Bilionários atraem cientistas de universidades em busca do próximo remédio de US$ 1 bilhão

Grupo que tem entre seus membros o magnata da tecnologia Michael Dell fundou a Arena BioWorks, que oferece pagamentos milionários a pesquisadores renomados para descobrir remédios que possam ser produzidos e vendidos rapidamente

Por Rob Copeland – Estadão/NYT – 15/01/2024 

THE NEW YORK TIMES – Em um laboratório sem identificação localizado entre os campi de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um grupo de cientistas está em busca do próximo medicamento de um bilhão de dólares.

O grupo, financiado com US$ 500 milhões por algumas das famílias mais ricas do mundo dos negócios americano, causou alvoroço no meio acadêmico ao oferecer pagamentos de sete dígitos para atrair professores universitários altamente credenciados. O objetivo: evitar os bloqueios e a burocracia que atrasam os caminhos tradicionais da pesquisa científica em universidades e empresas farmacêuticas e descobrir dezenas de novos medicamentos (a princípio, para câncer e doenças cerebrais) que possam ser produzidos e vendidos rapidamente.

“Não me desculpo por ser um capitalista, e a motivação de uma equipe não é algo ruim”, disse o magnata da tecnologia Michael Dell, um dos grandes financiadores do grupo, batizado de Arena BioWorks. Entre os financiadores também estão uma herdeira da fortuna da rede de sanduíches Subway e um dos proprietários do time de basquete Boston Celtics.

O problema é que, durante décadas, muitas descobertas de medicamentos não apenas se originaram em faculdades e universidades, mas também geraram lucros que ajudaram a encher seus cofres de doações. A Universidade da Pensilvânia, por exemplo, disse que ganhou centenas de milhões de dólares com a pesquisa de vacinas de mRNA usadas contra a covid-19.

A Arena está operando em modo sigiloso desde o início do outono (do hemisfério norte), antes que a turbulência em relação a Israel e Gaza irrompesse nas faculdades americanas. No entanto, o impulso por trás disso, dizem os pesquisadores que foram para o novo laboratório, está se tornando mais forte à medida que a reputação das instituições de ensino superior é atingida. Eles dizem que estão frustrados com o ritmo lento e os problemas administrativos de seus antigos empregadores, bem como com o que um dos recém-contratados, J. Keith Joung, disse ser uma remuneração “atroz” no Massachusetts General Hospital, onde trabalhava antes do Arena.

“Antigamente, era considerado um fracasso passar do meio acadêmico para a indústria”, disse Joung, um patologista que ajudou a projetar a ferramenta de edição de genes CRISPR. “Agora, o modelo se inverteu.”

A motivação por trás da Arena tem componentes científicos, financeiros e até emocionais. Seus primeiros apoiadores discutiram a ideia pela primeira vez em uma reunião no final de 2021, em uma mansão em Austin, Texas, onde Dell, juntamente com o primeiro investidor do Facebook, James W. Breyer, e um dos donos do Celtics, Stephen Pagliuca, desabafaram uns com os outros sobre os pedidos aparentemente intermináveis de dinheiro de angariadores de fundos de faculdades.

Pagliuca havia doado centenas de milhões de dólares para suas universidades de origem, Duke e Harvard, em grande parte destinados à ciência. Isso lhe rendeu assentos em quatro conselhos consultivos nas instituições, mas ele começou a perceber que não tinha nenhuma ideia concreta do que todo esse dinheiro havia produzido, exceto por seu nome em algumas placas do lado de fora de vários prédios universitários.

Nos meses seguintes, esses primeiros apoiadores se uniram a um capitalista de risco de Boston e médico formado, Thomas Cahill, para elaborar um plano. Cahill disse que ajudaria a encontrar acadêmicos frustrados dispostos a deixar seus cargos universitários conquistados a duras penas, bem como cientistas de empresas como a Pfizer, em troca de uma grande fatia dos lucros de quaisquer medicamentos que eles descobrissem. Os bilionários apoiadores da Arena ficarão com 30%, e o restante será destinado aos cientistas e às despesas gerais.

É claro que a ciência com fins lucrativos não é novidade. O setor farmacêutico de US$ 1,5 trilhão é uma prova cabal disso. Empresários como Jeff Bezos e Peter Thiel investiram centenas de milhões de dólares em startups que tentam prolongar a vida humana, e muitas empresas farmacêuticas invadiram universidades em busca de talentos.

Uma porcentagem considerável de medicamentos tem origem em subsídios governamentais ou universitários, ou uma mistura dos dois. De 2010 a 2016, cada um dos 210 novos medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) estava ligado a pesquisas financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde, segundo a revista científica PNAS. Um estudo de 2019 de um ex-reitor da Faculdade de Medicina de Harvard, Jeffrey Flier, disse que a maioria das “novas percepções” sobre biologia e doenças veio do meio acadêmico.

Esse sistema tem vantagens de longa data. As universidades, geralmente ajudadas por seu status de organização sem fins lucrativos, têm um suprimento quase ilimitado e mal-remunerado de assistentes de pesquisa para ajudar os cientistas nas pesquisas em estágio inicial. Medicamentos inovadores, incluindo a penicilina, nasceram desse modelo.

O problema, dizem os cientistas e pesquisadores, é que pode haver uma espera de anos para que as aprovações institucionais das universidades avancem com pesquisas promissoras. O processo para filtrar propostas irrealistas e proteger a segurança pode envolver a redação de longos ensaios que podem consumir mais da metade do tempo de alguns cientistas.

Quando o financiamento é obtido, a ideia inicial da pesquisa geralmente já está obsoleta, dando início a um novo ciclo de solicitações de subsídios para projetos que certamente ficarão desatualizados em seu próprio tempo.

Stuart Schreiber, um veterano pesquisador afiliado a Harvard que se demitiu para ser o cientista-chefe da Arena, disse que suas ideias mais ousadas raramente recebiam apoio. “Chegou a um ponto em que percebi que a única maneira de obter financiamento era solicitar o estudo de algo que já havia sido feito”, disse Schreiber.

O prestígio de Schreiber — biólogo químico pioneiro em áreas como testes de DNA — ajudou a atrair cerca de 100 pesquisadores para a Arena. Harvard se recusou a comentar sobre sua saída e a de outros que ele ajudou a atrair.

Uma atmosfera de calculado sigilo envolve as operações da Arena. Joung, que se demitiu do Mass General no ano passado, disse que não contou a seus ex-colegas para onde estava indo e que muitos perguntaram se ele estava com uma doença terminal.

Cahill disse que vários cientistas que ele contratou tiveram o acesso ao e-mail da universidade, rapidamente desativado, e receberam duras ameaças legais de retaliação se tentassem recrutar ex-colegas — um fenômeno comum no mundo dos negócios que conta como uma punição no meio acadêmico.

Os cinco bilionários que apoiam a Arena incluem Michael Chambers, o homem mais rico de Dakota do Norte, e Elisabeth DeLuca, viúva de um dos fundadores da rede Subway. Cada um deles investiu US$ 100 milhões e espera dobrar ou triplicar seu investimento em rodadas posteriores.

Em materiais confidenciais fornecidos a investidores, a Arena se descreve como “um bem público com financiamento privado e totalmente independente”.

Os patrocinadores disseram em entrevistas que não pretendiam cortar totalmente suas doações às universidades. A Duke recusou uma oferta de Pagliuca, um ex-aluno e membro da diretoria, para instalar parte do laboratório lá. Dell, um dos principais doadores do sistema hospitalar da Universidade do Texas em sua cidade natal, Austin, alugou um espaço para um segundo laboratório da Arena.

Schreiber disse que serão necessários anos — e bilhões de dólares em financiamento adicional — para que a equipe saiba se seu modelo levou à produção de algum medicamento válido.

“Será que vai ser melhor ou pior?” disse Schreiber. “Não sei, mas vale a pena tentar.”

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Robôs assassinos mudarão guerras para sempre

Armas autônomas se tornaram centrais às estratégias militares das grandes potências bélicas

Álvaro Machado Dias – Folha – 14.jan.2024 

Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind

Há sinais de que a maneira como as guerras são travadas esteja mudando para sempre. Sistemas bélicos autônomos (AWS) se tornaram centrais às estratégias militares de grandes potências, enquanto demos impressionantes pipocam nas feiras setoriais e fóruns especializados, como exemplificado por um cachorro robótico equipado com metralhadora em seu dorso que estabiliza melhor a arma que os braços de um soldado e pelo drone Valkerie, capaz de atacar alvos a 500 km de distância sem interferência humana. 

Há uma intensa movimentação na ONU para regular o uso dessas armas, cuja proliferação o negociador austríaco da matéria no órgão, Alexander Kmentt, caracteriza como “um dos maiores pontos de inflexão da história da humanidade”, mas não há consenso no horizonte próximo, dado que isto iria contra o interesse de algumas das principais potências militares do globo. 

