A Internet morreu e esquecemos de enterrar?

A rede que conectava pessoas e armazenava o conhecimento humano não existe mais; está dominada pela inteligência artificial

Ronaldo Lemos – Folha – 21.abr.2024

Nos últimos anos está ganhando força a hipótese de que a internet morreu e só esquecemos de enterrar. A rede que conectava pessoas e armazenava o conhecimento humano não existe mais de acordo com essa teoria. Ou, ao menos, está sendo substituída por uma rede composta por máquinas que falam entre si e conteúdos gerados automaticamente por inteligência artificial. 

Por muito tempo essa ideia foi tratada como teoria da conspiração: um alarmismo longe da realidade. No entanto, os sinais de que há algo de podre no reino da internet estão se tornando mais frequentes. Vejamos alguns. 

Hoje, 47,4% de todo o tráfego na rede é gerado por robôs. Sabe aquelas preciosas visualizações que o seu post alcançou na sua rede social favorita? Pois é, metade delas são provavelmente visualizações fake, feitas por robôs. 

E o pior, 30% são robôs maliciosos, atuando com a intenção de copiar informações ou fazer ataques. Vários são capazes de imitar o humano, se tornando indetectáveis. Enquanto isso, o acesso realmente humano cai a cada ano. De 2021 a 2022, a queda foi de 5,1%. Se a tendência continuar, em breve a internet será terra de ninguém, ou melhor, terra de robôs. 

Outro elemento indicativo da morte em curso da rede é a invasão de conteúdo criado por inteligência artificial. Um estudo do Instituto de Estudos do Futuro de Copenhague prevê que 99% do conteúdo que será postado na internet em 5 anos será gerado por inteligência artificial. Ou seja, só 1% será feito por humanos. 

Não precisa nem esperar tanto tempo. Em postagem oficial, o Google mencionou no mês passado que está tomando providências contra conteúdos que “parecem criados para [enganar] os mecanismos de buscas, em vez de para pessoas”. Por conta disso, muita gente vem adotando uma prática inusitada. Colocar o comando “Before: 2023” nas buscas. 

A alegação é que buscar por conteúdos “antes de 2023” gera resultados melhores. Justamente por causa da quantidade de lixo criado por inteligência artificial que vem sendo postado nos últimos 18 meses, já interferindo no ranking das buscas. 

Até para encontrar um par romântico a internet está morrendo. Pesquisa da McAfee feita na Índia mostrou que 77% dos usuários de aplicativos de relacionamento já se depararam com perfis feitos por inteligência artificial, inclusive nas fotos. Além disso, 26% dos usuários alegam ter descoberto que estavam conversando com uma inteligência artificial, em vez de uma pessoa real, em sites de paquera. 

Outro problema familiar é o uso de robôs em campanhas eleitorais. As eleições deste ano são as primeiras em que a inteligência artificial generativa estará em pleno curso. Dá para esperar novidades nesse campo. 

Se tudo continuar assim, é possível que nossa geração terá sido a única a viver o tempo em que a internet era feita por pessoas. Para as gerações futuras, mais acostumadas com robôs do que a gente, essa ideia poderá parecer antiquada ou até grotesca: uma internet humana como um cobertor feito de retalhos, esquecido em algum canto mofado do passado. 

Já era – Não pensar na regulação da inteligência artificial 

Já é – Pensar em regular IA por meio de modelos de risco 

Já vem – Pensar em regular IA por meio de modelos antitruste 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2024/04/a-internet-morreu-e-esquecemos-de-enterrar.shtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Queda de matrículas nas Engenharias: como isso afeta a economia brasileira

 RedaçãoBy Redação – desafiosdaeducacao.com.br – 5 de dezembro de 2023

Formar engenheiros qualificados e em quantidade adequada é essencial para qualquer plano de retomada da atividade econômica. No entanto, o que se observa atualmente no Brasil é justamente o contrário – a procura pelos cursos de Engenharia despencou nos últimos anos.

Em consequência disso, faltam engenheiros no mercado. De acordo com a CNI (Confederação Nacional da Indústria), o déficit já é de 75 mil profissionais.

Mais candidatos que vagas

Uma pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) mostrou que o número de calouros nos cursos de Engenharia vem diminuindo gradualmente no Brasil. Em 2019, por exemplo, a queda foi de 17% em comparação com o ano anterior. Só que, se a comparação for feita com 2014, a redução é bem maior – 39%.

Um fato a destacar é que a rede privada sofre mais os efeitos da falta de interesse dos jovens pela área. De 2014 a 2019, a queda na quantidade de ingressantes nas instituições de ensino superior (IES) particulares chegou a 48%. Ou seja, a procura caiu praticamente pela metade. Na rede pública, a diminuição foi de 3,6%.

O quadro é ainda mais grave se levarmos em conta os indicadores de evasão, que estão na ordem de 50% a 70%, de acordo Anderson Correia, reitor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). O resultado não poderia ser diferente: várias faculdades de Engenharia estão fechando as suas portas e decretando falência.

No cômputo geral, o número de alunos matriculados em IES particulares nessa graduação, na modalidade presencial, caiu 44,5% entre 2014 e 2020, como revelou o Valor Econômico. A diminuição é bastante superior à queda de 19,3% registrada no período, considerando a totalidade de cursos presenciais da rede privada.

Correia lembra que nem sempre foi assim. Na década de 1990, os cursos de Engenharia figuravam entre os mais disputados, tanto em universidades públicas quanto privadas. Atualmente, no ranking dos mais concorridos, estão abaixo de Psicologia, Design ou Cinema, só para citar alguns exemplos. “Como um país vai entrar na nova onda de industrialização mundial, com digitalização da indústria, inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, se não tiver engenheiros na quantidade necessária?”, questiona o reitor do ITA.

Para se ter ideia da gravidade do quadro, há menos candidatos do que vagas nas IES brasileiras. Segundo o diretor da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora, Hélio Antônio da Silva Hélio, são ofertadas 302 mil vagas, mas somente 120 mil estão ocupadas.


Leia mais:


Questões culturais

A pouca atratividade dos cursos de Engenharia é um fenômeno de alcance mundial. Mas, no Brasil, a situação parece ser mais grave: o problema não se restringe propriamente às Engenharias, estendendo-se a boa parte das áreas tecnológicas. É fato que cada vez menos estudantes demonstram interesse também em Agronomia e Geociências.

Além disso, essa é uma profissão dependente da política econômica. A lógica é simples: se o país cresce, precisa de mais profissionais da área. Isso significa que existe uma forte relação entre os cursos de Engenharia e o ritmo de crescimento da economia.

Sendo assim, a queda nas matrículas tem a ver com a falta de fôlego da expansão econômica brasileira nos últimos anos, o que inclui um decréscimo da atividade industrial. Com isso, o mercado de trabalho não evolui. A remuneração dos profissionais deixa de ser atraente e muitas ofertas de emprego não oferecem a realização profissional almejada pelos jovens.

Há também uma questão cultural. Em declaração à Revista do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA-PR), o presidente do Instituto Lobo de Pesquisa e Gestão Educacional, Roberto Lobo, lembrou que o Brasil tem uma larga tradição de formar mais advogados do que engenheiros: “Ou seja, as empresas gastam mais dinheiro se defendendo dos tributos e processos do que em inovação”.

Outro detalhe a considerar é a baixa qualidade da educação básica no Brasil, o que se reflete no ensino superior. Há poucas experiências de educação digital, como atividades de computação, programação e robótica nos currículos tanto do ensino fundamental quanto do médio. Desse modo, os alunos não são estimulados a procurar cursos da área tecnológica na hora de decidir o seu futuro profissional.

Empresas têm dificuldades para achar profissionais qualificados

Além da baixa procura, a qualidade dos cursos é questionada, já que existe uma grande carência por bons profissionais na área. Pelo menos é o que mostrou o relatório O futuro das Engenharias no Brasil 2023, divulgado pela Mútua – Caixa de Assistência dos Profissionais do CREA. Conforme o levantamento, nada menos do que 70% das empresas consultadas afirmaram ter dificuldades para contratar engenheiros com a qualificação adequada.

De acordo com a pesquisa, mais de 50% dos profissionais são egressos de cursos com conceitos 1 e 2 (baixo desempenho) no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Milhares de profissionais não conseguem inserção no mercado ou atuam na informalidade. O trabalho da Mútua aponta ainda que, dos quase 1,3 milhão formados entre os anos 2000 e 2020, 477 mil não se registraram no Sistema Confea-CREA.

“A má formação não afeta somente os próprios profissionais, mas também o país, que não consegue se posicionar de forma competitiva em um ambiente global onde conhecimento e inovação definem quem terá relevância econômica e influência”, afirmou o engenheiro agrônomo Francisco Almeida, diretor presidente licenciado da Mútua.

Leia mais:

https://desafiosdaeducacao.com.br/queda-cursos-de-engenharias

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Como está a Guiana depois do boom do petróleo?

Por

João Lara Mesquita – Estadão – 8 de novembro de 2023

Como está a Guiana depois do boom do petróleo?

Em 2008 a ExxonMobil iniciou a exploração em águas da Guiana na busca de petróleo,  um dos países mais pobres da América Latina com menos de 800 mil habitantes. Entretanto, a busca provou ser bem-sucedida. Em 2015 um consórcio liderado pela Exxon, que incluía Hess e a empresa chinesa Cnooc, fez uma grande descoberta no Campo Liza. Para o Financial Times, a produção deverá sustentar o negócio de petróleo bruto da Exxon por décadas. Desse modo, a economia cresceu a uma taxa recorde de 62,3% em 2022, a mais alta do mundo. Você já imaginou que um dia a Guiana conseguiria tal feito?

Na contramão do mundo, ou um desejo correto por maior riqueza?

No entanto, à medida que o mundo busca se distanciar dos combustíveis fósseis e os ativistas climáticos lutam pela transição energética, analistas estão preocupados com o histórico conturbado das operações das empresas de petróleo em países mais pobres. Estudiosos se perguntam qual será o impacto da entrada massiva de dólares na Guiana.

