A história do remédio que revolucionou tratamento da dor e deu origem à indústria farmacêutica há 125 anos

O ácido acetilsalicílico, popularmente conhecido pela marca comercial Aspirina, é considerado o medicamento que inaugurou a indústria farmacêutica

Edison Veiga – Folha/BBC – 6.mar.2024 


Bled (Eslovênia)

Foi um marco científico. O ácido acetilsalicílico, popularmente conhecido pela marca comercial Aspirina, é considerado o medicamento que inaugurou a indústria farmacêutica.

Trata-se do primeiro fármaco a ser sintetizado em laboratório, ou seja, que não pode ser encontrado em sua forma final na natureza.

Seu registro de patente foi realizado pela empresa Bayer em 6 de março de 1899, em Berlim, na Alemanha. Era o começo de uma história de sucesso, que mudaria a maneira como a humanidade lida com a dor.

Mas antes de prosseguir com esta história, cabe um alerta sempre necessário quando o assunto é medicamento —e mais importante ainda no caso de um remédio barato e acessível como é a Aspirina, que pode ser comprada, no Brasil, sem a necessidade de receita médica: a automedicação é sempre um risco.

“[O ácido acetilsalicílico] é facilmente encontrado e vendido nas farmácias e, por conta dessa facilidade de acesso, esse medicamento acaba sendo usado de maneira inadequada, o que pode trazer efeitos adversos como problemas gastrointestinais, toxicidade renal e hepática”, alerta à BBC News Brasil o farmacêutico Jean Leandro dos Santos, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

“É sempre muito importante que haja orientação de um profissional de saúde no momento da indicação de um medicamento, como é o caso da Aspirina. O uso incorreto desses fármacos tem potencial [de consequência] grave. É importante que a população seja sempre orientada, no momento da decisão de utilizar um medicamento, mesmo que seja de fácil aquisição, isento de prescrição e de acesso direto na farmácia” completa o especialista, que também é coordenador do grupo de pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos na Unesp e membro da American Chemical Society (ACS).

Mas se a Aspirina tem 125 anos, sua história é derivada de uma substância —esta, sim, encontrada na natureza— utilizada pelo ser humano há pelo menos 2,4 mil anos. Trata-se do ácido salicílico.

Chorão

Salicílico é uma derivação de Salix, a denominação científica da família do salgueiro —árvore também chamada de chorão, famosa pelas folhas pendentes. Desde a antiguidade, sabe-se que tanto as folhas quanto o caule dessas plantas eram boas para fazer um extrato utilizado no alívio de sintomas como dor e febre.

O salgueiro é rico em salicilato. Seu uso medicinal consta no famoso papiro Ebers, um tratado médico do Egito antigo datado de aproximadamente 1550 a.C. Aclamado como o pai da medicina, Hipócrates (460 a.C. – 370 a.C) prescrevia o chá da planta para seus pacientes.

A medicina ancestral era muito mais empírica —e somente a partir do século 18 pesquisadores conseguiram identificar a substância benéfica desses extratos.

Mas havia um problema: se o ácido salicílico era bom no combate a dores, febre e inflamações, seus efeitos colaterais não podiam ser ignorados. Em outras palavras, o remédio causava sérios danos ao estômago.

“O ácido salicílico foi descoberto no período grego a partir da casca de um salgueiro que, uma vez fervida, rendia um chá com propriedades analgésicas, antipiréticas e capazes de aliviar a dor e a inflamação”, conta Santos.

“Só que o produto isolado da casca do salgueiro, chamado de salicina, ainda hoje é utilizado no tratamento de verrugas e calos. Se a gente imaginar em termos de efeito adverso que é utilizado para reduzir calos, imagina o estrago que faz no estômago. Por isso, com base nos efeitos adversos, que esta substância precisou ser modificada até chegar ao ácido ácido acetilsalicílico”, acrescenta.

Isso se tornou uma preocupação científica. Era preciso dar um jeito de seguir utilizando a substância para o objetivo desejado, sem trazer novas complicações para os pacientes.

Foram muitas tentativas, algumas malsucedidas, outras parcialmente bem-sucedidas. Até que em 1897, movido por uma questão pessoal —ele queria encontrar algo para tratar o reumatismo do pai—, o químico alemão Felix Hoffmann (1868-1946), pesquisador da Bayer, conseguiu o feito.

Em laboratório, ele criou o ácido acetilsalicílico, abrindo um novo modelo de tratamento da dor para a humanidade.

Foi a primeira vez que um fármaco foi sintetizado em laboratório, ou seja, não apenas isolado da natureza.

Como o medicamento de Hoffmann não pode ser encontrado naturalmente, essa invenção se tornou um marco, considerado o ponto zero da indústria farmacêutica. Em 6 de março de 1899, a Aspirina foi então patenteada.

“Antes da descoberta do ácido acetilsalicílico, não havia muitas opções terapêuticas para o tratamento de quadros de dor. Basicamente, a população utilizava plantas medicinas para aliviar os sintomas”, observa Santos.

“Até o final do século 19, existiam poucos analgésicos. Basicamente a morfina e o ácido salicílico”, acrescenta à BBC News Brasil a biomédica Ana Paula Herrmann, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora do portal FarmacoLógica.

Ela lembra que a morfina tinha histórico de causar dependência, e o ácido salicílico acarretava problemas por irritar as paredes estomacais.

Em sua primeira versão, o ácido acetilsalicílico era um pó, ministrado sempre com acompanhamento médico.

A partir de 1900, torna-se um comprimido, solúvel em água, vendido em pequenos tubos de vidro. Foi a primeira droga de uso geral vendida sob esse formato.

Pela primeira vez, alguém poderia se medicar sem a necessidade do auxílio de um médico ou um boticário. Foi uma revolução.

A simplicidade, o baixo custo, a acessibilidade e a eficácia transformaram a Aspirina em um sucesso quase instantâneo.

Em pouco tempo, se tornou sinônimo de comprimido, de remédio. E passou a ser um item onipresente nas casas.

“Tornou-se um dos medicamentos mais vendidos do mundo”, destaca a biomédica.

Na Primeira Guerra Mundial, a Aspirina se tornou um medicamento essencial para todos os soldados na linha de frente de combate. E espalhou-se rapidamente pelo mundo.

Como funciona

Mas, afinal, como a Aspirina funciona?

“[Ela] inibe de maneira irreversível uma enzima no organismo responsável pela formação de prostaglandinas, que são substâncias que causam dor, e tromboxano, substância que causa fenômenos trombóticos”, explica à BBC News Brasil o médico Gilberto de Nucci, professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Essa característica da inibição, irreversível, se deve à capacidade do acetilsalicílico de acetilar essa enzima, cujo nome é ciclo-oxigenase”, completa Nucci, que é membro da Academia Nacional de Medicina, da Academia Nacional de Farmácia e da Academia Brasileira de Ciências.

Santos detalha que essa enzima “é responsável pela produção de mediadores que regulam o funcionamento e o equilíbrio de vários órgãos”,

“Frente a uma inflamação ou quadro febril, esses mediadores são produzidos em excesso, e esse aumento de produção acaba aumentando o quadro inflamatório e sensibilizando os terminais receptivos responsáveis pela dor”, explica o farmacêutico.

O “pulo do gato” de Hoffmann foi, de acordo com Santos, “uma estratégia bastante simples”, na qual ele “fez uma reação química de acetilação do ácido salicílico, levando à formação do ácido acetilsalicílico”.

“A introdução desse grupamento é responsável pela redução das propriedades indesejadas que o ácido salicílico tinha”, completa.

Durante muito tempo, no entanto, esse mecanismo de ação do medicamento era desconhecido. Sabia-se que funcionava por conta da experiência prévia com o extrato do chorão. Mas não se entendia exatamente como o fármaco agia no organismo.

“Isso só foi descoberto depois. E rendeu um Nobel para o descobridor”, destaca Herrmann.

Os méritos são do farmacêutico britânico John Vane (1927-2004), ganhador do prêmio Nobel em 1982, anos após demonstrar o mecanismo de ação do ácido acetilsalicílico.

A Aspirina começou a perder o posto de analgésico preferido depois que foram desenvolvidos outros fármacos destinados a aliviar a dor, como o paracetamol, em 1956, e o ibuprofeno, em 1962.

Outros usos

Segundo Herrmann, hoje o medicamento é mais utilizado na prevenção de doenças cardiovasculares do que para aliviar a dor.