 “Estados Unidos, Rússia, Austrália, Israel e outros argumentam que nenhuma lei internacional é necessária por agora, enquanto a China quer definir limites legais estreitos a ponto de não terem qualquer efeito prático” (The New York Times, 21/11/23, citando fontes não identificadas nominalmente). A Guerra da Ucrânia tem papel relevante nessa mudança de paradigma. Em 2023, o país invadido incorporou o quadricóptero Saker Scout, que carrega bombas que podem ser despejadas sobre os inimigos sem intervenção humana, feito que serve de prenúncio sobre o que vem por aí. 

O dia a dia da guerra, no entanto, é marcado pelo uso de veículos não tripulados menos tecnológicos, como os que vêm afundando embarcações russas na baía de Sebastopol, na Crimeia, pelas mãos de soldados que mais parecem campeões de videogame. Ao mesmo tempo que vêm trazendo importantes conquistas materiais para a Ucrânia, essas armas operadas a distância ajudam a explicar por que o entendimento dos maiores especialistas convergiu na perspectiva de que a guerra dificilmente terá fim sem perda de território ucraniano, entre outras condições que na prática se traduzem em derrota ocidental ou, ao menos, em ausência de vitória. 

Os 18% do território ucraniano ocupados pelas tropas de Putin não estão sendo resguardados apenas com trincheiras e minas, mas também com enxames de drones, que sobrevoam as tropas ucranianas ininterruptamente, neutralizando ataques-surpresa. O mesmo se dá do outro lado, mas fato é que o tempo joga contra Zelenski e seu exército. Para complicar, o embaralhamento dos sinais utilizados para controlar essas armas de controle remoto se tornou uma habilidade crucial e a Rússia vem levando a melhor nesse front.

Um entendimento que segue é que armas imunes aos bloqueadores de sinais, isto é, plenamente autônomas, não servem apenas para cortar custos e reduzir as polêmicas que surgem com a morte dos conscritos. Elas de fato podem mudar a conjuntura, incluindo o vaticínio supramencionado sobre o desfecho provável dessa guerra. A independência em relação à central de comando abre frentes poderosas em níveis tático e estratégico. 

As frentes táticas incluem a possibilidade de a arma autoexplodir ao detectar que sua eliminação é iminente, afetando equipamentos e soldados do outro lado, e remover soldados feridos do campo de batalha. Também é aventado que essas AWS tenderiam a levar a melhor em operações táticas com submarinos e em combates aéreos. Várias manobras de interesse são evitadas porque dependem de controle motor absoluto e aumentam o risco de desmaios.

 Um exemplo é a “manobra da cobra”, em que o jato que está sendo perseguido termina atrás do seu perseguidor, tal como exibido em “Top Gun: Maverick”. A manobra foi introduzida por Viktor Pugachyov (1989) e reproduzida pouquíssimas vezes desde então, dada a sua dificuldade extrema. A autonomia elimina fragilidades que parecem inexoráveis, mas que na realidade são apenas humanas. 

As frentes estratégicas abrangem a capacidade de vencer confrontos urbanos em território inimigo, o que é tido como bastante desafiador, e a completa redefinição da maneira como as estratégias militares são concebidas, pela transferência das decisões de alto nível para IAs capazes de gerar análises preditivas superiores às dos oficiais.

 Juntando o tático ao estratégico, o que mais amplamente se busca é o desenvolvimento de sistemas autônomos que permitam a conversão de planejamentos estruturantes, de natureza matemático-computacional, em coordenação algorítmica das milhares de escolhas que marcam o minuto a minuto no campo de batalha: decisões sobre disparar ou não, avançar ou retroceder etc. 

Entre as consequências do progresso nessa direção avalio que estejam: (1) a redução do limiar para a entrada em conflitos bélicos por parte dos países possuidores de sistemas preditivos e armas autônomas mais eficientes e (2) a intensificação dos desequilíbrios geopolíticos de natureza coercitiva e das diversas formas de repressão interna, em franco contraste com a tese de que o progresso tecnológico se traduz sempre em redução dos conflitos e da violência. Como reagir nos moldes tradicionais será cada vez mais difícil, acredito que (3) ataques com armas biológicas serão vistos como mais atraentes por grupos insurgentes dotados de tecnologias autônomas menos desenvolvidas. A barra do horror subirá muito pelas suas mãos. 

Outra perspectiva é que (4) vicissitudes do universo bélico, como a maior facilidade de defender que de atacar —uma das principais heurísticas militares existentes diz que são necessários três soldados atacando para cada soldado defendendo uma posição— e as vantagens motivacionais que tanto contam na atualidade, percam parte de sua importância. Em função disso, acredito que (5) as guerras seguirão um curso paralelo ao que se observa nas ligas esportivas mais competitivas, como o futebol europeu e a NBA, que vêm se tornando mais previsíveis ao longo dos anos, conforme demonstrado experimentalmente. Vietnã, nunca mais. 

Ao passo que a Guerra da Ucrânia serviu para firmar a convicção de que mesmo armas autônomas simples podem desequilibrar o jogo, é a tensão entre Estados Unidos e China que vem mobilizando os investimentos financeiros e científicos de grande monta. O assunto de maior inquietude na relação entre os rivais é a autonomia de Taiwan. Xi Jinping visitou os Estados Unidos em novembro do ano passado e disse a Biden que a invasão da antiga Ilha de Formosa não faz parte dos seus planos. 

O presidente americano replicou na mesma linha pacificadora, enfatizando que não iria fomentar a sua independência, o que seria “deal breaker” (fator decisivo) para os chineses. A visita sinalizou ao mundo que seria precipitado falar em Guerra Fria 2.0. No entanto, de volta à sua terra natal, Xi fez declarações diversas —como em seu discurso de Ano-Novo: “A China com certeza será reunificada”— e, às vésperas da eleição presidencial no país insular, deu enfáticas demonstrações de descontentamento com o favoritismo do candidato da situação, Lai Ching-te, com uma plataforma acusada pelos chineses de ser pró-independência. 

Do lado atlântico, não param de surgir oficiais aquecendo a tese de que uma guerra entre as duas potências é iminente. Exemplos incluem oficiais da mais alta patente, como o general e chefe do comando americano de mobilidade, Mike Minihan, que escreveu um memorando vazado para a mídia (2023) sobre a factibilidade disso acontecer em 2025 em torno da questão taiwanesa. 

O cenário reativo vem levando ao aumento das pressões em Taiwan e nos Estados Unidos para que estes invistam no desenvolvimento conjunto de armas tecnológicas na pequena nação insular, até porque qualquer ação beligerante chinesa seria precedida pelo bloqueio naval da pequena ilha. Dada a assimetria de contingentes humanos, armas autônomas são vistas como essenciais. 

Do lado oposto do estreito de Taiwan, os estrategistas consideram que os desafios mais imediatos para a retomada da ilha são as dificuldades logísticas colossais dessa operação, que dependeria de atuação de uma frota de veículos de assalto anfíbios capazes de invadi-la sem levar à destruição de seus portos, e o elevado número de baixas. Armas autônomas mexem nessa equação, levando assim a uma perigosa convergência de entendimentos. 

Fontes dizem que os investimentos de Pequim nessas tecnologias estão na casa das diversas dezenas de bilhões de dólares. O Pentágono, que acaba de lançar a iniciativa Replicator, não deve ficar atrás, conforme esclareceu a secretária de Defesa, Kathleen Hicks: “A iniciativa Replicator foi concebida para superar a principal vantagem chinesa, que é de volume. Mais embarcações, mais mísseis, mais técnicos”. Ao produzir milhares de sistemas bélicos autônomos, os Estados Unidos vão poder “conter o volume do Exército chinês com nosso próprio volume, que conta com plataformas que são pequenas, espertas, baratas e numerosas”. 

Com Estados Unidos e China tratando a autonomia bélica como objetivo estratégico e diversos outros países se negando a pactuar qualquer forma de moderação, é esperado que AWS mudem a maneira como as guerras são travadas muito antes de o Robocop saltar das telas —e que a humanidade como um todo sofra as consequências dessa evolução na capacidade de infligir sofrimento e de matar. 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/alvaro-machado-dias/2024/01/robos-assassinos-mudarao-guerras-para-sempre.shtml

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A batalha de Trafalgar e a morte do Almirante Horatio Nelson

João Lara Mesquita – Mar sem fim – Estadão – 12 de janeiro de 2024

A batalha de Trafalgar e a morte de Horatio Nelson

A batalha naval histórica ocorreu durante as Guerras Napoleônicas. Antes, em 1700, Inglaterra e França disputaram influência na Índia. Buscavam substituir Portugal, dominar o comércio de especiarias e expandir seus produtos. A Inglaterra venceu. Na Guerra dos Sete Anos (1756), a coligação britânico-prussiana derrotou a França, que perdeu o Canadá para a Grã-Bretanha e a Louisiana para a Espanha. Com Napoleão Bonaparte no poder em 1799, após a Revolução Francesa, as tensões entre Inglaterra e França intensificaram-se. A guerra interna na França alarmou outras monarquias, levando à formação da Primeira Coligação em 1793, com Áustria, Prússia, Holanda, Espanha e Inglaterra contra a França. Em 1804, Napoleão estabeleceu o Império Francês e começou sua expansão. Este cenário antecedeu a batalha de Trafalgar em 1805.

