carne bovina para manter os preços no País baixos. No entanto, desde então, tem tentado melhorar a relação com o agronegócio, oferecendo mais apoio e, ao mesmo tempo, persuadindo-o a ser mais sustentável. No dia 27 de junho, anunciou que o governo disponibilizaria R$ 364 bilhões em empréstimos subsidiados a agricultores, o maior plano de crédito rural do Brasil. Os produtores que utilizam energia renovável e agrotóxicos não químicos serão beneficiados com os empréstimos mais baratos.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), criado na década de 1950 para promover a indústria, está mudando o foco para o financiamento da agricultura. Em 2009, o agronegócio recebeu apenas 5% dos empréstimos do banco. No ano passado, quase um quarto dos recursos financeiros do BNDES foram destinados à agricultura e menos de um quinto à indústria. É improvável que a distribuição volte a mudar sob o governo de Lula.

Muitos produtores afirmam apoiar o esforço do governo em tornar a agricultura mais sustentável. Daniel Freire, chefe de uma rede de frigoríficos no Pará, disse que sua empresa precisa de licenças ambientais para as exportações com destino à Europa e aos EUA.

“Para exportar para os melhores mercados do mundo, é importante melhorar nossos padrões sanitários e ambientais”, afirmou. Em abril, o Parlamento Europeu aprovou uma lei que, a partir do final do próximo ano, obrigará os produtores de commodities a comprovar se seus produtos contribuem ou não para o desmatamento desde 2020.

Contudo, em particular, muitos produtores reclamam da legislação ambiental. Eles se opõem, e às vezes desrespeitam, ao Código Florestal que obriga os agricultores do cerrado a manter entre 20% e 35% de vegetação nativa em suas propriedades. Alguns produtores e fazendeiros avançam para dentro da floresta tropical em Estados como o Pará, onde a exigência é mais rigorosa (80% da sua floresta devem ser preservadas), porém a fiscalização é ainda mais fraca.

O Brasil é um dos poucos países onde as terras para cultivo continuam em expansão. O Departamento de Agricultura dos EUA estima que até 2031 outros 20 milhões de hectares, cerca de um quarto da área atual de cultivos, estarão produzindo. Mas o crescimento não precisa significar derrubar árvores. Acredita-se que cerca de 170 milhões de hectares de pastagens sejam subutilizados.

Se os agricultores cultivassem soja em apenas 10 milhões desses hectares, poderiam aumentar a produção em 40 milhões de toneladas por ano na próxima década, praticamente 10% da produção global de hoje, disse Daniel Amaral, da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais.

A produção de cada hectare também pode aumentar. Os produtores brasileiros de milho cultivam uma média de seis toneladas métricas por hectare, metade do que os agricultores americanos plantam. Uma infraestrutura melhor poderia alavancar os lucros e os investimentos. Os caminhões que transportam os grãos do Mato Grosso para o porto precisam percorrer uma estrada de mil quilômetros toda esburacada.

As despesas do Brasil com a logística são equivalentes a 12,1% do Produto Interno Bruto, em comparação com os 7,6% dos EUA. Os produtores têm muito a ganhar com um governo que invista na redução desses gastos.

Em lugares como Sinop, o futuro parece promissor. No entanto, crescem os temores de que o sucesso dos produtores brasileiros possa conter as sementes da sua ruína. O desmatamento do cerrado poderia mais cedo ou mais tarde levar à redução das chuvas. Os sinais da pressão das mudanças climáticas já começaram a surgir. O sertanejo poderia perder sua confiança qualquer dia desses.

https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-regiao-central-brasil-texas/

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Comer, amar e viver cem anos

Conexões reais, um dos pilares para a longevidade, podem não ser facilmente substituídas pelas virtuais

Ronaldo Lemos* – Folha – 24.set.2023 

Está na moda agora falar das “blue zones”. São as regiões do planeta onde as pessoas vivem mais do que o esperado, ultrapassando cem anos. Por exemplo, Icária, a ilha grega no mar Egeu, a península de Nicoya na Costa Rica, as ilhas de Okinawa no Japão, ou ainda, a comunidade adventista Loma Linda na Califórnia. Lugares completamente diferentes, mas com a longevidade (e saúde) dos seus habitantes em comum. No streaming tem até documentário recente sobre o tema (que não vi). 

Vários estudos tentam fazer a “engenharia reversa” dessas regiões, buscando o segredo da vida longa e saudável. Por exemplo, hábitos alimentares. Várias das regiões consomem 90% ou mais de alimentos de origem vegetal, com destaque para feijão preto, batata doce, lentilha e soja (consumida como tofu). Praticamente não consomem leite e derivados nem açúcar. 

O consumo de carne (na maior parte de porco) ocorre cerca de cinco vezes por mês em porções pequenas. Peixe também é consumido em pequenas quantidades. Várias blue zones, mas não todas, consomem vinho, limitado a uma ou duas taças por dia. 

Muita gente olha para esses dados e chega à conclusão: basta adotar a dieta das blue zones para viver mais de cem anos. Nada mais equivocado. O ponto em comum entre todas essas regiões não é a dieta. É a qualidade dos relacionamentos. Em todas as blue zones as pessoas cultivam relações fortes e duradouras entre si. Esse senso de comunidade é o pilar de uma vida mais longa. 

Essa constatação aparece não só observando as blue zones, mas também no famoso estudo multigeracional de Harvard sobre desenvolvimento adulto que acompanha grupos de pessoas e seus filhos há 85 anos. A mesma conclusão está também em pesquisas do Centro de Longevidade de Stanford: relacionamentos fortes e sociabilização são centrais para uma vida saudável. 

A questão que permanece em aberto é justamente o impacto da tecnologia sobre as relações pessoais. Será que o virtual produz efeitos similares às conexões reais? Por exemplo, em Loma Linda os habitantes se unem fortemente por laços religiosos. Em Okinawa as pessoas praticam o “moai”, hábito de cultivar um grupo de cinco amigos, comprometidos pela vida toda. 

Em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia as pessoas não estariam se tornando individualizadas e desconectadas umas das outras? Seria a tecnologia a força capaz de dinamitar um dos pilares da longevidade? Mesmo que o número de conexões virtuais cresça, sua qualidade decai. 

Um estudo do instituto Gallup determinou que os laços de amizade não são iguais. Há pelo menos oito tipos de amigos que são vitais ao longo da vida. O “construtor”, que ajuda na nossa formação. O “colaborador”, com quem fazemos projetos juntos. O “conector”, que nos apresenta a pessoas importantes, e assim por diante. Dificilmente esses papéis podem ser desempenhados online. 

Vale lembrar também da pesquisa feita nos EUA em 2019, que apontou que 22% dos millenials têm zero amigos. Em gerações anteriores, o número dos sem-amigos girava em torno de 9%. São pessoas que vivem no oposto de uma blue zone. Estão mais próximos de uma zona sombria, de mau presságio para todos nós. 

Já era Valores coletivos e comunidades homogêneas 

Já é Individualismo propelido pela tecnologia 

Já vem Aspiração de restaurar o equilíbrio entre individualismo e coletividade como pilar da política contemporânea 

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2023/09/comer-amar-e-viver-cem-anos.shtml

Leia também: Coluna Evandro Milet https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/desenvolvimento-e-codinome-de-produtividade/

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A inteligência artificial não quer só seu emprego; quer substituir a realidade

O barateamento da fabricação de conteúdo torna o verídico indistinguível do fake

Joel Pinheiro da Fonseca – Folha – 24.jul.2023

A greve de atores e roteiristas de Hollywood segue a todo vapor. Não sei se será bem-sucedida, mas, no que diz respeito ao diagnóstico, os profissionais do cinema acertaram na mosca: o uso da Inteligência Artificial (IA) ameaça seus empregos.