Extração de petróleo na Guiana Foto usada pelo http://www.thehindubusinessline.com, com a legenda: Em apenas cinco anos, a Guiana ingressará no cobiçado clube dos 20 países que produzem mais de um milhão de barris de petróleo bruto por dia | Crédito: Matias Delacroix

O caso da riqueza repentina da Guiana

A súbita transformação da Guiana, que até então estava esquecida, tem sido objeto de discussões em todo o mundo. O Financial Times relata que os investimentos das principais empresas petrolíferas dos Estados Unidos parecem destinados a fazer da Guiana um dos últimos petroestados a emergir na era do petróleo.

Para as empresas do setor, o que está acontecendo no país é considerado como a “joia da coroa” da ExxonMobil, como afirmou Alistair Routledge, presidente da Exxon na Guiana, ao Financial Times.“

Imagem aérea da capital Georgetown. Foto, http://www.newsroom.gy.

Enquanto isso, destacou o www.thehindubusinessline.com , o Campo Liza é considerado a maior adição às reservas globais de petróleo em várias décadas. Antes dessa descoberta, o maior campo já encontrado era o de Mangala, na Índia, com reservas estimadas em 1 bilhão de barris. Em comparação, a descoberta na Guiana é dez vezes maior do que a de Mangala, de acordo com a mesma fonte.

Embora analistas de Wall Street tenham classificado o investimento liderado pela Exxon como “o melhor negócio petrolífero da história moderna”, outros advertem que o país corre o risco de cair na “maldição dos recursos”. Essa maldição ocorre quando a súbita riqueza proveniente dos recursos naturais esvazia outras indústrias nacionais, gera divisões políticas e promove a corrupção.”

US$ 100 bilhões de dólares ao longo do contrato

No caso da Guiana, o país não tem ‘outras indústrias’. Contudo, o risco de divisão política e corrupção é fato. Para efeito de comparação, o orçamento nacional era de apenas cerca de 3,5  a 4 bilhões de dólares. Porém, os retornos para a Guiana poderão ultrapassar os 100 bilhões de dólares ao longo das décadas de vida das suas operações com a Exxon.

Ao que parece, o contrato entre as partes é por demais favorável à petrolífera. Não poderia ser diferente. Estas empresas já demonstraram não ter escrúpulos e, além disso, têm centenas de advogados especializados, enquanto os países mais pobres, carecem de experiência e ‘abrem as pernas’ ao sentirem a possibilidade de ganhar divisas.

Imagem, http://www.ieefa.org.

O Financial Times ouviu Tom Mitro, investigador sênior do centro de investimento sustentável da Universidade de Columbia e antigo gestor da Chevron que ajudou a negociar os seus contratos em países como Angola, Nigéria e Papua Nova Guiné. Não por acaso, todos países pobres.

O jornal diz que ‘ele e outros especialistas argumentam que o contrato de partilha de produção assinado com a Guiana em 2016 é excessivamente generoso para com a Exxon, e alguns dizem que deveria ser renegociado’.

“Acordo extremamente agradável”

“Foi um acordo extraordinariamente agradável”, disse Mitro. O governo da Guiana dispõe agora de dinheiro para hospitais, habitação, transportes, infraestruturas de gestão de cheias, além de um fundo soberano que deverá reforçar as finanças públicas. Entretanto, os lucros recorde gerados pela Exxon no ano passado e a compra pela Chevron da participação de 30 por cento da Hess no Bloco Stabroek trouxeram um novo escrutínio dos termos do contrato.

Nesse acordo, explica o Financial Times, a Guiana concordou em dividir os lucros na proporção de 50:50 com os desenvolvedores que desejava atrair. Mas até três quartos das receitas vão primeiro para cobrir os custos do consórcio. Entre outras vantagens, a Guiana também concordou em pagar o rendimento das empresas e o imposto sobre as sociedades a partir da sua parte nos lucros.

Contrato  antecipado, unilateral e repleto de impostos

A Associated Press também repercutiu as consequências do acordo. A agência diz que para um relatório do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira,  “o contrato é antecipado, unilateral e repleto de impostos, e outras lacunas que favorecem as empresas petrolíferas.”

Tom Sanzillo, diretor do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira, aponta para potenciais problemas para a Guiana daqui a alguns anos, quando a produção estiver esgotada e alguém tiver de pagar para desativar a infraestrutura petrolífera.

A prática da indústria normalmente envolve a criação de um fundo para custos de desmantelamento, que são retirados das receitas do petróleo ao longo da duração do contrato, de acordo com Kellas. Isto não faz parte do contrato da Guiana.

O boom do petróleo provoca disputa por despojos

Para a Associated Press o boom do petróleo irá gerar bilhões de dólares para a nação em grande parte empobrecida. Contudo, também é certo que desencadeará lutas acirradas sobre como a riqueza deve ser gasta num lugar onde a política está fortemente dividida em linhas étnicas: 29% da população é de ascendência africana e 40% de ascendência indiana oriental, de trabalhadores contratados trazidos para a Guiana depois que a escravidão foi abolida.

A AP disse ainda que ‘os especialistas preocupam-se com o fato de a Guiana não ter a experiência e o quadro jurídico e regulamentar necessários para lidar com o influxo de riqueza. Eles alertam que isso poderia enfraquecer as instituições democráticas e conduzir o país num caminho semelhante ao da vizinha Venezuela, um petroestado que mergulhou no caos político e econômico.

A agência cita um relatório da USAID que alerta para “A instabilidade política da Guiana suscita preocupações de que o país não esteja preparado para a sua riqueza recém-adquirida sem um plano para gerir as novas receitas e desembolsar equitativamente os benefícios financeiros.”

A AP alertou, igualmente, para o fato de que mais de 40% da população vivia com menos de 5,50 dólares por dia quando a produção começou em Dezembro de 2019, prevendo-se que cerca de 380.000 barris por dia aumentem para 1,2 milhões até 2027.

Os riscos de vazamentos e os problemas do clima

Antes de mais nada, como em todos os casos de exploração de petróleo o da Guiana também tem riscos. Segundo informações do Guardian, em agosto de 2021, ‘O enorme projeto da ExxonMobil enfrenta acusações de desrespeito pela segurança por parte de especialistas que afirmam que a empresa não se preparou adequadamente para um possível desastre’.

‘Os especialistas afirmam que a Exxon parece tirar partido de um governo despreparado num dos países de mais baixo rendimento da América do Sul, permitindo à empresa contornar a supervisão necessária’.

Mais de 2 bilhões de toneladas métricas de CO2

O Guardian lembra que o projeto da Exxon enviará para a atmosfera mais de 2 bilhões de toneladas métricas de CO2, que destroem o clima. Contudo, diz o jornal, a Exxon afirma que os seus objetivos climáticos são “alguns dos mais agressivos.”

Vincent Adams, engenheiro petrolífero e ambiental que trabalhou durante 30 anos no Departamento de Energia dos EUA antes de regressar à sua terra natal, a Guiana, para se tornar diretor executivo da Agência de Proteção Ambiental,  sugere que a Exxon está economizando para aumentar os lucros. A Exxon “não respeita a saúde, a segurança e o meio ambiente das pessoas.”

Por outro lado, matéria do Mongabay diz que o governo da Guiana afirma que o país  já alcançou emissões líquidas zero de carbono e acrescenta que reduzirá ainda mais as emissões em 70% até 2030.

“Já estamos onde o mundo tenta chegar até 2050”, disse o vice-presidente Bharrat Jagdeo a um jornal local em Outubro de 2021. Ele atribuiu isto às vastas florestas da Guiana, que funcionam como sumidouros de carbono.

A mesma fonte destacou uma declaração do presidente Irfaan Ali a outros líderes mundiais na COP26: “Embora nos tenhamos tornado recentemente produtores de petróleo, apoiamos a remoção dos subsídios à produção de combustíveis fósseis e defendemos um forte preço global do carbono.”

A produção mundial de petróleo e o Acordo de Paris

Antes de culpar a Guiana, é oportuno lembrar a conclusão do relatório do  Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), publicado em 9/11: ‘Os governos planejam produzir cerca de 110% mais combustíveis fósseis em 2030 do que seria consistente com a limitação do aquecimento a 1,5°C; e 69% mais do que seria consistente com 2°C’.

Assim, a esta altura muitos cientistas acreditam num aquecimento, sobre os níveis pré-industriais, de no mínimo 2ºC, e isto se começarmos a agir já. E, apesar dos pesares, este combate ainda não está fixado como um programa como deveria nos radares das elites mundiais.

Por último, se alguém tem ‘culpa’, somos todos nós: a mídia tradicional que dá pouco espaço, políticos e legisladores, empresários, jornalistas, estudantes, flibusteiros da internet, e assim por diante.

Buraco grande demais

Antes a questão da produção de petróleo fosse tudo. O relatório da ONU revela que ‘embora 17 dos 20 países apresentados tenham se comprometido a atingir emissões líquidas zero nenhum se comprometeu a reduzir a produção de carvão, petróleo e gás, em linha com a limitação do aquecimento a 1,5°C’. 

Não por acaso, ‘abrimos as portas do inferno’ tornou-se bordão do secretário-geral da ONU.  Infelizmente, este personagem singular está só em seu pleito; e é o único a demonstrar saber o que vem pela frente.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Agora são quatro na disputa da Inteligência Artificial

Trata-se de uma aposta grande, afinal os serviços da Meta tocam em 3 bilhões no mundo todo. É quase meia humanidade

Pedro Doria – O Globo – 19/04/2024 

A Meta, empresa mãe de Facebook, Instagram e WhatsApp, lançou seu pacote de inteligência artificial generativa. É um modelo só de texto, chama-se Llama, está na versão 3 e, segundo a companhia, fica à frente de Gemini, do Google, Claude 3, da Anthropic, e GPT 3.5, da OpenAI. Maneira estranha de anunciar — afinal, nem menciona o GPT 4, a última versão. Mas o lançamento é importante, pois passa um recado: agora a disputa é entre quatro jogadores.