HMS VictoryHMS Victory, Estima-se que a nau capitânia de Nelson exigia 6.000 árvores, 90% delas. carvalhos. Imagem, JMW TURNER/WIKIMEDIA.

A Invasão da Inglaterra

Em 1804, um ano antes da batalha, Napoleão se coroou imperador em uma extravagante cerimônia na Catedral de Notre-Dame. Vestiu-se com cetim e diamantes, segurando o cetro de Carlos Magno. Usou um diadema de folhas de louro de ouro, imitando um imperador romano.

Napoleão Imperador

Preocupados com Napoleão, os britânicos agiram rápido. Em 1803, antes que ele pudesse fortalecer suas forças, a Inglaterra declarou guerra. Os franceses planejaram invadir a Grã-Bretanha rapidamente, antes que os britânicos formassem alianças com Rússia e Áustria.

Napoleão almejava a riqueza da Inglaterra e suas colônias para a França. Formou um exército de 167.000 homens, enorme para a época. O novo imperador tinha planos claros para quando capturasse Londres. Ele declarou: “Com a ajuda de Deus, vou pôr fim ao futuro e à própria existência da Inglaterra.”

Horatio Nelson

O Almirante Nelson é um dos maiores comandantes militares e um herói não convencional. Frequentemente desobedecia ordens superiores e tinha sucesso. Ingressou na marinha aos 12 anos, tornando-se capitão aos 20. Explorou o oceano Índico e fez uma expedição ao Ártico.

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Horatio NelsonHoratio Nelson por Lemuel Francis Abbott – National Maritime Museum. Imagem, Domínio Público.

Em 1794, perdeu um olho no cerco de Calvi. Lutou nas batalhas do Cabo de São Vicente e de Santa Cruz de Tenerife contra espanhóis aliados da França. Perdeu seu braço direito, mas capturou dois navios inimigos, ganhando o título de contra-almirante.

Com a guerra contra a França em 1793, Nelson comandou a Agamemnon. Foi encarregado de proteger aliados britânicos no Mediterrâneo e combater revolucionários em Toulon, incluindo Bonaparte.

Nelson era um estrategista brilhante e muitas vezes foi capaz de surpreender seus inimigos por táticas audaciosas. Na Batalha do Nilo, em 1798, sua ousadia e coragem surpreendeu completamente os franceses quando navegou seus navios entre a costa e a frota francesa.

As armas francesas que vigiavam a costa não estavam prontas para a ação, porque acreditava-se que Nelson não poderia atacar a partir dessa posição!

A batalha de Trafalgar A batalha de Trafalgar na visão do pintor Nicholas Pocock .

Promovido a vice-almirante em 1801, Nelson comandou o ataque a Copenhague, destruindo a frota dinamarquesa, o que lhe rendeu o título de visconde. Tornou-se contra-almirante, foi sagrado cavaleiro e recebeu o comando da frota do Mediterrâneo.

Em 13 de setembro de 1805, Nelson, após dois meses de recuperação, foi convocado para combater as frotas francesa e espanhola aliadas em Cádiz. Ele partiu, sem saber que seria sua última batalha.

Nelson se preparou para enfrentar a poderosa esquadra franco-espanhola, ancorada perto do cabo de Trafalgar, logo acima do estreito de Gibraltar, na costa sudoeste da Espanha.

A construção da marinha britânica

Construtores de navios iniciaram a quilha do HMS Victory, famoso navio de Horatio Nelson, em julho de 1759, no estaleiro Chatham Dock no rio Medway, em Kent. A construção exigiu cerca de 6.000 árvores, 90% delas de carvalho, algumas com espessura superior a meio metro.

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Essas árvores, com mais de 400 anos, presenciaram eventos históricos como a circum-navegação de Francis Drake e a destruição da Invencível Armada.

O Victory em ação.O Victory em ação. Pintura de Monamy Swaine.

O HMS Victory, equipado com 100 armas e com capacidade para até 875 marinheiros, foi lançado ao mar em maio de 1765. Alguns historiadores atribuem a construção naval inglesa dos séculos XVIII e XIX como uma causa significativa do desmatamento nas Ilhas Britânicas.

Na Batalha de Trafalgar, a principal força de Nelson compreendia 8 navios de guerra de três conveses carregando mais de 90 armas cada. O enorme navio espanhol Santissima Trinidad carregava 120 armas e as armas de Santa Anna 112.

No final do século XVIII, a Marinha Britânica consumia 50.000 cargas de carvalho por ano, quase um quarto do total necessário no país, para manter seus estaleiros funcionando. A Grã-Bretanha então começou a construir navios em suas colônias, incluindo o Caribe, as Américas e a Índia.

Durante esse período, a Coroa enviava diplomatas aos países bálticos, ricos em madeira, para assegurar um suprimento contínuo de materiais navais para a Inglaterra. Simultaneamente, buscava negar esses recursos a inimigos marítimos como a França.

A batalha de Trafalgar

A campanha naval começou como parte do plano de Napoleão Bonaparte para invadir a Grã-Bretanha no verão de 1805. Napoleão precisava ganhar o controle do Canal da Mancha para permitir que seu grande exército o cruzasse. Ao mesmo tempo,  procurava uma oportunidade para atacar a Grã-Bretanha, sem ter que lutar contra Nelson e a Marinha Real.

A batalha de Trafalgar A batalha de Trafalgar segundo Nicholas Pocock.

Para conseguir isso, ele ordenou que os três esquadrões da frota francesa bloqueados em Brest, Toulon e outros portos saíssem, se reunissem nas índias Ocidentais e depois retornassem como uma frota para ganhar o controle do Canal.

Em março, a esquadra do almirante Villeneuve em Toulon conseguiu escapar do bloqueio britânico, juntou-se a uma esquadra espanhola e partiu para as Índias Ocidentais. Nelson perseguiu-o na mais ousada de todas as suas campanhas.

Villeneuve  voltou para a Europa ao perceber que Nelson estava em seu encalço. Contudo, depois de uma pequena batalha ao largo do Cabo Finisterra, Villeneuve acabou bloqueado em Cádiz. 

Enquanto isso, Napoleão reconheceu que a invasão era agora impossível, então marchou com o seu exército para enfrentar a ameaça representada pela Áustria e pela Rússia no leste.

Saída de Villeneuve de Cádiz

A frota de 27 navios de Nelson esperava agora a saída de Villeneuve de Cádiz.  Em 1805, Nelson já era um herói nacional, considerado o comandante naval final. 

Nelson enfrentaria 33 navios da França e Espanha. No final de setembro, ele revelou seu plano aos capitães: dividiria a frota em duas colunas para romper a linha inimiga e dominar as seções central e traseira da frota adversária. O vice-almirante Lord Nelson pretendia envolver em uma emboscada a frota franco-espanhola no Cabo de Trafalgar, no sudoeste da Espanha.

Cadiz e cabo Trafalgar Cadiz e cabo Trafalgar.

Em 19 de outubro, uma fragata britânica perto de Cádiz avistou a frota franco-espanhola deixando o porto. Essa frota incluía o Santissima Trinidad de 120 canhões, o maior navio do mundo na época. Villeneuve, o comandante francês, tinha ordens para invadir o Mediterrâneo.

Nelson antecipou cada movimento do inimigo

Nelson antecipou cada movimento do inimigo. Na manhã do dia 21, as frotas já estavam visíveis uma à outra. Ele formou sua frota em duas colunas para um ataque arriscado, expondo seus navios ao fogo inimigo. Sabendo que uma tempestade se aproximava, precisava agir rápido.

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esquema da batalha de Trafalgar O esquema da batalha de Trafalgar. Ilustração, http://www.britishbattles.com.

A frota britânica avançou em duas colunas diretamente contra os franceses. Nelson liderou a primeira, mirando no navio-almirante inimigo, enquanto a segunda coluna, comandada pelo almirante Cuthbert Collingwood, tinha o objetivo de desorientar e destruir os inimigos já confusos.

Trafalgar foi uma ação de frotas muito próximas. Navios manobraram até o inimigo e abriram fogo em uma distância de alguns metros.

“A Inglaterra espera que cada homem cumpra seu dever”

Enquanto seus navios se aproximavam do inimigo, Nelson percorreu o convés do HMS Victory, animando a tripulação. Ele havia enviado o famoso sinal: “A Inglaterra espera que cada homem cumpra seu dever.”

Por volta das 12h35, a linha inimiga côncava permitiu que o Victory abrisse fogo. Em seguida, ao se posicionar na popa do Bucentaure, navio-almirante francês, o Victory disparou uma salva dupla devastadora, ferindo ou matando mais de 200 homens. O almirante Villeneuve era o único de pé no convés do Bucentaure.

preparando os canhõesArma em um navio da Marinha Real em ação. Imagem, http://www.britishbattles.com.

O Redoutable bloqueou o caminho do Victory, e Nelson se viu lutando contra três navios no meio da frota inimiga. Os franceses do Redoutable abordaram o Victory e iniciaram uma luta corpo a corpo, mas foram rechaçados.

A invasão do Victory.A invasão do Victory pela tripulação do Redoutable. Imagem, E.S. Hodgson.