Muito em breve será possível fazer um filme do zero, gerado inteiramente por IA, que seja indistinguível de um filme com atores reais. E, se é possível usar a voz e imagem de pessoas reais para encenar obras de ficção que eles nunca encenaram, é possível também usar sua imagem para atribuir-lhes falas e atos que nunca praticaram, com a intenção de enganar a opinião pública.

No fim de semana da eleição, um vídeo bombástico mostra um dos candidatos falando algo terrível. Não há tempo hábil para encontrar e punir os responsáveis, nem para circular um desmentido no WhatsApp. Vídeos falsos buscando caluniar ou enaltecer personalidades virão de todos os lados. Estaremos perdidos num mar de versões igualmente realistas.

Deixando claro o que está por vir: não estamos falando de um grupo de profissionais de vídeo que, numa noite de trabalho, conseguem editar um vídeo e colocar nele o rosto de um famoso. Estamos falando de qualquer leigo, em sua casa, em dez minutos, gerar dezenas de vídeos realistas completamente inventados de qualquer pessoa que lhe dê na telha. Esse dia ainda não chegou, mas não está distante.

E ele mudará a maneira a como nos relacionamos com conteúdo em vídeo. Até hoje, o vídeo (bem como áudio e foto) trazia consigo uma expectativa de autenticidade. Primeiro, porque é gerado por um processo puramente mecânico a partir da realidade observável —ao contrário, por exemplo, do desenho, que passa pela mente do autor. E, em segundo lugar, porque forjar ou adulterar um vídeo era complexo, trabalhoso e deixava marcas identificáveis.

Não que fosse impossível enganar a opinião pública com uma foto ou um vídeo. Cortes discretos ou a omissão de contexto podem alterar radicalmente o teor e o significado de um vídeo —e isso sem IA nenhuma. Ainda assim, havia uma expectativa de que, por mais descontextualizado ou recortado que estivesse, um vídeo registrava algo que aconteceu. Essa expectativa vai cair, e com o fim dela nasce um novo mundo.

Que na verdade é o mundo antigo, isto é, o mundo em que a humanidade viveu desde sua origem até a adoção da fotografia. Existiam registros no passado? Claro. Só que o texto escrito e a pintura, ao contrário do vídeo e da foto, não trazem consigo nenhuma expectativa intrínseca de veracidade apenas por terem sido registrados naquele meio. Era, portanto, um mundo com mais divergências possíveis a respeito dos fatos. Daqui em diante vídeos e fotos não serão mais confiáveis que palavras e desenhos.

Fatos já são objeto de controvérsia hoje em dia –com “fatos alternativos” ao gosto do freguês. A tendência é isso se intensificar ainda mais. O barateamento da fabricação de conteúdo audiovisual realista nos distancia da realidade, ao tornar o verídico indistinguível do fake. Ao contrário dos profissionais de cinema americanos, não acredito que esse processo possa ser barrado. O que podemos fazer é nos adaptar à mudança.

O papel de instituições capazes de ir atrás da informação, contactar os envolvidos e as testemunhas para validar uma foto ou vídeo se tornará mais importante. Ou seja, o jornalismo seguirá fundamental. Com a queda da confiabilidade técnica, a reputação pessoal também aumentará de valor. E o mais importante será o aprendizado social de um certo ceticismo: não é porque você está vendo, que aconteceu.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-pinheiro-da-fonseca/2023/07/a-inteligencia-artificial-nao-quer-so-seu-emprego-quer-substituir-a-realidade.shtml

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O que é célula de combustível, tecnologia que vai revolucionar a indústria automobilística

País terá em 2024 uma planta-piloto para testar a tecnologia inédita que vai gerar internamente energia para carros elétricos, sem necessidade de carregar na tomada

Por Cleide Silva – Estadão -21/09/2023 

Movido a hidrogênio (H2), o carro a célula de combustível é considerado mundialmente a opção mais viável para o transporte com emissão zero. Uma evolução do veículo elétrico, ele já roda em alguns países, como Japão e EUA, atendendo um nicho ainda pequeno do mercado.

Seu uso em grande escala está distante, principalmente no mercado brasileiro onde, segundo analistas, até mesmo os elétricos devem demorar a se popularizar em razão dos preços e da falta de infraestrutura para carregamento.

Pelo menos na corrida pela fonte geradora do hidrogênio – que vai carregar a bateria do veículo internamente, sem precisar da energia elétrica da tomada –, o Brasil não está tão atrasado.

Enquanto grande parte dos países usa o gás natural para produzir hidrogênio cinza, que vem de fonte fóssil, o Brasil trabalha em projetos para que o etanol seja o vetor do H2 verde.

“Por ser um combustível limpo, não tóxico e com infraestrutura de transporte desenvolvida, o etanol é muito interessante como vetor para o hidrogênio”, afirma Julio Meneghini, diretor científico do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI, na sigla em inglês), da Universidade de São Paulo (USP).

Ele explica que, no futuro, o etanol será entregue ao posto de combustível e este fará o processo de transformação para hidrogênio em um reformador (tanque cilíndrico que, por meio de uma reação química, quebra a molécula do etanol para produzir o hidrogênio). O carro a célula de combustível tem cilindros para receber o H2, e o abastecimento é igual ao de um carro flex (ver infográfico).

Combustível do futuro

Etanol pode ser vetor da produção de hidrogênio verde, hoje feito em sua maioria do gás natural, que é fonte fóssil

Uma parceria liderada pela Shell envolvendo RCGI, Raízen, Hytron, Toyota e Senai Cetiqt anunciou, no mês passado, o início das obras, nas instalações da USP, da primeira estação experimental de abastecimento de hidrogênio renovável do mundo, feito a partir do etanol.

O local também abrigará uma planta de produção de hidrogênio a partir do etanol com um reformador desenvolvido e produzido pela Hytron. A empresa nasceu há cerca de 20 anos como startup dentro da Unicamp e, em 2021, foi adquirida pelo grupo alemão Neuman & Esser (NEA).

Segundo o gerente de tecnologia de baixo carbono da Shell, Alexandre Breda, o mundo inteiro avalia o uso de hidrogênio na mobilidade, inclusive por meio de metanol e amônia. De qualquer forma, é um produto difícil de ser transportado na forma gasosa e muito caro na forma líquida.

O etanol, já usado em carros híbridos flex e em breve em híbridos plug-in, vai ser uma opção, e com vantagens extras, inclusive em relação ao uso de energia eólica e solar no processo, que também começa a ser explorado.

Três plantas de hidrogênio

A Shell e seus parceiros decidiram puxar a agenda para tornar o etanol ainda mais relevante na transição energética, diz Breda. O primeiro passo é a planta-piloto, que receberá investimento de R$ 50 milhões da companhia.

A planta deve entrar em operação no segundo semestre de 2024 e terá capacidade para produzir 50 metros cúbicos de hidrogênio por hora, suficientes para abastecer apenas um automóvel – o Mirai, fabricado no Japão e cedido pela Toyota para os testes – e três ônibus da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo (EMTU), que vão circular no campus da universidade.

