De açaí a sandálias, exportadores diversificam vendas para a China de olho em 400 milhões de consumidores

No alvo dos produtores brasileiros estão chineses de classe média e alta renda

Por Victoria Abel — O Globo – 26/11/2023 

Loja da Melissa na China: Grendene investe na exportação de sandálias para a China, que já é o terceiro destino de suas vendas para o exterior Loja da Melissa na China: Grendene investe na exportação de sandálias para a China, que já é o terceiro destino de suas vendas para o exterior — Foto: Divulgação / Grendene

Com itens personalizados e produtos típicos do Brasil, empresas brasileiras tentam conquistar um lugar nos hábitos de consumo da crescente classe média da China, maior parceira comercial do Brasil, mas com uma pauta de compras dominada pelas commodities agrícolas e minerais, como soja e minério de ferro. Com o crescimento do consumo interno na China, puxado pelo aumento progressivo da renda, medida pelo PIB per capita, a tendência é que as exportações de produtos primários comecem a dar mais espaço para alimentos processados e itens industrializados. Por isso, produtores brasileiros correm para se posicionar no gigante asiático. No alvo, está o grupo de 400 milhões de chineses de rendas média e alta.

A brasileira Novo Mel, produtora de mel e própolis de São Paulo, começou aos poucos essa jornada. Há cerca de dez anos, fez contatos com empresários chineses em feiras de negócio e acabou encontrando uma empresa local para se tornar sua parceira. Conseguiu conquistar o mercado de Hong Kong, que tem uma política de negócios menos burocrática que a do restante do país. Agora, prepara o crescimento em toda a China.

— Diferente das commodities, que são negociadas em Bolsas, a gente tem que ir lá, colocar a pastinha debaixo do braço, falar com as pessoas, achar os parceiros corretos. Não dá para entrar na China sem parceiro local, seja uma rede grande, um distribuidor ou um importador. Outra forma de fazer isso é abrir um escritório lá, mas não temos estrutura para isso — comenta Roberto Rehder, diretor da Novo Mel.

<img alt="Estande da Novo Mel em uma das feiras de negócios no país asiático — Foto: Divulgação” src=”https://lh7-us.googleusercontent.com/nGX9-B6b91Zu-nVbLqM1VBCcEil_utagTJoImz3BiGdTyJHGBz-La2Vucn7Wr24dblRj85CSOD39VWxpC-fo9IMzf534BbdyDvYc_Og1wN9kDraOZzU71sDPprll_4hLKHR-on5msxiwg0Vm1p2XgMQ&#8221; width=”602″ height=”451″> Estande da Novo Mel em uma das feiras &lt;EP,1&gt;de negócios no país asiático — Foto: Divulgação

As vendas de mel e própolis da empresa brasileira são feitas pelo site T-Mall, que pertence ao Alibaba, gigante chinês de e-commerce. O objetivo da Novo Mel agora é espalhar os itens pelo resto da China, mas ainda aguarda autorizações de órgãos de saúde chineses para disseminar as vendas.

— Hoje fazemos comércio on-line em Hong Kong. Para entrar em toda a China, é preciso um processo de registro por vários anos no órgão de saúde de lá — afirma Rehder.

Para se adaptar ao mercado chinês, a Novo Mel precisou mudar características das embalagens. O extrato de própolis, por exemplo, precisa levar o conta-gotas separado da tampinha. Além disso, a empresa criou um modelo com rótulos em português e inglês e a parte de trás em mandarim. Rehder diz que os compradores pediram para deixar as informações em outras línguas para caracterizar que é um produto importado:

— Disseram que se mantivéssemos apenas em mandarim poderia parecer que o mel era chinês, e o mel chinês não é valorizado lá.

Mudança após a covid

Um produto tipicamente brasileiro que entrou no gosto dos chineses é o açaí. Empresas do setor veem oportunidades não só de exportar açaí industrializado para o país, mas também o modelo de loja que serve a iguaria em diferentes variações, comum em grandes centros do Brasil. A presidente do conselho da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Cristina Franco, diz que a investida na nova classe média chinesa se ampliou no pós-pandemia:

— Depois da pandemia, encontramos uma China mais preparada para o consumo. O açaí, por exemplo, entrou no gosto do chinês, mas hoje o maior vendedor do produto para eles é belga. Queremos levar mais marcas brasileiras para o mercado chinês em 2024. São mais de 400 milhões de pessoas nessa classe média, então são dois “Brasis” em potencial de vendas.

O açaí paraense chega aos mercados asiáticos em forma liofilizada, em pequenas embalagens. Ou seja, o produto é desidratado, o que dá ao açaí um tempo de vida maior para aguentar a viagem até o outro lado do mundo. Ao chegar na China, pode ser reidratado e batido, como se faz com a polpa no Brasil.

O comércio de açaí para a China ainda é tímido, mas já corre por meio de indústrias no Pará e até fora do Brasil. O ASA Açaí, empresa com fábricas no Pará, está começando as negociações com parceiros chineses para distribuição no país. O diretor, João Hermeto, conta que eles estão em fase de preparação do produto para a entrada no mercado asiático.

— Estamos em contato com os executivos do Alibaba e estamos nos preparando para as exportações. Desenvolvemos um produto liofilizado, com embalagens de alumínio duplo, de 50 a 200 gramas, à vácuo. Esse processo preserva os componentes e o sabor do açaí. Não dá para ter o resultado 100% igual ao da polpa, é difícil, mas é tudo uma descoberta, e o chinês tem aceitado esse formato.

Um segmento da indústria brasileira que já está no país e agora tenta ampliar sua presença é o calçadista. Um exemplo de grande empresa que entendeu o mercado chinês é a Grendene, com a Melissa. A venda de sapatilhas, sandálias e chinelos coloridos da marca feminina, produzidos no Ceará, para a China já ocupa o terceiro lugar nas exportações da companhia. Até 15% do faturamento da Melissa vêm desse mercado asiático. Com o avanço dos negócios, a marca montou lojas próprias em Xangai, Pequim e Guangzhou.

— O primeiro passo foi a venda por meio de lojas multimarcas, depois passamos a ter alguns corners (prateleiras exclusivas em lojas de departamentos), até termos algumas lojas próprias e exclusivas em shoppings asiáticos, há cerca de oito anos. A linguagem da Melissa combina muito com a asiática. Essa coisa do mangá (que tem origem japonesa), do colorido, de produtos que têm uma certa ironia.

’Influencers’ locais

Para o executivo, “o trabalho de internacionalizar uma marca é um tijolinho de cada vez”. O momento atual da Melissa na segunda maior economia do mundo é de impulsionar as vendas com a criação de modelos que agradem mais as chinesas e a contratação de influenciadores digitais na China. O país tem internet e redes sociais praticamente isoladas do restante do mundo, o que exige um esforço ainda maior no alcance digital.

— A maior parte das vendas ainda ocorre no ambiente on-line. A China foi se desenvolvendo e passou de produtor de cópias para um país que faz suas marcas. Por isso, para nós é importante também essa atuação cultural, com os influenciadores. Uma delas é a Rosy. O nosso posicionamento de ser um “luxo acessível” funciona muito bem lá — diz Pedo.

Rosy, nome artístico e ocidentalizado da atriz Lusi Zhao, tem mais de 40 milhões de seguidores no Douyin, equivalente ao TikTok na China, e 26 milhões no Weibo, o Twitter chinês. A maior parte dos seguidores dela é do sexo feminino e nasceu após os anos 2000, perfil compatível com a pegada moderninha que a marca busca projetar.

— Tem uma questão de acertar a cartela de cores para o mercado chinês. Determinados produtos funcionam melhor lá, como sapatilhas. A numeração também precisa ser acertada, vendem mais as numerações menores — afirma o executivo da Melissa.

Café ‘Gourmet’

A secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Tatiana Prazeres, diz que o desempenho brasileiro na exportação de commodities como a soja para a China segue sendo o carro-chefe da relação com aquele país, com crescimento de aproximadamente 13% ao ano. Mas ela diz que o governo vê com atenção as mudanças naquele país e quer incentivar a venda de outros produtos:

— A China não crescerá mais a dois dígitos por ano. Mas um crescimento de 4% ou 5% ao ano, hoje, sobre uma base muito mais robusta, significa uma contribuição maior para a economia global do que um crescimento de dois dígitos há 10 ou 15 anos. Com a queda na população chinesa, vemos um aumento na renda per capita dos chineses, aumento da classe média e da urbanização no país. Vemos espaço para o comércio de alimentos e bebidas processados, além de itens de moda, como calçados e cosméticos.