Mesmo assim, Nelson conseguiu desferir o golpe decisivo. Villeneuve foi capturado em um navio semidestruído, e o centro franco-espanhol mergulhou no caos.

Apesar de Nelson ter sido mortalmente ferido por volta das 13h15, a batalha continuou. A artilharia britânica, mais rápida e eficaz, desgastava constantemente as forças inimigas. Em três horas, a frota franco-espanhola começou a colapsar.

Pintura Nelson é atingido, no convés.Nelson é atingido, no convés. Pintura de Denis Dighton, c. 1825. Domínio Público.

Villeneuve se rendeu

Às 14h15, o almirante Villeneuve se rendeu. A estratégia superior de Nelson, o poder da Marinha Real e a falha do esquadrão francês em prestar ajuda determinaram o fracasso de Villeneuve.

O Redoutable desmastreado começa a afundar.O Redoutable desmastreado começa a afundar. Imagem, Auguste Mayer.

A vitória teve um alto custo: cerca de 1.700 britânicos mortos ou feridos, contra 6.000 vítimas inimigas e quase 20.000 prisioneiros. A tempestade que se seguiu à batalha aumentou as perdas, tanto de vidas quanto do navio-capitânia de Villeneuve.

Navios franceses na tempestade que se seguiu.Navios franceses dispersos na tempestade que se seguiu. Imagem, http://www.britishbattles.com.

A morte de Horatio Nelson

Lord Horatio Nelson morreu baleado no auge da batalha, apesar da vitória inglesa. Preservaram seu corpo em álcool para a viagem de volta. Ele chegou ao Royal Hospital for Seamen, em Greenwich, agora o Old Royal Naval College, em 24 de dezembro de 1805.

Chegada da carruagem funerária do almirante Lord Nelson para internamento na Catedral de St. Paul, em Londres. Insígnias capturadas da frota espanhola e francesa durante a Batalha de Trafalgar estão penduradas nas galerias.Ilustração, Augustus Charles Pugin. Domínio Público.

Nelson é um dos mais cultuados heróis ingleses. Para Byron, ele era o “Deus da Guerra da Bretanha”. Foi enterrado na Catedral de São Paulo. O rei George III premiou com medalhas os oficiais superiores e capitães dos navios de linha de Trafalgar. Uma pesquisa feita em 2008 revelou que Nelson é o maior herói militar da Grã-Bretanha de todos os tempos.

A Batalha de Trafalgar cimentou a reputação da Grã-Bretanha como governante dos mares e demonstrou que a Marinha Real tinha superioridade em treinamento, profissionalismo e experiência em táticas navais que a diferenciavam de seus rivais. Em 1809 havia mais de 140.000 homens servindo em 732 navios. A partir deste ponto e até a Segunda Guerra Mundial, a marinha inglesa dominou os mares do planeta.

O HMS Victory foi remodelado  e preservado como uma relíquia. Ele ainda faz parte da Marinha Real e pode ser visitado no Portsmouth Historic Dockyard.

Fontes consultadas: Napoleon’s planned invasion of England: what went wrong?; Why the Battle of Trafalgar was so important for Britain; The Royal Navy’s war on trees; Horatio Nelson; Horatio Nelson, o Almirante Nelson; The Battle of Trafalgar 1805; The Battle of Trafalgar; Bataille de Trafalgar : victoire britannique du 21 octobre 1805; Battle of Trafalgar.

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The Economist: como a América Latina poderia se tornar a superpotência das commodities

Região não deve desperdiçar a oportunidade do próximo boom de commodities; América Latina tem mais de um quinto das reservas globais de cinco metais cruciais para a transição energética

Por Estadão/The Economist – 15/08/2023 

Durante cinco séculos a América Latina e seus dois bilhões de hectares de terra foram uma fonte vital de alimentos, combustível e metais para o mundo. Primeiro, foi saqueada por colonizadores em busca de ouro, prata, algodão e açúcar, depois forneceu borracha e petróleo para a Europa e os Estados Unidos. Agora, a América Latina se depara com uma chance de se tornar a superpotência de commodities do século 21. Desta vez, a região deve aproveitar a oportunidade para promover seu desenvolvimento.

A transição para a energia limpa provocará décadas de demanda pelos metais necessários para multiplicar os parques solares e eólicos, fios de alta tensão e carros elétricos. A América Latina tem mais de um quinto das reservas globais de cinco metais cruciais.

A região já se sobressai na mineração de cobre, onipresente nas tecnologias verdes, e é lar de aproximadamente 60% das reservas de lítio conhecidas no mundo, usado em todos os principais tipos de baterias para veículos elétricos. Além de ser rica em prata, estanho e níquel. E a região se beneficiará até mesmo se a transição verde passar por dificuldades, graças a descobertas recentes de petróleo que poderiam saciar de 5% a 10% da demanda global até 2030.

Conforme o mundo se preocupa mais com o meio ambiente, ele também se torna mais populoso. Até 2050, o planeta talvez tenha aproximadamente dez bilhões de bocas para alimentar, ante os oito bilhões de hoje. Isso estimulará a demanda por carboidratos, proteínas e iguarias que a América Latina produz abundantemente.

A região já fornece mais de 30% do milho, da carne bovina e de aves, e do açúcar do mundo; e 60% da soja mundial. Oito em cada dez xícaras de café arábica no mundo foram preparadas com café latino-americano. Até 2032, suas exportações líquidas de alimentos podem ultrapassar US$ 100 bilhões, de longe o maior registro no mundo.

O chamariz da região como parceiro comercial será reforçado pelas rivalidades das superpotências. À medida que o Ocidente se esforça para diversificar e se afastar da China, vai querer mais acordos com a América Latina, uma região em grande parte neutra e pacífica.

Conforme os rivais endinheirados observam suas riquezas, uma nova disputa geopolítica está em curso: no mês passado, a Vale, mineradora brasileira, vendeu 13% de sua unidade de metais básicos para uma joint-venture saudita por cerca de US$ 3 bilhões; a China destinou US$ 1,4 bilhão para aumentar a produção de lítio na Bolívia; e a Europa prometeu investir € 45 bilhões nos projetos latino-americanos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

O problema é que a relação da América Latina com as commodities raramente foi feliz. Os conflitos do passado sobre os lucros catalisaram golpes de Estado, desigualdade e populismo. Hugo Chávez, déspota venezuelano, desperdiçou o boom do petróleo de seu país, gastando a rodo enquanto pouco investia na indústria e a enchia de comparsas.

Os lucros inesperados com petróleo na Colômbia e no Equador levaram a uma desindustrialização prematura. À medida que as receitas com exportação dispararam, o mesmo aconteceu com as moedas nacionais, sufocando outras indústrias de exportação e sujeitando o destino da região a um mercado volátil. A América Latina enfrentou inúmeros altos e baixos. As economias locais estão desequilibradas: em média, 80% das exportações dos países são de matérias-primas.

Para se saírem melhor desta vez, os países latino-americanos devem ajustar algumas coisas. Em primeiro lugar, precisam garantir que o boom ocorra de fato. Neste momento, a política está impedindo isso. Conforme esquerdistas e populistas conquistaram o poder, muitos países na região aprovaram ou ameaçaram aprovar leis que aumentariam os impostos, nacionalizariam reservas ou impediriam o investimento estrangeiro.

É justo e apropriado que os governos queiram maximizar suas rendas, principalmente considerando a frequência com que foram roubados no passado. Mas se eles tentarem ficar com muito, ou continuarem mudando de ideia, suas reservas em breve não serão exploradas.

Compartilhar a recompensa com as comunidades que vivem próximo às minas também é crucial. Os moradores locais queixam-se de que a extração ameaça seu sustento. Neste ano, os protestos interromperam os trabalhos durante meses numa mina de cobre peruana responsável por 2% do abastecimento mundial.

Essas comunidades são frequentemente ignoradas pelos governos nacionais; as mineradoras muitas vezes estão envolvidas em escândalos ou destroem o meio-ambiente local. A não ser que ambos façam mais para aplacar as queixas, o progresso continuará precário. O dinheiro, disputado com frequência por autoridades locais, não pode resolver tudo.

E os governos devem gastar seu dinheiro com sabedoria. Enquanto os preços estão altos, deveriam guardar parte dos lucros inesperados em fundos de emergência, aos quais possam recorrer para apoiar seus orçamentos quando vierem os tempos difíceis. Em vez de torrar dinheiro tentando construir fábricas de baterias de ponta do zero, os governos deveriam investir no básico para permitir o surgimento de novas indústrias: educação, saúde, infraestrutura e pesquisa.

O Banco Mundial estima que a lacuna de financiamento de infraestrutura do Brasil até 2030 seja de quase US$ 800 bilhões; 3,7% do PIB a cada ano. A América Latina tem uma chance histórica de deixar para trás sua maldição dos recursos naturais. E deveria aproveitá-la./Tradução de Romina Cácia

https://www.estadao.com.br/economia/como-a-america-latina-poderia-se-tornar-a-superpotencia-das-commodities/

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Carros elétricos usados encalham na Europa, China e EUA e emperram a venda de veículos novos

Preços dos carros elétricos de segunda mão estão caindo mais rápido do que os de veículos a combustão

Por Redação – Estadão/Bloomberg – 22/12/2023

BLOOMBERG – A troca de carros com motores a combustão pelos elétricos enfrenta um novo problema: os motoristas não querem comprar veículos elétricos usados, o que atrapalha o mercado de veículos novos. No mercado de segunda mão, avaliado em US$ 1,2 bilhão, os preços dos carros elétricos estão caindo mais rapidamente do que os de veículos com motor a combustão. Os compradores evitam comprá-los devido à falta de subsídios, ao desejo de esperar por uma tecnologia mais moderna e às deficiências na infraestrutura de carregamento.

