Chatbots espertos viram copiloto de atendentes de calls centers de empresas

Companhias utilizam soluções baseadas no GPT-4o, o ‘cérebro’ do ChatGPT, em sistemas de call center

Por Lucas Agrela – Estadão – 20/06/2024

Com a explosão da inteligência artificial (IA) generativa, imaginava-se que atendentes de call center seriam os primeiros substituídos por chatbots espertos, como o ChatGPT. No entanto, a tecnologia, por enquanto, é aliada desses trabalhadores, funcionando como uma espécie de copiloto no atendimento. Em vez de substituir os humanos no mercado de trabalho, a ideia é que os chatbots auxiliem os atendentes para serem mais ágeis e eficazes ao resolver demandas de clientes.

Na Vivo, a IA generativa já é utilizada por 11 mil funcionários e é capaz de reduzir o tempo de atendimento em 9% para consumidores e em 4% para empresas. Chamada I.Ajuda, a tecnologia da Vivo foi criada com base no GPT-3.5 e no GPT-4o, versões, respectivamente, mais básica e mais sofisticada dos cérebros do ChatGPT. A solução é construída com base na IA da Microsoft, o Azure OpenAI Service.

“Fomos a primeira empresa a comprar capacidade reservada para o call center. Isso permite atender o público em horários de pico”, diz Adriana Lika Shimomura, diretora de tecnologia e dados da Vivo.

Lika conta que, devido a aquisições de outras empresas, os sistemas da operadora de telecomunicações é complexo e a IA ajuda a simplificar o acesso do atendente. A IA da Vivo foi treinada com 2,4 mil documentos. “A IA reduz muito o erro humano porque mostra o procedimento correto. Ela é importante, especialmente, para os atendentes novos”, diz.

Em um caso de problema na internet de um cliente, a IA lista as possíveis causas, como instabilidade regional, instabilidade específica ou não pagamento de fatura, e fornece as soluções para o atendente informar ao consumidor. As informações aparecem na tela para o operador em, no máximo, 10 segundos. O próximo passo da Vivo com a IA será a implementação da transcrição de voz para texto para transcrever as conversas e analisar pontos a melhorar, além de sugerir ofertas que possivelmente sejam do interesse do cliente.

De acordo com estimativa da consultoria Statista, o mercado de inteligência artificial no Brasil está em uma forte trajetória de crescimento. Em 2024, o faturamento do setor deve atingir US$ 3,61 bilhões (R$ 19,6 bilhões), um salto anual de 35%. Entre os anos de 2024 e 2030, a estimativa é de uma taxa de crescimento anual de 28,61%, levando a uma receita total de US$ 16,34 bilhões até o fim da década. Para efeito de comparação, o mercado de IA nos Estados Unidos, o maior do mundo, tem projeção de atingir faturamento US$ 50,16 bilhões neste ano.

Focada em atendimento ao cliente, a Zendesk também oferece uma solução similar aos operadores do seu sistema, que processa 8 bilhões de solicitações diárias. Chamada Zendesk IA, a ferramenta digital permite tanto automatizar determinadas rotinas de atendimento quanto capacitar agentes para realizar o atendimento ao cliente de forma eficaz, oferecendo informações e contexto de uso dos procedimentos. As soluções de atendimento da empresa já permitem unificar os diferentes canais de atendimento, como redes sociais e WhatsApp, em uma única plataforma para o operador.

Também especializada no atendimento ao cliente, a Blip conta com uma solução de IA para o atendente, chamada Blip Copilot. Ela funciona como espécie de assistente virtual, auxiliando na execução de funções como operações de atendimento ou vendas e classificação os tickets por prioridade. Além disso, a plataforma fornece ao operador contextos sobre o consumidor e respostas precisas baseadas no contexto da conversa.

“A funcionalidade otimiza a eficiência operacional da equipe de atendimento, levando ganhos como a redução do tempo médio de atendimento, contexto mais rápido e preciso, respostas mais completas com agilidade, mais eficiência e assertividade. Isso só é possível por meio do uso das nossas features de resumos inteligentes e sugestão de respostas”, afirma o head de inteligência artificial da Blip, William Colen.

Ameaça para o futuro

O movimento de IAs como copilotos, no entanto, não deve evitar substituição no mercado de trabalho. O CEO da plataforma de inteligência conversacional WeClever, Rodolfo Reis, afirma que a IA deve ser tanto uma ajudante quanto substituta do profissional humano. “No futuro, acredito que teremos uma discussão sobre a necessidade de informar o consumidor de que ele está falando com uma IA”, afirma.

A própria WeClever reduziu o número de funcionários e transformou parte da sua equipe de consultores de atendimento em profissionais de design de conversas, utilizando o conhecimento adquirido pelos profissionais para ensinar a IA. Ou seja, os atendentes passam a ajudar no treinamento de sistemas de IA.

Na visão da Zendesk, 80% das interações com clientes serão resolvidas sem um agente humano nos próximos dois ou três anos e a IA estará envolvida em 100% dos seus processos.

A ideia de tirar os profissionais humanos de camadas de atendimento que podem ser facilmente automatizadas, por exemplo, é bastante difundida no mercado atualmente. Mas isso não deve parar por aí. O número de funcionários necessários para atender clientes mesmo em solicitações mais complexas deve continuar a diminuir. Isso já afeta inclusive as Big Techs, as maiores empresas de tecnologia do mundo.

A revista Fortune mostrou que, nos EUA, funcionários da Amazon temem que o treinamento que fazem para o software de atendimento ao cliente chamado AC3 seja um trabalho que levará à extinção dos seus empregos. “Antes era voltado para o funcionário e agora é voltada para o cliente”, disse à Fortune um funcionário do atendimento ao cliente. A Amazon não comentou o caso.

A troca de funcionários por tecnologias de atendimento já acontece no primeiro contato com os clientes há algum tempo, seja com chatbots ou com sistemas telefônicos. Mas isso deve avançar com a IA generativa. “Nos níveis macro, conseguimos substituir o atendimento humano em totalidade, otimizamos a quantidade de pessoas no atendimento, que passaram a ser mais especialistas do que profissionais de triagem. Em topo e meio de funil, o humano ficará cada vez mais achatado. O quanto ainda não podemos dimensionar”, afirma Reis, da WeClever.

Porém, o executivo diz que a IA ainda não é capaz de exibir empatia pelo cliente, como um ser humano pode ter, o que dificulta o entendimento em conversas mais complexas. Além disso, alerta que as empresas precisam tomar cuidados importantes ao utilizar esse tipo de tecnologia.

“O grande desafio é em relação à privacidade, à alucinação e à assertividade. A IA não pode ser ofensiva nem passar uma informação incorreta”, diz.

Custo e cuidados

O professor da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (EMAp), Alexandre Rademaker, afirma que o uso da IA generativa nas empresas traz baixo custo e consistência no atendimento ao cliente. A padronização do atendimento pode, inclusive, melhorar a percepção de qualidade junto aos consumidores. Mas faz um alerta.

“Não basta instalar e IA e pronto. É um processo constante. Conforme ela é usada, novos dados são capturados diariamente. Por isso, os dados precisam ser constantemente realimentados para que a máquina esteja atualizada. Assim como qualquer empresa tem treinamento constante dos funcionários”, diz.

Mesmo tarefas de treinamento de IA, como a função de designer de conversas, geram temor de funcionários por estarem treinando seus futuros substitutos – ainda que seja necessário um treinamento recorrente, pode haver cortes de equipe.

Para Rademaker, as áreas que devem ser mais impactadas pela IA generativa nos próximos anos são atendimento ao cliente, pesquisa, simulações e descoberta de novos materiais.

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Como a IA está revolucionando o desenvolvimento de medicamentos

Em laboratórios de alta tecnologia, os funcionários estão gerando dados para treinar algoritmos de IA a fim de projetar medicamentos melhores e mais rápidos

Por Steve Lohr – Estadão/The New York Times 19/06/2024 

O laboratório da Terray Therapeutics é uma sinfonia de automação miniaturizada. Robôs zunem transportando minúsculos tubos de fluidos para suas estações. Cientistas com jalecos azuis, luvas esterilizadas e óculos de proteção monitoram as máquinas.

Mas a verdadeira ação está acontecendo em nanoescala: proteínas em solução se combinam com moléculas químicas mantidas em poços minúsculos em chips de silício personalizados que são como forminhas de brigadeiro microscópicas. Cada interação é registrada, milhões e milhões por dia, gerando 50 terabytes de dados brutos diariamente – o equivalente a mais de 12 mil filmes.

O laboratório, com cerca de dois terços do tamanho de um campo de futebol, é uma fábrica de dados para a descoberta e o desenvolvimento de medicamentos assistidos por inteligência artificial (IA) em Monrovia, Califórnia. Ele faz parte de uma onda de empresas jovens e startups que tentam aproveitar a inteligência artificial (IA) para produzir medicamentos mais eficazes e mais rapidamente.

As empresas estão aproveitando a nova tecnologia – que aprende com enormes quantidades de dados para gerar respostas – para tentar refazer a descoberta de medicamentos. Elas estão mudando o campo de um trabalho artesanal meticuloso para uma precisão mais automatizada, uma mudança alimentada pela IA que aprende e fica mais inteligente.

“Quando você tem o tipo certo de dados, a IA pode trabalhar e se tornar muito, muito boa”, disse Jacob Berlin, cofundador e executivo-chefe da Terray.

Oportunidade

A maioria dos primeiros usos comerciais da IA generativa, que pode produzir de tudo, desde poesia até programas de computador, tem sido para ajudar a eliminar o trabalho penoso das tarefas rotineiras de escritório, atendimento ao cliente e elaboração de códigos. No entanto, a descoberta e o desenvolvimento de medicamentos é um setor enorme que, segundo os especialistas, está pronto para receber uma transformação da IA.

A IA é uma “oportunidade única no século” para o setor farmacêutico, de acordo com a empresa de consultoria McKinsey & Company.

Assim como os populares chatbots, como o ChatGPT, são treinados com base em textos da internet, e os geradores de imagens, como o DALL-E, aprendem com grandes quantidades de fotos e vídeos, a IA para a descoberta de medicamentos se baseia em dados. E são dados muito especializados – informações moleculares, estruturas de proteínas e medições de interações bioquímicas. A IA aprende com padrões nos dados para sugerir possíveis candidatos a medicamentos úteis, como se estivesse combinando chaves químicas com as fechaduras de proteínas certas.

Como a IA para o desenvolvimento de medicamentos é alimentada por dados científicos precisos, as “alucinações” tóxicas são muito menos prováveis do que com chatbots mais amplamente treinados. E qualquer medicamento em potencial deve passar por testes extensivos em laboratórios e em testes clínicos antes de ser aprovado para os pacientes.

Empresas como a Terray estão construindo grandes laboratórios de alta tecnologia para gerar as informações que ajudam a treinar a IA, o que permite a experimentação rápida e a capacidade de identificar padrões e fazer previsões sobre o que pode funcionar.

A IA generativa pode então projetar digitalmente uma molécula de medicamento. Esse projeto é traduzido, em um laboratório automatizado de alta velocidade, para uma molécula física e testado quanto à sua interação com uma proteína-alvo. Os resultados – positivos ou negativos – são registrados e alimentam o software de IA para aprimorar seu próximo projeto, acelerando o processo geral.

Longo caminho

Embora alguns medicamentos desenvolvidos por IA estejam em testes clínicos, ainda é cedo para uma conclusão.

“A IA generativa está transformando o campo, mas o processo de desenvolvimento de medicamentos é confuso e muito humano”, disse David Baker, bioquímico e diretor do Institute for Protein Design da Universidade de Washington.

Tradicionalmente, o desenvolvimento de medicamentos tem sido um empreendimento caro, demorado e de acerto ou erro. Os estudos sobre o custo do desenvolvimento de um medicamento e da realização de testes clínicos até a aprovação final variam muito. Mas a despesa total é estimada em US$ 1 bilhão, em média. O processo leva de 10 a 15 anos. E quase 90% dos medicamentos candidatos que entram em testes clínicos em humanos fracassam, geralmente por falta de eficácia ou efeitos colaterais imprevistos.