“O objetivo da planta-piloto é validar o processo e comprovar a eficiência do etanol”, diz Breda. A validação de cálculos sobre as emissões e custos do processo de produção de hidrogênio, comparativo de desempenho dos veículos e preços ao consumidor ficarão a cargo do RCGI.

“Nossa estimativa no momento é de que o custo da produção de hidrogênio a partir de etanol é comparável ao do hidrogênio do gás natural no contexto brasileiro”, adianta Meneghini. “Já as emissões são comparáveis ao processo de eletrólise da água alimentada com energia eólica.”

No início de 2025, uma segunda planta dez vezes maior, com capacidade para 500 metros cúbicos por hora, será instalada em um cliente industrial da Shell ainda a ser definido. Ela será voltada principalmente ao hidrogênio usado pelas indústrias química, alimentícia, de mineração e siderúrgica, que hoje têm como vetor o gás natural.

Na sequência, há um plano para uma planta capaz de produzir 5 mil metros cúbicos de hidrogênio por hora, mas sua construção dependerá dos resultados de viabilidade da planta experimental e de parcerias com investidores. Não há, ainda, previsão para o fornecimento do hidrogênio sustentável em postos de combustíveis.

Essa fase tem de acompanhar a chegada ao País de automóveis a célula de combustível em maior escala, o que deve demorar, admite Breda. “Principalmente aqui no Brasil, onde ainda vamos passar pela etapa do carro híbrido a etanol, pelos elétricos e depois ir para os de célula a combustível.”

O executivo, no entanto, vê chances de a tecnologia chegar comercialmente mais cedo aos ônibus e caminhões. Seria uma forma de descarbonizar um setor hoje dependente do diesel.

Nossa estimativa no momento é de que o custo da produção de hidrogênio a partir de etanol é comparável ao do hidrogênio do gás natural no contexto brasileiro”

Julio Meneghini, diretor científico do centro de pesquisa da USP

Cerca de 90% do total de hidrogênio usado no mundo é produzido com gás natural. A parte restante está sendo feita por meio de energia eólica e solar, pelo processo de eletrólise. O uso desse tipo de energia renovável deve aumentar ao longo dos próximos anos. Hoje, a produção de hidrogênio verde chega a custar até quatro vezes mais do que a do cinza.

Lá fora, a desvantagem do H2 feito com energia solar e eólica é a intermitência de ventos e sol, dependendo da região. No Brasil, o problema principal é que os locais onde esses fenômenos naturais são frequentes nem sempre são próximos ao mercado consumidor e seu transporte pode encarecer o preço do produto, além de emitir CO2.

Para Meneghini, a logística de transporte do etanol já está disseminada e, com a instalação de reformadores, os próprios postos de combustível poderão produzir o hidrogênio. Já o uso de outro tipo de vetor, como metanol ou gás, exigiria mais estruturas. Um posto de abastecimento de hidrogênio custa cerca de R$ 8 milhões, segundo a GWM.

Em relação aos carros 100% elétricos, a vantagem é que o de célula a combustível, por gerar internamente sua energia, precisa de uma bateria pequena, não recarregável, para dar suporte à transmissão da energia para o motor elétrico.

“Os veículos a hidrogênio são mais leves e poderão ser abastecidos em cinco minutos, enquanto um elétrico precisa ficar a noite inteira na tomada para carregar ou de meia a uma hora se tiver um carregador rápido no posto”, compara Meneghini.

O professor da USP também vê a necessidade de maior urgência dessa tecnologia para caminhões e ônibus. Ele cita que um veículo elétrico desse porte chega a carregar duas toneladas de baterias, o que exige suspensões mais potentes e causa danos no asfalto, por exemplo.

Ele ressalta ainda que o aumento gradual da produção de hidrogênio por meio de energia eólica ou solar também pode trazer vantagens ao Brasil. Em sua opinião, o País pode ser um player mundial na produção de hidrogênio a partir dessas energias renováveis até para exportação.”

Nissan e GWM

A Nissan iniciou, em 2016, testes no Brasil com um carro movido a célula de combustível a etanol e atualmente mantém os estudos no Japão. A empresa informa que “segue nas pesquisas e testes para evoluir a tecnologia para tentar torna-la viável, tanto tecnicamente quanto economicamente”.

Segundo a Nissan, trabalham no projeto equipes de engenharia do Brasil e do Japão. O grupo também avalia usar a mesma tecnologia para célula de combustível para motores estacionários (geradores), que poderão gerar energia para diferentes instalações, como edifícios e fábricas.

A GWM, montadora chinesa que iniciará produção de carros híbridos e elétricos no Brasil a partir do próximo ano, trará para testes ao País, provavelmente no próximo ano, um caminhão movido a hidrogênio já em uso na China. A ideia, segundo a empresa, é que aqui ele use H2 verde gerado a partir de eletrólise da água com energia solar ou eólica ou gerado do etanol.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/carro-eletrico-hidrogenio-etanol/

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O labirinto de Borges

O surgimento dos clones digitais é o começo de uma doce promessa e o início de uma viagem para dentro do labirinto em chamas da identidade e do tempo

Guido Sarti – Fast Company Brasil  30-08-2023 

Há uma teoria não confirmada de que o escritor argentino Jorge Luis Borges nunca existiu. Um dos autores mais importantes do século 20 teria sido inventado por outros três escritores. O que começou com um pseudônimo ganhou corpo, rosto e até um passado.

A figura que conhecemos como Borges seria um ator uruguaio de segundo escalão que lia os originais em primeira mão e recebia instruções do trio sobre o que falar e como se portar em aparições públicas.

Em um dos momentos mais surrealistas do jornalismo mundial, Borges foi perguntado sobre isso em uma entrevista de 1981 ao “El País”. A resposta do a(u)tor só alimentou o mistério e tem um pouco a ver com inteligência artificial, dupes, o mito do original e nossa relação com o tempo.

Jorge Luis Borges (Crédito: Wikipedia)

Vamos olhar para essa história como quem contempla um quadro ou assiste a um filme. É possível criar reflexões a partir de ficções, não é? Pois vamos supor por um instante que essa teoria não confirmada seja verdadeira – isso porque os insights que ela pode nos trazer certamente são.

Essa formidável história borgeana é quase um exemplo de dupe às avessas. O termo dupe vem de “duplicata” e é o nome que se dá para as cópias digitais que hoje a tecnologia nos permite criar. Imagine só uma réplica sua entrando naquela reunião de Zoom que poderia ter sido um e-mail. Se você entregar dados suficientes para a empresa certa, isso pode acontecer já já.

O trio de escritores tinha o trabalho de criar e escrever enquanto o ator uruguaio colhia os louros. Agora, uma nova onda de inteligência artificial usa de um princípio parecido para fazer o contrário: você é clonado digitalmente – ou cria um clone digital – para ter tempo de fazer o que te der na telha, inclusive nada.

Essa é a promessa da Aphid. A empresa criou um produto chamado “aClones”: a ideia é que você coloque esses bots para executar suas tarefas do dia a dia enquanto você ganha dinheiro sem trabalhar. Basta escolher seu bot no marketplace da Aphid – as opções vão desde a negociação de criptomoedas até redação de artigos – e pronto. Cada vez que “você” completa uma tarefa, você – sem aspas – recebe por isso.

O usuário não precisa saber nada de código ou programação, por mais que o resultado da tarefa dependa disso. Esse conhecimento não faz parte da sua job description, mas sim da job description do bot. Em inglês, “aphid” significa “pulgão”, um inseto parasita que se alimenta da seiva das plantas. O pulgão é considerado uma praga agrícola.

