Sermos inclusivos nos permitiu dobrar de tamanho, diz CEO da PepsiCo

Alexandre Carreteiro comanda unidade no Brasil, a mais produtiva e destaque em participação de mulheres e negros

Eliane Trindade – Folha – 16.dez.2023

Alexandre Carreteiro está há três anos na presidência da PepsiCo Brasil, unidade que foi considerada a mais produtiva do mundo por dois anos consecutivos. 

Resultados que o executivo de 47 anos credita a uma estratégia de tornar mais diversa e inclusiva a companhia que completou 70 anos no país em 2023. “Dobramos de tamanho nos últimos quatro anos”, diz, ao relatar que multiplicou por dois também o número de mulheres no comitê executivo. 

A presença de lideranças femininas no alto escalão passou de 30% para 60% entre 2018 e 2023, enquanto mulheres em postos de comando em geral subiu de 41% para 50%. 

O percentual de negros na liderança também cresceu, passando de 15% para 25% no mesmo período. A meta é chegar a 30% em 2025. “Tem que ter intencionalidade”, afirma o CEO em entrevista à Folha. 

Resultados que levaram a PepsiCo a ser reconhecida como a empresa mais inclusiva no setor de bens e alimentos conforme a Pesquisa Ethos de Inclusão 2023. 

Fundador do Mover, que reúne 49 CEOs comprometidos em aumentar a representatividade negra nas empresas, Carreteiro participou de processos de mentoria reversa, em que seu mentor foi um funcionário gay, negro e budista. 

“A liderança tem que estar envolvida. Não é uma coisa só de RH. É mudar a cultura. Temos treinamentos em letramento racial, de viés inconsciente e antimachismo.”  

Que marcos destacaria nesses 70 anos da PepsiCo no Brasil?

Nos Estados Unidos, a Pepsi tem 125 anos. Iniciamos aqui com a bebida Pepsi em 1953. Em 1974, fizemos a aquisição da American Chips e da Elma Chips. Depois, entraram no nosso portfólio aveia Quaker e água de coco, com Kero Coco.

A nível mundial, nosso portfólio é 55% alimentos e 45% bebidas. No Brasil e na América Latina, é de 90% alimentos e 10% bebida. São 70 anos no Brasil e estamos bem felizes com uma estratégia muito forte de colocar ESG no coração de tudo que fazemos.

Há dois anos, desenvolvemos a PepsiCo Positive (pep+), com três grandes iniciativas: agricultura sustentável, cadeia de valor sustentável e escolhas positivas.

Como foi essa virada de empresa de bebidas para o agro?

Compramos 450 mil toneladas de produtos agrícolas por ano e 99% do que vendemos no Brasil vêm da agricultura brasileira.

Temos parcerias com produtores de batata há mais de 40 anos, com sementes exclusivas adaptadas ao clima. Temos parcerias também na produção de aveia e milho. Coco é uma exceção, com duas fazendas próprias.

Como induzir sustentabilidade no agro?

Já temos 100% da nossa agricultura sustentável. Trabalhamos com parcerias de longo prazo para assegurar que o plantio seja feito da melhor maneira, que a terra seja bem irrigada com as técnicas mais modernas. Temos uma tecnologia superdesenvolvida no campo, com monitoramento por drones.

Estamos trabalhando para sermos regenerativos. Nas plantações de coco, nos demos conta de que para o uso da terra ser mais eficiente deveria ter um outro plantio associado. Fizemos uma parceria para plantar cacau, que precisa de sombra, debaixo dos coqueiros.

É a lógica da agrofloresta?

Sim. Essa lógica de entender o que é melhor para a terra e para o plantio. Melhorou o rendimento. É uma agricultura que já é regenerativa, com menos emissão de CO2 e menor consumo de água.

Como reduzem o desperdício de água na agricultura?

Com técnicas de irrigação muito mais precisas. Temos vários trabalhos no nosso centro de pesquisa e desenvolvimento para diminuir o consumo de água. E não guardamos para a gente.

Temos duas “demo farms”, em Goiás e em São Paulo, onde fazemos demonstração de tudo isso, trazemos novos parceiros para ver técnicas e tecnologias. É um showroom real.

E como tem sido a transformação da cadeia de valor?

Estamos colocando em nossas fábricas uma membrana biorreativa para filtrar e reutilizar toda a água. Há três anos, implementamos em Itu, onde hoje praticamente não utilizamos uma gota da municipalidade.

A água lá é totalmente reutilizada. Somos pioneiros no Brasil com esse sistema já replicado nas unidades de Sete Lagoas e Curitiba.

O investimento de US$ 3 milhões a US$ 4 milhões por fábrica não é pequeno, mas é extraordinário. Contribuímos para os lençóis freáticos dessas regiões com desafios hídricos, ao otimizar o consumo e ter autonomia hídrica.

Estamos investindo em caminhões elétricos. Já temos 150, numa frota de mais de 4.500. Nosso compromisso é substituir por veículos elétricos ou movidos a energia alternativa.

Temos um projeto grande de energia solar para reduzir emissões de CO2 até 2030. A estratégia de pep+ é global, mas o Brasil tem a possibilidade de ser referência e uma potência de ESG. Estamos trabalhando para que seja.

O Brasil tem a possibilidade de ser referência e uma potência de ESG. Alexandre Carreteiro presidente da PepsiCo 

Onde avançaram mais?

Hoje 100% das nossas embalagens são coletadas e encaminhadas para cooperativas de reciclagem. O plástico flexível das embalagens de snacks reciclamos em produtos como baú de caminhão e mesas e racks para pontos de venda.

Tem uma economia circular acontecendo. Já estamos trabalhando para ter essa embalagem de volta como embalagem primária. A legislação não permite, mas acredito que em breve chegaremos lá.

 A questão é segurança alimentar?

A União Europeia já permite. Isso é outra revolução. Quanto mais valor tiver na reutilização, mais interesse na coleta.

O que seriam escolhas positivas do pilar ESG da companhia?

Diversidade, equidade e inclusão. De novo, o Brasil é uma grande potência aqui. Temos uma diversidade populacional grande e o que queremos é poder internamente representar a sociedade.

Temos planos e grupos de afinidade de mulheres, negros, comunidade LGBTQIA+, pessoas com deficiências, e “Golden Years”, para os acima de 50 anos. Cria-se assim uma cultura de acolhimento para que as pessoas possam atingir o seu máximo potencial e serem respeitadas pelo que são.

Quais são os ganhos e os desafios para ser uma empresa inclusiva?

Isso não vem por acaso, tem intencionalidade. Todos nós temos metas. A liderança tem que estar envolvida. Não é uma coisa só de RH. É mudar a cultura.

Temos mentorias, treinamentos em letramento racial, de viés inconsciente e antimachismo. E mentoria reversa, de negros fazendo mentoria para o comitê executivo.

Como é na prática?

Eu tive um mentor que é gay, negro, budista e trabalha na linha de produção. É supervisor. Foi um aprendizado incrível, que nos permite ter um olhar diferente.

Temos programas de treinamento 100% afirmativos para negros. No ano passado, uma trainee apontou que as toucas usadas na linha de produção eram do mesmo tamanho. Um negro que quer ter um afro não conseguiria usar. Buscamos toucas inclusivas de um fornecedor que é um empreendedor negro.

E onde trabalha o seu mentor hoje?

Continua com a gente, mudou para outra fábrica. Aprendi com ele a ser muito mais sensível a essas questões. Espero que algum dia o meu sucessor possa ser um negro.

Trabalhei mais de 25 anos no setor de alimentos e bebidas. É importante escutar as pessoas e tenho orgulho dos 11 mil colaboradores da PepsiCo nessa grande jornada de diversidade e inclusão.

Onde é mais difícil incluir negros e mulheres?

Na fábrica, 50% são mulheres. Temos até linha de produção com 100% de mulheres, mas em operações e vendas é um pouco mais difícil.

Não tínhamos nenhuma mulher motorista de caminhão. Nas empilhadeiras, tínhamos 9% e chegamos a 35%. Foram mais de 200 mulheres recrutadas e elas estão superfelizes.

É um desafio contínuo. A cultura vai mudando ao longo do tempo. E tem falhas. Se uma pessoa se sente desrespeitada, ela tem uma hot line parar fazer denúncia, que vamos apurar de maneira independente e confidencial.

Como todas essas ações impactam o negócio em si?

Nos últimos cinco anos, expandimos nossa penetração e chegamos a 92% dos lares brasileiros. Colocamos a diversidade na nossa comunicação. Lançamos o Doritos Rainbow há sete anos, uma homenagem à comunidade LGBTQIA+. Apoiamos colaboradores que querem mudar sua identidade de gênero. É muito importante que as marcas possam veicular essas mensagens e apoiar causas. 