“No Brasil, hoje, como analgésico se usa muito mais o paracetamol, a dipirona e outros, que têm menos efeitos danosos para o estômago”, diz ela.

“O uso da Aspirina é principalmente na prevenção de eventos cardiovasculares e também na prevenção de alguns tipos de câncer.”

Santos explica que essas outras indicações acabaram sendo descobertas apenas com o uso.

“Com a própria utilização, foram observados tais efeitos. Isso normalmente acontece com a pesquisa clínica, quando são percebidos efeitos adicionais do uso de um remédio”, afirma.

No caso, constatou-se que, como a Aspirina inibe a ciclo-oxigenase, também previne ou inibe a formação de trombos.

Por isso, sua ingestão, em dosagens menores, passou a ser recomendada para alguns pacientes com histórico de doenças cardiovasculares, como forma de prevenir infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Mais recentemente, algumas pesquisas indicaram que o medicamento pode ser eficaz na prevenção de alguns tumores cancerígenos, por conta de seu papel inibidor de mediadores fisiológicos.

Para o professor Santos, é importante lembrar que, “embora seja um fármaco conhecido há mais de 100 anos, ainda há muitas pesquisas buscando a compreensão de seus mecanismos”.

“Ainda é uma fonte de inspiração para o desenvolvimento de novos compostos, novos fármacos. Embora centenário, [o ácido acetilsalicílico] ainda é capaz de prover novas ideias, desenvolvimento de novas formulações, medicamentos e associações em que ele é combinado a outras substâncias”, acrescenta.

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Não quer criar ‘cretinos digitais’? Então faça seus filhos ler

Novo livro do neurocientista francês Michel Desmurget defende que livros são o melhor antídoto contra o empobrecimento da linguagem, dificuldade de concentração e outros problemas causados pela overdose de telas

Por Luciana Garbin – Estadão – 06/03/2024 

Na última reunião de pais no colégio, a professora de um dos meus filhos fez um apelo: “Por favor, peçam a seus filhos para lerem mais em casa, porque as leituras que fazemos na escola não são suficientes”. Com uma penca de disciplinas para ensinar, fui obrigada a concordar com ela e saí disposta a colaborar. Mas a lição de casa tem se revelado mais árdua com tantos jogos, telas e recursos digitais disponíveis a um clique. Em muitas famílias, fazer crianças e adolescentes focarem apenas no bom e velho livro virou desafio hercúleo hoje em dia.

E é justamente dele que trata o livro Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais (Editora Vestígio), do neurocientista francês Michel Desmurget. Especializado em neurociência cognitiva, ele atua no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França e se tornou mais conhecido depois do best-seller A fábrica de cretinos digitais: o impacto das telas para nossas crianças. Nele, apresenta pesquisas feitas em países europeus que sustentam, entre outros pontos, que os “nativos digitais” podem ser os primeiros filhos a ter QI inferior ao dos pais.

Gosto pela leitura não é inato e precisa ser transmitido, de preferência pelos pais ou cuidadores

Gosto pela leitura não é inato e precisa ser transmitido, de preferência pelos pais ou cuidadores Foto: Adobe Stock

Segundo o autor, o abandono da leitura pelas novas gerações tem consequências não só no desempenho escolar, como também no vocabulário, na estruturação do pensamento, na nutrição da memória e na apropriação de conhecimentos complexos. A troca do livro pelo uso massivo de telas também está ligada a prejuízos no sono e na aquisição da linguagem, problemas de concentração e aumento da ansiedade e do risco de obesidade.

Esse recuo generalizado da leitura é sentido de forma mais marcante pelo meio universitário. Desmurget destaca em seu novo livro que pesquisas mostram que muitos estudantes sabem que é importante ler, sabem que os professores esperam que eles leiam e sabem que isso terá impacto em suas notas. Mesmo assim, não leem. E aí é que o problema se agrava porque os não leitores de hoje serão os professores de amanhã.

Desde o surgimento da linguagem, a humanidade não encontrou nada melhor que a leitura para estruturar o pensamento, organizar o desenvolvimento do cérebro e civilizar nossa relação com o mundo. O livro literalmente constrói a criança em sua tripla dimensão intelectual, emocional e social. Portanto, o brusco declínio dessa atividade nas novas gerações constitui um verdadeiro desastre para a fertilidade coletiva de nossa sociedade; e isso é ainda mais verdadeiro porque o desaparecimento da leitura ocorre em prol de uma cultura digital recreativa, certamente mais lucrativa para seus diversos atores industriais, mas cuja natureza embrutecedora é hoje definitivamente comprovada por um vasto conjunto de estudos científicos, com influências negativas, entre outros exemplos, na linguagem, na concentração, na impulsividade, no sono, na ansiedade e no desempenho escolar.”

Michel Desmurget, neurocientista francês

Desmurget defende que é hora de demonstrar que a leitura “por prazer” de maneira alguma constitui uma prática elitista, reservada a alguns privilegiados eruditos, mas sim é uma necessidade urgente de desenvolvimento para as crianças. Só há um problema: o gosto pela leitura não é inato. Ou seja, não brota espontaneamente em todos os seres humanos – precisa, em vez disso, ser transmitido. E aí nada como os pais – ou cuidadores – para assumir essa missão.

“Vasculhei a literatura científica em todas as direções e não encontrei um antídoto melhor para a estupidificação das mentes do que a leitura”, escreve o pesquisador francês. “Ela é uma verdadeira máquina para moldar a inteligência em sua dimensão cognitiva (aquela que permite pensar, refletir e raciocinar), mas também, de maneira ampla, socioemocional (aquela que permite entender a si mesmo e aos outros, para benefício das relações sociais). O leitor é o anticretino digital!”

Desmurget lembra ainda que a tarefa é mais simples quando a criança é pequena, mas sempre é tempo de começar. “Claro que alguns pais podem se arrepender de não ter feito o suficiente porque não sabiam ou, mais comumente, não podiam. Todos carregamos essas amarguras. Mas, felizmente, no reino dos livros, nada está realmente perdido: não importa a idade, o sexo, as possíveis resistências ou as dificuldades escolares, o acesso aos benefícios (e prazeres) da leitura está sempre aberto, mesmo para supostos leitores esporádicos.” A dica é, portanto, arregaçar as mangas.

Aqui em casa, uma experiência que tem dado certo é trocar créditos de leitura por créditos em telas – uma hora de leitura, por exemplo, dá direito a determinado período de jogo. Ainda há reclamações, mas outro dia escutei uma frase do meu filho que me deixou animada: “Sabe, mamãe, que estou achando esse livro melhor que alguns programas do YouTube…?”.

https://www.estadao.com.br/cultura/luciana-garbin/nao-quer-criar-cretinos-digitais-entao-faca-seus-filhos-ler

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Investimentos em energia limpa aumentam dependência da China, líder na cadeia de suprimentos

País tem 80% do mercado de energia solar e domina 3/4 da capacidade de baterias para carros elétricos

Thiago Amâncio – Folha – 27.fev.2024 – 

São Paulo

Esforços de países para reduzir suas emissões de poluentes e investir em energia limpa tornaram as economias globais ainda mais dependentes da China, que não só domina de forma ampla o setor como tem expandido sua capacidade industrial a passos largos.

Com 80% do mercado global de energia solar, incluindo painéis que custam a metade do preço do que os produzidos em outros locais, além de três quartos da capacidade de produção de baterias para carros elétricos e a maior empresa do setor, a China tem se destacado em todas as fases da cadeia produtiva: desde maquinários e insumos para exportação até veículos elétricos e módulos solares de ponta.

Essa dependência tem incomodado rivais econômicos dos asiáticos e acirrado a competição em países como os Estados Unidos e potências da Europa, enquanto a China domina o mercado europeu de carros elétricos e amplia investimentos em infraestrutura na América Latina.

“As políticas de clima estão mais e mais interligadas com a geopolítica”, diz à Folha Ilaria Mazzocco, pesquisadora do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais), think tank com sede em Washington. “É importante encontrar soluções que protejam as economias dos países, mas que não desaceleram o ritmo da transição energética.”