“Imagine acordar sorrindo porque tudo o que você precisa fazer é pensar no que quer fazer a seguir, não no que precisa fazer a seguir”, afirmou Brandon Cooper, CEO da Aphid, em reportagem recente da Forbes. “Nosso objetivo é ajudar as pessoas a respirar livremente novamente, para lembrá-las de que não precisam trabalhar o tempo todo”, completa Cooper.

Sim, a inteligência artificial está trabalhando por nós. E algumas perguntas surgem a partir dessa constatação, uma delas fatalmente sendo: mas não é isso que sempre fizemos com a tecnologia?

a ideia é que você coloque os bots para executar suas tarefas do dia a dia enquanto você ganha dinheiro sem trabalhar.

A meta da Aphid é acabar com as oito horas de trabalho, cinco vezes por semana. Não se trata mais de perder o trabalho para um robô. A antiga distopia futurista agora pode dar lugar a uma sedutora utopia em que o trabalho não é mais o dono da nossa vida. 

A partir de gravações de seu rosto e da sua voz, a plataforma Synthesia cria um clone digital seu. Também já existe uma ferramenta que responde mensagens no seu estilo (essa, bem menos sofisticada que as iniciativas citadas previamente, pode funcionar a partir da análise de todas as mensagens que você manda pelo chat da sua rede social favorita). 

Essas ferramentas – por mais difusas e duvidosas que possam parecer em 2023 – tocam em certas feridas que estão abertas pelo menos desde a Revolução Industrial. A questão da identidade e a questão do tempo são algumas delas. 

TEMPO TEMPO TEMPO TEMPO 

O argumento central da publicidade de todas essas plataformas é o mesmo: passe a ser dono do seu próprio tempo. Não por acaso, essa parece ser também a questão central dos nossos tempos.

A depressão e a ansiedade estão mais fortes do que nunca. Fortes a ponto de questionar se não fomos demasiadamente ansiosos e nos precipitamos em dizer que elas foram os grandes males do século passado.

Tenho a impressão de que muitas das questões de saúde mental que atravessam nossa sociedade têm sua origem em como lidamos (ou somos obrigados a lidar) com o tempo. Nossa relação com o tempo e com o trabalho nunca foi tão doentia. Tão nitidamente doentia: nunca se percebeu e se falou tanto a esse respeito.

Arrisco dizer que, excluindo as necessidades mais básicas (saneamento básico, educação, comida, saúde, segurança, água limpa), se a humanidade pudesse escolher um Grande Desejo para o Imenso Gênio da Lâmpada Infinita seria esse: ter mais tempo.

 PINK NEWTON & ISAAC FLOYD

“Não tenho certeza se existo. Sou todos os autores que li, todas as pessoas que conheci, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados”.  Essa foi a resposta de Borges à pergunta do começo do texto. Eu considero essa perspectiva fascinante. A música Breathe, do Pink Floyd, tem uma passagem que diz basicamente a mesma coisa:

And all you touch and all you see

Is all your life will ever be

[Em tradução livre: “Tudo que você toca e tudo que você vê/ É tudo que sua vida será”]

Muito do que chamamos de identidade é um caleidoscópio tridimensional de experiências, memórias e sensações. Essa reflexão tem a ver com o mito do original e com um conceito que me parece mais confuso do que a gente gostaria que fosse: a noção de que as ideias têm dono.

Imagine só uma réplica sua entrando naquela reunião de Zoom que poderia ter sido um e-mail.

Quando percebemos que o conceito de identidade é pouco trivial e flerta com o acaso, a própria noção de propriedade intelectual começa a ficar flácida ao ponto de se tornar quase cínica.

Exemplo: suponhamos que eu sou um poeta passando por uma crise de criatividade. Vou até uma praça em busca de inspiração. Se escrevo um poema sobre uma família tomando sorvete de morango na praça ensolarada, enquanto vejo uma família tomando sorvete de morango numa praça ensolarada, quão ético é o fato de eu recolher direitos autorais sobre o poema e a família não?

Podem dizer que o poeta adiciona subjetividade à cena, mas qual é mesmo o preço da subjetividade? É muito difícil apontar onde termina uma ideia e começa outra. A frase que ficou famosa com Isaac Newton, “se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”, fala exatamente sobre isso. 

TECNOLOGIA NEM-NEM

Como já foi dito, a inteligência artificial não é nem inteligente e nem artificial. Ela é quase como um papagaio com uma memória imensa. Pelo menos por enquanto, não adianta esperar que uma ideia imprevisível, inventiva ou disruptiva seja cuspida por uma dessas plataformas, incapazes de um mero pensamento crítico sequer. Hoje, a IA é quase como se tivéssemos dado anabolizantes a uma ferramenta de auto complete. E o suco vicia, não é mesmo?  

Automatizar uma tarefa é uma coisa. Substituir alguém em uma reunião de Zoom é outra muito mais complexa.

Noam Chomsky, um dos maiores intelectuais e linguistas desse e do último século, há pouco escreveu em um artigo para o “The New York Times“: “na ausência de uma capacidade de raciocinar a partir de princípios morais, o ChatGPT foi grosseiramente restringido por seus programadores a contribuir com qualquer coisa nova para discussões controversas – isto é, importantes. Sacrificou a criatividade por uma espécie de amoralidade”. 

Essas ferramentas prometem um El Dorado que eu ainda não consigo cravar se é tão dourado assim. Mas que são promessas grandiosas, isso são.

A questão é a incapacidade de replicar humores, lapsos de memórias, uma eventual gagueira numa palavra mais cheia de consoante, a resposta de uma pergunta inesperada ou mesmo uma mudança de opinião.

Automatizar uma tarefa é uma coisa. Substituir alguém em uma reunião de Zoom é outra muito mais complexa. Ficaria muito óbvio, a não ser que todos os outros participantes da reunião também fossem clones digitais.

Guido Sarti é sócio da Galeria Ag e professor coordenador na Miami AdSchool. Profissional de dados premiado, foi Head de Novos Negócios e Convergência da Globo. Liderou times de dados na R/GA e foi membro do conselho do CENP.

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The Economist: Como a inteligência artificial pode revolucionar a ciência

A revolução digital talvez ainda não tenha chegado ao fim e novas ferramentas de IA estão sendo aplicadas em quase todas as áreas do conhecimento

Por Estadão/The Economist – 17/09/2023 

O debate sobre a inteligência artificial (IA) tende a focar nos possíveis perigos que ela oferece: preconceitos e discriminação algorítmica, extinção em massa de empregos e até mesmo, segundo alguns, o fim da humanidade. Entretanto, enquanto alguns comentaristas se preocupam com esses cenários distópicos, outros estão focando nos possíveis benefícios que a IA poderia trazer, de acordo com eles, para ajudar a humanidade a solucionar alguns de seus maiores e mais espinhosos problemas. E, segundo eles, a IA fará isso de uma forma muito específica: acelerando radicalmente o ritmo das descobertas científicas, sobretudo em áreas como medicina, climatogia e tecnologias verdes. Grandes nomes da área, como Demis Hassabis e Yann LeCun acreditam que a IA pode turbinar os avanços científicos e levar a uma era de ouro das descobertas. Eles estariam certos?

