Duas décadas de inovação aberta mostraram que as maiores barreiras à sua realização estão dentro, e não fora das organizações
Henry Chesbrough – MIT Sloan Review – 06 de Janeiro/2023
Há vinte anos eu apresentei o conceito de inovação aberta em um artigo publicado pela MIT Sloan Management Review. Passado esse tempo, qual o saldo? Vimos algumas empresas aproveitarem bem a ideia, ao mesmo tempo que outras enfrentaram dificuldades. Uma surpresa que tivemos ao observar as organizações ao longo do tempo foi que os maiores obstáculos ao sucesso da inovação aberta estavam dentro delas mesmas.
A inovação aberta se baseia na combinação colaborativa de fontes externas (como clientes, startups, plataformas de crowdsourcing e universidades, por exemplo) para a geração de ideias de novos produtos e serviços.
Definindo de forma mais exata, é um processo de inovação compartilhado, com o conhecimento se movendo entre as organizações, com motivações lucrativas ou não. Para inovar, é preciso que o conhecimento se desloque de sua origem para onde ele é necessário. É comum que isso se reflita na movimentação de pessoas que detêm esse conhecimento, para que, juntas, criem algo novo. Em outras situações, pode ser preciso montar novas estruturas e fluxos de trabalho para incentivar e organizar essa migração do conhecimento.
Para que a inovação aberta seja bem-sucedida, as organizações devem saber mobilizar e dar acesso a esse conteúdo entre todas as áreas, sejam elas funcionais, geográficas ou departamentais, mesmo compartimentadas, para que consigam desenhar, desenvolver e apresentar as novidades desejadas pelo consumidor.
Há muito o que comemorar sobre esses vinte anos de inovação aberta. Muitos estudos mostram que ela aumenta o desempenho financeiro. Análises de dados obtidos da Community Innovation Survey identificaram que as organizações com maior número de fontes externas de conhecimento têm melhor desempenho em inovação, mantidos outros fatores.
Uma pesquisa com 125 grandes corporações também mostrou que a inovação aberta traz resultados superiores às que não fazem uso do conceito. Mesmo com essas demonstrações de sucesso, ainda há muito a ser feito. Para que a inovação aberta dê certo, não basta encontrar possíveis fontes úteis de conhecimento, acessá-las, negociar alternativas de cooperação entre elas, para então incorporar esse conteúdo a novos produtos e serviços inovadores.
Onde moram os entraves
Estudos mais aprofundados dizem, na verdade, que as maiores dificuldades encontradas pelas organizações para usar a inovação aberta residem em seu interior, não fora delas. Colaboração e coordenação com agentes externos exigem, com frequência, que sejam feitas mudanças nos fluxos de trabalho, o que pode gerar reações defensivas por parte dos responsáveis internos pela inovação.
Um artigo recente comprovou a resistência interna à inovação aberta. No estudo de Hila Lifshitz Assaf sobre a adoção dessa prática na NASA, ela se debruçou sobre o uso de crowdsourcing na geração de novas ideias. Uma dessas ideias permitiu à agência uma melhora significativa da previsão de erupções solares. Contudo, os engenheiros do Johnson Space Center, não conseguiam trabalhar com os resultados obtidos de fora da NASA. Sua identificação com a organização e seu próprio papel pareciam ameaçados pelo que a inovação aberta poderia produzir.
As delimitações organizacionais que facilitam o foco e a especialização em atividades críticas podem se tornar barreiras quando produzem feudos, ou áreas isoladas entre si. O conhecimento útil circula dentro da área, mas não entre elas, sejam funcionais, departamentais ou geográficas.
Vejamos o exemplo de um programa corporativo que investe capital de risco em novas tecnologias e mercados, montando um portfólio de startups. Se as unidades de negócio convencionais da empresa olharem para essas novas estruturas como imaturas, distantes e arriscadas demais para atrair sua atenção e compromisso, o conhecimento que o programa gera não conseguirá penetrar em qualquer dessas unidades, que poderiam alavancar e escalar esse conteúdo.
As delimitações organizacionais que facilitam o foco e a especialização em atividades críticas podem se tornar barreiras quando produzem áreas isoladas entre si
A Intel enfrentou repetidamente esse problema ao trabalhar com startups promissoras e, para resolvê-lo, criou uma nova unidade, a New Business Initiatives (NBI). As equipes da NBI desenvolviam o relacionamento com as startups e então tentavam conectá-las às unidades de negócio da Intel usando dinheiro e conhecimento para reduzir o atrito.
O dinheiro oferecia recursos instantâneos para que a unidade se integrasse ao projeto, enquanto anteriormente era preciso aguardar o ano fiscal seguinte. No entanto, a equipe da NBI que tinha conquistado a oportunidade se dissolvia assim que o projeto era transferido para a unidade de destino. Uma vez que esta última assumia o projeto, surgiam questões, mas não havia mais a equipe à qual recorrer.
A solução encontrada pela NBI foi transferir um membro dessa equipe para acompanhar o projeto junto à unidade de negócio por um prazo de seis a nove meses. Essa pessoa tinha as respostas necessárias ou sabia como encontrá-las quando necessário.
Há outras formas de superar as barreiras impostas pelo isolamento entre áreas. Uma delas, simples, mas efetiva, é facilitar que as pessoas participem de oportunidades rotativas em outras áreas da organização. Por exemplo, um gestor de uma unidade de negócios poderia passar de seis a doze meses em uma das startups e vice-versa.
Essa circulação ajuda não só na construção de contatos e experiências em uma área como a levá-los consigo para sua posição regular. Uma organização que faz circular de 5 a 10% de seus funcionários em um intervalo de três anos terá muito mais facilidade de encontrar e fazer uso de determinado conhecimento na maior parte das áreas e estará bem-posicionada para fazer mudanças internas que irão alavancar seu uso efetivo.
Uma estratégia complementar para superar essa compartimentalização das estruturas é fazer dos executivos os responsáveis pelos principais clientes da organização. A Cisco fez isso com regularidade, de forma que cada membro do C-level tivesse a função de gerir uma área e administrar a relação da empresa com alguns de seus maiores clientes. Como as demandas de inovação da clientela invariavelmente envolvia mudanças em diversas áreas, isso forçava os executivos a pensarem na Cisco como um todo. Tais oportunidades de inovação não teriam como ir adiante sem que setores importantes entendessem seu papel na criação, no desenvolvimento e na entrega de novos produtos e serviços e quais mudanças em seu trabalho precisariam ser feitas para tal.
Um líder funcional facilitando a colaboração entre áreas diferentes para um cliente certamente irá cruzar com outro líder funcional fazendo o mesmo para outro cliente. Se os bônus desses executivos estiverem parcialmente atrelados às vendas de produtos e serviços das respectivas contas, a integração entre departamentos e o compartilhamento de informações serão estimulados.
Além dos muros da empresa
Outro mecanismo que faz com que o conhecimento cruze as fronteiras entre os feudos organizacionais é o de permitir que pessoas de cada grupo, função ou departamento busque o que necessita fora da empresa, se não houver resposta internamente.
A Haier, fabricante chinesa de linha branca, criou o Rendanheyi, um sistema sofisticado de contratação de conhecimento tanto interno quanto externo, e que cria um mercado dentro da empresa para o fornecimento e aquisição de produtos e serviços que futuros produtos da Haier precisem para sair do papel. Esse sistema substitui a maior parte dos feudos que antes restringiam essa circulação.
Com o Rendanheyi, os departamentos se transformam em microempresas dentro da corporação, com a liberdade de contratar qualquer pessoa de dentro da organização (e, ocasionalmente, de fora), para que os objetivos sejam atingidos.
Como resultado, o sistema aumentou a velocidade da inovação e abriu a organização para uma maior colaboração externa, além de facilitar a abertura de novos negócios.
Por fim, vinte anos de inovação aberta revelaram que muitos dos maiores desafios para o modelo vinham da própria organização buscar sozinha pela inovação, em lugar de procurar e negociar em outras fontes.
Ultrapassar os feudos é essencial para a inovação aberta dê certo, um conceito que deixou sua marca. No LinkedIn de hoje vamos encontrar centenas de milhares de pessoas com a expressão “inovação aberta” ou “open innovation” em algum ponto de seu currículo. Vinte anos depois de sua conceituação, estamos prontos para ver quão longe ela pode chegar.
Autoria
Henry Chesbrough
Henry Chesbrough é professor de Inovação Aberta e Sustentabilidade na Universitá Luiss Guido Carli, em Roma, e diretor do Garwood Center for Corporate Innovation, na University of California, Berkeley.
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Perder noção dos avanços da tecnologia é realmente um risco
Por Pedro Doria – Estadão – 04/01/2024
Este que começa é o ano dois da Era daInteligência Artificial (IA). Vai ser, mais ou menos até o fim da década, uma montanha-russa. O risco, porém, conforme a tecnologia avança, é de não percebermos. Às vezes é assim com tecnologia: a cada ano os computadores vão ficando um pouquinho mais rápidos, as câmeras dos celulares um tantinho mais nítidas, e perdemos a noção dos saltos. Perder esta noção, com IA, é realmente um risco.
Sundar Pichai, CEO doGoogle, costuma comparar IA com eletricidade. Porque IA não é como o computador ou o celular, aquelas coisas que ligamos à rede elétrica. Inteligência artificial é, e será cada vez mais, a infraestrutura do mundo.
Claro, neste ano e no próximo veremos cada vez mais avanços em vídeos. Aí veremos surgir, em 2025 ou um pouco adiante, os resultados dos primeiros modelos de IA voltados não para imagens ou palavras, mas para química, para física. Pediremos não que criem fotografias perfeitas ou resumos corretos, mas que projetem aviões ou remédios.