Uma guerra de preços desencadeada pela Tesla e pelos modelos chineses mais competitivos deprimiu ainda mais os valores dos automóveis novos e usados, ameaçando os lucros de rivais como a Volkswagen e a Stellantis.

Dado que a maioria dos veículos novos na Europa é vendida por meio de leasing, os fabricantes de automóveis e as concessionárias que financiam essas transações tentam recuperar as perdas com a queda acentuada de preços aumentando os custos dos empréstimos.

Impactos no mercado europeu

Esse movimento afeta a procura em alguns mercados europeus que estavam na vanguarda da troca de carros movidos a combustíveis fósseis. Alguns dos maiores compradores de carros novos, incluindo empresas de aluguel, estão reduzindo a participação de veículos elétricos porque perderam dinheiro nas revendas. É o caso da Sixt, que retirou modelos Tesla da sua frota.

“Quando um carro perde 1% do seu valor, tenho 1% menos lucro”, disse Christian Dahlheim, que dirige o braço de serviços financeiros da VW. Os problemas com os carros elétricos de segunda mão, disse ele, têm o potencial de destruir bilhões de euros em lucros para a indústria em geral.

O receio é que esses problemas se intensifiquem no próximo ano, quando muitos dos 1,2 milhão de veículos elétricos vendidos na Europa em 2021 rescindirão os seus contratos de leasing de três anos e entrarão no mercado de segunda mão.

A forma como as empresas abordam esse problema será fundamental para os seus resultados financeiros, para a confiança dos consumidores e, em última análise, para a descarbonização – incluindo o plano da União Europeia de eliminar gradualmente as vendas de carros novos a combustão até 2035. “Não há procura por veículos elétricos usados “, disse Matt Harrison, diretor de operações da Toyota Motor na Europa. “Isso está realmente prejudicando os preços.”

As empresas podem direcionar carros movidos a bateria para startups de compartilhamento de viagens, mas há uma demanda limitada por parte dessas empresas. Os carros a combustão indesejados muitas vezes acabam na África, onde o seu mau estado causa problemas de poluição. Esse mercado está em grande parte fechado aos veículos elétricos, porque não há infraestrutura viável para carregamento das baterias.

Experiência chinesa

Subsídios lucrativos transformaram a China num gigante dos veículos elétricos, mas também produziram cemitérios de veículos elétricos abandonados. Movimentos semelhantes na Europa ou nos Estados Unidos podem reforçar os apelos dos políticos conservadores para reverter a ajuda à indústria de veículos elétricos, especialmente com a proximidade de eleições importantes nos EUA e na Europa em 2024.

Sinais de alerta em torno dos veículos elétricos apareceram no início deste ano, quando a Tesla começou a cortar agressivamente os preços em um esforço para impulsionar as vendas. Isso desencadeou uma guerra de preços, à medida que outros fabricantes a seguiram, prejudicando a rentabilidade de alguns e provocando perdas já acentuadas para outros.

Os preços dos veículos elétricos usados caíram cerca de um terço no ano até outubro, em comparação com uma queda de apenas 5% no mercado global de usados, de acordo com dados de vendas do iSeeCars.com, um website que classifica automóveis e concessionárias. Os veículos elétricos usados demoram mais para serem vendidos do que os modelos a gasolina, mesmo após reduções significativas de preços, informou o grupo.

Na Alemanha, o maior mercado de automóveis da Europa, a maioria dos veículos novos são vendidos primeiro como carros de empresa ou de frota e depois vão para o mercado privado de segunda mão.

Mais de 90 dias de encalhe

Com a desaceleração das encomendas até mesmo de novos veículos elétricos, cada vez mais modelos usados estão encalhados por mais de 90 dias, o que significa que se tornaram “inventário de risco”, de acordo com o pesquisador de mercado da Deutsche Automobil Treuhand, Dirk Weddigen von Knapp. “É preciso reduzir significativamente os preços apenas para que os clientes olhem para os veículos elétricos”, disse ele, que lidera um grupo que representa as concessionárias VW e Audi. Parte do problema é que a indústria está lidando com veículos elétricos usados pela primeira vez.

Embora os carros com motor a combustão possam ser rapidamente avaliados com base na idade e quilometragem, não existem testes de uso generalizado que determinem a qualidade de uma bateria, disse Weddigen von Knapp. A bateria representa cerca de 30% do valor de um veículo elétrico, porcentual que deverá diminuir nos próximos anos, segundo a BloombergNEF. Mas é certo que alguns veículos elétricos apresentam um bom desempenho mesmo após anos de uso, com desgaste da bateria menor do que o esperado, disse Mike Tyndall, analista do HSBC.

A reputação da Tesla

Os veículos da marca Tesla podem vender rapidamente no mercado de segunda mão por conta de sua reputação como líder em tecnologia e às atualizações regulares do software.

O peculiar carro elétrico i3 que a BMW lançou há uma década até conquistou um público fiel. Ainda assim, a maioria dos consumidores permanece reticente em comprar veículos elétricos usados. Os fabricantes já estão trabalhando em novas tecnologias de baterias, incluindo baterias de estado sólido, que prometem carros mais baratos, com maior autonomia e carregamento mais rápido.

Empresas como Mercedes-Benz e BMW anunciaram planos para lançar vários veículos elétricos de última geração em meados da década, enquanto Volkswagen, Stellantis e Renault estão desenvolvendo modelos que custam 25 mil euros ou menos.

Ayvens, uma empresa de gestão de frotas que administra cerca de 3,5 milhões de veículos, disse que a incerteza em torno da tecnologia do carro elétrico levará mais clientes a alugar em vez de comprar, acelerando a mudança do modelo da compra para a locação. “Os veículos elétricos são um impulsionador da transição de propriedade para locação”, disse Annie Pin, diretora comercial da Ayvens.

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Por que o futuro do varejo está no entretenimento

Fast Company Brasil 25-01-2021

O investidor Frederic Court aposta alto no e-commerce: a Felix Capital, fundada por ele, financiou a Farfetch, a Goop, o site de joias Mejuri, entre outros. Agora, Court está voltando sua atenção para a nova onda de varejo online, descrita por ele como “e-commerce como entretenimento”. Ele diz que na China e em outras partes da Ásia, centenas de milhões de consumidores já compram pelo e-commerce via streaming, um serviço que lembra o serviço exclusivamente digital da rede QVC. Ele compartilhou suas previsões com a Fast Company.

Fast Company: Quais são as maiores tendências para o e-commerce? Há uma aceleração das tendências que você já havia projetado? Quais as novidades?

Frederic Court: Ano passado vimos uma aceleração em ambos os lados do mercado. No lado da oferta, marcas de roupas, beleza e até restaurantes locais tiveram a percepção de que, se o consumidor não pode mais vir a você, você deve ir até ele. Não sabemos qual será o nível de preocupação das pessoas com a crise econômica ou com o desemprego. Mas em um nível micro, considerando todas as empresas do nosso portfólio, tivemos um final de ano extraordinário.

FC: No e-commerce, há sites como Amazon, voltados mais para o aspecto transacional, marcas como a Goop, que oferece informações e vende serviços, e varejistas que tentam recriar a experiência da loja física. Você vê o e-commerce tornando-se mais voltado para a experiência?

Court: Se você olhar para a Amazon, tem muito mais narrativa acontecendo. Concordo com você de que o principal é a frequência e a comodidade. Mas há mais lojas de marca na Amazon. Estava olhando algumas calças de uma marca francesa e eles têm uma loja online muito boa na Amazon. É a nova High Street.

Estamos vendo o surgimento de macas voltadas para o conteúdo. Há o exemplo da Goop, cujo ramo a fundadora e CEO Gwyneth Paltrow descreve como o de “vendas contextuais”. Na verdade, é mais sobre vendas do que sobre conteúdo… uma série de produtos de marca em categorias diferentes para as quais há um posicionamento autêntico, porque estão falando desses temas há bastante tempo e existe bastante conteúdo para se embasar.

Os consumidores querem ser inspirados. As marcas de luxo e de estilo de vida do mundo off-line estavam fazendo um bom trabalho em inspirar as pessoas porque estavam elevando a experiência nas lojas. Investiram em campanhas mais idílicas. A Louis Vuitton não só te mostrava uma bolsa, mas falavam sobre viagens, ou a Hermès voltando às origens artísticas com equipamentos de couro para equitação. Agora, como as pessoas estão vivendo suas vidas digitalmente e em telas ainda menores, essa necessidade de inspiração não vai sumir. O que estamos vendo é nova geração de marcas voltadas para o conteúdo. Começaram por criar um público e criaram o negócio de vendas em cima disso. É algo que está começando na Ásia. O influenciador chinês Austin Li, conhecido por ser o rei do batom na China, está vendendo milhões de dólares em batom. Então há cada vez mais evidência da convergência entre conteúdo e vendas.