Os jovens desenvolvedores de medicamentos de IA estão se esforçando para usar sua tecnologia para melhorar essas chances e, ao mesmo tempo, reduzir o tempo e o dinheiro.

Sua fonte mais consistente de financiamento vem das gigantes farmacêuticas, que há muito tempo atuam como parceiros e banqueiros de empreendimentos de pesquisa menores. Os atuais fabricantes de medicamentos com IA geralmente se concentram na aceleração dos estágios pré-clínicos de desenvolvimento, que, convencionalmente, levam de quatro a sete anos. Alguns podem tentar entrar em testes clínicos por conta própria. Mas é nesse estágio que as grandes corporações farmacêuticas geralmente assumem o controle, operando os caros testes em humanos, que podem levar mais sete anos.

Para as empresas farmacêuticas estabelecidas, a estratégia de parceria é um caminho de custo relativamente baixo para explorar a inovação.

“Para elas, é como pegar um Uber para levá-lo a algum lugar em vez de ter que comprar um carro”, disse Gerardo Ubaghs Carrión, ex-banqueiro de investimentos em biotecnologia do Bank of America Securities.

As principais empresas farmacêuticas pagam a seus parceiros de pesquisa para que atinjam marcos em direção a candidatos a medicamentos, o que pode chegar a centenas de milhões de dólares ao longo dos anos. E se um medicamento for aprovado e se tornar um sucesso comercial, haverá um fluxo de receita de royalties.

Empresas como Terray, Recursion Pharmaceuticals, Schrödinger e Isomorphic Labs estão buscando avanços. Mas há, em linhas gerais, dois caminhos diferentes – aqueles que estão construindo grandes laboratórios e aqueles que não estão.

A Isomorphic, o spinout de descoberta de medicamentos do Google DeepMind, o grupo central de IA da gigante da tecnologia, acredita que quanto melhor for a IA, menos dados serão necessários. E está apostando em sua capacidade de software.

Em 2021, o Google DeepMind lançou um software que previa com precisão as formas em que as cadeias de aminoácidos se dobrariam como proteínas. Essas formas tridimensionais determinam o funcionamento de uma proteína. Isso foi um impulso para a compreensão biológica e útil para a descoberta de medicamentos, uma vez que as proteínas determinam o comportamento de todos os seres vivos.

No mês passado, o Google DeepMind e a Isomorphic anunciaram que seu mais recente modelo de IA, o AlphaFold 3, pode prever como as moléculas e as proteínas irão interagir – uma etapa adicional no projeto de medicamentos.

“Estamos nos concentrando na abordagem computacional”, disse Max Jaderberg, diretor de IA da Isomorphic. “Acreditamos que há um enorme potencial a ser desbloqueado.”

A Terray, como a maioria das startups de desenvolvimento de medicamentos, é um subproduto de anos de pesquisa científica combinada com desenvolvimentos mais recentes em IA.

Jacob Berlin, o executivo-chefe, que obteve seu Ph.D. em química pela Caltech, buscou avanços em nanotecnologia e química ao longo de sua carreira. A Terray surgiu de um projeto acadêmico iniciado há mais de uma década no centro de câncer City of Hope, perto de Los Angeles, onde Jacob Berlin tinha um grupo de pesquisa.

A Terray está se concentrando no desenvolvimento de medicamentos de moléculas pequenas, basicamente qualquer medicamento que uma pessoa possa ingerir em um comprimido, como aspirina e estatinas. As pílulas são fáceis de tomar e de produção barata.

Os laboratórios elegantes de Terray estão muito longe dos velhos tempos da academia, quando os dados eram armazenados em planilhas do Excel e a automação era um objetivo distante.

“Eu era o robô”, lembrou Kathleen Elison, cofundadora e cientista sênior da Terray.

Mas em 2018, quando a Terray foi fundada, as tecnologias necessárias para construir seu laboratório de dados de estilo industrial estavam progredindo rapidamente. A Terray contou com os avanços de fabricantes externos para produzir os chips em microescala que a Terray projeta. Seus laboratórios estão repletos de equipamentos automatizados, mas quase todos são personalizados, o que é possível graças aos avanços na tecnologia de impressão 3D.

Desde o início, a equipe da Terray reconheceu que a IA seria crucial para dar sentido aos seus armazenamentos de dados, mas o potencial da IA generativa no desenvolvimento de medicamentos só se tornou aparente mais tarde – embora antes de o ChatGPT se tornar um sucesso em 2022.

Narbe Mardirossian, cientista sênior da Amgen, tornou-se diretor de tecnologia da Terray em 2020, em parte devido à riqueza de dados gerados em laboratório. Sob o comando de Narbe Mardirossian, a Terray desenvolveu suas equipes de ciência de dados e criou um modelo de IA para traduzir dados químicos em matemática e vice-versa. A empresa lançou uma versão de código aberto.

A Terray tem acordos de parceria com a Bristol Myers Squibb e a Calico Life Sciences, uma subsidiária da Alphabet, empresa controladora do Google, que se concentra em doenças relacionadas à idade. Os termos desses acordos não foram divulgados.

Para expandir, a Terray precisará de fundos além de seus US$ 80 milhões em financiamento de risco, disse Eli Berlin, irmão mais novo de Jacob Berlin. Ele deixou um emprego em private equity para se tornar cofundador e diretor financeiro e operacional da startup, convencido de que a tecnologia poderia abrir as portas para um negócio lucrativo.

A Terray está desenvolvendo novos medicamentos para doenças inflamatórias, incluindo lúpus, psoríase e artrite reumatoide. A empresa, segundo Jacob Berlin, espera ter medicamentos em testes clínicos até o início de 2026.

As inovações na fabricação de medicamentos da Terray e de suas congêneres podem acelerar o processo, mas só até certo ponto.

“O teste definitivo para nós, e para o campo em geral, é se daqui a 10 anos você olhar para trás e puder dizer que a taxa de sucesso clínico aumentou muito e que temos medicamentos melhores para a saúde humana”, disse Jacob Berlin.

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Seis maneiras como a IA mudará a guerra e o mundo

Inteligência artificial pode fortalecer autocracias e dar a big techs uma influência desproporcional, mas também pode nivelar mercado

Hal Brands – Folha/Bloomberg – 16.jun.2024 

É colunista da Bloomberg e professor da cátedra Henry Kissinger de estudos internacionais avançados da Universidade Johns Hopkins. Bloomberg 

A inteligência artificial mudará nossas vidas de inúmeras maneiras: como os governos servem seus cidadãos; como dirigimos (e somos dirigidos); como administramos e, espera-se, guardamos nossas finanças; como os médicos diagnosticam e tratam doenças; até mesmo como meus alunos pesquisam e escrevem seus ensaios. Mas quão revolucionária será a IA? Ela irá desequilibrar o poder global? Permitirá que as autocracias dominem o mundo? Tornará a guerra tão rápida e feroz que se tornará incontrolável? Em suma, a IA alterará fundamentalmente os ritmos dos debates mundiais? 

É claro que é cedo demais para dizer definitivamente: Os efeitos da IA dependerão, em última instância, das decisões que líderes e nações tomarem, e a tecnologia às vezes toma rumos surpreendentes. Mas mesmo enquanto somos impressionados e preocupados com a próxima versão do ChatGPT, precisamos lidar com seis questões mais profundas sobre os assuntos internacionais na era da IA. E precisamos considerar uma possibilidade surpreendente: talvez a IA não mude o mundo tanto quanto esperamos. 

1) A IA TORNARÁ A GUERRA INCONTROLÁVEL? 

Considere uma afirmação —que a inteligência artificial tornará o conflito mais letal e mais difícil de conter. Analistas imaginam um futuro em que máquinas possam pilotar caças com mais habilidade do que humanos, ciberataques habilitados por IA devastem redes inimigas, e algoritmos avançados acelerem a velocidade das decisões. Alguns alertam que a tomada de decisões automatizada poderia desencadear uma escalada rápida —até mesmo uma escalada nuclear— que deixaria os formuladores de políticas se perguntando o que aconteceu. 

Se planos de guerra e horários de trens causaram a Primeira Guerra Mundial, talvez a IA cause a Terceira Guerra Mundial. Que a IA mudará a guerra é inegável. Desde possibilitar a manutenção preditiva de hardware até facilitar melhorias surpreendentes no direcionamento de precisão, as possibilidades são muitas. Um único F-35, liderando um enxame de drones semiautônomos, poderia empunhar o poder de fogo de uma asa inteira de bombardeiros. Como concluiu a Comissão de Segurança Nacional sobre Inteligência Artificial em 2021, uma “nova era de conflito” será dominada pelo lado que se apoderar de “novas formas de guerra”. 

Não há, contudo, nada fundamentalmente novo aqui. A história da guerra ao longo dos séculos é uma em que a inovação regularmente torna o combate mais rápido e intenso. Portanto, pense duas vezes antes de aceitar a proposição de que a IA tornará a escalada incontrolável. Os EUA e a China discutiram um acordo para não automatizar seus processos de comando e controle nuclear —um compromisso que Washington fez independentemente— pelo simples motivo de que os estados têm fortes incentivos para não abrir mão do controle sobre armas cujo uso poderia colocar em perigo sua própria sobrevivência. 

O comportamento da Rússia, incluindo o desenvolvimento de torpedos armados com armas nucleares que eventualmente poderiam operar autonomamente, é uma preocupação maior. Mas mesmo durante a Guerra Fria, quando Moscou construiu um sistema destinado a garantir a retaliação nuclear mesmo se sua liderança fosse eliminada, nunca desligou os controles humanos. Espere que as grandes potências de hoje explorem agressivamente as possibilidades militares que a IA apresenta —enquanto tentam manter as decisões mais críticas nas mãos humanas. Na verdade, a IA poderia reduzir o risco de escalada vertiginosa, ajudando os tomadores de decisão a enxergar através da névoa da crise e da guerra. 

O Pentágono acredita que ferramentas de inteligência e análise habilitadas por IA podem ajudar os humanos a filtrar informações confusas ou fragmentadas sobre os preparativos de guerra de um inimigo, ou mesmo se um temido ataque de míssil está de fato em andamento. Isso não é ficção científica: A assistência da IA teria ajudado analistas de inteligência dos EUA a descobrir a invasão do presidente russo Vladimir Putin à Ucrânia em 2022. Nesse sentido, a IA pode mitigar a incerteza e o medo que levam as pessoas a reações extremas. Ao fornecer aos formuladores de políticas uma compreensão maior dos eventos, a IA também pode melhorar sua capacidade de gerenciá-los. 

2) A IA AJUDARÁ AUTOCRACIAS COMO A CHINA A CONTROLAR O MUNDO? 

E quanto a um pesadelo relacionado —que a IA ajudará as forças da tirania a controlar o futuro? Analistas como Yuval Noah Harari alertaram que a inteligência artificial reduzirá os custos e aumentará os retornos da repressão. Os serviços de inteligência equipados com IA precisarão de menos mão de obra para decifrar as vastas quantidades de informações que coletam sobre suas populações —permitindo-lhes, por exemplo, mapear precisamente e desmantelar impiedosamente redes de protesto. Eles usarão tecnologia de reconhecimento facial habilitada por IA para monitorar e controlar seus cidadãos, enquanto empregam desinformação criada por IA para desacreditar críticos em casa e no exterior. 

Ao tornar a autocracia cada vez mais eficiente, a IA poderia permitir que os ditadores dominem a era que se inicia. Isso é certamente o que a China espera. O governo do presidente Xi Jinping desenvolveu um sistema de “pontuação social” que utiliza inteligência artificial, reconhecimento facial e big data para garantir a confiabilidade de seus cidadãos —regulando seu acesso a tudo, desde empréstimos com juros baixos até passagens de avião. A vigilância onipresente assistida por IA transformou Xinjiang em um modelo distópico de repressão moderna. 

Pequim pretende assumir as “alturas estratégicas de comando” da inovação porque acredita que a IA pode fortalecer seu sistema interno e seu poder militar. Está utilizando o poder do estado não liberal para direcionar dinheiro e talento para tecnologias avançadas. No entanto, não é garantido que as autocracias sairão na frente. Acreditar que a IA favorece fundamentalmente a autocracia é acreditar que alguns dos mais vitais e duradouros facilitadores da inovação —como fluxos abertos de informação e tolerância ao dissenso— já não são tão importantes. No entanto, a autocracia já está limitando o potencial da China. 