Tais alegações valem a pena ser analisadas e podem oferecer um contraponto útil aos temores em relação ao desemprego em grande escala e aos robôs assassinos. Sem dúvidas, muitas tecnologias anteriores foram erroneamente anunciadas como panaceias. O telégrafo elétrico foi enaltecido na década de 1850 como um anúncio da paz mundial, assim como as aeronaves na década de 1900; e os especialistas nos anos 1990 diziam que a internet reduziria a desigualdade e erradicaria o nacionalismo. Mas o mecanismo por meio do qual a IA supostamente resolverá os problemas do mundo tem uma base histórica mais forte, porque houve vários períodos na história em que novas técnicas e novas ferramentas ajudaram de fato a provocar uma explosão de descobertas e inovações científicas que mudaram o mundo.

No século 17, os microscópios e telescópios revelaram novas perspectivas de descoberta e encorajaram os pesquisadores a privilegiar suas próprias observações em detrimento da sabedoria recebida da antiguidade, enquanto o surgimento das revistas científicas proporcionou a eles novas maneiras de compartilhar e divulgar suas descobertas. O resultado foi um progresso rápido na astronomia, na física e em outras áreas, além de novas invenções, do relógio de pêndulo ao motor a vapor – a principal força motriz da Revolução Industrial.

Depois, a partir do final do século 19, a criação dos laboratórios de pesquisa, que reuniam ideias, pessoas e materiais em escala industrial, deu origem a mais inovações, como os fertilizantes artificiais, os produtos farmacêuticos e o transistor, o pilar do computador. Desde meados do século 20, os computadores, por sua vez, possibilitaram novas formas de ciência baseadas em simulações e modelos, da concepção de armas e aeronaves até previsões meteorológicas mais precisas.

E a revolução digital talvez ainda não tenha chegado ao fim. As ferramentas e técnicas de IA agora estão sendo aplicadas em quase todas as áreas da ciência, embora o grau de adoção varie bastante: 7,2% dos artigos de física e astronomia publicados em 2022 envolveram IA, por exemplo, em comparação com 1,4% daqueles de ciências veterinárias. A IA está sendo utilizada de várias maneiras. Ela pode identificar candidatos promissores para pesquisas, como moléculas com propriedades específicas na descoberta de medicamentos, ou materiais com as características necessárias em baterias ou células solares. Ela é capaz de examinar pilhas de dados, como aqueles produzidos por aceleradores de partículas ou telescópios robóticos, em busca de padrões. E pode modelar e analisar sistemas ainda mais complexos, como o enovelamento de proteínas e a formação de galáxias. As ferramentas de IA têm sido usadas para identificar novos antibióticos, revelar o bóson de Higgs e detectar sotaques regionais em lobos, entre outras coisas.

Tudo isso é para ser aplaudido. Mas as publicações científicas e os laboratórios foram ainda mais longe: mudaram a própria prática científica e revelaram meios mais poderosos de se realizar descobertas, permitindo que pessoas e ideias se misturassem de novas maneiras e em maior escala. A IA também tem o potencial para desencadear essa transformação.

O uso dela em duas áreas, em particular, parece promissor. A primeira é a “descoberta baseada na literatura”, que envolve a análise da literatura científica existente, usando a análise da linguagem ao estilo do ChatGPT, para procurar novas hipóteses, conexões ou ideias que os humanos possam ter deixado passar batido. A descoberta baseada na literatura está se revelando promissora na identificação de novos experimentos para serem testados – e até mesmo na sugestão de possíveis colaboradores de pesquisa. Isso poderia estimular o trabalho interdisciplinar e fomentar a inovação nas fronteiras entre os campos de estudo. Os sistemas de descoberta baseada na literatura também podem identificar “pontos cegos” em uma determinada área e até mesmo prever descobertas futuras e quem será responsável por elas.

A segunda área é a de “robôs cientistas”, também conhecidos como “laboratórios autônomos”. Eles são sistemas robóticos que usam a IA para formular novas hipóteses, com base na análise de dados e da literatura existentes, e, depois, testam essas hipóteses realizando centenas ou milhares de experimentos, em áreas como biologia sistêmica e ciência dos materiais. Ao contrário dos cientistas humanos, os robôs são menos apegados aos resultados anteriores, menos orientados por preconceitos – e, acima de tudo, são fáceis de se replicar. Eles poderiam aumentar a escala de uma pesquisa experimental, criar teorias inesperadas e explorar caminhos que os pesquisadores humanos talvez nem considerassem.

A ideia de que a IA pode transformar a prática científica é, portanto, factível. Mas a principal barreira é sociológica: isso só pode acontecer se os cientistas humanos estiverem dispostos e capacitados a usar tais ferramentas. Muitos não têm habilidades, nem preparo; alguns temem perder o emprego. Felizmente, há sinais de esperança. As ferramentas de IA agora estão deixando de ser promovidas apenas por pesquisadores de IA e passando a ser adotadas por especialistas de outras áreas.

Os governos e as organizações que financiam as pesquisas poderiam ajudar pressionando por uma maior adoção de regras comuns para permitir que os sistemas de IA troquem entre si e interpretem resultados laboratoriais e outros dados. Eles também poderiam financiar mais pesquisas sobre a integração de sistemas de inteligência artificial com laboratórios de robótica, e formas de IA que vão além daquelas em desenvolvimento no setor privado, que apostou quase todas as suas fichas em sistemas baseados em linguagem, como o ChatGPT. Formas de IA que estão menos na moda, como o aprendizado de máquina baseado em modelos, talvez sejam mais adequadas para as tarefas científicas, como a formulação de hipóteses.

Em 1665, durante um período de avanços científicos rápidos, Robert Hooke, um polímata inglês, descreveu a chegada de novos instrumentos científicos, como o microscópio e o telescópio, como “a adição de órgãos artificiais aos naturais”. Eles permitiam aos pesquisadores explorar territórios anteriormente inacessíveis e fazer descobertas de novas maneiras, “com benefícios extraordinários para todos os tipos de conhecimentos úteis”. Para os sucessores modernos de Hooke, a inclusão da inteligência artificial ao conjunto de ferramentas científicas está preparada para fazer o mesmo nos próximos anos – com resultados semelhantes que mudarão o mundo.

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/the-economist-como-a-inteligencia-artificial-pode-revolucionar-a-ciencia/?utm_source=estadao:app

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Toyota testa nova tipo de fábrica que reduz a produção de horas para minutos

Por Nikkei Asia, Valor — Nagoia (Japão) – 19/09/2023 

Partes de automóvel da Toyota prensados no sistema gigacasting Partes de automóvel da Toyota prensados no sistema gigacasting — Foto: Reprodução: Nikkei Asia

A Toyota Motor exibiu um protótipo de seu novo equipamento de gigacasting, sistema formado por imensas prensas que pode fabricar um terço da carroceria de um carro em cerca de três minutos, um desenvolvimento que será fundamental para seus planos de aumentar a produção de veículos elétricos de forma lucrativa nos próximos anos.

A máquina da fábrica da montadora japonesa em Myochi soltou uma nuvem de fumaça branca enquanto funcionava durante uma recente apresentação para jornalistas. O alumínio fundido derramado foi rapidamente resfriado de 700°C para 250°C, solidificando-se em uma única peça fundida que compõe todo o terço traseiro do chassi do veículo. Normalmente é construído a partir de 86 peças em um processo de 33 etapas que leva horas.

A Toyota pretende explorar esses avanços para reduzir pela metade os processos de produção, o investimento na fábrica e o tempo de preparação da produção, tudo para ajudar na sua busca de vender 3,5 milhões de veículos elétricos por ano até 2030.

A gigacasting será usado para fazer as seções dianteira e traseira de um novo modelo elétrico que será lançado em 2026.