FC: Você disse que este formato é o “e-commerce como entretenimento”, o que é diferente de, digamos, visitar um site para fazer uma pesquisa. É isso?

Court: Uma coisa que eu faria há alguns anos seria sair em um sábado à tarde e ir às lojas na Oxford Street, em Londres ou no Soho, em Nova York, só para ver os grupos de mulheres. Elas iam de uma loja para a outra, podiam ir pra Kith, tomar um sorvete antes de ir na Glossier, na Mejuri ou na Everlane. Existe uma experiência social envolvida, mas é tudo relacionado às compras.
Agora a gente vê as mesmas coisas online, jovens na Ásia ou em Londres, almoçando ou jantando juntas e ao mesmo tempo nos celulares, fazendo compras ou tendo uma experiência social de compras.

FC: Quem será bem sucedido neste novo formato?

Court: A primeira coisa é ter um ótimo produto. É absolutamente essencial. A segunda habilidade é a de contar histórias. E um pouco de excelência operacional, mas os níveis podem variar. Porque agora, existem plataformas como Shopify, Amazon e Tabao, que fazem boa parte do trabalho. Na Farfetch, é preciso construir tudo a partir do zero.

FC: Com o que mais você está empolgado em 2021?

Court: O comércio feito por aplicativos deve crescer muito. Se a marca é forte o suficiente para ter um espaço em dispositivos móveis, existe uma oportunidade de ter um diálogo direto com o consumidor. E é possível aprender muitas coisas sobre ele ou ela ao se comunicar diretamente e, a partir daí, oferecer algo especial como acesso antecipado a um produto.

FC: Qual seu conselho para as empresas do seu portfólio para 2021 em termos de e-commerce?

Court: Estamos aconselhando todas as marcas a crescerem por meio de um plano de lucros. E não estamos nos esquecendo do varejo. Acreditamos que o varejo retornará, pois faz parte da nossa ideia de experiência. Isso não vai acabar. Haverá ainda a necessidade de conexão humana, de uma experiência física. Mas ela tem de evoluir.


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Computação ‘espacial’ e satélites: o que deve sacudir o mundo tecnológico em 2024

A CES, a feira de eletrônicos de consumo em Las Vegas, dá uma primeira visão de como nossa relação com a tecnologia pode mudar este ano

Por Chris Velazco – Estadão – 09/01/2024 

THE WASHINGTON POST – Se os últimos dois anos provaram que a inteligência artificial (IA) generativa e os modelos de linguagem ampla (LLM, na sigla em inglês) vão continuar sendo desenvolvidos, 2024 será o ano em que eles serão incorporados a produtos que você talvez queira comprar.

Para ver a prova, comece olhando para Las Vegas esta semana. A Consumer Electronics Show (CES), uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, receberá milhares de engenheiros, empreendedores e empresas de tecnologia em Nevada, todos ansiosos para compartilhar suas visões do que está por vir. E, sim, a IA está mais presente do que nunca na feira, embora não seja a única coisa sobre a qual os participantes estarão falando.

É um show inebriante de se assistir, repleto de otimismo, inovação e, sim, promessas impossíveis de serem cumpridas. Mas nem mesmo a ampla área de exposição da CES consegue capturar totalmente as mudanças sísmicas em produtos e políticas que moldarão nosso relacionamento com a tecnologia este ano.

Aqui está nosso guia para as tendências tecnológicas que esperamos ver em 2024:

1 – Dispositivos de IA por toda parte

Empresas como a Intel e a Qualcomm estão correndo para fabricar PCs comuns projetados para se destacarem em recursos de IA, alimentados por “unidades de processamento neural” distintas em suas CPUs. A Microsoft, cujo software Windows será executado nessas máquinas, determinou recentemente que os novos PCs com o sistema operacional devem incluir um botão dedicado à IA em seus teclados, para facilitar o acesso ao Copilot AI.

Os smartphones, que há anos usam o aprendizado de máquina para melhorar nossas fotos e fazer com que as chamadas telefônicas soem melhor, continuam a se inclinar para o hype da IA. A Samsung, por exemplo, planeja lançar novos celulares “alimentados por IA” logo após a CES. Mais interessante, porém, são as empresas iniciantes que estão olhando para além dos smartphones tradicionais para imaginar como um gadget verdadeiramente voltado para a IA deve funcionar.

A Humane, uma startup da Califórnia com milhões de dólares em financiamento, está se preparando para lançar uma espécie de broche com tecnologia de IA que o envolve em conversas e projeta dados em sua mão, o AI Pin. Outra empresa, a Rabbit, planeja apresentar este mês um dispositivo portátil que pode lidar com comandos de voz complicados e com várias partes que a Siri e a Alexa não saberiam como lidar.

Mesmo nesse estágio inicial, a lista de produtos com tecnologia de IA programados para estrear em 2024 inclui carros, robôs de todos os tipos, ferramentas de saúde e acessibilidade e até mesmo bicicletas elétricas. Ainda não se sabe se vale a pena usar qualquer um desses produtos, mas prepare-se para ouvir falar de gadgets de IA durante o resto do ano e, com certeza, depois dele.

2 – Um acerto de contas para a computação “espacial”

Não estamos dizendo que 2024 é o ano em que todos correrão para comprar seu próprio headset sofisticado. Mas é o ano em que começaremos a ver as gigantes de tecnologia Tech promoverem uma visão mais completa do que a realidade virtual, a realidade mista e a realidade aumentada possibilitarão para nós.

O elefante na sala é a Apple. No ano passado, a empresa apresentou uma primeira tentativa de óculos de realidade visual e aumentada, que custa US$ 3,5 mil e que ela espera que mude a maneira como consumimos mídias e trabalhamos. Enquanto a empresa prepara um lançamento para fevereiro, duas perguntas ainda não foram respondidas: a Apple conseguirá criar um fone de ouvido de realidade mista que as pessoas queiram usar? E o que acontecerá com todo o movimento da computação espacial se ela não conseguir?

Obviamente, a Apple não é a única empresa que está traçando um caminho para a computação “espacial”. A Samsung e o Google anunciaram uma parceria no ano passado para trabalhar em fones de ouvido com óculos de realidade virtual.

Enquanto isso, a fabricante de chips Qualcomm continua produzindo versões atualizadas de seus processadores “XR” que oferecem resoluções cada vez mais altas (para colocar imagens mais detalhadas na frente de seus olhos) e suportam mais câmeras (para rastrear melhor os olhos, as mãos e o mundo ao redor do usuário) para uso pelas Samsungs, Googles e Metas do mundo – sem mencionar as muitas empresas menores que estão ansiosas por um pouco de atenção em Las Vegas.

3 – A primeira eleição da IA

Não esperamos encontrar muitas autoridades eleitorais no Centro de Convenções de Las Vegas, mas mesmo assim: prepare-se para ouvir muito sobre IA no período que antecede a eleição presidencial dos EUA em novembro.

O terrível potencial das ferramentas de IA generalizadas em um ano eleitoral é claro: a desinformação por meio de deepfakes, ou vídeos e imagens artificiais, e artigos de notícias enganosos gerados por IA podem ajudar a aprofundar as divisões políticas, desestruturar as campanhas e envenenar a percepção das pessoas sobre reportagens legítimas.

“A circulação generalizada de conteúdo fabricado pode minar a confiança dos eleitores no ambiente de informações mais amplo”, diz uma pesquisa produzida por pesquisadores da Harris School of Public Policy da Universidade de Chicago e da Stanford Graduate School of Business. “Se os eleitores passarem a acreditar que não podem confiar em nenhuma evidência digital, será difícil avaliar seriamente aqueles que procuram representá-los.”

Mas alguns usos aparentemente benignos da IA podem afetar a maneira como você ouve e aprende sobre os legisladores e candidatos.

Projetos como o Chat2024, desenvolvido por uma startup de Miami chamada Delphi, permitem que você faça perguntas a chatbots baseados em candidatos presidenciais, treinados com base em suas declarações publicadas e transcrições de aparições em vídeo. E pelo menos um candidato ao Congresso – Shamaine Daniels, democrata da Pensilvânia – começou a usar um robocaller de IA desenvolvido por uma empresa chamada Civox para envolver milhares de eleitores em potencial em conversas personalizadas.

DONALD TRUMP Imagens falsas do ex-presidente dos EUA Donald Trump sendo preso em Nova York têm viralizado nas redes sociais. As fotografias foram criadas através do Midjourney, uma inteligência artificial que gera artes a partir de uma descrição textual. FOTO Twitter/Reprodução

DONALD TRUMP Imagens falsas do ex-presidente dos EUA Donald Trump sendo preso em Nova York têm viralizado nas redes sociais. As fotografias foram criadas através do Midjourney, uma inteligência artificial que gera artes a partir de uma descrição textual. FOTO Twitter/Reprodução Foto: undefined / undefined

4 – Tecnologia de medicina domiciliar fica mais pessoal

Nenhum gadget ou IA pode substituir um médico humano qualificado – embora não seria um choque total ouvir alguém fazer essa afirmação na feira. Mas da primeira safra de produtos de tecnologia de saúde que apareceram na CES, um número surpreendente deles promete ajudar a monitorar e cuidar do seu bem-estar no conforto da sua casa.