Em outubro do ano passado, Geoffrey Pyatt, autoridade do Departamento de Estado americano para Recursos Energéticos, afirmou em evento sobre gás natural em Washington que é preciso “garantir que não se repita” nos setores de energia eólica, nuclear e hidrogênio “o que acontece na área de células solares e wafers de silício, na qual a China tem essencialmente um monopólio em vários elementos da cadeia de produção”. Wafer de silício é o nome dado no setor para a lâmina de silício usada nos módulos solares.

“Temos de ter muito cuidado para não substituirmos uma era de dependência europeia do petróleo e do gás russos por dependência coletiva da tecnologia limpa e minerais críticos da China”, afirmou.

Preocupação similar tem ocorrido na Europa, principal destino das exportações de carros elétricos da China —8 em cada 10 carros chineses para exportação em 2021 foram para o mercado europeu, segundo dados da AIE (Agência Internacional de Energia).

No fim do ano passado, a Comissão Europeia abriu investigação para avaliar a imposição de tarifas punitivas de importação para proteger fabricantes europeus contra os veículos chineses —incluindo não apenas a maior empresa do mundo do setor, a BYD, mas também outras marcas fabricadas no país, como Tesla, BMW e Renault.

“Os mercados globais agora estão inundados com carros elétricos mais baratos. E seu preço é mantido artificialmente baixo por enormes subsídios estatais”, disse a presidente do órgão, Ursula von der Leyen.

A China detém hoje 75% da capacidade de produção de baterias de íon-lítio, usadas nos veículos elétricos somando 1,2 TWh, segundo a AIE. Para se ter uma ideia, todo o restante do mundo somado chega a 0,37 TWh. E a expectativa é de expandir ainda mais, com a China chegando a 4,65 TWh em 2030.

Mas o principal setor de domínio tecnológico e de mercado da China é a energia solar, com 80% do mercado de componentes e de módulos solares prontos, segundo análise da consultoria britânica Wood Mackenzie.

No ano passado, o país investiu US$ 130 bilhões no setor, de acordo com a empresa, após incrementar não só a capacidade de atender à demanda externa como também a interna.

Isso porque a China é também o maior poluidor do planeta e tem investido em tecnologia para limpar a própria matriz energética. Com esse investimento, a partir deste ano deve começar a baixar de forma consistente as emissões de dióxido de carbono, segundo estudo da organização europeia Crea (Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo).

Só em 2023, a China instalou mais painéis solares do que os EUA em toda a sua história, De acordo com a Administração Nacional de Energia do país, no ano passado o país acrescentou 216,9 gigawatts à sua capacidade de geração em energia solar. Para se ter uma ideia, em 2022 o acréscimo, já recorde, havia sido de 87,4 gigawatts.

O montante em 2023 na China é maior do que toda a capacidade dos Estados Unidos, que é de 175,2 GW.

Dados da AIE deixam clara a expansão da capacidade chinesa na última década. Em 2010, a China produzia 55,7% dos módulos solares do mundo. Em 2021, isso saltou para 74,7%. Movimento similar se deu com os componentes dos módulos, como os wafers e o polissilício.

Essa expansão foi motivada não apenas pela exportação, mas também pela explosão da demanda do mercado interno do país, que anunciou meta para atingir neutralidade de carbono em 2060. Em 2010, 3,5% da demanda global por módulos solares vinha da China. Em 2021, essa proporção saltou para 36,4%.

De acordo com a Wood Mackenzie, o módulo solar produzido na China é hoje 50% mais barato do que se fosse feito na Europa e 65% mais barato do que nos Estados Unidos.

No Brasil, segundo estimativa da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), a diferença é também de 50% —ou seja, painéis fabricados nacionalmente custam o dobro dos chineses.

“Em razão de políticas públicas industriais, a China tem um hub industrial muito significativo e produz todos os componentes utilizados em painéis. Se um fabricante brasileiro quer montar um módulo aqui no Brasil, ele tem de importar praticamente todos os componentes, o vidro, a célula, os componentes elétricos. E paga imposto em cima dessa matéria-prima”, diz Rodrigo Sauaia, presidente-executivo da Absolar.

Os riscos de se concentrar um importante setor da economia em um único país ficaram evidentes na pandemia, quando as políticas de Covid zero ao longo de 2021 e 2022 fecharam fábricas na China, e na Guerra da Ucrânia, quando parte da Europa dependia de gás natural russo.

“É sempre arriscado que um fornecimento crítico de energia esteja fortemente concentrado em um único país, como vimos na recente crise energética na Europa”, diz à Folha Elissa Pierce, pesquisadora da Wood Mackenzie. “Mas será quase impossível para os países investirem em energia solar a curto prazo sem usar produtos chineses.”

Ela cita queda na instalação de módulos solares na Europa após a União Europeia adotar barreiras antidumping e anti subsídios, entre 2013 e 2018. Após a remoção de barreiras, as instalações passaram de 11 GW em 2018 para 23 GW em 2019, afirma.

Países como Índia, Turquia e EUA restringem a importação de componentes chineses para incentivar a produção doméstica, mas ainda dependem da importação de polissilício, wafers e células, diz ela. Mesmo quem tem acesso a esses materiais depende de outros insumos chineses, como vidro temperado e molduras de alumínio.

O governo chinês disse publicamente que considera proibir a exportação maquinários usados para produzir insumos.

“A China já detém 96% da capacidade global de fabricação de wafers e isso, sem dúvida, tornaria ainda mais difícil para outros países construir sua própria capacidade. Este é o grande risco de depender da tecnologia de um único país”, diz Pierce.

A América Latina se tornou um dos principais polos de investimento chinês em energia limpa.

Segundo análise do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), há 35 usinas solares e eólicas de empresas chinesas em operação, construção e planejamento no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no México.

Entre 2019, diz o Ipea, a capacidade eólica controlada por empresas chinesas na região passou de 1,6 GW para 3,2 GW. A capacidade solar, por sua vez, quadruplicou, de 363 MW para 1,4 GW.

“A China, como o Brasil e outros países dos Brics, tem um projeto de ganhar mais espaço na governança global. O investimento em energia limpa é uma maneira de influenciar no debate global”, diz à reportagem um dos autores do estudo, Marco Aurélio Alves de Mendonça.

“A China investe muito em hidrelétricas no exterior, mas em países pequenos muitas vezes isso não é viável. E aí pequenas fazendas eólicas e fotovoltaicas acabam resolvendo muitos dos problemas reais nesses países”, afirma.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/02/investimentos-em-energia-limpa-aumentam-dependencia-da-china-lider-na-cadeia-de-suprimentos.shtml

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Trem hiperloop ‘flutuante’ da China atinge velocidade recorde de 622 km/hora, e quer superar aviões

Época Negócios – 01/03/2024 

Época Negócios – Durante mais de um século, os humanos confiaram nos aviões para reduzir drasticamente o tempo das viagens domésticas. Mas imagine embarcar em um trem que leva você ao seu destino ainda mais rápido do que qualquer avião comercial.

Essa é potencialmente a realidade que aguarda a China nas próximas décadas, à medida que o país atinge um marco importante na tentativa de introduzir viagens ferroviárias de alta velocidade.

Seu trem ‘T-Flight’ atingiu uma velocidade recorde de 622 km/hora em uma pista de teste curta – ainda mais rápido que o MLX01 Maglev do Japão (430 km/h). O Eurostar atinge 300 km/h e a maioria dos trens do Reino Unido opera a cerca de 200 km/h.

No entanto, os engenheiros chineses esperam que, uma vez comercializado, ele atinja impressionantes 2.000 km/h – muito mais rápido que a velocidade do som e mais que o dobro da velocidade de um avião Boeing 737. Seria ainda mais rápido do que a mais recente aeronave experimental de alta velocidade da NASA, o X-59, que a agência afirma ser capaz de voar a 1.500 km/h.

A esta velocidade, o trem T-Flight poderia ir de Wuhan a Pequim em apenas 30 minutos, em vez de mais de quatro horas, como os atuais trens de alta velocidade. Hoje, existe um outro trecho com sistema maglev na China, de 30 quilômetros, inaugurado em 2002 em Xangai, conecta o Aeroporto Pudong de Xangai e o centro da cidade e custou mais de £ 1 bilhão para ser construído. Na linha, os trens percorrem até 431 quilômetros por hora.

O T-Flight usa tecnologia de levitação magnética (maglev, ou magnetic levitation, “levitação magnética”), onde ímãs são usados para levantar os vagões acima da pista, permitindo-lhes deslizar perfeitamente. Isso elimina a necessidade de rodas e, portanto, qualquer incidência de atrito, proporcionando um serviço mais rápido e silencioso.