O presidente da Apex Brasil, Jorge Viana, diz que a agência de fomento às exportações fechou convênio com e-commerces chineses para tentar acesso ao mercado para os brasileiros. Ele vê uma mudança de hábito do chinês que também abre caminho para um novo tipo de exportação: o de café. O objetivo do governo brasileiro é exportar, principalmente, grãos especiais e está à procura de uma marca que possa liderar a empreitada. Segundo a Apex, em 2023, 527 companhias contam com apoio da agência para alavancar exportações para a China, sendo a maioria micro e pequenas empresas:

— Queremos dar oportunidade para quem nunca exportou, como cooperativas — comenta Viana.

https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2023/11/26/de-acai-a-sandalias-exportadores-diversificam-vendas-para-a-china-de-olho-em-400-milhoes-de-consumidores.ghtml

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Clubes de leitura ajudam executivos a discutir gestão

Com clássicos da literatura e títulos modernos, ação promove conexão entre as pessoas, estimula o trabalho em equipe, a resiliência e a motivação

Por Jacilio Saraiva — Para o Valor, 09/11/2023

Os clubes de leituras corporativos estão dando um passo à frente. Depois de promoverem debates on-line entre executivos durante o confinamento provocado pela covid-19, agora organizam mentorias sobre gestão e liderança, baseadas em títulos lidos pelas equipes, com encontros híbridos ou presenciais. Para as empresas que adotam as atividades, a intenção é gerar mais conexões entre os funcionários e estimular o trabalho em equipe, além de discutir temas como resiliência, carreira e motivação.

Na Adium, grupo farmacêutico com presença em 18 países e 700 funcionários no Brasil, a ideia, iniciada em 2021, foi batizada de laboratório de leitura e já percorreu obras como “A festa de Babette”, da dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962) e o “O conto da ilha desconhecida”, do português José Saramago (1922-2010).

De acordo com Alexandre Seraphim, gerente geral da Adium no Brasil e idealizador da iniciativa na companhia, o número de participantes, todos da liderança, passou de 36 em 2021 para 58 no ano passado e chegou a 72 executivos, até setembro. “Em 2024, vamos ampliar a participação focando nos novos colaboradores”, diz.

O clube de leitura da empresa conta com o apoio de uma biblioteca com cerca de 1,5 mil opções, entre volumes físicos, digitais e audiolivros. O espaço conta com curadores que renovam o acervo e recomendam novidades com base nos interesses dos times, explica.

Livro escolhido deve ter potencial de gerar reflexão

Estante: 6 livros sobre carreira e gestão

Lideranças discutem o papel das empresas para melhorar a educação e a empregabilidade

Um dos clássicos revisitados nas mentorias é “O velho e o mar”, do americano Ernest Hemingway (1899-1961), que acompanha um pescador que se lança sozinho ao mar, luta pela sobrevivência e passa dias sem pescar, até conseguir fisgar um espadarte de 500 quilos. Mas acaba perdendo o peixe após ataques de tubarões e retorna à costa apenas com uma carcaça.

Seraphim diz que o enredo é analisado pelos gestores a fim de avaliar se o personagem pode ser considerado um empreendedor de sucesso. “A leitura remete a valores como coragem, resiliência e autoconhecimento, elementos fundamentais no enfrentamento dos desafios cotidianos das corporações”, assegura.

O gestor explica que o método dos “laboratórios” de leitura consiste em três encontros com grupos de 10 a 15 funcionários, após a leitura dos livros. Podem começar a distância e serem finalizados com uma reunião presencial. “Um dos efeitos mais importantes que identificamos na ação é o fortalecimento da empatia, com mais estímulo à colaboração e ao trabalho em equipe.”

A próxima obra a ser “mentorada” deve ser “A tempestade”, do inglês William Shakespeare (1564-1616), com integrantes do comitê executivo. A peça, que tem como cenário uma ilha habitada por um feiticeiro em busca de vingança, é repleta de reviravoltas que abordam questões como liberdade e perdão. “É uma história de superação, sabedoria e reconciliação, com reflexões sobre o exercício da liderança.”

Leitores corporativos se dão melhor com livros que, sem deixar de serem densos, são mais curtos [pela falta de tempo]”

— Dante Gallian

O gerente geral da Adium diz que a escolha das obras é feita pela área de recursos humanos, em conjunto com a equipe da Casa Arca, empresa especializada em organizar atividades de leitura em grandes organizações.

De acordo com o historiador Dante Gallian, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e sócio-fundador da Casa Arca, os leitores “corporativos” se dão melhor com livros que, sem deixar de serem densos, são mais curtos. “Levamos em consideração a falta de tempo dos executivos”, explica. Clássicos menos volumosos ou contos podem ser lidos de forma tranquila e, a partir daí, iniciamos os encontros, diz. “As reuniões podem ser semanais e com duração de uma hora e meia,, quando convidamos os participantes a contarem suas histórias de leitura, privilegiando a maneira com que cada livro despertou questionamentos”, detalha Gallian.

Na opinião de Isabel Alves Azevedo, chief human resources officer (diretora de RH) da seguradora Fairfax Seguros (FF), empresa com 320 funcionários que acaba de iniciar um programa trimestral de leituras e mentorias, a proposta é incentivar conexões e a formação de lideranças.

O primeiro assunto na mesa é inspirado em “Todos são importantes – O extraordinário poder das empresas que cuidam das pessoas como gente e não como ativos”, de Bob Chapman, CEO da multinacional americana de tecnologia Barry-Wehmiller, e Raj Sisodia, autor de vários títulos sobre gestão de negócios, como a série “Capitalismo consciente”.

“O programa é aberto a todos os colaboradores, mas o público-alvo são coordenadores, superintendentes, gerentes e diretores, que terão atividades individuais e coletivas”, explica Azevedo. O grupo de líderes representa 20% da equipe da companhia. Cada mentoriapode levar até quatro semanas, uma hora por semana, no horário do expediente.

Os mentores orientam os funcionários, enquanto leem juntos e discutem as ligações entre o livro e experiências pessoais, diz Azevedo. Em uma segunda fase, as turmas apresentam sugestões de novas obras e, após uma votação, escolhem o assunto das próximas sessões. “As mentorias são coordenadas pelas lideranças e, dependendo do tema, podem ser conduzidas pelo head de RH ou o CEO.”

O projeto começou a partir da criação de um espaço de leitura, com empréstimo de livros, dentro da empresa, em agosto. O local conta com mais de 100 exemplares, doados pelos empregados, como “Shackleton, uma lição de coragem – A incrível saga de dedicação e heroísmo do grande explorador da Antártida”, da dupla Margot Morrell e Stephanie Capparell.

A proposta é colaborar para uma cultura de desenvolvimento, assegura a diretora. “Não aprendemos apenas com os livros, mas sobre as pessoas da organização.”

Em setembro, a adesão dos times ao núcleo literário da FF Seguros marcava 10% da folha. “A meta para o primeiro semestre de 2024 é subir para 25%”, afirma Azevedo. Nessa linha, foi desenhado um plano de fidelidade para os visitantes, que poderão trocar pontos por mais livros, cursos e viagens.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/11/09/clubes-de-leitura-ajudam-executivos-a-discutir-gestao.ghtml

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Q*: Por que a nova corrida pela IA matemática intriga e assusta?

Busca de modelo capaz de raciocínio com números gerou guerra interna na OpenAI e é objeto de novo prêmio de US$ 10 milhões

Por Rafael Garcia — O Globo – 03/12/2023 

A criação de um novo sistema de inteligência artificial (IA), supostamente capaz de raciocínio matemático como o praticado por humanos, desencadeou uma guerra interna na OpenAI, empresa dona do ChatGPT. Foi apontado como um dos motivos por trás da demissão e recondução do CEO da empresa, Sam Altman, num espaço de cinco dias, no mês passado. Descrito como revolucionário pelo executivo, esse novo tipo de IA foi visto como perigoso por parte do antigo conselho da mais valiosa startup do Vale do Silício. Mas por que está gerando tanta controvérsia?

Uma reportagem da agência de notícias Reuters, que teve acesso a informações internas da empresa, revelou que o novo projeto se chama Q* (Q-Star), e que ele seria supostamente capaz de solucionar problemas matemáticos para os quais não foi programado. Ele teria, portanto, um certo poder de criar conhecimento próprio à medida que raciocina, aprendendo sozinho.

Lidar com matemática é algo para o qual os “grandes modelos de linguagem” (LLMs), sistemas de IA da classe do ChatGPT, não foram projetados. Esses sistemas de IA generativa que se popularizam atualmente funcionam mapeando grandes quantidades de informação escrita que os alimentam, para depois regurgitar textos de uma maneira peculiar, prevendo quais palavras são mais prováveis de ocorrer antes de outra.

Essa estratégia funciona quase como mágica em tarefas de geração de texto, mas não é particularmente boa para responder a questões matemáticas, mesmo algumas relativamente simples. Resolver uma equação de segundo grau, por exemplo, é uma tarefa que envolve uma fórmula predefinida e um número de passos num sistema formal de resolução, que não é o que os LLMs fazem.

Quando o ChatGPT foi lançado, professores que testaram sua capacidade para resolver questões do Enem, por exemplo, logo constataram que ele não ia muito bem em matemática. A própria OpenAI já vinha tentando compensar essa limitação de seu sistema. A versão paga do ChatGPT hoje está acoplada ao sistema Wolfram Alpha, um projeto de IA que já existe há mais de uma década e foi criado especificamente para resolver questões técnicas que envolvam matemática e conceitos das ciências naturais.

O Wolfram nunca chegou perto, porém, de alcançar a popularidade que o ChatGPT conquistou em 2023 em poucas semanas. Em parte, isso se deve à maneira com que os usuários devem interagir com o sistema, obedecendo a uma formalidade ao digitar a questão, detalhando a operação que se deseja resolver.