Nas próximas semanas e meses, Zap, Face e Insta se encherão de recursos movidos a IA. Começará pelas caixas de busca dos apps, logo aparecerá também um site tipo ChatGPT. Estará no endereço meta.ai. É uma aposta grande, afinal os serviços da Meta tocam em 3 bilhões de pessoas no mundo todo. É quase meia humanidade. Em março, o ChatGPT alcançava 180 milhões. A diferença de escala é estrondosa. Não é absurdo imaginar que, para muitos, sua primeira experiência com a tecnologia virá agora.

Por sua parte, o Google também anunciou novidade: os departamentos responsáveis pelo Android, navegador Chrome, GooglePhotos e até pelos aparelhos celulares estarão sob um mesmo comando. É quase tudo da holding, com exceção dos serviços de busca. A razão é uma só: integrar com inteligência artificial. Eles querem controlar as prioridades e uniformizar a maneira como os usuários encontram os recursos de IA. Ela estará por toda parte, em breve.

Enquanto isso, Dario Amodei, fundador e CEO da Anthropic, voltou a circular entre podcasts e imprensa para afirmar que a IA está para dar mais um salto. Ele não fala apenas de seu Claude, diz isso em referência aos concorrentes também. Amodei, responsável pelo GPT 2 e 3 antes de deixar, brigado, a OpenAI, está convencido de que o crescimento de capacidade dos modelos será exponencial. A próxima geração será irreconhecível, e nos aproximaremos em pouco tempo de inteligência equivalente à humana. Se sua tese estiver correta, não só a inteligência artificial generativa se tornará a maior tecnologia jamais criada por nós muito rápido. Esse muito rápido virá no ano que vem ou no seguinte. Ele diz, nem todo mundo no setor concorda.

Agora que são quatro companhias no jogo, todas têm um mesmo problema. O atual GPT 4 foi treinado com uma quantidade de textos que um ser humano levaria 20 mil anos para ler. Em geral, o treino vem de conteúdo encontrado na internet. Páginas da web toda, incluindo veículos noticiosos, sites de conversas. Na última versão, tanto OpenAI quanto Google precisaram começar a transcrever automaticamente o texto de vídeos do YouTube para alimentar o bicho. Uma das companhias cogitou adquirir a Penguin Random House, quarta maior editora do mundo, apenas para pôr as mãos no estoque de livros. Pois é. Comprar uma corporação livreira gigante é troco para esses jogadores e vale muito se, com isso, fechar a porta aos outros para aquele material de treinamento.

Os Large Language Models, LLMs, grandes modelos de linguagem, precisam de muito texto escrito por seres humanos para simular inteligência. E, do jeito como a tecnologia funciona hoje, entre o ano que vem e 2026 se esgotará o que existe na internet para servir de treinamento. Enquanto uns sonham com produzir inteligência artificial superior à humana, talvez se descubra antes que nem tudo o que a humanidade já produziu seja suficiente para empurrar a máquina até lá.

A corrida não para.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Inteligência artificial vai tornar os cuidados de saúde melhores e mais seguros

A tendência é que eles também se tornem cada vez mais baratos; mas há desafios para que sirvam à população em geral tão bem quanto deveriam

Por Natasha Loder Estadão/The Economist – 15/04/2024 

Quando alguém estabelece metas ambiciosas demais, a ponto de parecerem tolice, os sensatos zombam. E geralmente têm razão em fazê-lo. Mas às vezes vale a pena cogitar a possibilidade de que até mesmo a aspiração mais chocante possa ser alcançada.

Em 2015, Priscilla Chan, pediatra, e seu marido, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, criaram a Iniciativa Chan Zuckerberg (CZI, na sigla em inglês) com o objetivo de ajudar a ciência a construir um mundo onde todas as doenças pudessem ser prevenidas, curadas ou controladas. Para a surpresa de ninguém, o empreendimento se centrava na tecnologia. Mas foi só em 2020 que os relatórios anuais de Chan-Zuckerberg começaram a falar sobre o potencial da inteligência artificial (IA). Quatro anos depois, é difícil imaginar alguém que não a esteja colocando em primeiro plano para alcançar seus objetivos.

A proporção de artigos sobre pesquisa biomédica que invocam a inteligência artificial vinha crescendo exponencialmente muito antes de o campo começar a deslumbrar o mundo com os “modelos de base”, como os vários GPTs (na sigla em inglês, transformadores generativos pré-treinados) da Openai, o Llama da Meta e o Gemini do Google (veja o gráfico abaixo).

Mais conteúdo sobre este tema

Dadas as vastas quantidades de dados que a pesquisa biomédica produz, a aplicação de IA não chega a ser uma surpresa. Esse progresso e essas promessas, porém, são um mero prelúdio para o que está por vir agora.

Sistemas de inteligência artificial semelhantes aos modelos de base e aos grandes modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês) – que geram textos coerentes em todos os estilos, respondem a perguntas complexas de forma bastante convincente e criam imagens que capturam ideias expressas em instruções verbais – cada vez mais fazem parte dos serviços de assistência médica.

Eles têm aplicações em quase todas as áreas: podem melhorar as escolhas que os pesquisadores fazem sobre como exatamente editar genes; são extraordinariamente bons em processar grandes quantidades de dados de fontes distintas; podem sugerir novos alvos para o desenvolvimento de remédios e inventar moléculas que possam funcionar como medicamentos. A própria CZI agora está trabalhando na construção de uma “célula virtual” movida a IA, com a qual espera revolucionar todo tipo de pesquisa biomédica.

Os efeitos não se restringem aos laboratórios. Vários tipos de diagnóstico nos quais a IA tem um papel importante parecem prontos para serem transformados. Os cirurgiões robôs estão assumindo uma gama cada vez maior de operações. A maneira como os pacientes acessam informações de saúde e se motivam para seguir tratamentos também parece prestes a ser repensada, à medida que chatbots e monitores de saúde vestíveis aprendem a trabalhar juntos. E é bem provável que a produtividade dos sistemas de saúde vá melhorar significativamente.

Os países mais pobres talvez tenham mais a ganhar. Uma geração anterior de IA já está surtindo efeitos nos cuidados de saúde desses lugares. Uma vantagem é que ela pode aumentar muito a capacidade de equipamentos bastante modestos, permitindo que sejam usados de forma mais ampla e fora das clínicas. Estetoscópios inteligentes ajudam os usuários a identificar detalhes importantes, celulares podem ser transformados em “tricorders” que medem a frequência cardíaca, a temperatura, a respiração e a saturação de oxigênio no sangue, tudo de uma vez. Fornecer orientação confiável para profissionais de saúde do mundo todo, em seu idioma nativo, é um avanço direto e revolucionário.

Leia também

Se essas ferramentas forem mais disseminadas e se os sistemas de saúde forem remodelados para tirar o máximo delas, a prestação de cuidados de saúde vai ficar muito melhor. Será uma oportunidade para melhorar a vida de centenas de milhões ou mesmo bilhões de pessoas.

Alguns veem não apenas um avanço humanitário, mas também um avanço epistemológico: um tipo totalmente novo de conhecimento. A inteligência artificial pode encontrar associações e conexões em conjuntos de dados díspares, vastos e complicados demais para os humanos, sem precisar de modelos pré-existentes sobre que tipos de causas têm que tipos de efeitos. Demis Hassabis, um dos fundadores da DeepMind, uma potência de IA que agora faz parte do Google, acredita que essa capacidade vai mudar a maneira como os humanos entendem a vida em si.

Existem algumas ressalvas. Os modelos de base que alimentam tecnologias “generativas” como o ChatGPT têm desvantagens sérias. Quer você chame de alucinação, como os pesquisadores costumavam chamar, ou de confabulação, como eles preferem agora, esses modelos inventam coisas. Assim como acontece com a maioria das IA, se você as treinar com dados ruins ou inconsistentes, os resultados vão ficar aquém do esperado.

Se os dados forem tendenciosos, como muitas vezes acontece com os dados de saúde (geralmente, é mais difícil obter dados bons sobre minorias, grupos de baixa renda e populações marginalizadas), os resultados não vão servir à população como um todo tão bem quanto deveriam e poderão até ser prejudiciais para os grupos sub-representados.

A natureza “não determinística” dos modelos (eles nem sempre respondem da mesma forma ao mesmo estímulo) levanta problemas filosóficos e práticos para os responsáveis pela regulamentação dos dispositivos médicos. Termômetros e medidores de pressão arterial refletem a realidade de um jeito muito mais simples e direto.

Nada disso está impedindo o rápido crescimento do mercado de produtos e serviços de IA no campo da saúde. As grandes empresas de IA vêm demonstrando grande interesse em contratar especialistas em saúde; as empresas de saúde estão comprando IA. A Research and Markets, uma empresa de análise, calcula que em 2023 o mundo da saúde gastou cerca de US$ 13 bilhões em hardwares relacionados à IA (como chips e dispositivos de processamento especializados) e em softwares que fornecem diagnósticos, análises de imagens, monitoramento remoto de pacientes e muito mais.

A previsão é de que esse número atinja US$ 47 bilhões até 2028. Analistas da CB Insights calculam que os investidores transferiram a impressionante quantia de US$ 31,5 bilhões em financiamento de capital para IA de saúde entre 2019 e 2022. Dos 1.500 fornecedores de IA para saúde, mais da metade foi fundada nos últimos sete anos.

A digitalização da assistência médica também teve sua cota de desilusões caras. Mas existe uma possibilidade concreta de a IA corresponder à parte das esperanças nela depositadas. Interfaces mais simples devem deixar os sistemas de IA mais úteis e intuitivos para médicos, pacientes e prestadores de cuidados de saúde. E os sistemas de saúde necessitam urgentemente de um aumento de produtividade se quiserem se adaptar e melhorar em um mundo de custos elevados e de populações mais idosas.

