The Economist: Amazon completa 30 anos. O que esperar da empresa daqui para frente?

Do Prime Video à AWS, o império eletrônico está unindo suas diferentes partes

Por Estadão/The Economist – 06/07/2024 

No verão de 1994, uma vaga de emprego para engenheiros de software foi anunciada na Usenet, uma precursora dos fóruns online. A companhia em questão buscava ser “pioneira no comércio na internet”. Os candidatos qualificados deveriam ser aptos a projetar sistemas complexos “em cerca de um terço do tempo que a maioria das pessoas competentes considera possível”. Os currículos deviam ser enviados para Jeff Bezos em uma startup de Seattle chamada Cadabra.

O nome não teve sucesso — em chamadas telefônicas, “Cadabra” era facilmente confundido com “cadáver” —, mas a ambição sim. A Amazon, que celebrou 30 anos em 5 de julho, realmente transformou o mundo das compras online. Este ano, seus sites venderão cerca de US$ 554 bilhões (R$ 3,02 trilhões) em produtos nos Estados Unidos, segundo avaliações do banco JPMorgan Chase. Isso representa uma fatia de 42% do comércio eletrônico americano, muito à frente dos 6% conquistados pelo Walmart, seu concorrente online mais próximo (e o maior varejista do país de modo geral).

E a Amazon não parou de inovar no varejo. Posteriormente, ela inventou o Kindle, um e-reader; Alexa, um dispositivo de som inteligente; e, mais notavelmente, a computação em nuvem — a Amazon Web Services (AWS) tem uma fatia de 31% desse mercado de US$ 300 bilhões (R$ 1,6 trilhão), segundo a Synergy Research, uma empresa de análise de dados. Ela também gerencia o Prime Video, o quarto serviço de streaming de vídeo mais assistido da América.

Seu recente negócio de publicidade de alta margem já é o terceiro maior do mundo, atrás apenas da Alphabet (empresa que controla o Google) e da Meta (do Facebook). Uma subsidiária, a Zoox, está desenvolvendo carros autônomos. Outro projeto audacioso, o Kuiper, está criando uma frota de satélites de comunicação em órbita baixa da Terra, mirando literalmente os céus.

Em 26 de junho, a Amazon recebeu um presente de aniversário antecipado, quando o valor de mercado de seu império tecnológico ultrapassou US$ 2 trilhões (R$ 10,9 trilhões) pela primeira vez. No entanto, como ocorre com todos esses marcos, o 30º aniversário da Amazon não é apenas um momento de celebração de suas conquistas, mas também um ponto de reflexão sobre o futuro. A grande questão para a empresa ao entrar em sua quarta década é como lidar com sua crescente expansão.

Segundo um ex-executivo, as unidades de negócios da Amazon são “bastante independentes” entre si. Isso muitas vezes foi intencional. Inicialmente, a AWS era operada separadamente do resto da Amazon, pois a empresa não queria passar a impressão de que estava vendendo potência computacional extra durante os períodos de baixa atividade da Amazon, diz Rick Villars da IDC, uma empresa de pesquisa.

Mais tarde, Bezos quis separar o negócio de publicidade do comércio eletrônico para que o braço de varejo não se tornasse excessivamente dependente das margens lucrativas da unidade de publicidade. Recentemente, alguns investidores até pediram que o negócio de nuvem fosse totalmente desmembrado, acreditando que isso criaria valor para os acionistas.

Ao invés disso, a quarta década da Amazon parece destinada a ser uma era de integração. A empresa cresceu tanto que qualquer novo investimento significativo se torna caro e de alto risco. Andy Jassy, o ex-chefe da AWS escolhido por Bezos como seu sucessor como CEO em 2021, parece disposto a criar valor integrando de forma mais sólida para os negócios existentes da empresa.

Bezos, que por ora mantém uma participação de 9% e uma grande influência sobre a estratégia, parece aprovar. Essa transformação tornaria a Amazon mais semelhante à Apple e à Microsoft, duas de suas rivais mais antigas de big tech que combinaram e venderam produtos cruzados para dominar o mundo em dispositivos de consumo e software empresarial, respectivamente – e para alcançar avaliações de US$ 3 trilhões (R$ 16,38 trilhões).

Um campo onde Jassy já está trabalhando é o varejo e a publicidade. O elo que une esses dois negócios é o Prime, o serviço de assinatura da Amazon, com cerca de 300 milhões de membros pelo mundo, fornecendo aos compradores entrega gratuita e acesso ao Prime Video.

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Membros do Prime gastam o dobro nos sites da Amazon em comparação aos não membros e tendem a estar conectados com mais frequência. A Amazon também tem informações detalhadas sobre o comportamento de compra deles, o que permite direcionar anúncios com mais precisão.

Os anunciantes estão dispostos a pagar generosamente por esse serviço: analistas estimam que o negócio de publicidade da Amazon tem margens operacionais de cerca de 40%, mais altas até do que o segmento de computação em nuvem, sem falar na divisão muito menos lucrativa de varejo. A maioria desses anúncios, responsáveis por quatro quintos das vendas de anúncios da empresa, está posicionada entre os resultados de pesquisa em seu aplicativo ou ao lado de informações sobre produtos.

Mas uma parcela crescente vem de sites de terceiros e, mais recentemente, do Prime Video. Em janeiro, a Amazon começou a exibir comerciais para espectadores na América, Grã-Bretanha, Canadá e Alemanha.

Espera-se que apenas um em cada sete membros Prime pague a taxa adicional (US$ 3 por mês nos Estados Unidos) para streaming sem anúncios. Isso deixa talvez 260 milhões de membros Prime que são espectadores potenciais de anúncios na plataforma. O JPMorgan Chase estima que os anúncios em vídeo sozinhos aumentarão as vendas de publicidade da Amazon em cerca de 6% este ano, adicionando US$ 3 bilhões (R$ 16,38 bilhões) à receita. Dado as margens lucrativas da operação de publicidade, o impacto no lucro será consideravelmente maior.

Para transformar mais membros Prime em espectadores efetivos de anúncios, a Amazon está investindo pesado em conteúdo. Recentemente, ela fechou um acordo com MrBeast, uma estrela do YouTube, supostamente no valor de US$ 100 milhões (R$ 546 milhões). Ela está tentando fechar um acordo que envolveria o pagamento de US$ 2 bilhões (R$ 10,92 bilhões) por ano pelos direitos de transmissão de jogos da National Basketball Association (NBA) no Prime Video. Ela já está supostamente gastando US$ 1 bilhão (R$ 5,46 bilhões) anualmente para transmitir alguns jogos da National Football League (NFL).

Esse alto custo é considerado justificável pela empresa, pois momentos esportivos populares, como o “Thursday Night Football”, se tornaram os maiores dias de inscrição para o Prime. E, conforme aponta Mike Morton da MoffettNathanson, uma empresa de pesquisa, anúncios veiculados durante eventos esportivos são alguns dos mais lucrativos de todo o mercado publicitário.

A maior tarefa de Jassy diz respeito a integrar mais os negócios de varejo e a AWS. A Prime novamente desempenha um papel, embora menor: a unidade de nuvem ajudou a Prime Video a obter os direitos de transmissão da NFL, pois os termos do acordo exigiam uma infraestrutura de internet ultraconfiável que a AWS poderia fornecer mais facilmente do que seus concorrentes (os fãs de esportes ao vivo não tolerariam buffering).

Outros pontos chave incluem recentes acordos como o feito com a Hyundai, que envolveu tornar a AWS a principal provedora de nuvem da montadora sul-coreana, bem como vender seus veículos nos sites da Amazon. Analistas especulam que o software inteligente da AWS também pode estar auxiliando os 750 mil robôs de armazenamento da operação de varejo na triagem de pacotes dos compradores. E ter um negócio tão vasto quanto o braço de varejo da Amazon como um cliente fixo dá à AWS a confiança para escalar, ajudando a distribuir custos.

O elo mais importante que une os dois principais negócios da Amazon é a Inteligência Artificial Generativa. A maioria dos concorrentes terá dificuldades para igualar o acesso da Amazon a hardware especializado em IA, que é escasso, mas disponível em abundância para ela graças a parcerias comerciais de longo prazo com empresas como a Nvidia, que fabrica semicondutores avançados de IA.

A Amazon já lançou uma série de produtos que utilizam essa tecnologia, incluindo uma ferramenta que resume avaliações de clientes, um assistente de compras virtual e um gerador de imagens para anunciantes. Os vendedores em sua plataforma de e-commerce podem utilizar a mesma tecnologia para acelerar a criação de páginas de listagem de produtos, por exemplo, apontando o software para seu próprio site onde o produto já foi vendido.

O emergente negócio de farmácias da Amazon está usando IA generativa para ajudar na administração de receitas e gestão de estoques de medicamentos. A divisão de varejo, por sua vez, fornece um vasto estoque de dados para treinar modelos de IA, que podem então ser oferecidos aos clientes da AWS.

A crescente integração da empresa pode não agradar a todos. Unificar os negócios de e-commerce, streaming e nuvem pode afastar grandes clientes da AWS, como a Netflix, que compete com a Amazon no streaming, ou a Ocado, uma mercearia online concorrente.