Acoplado ao ChatGPT, esse desconforto foi superado, mas nem sempre o sistema retorna uma resposta correta. É um desafio ainda, para a IA, saber “como” pensar diante de cada tarefa. Num problema com enunciado informal, a conexão da linguagem com a matemática pode se perder.

A controvérsia em torno do Q* certamente ajudou a atrair atenção para esse problema, mas não se sabe ainda se ele consegue raciocinar matemática de uma forma realmente mais eficaz.

Encadeamento lógico

Segundo Paulo Orenstein, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), o que os LLMs fazem hoje ainda é uma matemática rasa, e não operações que exigem de fato um encadeamento lógico.

— Se eu perguntar quanto é 2 + 2, você vai falar 4, mas você não teve que pensar para fazer a conta. Você basicamente decorou isso um dia, porque já ouviu essas palavras algumas vezes. Agora, se eu pedir para calcular 17 x 34, você sabe fazer, mas vai ter que parar e pensar com calma, aplicar o seu próprio algoritmo, para chegar à resposta — explica o matemático. — Uma maneira de pensar o que o ChatGPT faz, por enquanto, é que ele só têm fundamentalmente esse primeiro sistema de pensamento, que é basicamente um “fluxo de consciência”.

É razoável imaginar que essa limitação é algo que o Q* esteja tentando resolver, porque a OpenAI não está sozinha nessa busca. Criar ou acoplar sistemas de raciocínio matemático às LLMs é uma meta que várias empresas e grupos de pesquisa estão perseguindo, e um prêmio acaba de ser anunciado para quem chegar lá primeiro.

A XTX Markets, uma empresa especializada em algoritmos para atuação no mercado financeiro, patrocina a Olimpíada Internacional de Matemática, uma competição em que estudantes competem na solução de problemas. A companhia anunciou nesta semana um prêmio de US$ 10 milhões para o primeiro grupo de pesquisa que conseguir criar um sistema de inteligência artificial capaz de ganhar medalha de ouro no torneio.

Se é consenso que essa é uma frente importante para a inteligência artificial avançar, muitos pesquisadores veem um pouco de exagero quando se especula que sistemas capazes de um raciocínio mais eficiente no campo trarão mais ameaças que hoje.

Apocalipse cibernético

A Academia Brasileira de Ciência publicou recentemente um documento sobre potenciais de benefício e riscos da IA para o país.

A Academia Brasileira de Ciência publicou recentemente um documento sobre benefícios e riscos potenciais da IA para o país. O texto — assim como manifestos similares em outros países — não menciona a chance de LLMs produzirem a “inteligência artificial geral”, capaz de atingir um ponto de “singularidade”, em que computadores se tornam mais inteligentes ou conscientes que humanos.

— A gente tem de separar o que realmente está acontecendo daquilo que é muito mais uma propaganda — diz Edmundo de Souza e Silva, professor de Ciência da Computação na UFRJ e um dos autores do relatório. — Já teve livro de ficção científica dizendo que algum dia pode ser que atinja esse estágio, mas na minha opinião ainda estamos bastante longe.

Imagem gerada por inteligência artificial mostra robô solucionando equação matemática — Foto: Dall-E 3/OpenAI Imagem gerada por inteligência artificial mostra robô solucionando equação matemática — Foto: Dall-E 3/OpenAI

Existem preocupações éticas mais prementes para a regulação da inteligência artificial, diz Souza e Silva, como a ameaça a empregos que serão automatizados e a possibilidade de se gerar mais caos na internet com a criação de notícias falsas mais convincentes.

— Não é nada como no filme “Exterminador do Futuro”, com aquele sistema de IA Skynet, que virou vilão e tentou aniquilar os humanos — diz. — Precisamos é ter o cuidado de evitar que a IA que já existe seja usada para o mal. Como sociedade, precisamos assegurar que seja usada para o bem.

O problema com os temores que o Q* estaria gerando internamente na OpenAI é que ninguém de fora sabe se não passam de confabulação catastrofista ou se há alguma preocupação concreta que os embase. A maior parte dos arcabouços éticos e de regulação para IA aponta os itens de “segurança” e “transparência” como as principais frentes de risco para essa tecnologia. São esses os dois valores em jogo nessa história.

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2023/12/03/q-por-que-a-nova-corrida-pela-ia-matematica-intriga-e-assusta.ghtml

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Deeptechs: inovação a partir da ciência e da engenharia

Por Evandro Milet – Portal ES360 – 03/12/2023

As startups DeepTech são empresas baseadas em uma descoberta científica ou inovação significativa de engenharia. Envolvem risco tecnológico e P&D significativos, mas são fundamentais para enfrentar os grandes desafios da humanidade. As empresas DeepTech têm o potencial de provocar mudanças disruptivas, estabelecer novas indústrias e perturbar as existentes. Tecnologias de ponta como a IA, a energia solar, os veículos elétricos, os veículos autônomos, a biotecnologia, a produção 4.0, os satélites, a robótica, o IoT , a modelagem 3D, os gêmeos digitais, a nanotecnologia, a engenharia genética, a fotônica, a ciência dos materiais, a computação quântica, os drones, a microeletrônica e a visão computacional têm o potencial de abrir novos caminhos para o crescimento econômico, a redução das desigualdades sociais e a sustentabilidade ambiental no mundo.

Esta modalidade, que está impactando o mercado de forma crescente, surgiu como conceito em 2014 pela social media indiana Swati Chaturvedi, com o objetivo de diferenciar empresas de “tecnologia profunda” das startups de internet, apps e comércio eletrônico. Foi definido da seguinte forma: “As empresas de tecnologia profunda são construídas sobre bases tangíveis de descobertas científicas ou inovações de engenharia. Elas estão tentando resolver grandes problemas que realmente afetam o mundo ao redor delas. Por exemplo, um novo dispositivo médico ou técnica de combate ao câncer, captura e análise de dados para ajudar os agricultores a cultivar mais alimentos ou uma solução de energia limpa tentando diminuir o impacto humano nas alterações climáticas.”

As startups digitais tradicionais se concentram no produto ou inovação do modelo de negócios com menores custos e maior velocidade para entrar no mercado. Deeptechs demandam mais recursos, mais tempo e mais riscos. Em compensação, resolvem problemas mais profundos.

As deep techs já movimentam um mercado relevante e possuem perspectivas importantes de crescimento. De acordo com o Meeting the Challenges of Deep Tech Investing, realizado pelo Boston Consulting Group (BCG), o ecossistema de deep techs pode atrair de R$ 695 bilhões (US$ 140 bi) a R$ 993 bilhões (US$ 200 bi) em investimentos até 2025.

Os países desenvolvidos estão bem à frente em deeptechs, até porque há necessidade de técnicos com excelente formação em quantidade, universidades de ponta, recursos para P&D e inovação e investidores dispostos a maiores riscos. Mas temos problemas que eles não têm e precisamos resolvê-los na saúde, na pobreza, na segurança, na agricultura, na medicina, na logística, na educação, no trânsito, ou mesmo na nossa indústria, comércio e governo. E temos oportunidades que eles não dispõem no agronegócio, na biodiversidade, na diversidade da população, no clima, na geopolítica e que precisamos aproveitar. Muitos dos problemas eles não vão resolver por nós, e ainda levam os nossos técnicos de alto nível. 

É fundamental a educação básica, envolvendo fortemente o que se denomina STEAM, da sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. E recursos para P&D, pesquisadores empreendedores e uma maneira de evitar a fuga de cérebros. 

Um pedaço do fundo soberano poderia apoiar um novo fundo para deeptechs, considerando a pouca disponibilidade ainda de investidores privados, os custos mais altos, os riscos tecnológicos e o alto impacto dos casos de sucesso.

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/deeptechs-inovacao-a-partir-da-ciencia-e-da-engenharia/

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Terras raras: minerais da indústria verde trazem bilhões à nova ‘corrida do ouro’

Após a busca pelo lítio, usado em baterias, minerais essenciais para a fabricação de produtos de tecnologia atraem capital estrangeiro

Por Cleide Carvalho e João Sorima Neto — O Globo – 19/11/2023 

A transição para energias limpas, capazes de estancar as mudanças climáticas, coloca o Brasil mais uma vez na rota de investimentos bilionários em mineração. Depois da corrida pelo lítio (usado em baterias) no Vale do Jequitinhonha (MG), o que atrai capital estrangeiro agora é a extração das chamadas terras raras, minerais essenciais para a fabricação de uma série de produtos de tecnologia e transição energética.

O Brasil concentra a terceira maior reserva do mundo, atrás da China e quase empatado com o Vietnã em meio à valorização dessas matérias-primas.

Minas Gerais desponta nessa corrida do “ouro do século XXI”, como têm sido chamados esses materiais, com três grandes projetos que somam R$ 4,6 bilhões. A australiana Meteoric Resources vai aplicar R$ 1 bilhão em Poços de Caldas, onde a Viridis planeja outro projeto de R$ 1,2 bilhão.

Elementos químicos, cujas frações de minerais são difíceis de extrair do solo e das rochas, estão até no seu celular — Foto: Editoria de Arte Elementos químicos, cujas frações de minerais são difíceis de extrair do solo e das rochas, estão até no seu celular — Foto: Editoria de Arte

A brasileira Terra Brasil vai minerar em Patos de Minas e Presidente Olegário, no Alto Paranaíba, e assinou protocolo de intenções de R$ 2,4 bilhões.