Queremos ir além da Pepsi com nossa visão ESG. Criamos o Mover, um movimento pela equidade racial que festeja dois anos agora, para impactar 3 milhões de negros até 2030. No começo do Mover éramos 7 CEOs, hoje somos 49 e mais 80 empresas querem entrar no movimento, que é uma referência global. Queremos recrutar 10 mil líderes negros. Somos concorrentes e nos unimos por uma causa muito maior. 

Estamos fazendo a mesma coisa com outras empresas para acelerar a reciclagem e o combate à fome. Acredito que no futuro são esses tipos de parcerias que vão mexer a sociedade. 

Aumentou o investimento?

Investimos R$ 1,2 bilhão neste ano, três vezes mais em relação a 2020. O Brasil é um dos países na América Latina que mais se destacaram.

Estamos entre os dez maiores mercados da PepsiCo no mundo. Investimos em capacidade produtiva, inovação e sustentabilidade. Em tecnologia no agro e nas fábricas sem papel. 

A indústria de alimentos está na berlinda pelos ultraprocessados. Como vender saúde e salgadinhos?

Essa pressão não é de hoje. Reduzimos sódio em praticamente 50% nos últimos dez anos. Nosso produto está muito abaixo das exigências da Organização Mundial da Saúde.

Temos esse compromisso de continuar reduzindo sal e açúcar. Migramos para um óleo muito mais saudável à base de canola e girassol. Temos no portfólio água de coco, totalmente natural, e aveia, um produto sensacional. 

Como recebe a notícia de que a procuradora-geral de Nova York autuou recentemente a Pepsi por poluir o rio Buffalo com plástico?

Como é um caso jurídico não vou comentar. A gente tem um empenho grande de trabalhar esses temas como empresa junto com o Ministério Público. Trabalhando aqui eu posso ver a intencionalidade em temas que não são fáceis e precisam do envolvimento de muitos stakeholders. Temos sim uma responsabilidade e estamos fazendo a nossa parte para continuar evoluindo

Também foi noticiado que a Pepsi está prestes a superar a Coca-Cola, concorrente histórico, em valor de mercado nos EUA.

É um tema sempre que tem muita discussão. Nós temos alimentos e bebidas e essa é a beleza do nosso portfólio, uma amplitude que acaba entrando em muitos momentos de consumo ao longo do dia. E isso tudo tem a ver com colocar o ESG no coração da estratégia.

Uma empresa diversa e inclusiva é mais eficiente. Conseguimos comprovar que tendo essa representatividade inova-se mais rápido. É bom para o negócio, para a sociedade e para o planeta. E quando recebemos prêmios como o de ser durante dois anos a unidade mais produtiva da Pepsi no mundo isso nos estimula.


Alexandre Carreteiro, 47

Formado em administração de empresas pela Temple University, Filadélfia, com MBA pelo IESE Business School, na Espanha, e mestrado em finanças pela Université Paris IX Dauphine. Preside a PepsiCo Brasil Alimentos desde março de 2021, depois de passagens por Danone e Nestlé

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/redesocial/2023/12/sermos-inclusivos-nos-permitiu-dobrar-de-tamanho-diz-ceo-da-pepsico.shtml

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Viagra, Ozempic e aspirina: os 7 casos de remédios que foram descobertos por acidente

Especialistas explicam o que é o reposicionamento de medicamentos, por que ele pode acontecer e quais são os episódios emblemáticos na história da medicina

Por Bernardo Yoneshigue — O Globo – 13/12/2023

Ozempic, Viagra, aspirina, AZT, minoxidil, penicilina e anestesia: à primeira vista, pode ser difícil identificar o que todos esses nomes têm em comum, além de serem medicamentos amplamente conhecidos. Mas eles compartilham uma história que, em ao menos um ponto, é similar – foram desenvolvidos inicialmente para um determinado objetivo, mas se popularizaram devido a uma eficácia inesperada para um outro problema de saúde.

— Isso acontece porque o medicamento não atua apenas num local específico, ele circula no organismo. Então existe a chance de ter outras reações além daquela esperada, que podem ser positivas ou negativas. Normalmente são negativas, que são os famosos efeitos adversos. Mas às vezes esse efeito secundário pode ser positivo e inesperado. Quando você desenvolve uma molécula que é um antidiabético, mas ela mostra um efeito cardioprotetor, por exemplo — diz Gustavo Mendes, diretor de Assuntos Regulatórios e Qualidade e Ensaios Clínicos da Fundação Butantan e membro do GT de Indústria do Conselho Federal de Farmácia (CFF).

A professora de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Christianne Bretas explica que, quando o efeito é positivo, isso pode levar ao movimento chamado de reposicionamento do fármaco. Resumidamente, é tornar oficial a indicação do remédio para o efeito secundário inesperado. Algo bem-vindo, desde que feito com as devidas devidas evidências científicas.

— Nós temos vários casos de sucesso. Mas não podemos dizer o mesmo, por outro lado, sobre a cloroquina e a ivermectina para a Covid. Então é algo que é possível, é interessante, mas que requer que a molécula volte para estudos para ser feito com segurança e evidências científicas. O bom é que você já não gasta mais tanto tempo e dinheiro do que gastaria com uma molécula nova — diz ela, que é líder do Núcleo de Pesquisa em Plasticidade Epidemiologia e Estudos in Silico (NUPPEESI) da UFF e divulgadora científica no Science Rocks UFF.

O exemplo mais recente de um reposicionamento ocorreu com os análogos de GLP-1, classe de medicamentos à qual pertence a semaglutida, do Ozempic e do Wegovy, assim como a tirzepatida, do Mounjaro. Os fármacos do tipo começaram a ser pesquisados para diabetes tipo 2 quando, ainda nos anos 80, cientistas descobriram que o hormônio GLP-1 atua nos níveis de açúcar do sangue.

O primeiro a sair do papel foi a liraglutida, criada pelo laboratório Novo Nordisk e presente no Victoza – remédio para diabetes aprovado nos Estados Unidos em 2010. Porém, quando ainda estava em desenvolvimento, nos anos 90, experimentos com camundongos já indicavam um efeito secundário surpreendente da molécula: ela inibia o apetite dos animais.

A comunidade científica ainda era cética à época, mas, com o aval do Victoza para diabetes, a farmacêutica passou a conduzir testes clínicos para avaliar a perda de peso. O efeito se mostrou verdadeiro, e os resultados levaram ao reposicionamento da liraglutida com o Saxenda, aprovado nos EUA em 2014, que continha uma dose superior do medicamento e indicação oficial para obesidade.

Hoje, os análogos do GLP-1, que simulam o hormônio de mesmo nome (a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida) são conhecidos principalmente por terem inaugurado uma nova era nos medicamentos para a obesidade com o potencial de emagrecimento nunca visto antes.

Viagra, aspirina e AZT

Além dos análogos do GLP-1, há outros exemplos emblemáticos de medicamentos que também causaram surpresa entre os cientistas ao se revelarem eficazes para um problema secundário de saúde.

— A aspirina foi desenvolvida inicialmente como um analgésico antitérmico em 1870. Só em 1950, depois de muitos anos, é que se foi observado o efeito anticoagulante, de um antiagregante plaquetário. Hoje muitas pessoas, especialmente as com problemas cardiovasculares, utilizam ele de forma contínua. Mas foi apenas durante a observação do medicamento na população que encontraram esse potencial — conta Ismael Rosa, mestre em Ciências Farmacêuticas e diretor Clínico Farmacêutico do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ).

Outro caso citado é o da sildenafila, substância presente no Viagra. O medicamento é utilizado para quadros de disfunção erétil, e gerou até mesmo diferentes derivados, como a tadalafila, do Cialis. Mas não foi esse o objetivo inicial dos cientistas que estudavam a molécula.

— Ela foi desenvolvida lá em 1993, quando cientistas trabalhavam num medicamento para dilatar as artérias do coração e diminuir a dor no peito, que chamamos de angina. No momento da pesquisa, porém, eles observaram efeitos que não eram os desejados. Os voluntários relataram uma reação estranha, mas não necessariamente ruim, que era justamente a melhora da ereção — diz Rosa.

O farmacêutico também lembra um outro caso de reposicionamento muito importante na história da medicina: a zidovudina ou AZT. O comprimido foi desenvolvido ainda nos anos 1960 para tratamento de um tipo específico de leucemia. Porém, mais de 10 anos depois, quando surgiu a epidemia do HIV, cientistas descobriram que o composto era um antiviral altamente eficaz.

O AZT foi um dos primeiros a serem aprovados para pessoas que vivem com HIV no mundo, e no Brasil, e é celebrado por pesquisadores como o fármaco que de fato conseguiu mudar o rumo da infecção, levando indivíduos a conseguirem controlar a carga viral do HIV e impedir a evolução para a síndrome da imunodeficiência adquirida, a Aids.