Os reguladores estão ainda mais vigilantes. No ano passado, a Federal Trade Commission (FTC) dos Estados Unidos processou a Amazon, acusando-a de práticas monopolistas, como discriminar vendedores que oferecem produtos mais baratos em outros lugares na internet e bloquear comerciantes em sua rede de atendimento. A agência solicitou penalidades “incluindo, mas não se limitando a, medidas estruturais” – um jargão que no contexto de combate ao monopólio sugere uma separação. A Amazon nega as acusações.

Os investidores parecem desconsiderar tais preocupações. O recente aumento no preço das ações da Amazon não foi afetado pelo processo da FTC. E para cada cliente de nuvem que a AWS perde para rivais como Microsoft Azure ou Google Cloud Platform, ela pode ganhar outro que é afastado pelos novos negócios da Microsoft e do Google em seus próprios impérios cada vez mais integrados.

Na verdade, o maior risco para a Amazon continuar prosperando como uma empresa na casa dos trinta não é a vigilância antitruste ou clientes de computação em nuvem insatisfeitos. É a concorrência. A Alphabet, maior empresa de publicidade do mundo e dona do YouTube, e a Meta estão mais uma vez tentando entrar no negócio de comércio eletrônico.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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Por que Brasil é central no plano bilionário da Arábia Saudita de investimentos na América Latina

Região concentra recursos naturais e fontes de energia limpa, e sauditas se preparam para transição energética

Guillermo D. Olmo Lima | Folha/BBC News Brasil – 9.jul.2024

Uma nova potência chegou à América Latina e ao Caribe: a Arábia Saudita. Seguindo as linhas definidas pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman no plano econômico que intitulou de Visão 2030, a monarquia árabe demonstra um interesse crescente na região e aumentou recentemente a sua presença econômica e diplomática. 

Por que Brasil é central no plano bilionário da Arábia Saudita de investimentos na América Latina – Ricardo Stuckert/Divulgação/Presidência da República As exportações sauditas para a América Latina, que, em 2019, atingiram o valor de US$ 2,8 bilhões (R$ 15,2 bilhões), atingiram pouco mais de US$ 4,5 bilhões (R$ 24,5 bilhões) em 2023, uma alta de 38,8%. As importações passaram de US$ 3,8 bilhões (R$ 20,7 bilhões) em 2019 para quase US$ 5 bilhões (R$ 27,2 bilhões) em 2023, um aumento de 23,6%. 

O aquecimento do comércio tem sido acompanhado por crescentes investimentos sauditas, possibilitados pelo grande capital que o país árabe possui graças à sua vasta riqueza petrolífera, o que lhe permite ser um dos maiores exportadores do mundo. 

Parte desse dinheiro começou a fluir para a América Latina e o Caribe. E a crescente relação entre a Arábia Saudita e a região passa, em grande parte, pelo Brasil. Os dois países têm reforçado seus laços econômicos e políticos. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Carregando… As exportações do Brasil, maior parceiro comercial da Arábia Saudita na região, atingiram o nível mais alto dos últimos dez anos em 2023. 

O ministro de Investimentos, Khalid Al-Falih, comunicou, em visita ao Brasil, o desejo de que ambos os países se tornem um dos cinco maiores investidores um do outro, numa cooperação impulsionada “pela evolução do Sul Global e pelos valores partilhados” entre os dois países. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que viajou a Riad, capital da Arábia Saudita, em novembro de 2023, acha que é uma boa ideia. 

“Não estamos interessados apenas em saber quanto os fundos sauditas podem investir no Brasil, mas em quanto os empresários brasileiros podem investir na Arábia Saudita”, disse Lula. Mas não é só o Brasil. A Guiana anunciou em novembro que Riad se comprometeu a investir US$ 2,5 bilhões (R$ 13,6 bilhões) para o desenvolvimento dos países caribenhos nos próximos anos. A Aramco, grupo petrolífero do Estado saudita, adquiriu uma das principais distribuidoras de combustíveis do Chile, onde pretende expandir a sua atividade comercial. Segundo o pesquisador Najad Khouri, do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio, um centro de pesquisas no Brasil, “esses são os primeiros passos de um relacionamento natural”. 

Parece que o relacionamento está avançando. O ministro Khalid Al-Falih fez uma viagem a sete países da região em agosto de 2023 para, disse ele, “explorar oportunidades para fortalecer e aprofundar parcerias de investimento”. 

A VISÃO 2030 DA ARÁBIA SAUDITA 

Ao assumir o trono saudita em 2015, o rei Salman surpreendeu ao fazer do seu sétimo filho, Mohammed bin Salman, que tinha apenas 32 anos na época, o homem forte do governo e passou à frente de todos os seus irmãos nas preferências do pai. Tim Callen, especialista do Instituto de Estudos Árabes do Golfo em Washington (EUA), disse à BBC que Bin Salman “chegou com um plano muito ambicioso para diversificar a economia e reduzir a sua dependência do petróleo, além de transformar a muito conservadora sociedade saudita”. 

Economicamente, o principal objetivo era orientar para um mundo visto como descarbonizado no futuro e gerar empregos para os jovens, uma parte muito importante da sociedade saudita. Segundo Callen, “ainda que a Arábia Saudita demore décadas a se desligar do petróleo — porque tem tanto [petróleo] que pode produzir muito e a custos muito baixos —, tem importantes necessidades energéticas internas e procura desenvolver formas alternativas e mais limpas de energia”. 

Um dos meios para concretizar a estratégia batizada de Visão 2030 tem sido um poderoso fundo soberano saudita, cujos recursos são estimados em cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,4 bilhões). O príncipe e o ministro Al-Falih, encarregado de tornar realidade as diretrizes do palácio, traçaram uma nova estratégia para alocar parte dos enormes investimentos do fundo soberano saudita para outros destinos que não os Estados Unidos, Ásia e Europa, locais onde Riad investe há anos. Por meio de sua Iniciativa de Investimentos Futuros, o fundo começou a organizar o que chama de Cúpulas Prioritárias, reuniões para promover negócios e investimentos na América Latina e no Caribe, cujas primeiras edições foram realizadas no Rio de Janeiro e em Miami (EUA). 

A iniciativa Visão 2030 também prevê uma transformação social e uma abertura ao mundo exterior. Nesse âmbito, Riad começou a permitir a entrada de turistas no país em 2019, quando antes só permitia visitas por motivos religiosos. Um ano antes, havia sido tomada uma das medidas de abertura mais simbólicas num país onde prevalece uma interpretação estrita do Islã: permitir que as mulheres dirijam, algo que até então era proibido. 

POR QUE A ARÁBIA SAUDITA ESTÁ INTERESSADA NA AMÉRICA LATINA E NO CARIBE? 

Najad Khouri, do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio, diz que “a América Latina e o Caribe são destinos interessantes para os investimentos sauditas porque geralmente possuem países estáveis, nos quais não há guerras ou revoluções”. “A América Latina e o Caribe precisam de investimentos e a Arábia Saudita tem muito dinheiro para investir”, afirma. A região também possui alguns dos elementos mais difíceis de encontrar no país árabe desértico, como alguns dos metais que emergem como estratégicos no futuro —por exemplo, lítio, níquel ou cobre. A expectativa é de que eles devem impulsionar a economia mundial quando o petróleo já não fizer isso —e a América do Sul tem depósitos importantes. Embora a riqueza em petróleo torne difícil que este combustível fóssil deixe de ser o principal negócio dos sauditas no curto prazo, eles já começaram a se posicionar para um futuro que parece baseado na eletricidade. 

 Uma das apostas recentes do reino é a Ceer, primeira fabricante de automóveis elétricos saudita, que deve demandar alguns dos minerais sul-americanos. E já hoje, a fértil região da América Latina exporta uma grande quantidade de alimentos e produtos agrícolas para a Arábia Saudita, onde a árida geografia da Península Arábica torna a agricultura muito difícil e cara. 

A América Latina também é uma das regiões por onde flui mais água doce do planeta. A atenção à América Latina e ao Caribe não responde apenas a razões econômicas. A maioria dos governos da América Latina e do Caribe também pertence a países não alinhados com o chamado bloco ocidental. Riad pode contar com o fato de não receber críticas pela forma como lida com os direitos humanos —e isso não será um obstáculo aos seus negócios. 

O reino tem sido alvo de críticas há anos por organizações ocidentais de direitos humanos e de grupos de mulheres que denunciaram a discriminação a que são submetidas no país. O assassinato no consulado saudita em Istambul do jornalista crítico Jamal Kashoggi em 2018, pelo qual o príncipe Bin Salman foi diretamente acusado, prejudicou gravemente a imagem internacional da monarquia árabe e desde então o seu governo tem se dedicado a um esforço para limpá-la por meio de intensas atividades comerciais e diplomáticas. 