Construir modelos de linguagem grandes e poderosos requer enormes conjuntos de informações. Mas se esses inputs estiverem contaminados ou enviesados porque a internet da China é tão fortemente censurada, a qualidade dos outputs sofrerá. Um sistema cada vez mais repressivo também terá dificuldade, ao longo do tempo, em atrair os melhores talentos: é significativo que 38% dos principais pesquisadores de IA nos EUA sejam originalmente da China. E a tecnologia inteligente ainda deve ser usada pelas instituições governamentais da China, que estão se tornando progressivamente menos inteligentes —ou seja, menos competentes tecnicamente— à medida que o sistema político se torna cada vez mais subserviente a um imperador vitalício. A China será uma concorrente tecnológica formidável. Mas mesmo na era da IA, Xi e seus irmãos não liberais podem ter dificuldade em escapar do arrasto competitivo que a autocracia cria. 

3) A IA FAVORECERÁ OS MELHORES OU OS DEMAIS? 

Algumas tecnologias diminuem a lacuna entre as sociedades mais e menos avançadas tecnologicamente. Armas nucleares, por exemplo, permitem que países relativamente pequenos, como a Coreia do Norte, compensem as vantagens militares e econômicas de uma superpotência e seus aliados. Outras ampliam a divisão: no século XIX, rifles de repetição, metralhadoras e navios a vapor permitiram que as sociedades europeias subjugassem vastas áreas do mundo.

Em alguns aspectos, a IA empoderará os mais fracos. Autoridades dos EUA se preocupam que modelos de linguagem grandes possam ajudar terroristas com kits de ciência rudimentares a construir armas biológicas. Estados rebeldes, como o Irã, podem usar a IA para coordenar enxames de drones contra navios de guerra dos EUA no Golfo Pérsico. De forma mais benigna, a IA poderia expandir o acesso a serviços básicos de saúde no Sul Global, gerando grandes retornos em aumento da expectativa de vida e produtividade econômica. 

Em outros aspectos, no entanto, a IA será um jogo de ricos. Desenvolver IA de ponta é absurdamente caro. Treinar grandes modelos de linguagem pode exigir investimentos maciços e acesso a uma quantidade finita de cientistas e engenheiros de ponta —sem mencionar quantidades impressionantes de eletricidade. Algumas estimativas colocam o custo da infraestrutura que suporta o chatbot de IA da Microsoft Bing em US$ 4 bilhões. Quase qualquer um pode ser um usuário de IA —mas ser um criador requer recursos abundantes. É por isso que as potências intermediárias que estão fazendo grandes avanços em IA, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, têm bolsos muito fundos. Muitos dos primeiros líderes na corrida da IA são gigantes da tecnologia (Alphabet, Microsoft, Meta, IBM, Nvidia e outros) ou empresas com acesso ao seu dinheiro (OpenAI). E os EUA, com seu setor de tecnologia vibrante e bem financiado, ainda lideram o campo. 

O que é verdadeiro no setor privado também pode ser verdadeiro no campo da guerra. No início, os benefícios militares das novas tecnologias podem fluir de forma desproporcional para países com orçamentos de defesa generosos necessários para desenvolver e implantar novas capacidades em escala. Tudo isso pode mudar: Lideranças iniciais nem sempre se traduzem em vantagens duradouras. Novatos, sejam empresas ou países, já perturbaram outros campos antes. Por enquanto, no entanto, a IA pode fazer mais para reforçar do que revolucionar o equilíbrio de poder. 

4) A IA IRÁ FRATURAR OU FORTALECER COALIZÕES? 

Como a inteligência artificial afeta o equilíbrio de poder depende de como ela afeta as coalizões globais. Conforme analistas do Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown documentaram, os EUA e seus aliados podem superar em muito a China em gastos com tecnologias avançadas —mas apenas se combinarem seus recursos. A melhor esperança de Pequim é que o mundo livre se divida em relação à IA. Desvendando IA Um guia do New York Times em formato de newsletter para você entender como funciona a IA Carregando… Pode acontecer. Washington preocupa-se que a abordagem emergente da Europa à regulamentação da IA generativa possa sufocar a inovação: Nesse sentido, a IA está destacando abordagens divergentes dos EUA e da Europa em relação a mercados e riscos. 

Outra democracia-chave, a Índia, prefere autonomia estratégica à alinhamento estratégico —tanto em tecnologia quanto em geopolítica, prefere seguir seu próprio caminho. Enquanto isso, alguns dos parceiros não democráticos de Washington, nomeadamente Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, exploraram laços tecnológicos mais estreitos com Pequim. Mas é prematuro concluir que a IA irá transformar fundamentalmente as alianças dos EUA. Em alguns casos, os EUA estão usando com sucesso essas alianças como ferramentas de competição tecnológica: Veja como Washington convenceu Japão e Holanda a limitar o acesso da China a semicondutores de alta qualidade. 

Os EUA também estão alavancando parcerias de segurança com Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos para impor limites em suas relações tecnológicas com Pequim, e para promover parcerias de IA entre empresas americanas e dos Emirados Árabes Unidos. Nesse sentido, alinhamentos geopolíticos estão moldando o desenvolvimento da IA, em vez do contrário. Mais fundamentalmente, as preferências dos países em relação à IA estão relacionadas às suas preferências em relação à ordem doméstica e internacional. Portanto, quaisquer diferenças que os EUA e a Europa tenham podem ser insignificantes em comparação com seus medos compartilhados do que acontecerá se a China avançar para a supremacia. Europa e América podem, por fim, encontrar um caminho para uma maior alinhamento em questões de IA —assim como a hostilidade compartilhada ao poder dos EUA está levando China e Rússia a cooperar mais estreitamente nas aplicações militares da tecnologia hoje. 

5) A IA IRÁ DOMAR OU INFLAMAR A RIVALIDADE ENTRE GRANDES POTÊNCIAS? 

Muitas dessas questões estão relacionadas a como a IA afetará a intensidade da competição entre o Ocidente liderado pelos EUA e as potências autocráticas lideradas pela China. Ninguém realmente sabe se a IA desenfreada poderia realmente ameaçar a humanidade. Mas riscos existenciais compartilhados às vezes fazem com que estranhos se unam. 

Durante a Guerra Fria original, os EUA e a União Soviética cooperaram para gerenciar os perigos associados às armas nucleares. Durante a nova Guerra Fria, talvez Washington e Pequim encontrem um propósito comum em impedir que a IA seja usada para propósitos malévolos, como bioterrorismo ou ameaçar países em ambos os lados das divisões geopolíticas atuais. No entanto, a analogia funciona nos dois sentidos, porque as armas nucleares também tornaram a Guerra Fria mais intensa e assustadora. Washington e Moscou tiveram que navegar por confrontos de alto risco, como a Crise dos Mísseis em Cuba e várias crises em Berlim, antes de uma estabilidade precária se estabelecer. 

Hoje, o controle de armas de IA parece ser ainda mais desafiador do que o controle de armas nucleares, porque o desenvolvimento de IA é tão difícil de monitorar e os benefícios da vantagem unilateral são tão tentadores. Portanto, mesmo que os EUA e a China iniciem um diálogo incipiente sobre IA, a tecnologia está acelerando sua competição. A IA está no centro de uma guerra tecnológica sino-americana, à medida que a China usa métodos justos e sujos para acelerar seu próprio desenvolvimento e os EUA implementam controles de exportação, restrições de investimento e outras medidas para bloquear o caminho de Pequim. 

Se a China não puder acelerar seu progresso tecnológico, diz Xi, ela corre o risco de ser “estrangulada” por Washington. A IA também está alimentando uma luta pela superioridade militar no Pacífico Ocidental: A Iniciativa Replicadora do Pentágono prevê o uso de milhares de drones habilitados por IA para aniquilar uma frota de invasão chinesa em direção a Taiwan. Poderes rivais eventualmente encontrarão maneiras de cooperar, talvez tacitamente, sobre os perigos mútuos que a IA representa. Mas uma tecnologia transformadora intensificará muitos aspectos de sua rivalidade entre agora e então. 

6) A IA TORNARÁ O SETOR PRIVADO SUPERIOR AO PÚBLICO? 

A IA, sem dúvida, mudará o equilíbrio de influência entre os setores público e privado. As analogias entre a IA e as armas nucleares podem ser esclarecedoras, mas apenas até certo ponto: a ideia de um Projeto Manhattan para a IA é enganosa porque é um campo onde o dinheiro, a inovação e o talento são encontrados predominantemente no setor privado. As empresas na vanguarda da IA estão se tornando atores geopolíticos poderosos —e os governos sabem disso. 

Quando Elon Musk e outros especialistas defenderam uma moratória no desenvolvimento de modelos avançados de IA em 2023, Washington instou as empresas de tecnologia a não pararem —porque fazê-lo simplesmente ajudaria a China a alcançar os EUA. A política governamental pode acelerar ou retardar a inovação. Mas em grande medida, as perspectivas estratégicas da América dependem das conquistas das empresas privadas. 

É importante não levar esse argumento longe demais. A fusão civil-militar da China visa garantir que o estado possa direcionar e explorar a inovação do setor privado. Embora os EUA, como democracia, não possam realmente imitar essa abordagem, a concentração de grande poder nas empresas privadas trará uma resposta do governo. Washington está participando, embora hesitante, de um debate sobre a melhor forma de regular a IA para fomentar a inovação, ao mesmo tempo em que limita usos malignos e acidentes catastróficos. 

O braço longo do poder estatal está ativo de outras maneiras também: os EUA nunca permitiriam que investidores chineses comprassem as principais empresas de IA do país, e está restringindo o investimento americano nos setores de IA de estados adversários. E quando o Silicon Valley Bank, que detinha os depósitos de muitas empresas e investidores do setor de tecnologia, caminhava para a insolvência, preocupações geopolíticas ajudaram a iniciar um resgate do governo. 

Também se espera, nos próximos anos, uma ênfase maior do governo em ajudar o Pentágono a estimular o desenvolvimento de tecnologias militarmente relevantes —e tornar mais fácil transformar a inovação do setor privado em armas vencedoras de guerra. Quanto mais estrategicamente relevante a IA for, menos dispostos os governos estarão a simplesmente deixar o mercado fazer seu trabalho. Não podemos prever o futuro: a IA pode chegar a um beco sem saída, ou pode acelerar além das expectativas de qualquer pessoa. 

Além disso, a tecnologia não é uma força autônoma. Seu desenvolvimento e efeitos serão moldados por decisões em Washington e ao redor do mundo. Por enquanto, a chave é fazer as perguntas certas, porque isso nos ajuda a entender as apostas dessas decisões. Isso nos ajuda a imaginar os vários futuros que a IA poderia moldar. Não menos importante, ilustra que talvez a IA não cause um terremoto geopolítico afinal. 

Certamente, há motivos para temer que a IA torne a guerra incontrolável, desequilibre o poder, frature as alianças dos EUA ou favoreça fundamentalmente as autocracias sobre as democracias. Mas também há boas razões para suspeitar que não o fará. Isso não é para aconselhar a complacência. Evitar resultados mais perigosos exigirá esforços enérgicos e escolhas inteligentes. De fato, o valor principal deste exercício é mostrar que uma ampla gama de cenários é possível – e os piores não se fecharão simplesmente. 

Se a IA favorece a autocracia ou a democracia depende, em parte, de se os EUA adotam políticas de imigração esclarecidas que ajudam a reter talentos de alto nível. Se a IA reforça ou fratura as alianças dos EUA depende de se Washington trata essas alianças como ativos a serem protegidos ou como fardos a serem descartados. Se a IA mantém ou mina a hierarquia internacional existente, e o quanto ela muda a relação entre o setor privado e o estado, depende de quão sabiamente os EUA e outros países regulamentam seu desenvolvimento e uso. O que não há dúvida é que a IA abre perspectivas inspiradoras e possibilidades terríveis. O objetivo da América deve ser inovar de forma implacável e responsável o suficiente para que a ordem mundial basicamente favorável não mude fundamentalmente —mesmo quando a tecnologia o fizer. 