O T-Flight seria um trem hyperloop, o que significa que transportaria pessoas em alta velocidade em tubos entre locais distantes. O conceito – proposto pela primeira vez em 1910 pelo engenheiro norte-americano Robert Goddard – recebeu interesse renovado em 2013, devido ao interesse do bilionário Elon Musk em construir algo semelhante nos Estados Unidos.

Numa segunda rodada de testes, os chineses pretendem estender a pista em mais de 30 vezes para que possa atingir velocidades mais rápidas, relata a WordsSideKick.com. Em última análise, o seu objetivo é construir um sistema de metrô entre Wuhan e Pequim – uma distância de mais de 1055 quilómetros –, o que poderia reduzir o tempo de viagem de quatro horas para meia hora.

No entanto, isto pode demorar muitas décadas para acontecer, devido aos custos altíssimos e questões de infraestrutura.

Fonte: https://epocanegocios.globo.com/tecnologia/noticia/2024/02/trem-hiperloop-flutuante-da-china-atinge-velocidade-recorde-de-622-kmhora-e-quer-superar-avioes.ghtml

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A Apple se tornou o patinho feio dos gigantes da tecnologia

Com queda na receita, companhia precisa provar que não ficou para trás na corrida da IA

Por Fábio Alves (Broadcast ) – Estadão – 03/03/2024 

Depois que a Apple anunciou o cancelamento do projeto para construir seu carro elétrico, realocando boa parte dos cerca de 2 mil funcionários dessa área para a divisão de inteligência artificial (IA), muitos analistas começaram a fazer a seguinte pergunta: será que agora o preço das ações da fabricante do iPhone vai subir na mesma magnitude de alta que as outras gigantes do setor tecnológico?

Em 2023, as ações da Apple subiram 49%, mas tiveram o pior desempenho entre as chamadas “sete magníficas” (Apple, Meta, Nvidia, Tesla, Google, Microsoft e Amazon). Só o papel da Nvidia, por exemplo, disparou 240% no ano passado, maior ganho do índice S&P 500.

E neste ano, no acumulado até o pregão de quinta, as ações da Apple caíam 5,77%, enquanto o índice Nasdaq registrava uma alta acumulada de 6,24%. O ganho da Nvidia em 2024, até ontem, era de 56,83%.

Ou seja, a Apple deixou de ser apenas o “patinho feio” das “sete magníficas”. Diante do desempenho da ação neste ano, a Apple enfrenta um desafio duro para superar as desconfianças dos investidores sobre dois pontos importantes.

O primeiro é como irá reverter a tendência de queda nas receitas registrada nos últimos quatro trimestres. O segundo ponto é como a Apple apagará a impressão entre analistas e investidores de que ficou bem para trás na corrida para liderar os resultados e benefícios com a IA, algo que a Nvidia já vem sendo recompensada apresentando receitas recordes nos seus balanços com a venda dos seus chips, descritos como “aceleradores de IA”.

Não à toa, durante uma reunião anual com os seus acionistas, o CEO da Apple, Tim Cook, enfatizou repetidamente que a empresa está investindo “significativamente” em IA.

“Vemos um incrível potencial para avanços na IA generativa, motivo pelo qual estamos atualmente investindo significativamente nessa área”, disse Cook.

Na prática, contudo, a Apple até agora não apresentou nada de concreto ao mercado nessa área, como o ChatGPT, da OpenAI, ou o Gemini, do Google. Os investidores vão querer ver algum anúncio concreto de produto ou de projeto na área de IA neste ano, caso contrário as ações da Apple poderão sofrer uma correção maior.

Isso porque as vendas da empresa têm ficado abaixo das expectativas dos investidores. No ano fiscal de 2023, encerrado em setembro do ano passado, a Apple reportou receitas de US$ 89,5 bilhões, numa queda de 1% em relação ao ano anterior. Foi o quarto trimestre consecutivo de queda nas vendas, no maior período de declínio de receitas desde 2001.

Outro sinal de problema: em 2023, a Apple não lançou novos modelos de iPad, ao contrário do que sempre aconteceu desde que esse produto foi lançado, em 2010. E não só isso: vendas de “laptops” e de computadores Mac registraram queda de quase 27%, para US$ 10,2 bilhões, no ano fiscal de 2023.

Portanto, a decisão de encerrar o Projeto Titan, como era chamado o projeto para a construção do seu carro elétrico, animou muitos analistas.

O analista da Wedbush, Daniel Ives, disse que a decisão de “arrancar o band-aid do projeto Titan e focar em projetos de IA generativa” é claramente o melhor movimento que a Apple pode seguir. Ives ainda mantém uma recomendação de “outperform” (equivalente a compra) para as ações da Apple, com uma projeção de preço-alvo em 12 meses de US$ 250 (ante a cotação de US$ 181,42 na quarta-feira).

O fato é que a Apple corre contra o tempo para tentar alcançar as outras “sete magníficas” na corrida pela liderança na IA. Muitos esperam, por exemplo, o lançamento de novos modelos de iPhone com capacidade e funções que proporcionem aos consumidores a experiência de IA que outras gigantes tecnológicas já oferecem. Agora, é esperar para ver

Análise por Fábio Alves

Colunista do Broadcast

https://www.estadao.com.br/link/empresas/a-apple-se-tornou-o-patinho-feio-dos-gigantes-da-tecnologia

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Entenda a importância da Economia do Mar para uma nação

O desenvolvimento de um país está diretamente relacionado com a Economia do Mar.

Estadão Blue Studio Express 22 de fevereiro de 2024

Foto de Martin Damboldt no Pexels

A Economia do Mar desempenha um papel de destaque para o desenvolvimento de qualquer nação. Portanto, necessita de um olhar mais atento de toda a sociedade para que os frutos sejam colhidos de forma a beneficiar o País, com a geração de empregos e renda.

Parafraseando o mundo náutico, é preciso saber navegar a favor do vento, escapando das tormentas e chegando com mais facilidade ao rumo traçado.

Dedicar um cuidado especial com este tema é algo urgente. Afinal, em um mundo tecnológico e inovador, onde a evolução caminha cada vez mais a passos largos, não se pode deixar de lado determinadas oportunidades, com o risco de perder para sempre o “bonde da história”.

Muito mais do que transportar pelo mar alimentos, insumos e produtos, o setor está inserido em um cenário estratégico que envolve diversas variáveis, como ciência, tecnologia inovadora, desenvolvimento econômico e preservação ambiental, entre outras.

Para aqueles que ainda não acreditam ou desconhecem o potencial da Economia do Mar, basta avaliar como as atividades marítimas se comportaram no desenvolvimento da civilização e, consequentemente, no crescimento das diversas nações que entenderam e desenvolveram ao máximo o potencial desse setor.

Desde os fenícios, passando pelos navegadores europeus e posteriormente o desenvolvimento naval norte-americano, diferentes nações utilizam o aprimoramento desse setor para elevar o potencial competitivo. Quer outro exemplo? Então pesquise sobre os portos modernos na China e o que estão chamando atualmente de a nova rota da seda.

Economia do Mar e as oportunidades

Utilizando a história de diferentes países e momentos como base, fica mais fácil compreender a necessidade de promover uma ação estratégica para o crescimento do País com base no desenvolvimento da Economia do Mar.

Em um setor repleto de oportunidades, é preciso ir além da atuação já conhecida com cargas, graneis sólidos ou líquidos. Nesse contexto, é necessário dedicar uma atenção maior para a reindustrialização naval, entendendo que esse assunto precisa ser considerado como uma questão de Estado.

Um ponto que pode servir como referência neste debate é o pré-sal e todo o seu potencial para o desenvolvimento do País, exigindo uma atuação estratégica para a proteção desta riqueza.

E este é apenas um dos diversos exemplos existentes, assim como o descomissionamento de plataformas e desmantelamento de plataformas e navios. Atualmente, está em andamento o PL 1584 que trata da reciclagem de embarcações em debate em âmbito nacional, parte da solução no trato ESG, em conformidade com o protocolo de Hong Kong, que trata do desmantelamento de embarcações no mundo. É importante para o Brasil por ser ecológico e economicamente sustentável.

Certamente, a Economia do Mar se interliga com a imensa cadeia logística que envolve a indústria naval. Nesse contexto, existem oportunidades em diferentes áreas, como reparo, manutenção e construção naval, interligados também com o desenvolvimento de tecnologia de ponta.