Os países da região representam um bom número de votos nas Nações Unidas e nos diferentes fóruns multilaterais, o que indica que esse apoio pode ser uma ferramenta valiosa na tentativa de reabilitação internacional buscada pelo príncipe bin Salman. Há exemplos. Os Estados do bloco caribenho Caricom, que se beneficiaram dos fundos de desenvolvimento da Arábia Saudita, apoiaram a sua candidatura para sediar a feira mundial Expo 2030, disputa que acabou vencida pela Coreia do Sul e pela Itália. 

“Um dos objetivos do príncipe é alcançar uma posição mais central e de liderança no que tem sido chamado de Sul Global”, diz Callen. E uma atividade que desperta paixões em milhões de latino-americanos também desempenha um papel nisso: o futebol. O país árabe tem injetado enormes quantias em seu campeonato nacional, o que atraiu grandes estrelas do futebol internacional, como o português Cristiano Ronaldo, e também sul-americanos, como Neymar, para clubes sauditas. 

 A aproximação entre Riad e Brasília se intensificou nos últimos tempos. Ambos os países já realizaram diversas reuniões bilaterais e o Brasil aceitou o convite da Arábia Saudita para ingressar na Opep+ (grupo de produtores e exportadores de petróleo que se reúne regularmente para decidir quanto petróleo bruto vender no mercado mundial), embora apenas tenha feito isso como observador. 

O Brasil, por sua vez, conseguiu que Riad se juntasse ao grupo Brics —antes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que em 2023 anunciou uma expansão. No entanto, segundo Mohamad Nourad, vice-presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, trata-se mais de “uma relação comercial do que política e isso ocorre porque agora existem boas oportunidades para ambas as partes”. 

Na esfera comercial, o Brasil é o maior exportador para a Arábia Saudita de alimentos halal, aqueles produzidos de acordo com os preceitos do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos. As outras exportações notáveis são açúcar, milho e alimentos de origem animal. Nourad diz que há “um crescente interesse saudita na capacidade brasileira de produzir energia renovável” e espaço para aumentar a cooperação em setores mais tecnológicos, como a fabricação de turbinas eólicas ou a indústria de defesa em geral. 

A gigante mineira brasileira Vale vendeu recentemente uma das suas unidades de negócio ao capital saudita por US$ 2,5 bilhões (R$ 13,6 bilhões) e a Embraer assinou um acordo com o Centro Nacional de Desenvolvimento Industrial da Arábia Saudita, o que pode levar à montagem dos seus aviões no país árabe. Para Najad Khouri, “a relação entre a Arábia Saudita e a América Latina e o Caribe está apenas começando e representa uma boa oportunidade para ambos”. Ainda que, para isso, tenha de superar “obstáculos e limites”, como a distância geográfica e cultural que separa duas áreas muito distantes. 

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/07/por-que-brasil-e-central-no-plano-bilionario-da-arabia-saudita-de-investimentos-na-america-latina.shtml

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O papel da armazenagem na competitividade do agro brasileiro

Brasil armazena apenas 60% de sua produção e situação tem se agravado

Por Marcos Fava Neves – Veja – 31 Maio 2024

O agro brasileiro tem se destacado por sua capacidade de aumentar a produção de forma sustentável e eficiente. Na última década, o país ampliou a produção de grãos em cerca de 133 milhões de toneladas  ao ano. Para termos uma ideia, esse volume corresponde a 45% da produção atual. Embora os resultados sejam positivos, eles trazem consigo um outro desafio que ainda persiste no setor: a necessidade de ampliar a capacidade de armazenamento.

Enquanto a produção saltou 133 milhões de toneladas em 10 anos, a capacidade de armazenamento cresceu apenas em apenas 55 milhões de toneladas, trazendo um déficit de quase 8 milhões de toneladas em armazenagem por ano. Atualmente, o Brasil tem capacidade de manter apenas 60% de sua produção em silos, o que gera cenários de grãos em “céu aberto”, com riscos de perdas por conta de umidade ou altas temperaturas. Em suma, esse cenário reduz nossa competitividade e obriga os agricultores a serem mais imediatistas na comercialização (“vender logo”), o que blinda estratégias comerciais e maior captura de margens e resultados.

Ampliar a capacidade de armazenagem é um ponto crítico para o setor. Ao passo em que armazenamos maiores volumes, é possível, também, manter maiores estoques, o que possibilita o escoamento da produção de forma escalonada, além de possibilitar o atendimento às demandas por produtos, aproveitando momentos de venda mais favoráveis (preços), uma vez que, em momentos de entressafra, os prêmios nos portos podem ser maiores e os preços de frete menores.

Para os agricultores, a disposição de estrutura para armazenagem se traduz em vantagens não somente relativas a momentos de mercado, como também em termos operacionais nos momentos de colheita, uma vez que a distância percorrida pela produção é reduzida (fica própria fazenda), bem como não há o enfrentamento de filas para descarga (em cooperativas, tradings ou outros pontos de venda). Além disso, a possibilidade de beneficiar a produção na propriedade reduz os descontos incidentes na produção por conta de umidade e impurezas, ou seja, ao vender a produção, o frete pago será “mais puro”, sem transportar água ou substâncias indesejadas; o beneficiamento e secagem são feitos ainda na fazenda.

No Brasil, apenas 15% das fazendas possuem capacidade de armazenamento, fazendo, desta forma, com que os produtores tenham grande dependência de cooperativas e agroindústrias para escoar a produção, já que 85% da capacidade fica concentrada nesses agentes. Para efeitos de comparação, no Canadá, 85% da capacidade concentra-se nas fazendas; nos EUA, 65%; na União Europeia, 50%; e na Argentina, 40%.

Se quiséssemos apenas “conter” o aumento do déficit de capacidade de armazenagem de grãos, seria necessário investir cerca de R$ 15 bilhões todos os anos no Brasil. Já pensando em melhorar a nossa competitividade, o investimento seria ainda maior. Para viabilizar isso, é necessário debater medidas que propiciem a expansão dessa capacidade, por meio de linhas de financiamento públicas e de bancos e empresas privadas, com a oferta de crédito.

A disposição de armazenagem é vital para um país com um agronegócio tão relevante para sua economia como o Brasil, uma vez que permite melhorar a sua logística, explorar oportunidades em momentos de mercado diversos, além da manutenção de maiores estoques. É essencial estabelecer meios de investimento na expansão da capacidade de armazenamento, especialmente nas fazendas, como um caminho para ampliar a capacidade competitiva do agro brasileiro. É cada vez mais trabalhar o custo e a busca por eficiência e controle das variáveis, buscando margens e rentabilidade.

 Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) da FGV (São Paulo – SP) e fundador da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em harvenschool.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves). Agradecimentos a Vinicius Cambaúva e Arthur Zawadzki Pfann.

https://veja.abril.com.br/coluna/mundo-agro/o-papel-da-armazenagem-na-competitividade-do-agro-brasileiro/

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IA e deep tech impulsionam nova geração de founders técnicos

21 de junho de 2024 | Por Gabriela Del Carmen e Stephanie Tondo – startups.com.br

O avanço dos sistemas de inteligência artificial inaugurou uma nova era no venture capital, que tem voltado sua atenção para startups com tecnologia proprietária e deep tech. Em meio a esse movimento, uma nova geração de fundadores mais técnicos tem começado a ganhar espaço, especialmente no Brasil. E, para eles, a matemática está no centro do negócio.

Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgado no ano passado calcula que, na próxima década, os investimentos nas startups de base tecnológica profunda devem crescer 20 vezes na América Latina.

Nesta semana, Lars Frølund, membro do Conselho Europeu de Inovação, disse que o mercado de deep techs está florescendo, e que os aportes nessas empresas deixaram de ser “filantropia”, para se tornar “bons investimentos de equity”.

Para Pedro Sirotsky Melzer, fundador da Igah Ventures e vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), o ecossistema brasileiro está passando por uma transição e o país precisará investir em educação de base se quiser se tornar competitivo globalmente.

“O Brasil não tem um track record similar a países mais maduros, como Estados Unidos e Israel, em empreendedores voltados para produto, técnicos, com formação de desenvolvimento de tecnologia proprietária. O Brasil é um lugar que, pela sua escala e seus problemas em diferentes aspectos, existe um modelo em que se pega uma tecnologia aprovada e se aplica em diferentes setores. E isso por si só gera um empreendedorismo muito intenso, de grande dimensão. Por outro lado, agora que estamos com esse ecossistema estabelecido, a gente deveria buscar ser protagonista de tecnologias proprietárias e ser referência para o mundo”, avalia.

Segundo ele, a grande maioria das empresas brasileiras inovam pelo modelo de negócio, mas não necessariamente pela tecnologia. Isso pode estar relacionado ao baixo interesse dos alunos das escolas brasileiras em disciplinas ligadas ao STEM, sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) divulgados no final do ano passado mostram que menos de 50% dos alunos conseguiram nível mínimo de aprendizado em matemática e ciências.  

De acordo com o levantamento, 27% dos alunos brasileiros alcançaram o nível 2 de proficiência em matemática, considerado o patamar mínimo de aprendizado, enquanto que a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na disciplina é 69%. Apenas 1% dos estudantes no Brasil conseguiram os níveis 5 ou 6, considerados os mais altos. A média da OCDE é de 9%.   