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2024/06/seis-maneiras-como-a-ia-mudara-a-guerra-e-o-mundo.shtml

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Na ArcelorMittal, startups e inovação vão ter que dar bilhão no balanço

Por Rennan Setti – O Globo – 17/06/2024 

Maior produtora de aço do Brasil, a ArcelorMittal decidiu que seus investimentos em startups e outras iniciativas de inovação — como aplicações de inteligência artificial (IA) — terão que ter impacto concreto no balanço. A siderúrgica contratou a consultoria Boston Consulting Group (BCG) para ajudá-la a elaborar um plano que prevê a geração de cerca de R$ 1 bilhão adicional em Ebitda, o lucro antes de impostos, juros e depreciação, até 2028. A cifra equivale a 11% do Ebitda registrado pela companhia no Brasil no ano passado.

A siderúrgica colocou no papel 60 projetos. Da cifra total, R$ 635 milhões terão que ser gerados por redução de custo e ganhos de eficiência. Já o relacionamento com startups, entre novos negócios desenvolvidos em parceria e o portfólio de empresas inovadoras investidas, vai agregar R$ 365 milhões no balanço, prevê o plano. Já este ano, as iniciativas terão que entregar R$ 135 milhões em resultado.

— Não é um sonho ou algo abstrato, decidimos elaborar um plano claro e definido, com metas que precisam ser alcançadas. Porque nosso objetivo não é inovar por inovar, tem que haver resultado — afirma Jefferson de Paula, presidente no Brasil da companhia, multinacional com sede em Luxemburgo e controlada por uma família indiana.

Inteligência artificial

A ArcelorMittal se aproximou de startups de maneira mais incisiva em 2018, quando abriu em Nova Lima (MG) o Açolab. De acordo com o CEO, o laboratório de “inovação aberta” foi criado para acelerar os processos de uma companhia cujas dimensões — são 126 mil funcionários pelo mundo — acabam tornando-a mais lenta. Ele calcula que o Açolab tenha proporcionado contato com 6 mil startups brasileiras.

Em 2021, o relacionamento estreitou com a criação do Açolab Ventures, com R$ 100 milhões para investir nas startups. Cerca de metade do dinheiro já foi investido em seis startups desde então, entre elas Modularis (construção modular) e Vertown (gestão de resíduos).

— Esse tipo de iniciativa nos ajuda até em termos de recursos humanos. Hoje em dia, se você se posiciona somente como uma indústria tradicional, é difícil atrair os melhores jovens profissionais. Você fica para trás — justifica o CEO.

A eficiência é uma das aspirações dessa proximidade com startups. Jefferson de Paula cita o exemplo da Sipremo, que usa inteligência artificial para monitorar as florestas de eucalipto e pinus da siderúrgica em Minas Gerais — a companhia produz carvão vegetal para atenuar a pegada ambiental dos seus altos-fornos.

— O sistema nos ajuda a analisar o solo e saber onde o pesticida é necessário para controlar pragas. Sozinha, a aplicação reduziu em 40% nosso custo com essa operação — acrescenta.

Jefferson de Paula diz que uma das ambições do plano é fazer valer a aposta em inteligência artificial. A companhia tem aberto laboratórios que lidam com o tema, como o iNO.VC, que fica na unidade do Espírito Santo. Caberá a uma ferramenta de IA, por exemplo, reduzir em R$ 25 milhões os custos associados a problemas no laminador de aço da planta de Resende (RJ). A siderúrgica criou um modelo preditivo e vai expandir a tecnologia para todos os laminadores da empresa no Brasil.

‘Não tem como o Brasil não crescer’

A inovação terá que entrar no balanço no momento em que a ArcelorMittal e outras siderúrgicas são pressionadas pela enxurrada de aço chinês no mercado nacional. No ano passado, o Ebitda da ArcelorMittal no Brasil encolheu 38% nesse cenário. No fim de abril, após queixas do setor, o governo anunciou cotas para a importação de aço, com imposto aumentado para 25% sobre o excedente.

— Não foi o que a gente queria. A gente pedia uma tarifa de 25%, sem cota. Mas foi um passo importante. Falamos com Lula, Alckmin e Haddad, e o governo se comprometeu a fazer um acompanhamento. Ele está sensível e, caso não esteja funcionando, se comprometeu a tomar outras medidas — diz o CEO, que também preside o conselho do Instituto Aço Brasil.

A despeito da pressão do aço chinês, a ArcelorMittal Brasil está implementando um plano de investimento de R$ 25 bilhões. Na cifra estão a compra da antiga Companhia Siderúrgica do Pecém (Ceará), que era controlada pela Vale e foi adquirida por R$ 11,2 bilhões no ano passado; e a joint-venture de geração eólica com a Casa dos Ventos, um projeto de R$ 4,2 bilhões.

— A infraestrutura aqui é muito ruim, isso vai demandar muito aço. O consumo anual é de 108 quilos por habitante, contra 220 da média mundial. Uma hora, vamos chegar à média. Vai demorar cinco, dez anos? Não sei. Mas não tem como o Brasil não crescer — conclui.

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Inteligência artificial exigirá energia de ‘dois Brasis’ até 2026. Veja por que a tecnologia demanda tanto

Processamento de dados em alta velocidade por conta da inteligência artificial equivale ao consumo anual de toda França. Em dois anos, sistemas consumirão ‘dois Brasis’ em energia

Por Daniel Gullino – O Globo/New York Times – 16/06/2024 

O avanço de ferramentas de inteligência artificial (IA), que serão cada vez mais utilizadas no dia a dia das pessoas e dos negócios, levanta preocupações devido ao seu impacto ambiental. Quem digita uma pergunta para um robô virtual turbinado pela IA generativa como o ChatGPT não pensa em quanta energia essa operação envolve.

Mas uma série de estudos tem mostrado que o consumo de energia desses sistemas para processar um volume enorme de dados em pouco tempo é tão significativo que já pode ser visto como mais um obstáculo para a redução das emissões de carbono para combater as mudanças climáticas.

Além disso, a nova tecnologia também demanda recursos escassos como água para resfriar equipamentos e matérias-primas para a indústria de chips.

Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) do início deste ano estimou que o consumo de energia em centros de processamento de dados no mundo, que foi de 460 terawatt-hora (TWh) em 2022, pode chegar a 1.050 TWh em 2026 com o avanço da IA.

Isso equivale ao dobro da energia que o Brasil consome em um ano, cerca de 500 TWh. O cenário mais provável, segundo a agência, é uma demanda de 800 TWh, pouco menos que duas vezes a anual da França.

Mesmo assim, é como se o consumo de um Brasil e meio fosse utilizado apenas pelos data centers, que estão em expansão em várias partes do mundo para dar conta da nova demanda de processamento em alta velocidade da IA. Também entra nessa conta a mineração de criptomoedas.

Alerta similar veio da Ação Climática Contra a Desinformação, que reúne organizações de defesa do meio ambiente e pede mais transparência das empresas de tecnologia e regulação global do setor.

Emissão de gases

No mês passado, a questão foi abordada em um levantamento sobre a segurança da IA encomendado pelo governo britânico a um painel de especialistas liderado pelo canadense Yoshua Bengio, um dos pioneiros da IA. O texto diz que a nova tecnologia pode levar a um aumento das emissões de gases de efeito estufa, a depender das fontes de energia utilizadas.

Se já tem sido difícil descarbonizar a geração de energia, a demanda adicional da IA só torna esse objetivo mais distante, dizem os especialistas.

Isso também amplia o desafio das big techs em suas metas de neutralizar suas emissões. Até mesmo Sam Altman, o CEO da OpenAI, a criadora do ChatGPT, afirmou no início do ano que será necessário um grande avanço na produção de energia limpa para atender à demanda criada pela IA generativa.

Os modelos cruzam uma série de dados em pouco tempo para gerar seus conteúdos e demandam processadores cada vez mais avançados e que consomem mais energia. A AIE estimou, por exemplo, o impacto da integração da IA a ferramentas de busca, como está fazendo o Google.

Consumo de energia nos data centers — Foto: Editoria de Arte Consumo de energia nos data centers — Foto: Editoria de Arte

Isso pode levar a um aumento de 10 TWh no consumo anual global de energia, suficiente para 3 milhões de casas nos EUA.

Em um artigo publicado no periódico científico Joule, e citado no relatório da AIE, o pesquisador Alex de Vries, da Universidade de Amsterdã, afirmou que, em um cenário extremo, apenas a IA do Google poderia consumir tanta eletricidade quanto a Irlanda, apesar de ressaltar que o mais provável é um impacto menor.

Ele avalia que pode ocorrer um aumento de eficiência das ferramentas de IA, diminuindo seu consumo de energia. Entretanto, alerta para o chamado Paradoxo de Jevons: a melhora na eficiência pode gerar maior uso, anulando os ganhos.

Em entrevista ao GLOBO, Vries observou que as empresas de tecnologia têm priorizado o crescimento e colocado a sustentabilidade em segundo plano. Ele ressalta que as emissões de carbono da Microsoft aumentaram 29,1% no ano passado, o que dificulta a meta da empresa de neutralizar sua pegada de carbono até 2030.

— As emissões estão aumentando, então eles estão priorizando o crescimento da IA, e deixaram para se preocupar com as emissões depois — ele avalia. — Sobre sustentabilidade, quanto menos energia consumirmos, melhor. Mas com a IA é o contrário: quanto maior, melhor. E modelos maiores exigem mais energia.

Para o sócio da PwC Brasil Adriano Correia, líder do setor de energia da consultoria, o aumento no consumo energético gerado pela IA é um “caminho sem volta”:

— Se quisermos ter uma capacidade de processamento de dados maior, vamos ter um impacto grande no consumo de energia. E se já temos hoje um desafio de gerar energia renovável suficiente para substituir os combustíveis fósseis, esse desafio cresce ainda mais.

Consumo de água

Correia ressalta outros dois impactos ambientais importantes da IA: o maior incentivo à mineração, para retirar metais raros utilizados na fabricação de equipamentos e componentes de data centers, e o do lixo eletrônico, que cresce junto com a obsolescência das tecnologias antigas.

Grandes grupos financeiros e as próprias big techs têm anunciado investimentos bilionários na ampliação e troca de equipamentos de data centers, que já vinham crescendo com a expansão da computação em nuvem, ou na construção de novos em todo o mundo, além de empreendimentos de geração de energia de fontes limpas, como solar, eólica e nuclear, para abastecer esses novos centros de processamento.

A KKR, que investe US$ 1 bilhão em data centers na Ásia, estima que a capacidade total desses centros no mundo vai triplicar em seis anos. O Google anunciou recentemente um aporte de US$ 2 bilhões em infraestrutura de processamento na Malásia, que dá incentivos fiscais para esse tipo de empreendimento.

O país asiático tem atraído projetos que iam para Cingapura, que chegou a suspender por três anos licenças para data centers por causa da restrição na oferta de energia e de terrenos. A Microsoft investe US$ 7,7 bilhões nesse tipo de projeto em Reino Unido, Japão e Indonésia, e seu cofundador Bill Gates aposta numa startup de pequenos reatores nucleares que podem abastecer data centers.

Chance para o Brasil

Esse cenário pode abrir oportunidades para o Brasil atrair alguns desses investimentos bilionários com sua grande oferta de fontes renováveis de energia, diz Correia, da PwC:

— Não vejo outros países com uma condição tão competitiva para atrair data center como a gente tem hoje aqui.

Shaolei Ren, professor de engenharia da computação na Universidade da Califórnia, nos EUA, afirma que os recursos hídricos também favorecem o Brasil nesse sentido. Ele é um dos autores de um estudo com pesquisadores do Texas, ainda não publicado, que estimou em 5,4 milhões de litros a água consumida pelo processamento necessário para treinar o ChatGPT-3 — o equivalente a duas piscinas olímpicas.

Para gerar entre dez e 50 respostas, o robô virtual da OpenAI demanda 500ml de água, a depender de onde estão os data centers. A estimativa foi feita a partir de um modelo antigo. Provavelmente é maior para sistemas mais atuais, como o ChatGPT-4, que têm maior capacidade de geração de conteúdo e, por isso, demandam mais recursos.