Leia também

Prevê-se que a escassez de profissionais de saúde chegue a quase 10 milhões até 2030 – cerca de 15% de toda a força de trabalho atual no mundo inteiro. A inteligência artificial não vai resolver esse problema sozinha. Mas pode ajudar.

Esta série de reportagens vai analisar quatro das formas sob as quais essa ajuda pode vir. A IA já ajuda médicos a fazerem diagnósticos – um auxílio dolorosamente necessário, dado que 800 mil americanos morrem ou ficam incapacitados todos os anos por causa de más decisões médicas. E também ajuda pacientes que querem compreender seus sintomas ou que precisam de assistência e motivação para se manterem saudáveis. As ferramentas de pesquisa e manuseio de dados ajudam empresas que tentam desenvolver novos tratamentos de forma mais rápida e confiável. E a IA ainda ajuda ao sistema como um todo.

Os sistemas de saúde de hoje estão drasticamente limitados pela escassez de trabalhadores e de conhecimento. A inteligência artificial pode fornecer um apoio significativo em ambas as frentes – e esse apoio pode ser transformador. Será que tal transformação vai fazer com que, até 2100, todas as doenças sejam prevenidas, curadas ou controladas? A IA não vai fazer tudo isso sozinha. Mas está fazendo com que esse objetivo aparentemente presunçoso pareça mais provável.

Os debates sobre o impacto da IA estão repletos de medo e inquietação, às vezes por bons motivos. O que ela oferece para a saúde de todo o mundo representa um potencial radical para o bem – e para sempre. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

https://www.estadao.com.br/saude/inteligencia-artificial-vai-tornar-os-cuidados-de-saude-melhores-e-mais-seguros

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Inovação aplicada no setor de energia: onde estamos e para onde vamos?

O setor energético está caminhando em direção a métodos mais sustentáveis e a inovação tecnológica, especialmente impulsionada pelas startups de energia, desempenhará um papel central nesse cenário.

by Gustavo Caetano –  MIT Technology Review – abril 17, 2024

O setor de energia tem passado por mudanças significativas nos últimos anos, principalmente porque o mundo está sofrendo consequências incalculáveis devido à falta de cuidado das pessoas e empresas com o meio ambiente durante todos esses anos. Como exemplo, reforço o caso das enchentes causadas pelas chuvas torrenciais em muitas cidades brasileiras, mudanças climáticas, destruição da camada de ozônio, extinção de espécies, erosões, destruição de habitats, diminuição dos mananciais e alto nível de poluição.

Por isso, temas como tecnologia verde, sustentabilidade e ESG (Environmental, Social and Governance) vêm ganhando força e têm atraído a atenção da população em geral, principalmente de companhias de médio e grande porte e que atuam em diferentes segmentos, com o objetivo de criar soluções para diminuir o consumo de energia, reduzir a emissão de gases de efeito estufa, minimizar o desperdício e a poluição a fim de preservar os recursos naturais e a biodiversidade.

Segundo dados do relatório ESG Radar 2023, feito pela Infosys, multinacional de tecnologia da informação, os investimentos das empresas em ESG devem alcançar a marca de US$ 53 trilhões até o ano de 2025, ou seja, R$ 273 trilhões. O estudo teve a participação de 2.565 executivos e gerentes de companhias que faturam mais de US$ 500 milhões por ano em países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Nova Zelândia, Austrália, Índia e China. Para 61% dos entrevistados, investir em ESG garantiu uma melhora moderada nas organizações e 29% do total identificaram resultados positivos. Enquanto isso, 10% não sentiram diferença.

De acordo com a Aliança Global pelo Investimento Sustentável (GSIA), em 2022 o cenário era diferente, pois a soma de investimentos com questões relacionadas a ESG foi de US$ 35 trilhões, ou seja R$ 180 trilhões, o que pode representar um crescimento de 51% em três anos.

Já no âmbito nacional, 67% das companhias brasileiras já adotaram o ESG como pilar estratégico, segundo dados do estudo Tendências de RH 2023, feito pela Korn Ferry. O relatório, que foi elaborado entre junho e julho do ano passado, contou com a participação de 125 empresas da Argentina, 265 do Brasil, 117 participantes do Chile, 78 da Colômbia e 67 companhias do Peru. Com relação às prioridades de cada companhia, podemos destacar redução de emissões, investimentos em projetos filantrópicos, uso de energias renováveis e uso eficiente de recursos.

Outro levantamento feito pelo Information Services Group (ISG), empresa global de pesquisa e consultoria tecnológica, aponta que o Brasil foi o primeiro país a incluir padrões globais enviados pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) em seu quadro regulatório. Isso representa um avanço significativo, pois fez com que aumentasse o número de demandas por soluções sustentáveis.

IA aplicada no gerenciamento de energia inteligente e sustentável

A tecnologia passou a ser fundamental nesse processo, pois ela é capaz de analisar um volume alto de dados, reconhecer padrões, identificar tendências e aplicar práticas sustentáveis. Além disso, a Inteligência Artificial consegue ter uma estimativa sobre as emissões de carbono em diferentes cenários, com o uso de dispositivos conectados.

Outra vantagem é que a IA pode ser aplicada para tornar o gerenciamento de energia inteligente e sustentável. Isso porque ela coleta as informações em tempo real e dependendo do nível ajusta automaticamente o abastecimento de energia, melhorando o uso de fontes renováveis. Essa máxima incentiva cada vez mais a criação de novas empresas e, principalmente, startups utilizando soluções inovadoras e disruptivas.

De acordo com o relatório feito pela Liga Ventures, maior rede de inovação aberta da América Latina que conecta startups e grandes empresas para geração de negócios, com apoio estratégico da PwC Brasil, existem atualmente 241 startups de energia que estão ativas e utilizam diferentes tecnologias para otimizar e potencializar o setor energético.

Elas estão divididas em 11 categorias, como eficiência energética (18,67%); geração compartilhada (18,26%); data analytics (12,03%); gestão de consumo (10,79%); comercialização e financiamento de energia (9,54%); sustentabilidade (8,71%); e-mobilidade (7,88%); gestão de equipes e operações (4,98%); novos equipamentos (4,15%); baterias (2,49%) e inspeção por imagem (2,49%).

O levantamento traz também as tecnologias mais aplicadas e entre elas destacam-se Data Analytics (10%), Mercado Livre de Energia (9%), Big Data (7%), Machine Learning (7%) e Geolocalização (3%). Já referente ao público-alvo, o estudo mostra que 53% das startups têm como foco o mercado B2B.

Nesse cenário, podemos dizer que o setor elétrico está se desenvolvendo e trazendo novas possibilidades para a população em geral, principalmente porque ela tem funções altamente estratégicas para manter o funcionamento das cidades. Segundo um estudo da Clean Energy Latin America (CELA), até 2040 o armazenamento de energia deve aumentar 12,8% por ano no Brasil, com capacidade de 7,2 GW, movimentando cerca de US$ 12,5 bilhões/ano.

Modernização do segmento

Mas nem sempre o fornecimento de energia é feito de maneira justa, e por conta disso que é necessário que haja uma regulamentação eficaz e planejamentos mais assertivos.

Assim, o processo evolutivo do setor traz algumas vantagens, como uma maior transparência nos preços sugeridos; aumento da autonomia e flexibilidade; implemento de novas tecnologias; novas diretrizes regulatórias e normativas; melhora a segurança energética e proporciona liberdade ao consumidor.

Nesse caso, há quatro fatores que devem ser levados em consideração durante a modernização do segmento e que serão tendências para os próximos anos. O primeiro é a diversificação da matriz energética que ajuda a manter o fornecimento de energia, diminui a vulnerabilidade dos eventos climáticos extremos e reduz os gastos para as pessoas.

Conforme aponta o relatório Especial sobre Perspectivas Energéticas Mundiais para a Indústria de Petróleo e Gás, feito para o COP28, a matriz energética deve se tornar renovável até 2026, alcançando a taxa de 95% de fontes de energia renováveis.

Um exemplo disso é a energia solar, que vem ganhando espaço significativo no setor. Isso porque ela é uma das principais fontes de energia limpa, bem como altamente eficiente e econômica. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o mercado espera que haja um aumento de 9,3 GW na capacidade instalada de energia solar neste ano, o que elevaria a potência acumulada para 45,5 GW até dezembro.

Além disso, a previsão é que os investimentos provenientes da indústria fotovoltaica devem alcançar a marca de R$ 38,9 bilhões em 2024, com a possibilidade de abrir mais de 281,6 mil empregos e captar mais de R$ 11,7 bilhões aos cofres públicos extras.

Somente em janeiro deste ano, a energia solar alcançou 38 gigawatts (GW) de potência, representando cerca de 16,8% da matriz elétrica do Brasil. Já com relação à geração distribuída de energia, o valor acumulado chega a 26,3 GW e no segmento de geração centralizada atinge 11,7 GW de potência instalada.

Esses dados comprovam a sua alta capilaridade, a capacidade de crescimento exponencial e o quanto ela pode contribuir para o meio ambiente, tornando-o mais sustentável. Isso se dá ao fato de que a inovação está cada vez mais evidente neste setor.

Com isso, as cinco tendências tecnológicas que podem ser aplicadas são: célula Solar de Perovskita nos paineis solares, que aumenta a eficiência operacional, garante uma conversão energética que varia de 13% a 37% a mais e exige tecnologias menos complexas; os paineis fotovoltaicos orgânicos, que substituem os módulos fotovoltaicos convencionais de silício barateando os projetos, além de serem mais leves, com alta durabilidade, modernos também podem ser recicláveis; o módulo Fotovoltaico Ondulado consegue receber a incidência solar em diferentes ângulos; células de filme fino são maleáveis e com isso eles podem ser colocados locais mais flexíveis, diferentemente dos módulos fotovoltaicos que são pesados; e o armazenamento de energia gerada pelos módulos fotovoltaicos onde são usadas baterias de chumbo ácido.