Essa combinação de fatores faz parte de um cuidado especial de todos com o desenvolvimento da indústria naval, dedicando um olhar especial também para a Marinha Mercante.

Necessidade da união de forças

E aqui é importante lembrar a necessidade de promover a união de todos os atores envolvidos nesse contexto. Isso, aliás, representa com perfeição a importância de contar com a atuação estratégica de um cluster naval, interligando a indústria, com o poder público o meio acadêmico.

A missão, portanto, é adotar e colocar em prática estratégias modernas para o desenvolvimento da Economia do Mar, atuando com capacitação, gestão, governança, compliance e conteúdo local.

Esse conjunto de fatores precisam se relacionar a uma ação eficiente e efetiva que consiga garantir o aumento da competitividade, permitindo assim disputar em condições de igualdade com mercados externos.

Dessa forma, o Brasil conseguirá conquistar relevância em mais um segmento, como acontece em outras frentes, como o agronegócio e a indústria aeronáutica. No final, isso significa um engrandecimento da nação, com a geração de empregos e renda, de olho em um futuro próspero.

Para ficar atualizado sobre as novidades que envolvem a Economia do Mar e a indústria naval, acesse o site do Cluster Tecnológico Naval.

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Com imagens mais detalhadas, novos satélites podem transformar o mundo em Big Brother

Empresa pretende capturar do espaço imagens de objetos, no solo, de até dez centímetros

William J. Broad Folha/The New York Times –  1º.mar.2024 

Durante décadas, especialistas em privacidade foram cautelosos no que diz respeito a tecnologias de bisbilhotagem da Terra a partir do espaço. Temiam que satélites poderosos conseguissem se aproximar dos indivíduos a ponto de capturar close-ups que diferenciassem adultos de crianças ou distinguissem banhistas vestidos daqueles adeptos de andar no estado natural. 

Agora, segundo os analistas, uma startup está produzindo uma nova classe de satélites cujas câmeras, pela primeira vez, farão exatamente isso. 

“Estamos conscientes das implicações que isso tem com relação à privacidade”, disse Topher Haddad, chefe da Albedo Space. Segundo ele, a tecnologia que está sendo desenvolvida captará imagens de pessoas, mas não será capaz de identificá-las, e que, ainda assim, a empresa está tomando medidas administrativas para resolver questões de privacidade. 

Especialistas ressaltam que o que torna a vigilância que nos observa do alto potencialmente assustadora é sua capacidade de invadir áreas antes consideradas fora dos limites. 

“Essa é uma câmera gigante que fica no céu. Qualquer governo pode usá-la a qualquer momento sem nosso conhecimento. Definitivamente, deveríamos estar preocupados com isso”, afirmou Jennifer Lynch, conselheira geral da Electronic Frontier Foundation, que, em 2019, insistiu para que reguladores civis de satélites resolvessem essa questão. 

Do outro lado, Haddad e apoiadores da tecnologia da Albedo dizem que os benefícios devem ser considerados, sobretudo quando se trata de combater catástrofes e salvar vidas. “Você pode ver qual casa está pegando fogo e para onde as pessoas estão fugindo”, afirmou D. James Baker, ex-chefe da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que licencia, nos Estados Unidos, os satélites civis geradores de imagens. 

Com sede na região de Denver, no Colorado, a Albedo Space tem 50 funcionários e arrecadou cerca de US$ 100 milhões. A empresa planeja lançar seu primeiro satélite no início de 2025, confirmou Haddad, que prevê operar com uma frota de 24 veículos espaciais. 

Entre os investidores na Albedo, está a Breakthrough Energy Ventures, empresa de investimentos de Bill Gates. O conselho consultivo estratégico inclui antigos diretores da CIA e da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial, braço do Pentágono. 

O site da empresa não faz menção à imagem de pessoas ou às questões de privacidade. Mesmo assim, especialistas em reconhecimento frisam que os responsáveis por regular o setor deveriam acordar antes que os satélites comecem a fazer os primeiros close-ups. 

Para Linda Zall –ex-funcionária da CIA de longa carreira que se envolveu com alguns dos satélites espiões mais poderosos do país–, “estamos diante de um grande negócio”. Segundo, ela os equipamentos atingirão as casas, e as pessoas perceberão que as coisas que escondem no quintal passarão a ser observadas com muita clareza. “A privacidade é um problema sério.” 

“Estamos nos aproximando de um mundo do tipo Big Brother. Estamos sendo observados”, afirmou Jonathan McDowell, astrofísico da Universidade de Harvard, que publica um relatório mensal sobre desenvolvimentos espaciais civis e militares. 

Há muito tempo, veículos espaciais em órbita perscrutam o planeta. 

O potencial que satélites artificiais têm para vigiar a vida civil foi atestado no desastre nuclear de Chernobyl. Moscou negou qualquer problema sério, mas um satélite não militar dos EUA tirou uma fotografia, em 29 de abril de 1986, que mostrou que o núcleo do reator tinha se rompido. 

O poder visual de uma câmera espacial é geralmente expresso como a distância, em metros, da menor coisa que pode mostrar. O valor das primeiras câmeras era definido em metros. Hoje, é em centímetros. De acordo com os especialistas, essa melhoria torna as novas imagens centenas de vezes mais detalhadas e reveladoras. 

O satélite que fotografou Chernobyl, em 1986, era conhecido como Landsat. A Nasa o construiu para monitorar plantações, florestas e outros recursos no solo. Sua câmera conseguia detectar objetos terrestres de até 30 metros. 

Hoje, os mais poderosos satélites civis de imagens podem diferenciar objetos, no solo, de até 30 centímetros de diâmetro. As imagens permitem aos analistas distinguir a sinalização em uma estrada e até os números impressos na cauda dos aviões. 

A Albedo pretende capturar imagens de objetos de até dez centímetros. Isso se tornou possível quando a administração Donald Trump, em 2018, tomou medidas para flexibilizar a regulamentação que regia a resolução civil de satélites. 

O chefe da Albedo cresceu em Houston, estudou engenharia na Universidade Johns Hopkins e na Universidade do Texas. Trabalhou para a Lockheed Martin, em Sunnyvale, na Califórnia, empresa que há muito tempo constrói satélites espiões. 

Seus sócios são Winston Tri, ex-engenheiro de software do Facebook, e AyJay Lasater, ex-engenheiro de satélites da Lockheed Martin. Eles anteviram o surgimento de um mercado comercial para imagens de satélites com até dez centímetros de precisão, desde que os custos não fossem astronômicos. A solução que trouxeram foi colocar veículos espaciais em órbitas muito baixas que estivessem comparativamente próximas de seus objetos terrestres. Isso permitiu que a frota de satélites usasse câmeras e telescópios menores, reduzindo custos.

 Nos anos 1980, o Landsat orbitava a mais de 640 quilômetros de altura quando fez as imagens de Chernobyl. Por isso, os fundadores da Albedo planejaram órbitas baixas, com 160 quilômetros de altura. Nessas altitudes baixas, porém, os veículos espaciais cortam a fina atmosfera exterior do planeta, o que reduz sua velocidade e encurta sua vida em órbita. Os veículos espaciais da Albedo, pouco maiores que um refrigerador caseiro, usarão jatos auxiliares para neutralizar o arrasto atmosférico. 

Em dezembro de 2021, a Albedo obteve aprovação regulatória para lançar um satélite de imagem com resolução de dez centímetros. A nova tecnologia, rapidamente, chamou a atenção dos militares e das agências de inteligência do país. Já em 2022, fechou um contrato de US$ 1,25 milhão com a Força Aérea. 

Em abril de 2023, a empresa fechou outro contrato de US$ 1,25 milhão, desta vez com o Centro Nacional de Inteligência Aérea e Espacial, que avalia ameaças estrangeiras. 

Tri, cofundador da Albedo, disse que as câmeras espaciais podem detectar detalhes de veículos como tetos solares, listras de corrida e itens transportados em um caminhão de carroceria aberta. “Em alguns casos, podemos até conseguir identificar veículos particulares, o que não era possível até agora.” 

Lynch, da Electronic Frontier Foundation, lida há meia década com reguladores de leis sobre satélites. Ela acha que pouco será feito para exigir proteção da privacidade contra os olhos que estão no céu, e que a Albedo e os seus apoiadores estão “operando com viseiras que lhes tampam a vista para os efeitos sobre os direitos humanos”. 