A Withings, que causou sensação no ano passado quando exibiu um dispositivo capaz de analisar urina, desenvolveu um aparelho multifuncional que permite que as pessoas meçam a temperatura, verifiquem os níveis de oxigênio no sangue e meçam e armazenem os resultados de um estetoscópio digital. Outras empresas planejam exibir sensores surpreendentemente sofisticados, como fones de ouvido sem fio que supostamente monitoram a saúde do coração de uma pessoa com precisão clínica, além de reproduzir podcasts.

Alguns projetos têm o objetivo de ajudar as pessoas com problemas de saúde mais pessoais. Uma startup sediada na Irlanda planeja lançar um sensor vestível que monitora a frequência e a gravidade dos sintomas da menopausa, enquanto outra da Coreia do Sul afirma ter desenvolvido um dispositivo que aumentará a motilidade do esperma do usuário.

É quase impossível avaliar se produtos como esses realmente funcionam bem em uma feira comercial, mas uma coisa parece clara: as empresas de tecnologia estão interessadas em se aprofundar em questões que nem sempre receberam uma parcela justa dos holofotes.

5 – Consequências dos processos antitruste contra Big Techs

Começaremos a ver como as formas de interação com os titãs da tecnologia podem mudar em resposta à pressão antitruste. Os jurados no julgamento Epic vs Google, por exemplo, concluíram que a gigante das buscas – que mantém o sistema operacional Android usado por bilhões de dispositivos móveis em todo o mundo – operava sua loja de aplicativos Google Play como um monopólio.

Ainda não está claro quais soluções o tribunal irá propor, mas é possível que o Google tenha que permitir que os usuários do Android tenham mais acesso a lojas de aplicativos concorrentes. Com o tempo, isso pode significar que você terá que navegar em várias lojas para encontrar o software que deseja usar.

A Apple pode ter um destino semelhante graças à Comissão Europeia, que alguns observadores esperam que exija que a empresa permita que os usuários façam “sideload”, ou instalem manualmente, aplicativos baixados de fora da App Store.

Outros casos antitruste são importantes. O Departamento de Justiça e vários estados estão processando o Google por alegações de que ele sufoca ilegalmente a concorrência nas pesquisas, e os argumentos finais devem ser ouvidos em maio. A Comissão Federal de Comércio está travando uma batalha legal com a Amazon devido à preocupação de que a gigante do comércio prejudique vendedores e compradores ao “privá-los dos benefícios de uma concorrência aberta e justa”.

6 – Mais tempo conectados aos satélites

As redes de telefonia via satélite existem há décadas, mas a ideia de pessoas comuns se conectarem a satélites só se tornou popular nos últimos anos com o iPhone da Apple, principalmente em caso de emergência. Mas em 2024, algumas empresas estão se aproximando de tornar realidade outros tipos de conexões práticas via satélite.

No início deste mês, a SpaceX de Elon Musk lançou os primeiros seis satélites projetados para funcionar como torres de celular em órbita, sinalizando um possível fim da era das zonas sem sinal de celular.

A ideia, como Musk explicou pela primeira vez em 2022, é permitir que smartphones comuns enviem e recebam mensagens de texto de qualquer lugar do mundo a partir deste ano. As duas empresas esperam eventualmente oferecer chamadas de voz e até mesmo conexões de dados, mas provavelmente não antes de 2025, no mínimo.

Enquanto isso, a Amazon – que pretende criar seu próprio serviço global de internet de banda larga via satélite para competir com o Starlink de Musk – superou um obstáculo crucial no final de dezembro, quando conseguiu estabelecer uma conexão de dados estável e de alta velocidade entre dois satélites de teste. A empresa planeja construir uma frota em órbita suficiente nos próximos meses para iniciar testes com clientes ainda este ano.

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Que setores da economia brasileira vão bombar em 2024? Tecnologia e atacarejos regionais são aposta

Com a queda da taxa de juros no mundo todo, expectativa é que investidores retomem aportes em novos negócios

Por Lílian Cunha – Estadão – 09/01/2024 

Depois de um 2023 morno, com poucos aportes de investidores devido às instabilidades do cenário global, 2024 promete ser de recuperação. Setores ligados à tecnologia e relacionados ao consumo doméstico são os que devem atrair maiores investimentos neste ano, segundo especialistas consultados pelo Estadão.

Além das crises geopolíticas, com guerra entre Rússia e Ucrânia e Israel e Hamas, o mundo enfrentou um cenário de elevada taxas de juros, o que provocou uma mudança no fluxo do dinheiro. Em vez de aplicar os recursos em empresas, muitos investidores preferiram a estabilidade dos títulos públicos, como aqueles emitidos pelo governo americano. O grosso do fluxo mundial de investimento foi exatamente para os bonds americanos.

No Brasil, o enredo não foi diferente. Com uma taxa básica de juros (Selic) de 13,75% durante todo o primeiro semestre (o ciclo de queda dos juros começou em agosto), os investidores que colocam dinheiro em fundos de private equity (que compram participação em empresas) deram uma brecada em suas investidas. A preferência foi investir em renda fixa. “Também tivemos uma troca do governo federal e isso gerou um receio no mercado que só foi se dissipando ao longo dos meses”, diz o sócio do Pátria Investimentos, José Augusto Teixeira.

O juro alto atrapalha a captação de recursos, diz Piero Minardi, da ABVCAP Foto: Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images

Mas este ano promete uma virada. Isso porque a queda nos juros no Brasil e a possibilidade de um início de cortes nas taxas americanas pode “tirar da toca” o dinheiro que está nessas aplicações de renda fixa e fazê-lo voltar para a economia real. A expectativa do mercado em geral é que, até maio ou junho, os cortes nos juros americanos comecem. Aqui, a previsão é que a Selic chegue ao final do ano entre 10% e 8%.

“O juro alto atrapalha a captação de recursos. Se essas previsões realmente se tornarem realidade, teremos um retorno”, diz o vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), Piero Minardi, diretor da Warburg Pincus, que investe em empresas de tecnologia.

Os gastos do governo e uma possível pressão inflacionária são os únicos empecilhos com potencial para jogar areia na engrenagem da queda de juros, segundo ele.

E para onde o dinheiro deve ir?

Os negócios que mais devem chamar atenção são aqueles ligados à tecnologia. “Na verdade, são empresas de todos os setores, mas com soluções tecnológicas para melhorar a produtividade”, diz o cofundador da aceleradora de statups Strive, Tiago Galli, ex-sócio do C6 Bank.

O Pátria Investimentos, gestora de ativos em private equity, por exemplo, está de olho em oportunidades tecnológicas no setor de agronegócio. “Empresas na área de agricultura que promovam tecnificação para ajudar pequenos e médios produtores a fazer uma melhor gestão do plantio, que os auxiliem a serem mais preditivos diante das mudanças climáticas estão no nosso foco”, diz o sócio do Pátria responsável por novos investimentos e private equity, Luiz Felipe Cruz.

Ainda na seara da tecnologia, os especialistas dizem que empresas da área de saúde também devem atrair investimentos. “São as healthcares que se propõem a resolver, com tecnologia e até inteligência artificial, os problemas de custos altos desse setor”, diz Minardi.

Qual será o aplicativo que mais fará sucesso?

Na área das empresas de tecnologia, o próximo “killer app” – a aplicação que será uma das mais buscadas – estará no campo da identificação, segundo Galli. “Aplicativos que ajudem a provar que você é você mesmo. Ou que o conteúdo que você está vendo é real ou é fake. Nessa escalada de golpes com inteligência artificial, isso é mais do que necessário”, diz ele.

E o setor financeiro?

Na área das “fintechs”, as companhias de tecnologia que atuam no setor financeiro, espera-se uma grande consolidação. A expectativa é que haja junção entre bancos digitais, por exemplo. Ou a verticalização de serviços, que é a atuação em nichos específicos, como seguros, saúde, a simplificação da jornada de pagamentos nos e-commerces, como começar uma compra no Instagram e finalizá-la no WhatsApp. “Esse é um setor mais maduro, então é natural que haja esse tipo de movimentação”, diz Galli.

Olhando para dentro

Setores ligados ao consumo doméstico também devem atrair investimentos. São empresas que estão muito desgastadas com a alta dos juros, que não só fez essas companhias se endividarem, mas que também afastou os consumidores das compras.

Com as taxas caindo, o endividamento das empresas e do consumidor fica mais ameno. E, por isso, a atividade nessas companhias deve melhorar. Nesse campo, segundo o Pátria, estão, por exemplo, os atacarejos (principalmente na região Nordeste), os supermercados regionais e aqueles que atuam em um raio de atendimento restrito a poucos bairros, em grandes cidades, como São Paulo. Esse tipo de varejo deve passar por uma expansão este ano, segundo Cruz.