As ferramentas de IA demandam água na geração da energia que abastece data centers, no resfriamento dos equipamentos e na fabricação de chips e servidores. Os autores ressaltam que é possível adotar estratégias para diminuir o consumo de água dessa infraestrutura, variando o local e até mesmo o horário das atividades. Ren diz que a pegada de carbono da energia consumida pela IA ganha mais atenção, mas frisa que o uso de água não é menos importante.

Procuradas, as principais desenvolvedoras da IA dizem tomar medidas para reduzir o impacto ambiental. A Microsoft afirmou que o aumento em suas emissões de carbono foi indireto, decorrente da cadeia de produção, não de sua atividade principal, e que toma medidas para a redução, como exigir de fornecedores de grande escala o uso de energia limpa.

O Google diz que seus data centers têm eficiência energética de 1,5 vez a média do setor e que, em comparação com cinco anos atrás, tem quase três vezes mais poder computacional com o mesmo consumo de energia. A OpenAI não respondeu.

(com The New York Times)

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2024/06/16/inteligencia-artificial-exigira-energia-de-dois-brasis-ate-2026-veja-por-que-a-tecnologia-demanda-tanto.ghtml

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O Brasil e a pressão sobre minerais críticos

Intensificação da rivalidade entre EUA China elevará pressões sobre produtores como Brasil

Por Assis Moreira – Valor – 23/05/2024 

A intensificação da rivalidade geopolítica entre os Estados Unidos e a China transborda para o campo dos minerais essenciais, sem surpresa, e elevará as pressões sobre produtores como o Brasil.

Minerais críticos como terras raras, lítio, cobalto e nióbio são essenciais para muitas tecnologias modernas e para a segurança nacional e econômica. E diferentes países fazem uma corrida para garantir suprimento que assegure suas ambições econômicas e ambientais.

A China domina atualmente o processamento global de minerais essenciais muito procurados para a fabricação de baterias para veículos elétricos e armazenamento de energia renovável. De seu lado, os EUA negociam acordos com mais países para expandir seu acesso a esses minerais importantes.

Com produção nacional limitada, tanto os Estados Unidos quanto a Europa dependem muito das importações, incluindo da China, fornecedora de commodities como grafite, elementos de terras raras e outros minerais para baterias, e da Rússia, que fornece alumínio, níquel e titânio.

Washington e Bruxelas procuram assim atrair países em desenvolvimento para parcerias visando “alinhar’” medidas sobre fornecimento de matérias-primas críticas. Pelo recentemente lançado Fórum de Parceria para Segurança de Minerais, dizem ter nova e potencialmente melhor oferta que criaria mais valor agregado nesses países.

O Brasil é o maior produtor mundial de nióbio, com 92% do total, conforme estudo da UE. O produto serve para aplicações de alta tecnologia (condensadores, supercomputadores etc.). Também produz 13% da bauxita no mundo, para produção de alumínio; 8% do grafite natural, usado para baterias e material para produção de aço; e 9% do tântalo mundial, que serve para superligas e compensadores para dispositivos eletrônicos.

Os EUA têm insistido em obter do Brasil um compromisso de o país não restringir exportações dos minerais críticos. Os americanos negociaram também com a UE, anunciaram acordo com a Índia que ninguém viu o conteúdo e têm um acordo com a Austrália que não inclui não restringir a venda.

Nesse contexto, uma recente declaração da embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Elizabeth Bagley, de que os EUA pretendem comprar minerais críticos do país, deflagrou sinal de alerta em círculos do governo em Brasília. A fala foi vista como nada trivial do tipo “queremos minerais críticos”, ou seja, ter simplesmente o acesso. Já o objetivo destacado em Brasília vai na outra direção, de estimular o processamento e agregação de valor dessas commodities no país.

Ou seja, não é só resistência a compromisso de não restringir exportações. Sobretudo, existe a noção de que o tema deve ser tratado de maneira estratégica e preservar espaço de política pública para uma questão ainda está sendo definida.

A União Europeia também busca explorar com o Brasil uma parceria estratégica em matérias-primas críticas para a transição verde e digital. E, conforme relatos, esse foi um dos temas que levaram o governo de Lula 3.0 a rediscutir o acordo Mercosul-UE, com avaliação de que o pacote negociado no governo anterior não era palatável porque proibia qualquer restrição de acesso a esses minerais críticos.

Em termos de investimentos para produção local, até agora as cifras são irrisórias. No fim de 2022, Joe Biden anunciou que uma agência americana faria novo investimento de US$ 30 milhões (R$ 158 milhões) na empresa de mineração TechMet para transformação de minerais estratégicos níquel e cobalto no Brasil.

Estudo da Unctad, agora rebatizada de ONU Comércio e Desenvolvimento, sugere aos países em desenvolvimento focar efetivamente no valor agregado em componentes de energia renovável, para reforçar seus setores industriais, diversificar suas economias e redefinir seu papel na economia global.

Exemplifica com o caso da República Democrática do Congo, no qual a China tem acesso a várias commodities importantes. Com o refino local do cobalto, o país reforçou os ganhos, de US$ 5,6 por quilo na extração para US$ 16,2 após processamento.

Com alta da emergência climática, demanda aumentando para tecnologias renováveis como carros elétricos, placas solares e turbinas eólicas, a agência da ONU projeta que a demanda de lítio aumentará em até 1.500% até 2050, com idêntica alta para níquel, cobalto e cobre.

A oferta não acompanha a demanda e em algum momento haverá uma crise. A Unctad identificou 110 novos projetos de mineração globalmente, no valor de US$ 39 bilhões, com US$ 22 bilhões investidos em 22 projetos em países em desenvolvimento.

No entanto, para alcançar a meta de emissões líquidas zero em 2030, a indústria pode precisar de 80 novas minas de cobre, 70 novas minas de lítio e níquel e outras 30 de cobalto. O investimento necessário entre 2022-2030 varia de US$ 360 bilhões a US$ 450 bilhões, potencialmente resultando um “gap” de até US$ 270 bilhões.

De seu lado, a Organização Mundial do Comércio (OMC) constata que a forte demanda de minerais críticos ligados à energia exerce uma pressão sobre as cadeias de fornecimento. Nos últimos 20 anos, o montante do comércio anual desses minerais ligados à energia pulou de US$ 53 bilhões para US$ 378 bilhões.

Ao mesmo tempo, as restrições à exportação aumentaram, passando de 396 medidas em 2009 para 489 em 2012 e 502 em 2021, com pressões à alta sobre os preços mundiais e inquietações sobre a segurança do fornecimento.

Assis Moreira é correspondente em Genebra e escreve quinzenalmente

E-mail: assis.moreira@valor.com.br

https://valor.globo.com/brasil/coluna/o-brasil-e-a-pressao-sobre-minerais-criticos.ghtml

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Bill Gates avança com projeto nuclear destinado a revolucionar a geração de energia

Em Wyoming, Bill Gates avança com projeto nuclear destinado a revolucionar a geração de energia

Por Jennifer Mcdermott (Estadão/Associated Press) – 12/06/2024 

Bill Gates e sua empresa de energia estão iniciando a construção de uma usina nuclear de última geração no Wyoming, que ele acredita que “revolucionará” a forma como a energia é gerada.

Gates esteve na pequena comunidade de Kemmerer na segunda-feira, 10, para iniciar a construção do projeto. O cofundador da Microsoft é presidente da TerraPower. A empresa solicitou à Comissão Reguladora Nuclear em março uma licença de construção para um reator nuclear avançado que usa sódio, e não água, para resfriamento. Se aprovado, ele funcionaria como uma usina nuclear comercial.

O local é adjacente à Usina Elétrica Naughton, da PacifiCorp, que deixará de queimar carvão em 2026 e gás natural uma década depois, informou a empresa de serviços públicos. Os reatores nucleares operam sem emitir gases de efeito estufa que aquecem o planeta. A PacifiCorp planeja obter energia livre de carbono do reator e diz que está avaliando a quantidade de energia nuclear a ser incluída em seu planejamento de longo prazo.

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O trabalho iniciado na segunda-feira tem o objetivo de preparar o local para que a TerraPower possa construir o reator o mais rápido possível, caso sua licença seja aprovada. A Rússia está na vanguarda do desenvolvimento de reatores resfriados a sódio.

Bill Gates participa de lançamento da obra de usina nuclear com reator avançado

Bill Gates participa de lançamento da obra de usina nuclear com reator avançado Foto: BILL GATES VIA FACEBOOK

Gates disse ao público presente na cerimônia de abertura de terra que eles estavam “pisando no que em breve será o alicerce do futuro energético dos Estados Unidos”.

“Esse é um grande passo em direção à energia segura, abundante e sem carbono”, disse Gates. “E é importante para o futuro deste país que projetos como esse sejam bem-sucedidos.”

Os reatores avançados normalmente usam um líquido de esfriamento diferente da água e operam em pressões mais baixas e temperaturas mais altas. Essa tecnologia existe há décadas, mas os Estados Unidos continuaram a construir grandes reatores convencionais resfriados a água como usinas elétricas comerciais. O projeto de Wyoming é o primeiro em cerca de quatro décadas em que uma empresa tenta colocar um reator avançado em funcionamento como uma usina comercial nos Estados Unidos, de acordo com a NRC.

Chegou a hora de mudar para a tecnologia nuclear avançada que utiliza os modelos computacionais mais recentes e de física para um projeto de usina mais simples, mais barato, mais seguro e mais eficiente, disse Chris Levesque, presidente e CEO da empresa.

O projeto de demonstração do Natrium da TerraPower é um projeto de reator rápido resfriado a sódio com um sistema de armazenamento de energia de sal fundido.

“A tradição do setor não tem sido de inovar. E isso foi bom para a confiabilidade”, disse Levesque em uma entrevista. “Mas as demandas de eletricidade que estamos vendo para as próximas décadas e também para corrigir os problemas de custo com a energia nuclear atual, nós, da TerraPower, e nossos fundadores, realmente sentimos que era hora de inovar.”

Uma empresa de serviços públicos da Geórgia acabou de concluir os dois primeiros reatores americanos construídos do zero em uma geração, a um custo de quase US$ 35 bilhões. O preço da expansão da Usina Vogtle de dois reatores tradicionais de grande porte para quatro inclui US$ 11 bilhões em custos excedentes.

Espera-se que o projeto TerraPower custe até US$ 4 bilhões, metade dos quais provenientes do Departamento de Energia dos EUA. Levesque disse que esse valor inclui custos inéditos para projetar e licenciar o reator, de modo que os futuros custarão muito menos.

A maioria dos reatores nucleares avançados em desenvolvimento nos EUA depende de um tipo de combustível – conhecido como urânio de baixo enriquecimento de alto teor – enriquecido com uma porcentagem maior do isótopo urânio-235 do que o combustível usado pelos reatores convencionais.

A TerraPower adiou sua data de lançamento em Wyoming em dois anos, para 2030, porque a Rússia é o único fornecedor comercial do combustível e está trabalhando com outras empresas para desenvolver suprimentos alternativos. O Departamento de Energia dos EUA está trabalhando para desenvolvê-lo internamente.

Edwin Lyman é coautor de um artigo publicado na Science na semana passada que levanta a preocupação de que esse combustível possa ser usado para armas nucleares. Lyman, diretor de segurança de energia nuclear da Union of Concerned Scientists, disse que o risco representado pelo Haleu (urânio baixo enriquecido) atualmente é pequeno porque não há muito desse combustível no mundo.

Mas isso mudará se os projetos de reatores avançados, que exigem quantidades muito maiores, forem adiante, acrescentou. Lyman disse que quer aumentar a conscientização sobre o perigo na esperança de que a comunidade internacional reforce a segurança em torno do combustível.

O porta-voz da NRC, Scott Burnell, disse que a agência está confiante de que seus requisitos atuais manterão a segurança e a proteção pública de todos os reatores que forem construídos e de seu combustível.

Gates cofundou a TerraPower em 2008 como uma forma de o setor privado impulsionar a energia nuclear avançada para fornecer energia segura, abundante e livre de carbono.