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2024/03/com-imagens-mais-detalhadas-novos-satelites-podem-transformar-o-mundo-em-big-brother.shtml

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5 profissões que terão grande demanda, mas que ainda nem existem

Até 2030, 85 milhões de postos poderão ficar vagos devido à falta de candidatos com as habilidades necessárias para trabalhar nos empregos do futuro


AJ Hess – Fast Company Brasil – 28-02-2024 

Conforme as ondas de demissões continuam a se propagar, os trabalhadores ficam cada vez mais apreensivos com a possibilidade de serem substituídos pela inteligência artificial. E com razão.

Em 2023, o Fórum Econômico Mundial estimou que 75% das empresas estão buscando adotar tecnologias como big data, computação em nuvem e IA. E essa automação resultará na extinção de 26 milhões de empregos até 2027. 

Os líderes que fazem grandes investimentos em IA recorrem a um argumento comum para tentar acalmar essas inquietações em relação à tecnologia: embora a IA possa substituir determinadas profissões, ela também criará novas. 

Não surpreende que Victor Reinoso, diretor global de filantropia educacional da Amazon, reproduza essa visão. “Quando a Amazon foi concebida como uma empresa, as carreiras que existem hoje ainda não eram conhecidas”, ele lembra. 

O trabalho de Reinoso envolve supervisionar as iniciativas da Amazon da infância à vida profissional, que têm como objetivo “aumentar o acesso à educação em ciência da computação para crianças e jovens adultos de comunidades carentes e sub-representadas”. 

Em novembro de 2023, a Amazon anunciou uma nova iniciativa chamada “AI Ready“, que promete fornecer educação e treinamento gratuito em IA para dois milhões de pessoas até 2025.

Mais recentemente, a equipe de Reinoso anunciou um novo estudo, que constatou que mais de 60% dos professores acreditam que ter habilidades em IA será necessário para que seus alunos tenham carreiras com altos salários no futuro.

Além disso, um relatório de 2023 da PwC e do Fórum Econômico Mundial observa que, até 2030, aproximadamente 85 milhões de vagas podem não ser preenchidas devido à falta de candidatos com as habilidades necessárias para trabalhar nos empregos do futuro.

Se esses números estiverem corretos, faz sentido que empresas como a Amazon estejam investindo recursos na capacitação de futuros trabalhadores para ocupar esses cargos.

No início deste mês, a Amazon produziu um relatório com a futurista Tracey Follows para prever (e promover) carreiras relacionadas à IA que podem estar no horizonte próximo. Veja a seguir as cinco profissões baseadas em IA que a Amazon prevê que existirão no futuro.

ANALISTA DE AGRICULTURA DE PRECISÃO

A agricultura se tornou uma ciência cada vez mais técnica. Analistas treinados em IA devem revolucionar ainda mais o setor agrícola, pois podem maximizar os rendimentos e, ao mesmo tempo, ser o mais eficiente possível com os recursos necessários para a produção de alimentos.

Os modelos de IA ajudarão os analistas a prever e atenuar o impacto das mudanças climáticas, pois eles auxiliam na seleção de culturas e na alocação de recursos, como água e fertilizantes. A IA também vai se integrar a robôs capazes de plantar e colher, além de monitorar as plantações em tempo real.

AGENTE DE TURISMO VIRTUAL 

Imagine poder planejar férias com uma visualização de realidade virtual. Os agentes de turismo virtual criarão experiências imersivas de RV usando inteligência artificial para mostrar destinos e atividades.

Eles farão a curadoria e atualizarão o conteúdo de RV para destacar as últimas novidades e desenvolvimentos culturais em diferentes regiões, ao mesmo tempo em que farão parcerias com conselhos de turismo para vender experiências de viagem.

ESPECIALISTA EM RESTAURAÇÃO ARTESANAL

Os artesãos da área de restauração vão aproveitar os sistemas avançados de IA para consertar e restaurar artigos de luxo, desde moda de alta costura até móveis antigos. A tecnologia será usada para identificar e obter materiais originais e para avaliar as técnicas mais eficazes para cada restauração, a fim de manter a estética, o significado histórico e o valor originais do item.

ENGENHEIRO DE REALIDADE CÓSMICA

Esses especialistas no campo de estudos interestelares vão aproveitar a imaginação humana e as habilidades avançadas de IA para visualizar as partes distantes, e às vezes invisíveis, do cosmos – de estrelas e planetas a galáxias inteiras.

Com um profundo conhecimento de astrofísica, cosmologia e astronomia, esses engenheiros serão capazes de contextualizar os dados gerados pela IA e traduzir o abstrato em simulações visualmente impressionantes, que educam outras pessoas sobre o espaço.

ENFERMEIRA DE IA

A inteligência artificial vai desempenhar um papel importante ao ajudar os profissionais da área médica a diagnosticar doenças, monitorar sinais vitais e rastrear medicamentos e planos de bem-estar para os pacientes.

A enfermagem sempre exigiu habilidades interpessoais excepcionais e conhecimentos médicos sólidos. Mas os enfermeiros do futuro também saberão usar ferramentas de IA e análise de dados para interpretar as informações e traduzir análises complexas sobre diagnósticos e planos de tratamento em uma linguagem que os pacientes consigam entender.

Uma lição que pode ser aprendida com essas “novas” funções é que elas se baseiam em trabalhos menos técnicos que já existem, mas que estão sendo reimaginados para usar a IA com o objetivo de melhorar a eficiência, obter conteúdo e materiais e analisar dados.

Uma das previsões mais comuns entre os especialistas é que a revolução da IA fará com que uma ampla gama de trabalhadores use ferramentas automatizadas. Como diz um relatório recente da McKinsey, “a IA generativa está acelerando a automação e estendendo-a a um conjunto totalmente novo de profissões”.


SOBRE O AUTOR

AJ Hess e editor da seção Worklife da Fast Company. 


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Opinião: Comércio exterior de US$ 1 trilhão

Se reduzidas as vulnerabilidades, será possível colocar essa meta nos próximos cinco anos, com a coordenação entre governo e setor privado

Por Rubens Barbosa – Estadão – 27/02/2024 

O comércio exterior brasileiro ultrapassou meio trilhão de dólares em 2023. A notícia foi saudada como um grande sucesso do comércio brasileiro no mundo. A corrente de comércio subiu a mais de US$ 580 bilhões, com US$ 339,7 bilhões de exportação (aumento de 1,7% em relação a 2022) e US$ 240,8 bilhões de importação (queda de 11,7% em relação a 2022). O superávit recorde chegou a US$ 98,8 bilhões, crescimento de 60% em relação a 2022 (mais da metade com um único país, a China). O Brasil se consolidou como um dos maiores exportadores mundiais de alimentos e minério, com mais de 18% e 26% das exportações totais do País, respectivamente. Cresceu o número de empresas exportadoras, que hoje chegam a 28.500. E acentuou-se a importância do mercado asiático (mais de 50% das exportações totais), em especial o da China, Hong Kong e Macau, que representaram US$ 105,75 bilhões, mais de 30% das exportações totais brasileiras.

O comércio exterior se beneficiou de medidas tomadas pelo governo em 2022 para desburocratizar procedimentos e reduzir custos das transações. O BNDES voltou a apoiar as exportações, aumentando a competitividade dos produtos nacionais. A promoção comercial e a cultura exportadora foram fortalecidas por ações da Apex e do Sebrae. Acordos de comércio, como o assinado com Cingapura, e o de liberalização e simplificação com os EUA, inclusive com o fim da sobretaxa às exportações brasileiras de aço, foram positivos. A reforma tributária contribuirá para melhorar a competitividade.

Como disse o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, “os resultados nos desafiam a fazer mais para abrir novos mercados e melhorar a competitividade e incluir produtos de maior valor agregado”. Os desafios para o comércio exterior brasileiro vão além do que corretamente mencionou Alckmin. Os números realmente impressionantes geraram um sentimento ufanista (Brasil, celeiro do mundo), mas escondem vulnerabilidades que um país do porte do Brasil (9.ª economia global) não poderia aceitar, em razão das incertezas geradas pelas transformações da economia e da geopolítica global.