Mas aos poucos, sem estardalhaço, IAs vão lentamente ser integradas aos processos internos das empresas, nos equipamentos urbanos, na burocracia dos Estados. Cada vez mais tomarão decisões. Vão avaliar os sensores de tempo, o volume de água nos bueiros, as imagens captadas pelas câmeras de segurança nas ruas. Tomarão decisões de compra de papel higiênico com base no inventário corrente. Decidirão que município recebe que verba, e quando. No início será assim: IAs nos livrarão das pequenas decisões cotidianas. Aquilo que é óbvio, gastando tempo precioso no qual poderíamos criar. Inteligências artificiais muito raramente cometerão aqueles pequenos erros que nós cometemos e, assim, tudo vai começar a funcionar de maneira mais fluida.
Ocorre que nada disso é inocente. Cada pequena decisão tem efeitos diversos. Para um sistema desses permitir a vigilância total de cada cidadão é simples. Mesmo sem tanto, é certo que o Estado ou empresas muito, muito grandes terão monopólio de acesso a dados, ou conclusões a partir de dados, que pessoas comuns não têm. É poder como nunca houve.
O caso de mentira publicada pelo canal de fofocas Choquei!, que levou ao suicídio a jovem Jéssica Canuto próximo do Natal, vai despertar novamente o debate sobre regulamentação das redes sociais. No entanto, todo este debate está sendo levado como se o problema estivesse nas decisões individuais dos donos do canal ou seus parceiros. Tire o Choquei, coisa igual vai entrar no lugar. O algoritmo produz o sucesso deste tipo de conteúdo.
Dez anos apósTwitter eFacebook terem adotado algoritmos para distribuir conteúdo, a maioria das pessoas ainda não conseguiu compreender que a infraestrutura tecnológica fará sempre com que fake news existam. O algoritmo incentiva nosso pior comportamento. E são algoritmos triviais perante a IA que temos hoje.
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Liderança transformacional, consciência digital e capacidade de comunicação são algumas das características que devem ajudar a impulsionar a carreira em um mercado altamente competitivo
André Freire – Exame – Publicado em 4 de janeiro/2023
Iniciamos 2024 com a expectativa de que seja um ano mais positivo para o mercado executivo. Com um prognóstico muito melhor, já comprovado com os resultados do final do ano, listo a seguir dez competências que deverão ser as mais buscadas pelas empresas nesse ano que entra:
Liderança transformacional: líderes capazes de inspirar, motivar e conduzir equipes através de mudanças significativas serão cada vez mais importantes, dado o ritmo acelerado das transformações nos negócios;
Inteligência emocional: habilidades interpessoais, empatia e a capacidade de compreender e gerenciar as emoções próprias e dos outros continuarão a ser cruciais para o sucesso em ambientes de trabalho colaborativos;
Pensamento estratégico: a capacidade de pensar de forma estratégica, antecipar tendências e tomar decisões orientadas para o futuro será uma competência fundamental para líderes e executivos;
Adaptabilidade e resiliência: em um mundo empresarial dinâmico, a capacidade de se adaptar a mudanças e superar desafios é essencial para a liderança eficaz;
Consciência digital: a competência para entender e adotar tecnologias emergentes, bem como liderar a transformação digital nas organizações, será cada vez mais necessária;
Pensamento analítico e tomada de decisão baseada em dados: a capacidade de analisar dados complexos e utilizar informações para tomar decisões informadas continuará sendo uma competência crítica;
Habilidade de comunicação: com a crescente importância das relações públicas, novos formatos de equipes descentralizados e modelos híbridos de trabalho, a comunicação eficaz, tanto interna quanto externa, será essencial para líderes executivos;
Colaboração e trabalho em equipe: em ambientes de trabalho cada vez mais colaborativos, a habilidade de trabalhar eficazmente em equipes multifuncionais será fundamental;
Habilidade de aprendizado contínuo: a capacidade de aprender rapidamente, adquirir novas habilidades e se manter atualizado em um ambiente em constante mudança será uma competência valiosa;
Responsabilidade social e sustentabilidade: líderes que demonstram um compromisso sólido com práticas empresariais éticas, responsabilidade social corporativa e sustentabilidade serão cada vez mais procurados.
André é sócio-diretor da EXEC, consultoria de projetos de seleção de C-Level, estrutura de governança, montagem de conselhos e programas de desenvolvimento de lideranças. Atua como Presidente do Conselho da ONG Make-a-Wish e membro do YPO.
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O início da década de 1970 representou um grande desafio para Taiwan. Sua economia, então, era formada principalmente por produtos agrícolas e montagem eletrônica simples – exportações de baixo valor e facilmente substituíveis. O Estado criou um fabricante de semicondutores de última geração de classe mundial, a partir de um plano de fomento da indústria nacional que se diferenciava do seguido pela Coréia do Sul e outros “Tigres”.
O governo viu a indústria de semicondutores como caminho para complexificação de sua economia, investindo na indústria de montagem de eletrônicos, dominada pelos EUA e pelo Japão. Taiwan tinha algumas fábricas de montagem de eletrônicos, semelhante à Zona Franca de Manaus, mas aquelas eram apenas para tarefas de montagem de baixo valor agregado e sem tecnologia “enraizada” no país. Ao tentarem ascender na cadeia de valor no setor de semicondutores, as empresas taiwanesas encontraram barreiras de entrada muito altas e uma reputação internacional que não favorecia as exportações: ninguém via os produtos taiwaneses como duráveis ou de qualidade.
Sun Yun-suan, ministro de assuntos econômicos e Wu Ta-You, diretor do Conselho Nacional de Ciência, defendiam o financiamento de pesquisa aplicada em engenharia elétrica relacionadas a semicondutores, a fim de nacionalizar a tecnologia em Taiwan. Visando ajudar as empresas privadas a entrarem no mercado tecnologicamente avançado e intensivo em capital da indústria de fabricação de semicondutores, Taiwan fundou o Instituto de Pesquisa de Tecnologia Industrial (ITRI).
A intenção deste laboratório com financiamento estatal era fazer pesquisa científica aplicada com a intenção de eventualmente incubar seus projetos como empresas privadas. O Instituto de Pesquisa de Tecnologia Industrial (ITRI) se concentrou em convidar empresas estrangeiras dos Estados Unidos ou da Europa para ensinar aos engenheiros locais tecnologias específicas de semicondutores, ou seja, o famoso acordo de transferência de tecnologia tão polêmico atualmente.
A RCA, dos EUA, ganhou a licitação de 1976 e procedeu a convidar uma equipe de cerca de 40 engenheiros taiwaneses para uma de suas fábricas, para ensinar-lhes não apenas a ciência bruta dos semicondutores, mas também as técnicas de gerenciamento e conhecimento industrial para sua manufatura. No entanto, a RCA não forneceu a Taiwan sua tecnologia de ponta, mas sim tecnologia já ultrapassada nos EUA, porém, alguns anos depois, a RCA abandonou completamente a indústria de semicondutores e deixou Taiwan com uma licença para todas as suas tecnologias. Taiwan focou no aprendizado sobre uma tecnologia conhecida como semicondutores de óxido de metal complementar (CMOS). CMOS ainda não havia amadurecido e seu mercado era limitado, mas viria a se tornar a tecnologia dominante de processo de fabricação de semicondutores nas décadas seguintes.
Basicamente, o governo de Taiwan agiu como um capitalista de risco e escolheu apoiar algumas startups. A maior parte dos aficionados por tecnologia conhece a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), mas poucas pessoas sabem que a TSMC não foi a primeira grande fabricante de chips de Taiwan. Essa honraria cabia à United Microelectronics Corporation (UMC). Em 1980, os cientistas e engenheiros do ITRI aproveitaram o conhecimento que ganharam com seu estágio na RCA e ajudaram a fundar a UMC.
O governo forneceu à UMC a tecnologia, ajudou a recrutar talentos para preencher as posições da empresa e até intermediou seu primeiro negócio. A UMC logo se tornou o fabricante de semicondutores mais lucrativa de Taiwan, mas a UMC falhou em ser o sucesso que o país queria: ela não conseguia competir no setor globalmente e se viu produzindo chips de baixo nível para brinquedos e relógios. O ITRI logo criaria duas outras empresas que buscavam projetar chips, mas ambas não conseguiram criar raízes e foram adquiridas por concorrentes.
TSMC significa Taiwan Semiconductor Manufacturing Company. A TSMC, com sua sede e operações primárias localizadas em Hsinchu Science Park em Taiwan, é a maior fábrica independente de semicondutores do mundo – tornando-se uma peça central no mundo da fabricação de silício sem fábrica. Não se pode contar a história da TSMC sem contar a história de seu fundador: Dr. Morris Chang, conhecido como o “pai dos semicondutores”.
Morris Chang nasceu na China e concluiu seu doutorado em engenharia elétrica pelo MIT e Stanford. Ele passou 25 anos na Texas Instruments trabalhando com projetos avançados de semicondutores e processos de fabricação. Ele ingressou no Instituto de pesquisa sem fins lucrativos ITRI em 1986 como presidente e, em seguida, usou essa plataforma para estabelecer a primeira planta de fabricação de wafer de semicondutores da TSMC no campus do ITRI. A TSMC foi fundada em 1987, quando ele tinha 56 anos. Tudo começou como uma colaboração entre o governo de Taiwan, a gigante tecnológica Philips, bem como investidores privados com interesse em tecnologia de semicondutores.
