Por que as big techs são a nova mídia tradicional


Cada vez mais dependentes da boa e velha publicidade e do modelo de assinaturas, Spotify, Google, Meta e Netflix sofrem para buscar novas fontes de receita e cortam custos para agradar investidores

Por Guilherme Ravache* – Valor Econômico — Recife 06/12/2023

O Spotify anunciou nesta semana que irá demitir mais 1.500 funcionários, ou cerca de 17% de sua mão de obra. É a terceira onda de cortes na empresa neste ano. Segundo Daniel Ek, CEO do Spotify, a empresa precisa reduzir custos para dar lucro.

Ek tenta acalmar os investidores dando um novo foco em eficiência. As ações da companhia subiram mais de 150% neste ano, mas ainda estão cerca de 45% abaixo do valor de 2021. Após o anúncio das demissões na segunda-feira, as ações chegaram a subir 11%.

Assim, o Spotify se junta a gigantes de mídia tradicional como Disney, Paramount e Warner, que também se esforçam para cortar custos. Com o aumento das taxas de juro no mundo, os investidores passaram a exigir mais lucro em menos tempo.

Dificuldade para inovar e os ecos do passado

O sucesso do Spotify parecia certo até pouco tempo. Após revolucionar a maneira como as pessoas consumiam música, a plataforma de streaming parecia destinada à dominância do mercado. E esta era a premissa dos investidores – só faltou combinar com os concorrentes e os usuários.

Com a arrogância típica do Vale do Silício, e munidas de dados e planilhas convincentes, as gigantes de tecnologia subestimaram (ou omitiram) o fato de que conteúdo é um negócio caro e difícil de fazer. Também ajudou o discurso de que eram empresas de tecnologia e não negócios de conteúdo.

O Spotify, a exemplo da Netflix, mudou a maneira que consumimos conteúdo, mas não o modo de monetizá-lo. Enquanto o vento soprava a favor e os juros eram baixos, o Spotify podia se dar ao luxo de gastar US$ 1 bilhão na produção de podcasts.

O problema é que todo esse dinheiro investido gerou resultados pouco significativos. Em junho, a empresa demitiu 2% de sua equipe, principalmente em seus estúdios de podcast, e reduziu sua programação original. Além do anúncio das demissões nesta semana, a empresa informou que iria encerrar o contrato com algumas de suas principais atrações de podcast.

Ou seja, o Spotify segue altamente dependente das gravadoras, já que não conseguiu expandir suas fontes de receita com os podcasts. E, para azar da companhia, praticamente todas as músicas do mundo se concentram em apenas três gravadoras que sabem usar seu peso e influência para monetizar o que produzem.

Segundo a revista especializada MBW, apenas no primeiro trimestre deste ano, a Universal Music Group, Sony Music Group e Warner Music Group geraram mais de US$ 6,21 bilhões em receita. Apenas com streaming de música gravada, as três principais gravadoras coletivamente faturaram US$ 3,32 bilhões nos primeiros três meses de 2023. A expectativa é que as três maiores gravadoras tenham receita de mais de US$ 25 bilhões neste ano.

Enquanto isso, o Spotify projetou prejuízos operacionais para o quarto trimestre fiscal na faixa de 93 milhões de euros (US$ 101 milhões), citando encargos de 130 milhões de euros a 145 milhões de euros, provenientes de pagamentos de rescisão.

Para quem acha que o rádio morreu, uma pesquisa da Deloitte revela que podcast gera nos Estados Unidos cerca de US$ 2 por usuário, enquanto o rádio fatura mais de US$ 10 por usuário. A alta fragmentação do mercado de podcasts ajuda a explicar a diferença. A verdade é que muitos podcasts são ouvidos, mas poucos têm um número relevante de ouvintes.

Os novos conglomerados de mídia são as big techs

O Spotify não é um caso isolado. Apesar de uma quantidade significativa de investimento direcionado à área de cloud do Google, os consumidores há muito tempo veem a plataforma de nuvem da gigante de buscas como atrasada em relação a concorrentes, como Amazon e Microsoft. Ao anunciar os resultados da área de cloud em outubro, a Alphabet, controladora do Google, viu suas ações caírem 11%.