A dependência do agronegócio para o sucesso econômico do País preocupa pelo fato de o setor agrícola ter-se tornado o motor da economia. Os EUA e a Europa também são grandes produtores agrícolas, mas lá o setor industrial tem sua força própria, ao contrário do que ocorre no Brasil.

A concentração, no comércio exterior brasileiro, de poucos produtos (soja, petróleo e minério de ferro representam 37% das exportações; cinco produtos, incluindo açúcar e milho, 46%; e oito produtos, 2/3 do total exportado) e poucos mercados (Ásia, Oriente Médio e norte da África representam 65% do total exportado) expõe o crescimento da economia, caso haja desaceleração do mercado externo (em especial na China) e redução da produção agrícola nacional por fatores climáticos, como está acontecendo este ano. A China concentra 75% das exportações da soja nacional.

As transformações da nova economia global criam outros tipos de vulnerabilidade, em consequência da ênfase em políticas industriais nos países desenvolvidos e de crescentes restrições externas para garantir autonomia soberana em virtude das mudanças geopolíticas e para atender às novas prioridades de políticas ambientais, como as medidas tomadas na Europa para eliminar as importações de produtos agrícolas provenientes de áreas desmatadas e as taxas de carbono (CBAM).

A crescente perda de importância da indústria em termos de PIB (que chegou a ser de 28% do PIB e, agora, na indústria de transformação, pouco passa de 10%) fez cair o nível de investimento interno e as importações se reduziram significativamente (11%). A participação de produtos manufaturados brasileiros no mercado internacional está pouco acima de 0,5%).

Vulnerabilidade adicional da área externa é a ausência de um instrumento de financiamento das exportações. Como todos os principais países, urge a criação de um Eximbank para apoiar uma política de ampliação dos mercados na América Latina e na África, inclusive com a criação de cadeias regionais de produção de valor e com o necessário respaldo para os produtos da indústria de defesa.

O governo divulgou as linhas gerais de um programa de política industrial para fortalecer o setor e torná-lo mais competitivo no mercado externo. Com metas até 2033, o plano dá grande ênfase ao papel do governo, como têm feito os EUA e países europeus. Subsídios e conteúdo local aparecem ao lado de incentivos, linhas de crédito e compras governamentais em seis setores, entre os quais saúde, defesa, infraestrutura, saneamento e mobilidade. Transformação digital da indústria, bioeconomia, descarbonização e transição energética são prioridades para a modernização do setor.

Com maior valor agregado, o aumento das exportações de produtos industriais reduziria a dependência da economia do setor de commodities, agrícolas, minerais e energéticas. Pelo potencial de crescimento do comércio exterior em razão do dinamismo do agro e da recuperação gradual da competitividade industrial, se as vulnerabilidades forem reduzidas, será possível colocar como meta o US$ 1 trilhão nos próximos cinco anos, com a coordenação entre governo e setor privado.

*

PRESIDENTE DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E COMÉRCIO EXTERIOR (IRICE), É MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

Foto do autor

Opinião por Rubens Barbosa

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/comercio-exterior-de-us-1-trilhao

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O Vale do Silício entra em guerra: como os EUA apostam em startups para criar armas

Mercado de tecnologia para o setor de defesa deve somar US$ 184,7 bilhões em investimentos até 2027

Por Nitasha Tiku e Elizabeth Dwoskin – Estadão/The Washington Post – 25/02/2024 

THE WASHINGTON POST — Centenas de jovens tecnólogos brilhantes desembarcaram na Califórnia neste fim de semana para uma hackaton de dois dias – um concurso de startups no qual equipes de programadores correm para criar software. Mas, em vez de um escritório elegante e repleto de lanches em São Francisco, eles trabalharão em um armazém cavernoso de 6 mil pés quadrados em El Segundo, uma cidade de refinaria a sudoeste de Los Angeles.

E, em vez de criar aplicativos móveis ou chatbots de IA, os concorrentes criarão ferramentas de vigilância, sistemas de guerra eletrônica ou contramedidas de drones para as linhas de frente na Ucrânia – tecnologia de campo de batalha que está gerando um frenesi de financiamento entre os investidores em tecnologia.

“(Construa) tecnologia pesada para a defesa do Ocidente”, escreveu um juiz da hackathon no X, incentivando os candidatos. “Defesa, drones. Gundo”, escreveu um organizador, usando o apelido da cidade para promover o evento.

Até pouco tempo atrás, os profissionais de tecnologia não gostavam de aplicar o espírito rápido e ágil das startups para criar armas mortais. Quando o Google assinou um contrato com o Pentágono para desenvolver IA para atacar drones, milhares de pessoas pediram ao CEO em 2018 que cancelasse o contrato. Esses protestos se espalharam durante o governo Trump, com trabalhadores se insurgindo contra os planos de vender fones de ouvido de realidade aumentada para as tropas dos EUA e ferramentas de reconhecimento facial para funcionários da imigração na fronteira entre os EUA e o México.

Mas depois de uma década promovendo uma visão utópica do futuro, a proposta mais otimista da tecnologia é um retorno ao passado dos Estados Unidos. Conectar o mundo está fora de questão. Rearmar o arsenal da democracia está dentro.

Entre 2021 e 2023, os investidores canalizaram US$ 108 bilhões para empresas de tecnologia de defesa que estão construindo uma série de ferramentas de ponta, incluindo mísseis hipersônicos, wearables que melhoram o desempenho e sistemas de vigilância por satélite, de acordo com a empresa de dados PitchBook, que prevê que o mercado de tecnologia de defesa aumentará para US$ 184,7 bilhões até 2027.

O ceticismo em relação ao trabalho de defesa desapareceu para as ger, criadas com o tumulto de guerras internacionais, uma crise financeira e a crescente ameaça da China, disse o organizador da hackatona, Rasmus Dey Meyer, um jovem de 20 anos da Escola de Serviço Exterior da Universidade de Georgetown.

No estado frágil do mundo, disse Dey Meyer, “é muito mais aceitável socialmente ser descaradamente patriota no interesse nacional”.

Novo paradigma para a tecnologia de defesa

Para alguns dessa nova safra de trabalhadores da área de tecnologia e fundadores de startups, a contratação de serviços de defesa é um chamado mais elevado para estender os ideais americanos ao próximo século. Esse grupo de homens (em sua maioria) acredita em trabalho árduo, inovação real e valores familiares. Eles estão ansiosos para acelerar o progresso dos Estados Unidos. E um número crescente de investidores não vê a hora de apoiá-los.

Pelo menos três dúzias de fundos são dedicados ao mercado, de acordo com a Defense Investor Network, investindo em setores recém-criados, como tecnologia de defesa, tecnologia profunda (deep tech), tecnologia pesada e tecnologia espacial. A maioria tem uma marca militarista, como o fundo American Dynamism, da Andreessen Horowitz, o fundo Global Resilience, da General Catalyst, e o fundo de “tecnologias de fronteira” da Shield Capital, que ostenta o lema: “Mission Matters” (”A missão importa”, em tradução livre). Na quarta-feira, a proeminente incubadora de start-ups Y Combinator anunciou um novo fundo dedicado à defesa, ao espaço e à robótica.

Essa adoção pública do nacionalismo marca uma grande mudança no Vale do Silício, onde os valores há muito tempo não estão em sintonia com o resto do país, disse Trae Stephens, sócio do Founders Fund.

O fundador da empresa, Peter Thiel, disse a Stephens em 2014 para localizar empresas que desenvolvessem tecnologia para proteger os interesses americanos e que pudessem ser vendidas ao Departamento de Defesa. Em três anos, Stephens, que Thiel havia recrutado da Palantir, uma startup de mineração de dados apoiada pela CIA, diz que só encontrou uma empresa.

Agora existem dezenas, incluindo pelo menos sete “unicórnios”, nome dado às empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

Os orçamentos de lobby também aumentaram, de empresas de capital de risco e de empresas como a Anduril, que Stephens co-fundou, a Shield AI e a Skydio.

A Rússia invadiu a Ucrânia e nos lembrou por que a tecnologia de defesa não é apenas algo a ser debatido em teoria

Katherine Boyle, sócia da Andreessen Horowitz

Essa mudança cultural foi estimulada por uma crescente inquietação nos círculos de tecnologia, à medida que ameaças econômicas e geopolíticas se chocam. O aumento das taxas de juros, a fragilidade da cadeia de suprimentos global e a rápida militarização da China levaram ao temor de que os Estados Unidos, e talvez o próprio setor, estejam vulneráveis.