Vilã ou aliada?

Para a maioria das crianças, a matemática era a grande vilã na escola. Mas para Bruno Costa, o que muitos consideravam complexo demais ou simplesmente chato, gerava fascínio. Uma forma de não apenas exercitar o raciocínio lógico e solucionar problemas entre números e equações, mas também de colocar em prática alguns de seus passatempos favoritos e gerar um impacto positivo na sociedade como um todo.

“Sou apaixonado por matemática – amor esse que começou por questões práticas. Comecei a fazer games ainda na infância e, com isso, surgiram problemas diversos que requeriam conhecimentos que eu não tinha. A matemática surgiu, então, como forma de resolver problemas reais”.

Natural de Marabá (PA), o jovem foi cativado pela possibilidade de criar alguma coisa apenas com o uso do computador e, desde então, já sabia que trabalharia no ramo. “Lembro da minha primeira aula de trigonometria, quando o professor explicou seno/cosseno e, em meio aos meus colegas entediados com o tema, fiquei arrepiado de tanta catarse ao entender finalmente como poderia relacionar a posição do mouse com a arma do personagem de um jogo que eu estava construindo”, conta.

No Ensino Médio, aprofundou esses conhecimentos ao participar de uma série de olimpíadas científicas de matemática, física e química, já flertando com a educação em exatas como possível carreira. Teve um canal de programação no YouTube, um site de exercícios e escolheu uma faculdade conhecida por sua dificuldade no vestibular focado em exatas e sua formação teórica profunda.

Quando jovem, entrou para o curso de Computação na Universidade Federal do Pará e, depois, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar no Instituto Militar de Engenharia. De lá, co-fundou a PaperX, plataforma de exercícios e avaliações online adquirida pela Descomplica em 2018.

Hoje, aos 30 anos, ele comanda a Abstra, startup que fundou em 2020 como uma plataforma de automação de processos de negócio com inteligência artficial e Python sem precisar contratar desenvolvedores. Com apenas dois anos de operação, o negócio recebeu um investimento seed de US$ 2,3 milhões, em uma rodada liderada pelo SoftBank com a participação dos fundos Alexia e Iporanga.

Bruno Costa, fundador e CEO da Abstra (Foto: Divulgação)

Fórmula para crescer

Quem também se apaixonou por matemática na infância foi Raony Rossetti, CEO da Melver, uma edtech voltada para a formação de profissionais para o mercado financeiro. Nascido no interior de São Paulo, ele cresceu ajudando o avô no ferro velho, ajudando a desmanchar peças. Aos poucos, percebeu que a lógica envolvida no processo tinha base matemática. Ao terminar a escola, decidiu estudar Engenharia Mecânica com especialização em Aeronáutica na USP.

“De lá fui para a Alemanha estudar Engenharia Aeroespacial em Bremen e de forma despretensiosa acabei conhecendo o mercado financeiro. Por gostar de números, aquilo fez muito sentido para mim. Comecei a pensar então em quantos anos eu teria que trabalhar como engenheiro para ganhar o que o pessoal ganhava no mercado financeiro e decidi fazer a transição. Fui para a XP quando o time ainda tinha cinco pessoas e a habilidade com exatas me fez crescer muito rápido na renda variável”, conta.

Na XP, Raony liderou também equipes da Rico e da Clear, e chegou a ser promovido a Chief Information Officer (CIO) em Nova York. Depois do IPO, ele entendeu que era hora de deixar a empresa e empreender. Com a experiência no mercado financeiro, Raony percebeu que o grande desafio era encontrar profissionais qualificados, e nasceu daí a ideia de fundar a Melver.

Por meio do desenvolvimento de tecnologia proprietária, ele criou uma solução white label que pode ser usada por outras companhias. Hoje, a plataforma é usada por clientes como a própria XP e a B3. “A matemática na escola é chata, ninguém entende a aplicabilidade daquilo. Quando o aluno vê a matemática na prática, ela fica muito mais leve. Os números mudaram a minha vida. Hoje, mais de 60% do marketshare dos novos entrantes em assessorias de investimentos vêm da Melver“, comemora.

Raony Rossetti, fundador e CEO da Melver. Foto: Divulgação

Matemática no centro

Para esses empreendedores, os fundadores nerds são a grande inspiração. “Sempre rejeitei o estereótipo de empreendedor brasileiro como um perfil puramente comercial ou de mercado financeiro. Meus heróis eram inventores, eu queria ser o próximo John Carmack”, afirma Bruno, citando o famoso programador de videogames estadunidense, pioneiro no desenvolvimento de gráficos 3D e um dos responsáveis por jogos como Wolfenstein e Doom, à frente da id Software.

“O conhecimento técnico profundo me permitiu ver o mundo de uma forma muito diferente e ter sempre ideias fora da caixa. Continuo sendo um entusiasta pelo ensino e aprendizado de matemática e incentivo esse aprofundamento para todos os empreendedores técnicos para usarem todo o seu potencial”, destaca Bruno.

Raphael Coelho, fundador e CEO da edtech TutorMundi, considera a bagagem técnica fundamental para o sucesso e diferencial competitivo para startups que desejam criar produtos de impacto e alta qualidade. “Há uma grande diferença entre as startups que recebem investimentos no Brasil e nos Estados Unidos”, afirma.

O executivo observa que os os primeiros unicórnios brasileiros, ou seja, as primeiras startups a alcançarem uma avaliação de mercado de US$ 1 bilhão no país, não são a criação de uma nova tecnologia por si só; pelo contrário, incorporam tecnologias já desenvolvidas em um novo produto ou serviço.

É o caso, por exemplo, de 99, Nubank, Arco Educação, Stone, Movile, iFood, Loggi, Gympass, QuintoAndar e Ebanx. “Historicamente, os brasileiros fazem o processo de montagem, e não de criação. Com isso, acabamos concluindo que não seria necessário ter um engenheiro ou um cientista por trás de uma startup, e sim pessoas boas em negócios. Mas isso não é verdade”, avalia Raphael.

Ao contrário do Brasil, o perfil dos fundadores de startups bilionárias nos Estados Unidos é, muitas vezes, formado por pessoas de bagagem técnica que apostam na criação e no desenvolvimento de novas tecnologias.

“Entre os vários unicórnios norte-americanos, é possível identificar diversas empresas cuja raiz é tecnológica e científica, o que inclui conhecimentos em física, química e matemática”, pontua Raphael. Como exemplos, ele cita a Microsoft, que cria um novo conceito de computador, com o desenvolvimento de novos software e novas tecnologias, e o Google, com sua tecnologia revolucionária de buscas na web.

Casos mais recentes são Sam Altman e Mira Murati, respectivamente CEO e CTO da OpenAI, criadora do software de IA generativa ChatGPT. “A engenharia e, mais especificamente, a matemática, é fundamental  para uma startup. A matemática ensina o profissional a aplicar a lógica e o raciocínio para descobrir soluções em problemas complexos. No ecossistema de inovação, a vida do fundador é resolver problemas – e quanto mais apurada a lógica e o raciocínio do empreendedor, maior a chance dele encontrar ou até criar soluções inovadoras”, explica o CEO da TutorMundi.

Raphael Coelho, fundador e CEO da TutorMundiRaphael Coelho, fundador e CEO da TutorMundi (Foto: Divulgação)

Mulheres na tecnologia

De modo geral, a presença de mulheres no mercado de trabalho aumentou progressivamente nos últimos anos. No entanto, no ecossistema de tecnologia e inovação os avanços ainda são tímidos e caminham a passos lentos. Estima-se que apenas uma mulher para cada quatro homens consiga um emprego nos campos STEM, de acordo com o relatório “Uma equação desequilibrada: participação crescente de Mulheres em STEM na ALC (América Latina e Caribe)“, realizado em 2021 pela UNESCO em parceria com o British Council.

A pesquisa revela que, apesar dos esforços para reduzir as disparidades de gênero nos campos STEM, as disparidades permanecem em diferentes níveis, da educação à progressão na carreira, em quase todos os países do mundo. Entre os vários fatores complexos que levam a resultados desiguais para homens e mulheres, o estudo destaca os preconceitos de gênero, muitas vezes generalizados nas famílias, comunidades educativas e locais de trabalho.

Além disso, os contextos econômicos, culturais, sociais e religiosos também impactam este processo, criando lacunas que reforçam diferenças econômicas e sociais.

“Os desafios começaram no momento em que entrei na trilha de preparação para o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e me deparei com uma imensa falta de modelos de referência”, afirma Ludmila Pontremolez, CTO e cofundadora da fintech Zippi.

Formada em Engenharia da Computação, a empreendedora passou pela área de software de grandes empresas como Microsoft, Square e até mesmo a Nasa, agência espacial dos Estados Unidos. Antes de embarcar na jornada da Zippi, Ludmila passou uma temporada no Vale do Silício, com estudos na Universidade de Stanford.