Mais de 80% do lucro do Google ainda vêm de publicidade, apesar das diversas tentativas e bilhões de dólares em investimentos para diversificar o negócio da empresa. Neste momento, por exemplo, o Google está atrás do ChatGPT.

O Google lançou nesta quarta-feira o seu modelo de IA Gemini, considerado o “rival” do GPT-4, desenvolvido pela OpenAI. Segundo o The Information, o Google discretamente cancelou um conjunto de eventos presenciais para lançar o Gemini e anunciou a nova IA em um evento virtual. O Gemini estaria enfrentando problemas com consultas em idiomas não ingleses.

Apesar do Google dizer que o Gemini é superior ao GPT-4, as primeiras avaliações de especialistas tem sido negativas, como informou o Techcrunch. Procurado, o Google não comentou.

Na Meta, a tentativa de criar o metaverso foi um fiasco que deu bilhões de dólares de prejuízo. Por lá o que dá dinheiro ainda são os anúncios no Facebook e Instagram, e Mark Zuckerberg já disse que o WhatsApp é o futuro da companhia. Não surpreende, com o Facebook e Instagram perdendo relevância, a saída é mexer com o WhatsApp, que por anos seguiu intocado pela companhia.

Mas o Google e a Meta têm uma diferença importante: por usarem conteúdo criado pelos usuários, são mais baratos. O problema é que o conteúdo gerado por usuários têm pouco ou nenhum controle e oferece pouca segurança para as marcas, que ficam cada vez mais expostas às controvérsias. Com cada vez mais alternativas para veicular publicidade e preços mais baixos, o conteúdo gerado por usuário tende a perder parte de seu encanto.

Inclusive plataformas como a Netflix passaram a usar as mesmas estratégias da mídia tradicional. A líder de streaming agora oferece publicidade em sua plataforma, garantindo segurança e atenção concentrada como na TV, mas com a capacidade de segmentação do digital.

Não é um caso isolado. O Amazon Prime, que transmite partidas da NFL, também irá oferecer publicidade em 2024. Além disso, empresas de mídia tradicional como a Globo, Disney, Warner e Paramount criaram plataformas de streaming e se tornaram concorrentes mais eficientes no digital.

Google copia a TV

O Google, nos Estados Unidos, comprou os direitos de transmissão da NFL e cobra assinatura na YouTube TV de quem quer assistir às partidas. O modelo do YouTube TV é bastante semelhante ao da TV à cabo, com a diferença que as transmissões chegam pela internet no segundo caso.

Já a Apple e a Paramount estariam discutindo uma parceria para oferecer seus serviços de streaming em uma única assinatura. Lembra a TV a cabo, não?

Aparentemente, as gigantes de tecnologia cada vez inovam menos e copiam mais as fórmulas antigas. Quem reclamava dos preços dos CDs e da TV a cabo deve ter notado a estratégia de constantes aumentos de preços nas assinaturas no streaming. Instagram, Facebook e YouTube agora também oferecem assinaturas. Assistir ao YouTube sem um plano pago está se tornando um suplício pelas constantes interrupções por comerciais.

“O crescimento econômico diminuiu drasticamente e o capital tornou-se mais caro. O Spotify não é uma exceção a essas realidades”, disse Daniel Ek em uma carta explicando as demissões aos funcionários. “Ser enxuto não é apenas uma opção, mas uma necessidade”, acrescentou.

Ek tem razão, é uma necessidade do Spotify e de todas as gigantes de mídia serem enxutas, mas a vantagem neste sentido é da mídia tradicional, que começou a cortar e se reinventar desde que o digital começou a crescer anos atrás.

Agora é a vez de Google, Spotify, Netflix e Meta se reiventarem. Obviamente estas empresas podem usar os bilhões em caixa e seu domínio de mercado para tentar barrar a concorrência por meio de práticas anticompetitivas. Não surpreende que governos na Europa e até nos Estados Unidos tenham aumentado as conversas em torno de regulação.

*Guilherme Ravache é consultor e atua em projetos de jornalismo digital no Brasil e exterior. Nos últimos anos, especializou-se na cobertura do mercado de mídia

https://valor.globo.com/opiniao/guilherme-ravache/coluna/por-que-as-big-techs-sao-a-nova-midia-tradicional.ghtml

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