Diante dessas tendências, podemos afirmar que a energia solar traz vantagens significativas para o setor como um todo, como, por exemplo, proporcionar maior autonomia na geração de energia; descarbonizar e reduzir a emissão de gases; incentivar o desenvolvimento tecnológico e diversificar a matriz elétrica. Por isso, essa tendência deve ficar cada vez mais fortalecida e passará a dominar essa área, como sendo uma inovação disruptiva e que traz resultados significativos para o segmento.

Outro fator que ajuda na modernização do setor elétrico é o Mercado Livre de Energia, que passou a ser acessível a partir de janeiro de 2024, para aproximadamente 100 mil pequenas e médias empresas que estão interligadas à rede de média e alta tensão. De acordo com dados da Associação Brasileira de Comercializadoras de Energia, ele conseguiu economizar R$ 41 bilhões nos gastos com energia elétrica em 2022.

Isso acontece porque, com esse novo momento, as pessoas têm o poder de escolher os fornecedores de energia elétrica que mais lhe agradam e que atendem às suas reais necessidades, diferentemente do que acontece nos dias de hoje onde os clientes são obrigados a usar apenas uma companhia regulamentada, tornando essa prática um monopólio.

Essa atividade traz novas possibilidades, já que os contratos podem ser redigidos nos termos que levam benefícios para ambos os lados e permitem mais flexibilidade nesses casos e preços mais competitivos, além de estimular ainda mais a inovação e o surgimento de novas startups.

O setor de energia está em constante evolução e com inúmeras possibilidades para trazer mais eficiência operacional, ganhos financeiros, aumento da capacidade aplicada e principalmente garantir que as práticas sustentáveis sejam adotadas no segmento e investindo em fonte de energia limpa e renovável, e por isso que a tecnologia tem um papel fundamental nisso e o segmento deve crescer de forma exponencial nos próximos anos. Mas, para isso, as empresas devem ficar atentas às novidades que vão surgir.

*Gustavo Caetano é fundador da SambaTech

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

‘O bot vai atender você agora’: a inteligência artificial médica com rosto humano está chegando

Avatares e chatbots capazes de transmitir conselhos médicos podem transformar os sistemas de saúde; mas abusos da tecnologia e qualidade das informações ainda preocupam

Por The Economist – 16/04/2024 

Quando lhe perguntei sobre o futuro dos avatares de inteligência artificial na medicina, Nova se mostrou otimista – e não sem razão. Como “embaixadora de marca” da Soul Machines – que tem sede em Auckland, centro da indústria de efeitos visuais da Nova Zelândia – seu trabalho é destacar as experiências “personalizadas e interativas” que esses avatares vão proporcionar em consultas virtuais e reabilitações pós-operatórias. Ao explicar tudo isso na nossa conversa online, ela me olha nos olhos, reage ao que digo fazendo sim com a cabeça e abrindo sorrisos de aprovação. Ao ouvir que eu não estou me sentindo muito bem desde minha última refeição, ela diz “Oh, não!” com cara de preocupada e sugere chá de gengibre ou algum medicamento vendido sem receita. A fita azul que ela usa no ombro direito, ela me conta, é um “símbolo da minha existência como pessoa digital e da minha conexão com a Soul Machines, a empresa que me criou”.

Greg Cross, chefe de Nova na Soul Machines, diz que a capacidade de conversação de Nova vem de dez anos de pesquisa em uma modelagem cognitiva que procura capturar funções como aprendizagem e resposta emocional. O rosto dela transmite essas respostas por meio de um software que descende daquele usado em personagens de filmes gerados por computador.

Parte do que ela diz vem de uma versão do ChatGPT da Openai, sistema alimentado por um grande modelo de linguagem (LLM, na sigla em inglês). Cross acredita que esses avatares vão ser um jeito cada vez mais importante de as empresas se comunicarem com as pessoas – e que eles se revelarão irresistivelmente úteis para os sistemas de saúde, onde a necessidade de algo como o toque humano cada vez mais supera a disponibilidade de humanos com formação para proporcionar esse toque profissionalmente.

Diga onde dói

Faz tempo que as pessoas adoram fazer perguntas sobre saúde na internet. O mecanismo de busca do Google lida com cerca de 1 bilhão delas por dia. Instituições de caridade médicas, grupos de pacientes, empresas farmacêuticas e prestadores de cuidados de saúde disponibilizam toneladas de informações, mas isso não é nem de longe garantia de que as pessoas que consultam o “Dr. Google” vão sair bem informadas.

O interesse em evidências confiáveis levou ao desenvolvimento de chatbots personalizados, projetados para explicar questões de saúde pública aos pacientes e ajudá-los a descobrir o que seus sintomas podem significar. Florence foi criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Google e Amazon Web Services durante a pandemia de covid-19 para combater as notícias falsas e a desinformação. Desde então, sua base de conhecimento se expandiu e hoje abrange tabagismo, saúde mental e alimentação saudável. Mas ela não chega a ser um exemplo de bom papo.

A empresa alemã Ada Health oferece um chatbot de verificação de sintomas que consulta um banco de dados cuidadosamente estruturado com milhares de informações rigorosamente selecionadas por médicos. O bot usa as respostas do paciente para gerar uma sequência de perguntas e, em seguida, apresenta uma lista de possíveis diagnósticos, com a probabilidade de cada um. Lançado em 2016, tem 13 milhões de usuários, cerca de um terço deles na Índia, Ásia e África.

O “mecanismo de raciocínio probabilístico” central da Ada não é tão complexo quanto os LLMs lançados recentemente. E é um pouco trabalhoso de usar. Mas também é confiável – nada de alucinações – e, o que é crucial, “explicável”: quando a Ada calcula as probabilidades dos diagnósticos, é possível descobrir exatamente como ela as calculou. Essa confiabilidade e explicabilidade permitiram que ela obtivesse aprovação regulatória como dispositivo médico na Alemanha e em muitos outros países.

Leia também

Qualquer pessoa que tente conseguir aprovação para um sistema parecido com o ChatGPT, baseado em LLMs, vai enfrentar enormes obstáculos devido à origem de seus dados, à confiabilidade e reprodutibilidade de suas respostas e à explicabilidade de seu processo. Como indaga Hugh Harvey, da Hardian Health: “Se as perguntas são essencialmente infinitas e as respostas são essencialmente infinitas, como provar que é seguro?”.

Isso não significa que os LLMs não tenham nada a dizer sobre saúde. Muito pelo contrário. A internet está repleta de afirmações sobre a capacidade do ChatGPT de diagnosticar problemas médicos desconcertantes, analisar exames de sangue ou descobrir porque um especialista está pedindo certos exames. Como os enormes conjuntos de informações com os quais são treinados incluem textos médicos, os LLMs conseguem responder de forma convincente a perguntas médicas bastante complicadas, mesmo que não tenham sido deliberadamente treinados para isso.

Em 2023, pesquisadores avaliaram que o desempenho do ChatGPT no exame de Licenciamento Médico dos Estados Unidos era equivalente ao de um estudante do terceiro ano de medicina. Um software se sair tão bem assim teria sido mais ou menos impensável cinco anos atrás.

Em um estudo recente, uma versão do ChatGPT baseada no GPT4, o maior modelo da Openai aberto a acesso público, superou as respostas dadas por candidatos humanos em uma prova do conselho de neurologia. Mesmo quando o modelo deu respostas erradas, foi com muita confiança – o que é ruim para um dispositivo médico, mas não incomum entre os clínicos.

Dada essa facilidade, não há dúvida de que os conselhos médicos que as pessoas recebem dos LLMs possam ser precisos e adequados. Mas isso não significa que vai ser sempre assim: alguns dos conselhos provavelmente estarão errados e serão perigosos. Os desafios regulatórios implícitos na opacidade dos LLMs levaram muitos a concluir que hoje é impossível regular esses modelos de IA para áreas onde os erros possam ser letais, como o diagnóstico.

Alguns profissionais do setor estão procurando meios intermediários pelos quais alguns de seus atributos possam ser aplicados com segurança em outros tipos de trabalho.

Claire Novorol, fundadora da Ada Health, diz que o ponto forte dos LLMs é sua capacidade de utilizar a fala cotidiana: isso lhes permite obter mais informações dos pacientes do que um questionário comum. Esta é uma das razões pelas quais ela e seus colegas estão tentando ampliar a abordagem probabilística da Ada com um LLM. Quando aplicado no contexto certo, diz ela, suas capacidades possibilitam avaliações melhores, mais amplas e mais granulares dos sintomas e das necessidades de saúde. Uma técnica que eles e outros estão experimentando é a “geração aumentada por recuperação”, que permite aos LLMs extrair respostas de uma fonte verificada de dados externos.

Outra abordagem é utilizar LLMs que recorrem a fontes médicas verificadas como conselheiros para profissionais de saúde, e não para o público em geral.

O Google desenvolveu um LLM que foi aprimorado com dados médicos para fornecer suporte no diagnóstico de casos difíceis. A Hippocratic AI, uma startup do Vale do Silício, se dedica à construção de novos LLMs específicos para a área da saúde. A empresa diz que supera o GPT4 em todos os exames médicos e testes de certificação, e recentemente arrecadou mais 50 milhões de dólares – apesar de destacar em seu website a crença inequívoca de que “hoje os LLMs não são suficientemente seguros para o diagnóstico clínico”.

Os investidores parecem ver seus planos para dar apoio a profissionais e fornecer aconselhamento a pacientes como bastante promissores por si só, ou como um caminho para algo melhor.

Leia também

É meio embaraçoso

Existe também um certo otimismo em torno dos relacionamentos que as pessoas criam com os LLMs. Essas conexões podem ser úteis no tratamento de doenças de longa duração ou no apoio psicológico para alguns problemas de saúde mental.