A Toyota construiu seu primeiro protótipo de gigacasting em setembro de 2022. Embora os moldes pesados inicialmente exigissem até um dia para serem trocados, esse tempo foi reduzido para 20 minutos, minimizando o número de peças que precisam ser destacadas. A Toyota pretende alcançar uma produtividade 20% maior do que a concorrência com software proprietário para analisar as condições ideais para moldagem.

Outra peça da estratégia da Toyota, a produção autopropulsada, aborda a necessidade de utilizar o espaço da fábrica de forma mais eficiente para acomodar os novos equipamentos necessários para a produção de veículos elétricos.

Na fábrica da montadora em Motomachi, um carro parcialmente construído, com pneus e bateria, mas sem laterais ou capota, dirige-se a 0,1 metro por segundo até um braço robótico que prende assentos trazidos por um veículo guiado automaticamente. Depois de concluído, o veículo se desloca de forma autônoma para uma área diferente para inspeção e envio.

Essa configuração dispensa correias transportadoras, possibilitando mudanças mais rápidas no layout da planta e reduzindo investimentos. O objetivo da Toyota é reduzir pela metade o tempo de montagem, das cerca de 10 horas atuais.

Os altos custos das baterias tornam difícil a produção lucrativa de veículos elétricos, apenas pela expansão dos métodos de fabricação convencionais. A Tesla – que já adotou a tecnologia gigacasting – manteve-se competitiva em termos de custos ao construir um número limitado de modelos em grandes quantidades.

A Toyota, com sua base pré-existente de tecnologia e equipamentos de fabricação de automóveis e sua ampla linha de modelos, está situada de forma diferente das empresas mais jovens.

“Estamos aprendendo novas opções com fabricantes especializados de veículos elétricos para enfrentar o desafio”, disse o diretor de produção, Kazuaki Shingo.

A Toyota pretende vender 1,5 milhão de veículos elétricos por ano em 2026 – cerca de 60 vezes o total do ano passado. O executivo-chefe (CEO) do Nakanishi Research Institute, Takaki Nakanishi, espera que cerca de 40% sejam construídos na plataforma Toyota New Global Architecture existente, com o restante usando uma plataforma específica para veículos elétricos.

Os chassis convencionais da Toyota também foram concebidos para equilibrar eficiência no desenvolvimento com conforto, mas não se espera que sejam rentáveis em veículos elétricos. A montadora deverá usar seus novos quadros em cerca de 1,7 milhão dos 3,5 milhões de veículos elétricos que pretende vender em 2030.

A Toyota vendeu cerca de 24 mil veículos elétricos em 2022, ficando significativamente atrás das entregas da Tesla, de cerca de 1,31 milhão.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/09/19/toyota-testa-nova-tipo-de-fbrica-que-reduz-a-produo-de-horas-para-minutos.ghtml

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Ideias para você que escreve (ou quer escrever)

Escrever é o superpoder que você pode desenvolver para deixar sua marca no mundo, num post de rede social, num email, numa carta redigida à mão

Por Isabel Clemente* – Valor – 06/09/2023

Oi,

Faz tempo queria te dizer isso: você não precisa de um contrato de publicação de livro para considerar a sua escrita importante. Toda escrita é nobre. Se você está escrevendo um trabalho acadêmico, escreva como quem quer atingir além dos círculos acadêmicos, para espalhar suas descobertas pelo mundo.

Se você está escrevendo material para um livro didático escolar, escreva como quem quer ensinar metade do mundo sobre as maravilhas da ciência, da geografia, da matemática, e a outra metade sobre línguas, arte, educação física. Se o seu trabalho envolve redigir relatórios sobre atividades passadas, pense nas atividades passadas como histórias que precisam ser contadas de forma atraente do princípio ao fim. Guarde um “era uma vez” no canto da mente, e siga pela estrada dos mistérios, dos absurdos, das coisas engraçadas e surpreendentes que farão do seu relato algo mais do que um relatório.

Escrever é o superpoder que você pode desenvolver para deixar sua marca no mundo, num post de rede social, num email, numa carta redigida à mão. Tem gente que ainda faz isso sim.

Livros não surgem da noite para o dia. Livros são feitos de capítulos. Capítulos são feitos de parágrafos. Parágrafos precisam de frases boas, grandes, pequenas, para criar ritmo, para definir sua voz. Alinhar tudo isso leva tempo. Na era do sucesso instantâneo, é tentador acreditar que um livro pode seguir o mesmo caminho de um vídeo que viraliza, de uma gracinha com milhares de compartilhamentos e curtis. Para o bem e para o mal, não é assim. Cada dia é uma oportunidade para você escrever (e reescrever) algo até chegar ao parágrafo perfeito.

Caso você ainda precise de propósitos para começar a escrever com mais frequência, seguem alguns motivos nobres ou muito pelo contrário que podem servir de inspiração.

Para não perder a amizade

Gabriel García Márquez era muito jovem ainda quando cruzou com o desabafo de Eduardo Zalamea Borda – então editor do suplemento literário do jornal “El Espectador”. Borda reclamava que não havia autores jovens na Colômbia porque os jovens não escreviam. Tomado de solidariedade pelos “companheiros de geração” e disposto a calar a boca do sujeito de quem viria a ser um grande amigo, Gabo – apelido de García Márquez – enviou um conto para o jornal. A história saiu publicada na semana seguinte com uma observação que se revelaria premonitória: “surgia um gênio da literatura colombiana”, escreveu Borda. Diante do que chamou de “encrenca”, e para não deixar mal o amigo, Gabo disse que não teve opção, senão continuar a escrever.

Essa história foi revelada durante uma palestra do escritor na Venezuela, em 1970, e está registrada no livro “Eu não venho fazer um discurso”, editado pela Dom Quixote em Portugal.

Se alguém já te disse que você escreve bem, que leva jeito para o negócio ou, pior, se elogiou em público algo que você escreveu e você preza essa relação, já sabe.

Para viver várias vidas e brincar de Deus

Quem escreve ficção cria mundos imaginários, personagens, cenas, cenários. Tudo vai sendo construído pelo trabalho mágico de reunir palavras. É Gênesis na prática. Ainda que leve muito mais do que sete dias.

Claro que essa inspiração divina não vem do éter. Vivemos num planeta de verdade onde lendas, fábulas, zumbis e outros seres fantásticos refletem medos, relações e desejo muito humanos. Até quem escreve sobre a vida real recria uma história, porque se ela não for atrativa, e não surpreender de alguma forma, a audiência desiste de ler.

No divertido e inspirador “Palavra por palavra” (publicado aqui pela Sextante, em versão traduzida por Marcello Lino), Anne Lemott fala desse poder da escrita. “Desde criança, eu achava que havia algo nobre e misterioso em escrever, nas pessoas que faziam isso bem, que eram capazes de criar um mundo, como se fossem pequenos deuses ou bruxos. Durante toda a vida achei que havia algo mágico em quem conseguia entrar na mente e se pôr no lugar deles, em quem era capaz de tirar pessoas como eu de dentro de si.”