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O reator de 345 megawatts (MW) da empresa poderia gerar até 500 megawatts (MW) em seu pico, o suficiente para abastecer até 400 mil residências. A TerraPower disse que seus primeiros reatores se concentrarão no fornecimento de eletricidade. Mas ela prevê que os futuros reatores poderão ser construídos perto de plantas industriais para fornecer calor elevado.

Atualmente, quase todos os processos industriais que requerem muito calor o obtêm por meio da queima de combustíveis fósseis. O calor de reatores avançados poderia ser usado para produzir hidrogênio, produtos petroquímicos, amônia e fertilizantes, disse John Kotek, do Nuclear Energy Institute.

É significativo que Gates, um inovador tecnológico e defensor do clima, esteja apostando na energia nuclear para enfrentar a crise climática, acrescentou Kotek, vice-presidente sênior de políticas do grupo industrial.

“Acho que isso ajudou a abrir os olhos das pessoas para o papel que a energia nuclear desempenha hoje e pode desempenhar no futuro no combate às emissões de carbono”, disse ele. “Há um enorme impulso para a construção de novas usinas nucleares nos EUA e o uso potencial de uma gama muito mais ampla de tecnologia de energia nuclear do que vimos em décadas.”

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/bill-gates-projeto-nuclear-geracao-de-energia/

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No que a inteligência humana ainda é capaz de superar a inteligência artificial

A curiosidade, a inteligência emocional e a capacidade de aprender com os erros podem nos dar uma grande vantagem sobre a IA


Eric Markowitz – Fast Company Brasil –  18-05-2024 

Em 1928, o cientista escocês Alexander Fleming retornou de suas férias de duas semanas e percebeu que havia cometido um grande erro. Na pressa para sair de folga, ele deixou uma pilha de placas de Petri em sua mesa. Quando começou a limpá-las, algo incomum chamou sua atenção: um mofo havia se formado ao redor das bactérias em uma delas.

Ao examinar mais de perto, Fleming fez uma descoberta surpreendente. O mofo não estava apenas crescendo – ele estava inibindo ativamente a disseminação das bactérias. Essa observação levou o cientista a se perguntar se o mofo poderia ser usado para combater infecções.

Nas semanas seguintes, seus experimentos com essa substância levaram ao desenvolvimento da penicilina, revolucionando o tratamento de doenças infecciosas e salvando mais de 500 milhões de vidas ao longo do último século.

Essa história improvável da origem da penicilina ilustra a importância da criatividade humana, mesmo na era da inteligência artificial. No ano passado, os temores de que a IA possa acabar com muitos dos empregos de hoje aumentaram consideravelmente. O FMI, por exemplo, divulgou que até 40% dos empregos estão em risco devido à tecnologia.

Isso levanta uma questão fundamental: se o poder computacional da IA generativa continuar a crescer, o cérebro humano ainda terá vantagem em alguma área? A resposta pode estar na história de Fleming: a capacidade de cometer erros e aprender com eles é uma fonte de inovação.

A falibilidade humana, em vez de ser uma desvantagem, é um trunfo quando se trata de criatividade. É nossa capacidade de abraçar a aleatoriedade, a sorte e a flexibilidade que muitas vezes leva a avanços.

Enquanto a IA é excelente em eficiência e poder computacional, os humanos são processadores de informações lentos e, às vezes, ineficientes. Mas o que nos falta em velocidade, ganhamos em liberdade – a capacidade de ignorar a sabedoria convencional em busca da originalidade.

O potencial para grandes inovações é impulsionado por uma mistura de culturas e experiências humanas únicas.

Tomemos como exemplo os investimentos financeiros. Não há dúvida de que a IA se tornará muito mais capaz do que qualquer indivíduo em processar e interpretar grandes quantidades de dados da indústria e das empresas. E poderá até reagir mais racionalmente do que um humano durante períodos de volatilidade no mercado.

Mas, nos investimentos – assim como em muitas outras áreas –, um melhor desempenho muitas vezes depende de um pensamento não convencional e de ir contra a corrente. Na verdade, conforme as ferramentas de IA se tornam mais eficientes em coletar informações e dados, mais importante se torna a intuição humana.

E isso vale para outras áreas, como o jornalismo: embora a inteligência artificial possa tornar o processo de apuração mais eficiente, simplesmente reproduzir comunicados de imprensa de empresas e compilar dados existentes não renderá nenhum prêmio de jornalismo.

Dedicar tempo, conversar com fontes, ir pessoalmente até o local muitas vezes é necessário para chegar às raízes mais profundas de uma história. Um jornalista pode, por exemplo, detectar um tique nervoso ou ler certos sinais visuais de um CEO cauteloso, o que pode inspirá-lo a investigar mais a fundo. Ou talvez um encontro com uma fonte possa deixá-la confortável o suficiente para compartilhar informações sensíveis.

conforme as ferramentas de IA se tornam mais eficientes em coletar informações e dados, mais importante se torna a intuição humana.

A importância de habilidades como estas – como compaixão, inteligência emocional, sensibilidade intercultural e pensamento estratégico – está aumentando. No mínimo, elas se tornarão cada vez mais raras em um cenário dominado por sistemas de IA. A tecnologia ainda não é capaz de interpretar dinâmicas sociais complexas.

Consideremos conceitos como arte e felicidade. Por um lado, sim, a inteligência artificial será capaz de regurgitar grandes quantidades de informações sobre os artistas e cineastas mais famosos do mundo. Ela saberá a receita de cada prato já criado. E terá o poder computacional para conhecer todas as músicas que existem.

Mas será que saberá como é passear pelos vastos salões do Louvre? O gosto de uma comida caseira? Será capaz de entender a emoção de ver um músico no palco cantando para milhares de fãs?

Este é o ponto principal, considerando que vários estudos associam a felicidade a uma maior capacidade de gerar novas ideias. Simone Ritter, que estuda a relação entre o cérebro e a criatividade humana, descobriu em um estudo de 2017 que ouvir músicas “alegres” pode levar a um pensamento mais criativo.

Para aqueles que estão preocupados com a IA, a solução talvez seja se apoiar nas características que nos tornam humanos. O potencial para grandes inovações – desde o Renascimento italiano até a invenção da internet – é impulsionado por uma mistura de culturas e experiências humanas únicas.

Isso nos dá uma enorme vantagem – pelo menos por enquanto.


SOBRE O AUTOR

Eric Markowitz é diretor de pesquisa na Nightview Capital. saiba mais


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O futuro das indústrias na era da disrupção sistêmica

As “indústrias” ou “setores” bem delineados do passado estão desaparecendo. Os líderes precisam de novos filtros para avaliar as empresas e os seus cenários em constante evolução no mundo liminar de hoje.

O que você encontrará neste artigo:

– A convergência das indústrias
– Os seis paradigmas da nova era da indústria
– Fundamentos de empresas de tecnologia
– Narrativa como superpoder

by Roger Spitz – MIT Technology Review – junho 5, 2024

O que é o AirBnB? Um gigante do setor de consumo ou um player imobiliário? Uma alternativa à hotelaria ou um marketplace online? É uma empresa inovadora de tecnologia para viagens ou uma líder em hospitalidade voltada à comunidade?

E a Apple? Pode ser definida como uma empresa de produtos eletrônicos de consumo, saúde, tecnologia, pagamentos, entretenimento, aplicativos, software, hardware ou IA? A Tesla é uma fabricante automotiva, uma empresa de energia limpa, uma produtora de baterias, uma marca de estilo de vida, uma empresa de robótica, uma empresa de IA ou uma influenciadora?

As fronteiras entre os setores, antes delimitadas, estão se mesclando. Da agricultura à construção, as indústrias estão convergindo, fundindo-se e transformando-se. Mercados verticais antes separados agora colaboram em novos ecossistemas, desafiando as classificações tradicionais. Líderes, investidores e analistas precisam adotar novos filtros para avaliar as empresas e seus campos.

Seis paradigmas estão empurrando as indústrias para longe das suas definições prontas:

  1. Transformação radical: os negócios estão se transformando em sua essência, impulsionados por tecnologias convergentes. Estão ocorrendo mudanças radicais nas cadeias de valor, criando campos inteiros nesse processo.
  2. Muita complexidade para ser reduzida: subsegmentos categóricos e rígidos não refletem o nosso mundo complexo, onde tudo está interligado.
  3. Ciclos de vida compactados impulsionam o fim das tendências: à medida que o ritmo das mudanças se acelera, os ciclos de vida do setor se compactam.
  4. Além das fronteiras tradicionais: observe novos padrões na margem; novos campos começam na periferia.
  5. Ecossistemas perturbam os sistemas econômicos: com modelos de negócios como sistema, os concorrentes se transformam em parceiros, os fornecedores se tornam investidores e os clientes projetam seu futuro com você.
  6. Campos mínimos viáveis (MVF): a tecnologia, a transição energética e o poder envolvente das narrativas da mídia definirão todas as empresas.

Os seis paradigmas da nova era da indústria

1. Transformação radical: da automação à cognição
A cognição, a combinação inteligente da Internet das Coisas (IoT), o 5G, os sensores, a robótica e a IA tornam tudo cada vez mais inteligente por meio da conectividade. Qualquer coisa que possa ser automatizada, cognificada, descentralizada, digitalizada, desintermediada ou virtualizada será. Essas mudanças vão redistribuir bilhões de dólares em valor, à medida que todos os aspectos da economia (desde as indústrias até as profissões) são radicalmente transformados.

Anos de automação industrial estão amadurecendo em uma transformação radical. Os ambientes não só se tornam automatizados, como também desenvolvem a capacidade de aprender e de se adaptar por meio da IA, combinada com interações entre humanos e robôs.

A fusão de aprendizado de máquina, engenharia genética e robótica está revolucionando a descoberta de medicamentos, à medida que plataformas de IA em biotecnologia transformam radicalmente a indústria farmacêutica. Da mesma forma, no setor de tecnologia de alimentos, o desenvolvimento de plataformas mantidas por IA permite a criação de fontes alternativas de proteínas e nutrientes cultivados em laboratório.

A NotCo é uma startup chilena que usou aprendizagem de máquina baseada em IA para desenvolver Giuseppe, um “chef” de cozinha. que substitui ingredientes convencionais por outros à base de plantas. Alguns ingredientes podem parecer ilógicos até mesmo para as equipes humanas mais experientes em pesquisa e desenvolvimento.

O NotMilk, leite vegetal da NotCo à base de proteína de ervilha, é vendido em milhares de lojas nos EUA. O conjunto de dados proprietários cada vez maior da NotCo (perfis de sabores de milhares de ingredientes vegetais) tem um foco em B2B para acelerar a pesquisa e desenvolvimento de marcas de alimentos, fornecedores de ingredientes e provedores de tecnologia.

A NotCo é uma empresa de tecnologia de alimentos, uma empresa do setor de consumo, uma produtora de laticínios, uma fabricante de alimentos, uma empresa agrícola, uma empresa de tecnologia, uma plataforma de IA ou um algoritmo?

Convergências semelhantes de tecnologias autorreforçadas estão redefinindo indústrias inteiras, desde alimentação até construção e setor automotivo. No processo, esses “setores” radicalmente transformadores podem começar a assemelhar-se uns aos outros.

2. O mundo é complexo demais para ser redutível
Como um mecanismo de relógio meticulosamente elaborado, a visão newtoniana do mundo apresenta um universo em que podemos dissecar e remontar as suas partes constituintes. Durante séculos, essa perspectiva ressoou na nossa compreensão dos negócios e das indústrias, com a crença de que sistemas previsíveis governavam ambos.

No entanto, uma vez reconhecida a natureza complexa do mundo, a noção de dissecar e remontar partes inteiras de indústrias como se fossem de Lego é ilusória. Não podemos mais tratar os transportes, a energia, o setor aeroespacial, os materiais, a tecnologia ou a urbanização como elementos separados, porque eles estão profundamente interligados. Embora a física newtoniana nos sirva bem para construir pontes e lançar foguetes, o nosso ambiente complexo não pode ser reduzido a partes isoladas para construir as cidades vivas e sustentáveis do amanhã.