Ludmila Pontremolez, CTO e cofundadora da ZippiLudmila Pontremolez, CTO e cofundadora da Zippi (Foto: Divulgação)

“Vejo a matemática e as ciências como pilares essenciais para a inovação, à medida que nos permitem desenvolver tecnologias que melhoram a competitividade e a sustentabilidade do mercado. O ITA foi criado para formar pessoas engenheiras que pudessem contribuir com a indústria aeronáutica, e exerceu papel fundamental na fundação e crescimento da Embraer, um grande orgulho nacional. Para além da Embraer, temos diversos exemplos de tecnologias desenvolvidas no Brasil que são referência no mundo: satélites lançados pelo INPE, técnicas de perfuração em águas profundas desenvolvidas pela Petrobras e o Pix, que é referência global em pagamentos instantâneos – e uma inovação-chave para o produto da Zippi“, pontua.

A empreendedora reconhece que a falta de modelos femininos no setor é um desafio que a acompanha até os dias atuais. Por isso, faz esforços ativos para se aproximar das poucas mulheres que trilharam caminhos semelhantes ao seu e construir uma rede de apoio.

“O incentivo para atrair mais meninas aos campos STEM começa em casa e na escola. Tive uma mãe que estava constantemente celebrando minha curiosidade intelectual, incentivando leitura e ativamente quebrando estereótipos de gênero. Na escola, sentia o mesmo apoio, cuidado com falas limitantes, e empoderamento”, avalia.

Hoje, na Zippi, ela considera que seu papel tem um componente técnico grande para informar a tomada de decisão. “Somos uma empresa de tecnologia muito baseada em pautas e que está escalando com time muito enxuto. Isso só é possível com um grande investimento em engenharia e uso constante de matemática e estatística. A base técnica foi muito importante, mas mais ainda é estar constantemente estudando: meu conhecimento se multiplicou muitas vezes desde que iniciamos a Zippi, à medida que novos desafios surgiram tive que conhecer novos temas e aprofundar nos que já conhecia”, finaliza.

https://startups.com.br/noticias/ia-e-deep-tech-impulsionam-nova-geracao-de-founders-tecnicos/

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É fácil nos iludirmos, na economia e na vida

Evandro Milet – Portal ES360 – 21/04/2024

Quem imaginaria um professor de psicologia ganhando o Prêmio Nobel de economia? Pois aconteceu em 2002 com o professor de Princeton Daniel Kahneman com sua obra sobre os processos de tomada de decisões. No livro “Rápido e Devagar – duas formas de pensar”, ele desmistifica a ideia de que pessoas são capazes de avaliar racional e objetivamente as situações e escolher dentre várias alternativas a que lhes é mais vantajosa. Com a apresentação de muitas experiências, ele mostra que a nossa mente funciona de duas formas: uma rápida e intuitiva – o sistema 1 – e outra mais devagar, porém mais lógica e deliberativa – o sistema 2.

Normalmente é fácil e agradável andar e pensar ao mesmo tempo, e até fazer contas simples(Sistema 1) andando, mas em casos extremos essas atividades parecem competir pelos recursos limitados do sistema 2. Caminhando com um amigo, peça-lhe para calcular 23 x 78 de cabeça imediatamente. Ele quase com certeza vai parar de andar.

Na figura acima qual das três linhas é a maior? Responda e depois meça. Da mesma forma que somos iludidos por figuras que desafiam nossa percepção visual, também sofremos de ilusões cognitivas. Temos opiniões conflitantes sobre a mesma situação se os eventos forem apresentados em ordem diferente ou até em horários diferentes e preferimos muito mais uma carne que seja 90% livre de gordura do que uma que tenha 10% de gordura.

O efeito denominado ancoragem mostra a influência  a que somos submetidos conforme a pergunta que nos é feita. Em um experimento com dois grupos separados foram feitas perguntas diferentes: a altura de uma sequoia é maior ou menor que 365 metros? e a altura de uma sequoia é maior ou menor que 55 metros. A média do grupo que respondeu à primeira pergunta foi 257 e do que respondeu a segunda foi 86. Isso dá uma ideia de como somos influenciados pela forma da pergunta e do que pode ser manipulado em uma pesquisa de opinião.

Kahneman estuda até onde a intuição de um especialista pode ser real; porque subestimamos prazos de projetos e porque avaliamos mal as probabilidades de um acontecimento, encarando algo dentro da normalidade como fato extraordinário. Por que é tão difícil para nós pensar estatisticamente?

Ele demonstra também que os humanos são incorrigivelmente inconsistentes em fazer julgamentos sumários de informações complexas. Tendemos a superestimar nossa compreensão do mundo e subestimar o papel do acaso.

Kahneman oferece métodos simples para combater os erros que cometemos de modo inconsciente. Por exemplo, quando de bom humor, as pessoas se tornam mais intuitivas e mais criativas, mas também menos vigilantes e mais propensas a cometer erros lógicos. Quando estamos desconfortáveis e infelizes, perdemos contato com nossa intuição.

Pessoas têm maior probabilidade de serem influenciadas por mensagens vazias persuasivas, como comerciais, quando estão cansadas e esgotadas.

Abordando heurísticas e vieses, o livro mostra que as pessoas tendem a estimar erroneamente a importância relativa das questões pela facilidade com que são puxadas da memória e que a sorte desempenha um grande papel em toda história de sucesso.

Porque o medo de perder é mais forte que o prazer de ganhar? O conceito de aversão à perda é certamente a contribuição mais significativa da psicologia à economia comportamental, que trata com muito mais precisão como investidores se comportam e que deu o Prêmio Nobel ao autor(dentro do mesmo tema Richard Thaler recebeu o prêmio em 2017).

Lendo esse livro fica a certeza que “probabilidade e estatística” é matéria fundamental para todas as profissões, pela repercussão nas atividades e decisões ao longo de toda a vida.

Publicado no Portal ES360 em 21/04/2024

https://es360.com.br/coluna-inovacao/e-facil-nos-iludirmos-na-economia-e-na-vida

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Este bilionário americano duvida que a IA vai roubar empregos; entenda

Executivo Ken Griffin, da Citadel, acredita que serviços como ChatGPT não vão entregar a revolução que estão prometendo, por isso está pausando investimentos na área

Por Redação Estadão – 02/07/2024 

Já se passaram mais de 18 meses desde a estreia do ChatGPT, que provocou uma alta responsável por impulsionar a fabricante de chips para inteligência artificial (IA) Nvidia a atingir uma capitalização de mercado de US$ 3 trilhões em junho. Mas o investidor bilionário Ken Griffin não está acreditando no hype em torno da tecnologia – pelo menos por enquanto.

Em discurso para a nova turma de estagiários da Citadel, empresa de ações da qual é fundador e CEO, Griffin reconheceu que a inteligência artificial atingiu um “ponto de inflexão” com o lançamento de grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês), mas contestou que as ferramentas baseadas em LLM, como o ChatGPT, da OpenAI, se tornariam, nos próximos três anos, mais valiosas do que os melhores talentos que ele está recrutando diretamente das universidades.

“Por várias razões, não estou convencido de que esses modelos alcançarão esse tipo de avanço em um futuro próximo”, disse Griffin na segunda-feira, de acordo com comentários relatados pelo canal de televisão americano CNBC.

Como prova, o chefe da Citadel citou os carros autônomos, que têm dificuldades quando confrontados com os chamados casos extremos que ultrapassam os limites das ocorrências de trânsito estatisticamente comuns.

A maioria dos veículos autônomos é treinada com imagens rotuladas com dados que descrevem o ambiente ao seu redor: dessa forma, um computador pode reconhecer, por exemplo, se o que está atravessando a rua é uma criança pequena ou apenas uma bola de borracha. Mas, muitas vezes, há casos em que um carro autônomo pode se deparar com uma situação que nunca viu antes e se comportar de forma incorreta, pois não tem a intuição humana.

“Os modelos de aprendizado de máquina se saem muito melhor quando há consistência”, disse Griffin, justificando seu ceticismo.

No passado, o fundador da Citadel tendeu a se concentrar na IA como uma ferramenta para aumentar a produtividade humana em vez de substituí-la. No mês passado, ele disse aos participantes da Milken Global Conference que, embora tenha gerado enormes investimentos em infraestrutura de data center e chips semicondutores como os da Nvidia para treinamento em IA, o impacto da IA nos negócios continua pequeno.

Eu faço a pergunta ‘diga-me como você usa a IA em sua empresa hoje’, e você recebe esses sorrisos e essas respostas realmente entusiasmadas, que não têm quase nada a ver com IA

Ken Griffin, CEO da Citadel

Isso se deve, em parte, ao fato de os executivos não terem entendido como aproveitar melhor o poder da IA – eles só sabem que precisam dizer aos investidores que gostam de Griffin.

“Eu faço a pergunta ‘diga-me como você usa a IA em sua empresa hoje’, e você recebe esses sorrisos e essas respostas realmente entusiasmadas”, disse ele, “que não têm quase nada a ver com IA”.