Com essa retomada do consumo doméstico, Minardi também aposta em empresas de educação com foco em ensino básico e fundamental, e em varejo especializado, como o voltado ao setor pet, farmacêutico e de luxo.

Infraestrutura

Com o Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em julho de 2022, os fundos também estão de olho nessa área de investimentos que – com certeza – é uma das mais atrasadas no País: mais de 100 milhões de brasileiros não têm esgoto e mais de 4,4 milhões não têm banheiro em casa, segundo relatório do Instituto Trata Brasil, divulgado em novembro.

“Essa é uma área muito carente desde sempre e que nunca teve investimentos por falta de regulação”, diz Marcelo Souza, sócio e diretor do setor de energia do Pátria.

Empresas de energia – principalmente as renováveis, como solar e eólica – e também de tratamento de resíduos e lixo – por conta das mudanças climáticas extremas também devem ser aceleradas, afirma Souza.

E com a expansão das redes 5G, espera-se investimentos também em torres e data centers para sustentar a demanda criada em relação à infraestrutura e armazenamento de dados.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/setores-economia-bombar-2024-tecnologia-atacarejo-aposta/

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Brasil precisa romper monotonia da produção do campo

Para o filósofo Ricardo Abramovay, o Brasil precisa repensar modelos de produção

O Globo Rural – 27/12/2023 

‘Romper com a monotonia da nossa oferta agropecuária é dificílimo, mas isso precisa ser debatido. Esse sistema não é sustentável’, afirma filósofo Ricardo Abramovay ‘Romper com a monotonia da nossa oferta agropecuária é dificílimo, mas isso precisa ser debatido. Esse sistema não é sustentável’, afirma filósofo Ricardo Abramovay — Foto: Divulgação Mapa

O Brasil precisa debater como romper com a “monotonia” da oferta agropecuária, afirma o filósofo Ricardo Abramovay . “O fato de termos 65% da superfície agrícola brasileira ocupada por um só produto não é sustentável”, alerta Abramovay, um estudioso de clima e da Amazônia. “É preciso fazer uma reflexão estratégica sobre o sistema agropecuário não mais à luz do que foi a Revolução Verde, mas agora, na era do Antropoceno”.

Abramovay participou do debate “Transição de Sistemas Alimentares: o Caminho para uma Economia Sustentável”, promovido há poucos dias, em São Paulo, pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. A entidade, formada em 2015, reúne mais de 350 representantes do setor privado, financeiro, da academia e da sociedade civil preocupados em inserir o Brasil na economia de baixo carbono.

Abramovay, professor titular da cátedra Josué de Castro, da Universidade de São Paulo, referia-se ao processo de transformação da agricultura em escala global que se deu por meio do desenvolvimento de novos meios tecnológicos na produção nas décadas de 1960 e 1970 — a Revolução Verde. E falou sobre a nova era geológica em que estamos, marcada pelo impacto do homem no planeta — o Antropoceno.

“Romper com a monotonia da nossa oferta agropecuária é dificílimo, mas isso precisa ser debatido”, afirmou Abramovay, sugerindo a criação de um grupo na Coalizão que dê início a essa discussão. José Carlos da Fonseca, cofacilitador da Coalizão Brasil e CEO da Associação Brasileira de Embalagens em Papel, completou: “A humanidade tem mais de 400 produtos cultiváveis. Mas mais de 90% da nossa alimentação está concentrada em apenas 15 produtos”.

Abramovay lembrou que o cenário é ainda pior, com 50% da alimentação humana concentrada em quatro produtos. “A monotonia não se refere apenas à produção agrícola, mas se exprime também na produção animal”, seguiu. A avicultura está concentrada em poucas raças, e documentos que discutem o tema se omitem em relação a problemas socioambientais da produção de aves e suínos. “Como esses setores não são altamente emissores de gases-estufa, somem da discussão global”, diz.

O ponto central da palestra de Abramovay foi a declaração “Agricultura Sustentável, Sistemas Alimentares Resilientes e Mudanças Climáticas” apresentado na COP 28, a conferência da ONU sobre clima que aconteceu em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

O documento político, assinado por 160 países, inclusive o Brasil, reconhece o impacto do clima nos sistemas alimentares e na agricultura e diz que é preciso aumentar a resiliência, promover segurança alimentar e apoiar agricultores. “A declaração diz que a agricultura tem de ser sustentável — às vezes, falar o óbvio é importante — e que é um absurdo ter forme no mundo. Mas tem duas lacunas imperdoáveis”, seguiu o professor.

Uma delas é a discussão sobre a monotonia dos sistemas agropecuários. A outra, o predomínio cada vez maior dos alimentos ultraprocessados. “A característica fundamental dos sistemas alimentares contemporâneos é o fato de que são compostos cada vez mais por produtos ultraprocessados que estão na raiz das doenças que mais matam no mundo. Matam mais do que a fome e originam a pandemia global de obesidade”.

Abramovay lembrou que 60% das calorias ingeridas nos Estados Unidos e no Reino Unido vêm de produtos ultraprocessados e que 40% da população americana é obesa. Em 1970, 5% das crianças eram obesas; hoje, são 20% — ou 19 milhões de pessoas entre 2 anos e 19 anos. “Se não falarmos disso, estamos falando de um setor, que é a agricultura, mas não estamos falando de alimentação. A indústria está fora dessa conversa, que conseguiu incluir o setor de transformação agrícola. Mas o que se consome está fora do debate”, disse, criticando a declaração da COP 28.

Abramovay citou o mais recente relatório do Fórum Econômico Mundial, publicado no início de dezembro. “Faz um diagnóstico fulminante dos prejuízos que os produtos ultraprocessados estão causando à saúde humana globalmente e os prejuízos daí decorrentes para os orçamentos de saúde pública”.

https://globorural.globo.com/agricultura/noticia/2023/12/brasil-precisa-romper-monotonia-da-producao-do-campo.ghtml

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PicPay: o ecossistema de inovação na prática

Por Evandro Milet – Portal ES360 em 07/01/2024

O Picpay é o maior caso de sucesso das startups capixabas, mas como foi o alinhamento dos planetas, digo, do ecossistema, para esse sucesso? O storytelling, ou a contação de histórias, pode ser a melhor maneira de entender como a articulação das instituições provocou esse resultado.

Para a inovação acontecer é comum falar na hélice tríplice – empresas, governo e academia -, mas para um ecossistema de inovação acontecer são necessárias mais pás nessa hélice, como essa história pretende demonstrar, com menos detalhes do que deveria para ser justo, porém tentando preservar o veio principal. 

Para ter um início, é importante falar da Tecvitória, primeira incubadora do Espírito Santo, criada em 1995, em prédio cedido pela Ufes. No Conselho de administração desse habitat de inovação, em momentos diferentes, várias instituições da hélice tríplice e além: Xerox, Petrobras, CST(ArcelorMittal), Aracruz(Suzano), Vale, Bandes, Prefeitura de Vitória, Sebrae, Findes, Governo do Estado, Ufes e Ifes. E um apoio inicial do Softex, ONG patrocinada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia.

Pouco operante até o ano 2000, a Tecvitória acelera o passo, abrigando muitas startups, inclusive a Imatic, de Dárcio Stehling e outros, vindos da Ufes e que havia recebido recursos da Fapes. Em 2007, o Sebrae e a CDV(hoje CDTIV) da Prefeitura de Vitória, assinam projeto conjunto para criar o CE3D, Centro de Excelência em Tecnologia 3D, para apoiar o desenvolvimento de projetos de máquinas apoiados pela engenharia mais sofisticada da época. O local para abrigar o CE3D é a Tecvitória e o Centro recebe equipamentos comprados e softwares de ponta cedidos gratuitamente por fornecedores, interessados na sua disseminação.

Para um projeto piloto do CE3D é convidada a Rochaz, empresa de Iconha, interessada em projetar e construir um tear multifios para o setor de rochas, tecnologia novidade na época. Para tocar o projeto pela Rochaz, se instala na Tecvitória Diogo Roberte, filho do proprietário, com equipe contratada inclusive fora do Estado.

Nessa época, era comum o corte de energia na região da Tecvitória. Para passar o tempo sem energia para os equipamentos, rolava um futebol de bola de meia, que junto com o cafezinho e o pão de queijo, aproximava pessoas com projetos diferentes, mas perfis complementares e muita vontade de ganhar dinheiro. O ambiente juntou Dárcio e Diogo e surgiu a ideia vencedora do Picpay, apoiada por investidores, embora o projeto da máquina multifios não tenha dado certo.

Nessa pequena história fica claro que um ecossistema de inovação funciona com uma hélice de muitas pás: academia, grandes empresas, governos, startups, investidores, financiadores, instituições de apoio, ambientes de inovação, ONGs, associações empresariais e órgãos de imprensa que fazem a informação circular. Mostra também a importância dos ambientes de inovação no seu papel de aproximar pessoas e ideias, sejam incubadoras, aceleradoras ou parques tecnológicos. Quem pensa que o mundo virtual resolve essa aproximação, não sabe o efeito de uma pelada de bola de meia no escuro.

https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/picpay-o-ecossistema-de-inovacao-na-pratica/

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