Na Nigéria, a empresa de assistência médica mDoc criou um serviço para celulares alimentado pelo ChatGPT para oferecer aconselhamento em saúde a pessoas que vivem com doenças crônicas, como diabetes ou pressão alta.

Nenhum desses sistemas oferece a empatia de um interlocutor humano. Mas pelo menos um estudo descobriu que pessoas que fizeram perguntas sobre saúde preferiram as respostas do ChatGPT às dos profissionais licenciados, tanto pela qualidade quanto pela empatia.

Relatos sobre as relações que algumas pessoas estabelecem com serviços de IA como o Replika, um chatbot feito pela Luka, de São Francisco, permitem imaginar um futuro em que os bots de amizade vão convergir com os de saúde. Os chatbots originalmente criados para relacionamentos que depois receberam uma capacidade adicional de fornecer conselhos de saúde podem competir com os chatbots criados para a medicina, cujos designers estão melhorando suas habilidades sociais.

Existem também algumas qualidades humanas das quais os sistemas de IA podem se livrar. Uma delas é o julgamento moral. Quando se trata de saúde sexual, as pessoas muitas vezes não procuram ajuda porque preferem evitar a conversa que possibilitaria essa ajuda.

Caroline Govathson, pesquisadora da Universidade Wits, na África do Sul, vem fazendo testes com um chatbot para melhorar a precisão das avaliações de risco de HIV. Ela descobriu que as pessoas parecem achar mais fácil revelar seu histórico sexual a um chatbot do que a um enfermeiro humano.

Alain Labrique, diretor de saúde digital e inovação da OMS, vê nas próximas versões de Florence “a oportunidade de criar uma interface realista, onde você poderia reduzir ainda mais a barreira para as pessoas que procuram informações, sejam adolescentes em busca de orientação sobre sexo seguro e planejamento familiar, ou pessoas querendo saber mais sobre doenças respiratórias”.

Dito isto, o Dr. Labrique e outros estão preocupados com os abusos da tecnologia: a ideia do que uma IA sofisticada poderia fazer para espalhar a desinformação sobre saúde pública, diz ele, não o “deixa dormir à noite”.

Além das preocupações com a qualidade da informação que sai, há também preocupações sobre o que pode acontecer com a informação que entra, tanto em termos de garantir que os dados de treinamento sejam devidamente anonimizados, quanto de assegurar que as conversas com chatbots permaneçam confidenciais. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

https://www.estadao.com.br/saude/o-bot-vai-atender-voce-agora-a-inteligencia-artificial-medica-com-rosto-humano-esta-chegando

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

China se torna estaleiro do mundo e se capacita para ampliar poderio militar

Mais da metade da produção comercial da construção naval de todo o mundo veio de docas chinesas em 2023, enquanto estaleiros ocidentais encolheram

Por Niharika Mandhana — Valor/Dow Jones Newswires – 11/03/2024

A China emergiu como uma potência global ao se transformar no chão de fábrica do mundo. Agora, ela está ampliando esse poder, e seu poderio militar, com outro notável feito industrial: está se tornando o estaleiro do mundo.

Mais da metade da produção comercial mundial da construção naval veio da China no ano passado – fazendo dela a maior fabricante de navios por uma ampla margem. Os outrora prolíficos estaleiros do Ocidente, que ajudaram a forjar impérios, ampliar o comércio e vencer guerras, encolheram. A Europa responde por apenas 5% da produção mundial, enquanto os EUA hoje contribuem com quase nada. A maior parte do que a China não fabrica vem da Coreia do Sul e do Japão.

“A escala [da construção naval chinesa] é difícil de compreender”, diz Thomas Shugart, pesquisador sênior adjunto do Center for a New American Security cujos estudos se concentram na competição marítima. “O grau com que ela supera a construção naval americana é simplesmente inacreditável.”

Esse império da construção naval é um símbolo da transformação histórica da China, de uma nação continental voltada para dentro, em potência marítima. Mas é mais do que isso. É um trunfo estratégico fundamental para Pequim, enquanto o líder chinês Xi Jinping tenta reformular a ordem mundial em tempos de paz e se preparar para prevalecer sobre nações rivais em tempos de guerra.

As gigantescas empresas chinesas de construção naval que fabricam navios para o mundo são muitas vezes as mesmas que fabricam navios de guerra para a Marinha da China. Seus estaleiros estão prosperando, com contratos de muitos bilhões de dólares sendo firmados não só para navios de guerra, mas também para navios de transporte de contêineres, navios petroleiros e graneleiros para companhias marítimas da China, do Ocidente e até de Taiwan.

Com suas carteiras de pedidos cheias pelos próximos anos, os estaleiros cresceram, formaram grupos enormes de trabalhadores e construíram grandes cadeias de fornecimento.

Os planejadores militares da China aproveitaram tudo isso para criar a maior Marinha do mundo em número de cascos – uma força central nas maiores ambições de Xi de projetar poder internacionalmente, protegendo as rotas marítimas que ligam a China ao mundo e absorvendo Taiwan.

A outrora vigorosa indústria da construção naval dos EUA encolheu. Ela não produz mais um número significativo de navios comerciais oceânicos. Vários estaleiros têm apenas um grande cliente, a Marinha americana, e esses estaleiros frequentemente enfrentam acúmulos de pedidos, escassez de funcionários e fornecedores, e custos excessivos.

A maior diferença entre as bases industriais de construção naval chinesa e americana é que “a China se beneficia de uma carga de trabalho enorme na construção naval”, disse o almirante Thomas Anderson a uma subcomissão do Congresso em maio, quando era o oficial executivo do programa para navios da Marinha dos EUA. Enquanto isso, disse ele, os EUA em grande medida agem sozinho, arcando com todos os custos dos navios e da infraestrutura associada.

“É evidente que a indústria da construção naval comercial da China proporciona a eles uma vantagem enorme quando se trata da capacidade de construção naval”, afirmou ele.

Em um conflito prolongado, os estaleiros da China dariam à sua Marinha uma vantagem significativa. Dimensionados para produzir em ritmo de guerra, eles conseguiriam acelerar rapidamente a produção, substituir navios perdidos e reparar os danificados. Essa é uma capacidade que os estaleiros americanos levaram para a luta durante a 2ª Guerra, construindo embarcações para os aliados mais rapidamente do que os submarinos alemães conseguiam afundá-las.

Hoje, os estaleiros dos EUA estão lutando para dar conta da demanda em tempos de paz. Submarinos estão parados por atrasos na manutenção e a fabricação de novos está com a agenda atrasada. A Marinha, por exemplo, espera dois novos submarinos da classe Virgínia por ano, mas está recebendo as embarcações a uma taxa de 1,4, segundo uma autoridade do Departamento de Defesa afirmou no ano passado.

Não há mão de obra qualificada suficiente, as docas secas são escassas e no caso de alguns componentes críticos, apenas um punhado de vendedores ainda está de pé.

Segundo estrategistas americanos, isso é particularmente problemático diante do que o conflito na Ucrânia vem mostrando: as guerras podem durar muito tempo e para lutá-las é preciso ter uma indústria. As fábricas de armamentos dos EUA vêm lutando para acompanhar os campos de batalha na Ucrânia. Seus fabricantes de munições – e estaleiros – não estão prontos para uma guerra com a China.

Se os EUA interviessem em um conflito envolvendo Taiwan, as forças americanas teriam de impedir que os navios chineses chegassem à ilha e descarregassem equipamentos e milhares de soldados. Cada lado tentaria tirar do tabuleiro o maior número possível de embarcações para evitar que esses navios disparassem seus mísseis.

Em tal cenário, os dois lados teriam de colocar rapidamente seus navios danificados de volta ao jogo – reparados, prontos para entrar novamente em combate e capazes de usar seu poder de fogo. Os EUA teriam problemas para ampliar a construção naval e reparar instalações no meio de uma guerra, principalmente porque os trabalhadores dos estaleiros navais modernos precisam ser treinados.

A China não teria esses problemas. Sua vantagem é visível em uma ilha perto de Xangai, na foz do Rio Amarelo. Dois estaleiros imensos estão agora localizados na ilha, conhecida como Changxing, concentrando um grande poder de construção de navios em um lugar só.

A ilha de Changxing está sendo transformada em uma colossal “base de construção naval”, escreveu o Center for Strategic and International Studies (CSIS) em um relatório divulgado em maio. A construção começou com a realocação do estaleiro de Jiangnan, que ficava na região central de Xangai, para a ilha entre 2005 e 2008. A isso seguiu-se a transferência de um segundo estaleiro, o de Hudong Zhonghua, que ainda está em curso.

Os estaleiros pertencem a subsidiárias da China State Shipbuilding Corporation, uma gigante estatal cujos clientes vão da Marinha chinesa a companhias marítimas estrangeiras. A gigante marítima francesa CMA CGM assinou no ano passado um contrato de US$ 3 bilhões com ela para 16 navios de transporte de contêineres, após encomendar 22 navios dois anos antes. A companhia de navegação taiwanesa Evergreen Marine também tem grandes contratos com ela.

Imagens de satélite de maio obtidas junto à Maxar Technologies mostram as enormes instalações de Jiangnan. Cerca de duas dúzias de navios podem ser vistos em seu movimentado pátio. Alguns são novos; outros parecem estar sendo modernizados ou em reparos. Há o que parecem ser navios de transporte de contêineres, destroyers e o terceiro navio porta-aviões da China, conhecido como Type 003.

Docas secas e galpões que recebem investimentos são as docas secas e galpões usados para fazer navios militares”

— Matthew Funaiole

“Onde costumávamos ver uma certa divisão entre o lado comercial das coisas e o militar, essas linhas parecem cada vez mais misturadas”, diz Matthew Funaiole, um pesquisador sênior do China Power Project do CSIS, que segue de perto os desenvolvimentos na construção naval chinesa.