A TSMC representou um novo modelo de negócios inovador que revolucionou o mercado de semicondutores existente. A TSMC entrou no mercado com tecnologia muito mais avançada do que UMC, o que lhe deu uma vantagem no mercado. Essa tecnologia veio da Europa. A empresa holandesa Phillips, forneceu informações tecnológicas sobre o processo de 1,5 mícron que constituiria o produto principal da TSMC. Hoje, o principal fornecedor de máquinas de litografia com luz ultravioleta extrema (EUV) é a ASML, também da Holanda. O ITRI contratou trabalhadores taiwaneses altamente qualificados para usar e operar adequadamente o processo de 1,5 mícron da Phillips.
O governo de Taiwan investiu algum dinheiro, mas também queria o envolvimento de investidores privados porque acreditava fortemente na seleção que o mercado fazia de suas startups. A Philips recebeu a parte substancial das ações da TSMC. A Intel e a Texas Instruments tiveram a chance de investir, mas foram rejeitadas. Magnatas taiwaneses foram ordenados a investir no setor de semicondutores, a maioria a contragosto, mas o governo os forçou. Wang Yung-ching, da Formosa Plastics Corporation, teve de comprar 5% da TSMC por ordem do Estado. Ele vendeu todas as suas ações alguns anos após a compra.
A TSMC desde o início focou no mercado internacional de exportação, por determinação estatal. Já a UMC começou focando no mercado doméstico, que era protegido pelo governo de Taiwan. O mercado doméstico protegido permitiu o rápido desenvolvimento de know-how, e também criou um ecossistema de fornecedores satélite em torno da indústria de semicondutores. Quando a TSMC começou a competir no mercado internacional, a maior parte do trabalho braçal já havia sido feito pela UMC e outras empresas “fracassadas”, patrocinadas pelo governo. No mercado interno taiwanês, o governo poderia ajudá-las, mas o que aconteceu foi que o mercado interno tornou a UMC muito confortável. A empresa cresceu, mas não se tornou de classe mundial.
O ITRI tinha uma estratégia muito específica para desenvolver a indústria de semicondutores. Pequenas empresas se aglomeraram guiadas em massa pelo Estado. Isso se deu em contraste com a estratégia da Coreia do Sul onde o governo daria muito dinheiro para empresas especiais (campeões nacionais), para que elas dominassem um setor específico.
Em Taiwan, ao contrário, o Estado criou uma infinidade de pequenas empresas em diferentes partes da cadeia de produção de semicondutores, e lhes deu um impulso inicial, providenciou recursos humanos e de base, inclusive casas para os empreendedores e trabalhadores do setor, em especial no Hsinchu Science Park, a partir de 1980. As empresas de semicondutores eram tributadas em menos de 2%.
No início da década de 1990, uma vez que essas empresas começaram a participar do mercado global, o governo taiwanês não as inflava com subsídios nem tentava protegê-las da concorrência, em outras palavras, nenhuma tarifa protetora para lhes dar um mercado interno cativo, isso fez com que várias empresas falissem. Além disso, o governo não tentou apoiar uma empresa específica depois que ela começou a falir.
Embora o Estado não tenha investido em “campeões nacionais”, trabalhou para ajudar a indústria como um todo, inclusive priorizando o fornecimento de energia elétrica para as imediações do Hsinchu Science Park. Hoje, a TSMC é responsável por 28% da produção de semicondutores no mundo, e anunciou recentemente um investimento em expansão de capacidade produtiva de 100 bilhões de dólares. A UMC vem em 2º lugar, com 13% do mercado. A TSMC contou com apoio estatal desde sua fundação, foi protegida pelo governo taiwanês, recebeu aporte de investimentos obrigatórios de investidores contrariados, e aprendeu a partir de empresas no mercado doméstico que falharam durante o período de “catching up”.
referências:
Beyond Late Development – Taiwan’s Upgrading Policies – Alice H. Amsden, Wan-wen Chu
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Grandes veículos tentam licenciar conteúdo para OpenAI, mas acordo sobre preço e termos de uso gera ruído
Benjamin Mullin – Folha/ The New York Times- 30.dez.2023
Há meses, alguns dos maiores players da indústria de mídia dos Estados Unidos têm mantido conversas confidenciais com a OpenAI sobre uma questão complicada: o preço e os termos para licenciar seu conteúdo para a empresa de inteligência artificial.
O véu sobre essas negociações foi levantado esta semana quando o The New York Times processou a OpenAI e a Microsoft por violação de direitos autorais, alegando que as empresas usaram seu conteúdo sem permissão para desenvolver produtos de IA.
O Times afirmou que, antes de processar, tentou por meses chegar a um acordo com as empresas. Outras organizações de notícias, incluindo a Gannett, a maior empresa de jornais dos Estados Unidos; a News Corp., proprietária do The Wall Street Journal; e a IAC, a gigante digital por trás do The Daily Beast e da editora de revistas Dotdash Meredith, têm mantido conversas com a OpenAI, disseram três pessoas próximas às negociações, que pediram anonimato para discutir as conversas confidenciais.
A News/Media Alliance, que representa mais de 2.200 organizações de notícias na América do Norte, também tem conversado com a OpenAI sobre a criação de um acordo que atenda aos interesses de seus membros, disse uma pessoa familiarizada com as conversas.
A Microsoft, que é a maior investidora da OpenAI e está incorporando a tecnologia da startup de inteligência em artificial em seus produtos, também participou de encontros de negociação.
Empresas como a OpenAI e a Microsoft têm buscado acordos de licenciamento com organizações de notícias para treinar sistemas de IA capazes de produzir textos semelhantes aos escritos por humanos.
Em comunicado, a OpenAI afirmou que respeita os direitos dos criadores e proprietários de conteúdo e acredita que eles devem se beneficiar da tecnologia de IA, citando seus acordos com a Associated Press e o conglomerado editorial alemão Axel Springer.
Os editores de notícias mantêm relações precárias com empresas de tecnologia desde que perderam grande parte de seus negócios tradicionais de publicidade para novos concorrentes como o Google e o Facebook, e os executivos de publicação estão cautelosos em vender seu conteúdo por um preço muito baixo.
Há também o medo de que as aplicações de IA possam fornecer informações imprecisas citando seus artigos.
O acordo com a AP, anunciado em julho, permite que a OpenAI licencie o arquivo de artigos de notícias da AP.
A Axel Springer, cujas holdings incluem o Politico e o Business Insider, foi além: neste mês, fechou um acordo de vários anos que deu à OpenAI acesso ao seu arquivo de notícias e permitiu que a empresa de IA usasse artigos recém-publicados em aplicativos como o ChatGPT. O acordo, que inclui uma “taxa de desempenho” com base em quanto a OpenAI usa seu conteúdo, vale mais de US$ 10 milhões por ano, disse uma pessoa familiarizada com o acordo.
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Em vez de apenas virar sócia de startups e comprar a tecnologia delas, as grandes empresas querem replicar sua cultura
Por Daniel Giussani e Marcos Bonfim – Exame – 21 de dezembro de 2023
A simbiose entre startups e grandes empresas ficará ainda mais aprofundada no Brasil em 2024. Após dois anos de investidores do venture capital reticentes em assinar cheques a negócios ainda incipientes, a saída encontrada por muitos “startupeiros” foi recorrer ao crédito oriundo de grandes corporações.
Chamado de corporate venture capital, ou CVC, esse tipo de financiamento costuma sair do papel quando uma empresa de grande porte tem interesse numa tecnologia criada por uma startup e que demoraria muito tempo para ser desenvolvida dentro de casa.
Para além de ser sócia, a grande empresa pode virar cliente da startup ou mesmo apresentar novos clientes. Não é raro os times de investidora e investida trabalharem em conjunto em programas de inovação aberta. É, também, uma chance de ouro para grandes empresas fisgarem talentos.
Em meio ao inverno das startups, o corporate venture capital está bombando no Brasil. Os dados mais recentes, de 2022, indicam aportes desse tipo que somam 925 milhões de dólares, de acordo com levantamento do Distrito, uma plataforma com dados sobre startups. O número é mais que o triplo do patamar de 2020, quando esses investimentos somaram 261 milhões de dólares. O período coincidiu com a abertura de 70% dos fundos para CVC com atuação no país.
Em 2024, para além de servir de boia a empreendedores ávidos por recursos, o CVC ganhará importância como fonte de insights para a estratégia das startups. É uma mudança importante na relação de poder entre startups e corporações.
Até pouco tempo, era comum entre executivos de corporações o desejo de copiar o modo de gestão das startups. Após a crise de o venture capital derreter o valor da grande maioria das empresas de tecnologia, agora são as startups que estão calçando a sandália da humildade e prestando mais atenção aos modelos de negócios das corporações.
Quem já está com o novo ‘mindset’
No fundo, ambos estão falando a mesma língua com mais frequência. “Avançamos em relação às expectativas de ambos os lados para a geração de valor entre corporações e startups”, diz Leo Monte, presidente da Associação Brasileira de Corporate Venture Capital, criada em novembro de 2023 na esteira do boom desse tipo de investimento.
Daqui para a frente, a toada nas grandes empresas é replicar nas startups boa parte da cultura corporativa responsável pelo sucesso delas. Em outras palavras, o smart money, jargão das startups para o investidor que tem lugar de fala nos rumos do negócio investido, ficará ainda mais smart. Alguns exemplos disso já estão pipocando aqui e ali.
Um bom exemplo vem da gaúcha Randon, uma das líderes globais em autopeças. A poucos quilômetros da sede da corporação, em Caxias do Sul, a Randon abriu o Conexo, um misto de coworking e universidade para startups, como as investidas da Randon Ventures, o braço do grupo para startups.
“É uma área para o desenvolvimento de pessoas”, diz Daniel Ely, vice-presidente da Randoncorp, a holding do grupo. “Queremos que as startups venham até nosso espaço, se conectem com nosso ecossistema e consigam se desenvolver conosco.”