— Temos ainda como um exemplo interessante o minoxidil, usado muito hoje para alopecia. Quando foi desenvolvido, em 1965, era para redução de pressão arterial, por meio da vasodilatação. Mas é uma droga muito potente e de longa duração, então a dose tóxica é muito próxima da terapêutica. E durante o desenvolvimento observou-se que ela provocava um hirsutismo, que é o crescimento de pelos. Então o mecanismo de ação que no início era para pressão alta passou a ser utilizado muito mais para crescimento de cabelo — diz o especialista do ICTQ.

Além do reposicionamento, os farmacêuticos lembram outros momentos inesperados do desenvolvimento de remédios, em que nem mesmo se buscava uma terapia. É o caso da penicilina, antibiótico que revolucionou a forma como a população lida com infecções bacterianas, ainda nos anos 1920.

— Na época, Alexander Fleming observou por acaso que, numa cultura de Staphylococcus (gênero de bactérias) contaminada com o fungo Penicillium notatum, não havia o crescimento delas. E aí ele observou que esse fungo secretava uma toxina que tinha uma atividade antibacteriana. Foi assim que a penicilina, que revolucionou a medicina no início do século XX, foi descoberta. E ela continua no mercado, temos vários derivados sintéticos e semissintéticos, que são utilizados para tratar diferentes infecções bacterianas — diz a professora da UFF.

Rosa do ICTQ cita também a anestesia por óxido nitroso, o chamado gás do riso: — Na época, um pesquisador assistia a um espetáculo teatral em que o artista inalava o gás do riso, mas machucou a perna e não sentiu dor. Intrigado, ele pediu para um estudante arrancar o próprio dente sob o efeito do gás, e a extração foi indolor — lembra.

Não basta o efeito, é preciso comprová-lo

Esse efeitos secundários e inesperados podem ser observados em dois momentos: ou ainda durante a fase de estudos clínicos iniciais, como foi com os análogos do GLP-1, ou após o medicamento chegar ao mercado, na etapa chamada de farmacovigilância, ou fase 4, que envolve um monitoramento constante do uso do remédio aprovado pela população.

— A fase 2 dos estudos clínicos é exploratória, então observamos diferentes regimes terapêuticos, populações alvo, dosagem. Ali é possível encontrar um efeito diferente e já pode ocorrer um reposicionamento. Mas isso também pode acontecer na fase 3, que conta com um número maior de voluntários, ou até mesmo depois que uma agência reguladora aprova o produto. Porque nessa experiência pós-mercado ele vai para milhões de pessoas e ocorre uma variedade maior de usos — explica Mendes.

Só que, para esse novo efeito entrar de fato na bula é necessário que o remédio volte aos testes. Bretas diz que ele até pode pular algumas etapas, como as pré-clínicas em animais, mas ainda assim precisará comprovar segurança, tolerabilidade e eficácia.

— Quando o remédio volta para os estudos, você pode pular a fase 1, que avalia a segurança em indivíduos saudáveis, desde que a posologia seja igual ou menor (ao aprovado). Se for maior, precisa avaliar de novo segurança e tolerabilidade — explica.

Mas, às vezes, esse reposicionamento pode ser na direção contrária – descobrir que algo que já era utilizado na realidade não tem uma boa relação risco versus benefício para a população. É o caso, por exemplo, de medicamentos que foram retirados do mercado após um efeito grave, de incidência significativa, que não havia sido percebido nos estudos, ter sido relatado na vida real.

Há ainda experiências que vão além: não são apenas descontinuadas como produtos terapêuticos, mas passam a ser proibidas e encaradas como entorpecentes, explica Rosa, farmacêutico do ICQT:

— Existem substâncias que foram criadas a princípio como medicamentos e que hoje são drogas muito potentes e proibidas. A cocaína inicialmente era utilizada até mesmo para tratamento de dependência da morfina. A heroína no início era também usada para tratamento de dependentes de morfina até em sedativos para tosse de crianças. Mas aí descobriram que ela era convertida na própria morfina no fígado. Foi retirada do mercado e hoje é usada como droga ilícita.

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Como inteligência artificial ajuda chineses a ressuscitar familiares

Indústria de ‘bot fantasma’ está em crescimento no país, com preços a partir de R$ 7.000

Matthew Walsh Taizhou (China) | AFP – Folha – 14.dez.2023

Em um cemitério no leste da China, Seakoo Wu coloca seu celular sobre a lápide do túmulo de seu filho e assiste a um vídeo criado por inteligência artificial que simula o jovem falecido.

“Sei que cada dia você sente muita dor por mim e se sente culpado e inútil. Embora não possa mais estar ao seu lado, minha alma segue neste mundo, te acompanhando em vida”, diz Xuanmo com uma voz ligeiramente robótica.

Tomados pela dor, Wu e sua esposa se juntaram ao crescente número de chineses que recorrem à IA para criar avatares de seus entes queridos. Ele espera criar uma réplica autêntica que se comporte como seu filho falecido no mundo de realidade virtual.

“Quando sincronizarmos a realidade e o metaverso, terei meu filho comigo de novo. Posso treiná-lo para que, quando me veja, saiba que sou seu pai”, disse ele.

Algumas empresas chinesas afirmam ter criado milhares de “personas digitais”, mesmo a partir de 30 segundos de material audiovisual da pessoa falecida.

Especialistas dizem que a prática pode oferecer um alívio importante às pessoas enlutadas pela perda de um ente querido.

Demanda crescente

Wu e sua esposa ficaram devastados quando Xuanmo, seu único filho, morreu no ano passado aos 22 anos. O jovem sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico repentino, enquanto estudava na Universidade Exeter, no Reino Unido.

Com o auge das tecnologias de IA, a exemplo do ChatGPT, na China, Wu começou a buscar formas de ressuscitá-lo. Reuniu fotos, vídeos e áudios de seu filho e gastou milhares de dólares com empresas do ramo que replicaram o rosto e a voz de Xuanmo.

Os resultados são rudimentares até o momento, mas ele também montou uma equipe de trabalho para criar um banco de dados com grande quantidade de informações sobre seu filho. O objetivo é alimentá-lo com algoritmos poderosos para criar um avatar capaz de copiar o pensamento e forma de falar do jovem.

Várias empresas especializadas nos chamados “bots fantasma” surgiram nos últimos anos nos Estados Unidos. Mas a indústria está em crescimento na China, segundo Zhang Zewei, fundador da empresa de IA Super Brain e ex-colaborador de Wu.

“A China está no nível mais alto do mundo em tecnologia de IA. Há muita gente na China, muitas com necessidades emocionais, o que nos dá uma vantagem em termos de procura de mercado”, disse Zhang, cuja empresa cobra entre 10 mil a 20 mil yuans (cerca de R$ 7.000 e R$ 14 mil, respectivamente) por um avatar básico.

Os clientes podem até falar ao telefone com um funcionário cujo rosto e voz foram alterados para se parecerem com os da pessoa falecida.

“O significado para o mundo inteiro é enorme. A versão digital de alguém pode existir para sempre”, completou o empresário.

‘Novo humanismo’

Para Sima Huapeng, fundador da empresa Silicon Intelligence, em Nanjing, a tecnologia “trará um novo tipo de humanismo”, como quando no passado as pessoas recorriam às fotografias para recordarem entes queridos já falecidos.

Tal Morse, pesquisador visitante do Centro de Morte e Sociedade da Universidade de Bath, na Inglaterra, disse que estes bots podem proporcionar alívio, porém alertou que são necessárias mais pesquisas para compreender sua implicações éticas e psicológicas.

“Uma questão essencial é até que ponto os ‘bots fantasmas’ são ‘leais’ à personalidade que foram concebidos para imitar. O que acontece se eles fizerem coisas que ‘contaminam’ a memória da pessoa que deveriam representar?”, questionou Morse.

Para Zhang, da Super Brain, toda nova tecnologia é “uma faca de dois gumes”, mas ele disse acreditar que, enquanto estiver ajudando quem precisa, não há problema.

Ele não trabalha com pessoas para as quais isso teria um impacto negativo, afirmou, lembrando o caso de uma mulher que tentou suicídio após a morte da filha.

Wu afirmou, por sua vez, que Xuanmo “provavelmente estaria disposto” a ser revivido digitalmente.

“Um dia, filho, todos nos encontraremos no metaverso. A tecnologia melhora a cada dia é questão de tempo”, disse ele junto à sua esposa em frente ao túmulo do filho.