Em Goiás, a Mineração Serra Verde investe R$ 800 milhões em Minaçu. E a canadense Aclara Resources acaba de anunciar a descoberta de nova jazida no estado. Na Bahia, a Brazilian Rare Earths, de capital australiano, anunciou ter obtido concessão para explorar cerca de 460 quilômetros quadrados em Jequié. A expectativa é que Serra Verde seja a primeira a iniciar a exploração, em 2024.

— O Brasil tem potencial para atender de 10% a 15% do mercado mundial de terras raras nos próximos dez anos — anunciou Marcelo Carvalho, diretor executivo da Meteoric, em seminário no fim de outubro promovido pela Comissão Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Poços de Caldas.

Potencial alto

A Meteoric anunciou investimentos de R$ 1 bilhão em três anos em Poços de Caldas e vai ter como vizinha a também australiana Viridis Mining and Minerals, que acaba de comprar direitos de pesquisa e exploração na cidade. Klaus Petersen, gerente da Viridis para o Brasil, disse ao GLOBO que a lavra deve começar em três ou quatro anos.

O investimento estimado é de R$ 1,2 bilhão, quando o projeto estiver a pleno vapor, e a expectativa é retirar de 2,5 a 3 quilos de terras raras por tonelada de argila, enquanto na China extrai-se de 800 gramas a 1 quilo. O nome das terras raras vem menos da sua ocorrência e mais da dificuldade de extração.

Com essa relação, a operação brasileira pode ser mais barata que a chinesa, que hoje atende quase toda a demanda global e acirra tensões geopolíticas em meio à corrida tecnológica.

— Temos certeza de que a operação será lucrativa. Quando estiver a pleno vapor, a expectativa é extrair 10 mil toneladas ao ano — diz Petersen.

Franco Martins, secretário de Desenvolvimento Econômico de Poços de Caldas, acredita que essa mineração vai melhorar a renda dos 163 mil habitantes, e a arrecadação da cidade pode crescer até 50%:

— Novas empresas devem chegar pelo potencial da região, que engloba também o município de Andradas.

Há ainda depósitos de terras raras identificados no sul do Tocantins, onde a Mineração Serra Verde faz pesquisas em dois municípios: Jaú do Tocantins e Palmeirópolis, e na Amazônia. Foram encontrados elementos químicos (chamados de ETRs) em rejeitos da mina de Pitinga, da Mineração Taboca, de onde é extraída cassiterita, em Presidente Figueiredo, no Amazonas.

Elas estão também no Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira (AM), ao lado de outros minerais, como nióbio. O Morro dos Seis Lagos, no entanto, integra a Reserva Biológica Morro dos Seis Lagos, de proteção integral, e a Terra Indígena Balaio, que reúne dez diferentes etnias.

Origem do nome

As terras raras (veja quadro) são 17 ETRs que não fazem jus ao nome, dado na Suécia em 1780. Estão mais presentes no subsolo que ouro ou prata, por exemplo. Mas é difícil extrair frações de toneladas de terra ou rocha. Exploradas no Brasil desde 1886, as terras raras eram tiradas de areia monazítica na faixa litorânea do Sul da Bahia ao Rio de Janeiro. Agora, virão de argila iônica, em regiões onde, há milhões de anos, havia vulcões.

Os ETRs são considerados o “ouro do século XXI” agora pela importância atual do uso. A industrialização das terras raras, que começou com a fabricação de mantas de lampiões, é hoje estratégica. Em diferentes combinações, os ETRs são matérias-primas de indústrias que vão da fabricação de diesel e gasolina a celulares, onde estão no brilho das telas, na vibração e no microfone, mas têm se destacado em equipamentos de transição energética, como lâmpadas de LED.

O pulo do gato da caça às terras raras no Brasil é o foco atual em três dos 17 ETRs (neodímio, praseodímio e disprósio) usados na fabricação de superímãs, usados em motores de carros elétricos e turbinas de energia eólica. Para se ter uma ideia, cada torre eólica consome 2 toneladas de concentrado de ETRs. Um motor elétrico usa mais de 1 quilo.

É por isso que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou em Nova York, no mês passado, que o Brasil pode se tornar exportador tanto “de terras raras e hidrogênio” quanto de “produtos verdes”. Ele se referiu à abundância no país de fontes de energia renovável e dessas matérias-primas.

Especialistas estimam que a procura por esses minerais deve crescer até seis vezes até 2040. Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), explica que o disprósio é o mais caro dos três, pela capacidade de resistir a altas temperaturas. Custa cinco vezes mais.

— O grande desafio é o resfriamento dos motores elétricos. Se não resfriar, para de funcionar — diz Landgraf.

Segundo ele, o Brasil tem os minerais e a ponta do consumo, mas falta o meio, que é a produção dos “óxidos”. O INCT desenvolveu a tecnologia de fabricação de superímãs e o laboratório-fábrica (labfab) da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais, que custou R$ 80 milhões e fez parte dos projetos de fomento à mineração financiados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Agora, pode ser repassado ao governo federal ou à iniciativa privada.

Além do básico

Sem a indústria intermediária, diz o professor, o minerador vai ganhar muito dinheiro mandando esse material bruto para fora, mas o Brasil poderia usufruir mais:

— O óxido de neodímio, por exemplo, que sai da indústria intermediária, custa dez vezes mais que o que o produto que sai das minas. Ou seja, o Brasil pode ser mais uma vez só exportador de commodity.

Petersen lembra que a China já informou que deixará de fornecer superímã para o resto do mundo a partir de 2025.

Responsável por cerca de 95% desse mercado, o domínio chinês é visto como uma ameaça pelo resto do mundo. Hoje, só a China domina todo o processo, da extração desse mineral à aplicação na indústria de tecnologia, incluindo a fabricação de superímãs.

Henrique Tavares, gerente de Promoções e Investimento da Invest Minas, agência de promoção de investimentos do governo mineiro, ressalta que a exploração de terras raras ultrapassa a importância econômica:

— Há a questão geopolítica. Mais de 90% desses minerais são produzidos na China, fazendo países como EUA, Japão, Inglaterra e Austrália buscarem novas fontes desses minerais. E o Brasil é uma delas.

Atividade demanda tratamento de rejeitos

Ainda que ligada à economia verde, a mineração de terras raras tem os mesmos riscos da exploração de outros minerais: alteração de paisagem e ecossistemas, alto consumo de água. E ainda há perigo de contaminação de solo e cursos d’água com elementos radioativos e metais pesados, diz a Agência Nacional de Mineração (ANM), ligada ao Ministério de Minas e Energia, que autoriza pesquisa e exploração de áreas e fiscaliza atividades.

O professor da USP Osvaldo Antônio Serra, químico e pesquisador do tema, diz que não há na natureza terras raras sem urânio e tório, elementos radioativos. O que faz diferença é a quantidade, diz:

— A argila iônica, que será agora explorada, pode ter menos urânio e tório, mas tem. Preocupa é que tratamento será dado a esses rejeitos, que precisam ser controlados. Não temos boas regras de controle de resíduos da mineração, basta ver as tragédias de Brumadinho e Mariana (onde se romperam barragens de rejeitos de Vale e Samarco).

Impactos ambientais

Klaus Petersen, gerente da Viridis para o Brasil, diz que elementos radioativos em terras raras aparecem mais em mineração em “rocha dura”. Testes da empresa na argila iônica encontraram teores “quase inexistentes” de urânio e tório, diz, ressaltando que a sustentabilidade é hoje obrigatória para atrair investidores.

A ANM diz que, para mitigar impactos ambientais, as empresas devem adotar práticas sustentáveis e tecnologias avançadas. Em Poços de Caldas, a Viridis retira a argila em camadas de até 10 metros de profundidade. Com água e sulfato de amônia, os íons do mineirais de terras raras são separados. A argila lavada é devolvida à lavra. Como o sulfato de amônia é usado em fertilizantes, o solo ainda fica mais fértil.

— Numa mineradora tradicional, essa sobra iria para uma bacia de rejeitos — diz Petersen, acrescentando que ainda há reúso de água.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/11/19/terras-raras-minerais-da-industria-verde-trazem-bilhoes-a-nova-corrida-do-ouro.ghtml

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Como os táxis sem motorista estão estressando as cidades onde já estão em funcionamento

Em São Francisco e Austin, onde os passageiros podem chamar veículos autônomos, os carros aumentaram a carga de trabalho dos funcionários da cidade

Por Yiwen Lu – Estadão – 22/11/2023 

THE NEW YORK TIMES – Por volta das 2 horas da manhã do dia 19 de março, Adam Wood, um bombeiro de plantão de São Francisco, recebeu uma ligação do 911 e correu para o bairro de Mission, na cidade, para ajudar um homem que estava passando por uma emergência médica. Depois de colocar o paciente em uma ambulância, um carro preto e branco parou e bloqueou o caminho.