Na Ambev, os executivos da companhia são incumbidos da missão de mostrar às startups quais são as áreas de negócio. Na língua do gigante de bebidas, eles viram “padrinhos” dos startupeiros. “Nós temos muitos ativos além de dinheiro para dar às startups, certo? Sentar com o VP da Ambev por 2 horas e tirar dúvidas tem muito valor e nós precisamos desse tempo”, disse Luciana Sater, head de investimentos da Ambev, num evento recente sobre CVC.
Daniel Giussani
Repórter de Negócios
Formado em jornalismo pela UFRGS, escreve sobre negócios e empresas desde 2019. Foi repórter em coluna de economia no jornal Zero Hora e na Rádio Gaúcha. Está na Exame desde 2023
Marcos Bonfim
Repórter de Negócios
Formado em jornalismo pela PUC-SP e com pós em Política e Relações Internacionais pela FESPSP, escreve sobre negócios desde 2022. Acumula passagens por veículos como Meio & Mensagem, Propmark e UOL
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‘Adoraria ter previsibilidade, mas o que vamos fazer? Ficar de braços cruzados’, diz diretor de incorporadora de shoppings. Em 2023, crescimento do PIB veio do consumo, sem grandes aportes em novos projetos por parte das empresas.
Por Vinicius Neder – O Globo – 31/12/2023
A expectativa de que o alívio nas taxas de juros, não só no Brasil, mas no mundo como um todo, continuará em 2024 tenderá a melhorar o cenário para os investimentos, mas executivos de empresas de portes e atividades variadas focam no retorno de seus projetos para defender suas decisões de investir.
Se em 2023 o crescimento da economia foi ancorado basicamente no consumo das famílias – sem grandes aportes em novos projetos por parte das empresas – as companhias miram seus próprios negócios quando relatam os motivos para apostar em ampliações de suas operações neste ano de 2024.
Para Armando d’Almeida Neto, diretor vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Multiplan, não dá para esperar o cenário melhorar para investir.
– Óbvio que adoraria ter previsibilidade, estabilidade, regras claras, mas quando olhamos, e não é uma particularidade do Brasil, vemos grande volatilidade, flutuações, temas geopolíticos. O que vamos fazer? Ficar de braços cruzados esperando?
BYD e a paixão por carros do Brasil
A chinesa BYD, maior fabricante de carros elétricos do mundo, pretende investir ao menos R$ 1,5 bilhão no Brasil em 2024. E esse valor é o piso, disse Alexandre Baldy, presidente do Conselho de Administração da subsidiária brasileira da companhia.
Esse valor inclui parte dos R$ 3 bilhões anunciados para a aquisição e adaptação da fábrica da Bahia, que antes pertencia à Ford – as obras na fábrica começarão em fevereiro, com previsão de começar a produzir em dezembro de 2024. E também haverá aportes na abertura de concessionárias e campanhas publicitárias.
Baldy destaca que o brasileiro tem nos carros uma paixão e é aberto a inovações, garantindo uma “aceitação enorme” para os carros da BYD. À venda no Brasil desde julho, modelos como o Dolphin e o Song Plus já venderam 12,4 mil unidades no acumulado até novembro.
Apenas naquele mês, a BYD foi a 11ª marca mais vendida do país, conforme os dados de emplacamentos, compilados pela Fenabrave, federação de revendedores.
– E tem um potencial de ser um hub para a América Latina, porque o Brasil tem um acordo bilateral com México, tem a facilidade do Mercosul. É uma conjugação de fatores – acrescenta o executivo, lembrando que países como Chile, Bolívia, Argentina e Brasil também se destacam por reservas de minerais críticos para as baterias dos carros, como o lítio, importante para a estratégia de verticalização da fabricante chinesa.
A Suzano, maior fabricante global de celulose de fibra curta (usada para fazer papel branco, papel higiênico e demais produtos de higiene) aplicará R$ 16,5 bilhões em 2024 no Brasil. Do total, R$ 4,6 bilhões vão para concluir mais uma fábrica em Mato Grosso do Sul, prevista para ser inaugurada em meados do ano que vem – o Projeto Cerrado, que inclui também as florestas ao lado da nova planta, consumirá R$ 22,2 bilhões.
Segundo o diretor-executivo de Finanças e Relações com Investidores, Marcelo Bacci, justificam os aportes bilionários o fato de que a indústria de celulose de fibra curta brasileira é a mais competitiva do mundo.
As condições de clima, solo, disponibilidade de terras e o desenvolvimento de espécies adaptadas de eucalipto garantem a maior produtividade e os menores custos de um insumo cuja demanda cresce estruturalmente. Afinal, quanto mais pessoas saem da pobreza, especialmente na Ásia, mais se consome papel higiênico, lenços de papel, fraldas e produtos simulares.
Se os juros elevados atrapalham menos, porque a Suzano levanta financiamentos no exterior e buscou operações na época de juros baixos do início da pandemia de Covid-19, o ambiente de negócios pouco amigável e a infraestrutura deficiente atrapalham os investimentos. Eles poderiam ser maiores e mais rentáveis, não fosse o chamado custo-Brasil.
– Fazemos muito investimento em infraestrutura, e parte importante desse investimento tem a ver com isso, porque não existe infraestrutura pública adequada no Brasil. Quando fazemos uma fábrica de celulose, construímos uma infinidade de estradas por dentro das fazendas para chegar à fábrica, porque a infraestrutura viária pública não dá conta. Fazemos estradas próprias – afirma Bacci, ressaltando que parte importante do investimento no Projeto Cerrado foi para a construção de um terminal portuário, no Porto de Santos:
– O Brasil é muito competitivo, apesar dessas coisas. Pode melhorar.
Multiplan e o local ideal para um shopping
O portfólio de projetos da incorporadora imobiliária e administradora de shopping centers Multiplan inclui a expansão de sete empreendimentos, para ser entregues entre o segundo semestre de 2024 e a segunda metade de 2027, incluindo o MorumbiShopping, em São Paulo.
A empresa não divulga metas de investimento, mas levando em conta os custos por metro quadrado, o valor total ao longo do período poderia ficar em torno de R$ 1,5 bilhão, estima Armando d’Almeida Neto, diretor vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Multiplan.
Segundo o executivo, o principal motivo para a companhia investir é a identificação da demanda por parte dos consumidores, conforme as mudanças de seus hábitos. Haveria, portanto, um crescimento de longo prazo, à medida que comércio e serviços migram das ruas para os shoppings e os empreendimentos se espalham pelo país – apenas 244 das 5.570 cidades brasileiras têm shoppings, informa Almeida Neto.
A estratégia é identificar os melhores locais para atender essa demanda crescente, vislumbrando seu avanço no longo prazo, já que a construção de um empreendimento leva anos.
Achar essas oportunidades, entendendo o consumidor, é mais importante do que o ambiente de negócios ou o nível dos juros, diz o executivo. Em quase 50 anos, a Multiplan já passou por hiperinflação, recessões e a pandemia de Covid-19.
– Óbvio que adoraria ter previsibilidade, estabilidade, regras claras, mas quando olhamos, e não é uma particularidade do Brasil, vemos grande volatilidade, flutuações, temas geopolíticos. O que vamos fazer? Ficar de braços cruzados esperando?
Seacrest de olho no petróleo em terra
A petroleira independente de médio porte Seacrest, que produz petróleo e gás em terra no norte do Espírito Santo, planeja investir US$ 100 milhões em 2024 no Brasil, para perfurar mais poços e abrir novas zonas de produção.
Segundo Juan Alves, vice-presidente de produção e operações da empresa, a motivação está na oportunidade criada pelo boom da exploração em terra no país – impulsionado pelas vendas de campos considerados pequenos pela Petrobras, na estratégia da estatal de se concentrar no pré-sal –, que deu fôlego às petroleiras de médio porte.
A Seacrest adquiriu sua primeira área em 2019, mas começou a operar em 2021. A segunda, em local adjacente, adquiriu em 2022 e começou a operar em abril de 2023. Gastou US$ 700 milhões nas aquisições e tem um plano de investimentos de US$ 400 milhões até 2027.
– Temos certificação de reservas, com auditoria externa, em mais de 300 pontos para perfurar em até 2027 – diz Alves, explicando que os investimentos não são na exploração de novas reservas. – É uma perfuração no meio, de baixo risco. Tenho dois poços produzindo e vou colocar um no meio. Aceleramos a produção o máximo que podemos.
Para o executivo, o boom do petróleo em terra ainda continuará a puxar investimentos, mesmo que a Petrobras tire o pé do acelerador na venda de campos menores.
A próxima fase deverá ser marcada por fusões, aquisições e parcerias entre as pequenas e médias petroleiras, em prol de sinergias na cadeia de fornecedores e na infraestrutura. Por isso, as decisões de investimento deverão ser pouco afetadas pelo cenário econômico, diz Alves:
– A Reforma Tributária, por exemplo, não nos afeta de forma significativa. Só quando cria um imposto de exportação, como na virada do ano (de 2022 para 2023). Somos listados na Bolsa de Oslo, e fomos bastante impactados. Uma ação dessas faz com que repensemos nossos investimentos.
Ibi cria seu ‘anel óptico’
A Ibi, provedor de internet de alta velocidade no leste de Minas Gerais, em cidades como Ipatinga e Governador Valadares, cresceu com o boom da banda larga via fibra óptica, puxado, Brasil afora, por pequenas e médias empresas. Apesar do “cenário desafiador”, a Ibi investiu R$ 10 milhões em 2023 e aportará mais cerca de R$ 5 milhões em 2024, apenas para montar seu próprio “anel óptico”, interligando Minas, Rio e São Paulo, conta Pedro Matias, diretor técnico e operacional do provedor.