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/12/chineses-usam-inteligencia-artificial-para-ressuscitar-familiares.shtml

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O poder do ao vivo: marcas, emoções e conexões

Duda Magalhães Fast Company Brasil 03-11-2023

Você já sentiu a emoção pulsante de estar em um show da sua banda predileta? O frio na barriga ao perceber que aquele momento tão sonhado finalmente vai se realizar, ao vivo e a cores? A euforia de ouvir aquela canção que parece narrar um capítulo da sua vida?

Consegue se lembrar da adrenalina do jogo decisivo onde seu time foi campeão? Ou da satisfação indescritível de cruzar a linha de chegada de uma corrida e receber sua primeira medalha?

Se nossa vida fosse um filme, esses seriam os momentos em câmera lenta, os pontos altos, as cenas inesquecíveis. Esse é o verdadeiro poder da conexão. Por isso que em um mundo cada vez mais hiperconectado, o desejo humano por conexões autênticas e emocionais sempre tem destaque.

Essa busca não é uma mera tendência, mas reflete a evolução contínua de nossa necessidade de significado e interação genuína. O entretenimento ao vivo é uma ferramenta que serve como uma resposta poderosa, catalisando essas emoções e estreitando laços.

CRIAÇÃO DE CONTEÚDO

Um estudo recente da MMA Impact, que englobou 37 países, revela o crescente papel do entretenimento ao vivo. Quando posicionado na Pirâmide de Maslow, 83% dos entrevistados consideram o entretenimento como vital, não mais um mero luxo ou trivialidade.

Mas então, o que torna uma experiência de marca verdadeiramente memorável? Não é apenas sobre o produto ou o serviço, mas sobre o que se sente durante a interação com uma marca. Isso se torna ainda mais evidente quando falamos de entretenimento ao vivo.

O Event Marketing Institute aponta que quase metade dos participantes de um evento ao vivo estão ativamente criando e compartilhando conteúdo. Esse conteúdo gerado pelo usuário (UGC, na sigla em inglês) não é apenas uma consequência, mas um indicativo da emoção e do engajamento que o “ao vivo” pode catalisar.

Simultaneamente, estamos testemunhando o surgimento de novas formas de marketing, que se utilizam das mais recentes tecnologias para criar e fornecer experiências inovadoras e imersivas. Inteligência artificial, por exemplo, está desempenhando um papel crítico nesse novo panorama.

Com sua capacidade de processar e analisar enormes volumes de dados em uma velocidade sem precedentes, a IA permite um nível de personalização que era inimaginável até poucos anos atrás.

Essas novas técnicas de marketing estão destinadas não apenas a promover produtos ou serviços, mas também a engajar os consumidores em um nível mais profundo, estimulando sentimentos e emoções intensas.

CONEXÕES AUTÊNTICAS E DURADOURAS

É aqui que entram os que eu chamo de “dados da emoção”, uma integração sinérgica entre quantitativos e qualitativos. E que, além disso, traz um olhar atento e perceptivo voltado para as comunidades em que atuamos, posicionando-nos no epicentro do público que almejamos engajar. É esse conceito que reforça nosso comprometimento com engajamento e fidelidade à marca. 

Afinal, é na interseção entre o tangível e o intangível, o mensurável e o experiencial, que encontramos a essência do marketing. Aqui, razão e emoção, dados e experiências, unem-se de maneira singular. E lembra do que mencionamos sobre como quase metade dos participantes de um evento ao vivo estão ativamente criando e compartilhando conteúdo?

em um mundo cada vez mais hiperconectado, o desejo humano por conexões autênticas e emocionais sempre tem destaque.

Um estudo da “AdWeek” diz que 85% das pessoas veem o UGC como mais influente do que o conteúdo originado pelas próprias marcas. Isso indica que as pessoas não se resumem mais a simples espectadores, mas se transformam em embaixadores, defensores fervorosos e autênticos admiradores das marcas com as quais estabelecem uma conexão profunda.

No Brasil, essa sinergia tem um terreno fértil. Com uma expectativa de crescimento anual de 5,7% na indústria de entretenimento e mídia até 2026, de acordo com a PWC Brasil, as marcas têm uma oportunidade sem precedentes de fazer parte da solução que as pessoas buscam: conexões autênticas e duradouras.

O entretenimento ao vivo já é uma parte clara e presente na estratégia das marcas que buscam criar laços genuínos e significativos, mas nossa obrigação é sempre ter um olhar voltado para o público.

Afinal, em um mundo cada vez mais digital, é o pulsar genuíno do coração humano, intensificado pela magia do ao vivo, que nos move a experienciar aquilo que realmente acreditamos, criando laços de confiança e memórias inesquecíveis.


SOBRE O AUTOR

Duda Magalhães é presidente da Dream Factory. saiba mais

https://fastcompanybrasil.com/tech/martech/o-poder-do-ao-vivo-marcas-emocoes-e-conexoes/

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Liderança do Brasil em bioeconomia pode movimentar R$ 1,3 tri até 2030, aponta estudo

Segundo levantamento, maior parte do investimento e das novas receitas deve ser alocada no desenvolvimento do mercado de carbono e em agricultura sustentável

Por Beatriz Capirazi – Estadão – 12/12/2023 

O mercado verde brasileiro pode movimentar cerca de R$ 1,3 trilhão em investimentos e novas receitas, o equivalente a 12% do Produto Interno Bruto (PIB), até 2030. Destes, cerca de 70% dos recursos devem ser alocados no desenvolvimento de um mercado de carbono e agricultura sustentável para que o Brasil se torne uma superpotência verde nos próximos anos, segundo um estudo recente divulgado pela Redirection International, empresa especializada em assessoria de fusões e aquisições.

Segundo o levantamento, feito com base em informações públicas de diferentes fontes, como anúncios do governo federal e previsões de empresas de consultorias globais, o potencial de geração de receitas com créditos de carbono até 2030 no Brasil pode chegar a até R$ 590 bilhões.

“Apenas em termos do enorme mercado mundial de comercialização de carbono, o Brasil poderia se tornar uma espécie de Arábia Saudita no segmento”, afirma o economista Adam Patterson, sócio da Redirection International e coordenador do estudo.

Outra possibilidade para o País em termos financeiros é a própria agricultura sustentável, considerada hoje uma das principais fontes de renda para o desenvolvimento econômico do Brasil. Práticas mais sustentáveis de produção agrícola devem gerar oportunidades de negócios em torno de R$ 344 bilhões nos próximos anos, segundo dados do Blended Finance Taskforce.

Há ainda a possibilidade de produção de hidrogênio verde e biocombustíveis, assim como a produção de energias renováveis e a transformação da indústria sustentável para projetar o País como uma potência verde nos próximos anos.

“Com todo esse capital natural, o País ocupa um lugar estratégico, tanto para a transição energética quanto para a descarbonização da economia global e para a produção verde de alimentos”, diz Patterson. Ele lembra que o Brasil assumiu recentemente a presidência do G20.

O economista aponta que a área de fusões e aquisições também deve ser fortalecida com o desenvolvimento de uma bioeconomia e da expansão do mercado verde.

Patterson destaca que a visão para 2030 é otimista, considerando a expansão desse mercado e as inúmeras possibilidades existentes no Brasil. Considerando as possíveis incertezas no mercado de carbono sobre os preços futuros do ativo e a demanda global e metodologias que serão usadas, um cenário mais conservador aponta um total de R$ 570 bilhões em negócios verdes no mesmo período.

https://www.estadao.com.br/economia/governanca/lideranca-brasil-bioeconomia-depende-carbono-agricultura/

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Por que as big techs são a nova mídia tradicional

Cada vez mais dependentes da boa e velha publicidade e do modelo de assinaturas, Spotify, Google, Meta e Netflix sofrem para buscar novas fontes de receita e cortam custos para agradar investidores

Por Guilherme Ravache* – Valor Econômico — Recife 06/12/2023

O Spotify anunciou nesta semana que irá demitir mais 1.500 funcionários, ou cerca de 17% de sua mão de obra. É a terceira onda de cortes na empresa neste ano. Segundo Daniel Ek, CEO do Spotify, a empresa precisa reduzir custos para dar lucro.

Ek tenta acalmar os investidores dando um novo foco em eficiência. As ações da companhia subiram mais de 150% neste ano, mas ainda estão cerca de 45% abaixo do valor de 2021. Após o anúncio das demissões na segunda-feira, as ações chegaram a subir 11%.

Assim, o Spotify se junta a gigantes de mídia tradicional como Disney, Paramount e Warner, que também se esforçam para cortar custos. Com o aumento das taxas de juro no mundo, os investidores passaram a exigir mais lucro em menos tempo.