Era um veículo sem motorista operado pela Waymo, uma empresa de carros autônomos de propriedade da Alphabet, controladora do Google. Sem nenhum motorista humano para instruir a sair do caminho, o Sr. Wood falou por meio de um dispositivo no carro com um operador remoto, que disse que alguém viria levar o veículo embora.

Em vez disso, outro carro autônomo da Waymo chegou e bloqueou o outro lado da rua, disse Wood. A ambulância finalmente conseguiu sair depois de ser forçada a dar ré, e o paciente, que não estava em estado crítico, conseguiu chegar ao hospital. Mas os carros autônomos adicionaram sete minutos à resposta de emergência, disse ele.

Sua experiência foi um sinal de como os táxis autônomos estão começando a afetar cada vez mais os serviços da cidade. Em São Francisco e Austin, Texas, onde os passageiros podem chamar veículos autônomos, os carros diminuíram o tempo de resposta de emergência, causaram acidentes, aumentaram o congestionamento e aumentaram a carga de trabalho das autoridades locais, disseram policiais, bombeiros e outros funcionários da cidade.

Em São Francisco, mais de 600 incidentes com veículos autônomos foram documentados de junho de 2022 a junho de 2023, de acordo com a Agência Municipal de Transportes da cidade. Após um episódio em que um carro sem motorista da Cruise, uma subsidiária da General Motors, atropelou e arrastou um pedestre, os reguladores da Califórnia ordenaram que a empresa suspendesse seu serviço no mês passado. Kyle Vogt, executivo-chefe da Cruise, pediu demissão no domingo.

Em Austin, as autoridades municipais disseram que houve 52 incidentes com carros autônomos de 8 de julho a 24 de outubro, incluindo um acidente inédito de um protótipo de robotáxi sem volante contra um “pequeno prédio elétrico”.

Para lidar com as consequências, São Francisco designou pelo menos um funcionário da cidade para trabalhar com políticas de carros autônomos e pediu a duas agências de transporte que compilassem e gerenciassem um banco de dados de incidentes com base em chamadas para a emergência, publicações em mídias sociais e relatórios de funcionários. Neste verão, Austin também formou uma força-tarefa interna para ajudar a registrar incidentes com veículos sem motorista.

“Muitas pessoas da força-tarefa estão fazendo malabarismos com isso, além de outras operações normais do dia a dia”, disse Matthew McElearney, capitão de treinamento do Corpo de Bombeiros de Austin. “Na descrição do meu trabalho, não está escrito ‘membro da força-tarefa’.”

São Francisco e Austin oferecem uma prévia do que se pode esperar em outros lugares. Embora os carros autônomos tenham sido testados em mais de duas dúzias de cidades dos EUA ao longo dos anos, esses testes passaram para uma fase mais recente em que os motoristas humanos – que antes acompanhavam os veículos autônomos – não ficam mais nos carros durante as viagens. A Waymo e a Cruise começaram então a oferecer serviços de táxi totalmente sem motorista em algumas cidades com esses carros.

A Waymo e outras empresas continuam desenvolvendo e testando seus carros em mercados potenciais e a tecnologia se espalhará, disse Bryant Walker Smith, professor da Universidade da Carolina do Sul que prestou consultoria ao governo federal dos Estados Unidos sobre direção automatizada.

A Cruise testou seus táxis sem motorista em São Francisco, Austin e Phoenix e planejou expandir para Houston, Dallas e Miami. A Waymo, que oferece viagens sem motorista em Phoenix e São Francisco, disse que em seguida lançaria seus serviços em Los Angeles e Austin. A Zoox, outra empresa de carros autônomos, disse que planejava introduzir robotáxis em São Francisco e Las Vegas, mas não forneceu um prazo.

Outras cidades onde carros autônomos foram testados estão se preparando para quando os robotáxis forem totalmente implantados. O Corpo de Bombeiros de Nashville disse que estava criando um treinamento anual para os bombeiros sobre os carros. O Corpo de Bombeiros de Seattle disse que adicionou questões de segurança com carros sem motorista às responsabilidades de um funcionário durante cada turno.

Algumas cidades disseram que sua experiência com os robôs-táxis foi mais tranquila. Kate Gallego, prefeita de Phoenix, onde a Waymo opera serviços de táxi autônomo desde 2020, disse que a empresa se reuniu extensivamente com as autoridades locais e realizou testes de segurança antes de implantar uma frota de 200 veículos em locais como o aeroporto.

“Nossos residentes, de modo geral, apreciaram muito esse serviço”, disse ela.

A Waymo, a Cruise e a Zoox disseram que trabalharam em estreita colaboração com as autoridades de muitas cidades e continuaram a aprimorar seus veículos para minimizar os efeitos sobre os serviços locais. A Waymo acrescentou que não tinha “nenhuma evidência de nossos veículos bloqueando uma ambulância” em 19 de março em São Francisco.

Poucas cidades têm enfrentado mais problemas com carros autônomos do que São Francisco. O Google, cuja sede fica nas proximidades do Vale do Silício, começou a testar veículos sem motorista na cidade em 2009 e introduziu os serviços de robotáxi em novembro de 2022. A Cruise, fundada em São Francisco em 2013, começou a testar seus veículos nas estradas da cidade em 2015 e ofereceu sua primeira viagem sem motorista aos passageiros em fevereiro de 2022.

Desde então, centenas de carros percorreram as ruas de São Francisco. Em um determinado momento, a Waymo tinha 250 veículos sem motorista na cidade, enquanto a Cruise tinha 300 durante o dia e 100 à noite. Os moradores frequentemente viam os carros – sedãs equipados com mais de uma dúzia de câmeras e sensores de alta tecnologia, alguns girando no teto – passando.

Em julho de 2018, a Agência Municipal de Transportes da cidade pediu a Julia Friedlander, uma veterana em políticas de transporte, que trabalhasse para entender como São Francisco seria afetada pelos carros autônomos. Ela se reuniu com empresas de carros autônomos e reguladores estaduais, que emitem permissões para as empresas testarem e operarem seus veículos, para discutir as preocupações da cidade sobre segurança e congestionamento.

Depois de cinco anos, ainda não há padrões estaduais sistemáticos de segurança e relatórios de incidentes para carros sem motorista na Califórnia, disse Friedlander. “Esse é um tipo de mudança tão drástica no transporte que levará muitos anos para que a estrutura regulatória seja realmente finalizada”, disse ela.

No ano passado, o número de ligações para o 911 de residentes de São Francisco sobre robôs-eixo começou a aumentar, segundo as autoridades municipais. Em um período de três meses, foram registrados 28 incidentes, de acordo com uma carta que as autoridades municipais enviaram à Administração Nacional de Segurança de Tráfego Rodoviário.

Em junho, os incidentes com carros autônomos em São Francisco haviam chegado a um “nível tão preocupante” que o Corpo de Bombeiros da cidade criou um formulário separado para incidentes com veículos autônomos, disse Darius Luttropp, vice-chefe do departamento. Até 15 de outubro, 87 incidentes haviam sido registrados no formulário.

“Seguimos em frente com a expectativa de que essa tecnologia maravilhosa funcione como um motorista humano”, disse Luttropp. “Não foi o que aconteceu.”

O Sr. Wood, o bombeiro, participou de uma sessão de treinamento de uma semana realizada pela Waymo em junho no centro de treinamento do Corpo de Bombeiros para aprender mais sobre os veículos autônomos. Mas ele disse que ficou desapontado.

“Nenhum de nós saiu do treinamento com uma maneira de fazer um carro parado se mover”, disse ele, acrescentando que assumir manualmente o controle do carro leva 10 minutos, o que é muito tempo em uma emergência.

Sua principal lição foi que ele deveria bater na janela ou na porta do carro para poder falar com o operador remoto do veículo, disse ele. O operador tentaria, então, reativar o veículo remotamente ou enviar alguém para substituí-lo manualmente, disse ele.

A Waymo disse que havia lançado uma atualização de software para seus carros em outubro que permitiria que os bombeiros e outras autoridades assumissem o controle dos veículos em segundos.

Depois que a Comissão de Serviços Públicos da Califórnia, um órgão regulador estadual, votou em agosto para permitir a expansão dos serviços de robotáxi em São Francisco, a Waymo e a Cruise começaram a se reunir a cada duas semanas com os departamentos de bombeiros, polícia e gerenciamento de emergências da cidade.

Jeanine Nicholson, chefe dos bombeiros de São Francisco, disse que seu departamento estava agora em uma “posição decente” com as empresas e acrescentou que a suspensão de Cruise ofereceu mais tempo para resolver problemas com os carros em situações de emergência. Mas ela previu mais reuniões e ajustes à medida que outras empresas de condução autônoma avançassem.

“O tempo será tomado, e temos um corpo de bombeiros inteiro – uma cidade inteira – para administrar”, disse Nicholson.

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Brasil avança rumo à agricultura 4.0, com o uso de tecnologia de ponta nas lavouras

Máquina sem operador, plantadeira que regula quantidade de sementes e irrigador que leva água até a raiz são algumas das novidades no campo

Por José Maria Tomazela – Estadão – 29/11/2023 

Máquinas que não dependem de operador e “conversam” entre si, plantadeiras que se autorregulam para aplicar as quantias certas de sementes e adubos, pulverizadores que só liberam a quantidade de defensivo que aquela planta precisa, sistema de irrigação que leva água e fertilizante diretamente à raiz da planta. Uma revolução silenciosa muda os patamares de produtividade nas fazendas brasileiras com o uso cada vez maior de tecnologia e ferramentas digitais.