Diagrama que contrasta a visão de um mundo ordenado com a realidade complexa. À esquerda, uma tabela intitulada 'Ilusão de um mundo ordenado' lista setores tradicionais, como Tecnologia, Mídia, Telecomunicação, Setor bancário, Finanças, Seguros, Assistência médica, Setor médico, Setor farmacêutico, Setor automotivo, Setor aeroespacial, Transporte, Energia, Petróleo e gás, Serviços de utilidade pública, Bens de consumo, Varejo, Logística, Setor imobiliário, Infraestrutura, Setor industrial, Agricultura, Produtos químicos, e Alimentos e bebidas. À direita, uma estrutura poligonal com múltiplas conexões intitulada 'A realidade complexa não pode ser reduzida' apresenta elementos interconectados como Dados e informações, Plataformas e redes, Digital, Tecnologia, Sintéticos, Biotecnologia, Virtual, XR e metaverso, Softwares inteligentes, IA, quântica e aprendizagem profunda, Sistemas descentralizados, Materiais vivos, Impressão em 3D, Automação e robótica, Nanotecnologia, Hiperconectividade, e Natureza e transição energética. Fonte: Disruptive Futures Institute.Figura 1: O mundo é complexo demais para ser redutível

3. Ciclos de vida compactados
O aumento da hipervelocidade tem implicações profundas no panorama das indústrias. Esta era de ciclos de vida compactados reduz a vida útil dos produtos, substituindo-os por minitendências rápidas que transformam a dinâmica das indústrias.

Os efeitos da rede e a digitalização remodelam os setores. O que costumava levar décadas agora leva meses (ou semanas). Isso reduz os custos de desenvolvimento e democratiza a capacidade dos atores emergentes lançarem novos produtos e ideias. Fronteiras tradicionais se desintegram à medida que empresas emergentes em hipercrescimento contornam estruturas legadas e eliminam intermediários das cadeias de valor.

4. Além das fronteiras tradicionais
Ao limitar nossa análise competitiva a setores específicos da maneira como estão hoje, corremos o risco de perder o foco.

O Slack liderou o segmento de software de colaboração em equipe, criando a base da comunicação moderna no local de trabalho. Zoom, WhatsApp e WeChat reinventaram a comunicação com novos modelos de negócios às custas de antigos líderes do setor, como Ericsson, Nokia, AT&T e Vodafone.

Apesar das suas vantagens financeiras e estratégicas, os líderes estabelecidos dos setores não são os que mais inovam. Em vez disso, quem vem de fora é que rompe barreiras. A Beyond Meat e a Impossible Foods lideraram o avanço no segmento de proteínas alternativas, desafiando as indústrias de carne e laticínios. Plaid, Square e Stripe revolucionaram os ecossistemas de pagamento online e móvel, desafiando gigantes de processamento tradicionais como JP Morgan, Mastercard ou PayPal. Da mesma forma, fornecedores de direção autônoma e IA de ponta, como Mobileye e NVIDIA, estão impulsionando o futuro dos carros inteligentes. A SpaceX e a Blue Origin surgem como parceiras essenciais para o programa espacial de última geração da NASA, redefinindo o cenário aeroespacial.

Empresas de carnes e laticínios cultivados em laboratório receberam investimento significativo devido à visibilidade junto aos consumidores. Essas mesmas startups também produzem frango, bacon, peixe, sushi, carne Wagyu e foie gras em laboratório. A partir daí, passamos para uma ampla gama de produtos desenvolvidos dessa forma, à medida que a fabricação digital ultrapassa os limites da impressão em 3D, com aplicações que vão desde órgãos bioimpressos até casas.

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Assim como os hambúrgueres e laticínios cultivados em laboratório de hoje em dia, no futuro poderemos criar diamantes sem depender da mineração, bem como produtos farmacêuticos, compostos químicos e medicamentos, ou até mesmo órgãos, em ambientes controlados. No processo de imaginar o que é possível, surgem campos inteiramente novos.

Enquanto você está ocupado lutando por melhorias incrementais, alguém chegará e criará um novo mercado. Essas empresas emergentes e ágeis não apenas vão puxar o seu tapete: elas vão te deixar sem chão.

5. Ecossistemas revolucionam sistemas econômicos
Os ecossistemas confundem os limites dos modelos de negócios fixos. Sem delimitações claras entre as indústrias, pode não haver uma direção estratégica “correta” óbvia. Em um mundo digital, desmaterializado e sem intermediários, não existem concorrentes diretos. Seus concorrentes também podem ser seus maiores parceiros, fornecedores, clientes e investidores.

A Meta fez parceria com a EssilorLuxottica para produzir óculos Ray-Ban inteligentes equipados com IA multimodal, assim como controles de voz, gestos e toque. Os óculos do futuro farão chamadas, transmitirão vídeos e permitirão fazer videoconferência com hologramas, conforme os óculos forem substituindo o smartphone, as opções de entretenimento, os recursos de videoconferência, seu personal trainer e até mesmo o optometrista.

Enquanto isso, a Amazon compete com a UPS ao controlar sua logística, a Fedex lança suas próprias plataformas de comércio eletrônico, a Tesla cria suas próprias soluções de armazenamento de energia e a Apple se torna um fabricante integrado de semicondutores que concebe seu próprio chip de última geração.

As empresas e os seus modelos devem evoluir para apoiar a experimentação, agindo como catalisadores da inovação. Os modelos de negócios como sistema (BMaaS) são ecossistemas emergentes que apoiam a mudança para uma economia sustentável, acolhem a colaboração, o codesenvolvimento e a cocriação, e respondem a desafios sociais complexos aproveitando ecossistemas abertos. Esses BMaaS vivos têm uma capacidade inata de mudar criativamente dentro dos seus ecossistemas.

À medida que os ecossistemas interagem, ocorrem mudanças radicais nos sistemas econômicos.

6. Campos mínimos viáveis (MVF): tecnologia, energia e mídia
Tecnologia, energia e mídia impulsionam todas as empresas: esses grandes temas substituem as convenções dos setores. Toda empresa precisa de um DNA forte nessas três áreas. Chamamos essa combinação de campos mínimos viáveis (MVF):

  • Tecnologia e IA: para permanecerem competitivas, as empresas devem construir desde já recursos tecnológicos avançados, adotando a jornada da IA de “automação” para “transformação” radical. À medida que as tecnologias convergem, as barreiras entre indústrias estabelecidas são destruídas, provocando mudanças fundamentais nas tecnologias subjacentes, nos modelos de negócio e nas cadeias de valor. Setores se interseccionam, dissolvendo as fronteiras tradicionais e permitindo o surgimento de novos campos e combinações.
  • Energia e natureza: todas as empresas precisarão ser inovadoras em transição energética, pois o “verde” é o novo digital. Para mitigar as mudanças climáticas e alcançar a descarbonização, a sustentabilidade transformará todas as atividades (produção, cadeias de suprimentos, pós-vendas) e redefinirá os modelos de negócios, assim como aconteceu com o digital.
  • Mídia e narrativas: com o aumento da conectividade, as empresas precisam ter DNA midiático. O acesso direto às partes interessadas pode ajudar a informar, influenciar e impulsionar narrativas. Alinhar-se em um mundo instantâneo exige uma narrativa impactante. Com a IA gerando preocupações sobre manipulação e vieses, as narrativas genuínas tornam-se ainda mais cruciais. Narrativas autênticas podem inspirar valores sociais e demonstrar responsabilidade, alinhando as aspirações humanas a um futuro transparente e sustentável.

Gráfico intitulado 'MVF: Campos Mínimos Viáveis' com três requisitos para empresas: Recursos técnicos avançados. DNA de energia e natureza. Sagacidade midiática. Direita: Transformação digital para cognitificação. Sustentabilidade ('Greenassance'). Alinhamento de objetivos, percepção e partes interessadas.Figura 2: MVF: campos mínimos viáveis.

Foco nos fundamentos

Embora toda empresa deva adotar a tecnologia, apenas ter “DNA tecnológico” não é suficiente para se tornar uma verdadeira empresa de tecnologia. Uma experiência do usuário sólida, comércio eletrônico com recomendações de IA e efeitos de rede não qualificam necessariamente um negócio como uma empresa de tecnologia nem justificam avaliações financeiras infundadas.

Os observadores de mercado mais exigentes não devem perder de vista os fundamentos ao avaliarem marcas da internet que queimam dinheiro para impulsionar um crescimento superficial de curto prazo em mercados quase sem barreiras de entrada. Vender carros usados, móveis ou mantimentos online não torna valioso um negócio de baixa margem voltado ao consumidor.

A criação de valor surge com mudanças fundamentais no mercado, propriedade intelectual relevante e adoção sólida pelo mercado, aliada a uma economia unitária atraente em escala. Para serem sustentáveis, os modelos de negócio orientados por tecnologia precisam de receitas recorrentes e fluxos de caixa positivos.

A tecnologia e a IA são ingredientes essenciais, mas não existe uma fórmula mágica para se manter competitivo no mundo de hoje. Nenhum algoritmo pode salvar uma oferta insípida de produtos irrelevantes ou preços insustentáveis.

Narrativa como superpoder

Compartilhar mensagens autênticas e antecipar informações erradas que possam surgir sobre o seu negócio é fundamental. Ser transparente e proativo é uma estratégia central quando a percepção é tudo e a informação se amplifica em alta velocidade.

Informações, narrativas e desinformação afetam profundamente os lucros. Quando as partes interessadas, os consumidores e os funcionários entendem a história, confiam na visão e respeitam os valores, é mais provável que aceitem as suas ofertas.

Narrativas bem construídas são naturalmente atraentes. Uma pesquisa do neuroeconomista Paul Zak descobriu que um neuroquímico chamado ocitocina serve como um importante sinal neural de que é “seguro se aproximar dos outros”. A ocitocina é produzida quando há confiança e gentileza entre os indivíduos, o que motiva a colaboração. As histórias certas provocam a síntese da ocitocina, aumentando a nossa empatia.

Na nossa era de meios de comunicação manipulados, compreender como a informação molda as decisões e cria ou destrói valor é crucial para as empresas.

Setores liminares impulsionam a polinização cruzada

As empresas e os seus respectivos campos estão se tornando mais liminares. Os espaços entre as indústrias estão crescendo e evoluindo.

Agora que a digitalização já amadureceu, todas as empresas precisam se tornar um híbrido digital. Não existe uma “estratégia digital” independente; existe apenas a “estratégia”. Qualquer tipo de marketing inclui marketing digital: não existe “online” versus “offline”. Essa hibridização combina simultaneamente o físico, o digital, o aumentado, o virtualizado e o imersivo.

Para a Amazon, não há distinção entre o streaming do Prime Video e o comércio eletrônico, já que os espectadores podem comprar produtos e roupas dos personagens das séries. Vivemos em um mundo digital de setores híbridos: varejo, entretenimento, educação, físico, digital. Não existe uma “indústria” única: existe o “interdisciplinar”.

À medida que as tecnologias se difundem, elas se tornam indistinguíveis do ambiente que as rodeia. Com os avanços na miniaturização, o poder da computação se torna virtualmente invisível, às vezes até integrado aos nossos corpos. Com o aumento das interações entre campos como a biologia e a nanotecnologia, a tecnologia pode tornar-se indistinguível da natureza.

O futuro é híbrido. Em um mundo liminar, não existem fronteiras entre setores.

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Sobre o autor

Por Roger Spitz, autor best-seller da série em quatro volumes The Definitive Guide to Thriving on Disruption e Disrupt With Impact: Achieve Business Success in an Unpredictable World, dos quais este artigo é derivado. Presidente da Techistential (estratégia prospectiva) e fundador do Disruptive Futures Institute (think tank) em San Francisco, Spitz é consultor especialista da Global Foresight Network do World Economic Forum. Também é sócio da Vektor Partners, um fundo de capital de risco (Palo Alto, Londres), assim como ex-líder global de fusões e aquisições de tecnologia do BNP Paribas, onde prestou consultoria em mais de 50 transações com valor de negócio de US$ 25 bilhões.