‘Inteligência de nível PhD’

Embora o fato de contar com os melhores talentos humanos tenha permitido que a Citadel administrasse um dos fundos de hedge mais bem-sucedidos de Wall Street até agora, a diretora de tecnologia da OpenAI, Mira Murati, acredita que sua equipe terá uma palavra importante a dizer quando se trata de saber se os funcionários da economia do conhecimento, como a equipe da Citadel, de Griffin, ainda podem superar suas ferramentas de inteligência artificial generativa no futuro.

Em discurso há duas semanas para estudantes de sua alma mater, o Dartmouth College, Murati disse que o LLM da OpenAI, um tipo de rede neural conhecida como Generative Pre-trained Transformer (GPT), amadureceu rapidamente em poucos anos.

Enquanto o GPT-3, em suas palavras, ainda era comparável a uma criança pequena em termos de inteligência quando foi lançado em 2020, o GPT-4 atual, lançado em março de 2023, já está em um nível avançado de ensino médio.

Nos próximos dois anos, estamos buscando uma inteligência artificial de nível PhD para tarefas específicas

Mira Murati, CTO da OpenAI

“Nos próximos dois anos, estamos buscando uma inteligência de nível PhD para tarefas específicas”, disse ela.

Considerando que o GPT-4 já foi “aprovado” em exames de qualificação para o exercício de várias profissões, incluindo o exame da Ordem dos Advogados dos Estados Unidos, pode-se argumentar que Murati está minimizando o poder de sua tecnologia.

Resta saber se Griffin vai mudar de ideia sobre o valor e o custo dos trabalhadores humanos quando Murati lançar o GPT-5.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/ken-griffin-citadel-inteligencia-artificial/

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Entrega de comida por drones faz parte do dia a dia em Shenzhen

A Meituan, grande empresa de entregas chinesa, tem drones voando entre os arranha-céus da cidade em direção a quiosques. Fui até lá para ver como isso funciona.

by MIT Technology Review – julho 4, 2023

Meu chá gelado caiu do céu. 

Em uma área urbana agitada da cidade de Shenzhen, China, espremida entre vários arranha-céus, observei um drone amarelo e preto descer sobre um quiosque a beira da rua. O topo do quiosque, que tinha o tamanho de uma máquina de vendas automática, se abriu para que o drone pousasse e deixasse em seu interior a caixa de papelão branca contendo minha bebida. Quando fiz o pedido em meu celular, meia hora antes, o aplicativo informou que a entrega seria feita por drone às 14h03, e foi exatamente isso que aconteceu. 

O serviço de entregas por drone que eu estava testando é operado pela Meituan, a plataforma de entregas mais popular da China. Em 2022, a empresa contratou cerca de 6 milhões de trabalhadores temporários para entregar bilhões de pedidos. Mas a empresa vem também desenvolvendo a entrega por drones desde 2017. E, em Shenzhen, cidade no sul do país que abriga uma cadeia de abastecimento de drones bem desenvolvida, a Meituan vem operando essas rotas de entrega regularmente há um ano e meio. 

Muitas grandes empresas estão de olho na entrega por drones: a Amazon fez essa proposta pela primeira vez em 2013, mas seu progresso tem sido limitado por regulamentos e pela baixa demanda. A Wing, subsidiária da mesma empresa que controla o Google, a Alphabet, teve mais sucesso, operando entregas com drones em três continentes. O Walmart está investindo em diversas startups que testam fazer a entrega de seus produtos com drones. 

O que diferencia a Meituan dessas empresas norte-americanas é que ela decidiu oferecer entrega por drones no ambiente mais desafiador que existe: as densas áreas urbanas. É uma abordagem que faz sentido na China, onde a maior parte das pessoas mora em apartamentos em altos edifícios de cidades populosas. Muitos pedem comida em casa todos os dias.  

Para que o serviço funcione numa cidade densa, os drones da Meituan não entregam diretamente na porta das casas. Em vez disso, a empresa montou pontos de coleta perto de prédios residenciais e comerciais. Os drones deixam as entregas em quiosques, que podem guardar vários pacotes ao mesmo tempo. O processo pode ser menos conveniente para os consumidores, mas permite que todos os drones voem em rotas predeterminadas, de uma plataforma de lançamento até um quiosque, tornando a tarefa de navegar por áreas urbanas muito mais fácil. 

Em 2022, a Meituan fez mais de 100 mil entregas por drones em Shenzhen. Minha experiência não foi perfeita. A primeira vez que tentei usar o serviço, pedi de um restaurante muito distante por acidente. Minha segunda tentativa falhou porque, distraidamente, fiz o pedido fora do horário (os drones param às 19h).  

Mas para alguns residentes e comerciantes de Shenzhen, a entrega por drones já não é uma novidade, é apenas parte da rotina. O progresso da Meituan mostra que a entrega regular por drones é possível dentro de cidades, mesmo que isso exija algumas adaptações em termos de experiência do usuário. Como é que a mágica acontece? Eu visitei as plataformas de lançamento da empresa para ver como se faz.
  

O “aeroporto” no terraço 

A Meituan opera seus drones em Shenzhen a partir de centrais de entregas. Meu chá, na verdade, veio de uma que se encontrava a apenas algumas centenas de metros de distância, no terraço de um shopping gigantesco. Esse terraço foi transformado em um aeroporto para drones com uma pequena equipe de apoio. 

Durante minha visita, em abril, havia cerca de dez drones estacionados no local, e mais dois ou três pousando ou decolando. Eu cheguei logo após o horário de pico para o almoço, me disse um funcionário da Meituan, e os drones e humanos estavam, em sua maioria, descansando e recarregando em preparação para o jantar. 

O fluxo de trabalho mistura humanos e automação. Uma vez que o sistema de entrega por drones recebe um pedido (clientes pedem itens específicos marcados como entregues por drones no aplicativo da empresa), um carregador (humano) vai até um dos restaurantes, todos localizados no shopping, buscar o pedido e trazê-lo à plataforma de lançamento. Esse carregador coloca as comidas e bebidas em uma caixa de papelão padronizada, usa uma balança para garantir que não há excesso de peso, sela a embalagem e entrega para outro funcionário que é especializado em lidar com os drones. Esse segundo funcionário coloca a caixa embaixo do drone e espera pelo encaixe.   

Tudo depois disso é altamente automatizado, diz Mao Yinian, diretor do serviço de entregas por drone da Meituan. Os movimentos dos drones são controlados por um algoritmo central e as rotas são predeterminadas. “É possível saber com antecedência, a cada segundo preciso, onde certo drone estará e qual a sua velocidade. Assim, os consumidores podem esperar o horário de chegada com variações de dois segundos, em vez de três minutos ou mesmo dez (como ocorre em entregas tradicionais)”, ele conta à MIT Technology Review americana. 

A empresa tem uma sala de controle centralizado em Shenzhen, de onde funcionários podem assumir o controle de drones em caso de emergência. Existem hoje mais de uma centena de drones que podem ser utilizados para entregas na cidade. Um operador monitora, em média, dez drones por vez. 

Nem todo o trabalho humano pode ou deve ser substituído por máquinas, diz Mao. Mas a empresa tem planos para automatizar ainda mais o processo de entrega. Por exemplo, Mao gostaria de ver robôs carregando os pacotes nos drones e trocando suas baterias. “Nossa equipe de solo pode precisar se abaixar cem vezes por dia para carregar os pacotes e trocar baterias. O corpo humano não é feito para esses movimentos.” 

“Nossa visão é transformar a [plataforma de lançamento] em uma linha de produção fabril totalmente automatizada”, diz ele. “O único trabalho dos humanos é colocar as comidas e bebidas não padronizadas dentro de caixas padronizadas, e então não há mais trabalho para humanos.”
  

Limites regulatórios e econômicos 

Hoje, existem poucos obstáculos técnicos para a entrega de comida e pacotes por drones, diz Jonathan Roberts, professor de robótica na Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, que realiza pesquisa com drones desde 1999. “Nós definitivamente podemos fazer entregas confiáveis com drones, mas se isso faz sentido financeiro é um pouco difícil de saber”, diz ele.  

Regulamentos frequentemente determinam onde as empresas podem se instalar. Em 2002, a Austrália foi o primeiro país do mundo a criar legislação para veículos aéreos não tripulados, forma técnica de se referir a drones. A lei permitia que universidades e empresas conduzissem experimentos com drones desde que obtivessem licenças oficiais. “Então [a Austrália] era o lugar perfeito para fazer testes”, diz Roberts. Foi por isso que a Wing, da Alphabet, testou e lançou suas entregas por drones na Austrália antes de tentar em qualquer outro país. 

A Meituan tem uma história parecida com a cidade de Shenzhen, onde o governo municipal tem uma sólida cadeia de abastecimento para fabricação de drones e vem se mostrando especialmente amigável à indústria. A nível de políticas nacionais, o governo central também permitiu a Shenzhen, uma das Zonas Econômicas Especiais do país, maior flexibilidade em termos de legislação sobre drones comerciais.  

Foi por isso que a Meituan escolheu Shenzhen para executar a maioria de seus experimentos com entregas por drone até o momento. A empresa acabou de estabelecer uma nova rota em Xangai e, ocasionalmente, utiliza drones em outras cidades, mas Shenzhen vai continuar sendo o centro dessa atividade. 