Conforme a Embrapa, o País avança rumo à agricultura digital, a chamada Agro 4.0, que emprega métodos computacionais de alto desempenho, rede de sensores, comunicação máquina a máquina, conectividade entre dispositivos móveis, computação em nuvem, métodos e soluções analíticas para processar grandes volumes de dados e construir sistemas de suporte à tomada de decisões na produção e manejo da propriedade rural. Engloba a agricultura e pecuária de precisão, a automação e a robótica agrícola, além de técnicas de big data e a internet das coisas.

Impulsionada pela internet, tecnologias desenvolvidas no Brasil permitem um sincronismo em todas as atividades no campo, com o produtor gerenciando de forma remota e com o máximo de desempenho as chamadas fazendas conectadas. São máquinas e equipamentos inteligentes, operando em rede, capazes de coletar e analisar as informações, otimizando processos ou identificando falhas e as corrigindo em tempo real. Ao melhorar a produtividade e eficiência no uso dos insumos, a inovação gera economia e menos impacto ambiental.

Dados da Conectar Agro, associação que tem a CNH Industrial como uma das fundadoras, apontam que, de dezembro de 2021 a maio de 2023, a cobertura de conectividade aumentou 132%, de 6,2 milhões para 14,4 milhões de hectares. O alcance da rede (banda estreita para internet das coisas) passou de 13 milhões para 29,2 milhões de hectares, cobrindo 525 municípios em 13 Estados. As pessoas beneficiadas passaram de 600 mil para 1,1 milhão.

Com o objetivo de mostrar como a conectividade aumenta a produtividade no campo, a Case IH, marca da CNH Industrial, criou em parceria com a operadora de telefonia TIM um laboratório de agricultura digital, no município de Água Boa, em Mato Grosso. O estudo, desenvolvido pela Agricef e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisou os resultados com base em eficiência agrícola, viabilidade econômica e sustentabilidade.

Com a produção de quase 12,9 mil toneladas de grãos, a safra 22/23 da fazenda-modelo foi 18% mais produtiva do que a safra anterior (sem conexão) e 13,4% mais produtiva do que a média do Brasil. Em comparativo com outra fazenda sem internet da mesma região, a conectividade aumentou em 3,5% a produtividade, resultando em 2,35 sacas de soja a mais por hectare em área de 3,2 mil/ha. Considerando a região de Água Boa, a produção foi 7,4% superior.

Economia

O uso eficiente de máquinas e frota proporcionado pela conectividade reduziu em 25% o consumo de combustível por hectare, representando uma economia de mais de R$ 300 mil. Houve ainda redução de 10% na emissão de “carbono equivalente” (quilos de CO2 equivalente por tonelada de grão produzida), calculado com base em aumento de produtividade, redução no uso de combustíveis e economia de fertilizantes. A eficiência operacional otimizada pelo sistema reduziu em 5,7% de motor ocioso das colheitadeiras e aumentou em 4,2% o tempo de trabalho.

Isso resultou em redução de três dias na janela de colheita. “Os dados nos mostram como a conectividade impacta efetivamente no resultado final da safra. O monitoramento em tempo real permite que dados se tornem informações e que a tomada de decisão seja mais rápida e eficiente”, disse Christian Gonzalez, vice-presidente da Case IH para a América Latina. “A safra 22/23 da fazenda conectada foi mais eficiente, produtiva e sustentável, graças à conectividade”, completou. O retorno do investimento de R$ 1,4 milhão em antena, kit de telemetria para as máquinas e consultoria foi estimado em um ano e meio.

Máquinas inteligentes

O acesso à internet proporciona que todos os equipamentos, soluções, pessoas e resultados estejam conectados em todas as etapas do ciclo produtivo, no ecossistema da fazenda. Nesse caso, até as máquinas de construção da Case, que atuaram na abertura de valas e carregamento de insumos, estavam conectadas. O benefício se estendeu à comunidade do entorno. As duas antenas instaladas pela TIM facilitaram o dia a dia de mais de 25 mil habitantes de Água Boa, com sinal de internet para 27 escolas e universidades, além de 10 hospitais e unidades de saúde que não possuíam acesso à rede 4G.

No Brasil, muitas fazendas já adotam a conectividade na maioria dos processos produtivos. De acordo com o engenheiro agrônomo Felipe Zmijevski, responsável pela fazenda da Case IH, o sistema garante a padronização dos processos, melhor capacitação profissional e maior eficiência agrícola. “É um processo de longo prazo, que seguirá reunindo as mais avançadas tecnologias a que o produtor brasileiro pode ter acesso”, disse. A expectativa é de que até 2030, pelo menos 25 milhões de aparelhos estejam conectados à internet das coisas.

Mais tecnologia

Inovação e tecnologia são palavras de ordem dos fabricantes de máquinas agrícolas. A John Deere investiu globalmente em 2022 US$ 1,9 bilhão (por volta de R$ 9,3 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias que podem ser usadas desde o preparo do solo até a colheita, permitindo a análise de dados coletados em todos os ciclos das lavouras. O sistema de pulverização See Spray TM utiliza visão computacional e machine learning (conceito de inteligência artificial) para identificar e pulverizar inseticidas especificamente em ervas daninhas.

Essa solução reduz o uso de defensivos e torna a produção mais econômica e sustentável. Com tecnologias de controle, a linha de pulverizadores evita a sobreposição de áreas já pulverizadas. Em outra versão, o equipamento funciona por pulsação, uniformizando até o tamanho das gotas do insumo.

Já Massey Ferguson lançou o trator modelo MF 8S, que é equipado com o MF Conect, sistema de monitoramento de frota que, como em um carro de Fórmula 1, transmite todas as informações para uma central que ajuda o produtor a avaliar as condições do máquina. Tem ainda o MF Guide, piloto automático que trabalha em conjunto com a plantadeira para manter o paralelismo entre linhas. “Desenvolvemos uma solução de plantio inteligente, que entrega valor agregado e com menor impacto ao meio ambiente”, disse Alexandre Stucchi, diretor de vendas da Massey Ferguson.

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Esta fábrica de remoção de carbono está tirando toneladas de CO2 do ar

Primeira usina comercial nos EUA a capturar e armazenar permanentemente o CO2 oferece serviço de remoção de carbono para outras empresas

Adele Peters – Fast Company Brasil – 16-11-2023

No Vale Central da Califórnia, uma nova e reluzente estrutura de três andares retira silenciosamente CO2 do ar. Operada por uma startup chamada Heirloom, esta é a primeira instalação comercial de “captura direta” dos EUA.

A usina é capaz de capturar até mil toneladas de gás carbônico da atmosfera por ano, e, futuramente, a empresa pretende alcançar a marca de milhões de toneladas. Para armazenar permanentemente o CO2, ele será injetado em concreto fresco – uma abordagem que também reduz a pegada de carbono do concreto. A startup está oferecendo o serviço de remoção de carbono para empresas, incluindo gigantes como Microsoft e Stripe.

Enquanto o mundo se esforça para reduzir as emissões, é cada vez mais necessário combinar diferentes abordagens para termos alguma chance de atingir as metas climáticas.

“No final das contas, é realmente uma questão matemática”, diz o CEO da Heirloom, Shashank Samala. O mundo já emitiu tanto CO2 que, para atingir emissões líquidas zero, “também precisamos remover carbono da atmosfera na ordem de bilhões de toneladas”, afirma.

O sistema da Heirloom acelera algo que acontece naturalmente: a absorção de CO2 pelo calcário durante sua formação. Primeiro, a empresa aquece a pedra calcária em um forno movido a energia renovável.

Este processo extrai o carbono e deixa para trás um pó mineral, que, em seguida, é colocado em bandejas ao ar livre, onde atua como uma esponja, absorvendo CO2 e transformando-o em calcário.

Um sistema automatizado monitora e move as enormes pilhas de bandejas. Quando prontas, as pedras calcárias retornam ao forno, onde o CO2 é extraído e pode ser armazenado permanentemente. Este processo pode ser ampliado adicionando mais pilhas de bandejas.

O mundo extrai bilhões de toneladas de calcário todos os anos para produzir cimento. Para capturar um bilhão de toneladas de CO2, a empresa precisaria de menos de 0,1% da produção anual. Além disso, a pedra calcária é uma rocha barata, o que pode ajudar a reduzir o custo de todo o processo.

Vários outros projetos de captura direta de ar também estão em andamento. Um projeto em construção na Islândia planeja capturar várias megatoneladas de CO2 até o final da década.

Outro, no Texas, espera capturar 500 mil toneladas de carbono por ano, com potencial para atingir até um milhão de toneladas. Em Wyoming, há planos de capturar cinco milhões de toneladas de CO2 por ano até 2030. Cada um desses projetos planeja armazenar o carbono capturado no subsolo.

Na usina da Califórnia, a Heirloom fez parceria com a CarbonCure, uma empresa que desenvolve tecnologia para tornar o concreto mais sustentável, adicionando CO2 capturado.