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Saneamento precisa de R$ 525,4 bi para a universalização e se volta a projetos resilientes

Índices mostram diferenças regionais e os efeitos da falta de água e coleta de esgoto no futuro de gerações; potencial do Brasil coloca o setor como o mais atraente para receber recursos de infraestrutura

Paula Pacheco – Exame – 23 de maio de 2024 

Há muito o que fazer e as condições indicam ser favoráveis. O setor de saneamento surge como o mais atraente, do ponto de vista do investidor, para receber recursos nos próximos três anos, aponta estudo divulgado em janeiro pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) e a consultoria EY.

Ao todo, 61,5% das respostas dos entrevistados — empresários e especialistas dos setores ligados a desenvolvimento de projetos e investimentos em infraestrutura — citaram o segmento em primeiro lugar, seguido pelo setor de energia elétrica (46,9%) e de rodovias (32,4%), mostra a 10a edição do Barômetro da Infraestrutura no Brasil.

Conta alta

A própria Abdib, por meio de cálculos de seu departamento econômico, mostra que apenas para cumprir a meta de universalização — com rede de água, coleta e tratamento de esgoto para quase a totalidade da população até 2033 — a soma de investimentos em serviços ainda não contratados é da ordem de 197,5 bilhões de reais. Outros 327,9 bilhões de reais já estão encaminhados. Ou seja, o volume total pode atingir 525,4 bilhões de reais.

Quando se analisam com lupa os dados anuais do Instituto Trata Brasil, elaborados com o apoio da GO Associados, o senso de urgência fica ainda mais evidente. O Ranking do Saneamento 2024, divulgado recentemente, mostra que 15,8% da população não tem acesso a água.

Mas há quesitos que revelam uma situação pior: 44,2% não contam com coleta de esgoto, e apenas 51,2% do material gerado no país tem tratamento. Ou seja, 32 milhões de pessoas não têm acesso a água potável e 90 milhões não dispõem de coleta de esgoto.

Demora

Os números do ranking, feito desde 2009, revelam ainda a lentidão com que as melhorias têm sido implementadas. Em um ano, o tratamento de esgoto cresce apenas 1 ponto percentual (p.p.) no Brasil. Ainda segundo o levantamento, cinco capitais da Região Norte e três do Nordeste não tratam nem sequer 35% do esgoto produzido.

Mas e se o Brasil avançar no setor, o que se pode esperar em termos de ganhos? O estudo Benefícios Econômicos e Sociais da Expansão do Saneamento Brasileiro 2022, feito pelo Trata Brasil e pela consultoria EX ANTE, estima que a universalização do saneamento reduziria em 25,1 bilhões de reais as despesas com saúde e ainda teria impacto no aumento da produtividade, com um acrescimento de renda estimado em 22 bilhões  de reais até 2040. Isso porque, segundo cálculos, trabalhadores que residem onde há acesso a saneamento básico têm ganhos 83% maiores do que aqueles que não contam com o mesmo tipo de serviço.

Infraestrutura cidadã em debate

O evento Infraestrutura Cidadã, promovido pela EXAME em 23 de maio, contou com alguns dos maiores entendidos em saneamento, cidadania, finanças e legislação do Brasil e debateu temas como o bem-estar social, questões regulatórias e modelos de parcerias.

Mesmo com números tão preocupantes, Luana Pretto, presidente executiva do Trata Brasil, acredita que as metas de universalização do saneamento são exequíveis, mas desde que as medidas necessárias sejam tomadas hoje. “O problema é que muitas regiões não estão priorizando o tema e não têm o investimento necessário. Com isso, Norte e Nordeste, que já estão para trás nos índices, podem ver a distância ser ainda maior”, afirma a representante do Trata Brasil.

Quem acompanha de perto o tema constata que a principal razão para que tantos brasileiros ainda necessitem de saneamento é a própria característica do serviço. Como lembra Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU-Rede Brasil, “muitos ainda acreditam que cano enterrado não dá voto”. Mas a pressão popular por melhorias, avalia, pode ser o principal impulsionador dos avanços no setor.

Desembolso

Pereira concorda que os custos são elevados para ampliar as redes de água e esgoto, mas pondera que os benefícios são “absurdamente superiores aos gastos”. “Se as pessoas tivessem clareza quanto aos benefícios, certamente a pressão sobre os políticos seria muito maior”, diz. Luana Pretto completa: “Mais do que dignidade, trata-se da possibilidade de ter um futuro”.

Entre os prejuízos com a falta de água na torneira e esgoto coletado e tratado, lembra o CEO do Pacto Global, estão problemas de saúde decorrentes de contaminações, que refletem no baixo aprendizado das crianças e no absenteísmo no trabalho. “Para mim, o maior acelerador de desenvolvimento no Brasil é o saneamento.”

Os números coletados pelo Trata Brasil confirmam as diferenças. Na Região Norte, o investimento médio anual per capita no saneamento é de 57 reais, enquanto no Sudeste o valor chega a 130 reais. Quando se chega ao detalhe, a situação fica ainda pior. O Acre gasta apenas 3 reais por habitante, por exemplo. A recomendação seria um gasto nacional por ano de 231 reais por habitante. Ou seja, nem mesmo quem desembolsa mais está perto do ideal.

Resiliência às catástrofes climáticas

Além da vontade política, o avanço do saneamento passa pelo interesse dos investidores em direcionar aportes para projetos do setor. Como explica Karla Bertocco, sócia da Jive Mauá e presidente do conselho de administração da Sabesp, existe a necessidade de um volume brutal de recursos.

Com a catástrofe climática recente no Rio Grande do Sul, questões relacionadas ao destino da água e do esgoto e ao modelo de contrato das concessionárias ganharam ainda mais visibilidade, analisa Bertocco. Segundo Pereira, após catástrofes como a que atingiu os gaúchos, a percepção sobre a necessidade de saneamento mudou para a população e, como consequência, para os governantes.

“Não se trata mais só da universalização, mas da necessidade de os investimentos serem resilientes. Paralelamente, será preciso discutir sobre os contratos e as revisões extraordinárias. Com a regulação contratual, será inevitável que haja um momento de reequilíbrio das contas”, explica a sócia da Jive Mauá.

“O que aconteceu no Rio Grande do Sul vai levar o sanea­mento a um patamar nunca visto. Haverá mais pressão com o tema em destaque. A iniciativa privada e os governos sabem que terão de mudar para não passar pela mesma situação novamente. Isso só será possível com uma análise mais profunda das questões climáticas nas tomadas de decisão”, destaca Édison Carlos, presidente do Instituto Aegea.

De acordo com a executiva do Trata Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também tem assumido um papel relevante para o avanço do processo de universalização por meio do estudo do melhor modelo de gestão, apresentando alternativas e ações dos pontos de vista legislativo, técnico-econômico e financeiro.

Luana Pretto avalia que, com mais aportes públicos nas empresas de saneamento, os avanços seriam mais rápidos. Mas a executiva sabe das dificuldades da União com as questões orçamentárias. “As diferenças são enormes. Enquanto existem empresas super-rentáveis, como no Paraná e em São Paulo, que fazem investimentos, outras não se sustentam na operação, na maioria das vezes não conseguem rentabilizar o negócio porque são ineficientes, com perdas muito elevadas.” Há cidades no Norte, acrescenta a executiva, em que as perdas de água chegam a 77%.

Otimismo

Diretor de Sustentabilidade do UBS BB para a América Latina, Frederic de Mariz explica que, com uma necessidade de investimentos bilionários, o setor financeiro público e o privado, tanto nacionais quanto internacionais, serão importantes para alavancar a expansão dos serviços de água e esgoto no Brasil. Apesar das diferenças regionais, o executivo diz ter uma visão otimista.

“Quando converso com investidores estrangeiros, fica muito claro que a água e o saneamento fazem parte tanto do E quanto do S do ESG. Claro que é difícil para os investidores que não convivem com essa realidade entender o tamanho do problema, e surgem algumas dúvidas. Por exemplo, será preciso renunciar ao retorno financeiro?”, pontua Mariz. A resposta do diretor do UBS BB é “não”.

Segundo Mariz, os investimentos nos patamares exigidos para avançar com o saneamento no Brasil precisam de um retorno adequado com o mercado.

“Não há volume de dinheiro público ou filantropia que chegaria à universalização. Com isso, as empresas e os investidores têm uma oportunidade grande, de crescimento inclusivo, com setores ligados ao ESG e potencial de crescimento com retornos financeiros”, explica.

O diretor do UBS BB avalia que, apesar de o mercado financeiro estar um pouco menos aberto agora por causa de questões geo­políticas e por influência dos juros, está mantida uma visão otimista para o segundo semestre. Sua recomendação aos que pensam em fazer captações para investimento no setor de saneamento é manter contato permanente com os investidores e ter todo o processo pronto para quando chegar o melhor momento de buscar recursos.

Acesso e custo

Ewerton Pereira Garcia, diretor da operação Tigre Água e Efluentes (TAE), explica que as tecnologias disponíveis hoje na TAE permitem combinar o baixo investimento ao desenvolvimento de projetos de saneamento em áreas de difícil acesso, em um prazo menor. O Unifam e o Multifam são estações unifamiliares para regiões e comunidades isoladas onde a rede de esgoto tem dificuldade de acesso por causa de questões técnicas e econômicas.

A instalação já está em operação em diferentes localidades, como em comunidades à beira da Represa Billings, em São Paulo, em Manaus, em uma colônia de pescadores em Garopaba (SC), Porto Feliz (SP) e no Rio de Janeiro. O custo varia de 4.000 a 8.000 reais por habitação. No caso do Multifam, são atendidas até 2.000 casas. “Esse projeto prova que, quando há tecnologia que permite dar escala, o custo de atendimento cai”, diz Garcia.

Satélite vigia vazamentos

Se o Brasil, por um lado, ainda carrega o atraso nos investimentos em saneamento e as pesadas consequências sociais e ambientais, por outro o que se pode ver em algumas empresas do setor o esforço de melhorar a eficiência com a ajuda em tecnologia de ponta.

 A Aegea decidiu contar com a ajuda das informações captadas via satélite para combater um problema crônico no setor: o desperdício de água causado por vazamentos. Tubulações antigas, obras mal planejadas são algumas das causas para que o Brasil.

 A empresa tem operações em 507 municípios e há cerca de um ano começou a usar uma tecnologia, em parceria com a Climatempo, que aponta, após análise de dados coletados por satélite, onde há vazamento de água. O equipamento consegue diferenciar a água normal daquela tratada pela empresa de saneamento ao mapear a presença de cloro. Os dados são enviados para o Centro de Operações Integradas (COI), que trata as informações e encaminha a demanda para as equipes de campo. A assertividade, atualmente, já é de cerca de 80%.

Expansão

Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, o satélite escaneou 582 Km de rede de água. Apenas nesse perímetro e período, foram encontradas 122 possíveis áreas com vazamentos, também confirmados com o geofone – solução fornecida pela Asterra. O que já foi reparado devolveu ao sistema 158 milhões de litros de água. Até o final dos consertos e trocas de tubulações em curso, o volume de água recuperada poderá abastecer 7 mil habitantes. O objetivo da Águas do Rio, concessionária comandada pela Aegea na região, é expandir o projeto para toda a área de atuação na capital fluminense, além dos 27 municípios atendidos pela empresa.

 Alternativas como a encontrada pela Aegea são importantes. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2022) e o estudo Perdas de Água Potável (2023, Ano Base 2021): Desafios Para a Disponibilidade Hídrica ao Avanço da Eficiência do Saneamento Básico, no processo de distribuição de água para o consumo, os sistemas sofrem perdas de 37,8%, na média nacional. É o equivalente a quase 8 mil piscinas olímpicas que não chegam ao destino. Seria o suficiente para abastecer em torno de 67 milhões de brasileiros por ano, ou seja, pouco mais de 30% da população do país em 2021.

Presidente do Instituto Aegea, Édison Carlos lembra que, apesar de o saneamento ser a infraestrutura mais elementar que a sociedade pode ter e mais próxima da vida da pessoa, ainda há muito a ser feito. “Estamos falando da água potável, algo revolucionário para as pessoas desde que a humanidade existe, além do tratamento do esgoto, que tem um papel fundamental na nossa saúde”, analisa.

https://exame.com/revista-exame/bilhoes-para-tirar-o-atraso/

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