As imagens de satélite de Jiangnan analisadas pelo CSIS nos últimos anos capturaram um navio da Evergreen atracado ao lado de três navios de guerra chineses e, em outro caso, o verde identificável de um casco Evergreen próximo do porta-aviões chinês. Uma doca seca usada pelo porta-aviões foi anteriormente ocupada por um navio de transporte de contêineres que está sendo construído para a CMA CGM, segundo mostra a análise do CSIS, sugerindo que recursos estão sendo compartilhados entre o lado comercial e o militar das operações.

Quando companhias estrangeiras dão dinheiro para o estaleiro chinês, uma parte desses recursos muito provavelmente é reinvestida no estaleiro, afirma Funaiole. “Se os embarcadouros e as docas secas e galpões de montagem que recebem investimentos são também os embarcadouros, docas secas e galpões de montagem que são usados para produzir embarcações militares, como você escreve isso?”

Para Shugart, do Center for a New American Security, o resultado é o seguinte: “Todos esses países que estão comprando navios da China estão pagando a eles para a construção dos estaleiros de que eles precisam para reparar sua frota em uma guerra”, disse ele, acrescentando que “é difícil assistir a isso”.

A SMA CGM não respondeu a um pedido para comentários. A Evergreen disse que suas embarcações estão sendo construídas pelo departamento comercial da China State Shipbuilding Corporation, que segundo ela é separado do departamento militar da companhia. Os contratos de construção naval da Evergreen são de natureza puramente comercial e civil, disse a empresa.

A força de batalha da Marinha da China possui 370 navios, mais do que a Marinha dos EUA. Esse número deverá aumentar para 435 até 2030. Seus estaleiros estão construindndo navios de guerra cada vez mais sofisticados, como o grande e bem-equipado combatente de superfície da classe Renhai. Eles também construíram a maior guarda costeira e frota pesqueira do mundo, além de uma ampla marinha mercante – aumentando o poder marítimo da China.

Enquanto isso, a expectativa é de que a Marinha dos EUA permanecerá do mesm tamanho ou encolherá nos próximos anos, em relação aos atuais 292 cascos, aposentando mais navios do que colocando em operação, antes de ela voltar a crescer novamente. A frota de apoio logístico e de transporte marítimo que ajuda os militares está envelhecendo.

A Marinha dos EUA possui plataformas superiores às da China, como um grande número de porta-aviões. Mas estrategistas navais afirmam cada vez mais que o tamanho da frota também é importante – quanto maior, melhor.

Carlos Del Toro, o secretário da Marinha dos EUA, diz que está se empenhando na construção naval. Ele comandou uma revisão das causas dos problemas da construção naval nos EUA e está buscando recomendações para uma base industrial de construção naval que “forneça as capacidades de combate de que os nossos combatentes precisam, em um cronograma que seja relevante”, segundo a Marinha.

Em outubro, ele visitou um estaleiro particular não muito distante de San Francisco. A área abrigou um dos mais movimentados estaleiros durante a Segunda Guerra Mundial – um símbolo dos dias de glória da construção naval americana, assim como a ilha de Changxing representa o poderia da China na construção naval hoje. O Mare Island Naval Shipyard construiu 17 submarinos nucleares nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra, antes de ser fechado na metade dos anos 90.

“A história demonstra um padrão claro: nenhuma grande potência naval existiu sem ser também uma potência marítima comercial dominante, englobando tanto a construção naval como o transporte marítimo global”, disse Del Toro no fim do ano passado. (Tradução de Mario Zamarian)

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2024/03/11/china-se-torna-estaleiro-do-mundo-e-se-capacita-para-ampliar-poderio-militar.ghtml

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

“Vontade diabólica”. Musk e os loucos que quebram tudo para mudar o mundo 

Guilherme Pacheco – Brazil Journal – 14 de abril de 2024

Três anos atrás, Elon Musk foi ao Saturday Night Live e fez a seguinte piada, “Eu reinventei os carros elétricos e estou enviando pessoas para Marte num foguete espaçonave. Você achava que eu também seria um cara tranquilo e normal?” 

Na excepcional biografia de Musk, escrita por Walter Isaacson – o biógrafo de Steve Jobs, Benjamin Franklin e Leonardo da Vinci – vêm à mente as figuras de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Apesar de não haver esta referência em suas 656 páginas, o autor não resiste à (óbvia) comparação em entrevistas logo após a publicação do livro. 

Musk nunca foi um típico CEO, um cargo que exerce apenas por considerar o único caminho para forjar uma cultura que questiona cada detalhe, controla com mão de ferro o design e a engenharia dos produtos e imprime um ritmo alucinante de trabalho. 

Musk já fumou maconha na frente das câmeras, desafiou Mark Zuckerberg para uma luta num ringue e está frequentemente em disputa com governos dado o seu desprezo por regulações e uma defesa da liberdade de expressão (quase) absoluta. A atual disputa com Alexandre de Moraes é apenas mais um capítulo de um histórico de polêmicas que o projeta sob os holofotes, onde gosta de estar. 

O respeitável Dr. Jekyll é o Musk empreendedor genial, de energia inesgotável, com conhecimento profundo dos menores detalhes de cada negócio e capaz de realizar feitos incríveis como criar duas companhias que mudaram o mundo. Por outro lado, Musk também é impulsivo — por vezes temerário – atormentado, cruel, de personalidade oscilante e também capaz fazer coisas imorais e brutais, como o Mr. Hyde. 

Quando um usuário do X perguntou se Elon era bipolar, ele respondeu que sim. Isaacson relata que “Musk passou por períodos em que oscilava entre depressão, estupor, vertigem e energia maníaca. Ele ficava num péssimo humor, que o levava a transes catatônicos e a uma paralisia depressiva. Então, como se um interruptor tivesse sido ligado, ele ficava tonto e repetia esquetes antigos de Monty Python que incluíam jeitos esquisitos de andar e debates malucos, e aí explodia numa risada vacilante.” 

Todos lutamos contra os nossos monstros internos, mas os de Elon frequentemente ganham as batalhas. Como ensinou Freud: a loucura é, sobretudo, uma questão de grau. 

Isaacson teve um raro privilégio para um biógrafo: acompanhou o biografado por três anos em viagens e reuniões, com acesso irrestrito a pessoas e espaços, e sem que Elon tivesse acesso ao produto final antes de sua publicação. O resultado é um ângulo singular para uma biografia brutalmente sincera. 

Nascido em Pretória, na África do Sul, Elon teve uma estrutura familiar precária, um pai abusivo e uma adolescência sofrida. Possivelmente como fuga de uma dura realidade, mergulhou fundo na leitura, especialmente de ficção científica. Foi marcado profundamente por ​​O Mochileiro das Galáxias e aprendeu a programar sozinho, encontrando refúgio num mundo binário. 

Emigrou para o Canadá com sua mãe trabalhando em subempregos e a família toda dividindo um apartamento (alugado) de um quarto. Nesta época, trabalhou numa serralheria e numa fazenda. Mais tarde entrou na faculdade e conseguiu uma transferência para estudar na Universidade da Pensilvânia, onde se graduou em economia e física em 1997. Foi aceito para um PhD em Stanford, mas declinou dois dias depois para empreender no Silicon Valley. 

Aos 31 anos Elon já havia vendido uma startup, a Zip2 e fundido outra – a X.com – com um concorrente, dando origem ao Paypal. Com mais de US$ 100 milhões no bolso, apostou tudo para fundar a SpaceX naquele mesmo ano. Dois anos depois, comprou uma participação majoritária na Tesla, uma startup cujo carro elétrico estava só na prancheta. 

Stefan Zweig disse que alguns empreendedores têm uma “vontade diabólica” de realizar, como Cyrus Field, que lançou o primeiro cabo de telégrafo transoceânico, uma epopéia que começou em 1857 e foi acompanhada de perto por todo o mundo em três tentativas épicas ao longo de uma década. 

Field se lançou neste desafio sem ter qualquer expertise no segmento, sem tecnologia disponível para tal fim e contra as previsões de todos os grandes físicos da época. A distância a ser coberta era 100 vezes maior que a do maior cabo da época, que conectava a Europa continental ao Reino Unido. 

Em sua primeira tentativa, a Atlantic Telegraph Company, fundada por Field, usou todo o estoque de cobre da Inglaterra, levou um ano apenas para enrolar os cabos na polia do HMS Agamemnon, um dos maiores navios da época, cedido pelo governo britânico. 

Na sua partida, a expedição contou com a presença de 10.000 populares em terra e uma procissão festiva de 1.800 embarcações no mar. Ao narrar brilhantemente essa história no livro Momentos decisivos da humanidade, Zweig diz que apenas uma vontade diabólica permite a alguém perseguir desafios tão grandes e com tamanha persistência, mesmo diante de dificuldades aparentemente intransponíveis. 

Considerado um empreendedor-herói nos dois lados do Atlântico, Field enriqueceu com a operação do cabo transoceânico. Mas seu posterior envolvimento em investimentos controversos e um estilo de vida extravagante o levaram a perder tudo e viver seus últimos anos recluso em sua pequena cidade natal, possivelmente engolido por seus monstros. 

Nos jornais de Nova York circulavam rumores de que estaria insano, o que seus familiares negaram. 

Musk tem a vontade diabólica dos grandes realizadores que movem o mundo. A partir de uma startup conseguiu emplacar o carro elétrico em escala industrial, iniciativa então recém-abandonada pela Ford. O resto é história. 

Lançou foguetes, questionando toda a indústria aeroespacial e desafiando os protocolos de uma maneira que beirava a irresponsabilidade. O objetivo era aprender rápido com as explosões esperadas, corrigir e lançar novas versões dos foguetes até acertar. 

Acertou. Hoje é o maior transportador de carga para o espaço – a uma fração do custo da era do ônibus espacial da NASA – e o maior lançador de satélites do planeta, sem falar que a ISS (a estação espacial internacional) depende dele para levar e trazer astronautas e suprimentos. 