A startup também planeja armazenar carbono no subsolo, mas este é um processo mais demorado, que requer licenças e mais infraestrutura. A abordagem com concreto pode ser implementada agora e, devido à enorme escala da produção, tem muito espaço para crescimento – além de ser uma solução duradoura.

“Mesmo que um edifício seja demolido, o CO2 que armazenamos no concreto permanece lá”, afirma Samala. “É durável e permanente.”

Adicionar carbono deixa o concreto mais resistente, tornando-o um material de construção melhor. Além disso, isso significa que pode ser produzido com menos cimento, o que ajuda a reduzir as emissões durante a fabricação.

Samala argumenta que a captura direta do ar precisa ser expandida tanto quanto a energia eólica e solar, mas em uma fração do tempo. Para alcançar esse objetivo, os mercados de carbono terão que continuar a crescer.

Já existe demanda por remoção permanente de carbono de empresas como a Microsoft, que recentemente se comprometeu a comprar até 315 mil toneladas da Heirloom.

O apoio federal do governo norte-americano está ajudando a empresa a crescer, incluindo o financiamento para um novo centro na Louisiana e o crédito fiscal 45Q para empresas que sequestram carbono.

Samala está confiante de que a Heirloom atingirá sua meta – remover um bilhão de toneladas de CO2 até 2035. “Basta olhar o que conseguimos fazer nos últimos dois anos: capturávamos um quilo em uma placa de Petri e hoje temos uma instalação com capacidade de captura de um milhão de quilos. Estamos fazendo tudo o que podemos para chegar lá.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo

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Passou da hora de investir na formação dos profissionais aptos a levar o Brasil a um novo patamar

Baixa qualidade da formação é uma realidade que não pode ser ignorada

Luciana Allan – Exame –  11 de agosto de 2023 

Ao matricular uma criança ou um adolescente em uma escola, quantos pais ou responsáveis questionam a instituição sobre a formação dos professores que ali trabalham? É um ponto de atenção que chega a influenciar na escolha da escola? Ou será que, no caso de escolas particulares, a preocupação maior reside na análise da infraestrutura do local, com atenção aos currículos bilíngues e tecnológicos? Já nas públicas, não há o que questionar! Escolher, seja lá o que for, raramente é uma opção e dar a sorte de conseguir uma vaga em uma boa escola já é motivo de alegria para toda a família. 

Não se trata de culpar alguém pela falta de atenção dada a este aspecto importantíssimo na análise da qualidade da educação ofertada. Afinal, na nossa cultura nunca fomos preparados para ter esse olhar. Inclusive, também não é comum ver pais ou familiares preocupados em analisar a política pedagógica da instituição, o que inclui entender o método de ensino, as estratégias de avaliação adotadas e o foco da aprendizagem. Mas, nunca é tarde! Por isso, a importância da reflexão que fazemos aqui. 

A baixa qualidade da formação dos docentes brasileiros, principalmente daqueles recém-saídos das universidades, é uma realidade que não pode ser ignorada e que tem reflexo direto na qualidade do ensino, seja em escolas públicas ou particulares, haja vista os resultados das últimas avaliações externas.

No final de março, o Ministério da Educação revelou dados alarmantes relacionados à qualidade do ensino superior. Dentre os cursos de graduação avaliados em 2021, considerou 605 com qualidade  “insatisfatória”. Ou seja, receberam notas 1 e 2 em uma escala que vai até 5. Ao todo, foram avaliados 7.512 cursos, sendo 4.750 de licenciatura, 2.020 de bacharelado e 742 tecnológicos. 

É desalentador ver que entre os cursos com as piores notas recebidas estejam os de Pedagogia, História e Letras, principais responsáveis pela formação dos futuros professores, aqueles mais fortemente envolvidos com a alfabetização. São muitas as razões que culminam nesse resultado, dentre elas o fato de muitos cursos serem ofertados na modalidade a distância por meio de metodologias de ensino que não contribuem adequadamente para a formação e desenvolvimento dos cursistas.  

Ofertar um curso a distância exige outras estratégias de ensino, diferentes das disponibilizadas em cursos presenciais. Graduações que já são ruins no presencial, tornam-se ainda piores quando oferecidas na modalidade a distância. 

Segundo dados do último Censo da Educação Superior, o número de vagas em cursos de graduação em ensino a distância cresceu 23,8% de 2020 a 2021, enquanto a oferta na modalidade presencial, no mesmo período, teve queda de 2,8%. Já em relação às matrículas, havia 8.986.554 alunos no ensino superior em 2021. Desse total, os estudantes de graduação EAD representavam 41,4%. Quando analisados somente os cursos de licenciatura, essa porcentagem sobe para 61%. 

Embora a EAD seja uma maneira legítima de fechar lacunas no ensino brasileiro e promover a inclusão por chegar aos rincões do país, ela não pode ser feita de qualquer maneira. É importantíssimo garantir a melhor experiência para o estudante e promover uma vivência que o engaje em momentos de aprendizagem significativa.  

Entender quem é esse estudante, quais os gaps advindos da educação básica para buscar saná-los antes de introduzir o currículo previsto no curso superior, compreender como ele interage com a tecnologia, que tipo de acesso à internet ele geralmente dispõe, quanto tempo tem para estudar, quais as estratégias e recursos para ensinar que mais o atraem são apenas algumas das atividades que não podem ser ignoradas. 

Há muitos aspectos a serem levados em consideração quando se busca fazer a oferta de um curso superior de qualidade no formato EAD. 

Além disso, em teoria, nos cursos de licenciatura e pedagogia é obrigatório o estágio supervisionado. É exigido que ofereçam oportunidades para os alunos acompanharem e experenciarem práticas de sala de aula, mas isso nem sempre acontece. 

E não faltam relatos de cursistas afirmando que suas experiências presenciais pouco ou em nada ajudaram a prepará-los para a prática docente. 

Há quem se licencie como professor somente assistindo a outros professores, como estratégia “para contar as horas” obrigatórias. Uma licenciatura em Matemática, por exemplo, não se resume a aprender os conceitos elementares de matemática que irá ensinar. É preciso saber a realidade da profissão: preparar aulas, administrar conflitos, aplicar métodos de ensino, ou seja, reconhecer a complexidade que envolve a dinâmica do processo educacional. 

Pelos pontos expostos acima, além de outros que não apresentamos neste momento, é que os cursos de graduação na área de educação são alvos constantes de críticas.  

Além dos conhecimentos acadêmicos, é fundamental que os professores desenvolvam habilidades socioemocionais, como empatia, resiliência e inteligência emocional, habilidades tecnológicas e aprendam a ter um olhar atento e diálogo com a comunidade do entorno. Todos esses aspectos são fundamentais para lidar com a diversidade de perfis e necessidades dos alunos e ajudam a promover um ambiente acolhedor e estimulante, capaz de estabelecer relações de confiança entre as partes. 

Os problemas educacionais do país são inúmeros, não importa para qual estatística se olhe, mas me parece urgente pensarmos fortemente na qualidade da formação dos profissionais que estão ou estarão no dia a dia dialogando com nossos filhos e ajudando a formá-los como cidadãos críticos e participativos na sociedade do século XXI. 

Aos que já estão em sala de aula, oferecer uma formação continuada de qualidade e moderna, voltada ao uso das tecnologias digitais, a implementação de metodologias ativas e estratégias para trabalhar o desenvolvimento das competências socioemocionais, e aos que estão nos bancos escolares, antes de tudo, mais realismo e prática. 

O Ministério da Educação, de seu lado, não tem ignorado esses problemas e em meados de julho realizou o primeiro Ciclo Formativo do Programa Institucional de Fomento e Indução da Inovação da Formação Inicial e Continuada de Professores e Diretores Escolares (Pril). Participaram, ao todo, 12 instituições de educação superior com o objetivo de apresentar relatórios com iniciativas para reverter a má formação e também mostrar, com exemplos, boas práticas para aprimorar a licenciatura, além de propostas para encaminhamentos futuros.  

Não há uma fórmula mágica a ser alcançada. Investir na qualidade é indiscutível. Durante o evento, mesmo com os benefícios do EAD, a importância dos cursos presenciais de licenciaturas ganhou destaque. Porém, mesmo os presenciais devem acontecer de maneira integrada a ambientes virtuais de aprendizagem e programas como o LABCRIE – Laboratórios de Criatividade e Inovação para a Educação Básica, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).  

Formação continuada segue como o norte das discussões assim como os programas de pós-graduação e as parcerias consolidadas com redes de ensino da educação básica. Os currículos desses cursos focam em experiências de flexibilização, especialmente em interface com programas de extensão e de interdisciplinaridade nas licenciaturas.  

O Programa, vale notar, foi instituído pela Portaria nº 412 de 17 de junho de 2021 com uma meta ambiciosa: induzir a oferta de cursos de licenciaturas e de formação continuada inovadoras, a fim de atender às necessidades e à organização da atual política curricular da educação básica e da formação de professores e diretores escolares para atuarem nessa etapa de ensino.  

Mas também, além de todas as tecnicalidades, precisamos nos atentar a um ponto indispensável: o de atrair jovens que queiram estar nesta carreira inspiradora. E, para atrair e reter profissionais qualificados, é fundamental valorizar a carreira docente. 