Para pôr ordem na memória

A artista colombiana Emma Reyes publicou um único livro, ao qual se dedicou para dar sentido à conturbada infância. Reconhecida pelo seu trabalho na França, onde viveu até o fim, e incentivada por um amigo e editor, o intelectual Germán Arciniegas, Emma escreveu uma série de cartas para narrar suas desventuras de maus-tratos, abandono e uma opressora educação religiosa. Com leveza e humanidade, o conjunto de cartas deu origem ao “Libro de Emma Reyes”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Hildergard Feist, sob o título “Memórias por correspondência”. Trata-se de uma narrativa fascinante que nos leva do riso às lágrimas. A artista se revela uma exímia contadora de histórias. A leitura nos proporciona um encontro com a voz da criança e da adulta se intercalando no relato de histórias ora inacreditáveis, ora comoventes. O exercício de ter escrito sobre difíceis emoções deixou algumas lições para Emma, como ela mesma contou a Germán: “E agora – não me julgue. Se você acha que basta ter ideias, eu diria que se não souber expressá-las de forma que sejam compreensíveis, é o mesmo que não tê-las.”

Para se vingar

Nunca esqueci de um ensaio da escritora estadunidense Jocelyn Nicole Johnson, para o LibHub, intitulado ‘How Writing “Vengeful Fiction” Can Make You a Better Person’. Saiu em outubro de 2021. Eu estava isolada no quarto, com Covid, devorando textos e textos sobre o processo da escrita enquanto aguardava a hora para retomar as aulas presenciais do meu mestrado e meu olfato.

Vingança?, pensei. Eu ri. Naquele ensaio, Jocelyn relembra uma série de cenas da vida real que despertaram revolta, impotência, medo – da mulher que gritou com seu filho ainda criança a cenas de racismo explícito – e como sua “vingança” inspirou seus contos.

“Minhas histórias são minha maneira de dizer: eu vi o que você fez. Ele foi registrado em meu corpo. Saiu como um enxame de palavras.’ Apesar do desejo de se vingar, ela escreve que, sua intenção, é deixar o público-leitor com raiva sim, mas com ela. Assim, juntos e “de coração partido”, escritora e audiência poderão agir para remediar e cicatrizar o que partiu porque histórias têm esse poder de transformar a sociedade e as pessoas para melhor.

Se você resolver se “vingar” de alguém ou de uma situação escrevendo, pelamor, muda nome, gênero, cidade, clima. Tire da experiência a emoção que você precisa para contar uma história que revele a sua verdade. Não vai se meter em encrenca.

No mais, um lembrete final: escrever é sofrido, dá muito trabalho, um pouco como correr. Eu sempre me pergunto por que tive essa ideia de jerico, que me deixa cansada, que me faz querer desistir a cada pequeno trecho vencido. Mas ter corrido, como ter escrito, dá um prazer danado.

Um abraço,

Isabel

*Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/ideias-para-voce-que-escreve-ou-quer-escrever.ghtml

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Arqueólogos buscam no fundo do mar do Nordeste navio atacado por submarino nazista na 2ª Guerra

Pesquisadores de Sergipe tentam localizar no oceano, na divisa com a Bahia, o vapor Aníbal Benévolo, torpedeado em 1942, numa tragédia que matou 150 pessoas. Após ataque, Brasil foi para campo de batalha contra Alemanha

Por Paulo Assad — O Globo – 17/09/2023 

O vapor Aníbal Benévolo: transportava 154 passageiros quando foi torpedeado por submarino nazista; apenas quatro sobreviveram

O vapor Aníbal Benévolo: transportava 154 passageiros quando foi torpedeado por submarino nazista; apenas quatro sobreviveram — Foto: Reprodução

Bastaram 24 horas, entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942, para que o submarino nazista U-507 matasse 551 pessoas no litoral nordestino ao lançar seus torpedos contra três navios. Foram 84 vítimas a mais do que o número de baixas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em um ano de combate na Itália.

Em abril deste ano, pesquisadores da Universidade Federal do Sergipe (UFS) deram início a uma pesquisa para encontrar o Aníbal Benévolo, uma dessas embarcações destruídas há oito décadas, que transportava 154 passageiros de Salvador a Aracaju. Novas sondagens serão feitas em outubro, e os mergulhos continuarão ao longo do verão.

Como eram o Aníbal Benevolo e o submarino que afundou o navio de passageiros — Foto: Editoria de Arte

Como eram o Aníbal Benevolo e o submarino que afundou o navio de passageiros — Foto: Editoria de Arte

Comandante sobreviveu

O ataque nazista, o primeiro em território nacional, levou o Brasil a declarar guerra contra a Alemanha quinze dias depois. Nesse intervalo, o U-507 fez novas investidas contra navios brasileiros, e os corpos das vítimas do Aníbal, do Baependi e do Araraquara começaram a chegar às praias de Aracaju.

— A cidade não tinha nem cemitério para enterrar o tanto de gente que chegava. Foi preciso criar um, de frente para a praia, para as vítimas não identificadas. É o Cemitério dos Náufragos. Nenhuma outra cidade brasileira construiu um cemitério para vítimas do nazismo — explica a historiadora Roberta Rosa, doutoranda e integrante do Laboratório de Arqueologia em Ambientes Aquáticos (LAAA) da UFS.

O Aníbal foi construído em 1905 na cidade alemã de Hamburgo. Assim como os outros dois navios, levava passageiros, incluindo famílias, na hora do ataque. A demora da sua chegada a Aracaju alarmou parentes, e o governo pediu aos pilotos do aeroclube da capital para tentar descobrir do alto o que teria acontecido. Apenas quatro sobreviventes foram resgatados, entre eles o comandante, Henrique Jacques Mascarenhas. Seu relato do ataque está entre as principais fontes dos arqueólogos para localizar o naufrágio, na divisa entre Sergipe e Bahia.

— Ele relata que era madrugada na hora do torpedeamento. Trancados em suas cabines, os passageiros mal puderam se desesperar porque o navio levou pouco tempo para afundar. Ainda podemos ter corpos ali — conta Rosa.

Segundo a historiadora, “Aracaju sentiu a guerra em seu cotidiano”. Um blackout programado foi decretado, e a cidade apagava as luzes à noite por medo de submarinos com novos bombardeios. Barricadas foram erguidas no centro, enquanto militares patrulhavam as praias. O porto foi fechado, e os preços dos alimentos subiram. Sob a suspeita de serem espiões, descendentes de imigrantes de países do Eixo, como italianos, foram perseguidos.

— Fomos a primeira cidade vítima dessa guerra submersa — diz ainda Rosa.

A agressão alemã precipitou a declaração de guerra aos nazistas, mas o Brasil havia rompido relações com o regime meses antes. A ditadura de Getulio Vargas fechou acordos com o governo dos Estados Unidos para fornecer suprimentos e ceder bases militares no Nordeste, que eram estratégicas pela proximidade com o norte da África e a Europa. Em troca, o Brasil recebeu recursos, por exemplo, para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Dois anos depois do ataque, em julho de 1944, os pracinhas da FEB desembarcaram na Itália.

As operações para encontrar os destroços do navio tiveram início em abril deste ano. Com um sonar, o oceanógrafo Jonas Santos realizou uma varredura da área ao longo de seis dias, em busca de anomalias que indicassem a presença da embarcação.

Alguns pontos foram identificados, e uma nova expedição foi planejada para maio. Dessa vez, o objetivo era conhecer o que há embaixo da água:

— É uma região pouco explorada, sem interesse comercial ou turístico. Nos surpreendeu por ser um lugar tranquilo de mergulhar, com vida marinha, pouca correnteza e boa visibilidade. Vamos voltar lá no verão — conta Yuri Sanada, documentarista que prepara um filme sobre os naufrágios.

A relativa baixa profundidade da região, cerca de 27 metros, foi um dos motivos que levou o Aníbal a ser escolhido como primeiro alvo.