O cenário é desafiador, diz o executivo, por causa dos juros elevados e do encarecimento de equipamentos, em meio à pandemia e às turbulências geopolíticas, que encarecem os investimentos, mas há uma perspectiva de crescimento estrutural da demanda, que justifica a aposta.
– Acima de 90% das residências do país já estão providas de acesso à internet. O desafio é nos diferenciar na qualidade, para atrair clientes de outras empresas – diz Matias, acrescentando que também há espaço para mais demanda via substituição tecnológica, de outros tipos de cabo por fibra.
Por isso, a Ibi investirá outros R$ 13 milhões apenas na instalação de novos clientes em 2024, mas o diretor da empresa explica que a decisão de apostar na construção de sua rede própria, o “anel óptico” tem mais a ver com eficiência operacional.
Dado o aumento da base de clientes, é melhor ter a rede própria, em vez de alugar a estrutura de outras operadoras – a rede própria são os equipamentos que transmitem os dados entre os locais onde o provedor atua e o ponto de troca com o exterior, em São Paulo, usando a estrutura de fibra de outras empresas que tenham capacidade ociosa. A capacidade será ampliada em quatro vezes, permitindo dobrar a base de clientes.
– Fazendo essa infraestrutura própria, vamos passar por cidades que, até então, estavam fora da nossa região de atuação, como Belo Horizonte, Juiz de Fora, Rio, São Paulo, Vitória – diz Matias.
CCR investe em estradas concedidas
A operadora de infraestrutura CCR tem um investimento programado de R$ 33 bilhões em todos suas concessões vigentes. Apenas nos nove primeiros meses de 2023, a companhia investiu R$ 4,2 bilhões, 31% acima do investido em todo o ano anterior. O grande destaque são as concessões de rodovias, que deveram ficar com R$ 28 bilhões desse valor total.
Entre os principais projetos está a Via Dutra, cuja concessão foi renovada após a CCR ganhar o novo leilão de licitação, que incluiu na operação a Rio-Santos, trecho da BR-101 que liga o litoral fluminense ao paulista.
Apenas as obras da ampliação da Dutra na região metropolitana de São Paulo e na altura de São José dos Campos, no lado paulista da rodovia, consumirão R$ 2 bilhões e deverão ser concluídas em 2025 e 2026 – no lado fluminense, a nova subida da Serra da Araras receberá R$ 1,2 bilhão, mas, por contrato, ficará pronta apenas em 2028.
Para o presidente da CCR, Miguel Setas, “um cenário macroeconômico favorável facilita a contratação de crédito e estimula o investimento privado em infraestrutura”, mas não é só isso que conta no apetite da companhia por apostar na conquista de mais concessões nos próximos leilões. São levados em conta a modelagem dos contratos, a expectativa de receitas, o tamanho dos investimentos e a segurança jurídica, elenca o executivo, em resposta por escrito ao GLOBO.
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O mapa dos setores mais estratégicos de uma das economias mais promissoras do mundo
Por EXAME Solutions – Publicado em 27/12/2023
Em meio às turbulências políticas e econômicas que ocorrem ao redor do planeta, agravadas por situações de guerra na Ucrânia e no Oriente Médio, o Brasil desponta como porto seguro confiável e de oportunidades para novos negócios e investimentos estrangeiros.
Após um período desafiador com os efeitos da pandemia de covid-19, o país busca retomar o leme do desenvolvimento sustentável e apresenta melhoria no desempenho de seus índices econômicos, tais como: controle da inflação, queda de juros, aumento do consumo por parte da população, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e plano de médio prazo para a redução do déficit público.
“O cenário macroeconômico apresenta um pouco mais de previsibilidade e estabilidade. São fatores que trazem mais confiança para o investidor estrangeiro, tanto o especulativo, que traz capital para investir em ativos financeiros no Brasil, como também os grandes agentes econômicos que investem realmente no desenvolvimento da indústria, do agronegócio e na área de serviços”, avalia o consultor Acilio Marinello, coordenador de MBA na Trevisan Escola de Negócios.
Parte desse reconhecimento do potencial brasileiro veio em recente declaração do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que o país deve retornar ao ranking das dez maiores economias do mundo ainda em 2023, encerrando o ano na nona posição.
“Há uma política econômica clara, um Banco Central independente que tem atuado de maneira firme para evitar a hiperinflação e, mesmo com todos os programas sociais, existe um projeto para reduzir o déficit do governo. Isso é muito importante para os agentes econômicos”, afirma Marinello.
Crescimento econômico
Em 2022, a economia brasileira cresceu 2,9%, e o Produto Interno Bruto (PIB) fechou em 1,6 trilhão de dólares, segundo dados do IBGE. Para 2023, a projeção do Ministério da Fazenda aponta para um crescimento de 3% do PIB.
O Brasil também se destaca como destino global para investimentos estrangeiros diretos (IED), e somou 86 bilhões de dólares de IED em 2022, o quinto maior beneficiário mundial, segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
Com mais de 203 milhões de habitantes, segundo o último Censo do IBGE, o país tem registrado aumento do mercado de consumo. “É uma população economicamente ativa. Apesar da grande desigualdade social, mesmo as camadas mais baixas consomem produtos e serviços. Logo, é um mercado consumidor que atrai os investidores estrangeiros”, diz Marinello.
Brasil: um dos cinco polos mais atraentes para investimentos
O Brasil é atualmente o quinto maior destino global para Investimentos Estrangeiros Diretos (IED). No ano passado, o país somou 86 bilhões de dólares de IED, ficando atrás apenas de Estados Unidos, China, Singapura e Hong Kong — e à frente de países como Austrália, Canadá e França.
Em comparação a 2021, o Brasil galgou uma posição no ranking geral de IED. Naquele ano, os investimentos estrangeiros em território nacional somaram 51 bilhões de dólares. Os dados constam da edição 2023 do Relatório de Investimento Mundial, elaborado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
10 motivos para acreditar (e investir) no Brasil
1. Maior economia da América Latina, o país se reposicionou nas principais agências de classificação de risco do planeta, como Fitch e S&P.
2. Amplo mercado de consumo e fornecimento de mão de obra.
3. Abundância de diversidade energética e sustentabilidade ambiental. Mais de 85% da matriz elétrica brasileira é composta de fontes renováveis e consideradas limpas, como hidrelétrica, eólica e solar.
4. Equilíbrio nas contas públicas: inflação sob controle, avanço de grandes reformas estruturais, como a tributária, e planos de redução do déficit público.
5. Economia altamente diversificada, com destaque para o agronegócio, que contribui com 24,8% do PIB brasileiro. Um dos maiores fornecedores mundiais de commodities, como grãos e minérios.
6. O país é o quinto maior beneficiário mundial de investimentos estrangeiros diretos.
7. Crescimento de investimentos comprometidos com redução de emissão de carbono, em projetos como energia eólica e solar, hidrogênio verde e biomassa. Ao todo, 7% da produção mundial de energia renovável vem do Brasil.
8. Mercado de capitais seguro e regulação equivalente à das grandes economias.
9. Bom relacionamento do país com as demais economias.
10. Protagonismo e comprometimento do Brasil com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
A força
Impulsionado por produção trilionária, agronegócio representa um quarto do PIB brasileiro e lidera exportações globais de commodities estratégicas, como soja e milho
A agropecuária sempre foi forte no Brasil. Mas o avanço de 474% na produção de grãos desde 1990 alçou o país a outro patamar globalmente.
O resultado veio pela combinação entre a abertura de novas áreas agrícolas, o salto em produtividade — 3,18% ao ano, em média, entre 2000 e 2019, à frente de China (2,03%) e Estados Unidos (0,5%) —, a conquista de novos mercados internacionais, e o diferencial estratégico de poder usar 27,1 milhões de hectares mais de uma vez no mesmo ano-safra — algumas culturas, como o milho, têm até três safras anuais. Esse dinamismo se traduz em oportunidades de investimentos variadas.
O agro se tornou um motor para a economia interna do país, a ponto de representar 24,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2022, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP).
O Brasil é hoje um dos líderes mundiais no cultivo de commodities estratégicas, como soja (41% do total global), café (37%) e açúcar (21%). O Ministério da Agricultura projeta que o valor bruto da produção agropecuária atingirá a marca inédita de 1,15 trilhão de reais em 2023.
Força exportadora
Nos últimos dez anos, o faturamento das exportações do setor cresceu 66,1% e atingiu 159,1 bilhões de dólares no ano passado — 47,6% do total do país. Além disso, o saldo da balança comercial de 142 bilhões de dólares fez do Brasil o maior exportador líquido do agro global.
Hoje, o país está na dianteira internacional nas vendas de soja (57% do total global), milho (28%), café (28%), açúcar (41%), suco de laranja (72%), tabaco (31%), carne bovina (25%) e carne de frango (34%). E deve fechar o ciclo 2023/24 como maior exportador mundial de grãos, com 156,4 milhões de toneladas.
Investimento em tecnologia
O investimento maciço em tecnologia e insumos é uma das razões desse sucesso. Entre 1990 e 2022, o crescimento médio anual da demanda foi de 5,2% para fertilizantes e de 8,6% para defensivos agrícolas, segundo a consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio.
Segundo Helena Bonna Brandão, gerente de investimentos da ApexBrasil, o Brasil ocupa hoje a quarta posição mundial do consumo global de fertilizantes. “A estimativa é que 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil sejam importados, e a ideia é diminuir a dependência internacional para 50% até 2050”, diz. “Isso só será possível com soluções inovadoras, estímulo à pesquisa e investimento em tecnologias adequadas ao nosso solo e clima.”
Transição com equilíbrio
O Brasil desponta como uma potência em energia renovável, mas a transição para uma economia de baixo carbono é um processo gradual — no qual o petróleo e o gás ainda têm um papel relevante
O Brasil se destaca como um dos líderes em energia limpa no planeta.