Isso inclui a implementação de políticas que garantam salários adequados e progressão na carreira, além de reconhecimento público pela importância do trabalho realizado. 

Há bons exemplos de que esta equação dá certo e traz bons resultados educacionais. Finlândia, Canadá, Singapura e Japão são bons exemplos. Em todos, os professores são bem remunerados, têm autonomia para fazer a gestão da sala de aula e são envolvidos constantemente em estratégias de formação continuada. 

Nesses países, ingressar em um curso superior na área é extremamente difícil e as vagas são preenchidas, majoritariamente, pelos melhores alunos egressos da educação básica, além de serem altamente valorizados e respeitados. 

O resultado na educação, na economia e, por consequência, no desenvolvimento social não poderia ser diferente. Se olharmos o PIB destes países temos a Finlândia em 44°lugar, Singapura em 38°, Canadá em 10° e Japão em 3°, segundo dados do FMI de 2021. Todos bem-posicionados, principalmente se levarmos em consideração o tamanho desses países e seus recursos naturais.  

Já se olharmos pela perspectiva da educação temos Singapura em 2° lugar, Japão em 4°, Canadá em 6° e Finlândia em 7°, de acordo com registros da OCDE de 2018. E, em relação à desigualdade social, temos Finlândia, Canadá e Japão, os 3 para além do 20° lugar, segundo a ONU, em 2020. 

Enquanto isso, o Brasil tem como indicadores: PIB em 9°lugar, Educação em 57° e 8°lugar em desigualdade social. Ou seja, somos uma das maiores potências do mundo, mas na mesma proporção uma das mais desiguais, o que se reflete na violência e na corrupção que vemos fazer parte do nosso cotidiano. 

Se não dermos a devida atenção para a educação, o que significa inclusive investir na formação e valorização do professor, estaremos cada vez mais reféns e suscetíveis a situações de violência e risco, fruto de uma sociedade sem oportunidades. 

Se a resposta para quase todos os problemas sociais e econômicos é “investir em educação de qualidade”, seria magnífico se realmente exigíssemos de nossos governantes os melhores resultados, visto que investimento há e não é pouco. Com o 2° maior orçamento, que representa 6% do PIB e supera a média dos países desenvolvidos, o Ministério da Educação, junto com Estados e Municípios, tem recursos suficientes para transformar esta realidade e colocar o Brasil em um novo patamar. 

A melhoria da qualidade da educação é uma questão urgente e somente com um novo olhar, muita disposição, coragem e conhecimento técnico será possível mudar a realidade, permitindo que nossas crianças e jovens tenham e possam perseguir seus sonhos. 

Já passou da hora (e muito) de valorizar nossos professores. Procrastinar só irá acentuar a formação de uma geração de docentes despreparada para colocar o Brasil no lugar que merece: o de uma nação potente e dedicada a preservar e fortalecer seu capital intelectual.

https://exame.com/colunistas/crescer-em-rede/passou-da-hora-de-investir-na-formacao-dos-profissionais-aptos-a-levar-o-brasil-a-um-novo-patamar/

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Jogo de gato e rato com inteligência artificial

Acompanhe os avanços globais e quem está direcionando a tecnologia

Por Ivone Santana, Valor — 15/11/2023

A movimentação de empresas, especialistas e desenvolvedores que lidam, de alguma forma, com tecnologia associada a inteligência artificial foi intensa nos últimos dias. De startups a Big Techs, em todo o mundo, houve iniciativas relevantes sobre o avanço da tecnologia, envolvendo bilhões de dólares. As informações constam da newsletter Destaques de Inteligência Artificial do Valor que circula nesta quarta-feira.

Vem do “Financial Times” uma notícia curiosa, e preocupante para alguns, sobre a análise do que está por trás dos discursos e explicações dos executivos quando eles falam do desempenho das empresas que comandam. De olho em seu patrimônio, investidores já estão usando algoritmos para vasculhar transcrições de teleconferências de balanços financeiros e de apresentações de empresas para tentar desvendar informações ocultas.

Sistemas baseados em inteligência artificial analisam a emoção na voz dos executivos. Se há um leve tremor, pigarreio, gagueira ou hesitação, por exemplo, a IA pode interpretar que o discurso não é verdadeiro naquele ponto. A análise dessas pistas faz parte de um campo conhecido na tecnologia como “Processamento de Linguagem Natural”.

No contra-ataque, como em um jogo de gato e rato, executivos já estão sendo treinados para driblar a IA e não transmitir emoções nesses eventos.

Nessa mesma linha de tentar trocar o papel entre caça e caçador, o Google se coloca como vítima de inteligência artificial alheia. Em uma nova ação judicial, a gigante de tecnologia alega que golpistas estão se aproveitando do aumento do interesse do consumidor por ferramentas de IA para roubar senhas de contas de redes sociais de pequenas empresas dos Estados Unidos.

É preciso cuidado para não cair nesse golpe. Reportagem detalhada sobre o tema conta como hackers enganam usuários com anúncios falsos envolvendo o Bard, o chatbot (ou robô de conversação) do Google.

Mas quando as gigantes tecnológicas usam o conteúdo alheio indiscriminadamente e sem pagar por isso, o prejuízo é dos outros. O colunista do Valor, Guilherme Ravache, mostra que Big Techs como Google e Microsoft adotam um tipo de política que domina a internet e põe em risco a sobrevivência de outras empresas, pelo uso de conteúdo sem remuneração dos seus autores, entre outras ações.

O uso ‘predatório’ que escalou com a IA generativa ChatGPT, da OpenAi, foi aprofundado com o novo sistema de busca do Google (SGE), que usa inteligência artificial para gerar resumos do conteúdo acessado. O trabalho de profissionais é resumido em três parágrafos. A análise do colunista explica por que quem usa o recurso também perde e indica se há futuro em uma regulamentação.

Sam Altman, fundador da OpenAI, criadora do ChatGPT, já abocanhou US$ 10 bilhões em investimentos da Microsoft. Agora, ele quer mais para construir uma ‘superinteligência’.

(Obs: Mas já foi demitido)

Se o ChatGPT já provoca admiração e, ao mesmo tempo, receio, pelo seu potencial, imagine o que está por vir. É uma inteligência artificial geral (IAG), um software de computador tão inteligente quanto os humanos. É possível vislumbrar no horizonte as discussões que serão travadas em torno das eventuais regras de uso.

Ter ou não regulamentação e em que medida é um tema constante na pauta de especialistas e autoridades de diversos países.

Em Nova York, Glen Weyl, economista da Microsoft e fundador do Plurality Institute, um centro para pesquisadores de tecnologias plurais, diz que a concentração de poder produzida por modelos de inteligência artificial, como o da OpenAI, não tem precedentes e é potencialmente perigosa.

De Lisboa, onde acompanha o Web Summit 2023, um evento de inovação, a repórter Daniela Braun, do Valor, conta que o excesso de zelo em propostas de regulação de aplicações de IA pode travar os processos de inovação tecnológica, além de demandar tempo e dinheiro e não necessariamente evitar os riscos para a segurança e a saúde da população.

A reportagem sobre o Web Summit 2023 mostra os alertas de Andrew McAfee, cientista e pesquisador-chefe do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

E é do meio acadêmico que vem mais uma inovação. Três cientistas da computação, que estão à frente da startup Juristec+, de assuntos jurídicos, mostram que descobertas feitas nas universidades podem, sim, virar produto.

Os cientistas integraram a tecnologia GPT-3 do ChatGPT ao sistema judiciário brasileiro, em um mês, para atender a demanda do Supremo Tribunal Federal, que levara o problema às Big Techs, como conta o Pipeline, site de negócios do Valor Econômico.

Robô químico

Se você, como eu, gosta de acompanhar informações sobre o universo e explorações espaciais, veja como um robô de inteligência artificial usa meteorito de Marte para produzir oxigênio a partir da água.

O experimento automatizado aumenta a possibilidade de realizar futuras missões espaciais tripuladas, de acordo com artigo publicado na revista científica “Nature Synthesis”. Os autores estimam que teriam sido necessários 2 mil anos de trabalho humano para alcançar o mesmo resultado na base da tentativa e erro.

De volta à Terra, o avanço da automação conduz a indústria de autopeças em áreas nunca imaginadas quando empresas como a ZF foram fundadas. O grupo ZF já usa a inteligência artificial para que os carros identifiquem tanto pessoas quanto animais.

A diferenciação pode parecer uma tarefa trivial, mas para um sistema isso requer desenvolvimento. “O formato de uma pessoa é diferente de um animal e nisso a IA nos ajuda”, afirma o vice-presidente global de planejamento da ZF, Andrew Whydell.

E no mundo dos semicondutores, a Nvidia apresentou seu novo chip H200 Tensor Core GPU, para desenvolvimento de tecnologias ligadas a inteligência artificial. A performance desse chip é entre 60% e 90% melhor do que os atuais modelos H100, usados pelos desenvolvedores de IA, como a OpenAI, para treinar os chatbots.

O chip estará disponível para parceiros comerciais de computação em nuvem da Nvidia, incluindo a Amazon Web Services (AWS), Google Cloud, Azure (Microsoft) e Super Micro, a partir do segundo trimestre de 2024.

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