No entanto, os regulamentos estabelecem apenas que entregas por drone são permitidas. É a economia que determina se isso vai, de fato, acontecer e se é sustentável. 

Uma série de empresas, como a Wing, optaram por testar suas operações, inicialmente, em bairros do subúrbio, onde os moradores têm condições, mas as entregas tradicionais são ineficientes. Esse modelo é difícil de replicar na China, onde a maior parte das pessoas vive em áreas urbanas. Algumas empresas chinesas, como a plataforma de e-commerce JD e a empresa de logística SF Express, optaram por começar em vilarejos rurais, onde a infraestrutura de transporte terrestre é pouco desenvolvida e drones podem preencher a lacuna natural. 

Essa abordagem pode não fazer sentido se estivermos tentando fazer a maior quantidade de dinheiro possível com entregas por drone: “Se você olha para os números totais de entregas em áreas rurais e urbanas, pode ver como eles diferem em, talvez, duas ordens de grandeza”, diz Mao. Mas os riscos de segurança para a operação de drones em áreas rurais são mais baixos.  

“A indústria costumava evitar áreas urbanas porque a tecnologia não era avançada o suficiente para garantir a segurança”, afirma Mao. Quando se tornou chefe da equipe de entregas por drone da Meituan, em 2019, cerca de seis anos após outras empresas introduzirem programas rurais de entregas por drone na China, ele tomou a decisão de que a tecnologia havia se tornado suficientemente segura para operar em cidades. 

Não há relatos de incidentes com drones da Meituan até o momento. No resto do mundo, os drones de entrega não chegaram a causar ferimentos em humanos, mas de vez em quando eles caem, resultando em incêndios florestais e quedas de energia.  

A Meituan fez ajustes técnicos para garantir que seus drones voem de forma segura dentro de cidades, escolhendo asas com um design mais estável para o caso de fortes ventos e desenvolvendo seu próprio sistema de navegação baseado em visão computacional que complementa o GPS se o sinal estiver fraco entre os prédios. Em fevereiro, a empresa obteve uma licença para oferecer entregas por drones comerciais em áreas urbanas, um selo de aprovação da autoridade chinesa em aviação. Mas ganhar a confiança total dos residentes é um processo demorado. Mao diz: “Precisamos explicar a eles, seja por meio de educação ou de demonstrações nas quais possam ver drones voando, que nós podemos garantir sua segurança.”
  

Drones x humanos 

Alguns comerciantes e consumidores já se acostumaram aos drones da Meituan.  Conversei com uma funcionária de um dos restaurantes do shopping que disse que seu restaurante foi um dos primeiros a adotar o serviço de entregas por drone (ela pediu que fosse mantido o anonimato porque não tinha autorização para falar com a imprensa). Os drones costumavam ser incapazes de fazer entregas em dias chuvosos, mas a tecnologia já evoluiu. Atualmente, o restaurante pode atender a dezenas de pedidos através de entregas por drone todos os dias. 

Uma das razões pelas quais ela gosta da entrega por drone é que o serviço é mais previsível, enquanto o comportamento de entregadores pode variar. “O problema [de entregadores] roubando a comida dos pedidos é muito sério”, diz ela. Quando clientes reclamam que não receberam a comida que pediram, o restaurante tem que arcar com o ônus de corrigir o problema. 

“Caso realmente se torne uma tecnologia madura, será muito mais eficiente”, afirma. “Mas também, muitas pessoas pelo país perderiam seus empregos.”  

Essa preferência por drones em lugar de entregadores é compartilhada por alguns clientes. Pouco depois que recebi meu chá gelado, um segundo drone chegou ao mesmo ponto de coleta. Wang, funcionária de uma empresa de tecnologia das redondezas e que preferiu ser identificada apenas por seu sobrenome, veio com dois amigos buscar a fruta que comprou. Ela faz esse tipo de pedido quase diariamente e acha muito prático. 

“Comparado a entregas normais, é mais rápido e mais sustentável, já que as embalagens de papelão podem ser recicladas. Além disso, eu não preciso me comunicar com os entregadores”, diz ela. Sua atitude reflete uma tensão comum que existe entre moradores de centros urbanos e trabalhadores temporários, que geralmente vêm de áreas rurais. 

Mao diz que a Meituan não planeja substituir todos os entregadores; ele informa que o objetivo principal é que os drones complementem o trabalho humano. Eles podem entregar pacotes em lugares aos quais entregadores não podem ir, como atrações turísticas que exigem ingressos, ou realizar tarefas que seriam difíceis para seres humanos. 

Em um futuro ideal, drones poderiam fazer de 5% a 10% das entregas, diz Mao. Mas não há uma meta específica. Ele diz que está mais interessado em garantir que a entrega por drones, de fato, agregue valor para os clientes e se torne um método de entrega fácil de usar.  

Ainda existem melhorias a serem feitas antes que a entrega por drones da Meituan se torne algo corriqueiro: há poucos comerciantes disponíveis e apenas uma dúzia de quiosques em Shenzhen. Mao espera que o serviço se espalhe mais pela cidade nos próximos três a cinco anos. 

Quando a ideia futurista de drones entregando direto na sua janela? “A longo prazo, acredito que isso vá se tornar realidade, mas pode levar uns 20 ou 30 anos”, prevê Mao. “Porque levaria 20 ou 30 anos para atualizar a infraestrutura, especialmente em termos de edifícios residenciais.

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Brasil é o segundo maior produtor de biocombustíveis do mundo

EUA lidera a produção, Indonésia fica no pódio; zona do euro, como região, concentra terceiro maior volume

Os biocombustíveis desempenham um papel importante na redução das emissões de gases de efeito de estufa no setor dos transportes. (Tom Merton/Getty Images)

Erik Rego – Colunista – Exame – 3 de julho de 2024 

Biocombustíveis (etanol e biodiesel) são combustíveis produzidos a partir de biomassa. Em 2022, foram produzidos 175 bilhões de litros, sendo 114,2 bilhões de etanol e 60,8 bilhões de biodiesel, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês)[1]. Os biocombustíveis evitaram o consumo de 2 milhões de barris de óleo equivalente por dia em 2022, volume correspondente a 4% da demanda global de petróleo do setor de transportes.

Os EUA são o maior produtor de biocombustíveis do mundo, liderando a produção de etanol (a partir do milho) com 57,5 bilhões de litros, assim como de biodiesel, com 14,5 bilhões de litros. O Brasil é o segundo maior produtor de etanol (a partir da cana-de-açúcar), com 35,6 bilhões de litros, e o terceiro maior de biodiesel, perdendo a medalha de prata para a Indonésia.

Enquanto o etanol é produzido basicamente a partir do milho ou cana-de-açúcar, cerca de 70% do biodiesel é baseado em óleos vegetais (14% óleo de colza, 23% óleo de soja e 29% óleo de palma) e 25%, em óleos de cozinha reciclados.

Mistura de etanol à gasolina

O Brasil é pioneiro global na produção e implantação de biocombustíveis, combinando com sucesso mandatos de biocombustíveis, incentivos financeiros e requisitos de sustentabilidade para expandir o fornecimento seguro e acessível desses produtos. Os mandatos de mistura de etanol à gasolina começaram para valer em 1975, com o programa Proálcool, e desde então a mistura aumentou progressivamente até o atual requisito de 27%.

Os automóveis flexfuel representam cerca de 90% da frota de veículos leves do Brasil, permitindo que os consumidores escolham misturas mais elevadas de etanol quando os preços do produto são vantajosos. Em 2022, a mistura total de etanol foi de 34% em termos energéticos. Com relação ao biodiesel, a mistura atual ao diesel é de 10%, com aumento planejado para 15% até 2026.

Já nos EUA, o grande boom dos biocombustíveis aconteceu neste século. Entre 2000 e 2012, a produção de biocombustíveis aumentou dez vezes. E, em um esforço para o aumento de participação (e mitigação de preços da gasolina), em 2022, foi aprovado o uso de misturas de 15% de etanol à gasolina. O impacto sobre a utilização do etanol, no entanto, foi limitado, porque apenas algumas bombas conseguiam lidar com a mistura de 15% de etanol.

Como resultado das políticas nesses dois países, os biocombustíveis forneceram 22% da energia de transporte do Brasil e 7% da energia de transporte dos Estados Unidos em 2022.

Os biocombustíveis desempenham um papel importante na redução das emissões de gases de efeito de estufa no setor dos transportes, juntamente com os veículos elétricos, motores mais eficientes, mudanças nos modos de transporte e outros combustíveis limpos, como o hidrogênio.