Mas Elon também é frágil como o menino que viveu em Pretória. 

Às vésperas do lançamento do terceiro foguete da SpaceX, que havia consumido todo o caixa da empresa, o fundador estava tendo mais uma de suas recorrentes crises de estômago, a ponto de quase vomitar enquanto todos faziam a contagem regressiva. (Ninguém sabe o que verdadeiramente se passa por trás dos grandes feitos e o preço emocional que se paga por eles.) 

Num de seus momentos mais difíceis, Elon viu a Tesla e a SpaceX na iminência de quebrar e implorou por dinheiro aos amigos para pagar a folha da Tesla. A família da noiva, sem grandes posses, ofereceu a hipoteca de sua própria casa para ajudar. Ainda estava recém divorciado, com cinco filhos (hoje são onze) e sem residência fixa, um problema recorrente na sua vida. 

A tensão o fazia ter terror noturno: acordava e passava madrugadas no banheiro, gritando e vomitando. 

Elon parece estar sempre em busca do reconhecimento que não teve do pai, e pauta sua vida por isso. Tem uma necessidade permanente de provar seu valor e de estar sob os holofotes, e para isso toma riscos desmedidos e se envolve permanentemente em polêmicas e dramas. 

O tema de seu aniversário de 42 anos foi steampunk japonês, um subgênero da ficção científica. Elon estava vestido de guerreiro Samurai e, depois de aceitar que um atirador de facas vendado acertasse um balão de festa em sua virilha, o clímax foi uma demonstração de sumô onde um campeão de 160 quilos convidou Elon para “lutar.” 

Ao perceber que o lutador estava apenas brincando com ele, como esperado, Elon decide surpreendê-lo e (deslealmente) derrubá-lo, aplicando um golpe de judô com toda sua força apenas para se mostrar aos amigos. 

O resultado para Musk foi o comprometimento permanente de dois discos intervertebrais na base do pescoço. Desde então, já fez três cirurgias sem sucesso e convive com fortes dores a ponto de realizar reuniões deitado no chão com gelo na base do pescoço. 

Musk tem de forma exacerbada e (quase) doentia características comuns a muitos empreendedores de sucesso: o poder de articular uma visão e atrair pessoas talentosas para segui-la de forma quase messiânica, um inconformismo manifestado pela rejeição das “coisas como elas são,” um foco obsessivo na resolução dos problemas e uma intensidade de trabalho alucinante. 

Quem empreende sabe que a liderança precisa ser exercida em todos os níveis, a batalha se vence nos detalhes (você não conhece nada de sua empresa se não a conhece profundamente) e na intensidade do trabalho. Musk leva isso com maestria e chama a si mesmo de “nano manager” por se envolver nos mínimos detalhes. Pergunte a ele sobre um detalhe de engenharia de um motor da Tesla ou de um foguete da SpaceX e você receberá um minucioso tutorial, transmitindo a segurança de um líder visionário que sabe exatamente o que está fazendo. 

Elon se move por grandes missões e não faz plano de negócios, inicia o negócio e depois busca um caminho de viabilizá-lo financeiramente. Na SpaceX, trata-se de permitir que os humanos vivam em outros planetas. Tudo o que realiza antes (como lançar uma rede de mais de 5 mil satélites oferecendo internet em qualquer canto do planeta, a Starlink) é um mero objetivo intermediário para viabilizar sua visão. Embarcou no Twitter acreditando estar lutando pela liberdade de expressão, algo que se mostrou bem mais complexo que seu habitat natural de zeros e uns. 

Uma outra característica é estabelecer prazos irreais – sem combinar com ninguém — como forma de pressionar e motivar o time a alcançar sua visão. O carro completamente autônomo da Tesla foi prometido para até 2017 mas não está funcional até hoje, apesar dos notáveis avanços especialmente nos últimos anos quando mudou a abordagem para o uso intensivo de inteligência artificial. 

Por outro lado, existe o Elon Musk que demite de forma cruel um jovem engenheiro, que era seu grande fã, em uma de suas vistorias na linha de produção da Tesla, pelo simples fato de não conseguir responder a perguntas técnicas, talvez pelo nervosismo que ele mesmo gera em seus interlocutores. A grande maioria dos funcionários evita o contato visual para escapar da sua fúria e crueldade. 

Musk também tem o péssimo hábito de apontar culpados publicamente (e, muitas vezes, equivocadamente), humilhando seus funcionários. Musk diz ter síndrome de Asperger, o que o impediria de ter empatia, mas entende isso como uma vantagem no mundo dos negócios, pois acredita que qualquer afetividade na relação profissional impede que se obtenha o máximo dela. Em suas palavras: “querer ser amigo de todo mundo faz com que você se importe mais com as emoções das pessoas na sua frente do que com o sucesso do empreendimento como um todo.” 

Elon desafia a todos, faz tudo a sua maneira e está sempre disposto a ir às últimas consequências para provar seu ponto. Logo após a aquisição do Twitter, hoje o X, ele promoveu a demissão de 75% do pessoal – sem prejudicar a continuidade nem disponibilidade do serviço – e revirou todas as pedras. Em uma reunião, em um 22 de dezembro, decidiu mover 5.200 racks de servidores de um datacenter baseado em Sacramento, Califórnia, para o de Portland para economizar 100 milhões de dólares por ano. 

O time estimou que o projeto levaria de 6 a 9 meses. Elon, indignado, deu duas semanas para executarem, caso contrário todos seriam demitidos, ameaça que faz usualmente. No dia seguinte, Elon decolou seu avião rumo a Austin para passar o Natal com a família. No meio do voo, atormentado, Elon pede a seu piloto que mude a rota para Sacramento. 

Ao chegar no aeroporto da cidade, coloca seu segurança na direção, sua esposa no seu colo e aperta o resto do time no banco de trás de um Corolla alugado rumo ao datacenter. Depois de uma luta para obterem acesso numa visita inesperada e inusitada, Elon chega até as máquinas do “X” e decide começar a mudança imediatamente, cortando os fios com um canivete do primeiro dos 5200 racks de 1 tonelada e empurrando pelos corredores. Assim é Elon Musk. 

Michael Marks era um experiente e bem sucedido investidor da Tesla que Musk convidou para ser o seu CEO, o que não funcionou por muito tempo. Marks foi perguntado por Isaacson sobre a relação entre o comportamento de Musk e seu sucesso como empreendedor: “Se o preço que o mundo paga por esse tipo de realização é ter um imbecil completo por trás disso, bem, provavelmente é um preço que vale a pena pagar,” disse ele. 

Elon tem a força para mover o mundo adiante, mas está permanentemente lutando contra seu monstro interno que teima em vir à tona e o faz reproduzir a crueldade do seu pai que tanto repugna e chora ao lembrar. As consequências são nefastas para si mesmo e para aqueles que estão ao seu redor. 

O sucesso e a glória podem ofuscar essa montanha de sofrimento, mas ela é tão real quanto os méritos do empreendedor. Sua loucura é indissociável de sua genialidade e é o preço que todos pagamos, alguns mais outros menos, pelos avanços que ele traz ao mundo. Quantos outros gênios já não brindaram o mundo com a sua obra e nos espantaram com a sua loucura? Elon Musk é mais um desses. 

Guilherme Pacheco é empreendedor e investidor em tecnologia, foi co-fundador do Bondfaro, da Mosaico e da Tessera Ventures.

Leia mais em https://braziljournal.com/vontade-diabolica-musk-e-os-loucos-que-quebram-tudo-para-mudar-o-mundo/?utm_source=Brazil+Journal&utm_campaign=0330d3b61b-ladobepisodio1-temp2-14042024-1-_COPY_02&utm_medium=email&utm_term=0_850f0f7afd-0330d3b61b-427667149 .

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Microsoft e OpenAI estão desenvolvendo supercomputador de meio trilhão de reais

Stargate, computador baseado em fusão nuclear, seria usado para alimentar inteligência artificial da OpenAI

Por Henrique Sampaio – Estadão – 01/04/2024 

A Microsoft e a startup OpenAI, fabricante do chatGPT, estão planejando construir um supercomputador de inteligência artificial chamado Stargate em conjunto com um data center, no valor de US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 505 bilhões), segundo o site The Information. Com lançamento previsto para 2028, o projeto serviria para alimentar a inteligência artificial da OpenAI e suprir sua demanda crescente de processamento.

O empreendimento, que, segundo o site, seria financiado pela Microsoft, custaria 100 vezes mais que alguns dos maiores centros de dados existentes no mundo.

As fontes do The Information, que dizem ter conversado com Sam Altman, CEO da OpenIA, e visto estimativas de custos da Microsoft, afirmam que o Stargate seria a etapa final das cinco fases previstas para o projeto. No momento, as empresas estariam na metade da terceira fase.

Embora o computador tenha potencial para ultrapassar muitas vezes o poder de computação atual fornecido pela Microsoft à OpenAI, seu gasto energético também seria maior, exigindo vários gigawatts. Cada 1 GW é equivalente ao consumo de energia de aproximadamente 500 mil residências.

Leia também

Em maio de 2023, após investir cerca de US$ 13 bilhões na OpenAI, a Microsoft fechou um acordo com a Helion Energy, empresa de fusão nuclear. As companhias vêm estudando o uso da energia nuclear para alimentar seus data centers desde o ano passado.

O valor exorbitante do projeto seria justificado não apenas pelos investimentos em energia de fusão nuclear mas também na obtenção dos chips dos servidores. Altman já afirmou em janeiro seu interesse em desenvolver uma linha proprietária de chips de para contornar o atual domínio da Nvidia no mercado de GPUs voltadas à IA.

A Microsoft e a OpenAI não comentaram. Contudo, a companhia conhecida pelo Windows afirmou ao Business Insider que está “sempre planejando as próximas inovações de infraestrutura necessárias para continuar levando adiante a capacidade de IA”.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/JaVtzzDfTqBFO2KO7EjX4b (01)  para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/