Dificuldade para inovar e os ecos do passado

O sucesso do Spotify parecia certo até pouco tempo. Após revolucionar a maneira como as pessoas consumiam música, a plataforma de streaming parecia destinada à dominância do mercado. E esta era a premissa dos investidores – só faltou combinar com os concorrentes e os usuários.

Com a arrogância típica do Vale do Silício, e munidas de dados e planilhas convincentes, as gigantes de tecnologia subestimaram (ou omitiram) o fato de que conteúdo é um negócio caro e difícil de fazer. Também ajudou o discurso de que eram empresas de tecnologia e não negócios de conteúdo.

O Spotify, a exemplo da Netflix, mudou a maneira que consumimos conteúdo, mas não o modo de monetizá-lo. Enquanto o vento soprava a favor e os juros eram baixos, o Spotify podia se dar ao luxo de gastar US$ 1 bilhão na produção de podcasts.

O problema é que todo esse dinheiro investido gerou resultados pouco significativos. Em junho, a empresa demitiu 2% de sua equipe, principalmente em seus estúdios de podcast, e reduziu sua programação original. Além do anúncio das demissões nesta semana, a empresa informou que iria encerrar o contrato com algumas de suas principais atrações de podcast.

Ou seja, o Spotify segue altamente dependente das gravadoras, já que não conseguiu expandir suas fontes de receita com os podcasts. E, para azar da companhia, praticamente todas as músicas do mundo se concentram em apenas três gravadoras que sabem usar seu peso e influência para monetizar o que produzem.

Segundo a revista especializada MBW, apenas no primeiro trimestre deste ano, a Universal Music Group, Sony Music Group e Warner Music Group geraram mais de US$ 6,21 bilhões em receita. Apenas com streaming de música gravada, as três principais gravadoras coletivamente faturaram US$ 3,32 bilhões nos primeiros três meses de 2023. A expectativa é que as três maiores gravadoras tenham receita de mais de US$ 25 bilhões neste ano.

Enquanto isso, o Spotify projetou prejuízos operacionais para o quarto trimestre fiscal na faixa de 93 milhões de euros (US$ 101 milhões), citando encargos de 130 milhões de euros a 145 milhões de euros, provenientes de pagamentos de rescisão.

Para quem acha que o rádio morreu, uma pesquisa da Deloitte revela que podcast gera nos Estados Unidos cerca de US$ 2 por usuário, enquanto o rádio fatura mais de US$ 10 por usuário. A alta fragmentação do mercado de podcasts ajuda a explicar a diferença. A verdade é que muitos podcasts são ouvidos, mas poucos têm um número relevante de ouvintes.

Os novos conglomerados de mídia são as big techs

O Spotify não é um caso isolado. Apesar de uma quantidade significativa de investimento direcionado à área de cloud do Google, os consumidores há muito tempo veem a plataforma de nuvem da gigante de buscas como atrasada em relação a concorrentes, como Amazon e Microsoft. Ao anunciar os resultados da área de cloud em outubro, a Alphabet, controladora do Google, viu suas ações caírem 11%.

Mais de 80% do lucro do Google ainda vêm de publicidade, apesar das diversas tentativas e bilhões de dólares em investimentos para diversificar o negócio da empresa. Neste momento, por exemplo, o Google está atrás do ChatGPT.

O Google lançou nesta quarta-feira o seu modelo de IA Gemini, considerado o “rival” do GPT-4, desenvolvido pela OpenAI. Segundo o The Information, o Google discretamente cancelou um conjunto de eventos presenciais para lançar o Gemini e anunciou a nova IA em um evento virtual. O Gemini estaria enfrentando problemas com consultas em idiomas não ingleses.

Apesar do Google dizer que o Gemini é superior ao GPT-4, as primeiras avaliações de especialistas tem sido negativas, como informou o Techcrunch. Procurado, o Google não comentou.

Na Meta, a tentativa de criar o metaverso foi um fiasco que deu bilhões de dólares de prejuízo. Por lá o que dá dinheiro ainda são os anúncios no Facebook e Instagram, e Mark Zuckerberg já disse que o WhatsApp é o futuro da companhia. Não surpreende, com o Facebook e Instagram perdendo relevância, a saída é mexer com o WhatsApp, que por anos seguiu intocado pela companhia.

Mas o Google e a Meta têm uma diferença importante: por usarem conteúdo criado pelos usuários, são mais baratos. O problema é que o conteúdo gerado por usuários têm pouco ou nenhum controle e oferece pouca segurança para as marcas, que ficam cada vez mais expostas às controvérsias. Com cada vez mais alternativas para veicular publicidade e preços mais baixos, o conteúdo gerado por usuário tende a perder parte de seu encanto.

Inclusive plataformas como a Netflix passaram a usar as mesmas estratégias da mídia tradicional. A líder de streaming agora oferece publicidade em sua plataforma, garantindo segurança e atenção concentrada como na TV, mas com a capacidade de segmentação do digital.

Não é um caso isolado. O Amazon Prime, que transmite partidas da NFL, também irá oferecer publicidade em 2024. Além disso, empresas de mídia tradicional como a Globo, Disney, Warner e Paramount criaram plataformas de streaming e se tornaram concorrentes mais eficientes no digital.

Google copia a TV

O Google, nos Estados Unidos, comprou os direitos de transmissão da NFL e cobra assinatura na YouTube TV de quem quer assistir às partidas. O modelo do YouTube TV é bastante semelhante ao da TV à cabo, com a diferença que as transmissões chegam pela internet no segundo caso.

Já a Apple e a Paramount estariam discutindo uma parceria para oferecer seus serviços de streaming em uma única assinatura. Lembra a TV a cabo, não?

Aparentemente, as gigantes de tecnologia cada vez inovam menos e copiam mais as fórmulas antigas. Quem reclamava dos preços dos CDs e da TV a cabo deve ter notado a estratégia de constantes aumentos de preços nas assinaturas no streaming. Instagram, Facebook e YouTube agora também oferecem assinaturas. Assistir ao YouTube sem um plano pago está se tornando um suplício pelas constantes interrupções por comerciais.

“O crescimento econômico diminuiu drasticamente e o capital tornou-se mais caro. O Spotify não é uma exceção a essas realidades”, disse Daniel Ek em uma carta explicando as demissões aos funcionários. “Ser enxuto não é apenas uma opção, mas uma necessidade”, acrescentou.

Ek tem razão, é uma necessidade do Spotify e de todas as gigantes de mídia serem enxutas, mas a vantagem neste sentido é da mídia tradicional, que começou a cortar e se reinventar desde que o digital começou a crescer anos atrás.

Agora é a vez de Google, Spotify, Netflix e Meta se reiventarem. Obviamente estas empresas podem usar os bilhões em caixa e seu domínio de mercado para tentar barrar a concorrência por meio de práticas anticompetitivas. Não surpreende que governos na Europa e até nos Estados Unidos tenham aumentado as conversas em torno de regulação.

*Guilherme Ravache é consultor e atua em projetos de jornalismo digital no Brasil e exterior. Nos últimos anos, especializou-se na cobertura do mercado de mídia

https://valor.globo.com/opiniao/guilherme-ravache/coluna/por-que-as-big-techs-sao-a-nova-midia-tradicional.ghtml

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A força está com eles! Geeks dominam o mercado de cultura pop

Eles lotam cinemas, enchem feiras, assistem jogos e compram, mesmo. Um público variado que guarda o superpoder que as marcas precisam conhecer

Camila de Lira – Fast Company Brasil – 10-12-2023

Quadrinhos, séries, filmes, livros, animes… O mundo dos geeks é maior do que todos os multiversos da Marvel. E, mesmo assim, até pouco tempo atrás, a audiência era vista como uma audiência de nicho.

O jogo virou. Só nos últimos dias, o trailer do game Grand Theft Auto 6 teve mais de 100 milhões de visualizações em poucas horas, e a décima edição da CCXP brasileira recebeu mais de 287 mil visitantes.

Não foram situações atípicas do final do ano, foi a regra do ano todo. Das 10 maiores bilheterias de 2023, seis foram de filmes cultuados pelos geeks. Os cinemas encheram e as audiências de streaming também.

Nas séries de mais sucesso neste ano, estão uma versão de um game (“The Last of Us“, da HBO), um live-action de anime (“One Piece“, da Netflix), além de uma série sobre Star Wars (“Ashoka“) e outra da Marvel (a segunda temporada de “Loki“), ambas do Disney+.

As turnês mais populares de música de 2023 são de duas artistas preferidas pelos geeks no ano: Taylor Swift e Beyoncé.

“O geek é pop. Estamos saindo do porão, saindo do estereótipo e chegando na vanguarda da produção criativa mundial”, diz Otávio Juliato, CCO da Omelete Company, empresa de entretenimento responsável pela CCXP.