— Acreditamos que o Baependi está próximo, mas mais fundo, a cerca de 40 metros. É um mergulho mais complicado. Já o Araraquara estaria a mais de mil metros. Só seria possível com robôs. Vamos colocar a energia no Aníbal, mas a ideia é dar conta de todos — explica o professor de arqueologia da UFS Gilson Rambelli, coordenador do LAAA.

Memorial para vítimas

Parte dos recursos que bancam a pesquisa vem do pagamento de uma multa de R$1,8 milhão por infrações ambientais da construtora sergipana Cunha. Em um acordo com o Ministério Público Federal (MPF)em setembro de 2022, decidiu-se que os valores seriam destinados a projetos ligados ao meio ambiente e ao patrimônio histórico.

— Arqueologia é uma área pouco olhada, ainda mais a subaquática — diz a procuradora Lívia Tinôco, responsável pelo acordo. — Uma sociedade deve rememorar e ter consciência de fatos históricos que a trouxeram até aqui. Poucos em Aracaju conhecem essa história. Quando eu converso com sergipanos, eles se espantam com esse passado.

O Governo de Sergipe tem planos de construir um memorial para as vítimas do Aníbal, Baependi e Araraquara, no Cemitério dos Náufragos. Responsável pelas mortes, o U-507 teve final semelhante ao dos navios que torpedeou ao longo de 15 meses de atividade.

Em 13 de janeiro de 1943, enquanto navegava no litoral cearense, aviadores americanos avistaram o submarino e o atacaram com bombas. Ele naufragou, levando ao fundo do oceano sua tripulação.

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/09/17/arqueologos-buscam-no-fundo-do-mar-do-nordeste-navio-atacado-por-submarino-nazista-na-2a-guerra.ghtml

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Inteligência artificial vai às compras

Estamos entrando numa temporada de compras que promete ser uma das mais disruptivas dos últimos tempos

Por Meta – Valor – 14/09/2023

Enquanto a temporada de compras deste final de ano se aproxima – a sequência Dia das Crianças, Black Friday e Natal –, consumidores e lojistas começam a se planejar, talvez, sem dar conta da revolução que vem acontecendo nos bastidores. “Esta temporada de final de ano tem tudo para ser uma das mais disruptivas dos últimos tempos”, afirma Conrado Leister, vice-presidente e diretor geral da Meta no Brasil. A responsável? A inteligência artificial (IA), que estará massivamente presente nas campanhas de marketing, impactando toda a experiência de compra.

Não que a presença da IA seja uma novidade. Atualmente, estima-se que mais de 20% do conteúdo no feed do Facebook e 40% do Instagram sejam recomendados pela IA, que também atua na recomendação de anúncios. Comprar nas redes sociais ou apps de mensagens já é um comportamento consolidado entre os brasileiros. Números de uma pesquisa da Accenture para a Meta em 2020 já mostravam, por exemplo, que 83% dos consumidores brasileiros utilizavam o WhatsApp para consumir produtos ou serviços.

Uma nova experiência de compra

Com a IA, o consumidor pode ter uma melhor experiência de compras, uma vez que ela ajuda as pessoas a encontrarem o que precisam. “A partir de um variado conjunto de soluções acessível a empresas de todos os tamanhos e segmentos, devemos ver experiências cada vez mais personalizadas e entregando cada vez mais valor aos consumidores, que seguem aumentando seu nível de exigência”, descreve Leister.

Isso porque as ferramentas que usam IA contribuem para a descoberta de novas marcas e produtos. “Podemos afirmar, com base em estudos, que a inteligência artificial ajuda as pessoas a fazerem descobertas mais relevantes nessa época de compras de fim de ano”, revela Leister. Segundo pesquisa da YouGov, encomendada pela Meta no fim de 2022, 65% dos compradores de fim de ano gostam de descobrir itens relevantes que não estão buscando de forma ativa. E 56% afirmam que descobriram marcas e produtos nas plataformas da Meta.

 — Foto: G.Lab

Ferramentas integradas

A novidade nos bastidores, que deve diferenciar a temporada deste ano, é a intensificação da presença da IA na jornada do consumidor. “As ferramentas Meta Advantage, baseadas em IA e à disposição do mercado, podem ser usadas de forma integrada nas nossas plataformas. Ou seja, os anunciantes contam com soluções que proporcionam ao consumidor uma experiência de compra ainda mais qualificada, seja por meio da otimização da segmentação, aprimoramento de criativos de anúncios ou descoberta de novas marcas”, explica Leister.

Para as empresas que anunciam, a IA oferece uma oportunidade de fazer essa temporada de compras disruptiva também em resultados. Um estudo da Accenture aponta que, de forma geral, a IA impulsionará a lucratividade em 38%, com capacidade de gerar receita adicional de US$ 14 trilhões até 2035. Esse dado ajuda a entender o insight de uma pesquisa da Cognitive Technology, que aponta que 83% dos primeiros a aderir à IA já alcançaram benefícios econômicos consideráveis.

Esses resultados vêm da inteligência artificial de contribuir para estratégias mais refinadas, campanhas mais eficientes, uma segmentação de público mais assertiva, além de potencializar o retorno sobre os investimentos de marketing.

Um futuro cada vez mais inteligente

As próximas temporadas de compra prometem ser ainda mais movimentadas pela IA. “Temos trabalhado de forma contínua para desenvolver e disponibilizar ainda mais soluções para apoiar nossos clientes em seus objetivos de negócio em curto e longo prazos”, anuncia Leister. A expectativa é que uma pequena ou média empresa possa desenvolver o próprio chatbot para atendimento no WhatsApp, no Messenger e no Instagram Direct. Reels terão mais protagonismo nas campanhas, e soluções de IA generativa poderão ser usadas para facilitar a geração de imagens e texto. E esse futuro está logo ali. Recentemente, a Meta lançou o Meta AI Sandbox, onde é possível experimentar e testar versões iniciais de novas ferramentas e recursos, inclusive ferramentas de anúncios alimentadas por IA generativa – uma amostra do que ainda está por vir.

A Meta anunciou também, nos últimos dias, uma solução que vai ajudar anunciantes a gerir melhor os gastos de suas campanhas e otimizar os resultados: a Programação de orçamento para campanhas de anúncios (Budget scheduling for ads campaigns). Com a Programação, os anunciantes e profissionais de marketing podem optar por aumentar o seu orçamento diário para maximizar oportunidades promocionais e de vendas. Isso significa que, após o término do período da campanha, seu orçamento será automaticamente revertido para o orçamento diário definido inicialmente durante a criação da mesma, sem a necessidade de outras etapas. A novidade estará disponível a partir do início do quarto trimestre de 2023, tanto para campanhas manuais quanto para campanhas automatizadas, como é o caso das Campanhas de Compras Advantage+.

 — Foto: G.Lab

“Nossas plataformas entregam hoje uma experiência completa de compra, desde a descoberta de um novo produto ou marca, ao se deparar com um anúncio ou um Reels com imagens reais do produto ou serviço, até a interação direta com a empresa por meio de uma conversa no WhatsApp.” Conrado Leister, vice-presidente e diretor geral da Meta no Brasil

Sua empresa pode contar com a Meta para obter os melhores resultados na temporada de compras de 2023. Conheça as melhores práticas para melhorar sua campanha com o uso de ferramentas de inteligência artificial na página criada pela Meta para você. Maximizar seus resultados tá na sua mão.

Meta conteúdo de responsabilidade do anunciante

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