Em 2022, a participação de fontes renováveis na matriz energética do país chegou a 47,4%, de acordo com os dados do mais recente “Balanço Energético Nacional”, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Em comparação, a média global de renováveis na matriz energética é de 14,1%, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Quando se consideram somente as fontes de energia usadas na geração de eletricidade, a vantagem do país salta ainda mais aos olhos: a energia limpa representa 87,9% da matriz elétrica brasileira, ante a média de 26,6% no mundo.
Atributos não faltam para tornar o país uma potência global em energia renovável e liderar os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa que causam as mudanças climáticas. O país tem grande quantidade de recursos naturais renováveis, como energia solar, eólica, hidrelétrica e biomassa, e apresenta condições para ocupar posição de destaque também nas novas fronteiras de geração de energia limpa, como a produção de hidrogênio verde, obtido a partir da eletrólise da água.
“No setor de energia, podemos afirmar que somos um grande caso de sucesso, dada a amplitude de players internacionais presentes no Brasil, tanto em petróleo e gás quanto em energias renováveis”, diz Ana Paula Repezza, diretora de Negócios da ApexBrasil. “O interesse pelo país está em alta e precisamos aproveitar essa oportunidade de ser líderes globais na transição energética.”
Petróleo e Gás
Atualmente, o Brasil é o nono maior produtor e o oitavo maior exportador de petróleo e derivados do mundo, com receita superior a 56 bilhões de dólares em 2022. Tem potencial para muito mais.
“As projeções da ANP, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, apontam que, mantidos os planos de investimentos no setor pelas operadoras já presentes no país, especialmente a Petrobras, o Brasil ocupará a quinta posição entre os principais produtores mundiais de petróleo até o final da década”, ressalta Ana Paula, da ApexBrasil. “Esse é um setor que representa cerca de 12% do PIB industrial do país, desenvolvendo tecnologias de ponta, gerando empregos e renda de qualidade e garantindo o suprimento de energia para o crescimento da economia.”
Sol e vento prósperos
Brasil tem avançado na diversificação de sua matriz energética. Um dos destaques é a energia eólica, que encerrou 2022 com um parque de 904 usinas e uma capacidade de 25,3 gigawatts (GW), um crescimento de 18,9% em relação a 2021. O país tornou-se o terceiro maior instalador de turbinas eólicas no mundo, abastecendo cerca de 124 milhões de pessoas.
A energia solar também avançou, com uma capacidade de 34 GW, o correspondente a 15,4% da matriz elétrica. Projeções indicam que, até 2050, a energia solar ultrapassará a capacidade instalada da hidreletricidade no país.
Vale mencionar também a biomassa, proveniente sobretudo da produção do etanol de cana e milho. É uma fonte que apresenta grande potencial de expansão no país, graças à diversidade de culturas agrícolas e à abundância de matéria orgânica que pode ser utilizada na geração de bioenergia.
A fronteira do hidrogênio verde
Outra alternativa que vem ganhando espaço na busca por uma matriz energética mais limpa e sustentável é o hidrogênio verde, também conhecido como H2V. Diversos países, especialmente na Europa, têm investido em projetos nessa fonte de energia.
No Brasil, há expectativas de investimentos significativos nessa área, com projeções indicando uma demanda de 2,8 milhões de toneladas anuais de H2V até 2040. No entanto, a indústria do hidrogênio verde enfrenta diversos desafios tecnológicos, de regulamentação e de mercado, que exigem atenção. A seguir, o leitor encontrará matérias que exploram os temas aqui expostos.
Infraestrutura: a base do desenvolvimento
Números comprovam o potencial da infraestrutura, da logística e da mineração sustentável no Brasil
Motivos para convencer empresas e investidores internacionais a injetar recursos no Brasil não faltam.
Trata-se da maior economia da América Latina e da segunda das Américas. E estamos falando de uma das dez maiores economias do mundo, dona da quarta maior malha rodoviária do planeta.
Para se tornar ainda mais competitivo e continuar crescendo, o país está investindo fortemente em suas redes logísticas e de transporte. E o governo brasileiro espera atrair 10 bilhões de dólares em investimentos privados para ajudar a expandi-las.
Para 2023, estão previstos 51 projetos relacionados a aeroportos, rodovias, portos, infraestrutura hídrica, parques e florestas, mobilidade urbana, saneamento e iluminação pública. Tudo para favorecer novas oportunidades de negócios, além de vantagens comerciais para empresas instaladas de norte a sul. Leia mais aqui.
O boom do mercado de saneamento
Ao prever a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033, Marco Legal do Saneamento Básico abre portas para empresas privadas que buscam um ambiente mais seguro e próspero para investir
Poucas vezes o setor de saneamento básico movimentou tanto dinheiro no Brasil.
Só no primeiro semestre do ano, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinou cerca de 3,7 bilhões de reais para investimentos em saneamento, valor 929% maior do que o financiamento registrado durante o ano de 2020, quando foi aprovado o Marco Legal do Saneamento Básico.
Muita coisa mudou de lá para cá. A nova legislação definiu metas para a melhoria da prestação do serviço por parte das companhias estaduais de água e esgoto, e uma série de indicadores que devem ser levados em conta no momento da renovação de contratos. Na prática, o marco legal abriu o mercado à iniciativa privada, proporcionando diversas oportunidades de investimento.
Nos últimos três anos, foram gerados 64 bilhões de reais em investimentos contratados, segundo a Associação e Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon-Sindcon). Pelo menos 18 grandes projetos saíram da gaveta desde 2020, como o leilão da Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae), do Rio de Janeiro, que movimentou mais de 22 bilhões de reais.
O leilão de saneamento do consórcio formado por 61 municípios de Alagoas e de Maceió, que atendem mais de 1 milhão de pessoas no Nordeste do país, também chamou atenção do mercado. O projeto foi estruturado pelo BNDES, que preparou um pipeline de concessões no setor.
Agora o BNDES volta a se debruçar sobre estudos relativos a novas concessões e parcerias público-privadas (PPPs). Há pelo menos 12 projetos em estruturação, com destaque para o leilão da companhia de saneamento de Sergipe, a Deso, prevista para o primeiro trimestre de 2024, com investimento estimado de 7 bilhões de reais, e da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa), que deve acontecer até o final do ano que vem. Leia mais aqui.
O maior hub de inovação da América Latina
Com 203 milhões de habitantes, Brasil atrai milhares de startups e se destaca como maior hub de inovação da América Latina
Junto da reconhecida potência no agronegócio ou em energia renovável, existe um Brasil líder também em inovação na América Latina e Caribe e em contínua ascensão.
Pelo terceiro ano consecutivo, o país subiu posições no Global Innovation Index (GII), o mais amplo e conceituado ranking internacional de avaliação dos países em relação aos seus ecossistemas de inovação.
Na edição de 2023, divulgada recentemente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), que realiza o estudo, o Brasil foi o que mais avançou na classificação — subiu cinco degraus —, consolidando-se entre as 50 economias mais inovadoras do mundo.
Segundo Sacha Wunsch-Vincent, coeditor do GII, o desempenho em inovação do país é tão expressivo que tem consistentemente superado o seu próprio nível de desenvolvimento.
“Isso é fruto de esforços sustentados do Brasil para converter recursos de inovação, como a capacidade do setor corporativo de impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento e, em geral, a excelente infraestrutura nacional de P&D, que leva a resultados como manufatura de alta tecnologia, produção de software e capacidade de produzir unicórnios”, argumenta.
Um ecossistema robusto
Os resultados positivos no GII refletem o papel fundamental da tecnologia em avanços relevantes do país nos últimos anos, permeando todos os setores, desde a inclusão de mais pessoas no sistema financeiro até a melhoria do acesso à saúde na pandemia ou o aumento da produtividade e da sustentabilidade no agronegócio.
O Brasil tem hoje um ecossistema substancialmente mais robusto, na visão de Eduardo Fuentes, chefe de pesquisa da plataforma de inovação Distrito.
“Os empreendedores estão cada vez mais capacitados. Contamos com um número crescente de investidores dispostos a apostar no país, as corporações reconhecem a inovação aberta como um caminho viável para melhorar seus negócios e temos um governo com uma agenda positiva em relação a esse assunto”, diz.
Esse amadurecimento explica a liderança absoluta do Brasil em número de startups na América Latina, firmando-se como o grande hub de inovação da região. São mais de 13.000 startups, representando 62,9% do total, bem à frente do segundo colocado, o México, com 11,7%, de acordo com o estudo Panorama Tech América Latina 2023, realizado pela Distrito.
O país é também o campeão latino-americano em número de unicórnios, startups avaliadas em pelo menos 1 bilhão de dólares antes de abrirem capital: são 24 companhias, segundo o levantamento, o que significa que mais da metade dos unicórnios de toda a América Latina, que somam 45, está aqui.
Fintechs se destacam
O mercado financeiro é historicamente o mais forte em inovação no Brasil, abrigando o maior número de startups e concentrando o maior volume de investimentos. Fuentes salienta que, apesar da maturidade do segmento, avanços consideráveis estão acontecendo, especialmente devido a uma agenda pró-inovação altamente positiva do Banco Central nos últimos anos.
“Essa abordagem tem sido fundamental para garantir um maior acesso da população a produtos financeiros, resultando na inclusão de 75 milhões de brasileiros no sistema bancário nos últimos anos. Com uma diversidade maior de opções, a concorrência se intensificou, elevando o padrão geral para todos os produtos e serviços bancários”, afirma.