Em parceria com a consultoria GoGamers, a Omelete Company preparou a pesquisa Geek Power, em que traça o perfil deste público no Brasil. De acordo com o levantamento, a renda mensal de metade deles fica em torno de dois a quatro salários mínimos. A maioria (55%) tem entre 22 e 39 anos e curso superior completo ou pós-graduação (52%).

É um público que consome mesmo. Na CCXP do ano passado, o tíquete médio gasto por cada participante dos quatro dias do evento foi de R$ 912.

CADA UM NO SEU QUADRADO

O que marca este público é a paixão por produtos da cultura pop. No Brasil, 42,5% dos que se dizem geeks amam filmes, 18,6% são fãs de séries, 11,6% são aficionados por música, 7,8% por animes, mangás e quadrinhos e 7,5% por jogos.

Embora haja interseção entre os gostos, cada um dos públicos demonstra comportamentos diferentes. Os fãs de quadrinhos, por exemplo, são em sua maioria pessoas com mais de 40 anos e sete em cada 10 colecionam objetos ligados ao tema de interesse. Enquanto isso, 69,4% dos gamers seguem criadores de conteúdo e acompanham streams de gameplay.

Na categoria dos que amam animes e mangás, os “otakus”, quase 40% fazem cosplay (atividade de interpretar e se vestir como seus personagens favoritos).

Para o pesquisador e membro da GoGamers,Mauro Berimbau, os geeks não são apenas fãs, mas consumidores que querem participar da criação. “São pessoas que querem ajudar a construir os produtos, que fazem questão de se envolver”, afirma.

Quando desbalanceada, essa energia toda pode levar as marcas a sentirem o lado sombrio da força. A paixão anda para os dois lados. Por serem tão presentes e engajados, os geeks são exigentes com o que consomem.

Ter o personagem favorito ou o tema que gostam não é o bastante. Como o que aconteceu com o live action dos Cavaleiros do Zodíaco ou o filme do The Flash. Ambos têm uma base de fãs fiéis, mas a qualidade do produto, os efeitos especiais e a história renderam ondas de críticas fervorosas, o que desestimulou a audiência geral.

NÃO TEM NERD, MAS TEM O HULK

Entender como canalizar a força passa por muito treinamento. Mas não precisa do mestre Yoda, ou de uma Academia Jedi. O primeiro passo é simples: não confundir geek com nerd. São definições que se interpolam, mas não são as mesmas.

O que conecta o público à “identidade geek” é o gosto pela cultura pop e pelo estilo de vida que se liga a essas preferências. O nerd, não exatamente. A palavra pode ser usada para se referir a pessoas que gostam de estudar ou que são boas em assuntos específicos.

os geeks não são apenas fãs, mas consumidores que querem participar da criação.

Na visão de Carlos Silva, sócio da GoGamers, são denominações que carregam julgamentos e preconceitos. O termo “nerd” não costuma ser usado com conotação positiva e, por muito tempo, foi usado como forma de ofender e excluir. Já o termo “geek” se tornou mais popular e divertido.

“O nerd e o geek têm valores muito próximos em diversos comportamentos. Em outros momentos o geek estaria mais associado a alguém tecnológico e o nerd, a um perfil mais informado, estudioso. Esses comportamentos não são muito diferentes, mas é bem possível que, para essas pessoas, esses sejam os parâmetros que definem a sua identidade”, explica Silva.

No Innovation Fast 2023, o head de parcerias da Garena (criadora do jogo FreeFire), Marcio Milani, contou que já deixou de fazer contratos com marcas porque elas queriam chamar os gamers de nerds. “A marca precisa ser aceita por essa comunidade e se tornar relevante”, afirmou.

Para Mauro Berimbau, outra dica para as empresas se conectarem a este público é entender as subdivisões e as subculturas dentro das paixões. “Existem aqueles que são fãs de séries e aqueles que são super-fãs de ‘Doctor Who‘. Não são exatamente o mesmo público”. Até entre os gamers, se criam subculturas diferentes: há aqueles que amam jogar e os que preferem assistir eSports.

O MONSTRO NO MEIO DA SALA

Embora cheia de poder, a audiência geek tem um calcanhar de Aquiles, uma criptonita: a diversidade. Segundo a pesquisa, 51,8% do público geek brasileiro é composto por homens e um pouco mais de 53% se identificam como brancos. Apenas 20% não é heterossexual.

É uma composição de público que tende a ser reativa a conversas sobre inclusão e representatividade. O que não impediu que, este ano, o filme favorito da audiência geek tenha sido “Barbie“.

Quando se pensa em tamanho de produção, tipo de lançamento, estúdios envolvidos e qualidade do blockbuster,Barbie” se encaixa perfeitamente como produto da cultura pop. Mas o fato de ter uma temática feminina gerou dúvidas entre os criadores da pesquisa. “Quem imaginaria, no ano passado, que Barbie seria o filme mais visto em 2023?”, pergunta Oliviato, da Omelete Company.

Foram também levantadas dúvidas e até brincadeiras quando se revelou que Taylor Swift foi a artista favorita entre os geeks. Nesta semana, a artista recebeu o título de pessoa do ano pela revista “Time“, além de ser indicada como a mais ouvida de 2023 no Spotify e de ter uma turnê que esgotou ingressos pelo mundo todo.

A audiência, em sua maioria masculina, se desprendeu dos preconceitos com relação ao termo nerd, mas ainda parece se ligar aos estereótipos de gênero. Romances e comédias românticas figuram entre os livros preferidos dos geeks, mas não são considerados produtos “bons o bastante” por parte da crítica de cultura pop.

Não é incomum surgirem campanhas online que pedem boicote a certo filme ou game por conta da caracterização de personagens femininas ou da escolha de atores negros para protagonizar filmes ou séries. Em 2022, alguns fãs fizeram campanhas contra a série “O Senhor dos Anéis: Anéis do Poder” por causa de um personagem negro como elfo.

O próprio trailer de GTA 6, que causou comoção entre os fãs, recebeu críticas porque, pela primeira vez, os usuários poderão jogar com uma personagem feminina.

Muitos disseram que, por contar com mais personagens negros e latinos, o game estaria sendo cooptado pela “cultura woke” – termo usado para rechaçar as discussões sobre representatividade na mídia.

Mas esse padrão está mudando aos poucos, como explica Andreza Delgado, cocriadora do Perifacon, evento voltado para os geeks da periferia de São Paulo. Este ano, a quinta edição do evento teve público de 13 mil pessoas.

“É importante a gente ocupar esse espaço e mostrar que a periferia não gosta só de um tipo de filme ou série, mas curte quadrinho, anime, games”, afirma Andreza.

Mais importante do que tudo isso, é que a periferia não é padawan (aprendiz), é mestre Jedi. Existem criadores, produtores e designers de cultura pop na favela. O Perifacon mostra esse lado.

Para Andreza, houve transformações significativas no cenário da cultura pop, como o longa-metragem de animação “Homem-Aranha no Aranhaverso”, que ficou em quinto lugar entre as maiores bilheteria no mundo.

O filme mostra um menino negro, Mike Morales, como o super-herói. A mudança é reflexo da entrada de mais negros, negras e mulheres na sala de criação, o que já traz novos efeitos. Um movimento que, diferente da linha da linha do tempo da Marvel, não pode voltar. E que tende a dar ainda mais poderes aos geeks.


SOBRE A AUTORA

Jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para negócios.

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Planejamento: Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo

Por Evandro Milet – Portal ES360 em 10/12/2023

Mike Tyson em alusão à estratégia de seus oponentes antes da luta: “Todo mundo tem um plano até levar um direto na boca”. Não precisa exagerar, nem comparar com planejamento de empresas, mas está mesmo difícil fazer planejamento. Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo. Lulu Santos já sabia. Tudo que é sólido desmancha no ar, diria aquela dupla de filósofos. Quando somamos a pandemia com as mudanças tecnológicas, a mudança climática, o movimento pela diversidade e a geopolítica, a velocidade fica alucinante. 
O ecommerce, acelerado pela pandemia, provocou terremotos no varejo e o tsunami continua a varrer o comércio, trazendo os sites chineses que souberam surfar na onda. Empresas tentam trazer de volta os empregados para os escritórios, em vão. Os bons bancam o home office e não voltam. Nômades digitais carregam seus laptops mundo afora. Todo mundo aprendeu a fazer reuniões virtuais e a insanidade de longas viagens para reuniões curtas já era. 
Mudou o dress code. Gravatas e ternos evaporaram. O tênis venceu. A informalidade e a descontração se espalharam. Trabalhar de bermuda? Claro. A diversidade agora permite tudo. Tudo bem, quase tudo. Na pré-história empresarial do século passado, empresas exigiam terno, cabelo cortado, barba feita, vestido arrumado, principalmente para quem atendia clientes. Hoje vale tudo: cabelo Milei, colorido, brinco masculino, tatuagem de jogador de futebol. 