[1] https://www.iea.org/data-and-statistics/charts/biofuel-production-by-country-region-and-fuel-type-2016-2022

https://exame.com/esg/brasil-e-o-segundo-maior-produtor-de-biocombustiveis-do-mundo/

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Distribuidoras de energia vão investir R$ 130 bilhões no Brasil até 2027

Recursos vão garantir melhorias e expansão da rede, que hoje atende 99,8% dos lares brasileiros

Só em tributos e encargos, segmento arrecada R$ 87 bilhões ao ano, além de gerar mais de 220 mil empregos diretos. (Abradee/Divulgação)

EXAME Solutions – Publicado em 25 de junho de 2024 

O segmento de distribuição de energia elétrica brasileiro avançou bastante nos últimos 30 anos. Hoje, 99,8% dos lares do país têm acesso à energia elétrica. E para entregar ainda mais qualidade e disponibilidade aos consumidores, as distribuidoras se comprometeram a investir, até 2027, cerca de R$ 130 bilhões na expansão, robustez e na melhoria de suas redes.

Cerca de 40% desse montante será destinado ao aumento da resistência da rede e à redução das interrupções de energia, especialmente diante dos eventos climáticos extremos que têm se tornado cada vez mais frequentes e intensos.

Universalização dos serviços

Desde 2022, os investimentos em tecnologias que modernizam a rede elétrica, como monitoramento remoto, automação e outras inovações que aumentam a resiliência, praticamente dobraram, atingindo R$ 31 bilhões por ano.

Focando na expansão, os investimentos das distribuidoras aumentaram significativamente, passando de R$ 9 bilhões em 2019 para R$ 19,6 bilhões em 2022, um crescimento de 118%.

Além disso, o governo federal, em parceria com empresas do setor, lançou o programa Luz Para Todos, um dos maiores projetos de universalização do acesso à energia no mundo. Desde 2003, este programa permitiu que mais de 3,6 milhões de residências fossem conectadas à rede elétrica, promovendo inclusão e desenvolvimento em áreas antes sem acesso à eletricidade.

220 mil empregos diretos são gerados pelo segmento de distribuição no Brasil

Somados, esses investimentos de longo prazo das distribuidoras em parceria com o poder público garantiram, nas últimas três décadas, a universalização dos serviços de energia no Brasil.

Em 1995, quando se deu início à privatização do setor, apenas 38 milhões de residências tinham acesso ao serviço básico. Quase 30 anos depois, a distribuição de energia avançou, atingindo 91,2 milhões de unidades consumidoras – um salto de 140%.

“Essa parceria [entre o poder público e o privado] só ocorreu por conta de um modelo regulatório que trouxe segurança jurídica para a atração de investimentos ao segmento”, afirma Marcos Madureira, presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia (Abradee).

Segundo ele, a distribuição tem um papel fundamental na integração do setor. “Só temos a possibilidade de ter, por exemplo, a introdução de oferta de fontes renováveis no sistema, porque temos uma rede ampla de distribuição. Ou seja, nosso objetivo é garantir o acesso à energia segura, sustentável e moderna”, diz.

4 milhões de quilômetros é a extensão da rede de distribuição no Brasil – o equivalente a 100 voltas ao redor da Terra

Madureira se refere a um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU – o 7 –, que estabelece o acesso à energia limpa e acessível para todos. Nesse sentido, o Brasil está à dianteira de outros países. Isso porque, no mundo, o percentual de acesso à energia é de 90,2%. Na América do Sul, o cenário não é diferente.

Segundo dados da Agência Internacional de Energia, apenas o Chile e o Uruguai sustentam o mesmo percentual no Brasil, que está à frente de países como México e África do Sul, que não têm as dimensões continentais do nosso país, tampouco o mesmo número de habitantes.

O segmento também é responsável por 3,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do país – e pela remuneração de toda a cadeia produtiva de energia (geração e transmissão). Só em tributos e encargos, arrecada R$ 87 bilhões ao ano, além de gerar mais de 220 mil empregos diretos.

O acesso à energia elétrica melhora ainda os indicadores sociais nas mais diversas frentes, como educação, saúde e renda, ou seja, reduz as desigualdades e o combate à pobreza.

https://exame.com/negocios/distribuidoras-energia-investir-brasil/

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|Uma escola disruptiva é uma necessidade contemporânea para quem será adulto em 2040

Com avanço de robôs, algoritmos e inteligência artificial, quais habilidades serão mais requeridas daqui a dez ou quinze anos?

Por Leandro Karnal – Estadão – 30/06/2024 

Fui aluno dedicado e exemplar no ensino fundamental e médio. Era o que se chamava de “nerd”. Não era bom em exatas, mas tentava. Meu campo de destaque eram as humanas. Onde eu era bom? Era brilhante no comportamento, na assiduidade, na disciplina, nas roupas impecáveis e até nos cabelos perfeitamente ordenados.

Ouvia na escola e em casa: somente bons alunos e obedientes seriam vitoriosos. Minha avó advertia, meus pais instruíam, as freiras do colégio São José exaltavam… Todos sabiam durante os anos do regime militar: o futuro pertenceria aos disciplinados!

De alguma forma, há meio século, existia um alinhamento entre ideal educativo médio, sociedade, famílias e carreiras. Quando me tornei professor universitário aos 23 anos, quando ingressei na pós-graduação da USP ou quando fui aprovado no concurso para professor de História da América Colonial na Unicamp, meus mestres e parentes fizeram coro uníssono: “Ele sempre foi um bom aluno!”. Havia a coerência entre o sucesso e o respeito à hierarquia. Eu tinha vencido pelo sacrifício, pelo silêncio em sala e pela incorporação das regras. Meu cabelinho arrumado tinha sido uma mola propulsora em meio a hippies e cabeludos rebeldes.

O modelo de escola foi formado pela inspiração prussiana da disciplina e pela concepção universalista do currículo francês. Conhecer um pouco de tudo, em absoluta submissão aos professores, formava bons operários, excelentes soldados e cidadãos pacatos.

O mundo não anda, ele capota. Assim diz certo axioma de caminhoneiro. O mercado demanda criatividade. “Pensar fora da caixa” virou mantra. O repetidor de comportamentos ficou adequado a uma linha de montagem de uma fábrica asiática. Todos os modelos de sucesso do mundo empreendedor atual são alunos que deixaram o curso, quebraram princípios e reinventaram a si. O “nerd” vira subordinado de um visionário. O bom aluno será contratado para uma função secundária. Inspiração parece superar transpiração. Será?

Ser um bom soldado ou operário produtivo é função digna. A questão é social. Classes baixas tendem a ressaltar a obediência para seus rebentos: “Prestem atenção a tudo aquilo que a professora fala”. Os alunos de classe alta são estimulados à autonomia. Há uma esperança em pais pobres de que a escola seja um seguro contra a vida mais difícil. Há uma consciência de classes altas sobre a importância de network fora dos bancos acadêmicos.

Vou tocar em uma ferida. Na escola pública (maioria absoluta de espaço educacional no Brasil), os professores possuem pouca diferenciação social dos alunos. A biografia de quem fez uma licenciatura ou cursou pedagogia raramente é de um membro da classe A. Assim, o mundo possível também dialoga com a repetição e a disciplina que possibilitarão a conclusão do ensino médio e um emprego melhor. Com renda reduzida, poucos professores viajam. A maioria não compra livros ou faz cursos de atualização. Cumprem um trabalho muitas vezes extraordinário, mas lutam com uma realidade de ver o horizonte como seu aluno vê. O professor de escolas de elite dialoga mais com a ruptura, o projeto alternativo e a criatividade. Por vezes, ganhando mais, os profissionais de escolas privadas viajam mais e veem mais coisas, conseguindo, no meio impregnado de mercado, indicar coisas além do “sentem e copiem”.

Não sou um utópico. O aluno-cliente das escolas privadas pode ser um desastre para qualquer projeto transformador. O que eu destaquei é como nós, professores, estamos olhando o mundo para confirmar ou desafiar o status quo.

Uma escola disruptiva é uma necessidade contemporânea. O modelo é mais fácil no ensino fundamental e médio privado do que nas escolas públicas. Sim, há notáveis exceções. Há gente brilhante em escolas estaduais e mediocridades absolutas na educação escolar privada. Penso pela média que observo pelo Brasil. A pergunta é: que comportamentos e conhecimentos queremos estimular para alguém que será um adulto em 2040? Ordem e hierarquia serão essenciais? Estimular rebelião sobre os padrões será um atrativo? Com avanço de robôs, algoritmos e inteligência artificial, quais habilidades serão mais requeridas daqui a dez ou quinze anos?

O questionamento é necessário para escolas de elite e públicas. Para qual horizonte preparar os alunos? “Copiem e decorem” terá alguma validade no mundo pela frente? Qual é a relevância da memória humana em um universo de smartphones? Disciplina e foco serão, curiosamente, diferenciais em um cotidiano disperso por telas? Entre Zaps e bites, chegou a hora revolucionária de discutir filosofia da educação. Ela é a grande meta de uma reorientação de conteúdos, práticas e avaliações. Sem atenção total ao ensino público, não teremos cidadania plena. Sem alunos críticos, teremos um desastre pela frente. Esperança?

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de ‘A Coragem da Esperança’, entre outros

https://www.estadao.com.br/cultura/leandro-karnal/uma-escola-disruptiva-e-uma-necessidade-contemporanea-para-quem-sera-adulto-em-2040/

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