Terreno fértil para startups estrangeiras
O dinâmico mercado brasileiro — não só produtor de tecnologia mas grande consumidor de inovação — é também um destino atrativo para startups de fora do país
Apoio à entrada de novas soluções
O dinâmico mercado brasileiro — não só produtor de tecnologia mas grande consumidor de inovação — é também um destino atrativo para startups estrangeiras, que buscam ganhar tração. E há espaço para crescer. Com uma população de 203 milhões de habitantes e o maior Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, o mercado nacional é imenso tanto em número de consumidores quanto em capacidade para abraçar novas soluções. “Também estamos bem colocados quanto à penetração da internet, com uma taxa de 81%, o que facilita o desenvolvimento de soluções tech por aqui”, pontua Eduardo Fuentes.
Esses fatores chamam a atenção de startups de fora, muitas provenientes de mercados vizinhos, que veem no Brasil uma oportunidade de expansão. “O fenômeno é observado em todos os setores, desde o financeiro até o imobiliário”, destaca.
É o caso da Rappi, startup colombiana de delivery, cujo ingresso no mercado brasileiro teve peso relevante para que a empresa atingisse o status de unicórnio em 2018. De acordo com Tijana Jankovic, vice-presidente global de negócios da Rappi, a maior base de usuários é exatamente o Brasil, ao lado do México. “Foram esses dois mercados que colocaram a companhia como um grande player de patamar mundial, na América Latina”, comenta.
Primeiro, porque o Brasil garante fatores macroeconômicos que favorecem a expansão e a sustentabilidade de negócios como o da Rappi, como grande representatividade de população urbana, alta digitalização da população e um segmento de usuários com elevado poder aquisitivo.
Depois, nas palavras de Tijana, porque dos nove mercados em que a startup atua, o Brasil tem, de longe, o maior nível de exigência de produto, tecnologia e atendimento ao cliente. “Com isso, a Rappi teve que se desenvolver muito no aspecto tecnológico e operacional para, de fato, atender o usuário brasileiro com a melhor experiência possível. Esse know-how adquirido no Brasil fez com que a Rappi se desenvolvesse e se destacasse em todos os mercados onde opera”, afirma.
Outro exemplo bem-sucedido é o da israelense DockTech. Usando inteligência artificial e dados dinâmicos, a empresa reproduz digitalmente as condições do leito marinho de portos e vias de navegação em tempo real, aumentando a eficiência e a segurança das operações marítimas e portuárias.
A startup entrou no mercado brasileiro com o suporte do ScaleUp in Brazil, programa premiado pela ONU da ApexBrasil e da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) que apoia empresas internacionais inovadoras com a metodologia e as ferramentas necessárias para que comecem a operar no país.
“O programa foi fundamental para que a DockTech fosse exposta aos players brasileiros e entendesse a melhor forma de atuar no nosso mercado. O objetivo foi trazer maturidade à empresa para que tivesse sucesso por aqui”, explica Raquel Kibrit, que foi a country manager da startup nesse processo de ingresso no mercado.
Missão cumprida. Associada à Wilson Sons, maior operadora integrada de logística portuária e marítima do Brasil, a israelense acaba de protagonizar um marco no país: depois de um acordo de cooperação técnica com o Porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina, a empresa assinou o primeiro contrato comercial de uma autoridade portuária, a Portos RS, com uma startup.
Por meio dos rebocadores da Wilson Sons e outras embarcações que operam na região, a companhia vai monitorar o leito de mais de 754 quilômetros de vias navegáveis administradas pela Portos RS, em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, no sul do país.
Esses são alguns exemplos de como o Brasil não só é celeiro de startups como também um porto seguro para aquelas que, por aqui, querem atracar.
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Avanços de IA, inverno das criptomoedas e dispositivos vestíveis são alguns fatores que serão incontornáveis no próximo ano, segundo ela
Por Rafael Faustino – Época Negócios – 20/12/2023
Difícil discordar da afirmação de que a inteligência artificial generativa foi a tecnologia que marcou 2023. Ainda que o ChatGPT tenha inaugurado esse mercado junto ao público ainda em 2022, foi durante este ano que ele se popularizou, ganhou concorrentes, e a corrida pelos avanços nesse campo geraram uma série de melhorias – e também de preocupações éticas.
Mas e em 2024, em quais inovações devemos ficar de olho? Em sua carta anual de tendências da tecnologia, Amy Webb, famosa futurista norte-americana e fundadora e CEO do Future Today Institute, não responde exatamente a essa pergunta, já que não tem bola de cristal — e a própria IA ainda não faz previsões tão ambiciosas. Mas Webb traz as ferramentas necessárias para imaginarmos o próximo ano: 10 importantes tendências que indicam caminhos para áreas como IA, criptomoedas, biotecnologia e outras, ajudando a entender o que está em alta e o que pode enfrentar dificuldades. Confira a seguir.
1. IA do conceito ao concreto desencadeia uma onda de inovação
Embora tenha avançado e se tornando popular por meio de chatbots em 2023, a inteligência artificial ainda tem poucas manifestações concretas no nosso dia a dia. Isso deve mudar em 2024, com mais tecnologias que transformam comandos humanos em soluções concretas diversas.
Um exemplo dado por Amy Webb é da Pika, ferramenta de IA que transforma textos em vídeos. A plataforma utiliza modelos como ChatGPT e Midjourney para criar cenas inteiras de vídeos com base no texto inserido pelo usuário, incluindo animações 3D, sequências cinematográficas e até animes relacionados ao que foi pedido.
Webb acredita que mais ferramentas como esta deverão surgir no próximo ano para trazer soluções concretas a partir da IA, na medida em que evolui a interação entre humanos e máquinas.
“Imagine que você tenha uma ideia vaga de como transformar os watts gerados pelos aparelhos em uma academia em eletricidade que possa ser vendida de volta à rede elétrica. Usando um sistema do conceito ao concreto, você começaria com essa ideia e trabalharia com a IA para descobrir quais outros inputs seriam necessários, como gerar essa eletricidade de volta para a rede elétrica e a viabilidade de vender energia com base na sua localização geográfica”, exemplifica.
2. Começa o inverno cripto
O ano de 2023 teve episódios embaraçosos para os criptoativos, como a condenação do CEO da corretora FTX, por fraude, e a multa de R$ 13 bilhões à Binance por lavagem de dinheiro. Ainda que tenha havido destaques positivos também, como a alta do Bitcoin, que levou à criptomoeda ao maior valor desde abril de 2022, Webb prevê um 2024 difícil para esses ativos digitais.
“Especialistas em segurança, banqueiros e legisladores afirmam que as criptomoedas são difíceis de rastrear, não possuem regulamentação uniforme e já causaram mais de uma mania financeira. Para que as criptomoedas sobrevivam a longo prazo, será necessário tanto o apoio institucional quanto uma massa crítica de adotantes. É por isso que continuo a acreditar que a mania dará lugar à desilusão e, em última instância, ao desinteresse”, afirma.
Para ela, mais importante do que as criptomoedas em si, será investir na infraestrutura que as sustenta, incluindo o blockchain.
3. Tornar a sustentabilidade sustentável
Promessas ambiciosas de transição energética foram feitas aos montes. Agora é hora de garantir que elas sejam factíveis, diz Amy Webb. Mais do que reduzir as emissões de carbono, é preciso fazer isso com tecnologias que sejam efetivas e também financeiramente viáveis.
“No próximo ano, muito pode ser feito: transformar a rede elétrica para acomodar fontes de energia não despacháveis; buscar materiais alternativos para baterias, células solares e turbinas eólicas; capturar e armazenar carbono; e tornar transparentes e válidos os mercados de carbono são apenas alguns dos gargalos que precisam urgentemente de inovação”, aponta a CEO do Future Today Institute.
Segundo ela, a IA será aliada nesses processos, ajudando a desenvolver fluxos de trabalho, design para novas soluções, planejamento financeiro e gerenciamento de projetos.
4. Algoritmos são nossa força de trabalho e podem precisar de licenças profissionais
Configurem ou não uma inteligência artificial, algoritmos já fazem muito por nós. E, conforme substituem secretárias e centrais de atendimento, entre outras funções operacionais, não é loucura imaginar que eles precisem de registros profissionais, diz Webb.
Quer dizer: uma IA especializada em aconselhamento financeiro precisaria provar que está gabaritada para dar bons conselhos sobre o assunto – assim como é exigido de humanos; um algoritmo que analise decisões judiciais pode precisar passar num exame de ordem de advocacia para que seja usado por profissionais da área; e daí em diante.
Ela justifica a ideia: “Há algumas semanas, um bot de IA treinado no GPT-4 da OpenAI tentou realizar negociações financeiras ilegais e, em seguida, mentiu sobre suas ações. Podemos enviar um corretor humano para a prisão, mas os algoritmos continuam a funcionar.”
5. Os wearables estão de volta. Eles abrirão caminho para uma nova era de respostas visuais e por voz
Estamos no período de trocar os smartphones por dispositivos vestíveis inteligentes, diz Webb. Ela vê mercados maduros, como EUA e Europa, transicionando de um único dispositivo que faz tudo para um ecossistema de aparelhos inteligentes. De forma parecida com o passado recente, quando carregamos, além do telefone, relógios, câmeras digitais e CD players, porém agora com uma experiência muito mais personalizada e guiada por comandos mais rápidos.
“Imagine olhar para um objeto, como uma xícara de chá, e descobrir se ele é livre de cafeína”, cita. Outros exemplos mais concretos são óculos inteligentes que passam informações visual e auditivamente; ou um broche com IA que é comandado por voz e tem uma câmera e um projetor acoplados, para que você leia mensagens nas próprias mãos, como o criado pela Humane.ai.
6. “Inteligência organoide” moldará tanto a computação quanto a geopolítica
Esta é uma das previsões mais ousadas de Amy Webb: o desenvolvimento de uma “inteligência organoide” que ela considera a próxima fronteira da computação – ou computação a partir de comandos humanos biológicos.