Modelos tinham o corpo escultural nas vitrines. Hoje vale toda forma de corpo e todas as cores nas vitrines. Afinal, essa é a realidade do mundo que quer comprar o que está exposto. Não cabe mais também contratar pela aparência, conceito subjetivo e discriminatório.

Cinquenta anos atrás, Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel em ciências econômicas, cunhou esta frase em uma entrevista para a revista Time nos Estados Unidos: “O único propósito de uma empresa é gerar lucro para os acionistas”. Não mais. 

A sigla ESG se espalhou, apesar de muita gente ainda resistir, achando que é um movimento de esquerda. Seria, se tivesse vindo de Cuba ou da Coreia do Norte. Na realidade veio  captado pelo mundo financeiro e pelas grandes empresas capitalistas. Quando a Magalu fez, há muitos poucos anos, uma seleção de trainees para negros, foi uma comoção em muitos setores. Nas mídias sociais, Luiza Trajano virou comunista. O movimento, porém, se espalhou pelo mundo e pelo Brasil criando uma nova realidade para as empresas e para a sociedade. Mas há reações a esse movimento, principalmente nos EUA, em estados governados por republicanos.

O negacionismo das mudanças climáticas está se reduzindo à medida que a temperatura aumenta, criando novos produtos, novos mercados e novo consumo. Fontes de energia são questionadas criando novos fornecedores.

A globalização, que tinha sido abalada pela pandemia ao se perceber a dependência do mundo a alguns países quanto aos insumos de saúde, levou novo choque com a geopolítica confrontando blocos e países e o protecionismo e as políticas industriais voltaram. 

As mudanças tecnológicas não param. A inteligência artificial entrou definitivamente na realidade das empresas e dos empregos. Grandes empresas aceitam abrir as portas para o empreendedorismo das startups. A universidade é questionada. Os cursos não atendem a necessidade do mercado em mutação. Os novos profissionais no mercado querem trabalhar em empresas com propósito ou empreender o seu próprio negócio.

E como fica o planejamento? A chave para gerenciar uma estratégia é a habilidade para se detectar padrões emergentes e auxiliá-los a tomar forma, diz Henry Mintzberg, guru tradicional do tema. O importante é estar antenado com o que está acontecendo e rapidamente ajustar as velas. Ameaças e oportunidades mudam a toda hora. Não existe mais planejamento de longo prazo. 

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/planejamento-tudo-o-que-se-ve-nao-e-igual-ao-que-a-gente-viu-ha-um-segundo/

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Geração de 68 agora promove a velhice ‘selvagem, raivosa, apaixonada, impertinente’

Franceses como Annie Ernaux criam movimento para lutar contra o etarismo

Por Helena Celestino — Para o Valor, 15/11/2023

A geração 68 voltou à luta na França. Elas e eles são os mesmos que há 55 anos inventaram a juventude como valor, mudaram o jeito de ser mulher e, agora envelhecidos, se organizam para criar uma nova maneira de viver para velhas e velhos. “Envelhecer é ser selvagem, raivosa, apaixonada, impertinente”, afirmam.

Esses adjetivos, raramente usados para qualificar a velhice, são agora reivindicados para repudiar o etarismo, preconceito que torna invisíveis os que têm mais de 65 anos e lhes confisca a palavra. Nos protestos de maio de 1968 eles diziam, aos berros, não acreditar em ninguém com mais de 30 anos; agora, aos 60, 70, 80 e 90, lutam para que os velhos tenham espaço e voz na sociedade.

No estilo tradicional dos movimentos da sociedade civil, criaram o Conselho Nacional autoproclamado dos Velhos (CNaV), ao qual já aderiram cerca de 2 mil pessoas, atuando em subgrupos por toda a França. São muitos os famosos a participar do coletivo: a escritora prêmio Nobel Annie Ernaux, a diretora do Théatre du Soleil, Ariane Mnouchkine, o sociólogo da École des Hautes Études en Sciences Sociales Michel Wieviorka, vários ex-ministros, além de jornalistas, cineastas e centenas de “seniors” anônimos e combativos.

Fundado em dezembro de 2021 num teatro parisiense, o CNaV evoca a impertinência e a radicalidade das suas aspirações. Nos dias 17 e 19 a associação vai realizar em Paris o Contrassalão de Velhas e Velhos, título que reafirma a contracultura da qual seus membros sempre fizeram parte e que pretendem recriar na velhice. Serão três dias de ateliês, workshops e palestras, num grande espaço no Marais, bairro dos “modernos” em Paris.

Está fora do debate o valor das aposentadorias e os sucessos da “economia prateada”. É em torno da vida afetiva e íntima, da desigualdade de gênero após os 65, do espaço dos velhos na sociedade e do direito de ser ator da própria vida que se estruturam as bandeiras de luta do coletivo.

Não dá mais para sair correndo da polícia como nos protestos de 1968, mas as hashtags atuais são inspiradas nas palavras de ordem daquela época: “Velhos de pé”; “Nenhuma decisão sobre os velhos sem a participação dos velhos”; “Envelhecer não é renunciar”; “Somos velhos mas não somos bem-comportados”.

Eles se chamam de “novos velhos”. É a primeira geração a ver seus pais chegarem aos 80 anos e muitos só morrerão aos 100 ou mais. Na França, 900 mil mulheres e homens tinham entre 90 e 99 anos no censo de 2022.

Ao longo dos últimos séculos, a humanidade ganhou 30 anos de vida, um terço a mais do que tiveram nossos avós. A longevidade colocou o envelhecimento no debate público, mudou o equilíbrio entre as gerações e deixou fora de foco a política de assistência social à velhice.

“Existe na França uma cultura que leva à desresponsabilização dos velhos, privando-os de seus direitos elementares”, escreveu num artigo Laure Adler, 71, jornalista, escritora e âncora de um programa de rádio durante 40 anos. Um dia depois de fazer 70 anos, foi demitida sob o pretexto de que velhos deveriam ficar em casa durante a pandemia.

Para Francis Carrier, 69 anos, a indignação maior vem da tentativa de calar os velhos LGBTQIA+, uma violência vivida nos asilos franceses. Engenheiro aposentado, ele estava nas ruas nos anos 70, nas manifestações em defesa do direito dos gays de viverem sem se esconder. Voltou à militância ao ser diagnosticado como soropositivo nos anos 80, lutando para romper o silêncio em torno da aids e, assim, todos juntos, recuperarem o orgulho e o amor próprio, mesmo se fragilizados. Agora depara de novo com a violência contra o direito à sexualidade dos velhos.

“Tentam nos dessexualizar para nos reduzir progressivamente a objetos de tratamento, que se resumem a comer, tomar remédios e dormir. Progressivamente, essa fase da vida vira a antessala da morte”, denuncia Carrier.

Ele tomou consciência dessas práticas ao trabalhar com a associação Petit Frères des Pauvres (pequenos irmãos dos pobres) e acompanhar várias mulheres bem idosas até a morte. Lá se surpreendeu com a inexistência de homens gays e mulheres lésbicas. Ao perguntar onde estavam as “minorias”, todos olharam assustados para ele.

“Não era nem homofobia, era um não pensamento”, observa Carrier. “Os velhos não têm nem identidade sexual, têm de voltar para o armário, não podem mais contar sua vida, com quem viveram, os prazeres que tiveram. Achei inaceitável e resolvi agir para não ser maltratado no futuro.”

Ele criou o Gray Power e foi um dos fundadores do CNaV. Para ele, os velhos héteros também não são bem-tratados, já que a necessidade de afeto e sexualidade é considerada imprópria para todos os gêneros. “Portanto, precisamos lutar para valorizar a velhice como o feminismo fez com as mulheres no passado. Trata-se de um problema social.”

A desigualdade de gênero, contra a qual mulheres do CNaV lutaram nos idos dos anos 70, continua na velhice. É mais difícil para as mulheres envelhecerem e elas são muito mais numerosas na nova frente de luta — sofrem muito cedo com o olhar negativo sobre os seus corpos submetidos desde sempre a padrões inalcançáveis de perfeição e juventude. Agora, juntam-se exigências de rapidez e conexão com as últimas conquistas tecnológicas.

“Os homens héteros preferem ignorar o tema porque mexe com tabus como a potência sexual. Acham-se belos e capazes de procriar até morrer. A velhice é uma questão essencialmente feminina”, ironiza Carrier.

Véronique Fournier, 69 anos, a única mulher entre os quatro fundadores do CNaV, vive isso em casa. Mora há 40 anos com um homem que teve muitas mulheres e filhos, um com ela e três com outras companheiras. Casaram-se há quatro meses e o marido não quer saber das discussões sobre velhice.