O conceito foi criado por cientistas da Universidade Johns Hopkins, utilizando materiais biológicos, como células cerebrais humanas, para o processamento de informações em computadores. Testes iniciais conseguiram que um biocomputador identificasse a voz de uma pessoa específica a partir de 240 clipes de áudio com oito pessoas pronunciando sons de vogais japonesas. Já na Austrália, pesquisadores ensinaram células cerebrais a jogar Pong.
Tal tecnologia seria ferozmente disputada pelas potências internacionais, se tornando um importante ativo geopolítico, diz Webb.
7. Desafios legais estão surgindo novamente para as grandes empresas de tecnologia
Até hoje, as big techs conseguiram permanecer imunes à responsabilidade legal quando se trata do conteúdo gerado pelos usuários. Mas isso pode mudar, alerta a especialista. A Suprema Corte dos EUA está revisitando decisões passadas e se leis estaduais que visam regular as empresas de tecnologia ferem a Constituição norte-americana. Conforme a IA generativa avança, fica mais difícil para as plataformas afirmar que são apenas espaços onde as pessoas se manifestam como querem.
“Diferentemente do conteúdo gerado tradicionalmente pelos usuários, a IA generativa está produzindo resultados de busca, postagens em redes sociais e outros tipos de conteúdo sem a necessidade de autores ou criadores externos, eliminando o papel intermediário [que as plataformas dizem exercer]”, aponta.
8. Biotecnologia cria acidentalmente um novo sistema genético de castas
Vários avanços em biotecnologia foram comemorados recentemente, como a primeira terapia de edição genética aprovada nos EUA. Medicações como o Ozempic explodiram em vendas e estão sendo usadas em testes diversos para o combate à obesidade. Mas o que parecem ser boas notícias podem representar algo mais sombrio se não forem democratizadas, diz a CEO do Future Today Institute.
“Sem uma visão estratégica, essas inovações de ponta em biotecnologia provavelmente aumentarão as desigualdades existentes na área da saúde. Os altos custos associados a esses novos tratamentos e tecnologias podem torná-los inacessíveis para uma parte significativa da população”, afirma.
Nesse cenário, aqueles que podem pagar por esses tratamentos avançados terão acesso aos cuidados de saúde mais eficazes e modernos, enquanto aqueles que não podem ficariam sem. “Para evitar isso, devemos fazer perguntas sobre a ética e a equidade da distribuição de cuidados de saúde diante do rápido progresso da tecnologia”, aponta ela.
9. Um mundo de novos materiais
Um lançamento pouco comentado deste ano foi feito pela DeepMind: uma ferramenta chamada Redes Gráficas para Exploração de Materiais (Gnome, na sigla em inglês), que usa deep learning para acelerar a descoberta de materiais que poderiam aprimorar células solares, baterias, chips de computador e muito mais.
A tecnologia já sugeriu estruturas para 2,2 milhões de novos materiais, e 700 deles já vêm sendo testados, com variáveis níveis de sucesso. Avanços nessa área poderiam trazer inúmeros benefícios para o mundo físico, diz Amy Webb.
“Já se perguntou por que podemos enviar pessoas ao espaço, mas parece que não conseguimos fazer a bateria de um iPhone durar mais do que um dia? A ciência dos materiais é realmente muito difícil, e é caro e perigoso projetar, testar e construir coisas com materiais inovadores”, explica.
Com o Gnome podendo simular a criação de materiais para oferecer os resultados mais certeiros para testes, boa parte desses custos poderia ser reduzida.
10. Eleições e desinformação não intencional
2024 terá mais de 70 eleições, com 4,2 bilhões de pessoas votando ao redor do mundo, lembra Webb. Isso inclui as eleições presidenciais dos EUA e as municipais brasileiras, por exemplo.
Com esses importantes pleitos, a desinformação e as fake news voltam a ser assunto urgente. Enquanto deepfakes e manipulação intencional já estão na mira das autoridades, outro tipo de desinformação pode não ter esse objetivo, mas também deve gerar preocupação.
Os modelos de IA generativa, por exemplo, emitem informações falsas por falhas no seu treinamento. Com a demanda crescente por informações, empresas de tecnologia estão recorrendo a profissionais autônomos para atividades como rotulagem de dados, e essas pessoas podem simplesmente não ter o contexto necessário para lidar com temas políticos.
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Samsung, LG e Hyundai são algumas das empresas cujos donos tem sido os mesmos por gerações
Victoria Kim Daisuke Wakabayashi Seul | Folha/The New York Times – 28.dez.2023
Por décadas, a economia da Coreia do Sul tem sido dominada por um punhado de conglomerados familiares que possuem riqueza e influência desproporcionais e estão presentes em quase todos os aspectos da vida no país.
Devido ao seu peso político, as chaebol, como essas famílias são conhecidas, têm sido há muito tempo um assunto de imenso interesse público. Os casamentos, mortes, desentendimentos e problemas legais dessas famílias são registrados na imprensa sul-coreana. Famílias chaebol fictícias são retratadas em dramas coreanos.
A família Lee da Samsung, os Koos da LG, os Cheys da SK, os Shins da Lotte e os Chungs da Hyundai são nomes conhecidos que têm mantido firmemente as rédeas das empresas que são alguns dos maiores empregadores do setor privado do país.
Seu poder tem sido cada vez mais examinado —tanto dentro quanto fora da Coreia do Sul— como uma vulnerabilidade econômica, aprofundando desigualdades e fomentando a corrupção.
As chaebol controlam as maiores empresas da Coreia do Sul por gerações
O sistema chaebol é um legado da história da Coreia do Sul. Após um armistício que encerrou a Guerra da Coreia em 1953, os ditadores militares do país nomearam algumas famílias para empréstimos especiais e apoio financeiro para reconstruir a economia.
As suas empresas expandiram rapidamente e passaram de setor em setor até se transformarem em conglomerados gigantescos.
Mesmo à medida que as empresas cresciam em tamanho, riqueza e influência, e vendiam ações em bolsas de valores, elas permaneciam sob controle familiar —geralmente administradas por um presidente que também presidia como chefe da família.
Mudanças de liderança geracionais às vezes perturbaram as famílias chaebol, forçando as empresas a se dividirem ou se desmembrarem em grupos menores. Há mais de duas décadas, durante uma luta familiar, a Hyundai foi dividida entre os seis filhos do fundador.
O filho mais velho assumiu o controle da Hyundai Motor, agora uma das maiores empresas da Coreia do Sul. Sob Chung Eui-sun, neto do fundador, a família ainda está no comando da montadora multinacional.
Os conglomerados são parte significativa da economia do país
O rápido crescimento da Coreia do Sul, da pobreza pós-guerra a uma economia desenvolvida importante em algumas décadas, esteve intimamente ligado ao surgimento das empresas chaebol. Seus primeiros sucessos impulsionaram os salários e os padrões de vida e impulsionaram as exportações do país.
As vendas totais dos cinco maiores conglomerados têm consistentemente representado mais da metade do PIB da Coreia do Sul nos últimos 15 anos, ultrapassando 70% em 2012, de acordo com o livro “Republic of Chaebol”, do economista Park Sang-in.
Seus negócios também permeiam a vida sul-coreana —de hospitais a seguros de vida, de complexos de apartamentos a cartões de crédito e varejo, de alimentos a entretenimento e mídia, sem mencionar eletrônicos.
As chaebol tiveram relacionamentos estreitos com políticos
O patrocínio de líderes políticos foi crucial para o crescimento das empresas chaebol em conglomerados industriais, especialmente durante o regime de Park Chung-hee, que chegou ao poder por meio de um golpe e governou o país por duas décadas até seu assassinato em 1979.
Para Park, os chaebol eram uma parte instrumental de sua ambição de enriquecer e industrializar a Coreia do Sul. Para isso, seu governo direcionou fundos para empresas que cooperavam com sua agenda, protegendo-as da concorrência e poupando-as de responsabilidade pública.
Embora os laços estreitos entre o governo e as empresas tenham diminuído nas últimas décadas, os líderes políticos ainda frequentemente recorrem a eles em busca de apoio ou conselhos.
Por sua vez, as empresas às vezes foram protegidas por serem consideradas vitais demais para a economia para serem desmembradas ou examinadas —algo que os críticos têm criticado como um problema “too big to jail” [grande demais para prender].
Neste verão, os chefes das chaebol viajaram com o presidente sul-coreano, Yoon Suk Yeol, em uma viagem à Europa como parte da candidatura da Coreia do Sul para a Expo Mundial. Eles também o acompanharam em sua visita aos Estados Unidos para se encontrar com o presidente Joe Biden e estiveram entre os convidados de um jantar de Estado na Casa Branca.
Vários escândalos mancharam a imagem pública das chaebol
As empresas chaebol se envolveram em casos de corrupção. Um dos maiores escândalos políticos da Coreia do Sul nos últimos anos demonstrou os laços estreitos entre os líderes políticos e os conglomerados familiares.
Park Geun-hye, ex-presidente do país, foi destituída do cargo em 2017 e posteriormente condenada a prisão após ser considerada culpada de suborno, abuso de poder e outras acusações criminais.
Park e uma amiga de longa data foram acusadas de receber ou exigir subornos de três conglomerados chaebol: Samsung, SK e Lotte. Park foi perdoada em 2021 após cumprir quase cinco anos de uma sentença de 20 anos de prisão.
Lee Jae-yong, presidente da Samsung Electronics, o maior chaebol do país, também foi condenado a 2 anos e meio de prisão por seu papel. Ele foi liberado condicionalmente e posteriormente perdoado por Yoon em 2022, uma medida que permitiu que ele voltasse a comandar a empresa.
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