Cardiologista, aposentada faz três anos, ela há muito tempo trabalha com o prolongamento da vida ouvindo a palavra dos velhos. Fundou há 20 anos, no Hospital Cochin, em Paris, o primeiro centro de ética pública na França, um lugar aonde as pessoas podem ir quando uma decisão médica é tomada por considerações éticas. É um espaço de diálogo, uma interface entre a sociedade civil e a medicina, ao qual recorrem pessoas com desejo de abreviar sofrimentos de um filho ou dos pais.

Lá encontram sociólogos, juristas, médicos abertos à discussão. “É um momento tenso; as pessoas brigam entre si, uns querem continuar o tratamento, outros preferem parar”, explica Fournier. “Nesse espaço, os médicos compreendem e escutam quem pensa diferente deles, tentam entender se são eles ou não a tomar a decisão.”

Na França, a lei proíbe induzir pacientes à morte mesmo se esse for seu desejo. O debate sobre o tema opõe o governo — decidido a não usar o termo eutanásia na lei em preparação sobre o fim da vida — e a Assembleia Nacional, majoritariamente a favor. A tendência é aprovar o suicídio assistido, como já acontece na Bélgica e na Suíça. “Nós trabalhamos muito sobre como a medicina deve tratar os velhos. Devemos fazer uma cirurgia cardíaca para tentar salvar alguém que teve um grande infarto aos 90 anos?”, pergunta a fundadora do CNaV.

O coletivo dedicou duas jornadas a discutir o assunto, partindo da ideia de que não é possível dissociar o fim da vida da maneira como vivemos. A posição defendida pelo CNaV é liberdade total para os velhos decidirem sobre a própria  morte, seja quanto ao momento de partir ou quanto à maneira de encerrar a vida. “Por quê? Por princípio é por ser um dos últimos direitos fundamentais que falta obter. Uma sociedade que permite os jovens a mudar de gênero pode continuar a proibir os cidadãos adultos a ter opinião sobre a morte?”, indaga uma newsletter enviada aos membros do coletivo. “Na França, quando você é velho, não pode tomar decisão sobre sua vida; botam você no asilo ou consideram que você é vulnerável e precisa de proteção. Nós dizemos não. Vamos inventar uma nova vida para velhas e velhos”, defende Fournier.

Não por acaso, durante a pandemia, explodiu o clamor contra os Ephads, a rede pública e privada de abrigos para pessoas idosas e dependentes. No quinto confinamento motivado pela covid, circulou um abaixo-assinado, com milhares de apoiadores, repudiando a proibição de visitar ou acompanhar os parentes internados nos Ephads, ressaltando que a atitude os tornava “suscetíveis de perder as referências existenciais e até a vontade de viver”.

Estavam todos sob o impacto de “O coveiro”, livro lançado pouco antes pelo jornalista Victor Castanet, com denúncias graves sobre a maior rede privada de asilos, a Orphea, proprietária de 200 estabelecimentos no país. Na vitrine do grupo, um asilo na beira do Sena, o cheiro de urina empesteava o ambiente, faltavam cuidadores e enfermeiros, a higiene era deficiente, os hóspedes só tinham direito a três fraldas por dia, independentemente do estado de saúde de cada um. A ideia era economizar para lucrar, embora o quarto mais barato custasse 6.500 por mês (em torno de R$ 32 mil) e as tarifas chegassem a 12 mil nas suítes (R$ 60 mil).

Pressionado, o governo tomou medidas de emergência e, não por acaso, muitas personalidades aderiram ao CNaV, escandalizadas com o tratamento dos velhos nos asilos. “Privilegiou-se a sobrevivência em detrimento do sentido da vida”, disse Michel Wieviorka ao jornal “Le Monde”. Com isso, ficou claro que era indispensável uma estrutura de representação das pessoas idosas diante dos poderes públicos para garantir os direitos dos 65+.

“Subscrevo a ideia de que as soluções devem vir da sociedade civil e que as pessoas de muita idade devem ser sujeitos e atores”, disse o professor, enfatizando que ele se engajou no movimento como “futuro velho’ que será.

Às vésperas da abertura do Contrassalão de Velhas e Velhos, o coletivo teve uma vitória a ser comemorada só pelos próximos. Depois de meses pedindo encontros a vários ministros sem receber resposta, o CNaV foi convidado para reflexão sobre “envelhecer na França”, lançado pela nova ministra encarregada dos velhos. “Ela marcou essa jornada no mesmo dia do nosso Contrassalão. Pode ser um ato falho, mas acho que sentiu nosso poder e tentou nos calar”, sugere Fournier.

Além disso, Fournier leva ao evento uma frustração: não conseguiu fazer nenhuma loja de brinquedos eróticos montar um estande no Contrassalão. “Não sei se foi preconceito, mas deve ser”, comenta Carrier.

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2023/11/15/geracao-de-68-agora-promove-a-velhice-selvagem-raivosa-apaixonada-impertinente.ghtml

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Google quer enfrentar ChatGPT

Um agente inteligente é capaz de acompanhar o preço das passagens aéreas e esperar o momento propício para comprar

Pedro Doria – O Globo – 08/12/2023

O Google lançou nesta semana o Gemini, sua resposta ao GPT-4. As ações na Bolsa subiram, muitas linhas de jornalismo foram publicadas — e ninguém viu o bicho ainda. O Gemini não é um modelo de inteligência artificial. É uma família de três modelos. O primeiro já começará a chegar a alguns celulares: o Gemini Nano, pequenino, menos poderoso, mas pode rodar no bolso da gente. Aí tem o Gemini Pro e o Gemini Ultra — este último só estará à disposição para uso, ainda não está claro exatamente como, no ano que vem. É o Ultra, que, segundo testes feitos pelo Google, supera a última versão do GPT.

Pois é. Segundo testes do Google. E não dá para ignorar que se espera o lançamento do GPT-5 para os próximos meses. A OpenAI não fez anúncio, mas é o que circula no Vale do Silício.

O problema não está tanto nos testes do Google. É difícil medir o que torna um modelo de IA melhor que outro. A turma do Google explica que dois pontos diferenciam o Gemini do GPT. O primeiro é que o Gemini foi desenhado desde a base para ser multimodal. Quer dizer que ele não lida apenas com texto, lida também com imagens, vídeo e áudio. O Gemini é capaz de enxergar ou ouvir um arquivo sobre o qual faremos perguntas.

Embora não tenha sido desenhado com esse objetivo, o ChatGPT ganhou a capacidade de enxergar e produzir imagens estáticas em novembro. Talvez a versão do Google faça isso melhor, mas não é como se o espaço já não estivesse trilhado.

A outra característica pode ser mais importante. O Gemini Ultra é, segundo o Google, melhor na capacidade de fazer raciocínios lógicos e estruturar planejamentos. Se for realmente melhor que o GPT nisso, podemos estar próximos de agentes inteligentes. E todo mundo quer construir esses agentes.

Com eles, é possível dar ao computador a ordem para fazer compras no site do supermercado ou para planejar as férias no verão que vem. Um agente inteligente é capaz de acompanhar o preço das passagens aéreas e de esperar o momento mais propício para dar o bote e comprar. De fazer o mesmo com o hotel ou sugerir um Airbnb que é um charme só.

Mas essas são apenas as garantias que o Google dá. O PaLM 2, modelo que hoje alimenta o Bard, havia chegado justamente para enfrentar o ChatGPT na versão 4. O resultado é que muitos dos leitores desta coluna talvez nem saibam o que é Bard, o ChatGPT do Google. Pouca gente usa, por uma razão muito específica — é bastante inferior.

Ainda não temos boas ferramentas para avaliar como medir esses sistemas. Uma das razões é que estamos inventando para que servem. A OpenAI, quando lançou em dezembro do ano passado o ChatGPT, não esperava que fosse fazer o sucesso que fez. Muita gente encontrou ali uma ferramenta particularmente útil para produzir resumos, organizar informações, construir textos do cotidiano. Principalmente, para ajudar num brainstorming.

O ChatGPT é útil não apenas porque o GPT-4, que o alimenta, é um modelo de inteligência artificial poderoso como nunca vimos ao lidar com texto. É útil também porque conversamos com ele por meio de um chat. A sacada de que ele funciona melhor num diálogo do que operando de outra forma é talvez mais importante que todo o resto.

A forma que os produtos alimentados pelo Gemini tomarem é tão importante quanto o poder do modelo. Tudo indica que 2024 será um ano tão cheio de surpresas no mundo da IA quanto foi 2023.

https://oglobo.globo.com/opiniao/pedro-doria/coluna/2023/12/google-quer-enfrentar-chatgpt.ghtml

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