“A Rússia invadiu a Ucrânia e nos lembrou por que a tecnologia de defesa não é apenas algo a ser debatido em teoria”, disse Katherine Boyle, sócia da Andreessen Horowitz, em um discurso em novembro na Defense Venture Summit. “A história havia começado novamente, e entendemos que estávamos entrando em uma era nova e violenta.”

O aumento do uso de drones pela Ucrânia fez com que o Pentágono tornasse seu processo de aquisição, notoriamente árduo, mais hospitaleiro para as start-ups de tecnologia, lançando iniciativas como empréstimos garantidos pelo governo federal para que os investidores financiassem tecnologias consideradas essenciais para a segurança nacional, melhorias que chegaram no momento em que o capital para fundos de risco estava se esgotando.

À medida que a bolha se esvaziava e as avaliações das empresas iniciantes diminuíam, “todos entraram em pânico”, disse Michael Dempsey, sócio-gerente da empresa de capital de risco Compound. Alguns desenvolvedores se perguntaram se haviam desperdiçado seu tempo trabalhando com software. Esse período de busca e dúvida apresentou uma abertura para que as empresas de risco declarassem a tecnologia de defesa como a próxima grande novidade. Mesmo agora, disse ele, os investidores não têm convicção sobre onde se concentrar: “É como se fosse criptografia? É o clima? É a IA? É o dinamismo americano?”.

Em meio às demissões no setor de tecnologia, a última opção se tornou atraente. Em uma pesquisa da Morning Consult com 441 trabalhadores da área de tecnologia em março passado, 34% disseram que estão mais propensos do que há um ano a aplicar suas habilidades em projetos militares e 48% apoiam que seus empregadores considerem contratos de defesa que envolvam tecnologias de campo de batalha.

“Quando tudo está em ordem, você não precisa fazer a coisa mais difícil para ganhar dinheiro”, disse Stephens. “Mas não é mais o momento da impressora de dinheiro.”

O complexo industrial do Vale do Silício

Os laços militares da tecnologia são anteriores ao Vale do Silício, que teve início no final da década de 1950, quando o financiamento das agências de defesa e inteligência transformou um trecho de pomares de frutas em áreas de produção de mainframes e microprocessadores.

Essas relações diminuíram durante a era da Internet e foram retomadas lentamente após o 11 de setembro, escreve Margaret O’Mara em seu livro de 2019, “The Code: Silicon Valley and the Remaking of America”. A Palantir, cofundada por Thiel, foi uma dessas empresas formadas durante a “guerra ao terror”, com o apoio da empresa de risco da CIA, a In-Q-Tel.

Para acompanhar a ameaça das redes terroristas apátridas, a instituição de defesa reverteu sua conduta da Guerra Fria, voltando-se para o setor privado em vez de laboratórios financiados pelo governo. O Pentágono lançou empresas de capital de risco e patrocinou hackathons para criar tecnologia comercial que poderia ser vendida para uso militar.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, os esforços se intensificaram. O chefe do Departamento de Defesa nomeou um antigo assistente do CEO da Apple, Tim Cook, para dirigir a Unidade de Inovação de Defesa, uma divisão cujo objetivo é acelerar a tecnologia comercial para a segurança nacional, uma função que se reporta diretamente ao Secretário de Defesa Lloyd Austin. Em agosto, o Pentágono revelou o programa Replicator, que construirá e colocará em campo rapidamente milhares de drones em dois anos ou menos.

Será que estamos perdendo de vista a realidade do que a IA provavelmente fará no campo de batalha?

Jack Murphy, veterano do Exército americano e jornalista

A guerra Israel-Gaza ampliou as divisões entre os trabalhadores, com mais de 500 funcionários do Google protestando contra o contrato de US$ 1,2 bilhão da empresa com o governo israelense em dezembro.

Ainda assim, a mensagem geral das elites tanto em Washington quanto no Vale do Silício é de otimismo tecnológico, disse Jack Murphy, veterano de Operações Especiais do Exército e ex-Ranger do Exército que se tornou jornalista investigativo. “Achamos que há uma solução tecnológica para tudo”, disse ele. “Será que estamos perdendo de vista a realidade do que a IA provavelmente fará no campo de batalha?”.

No entanto, em vez de estarem desatualizados, alguns investidores em tecnologia apresentam esse trabalho como uma chance de retornar aos valores americanos de meados do século. “A fé, a família e a bandeira – exatamente as coisas que costumavam definir nosso caráter nacional – sofreram erosão”, disse Boyle em seu discurso na cúpula de defesa, que se tornou um toque de clarim para financiadores e fundadores. “Vocês vencem a guerra contra os Estados Unidos quando o niilismo está em toda parte.”

Acelere, meu jovem!

O grito de alerta de El Segundo, onde será realizada a hackathon, é menos formal. A cidade, localizada entre uma refinaria da Chevron, uma usina de esgoto e o Aeroporto Internacional de Los Angeles, já foi o lar de empreiteiras que construíam peças para aviões, foguetes e mísseis. Então, em 2002, a SpaceX se instalou. Agora, é um paraíso para uma cena crescente de fundadores de empresas espaciais, de energia e de drones que mastigam chicletes de nicotina e bebem bebidas energéticas, buscando trazer de volta a modernidade à fabricação americana.

Augustus Doricko, de 23 anos, fundador da Rainmaker, uma startup que visa a aliviar a escassez de água “semeando” nuvens com minerais, chamou a comunidade tecnológica local de “projeto cultural” que rejeitou a cultura de engenharia valorizada em São Francisco.

Lá, é possível ganhar US$ 1 milhão sem trabalhar muito ou agregar qualquer valor ao mundo.

Doricko, que ostenta um mullet hipster, tênis Nike de cano alto e uma postura casual – uma estética a que ele se refere como “americana” -, olha para épocas de grande progresso tecnológico, como o Iluminismo, a Era Dourada e os anos 60, para capturar a sensação de que “era uma aspiração e uma honra ser um inventor, um criador e um construtor”.

Os desenvolvedores de software que buscam uma sacudida de energia têm sido tão ávidos a visitá-lo que Doricko colocou beliches na sede da Rainmaker para “abrigar os peregrinos do Gundo”, disse ele.

Os crentes também evangelizam online, com biografias nas mídias sociais como “Pergunte-me por que consumir energia é bom e você deveria ter mais bebês” e compartilham lemas que podem soar mais próximos de hinos religiosos ou slogans militares. “bd. o mundo precisa desesperadamente que você construa”, escreveu um autor anônimo no X, antigo Twitter, usando a abreviação de “bom dia” preferida pelos especialistas em criptografia.

Alguns rejeitam a era tecnológica anterior, em especial os protestos contra o Projeto Maven, o trabalho do Google para atingir os drones do Pentágono. Essa dissidência dos trabalhadores acabou beneficiando os adversários dos Estados Unidos, disse o ex-pesquisador do Google, Guillaume Verdon, em uma recente entrevista de podcast com Joe Lonsdale, cofundador da Palantir e investidor em tecnologia.

“O que eu vi com meus próprios olhos foi a subversão cultural dentro da Big Tech”, disse Verdon. A questão o levou a ajudar a criar uma filosofia chamada aceleracionismo eficaz (e/acc), que defende a superalimentação do progresso tecnológico por meio do capitalismo desenfreado. O mantra se tornou popular no mundo da tecnologia de defesa, onde alguns adotam o apelido e/acc, ocasionalmente substituindo o “e” por um emoji da bandeira americana.

Outros no campo veem seu trabalho como prevenção de conflitos. “Os neoconservadores belicistas do passado não são algo que eu endosso”, disse Doricko. “A defesa é boa, mas a guerra ainda é ruim.”

Kat Hendrickson evitou empregos em grandes empresas de tecnologia depois de concluir um doutorado em engenharia mecânica e aeroespacial em 2022. Ela queria que sua pesquisa abordasse problemas reais em zonas de conflito.

Ainda assim, Hendrickson, diretora técnica que trabalha com frotas de drones autônomos na EpiSci, uma startup sediada em Poway, Califórnia, disse que a palavra “patriotismo” a faz ela se arrepiar, especialmente porque se tornou “realmente cooptada pela extrema direita”, disse ela.

Embora a guerra na Ucrânia tenha facilitado a explicação de seu trabalho para amigos e familiares, a guerra em Gaza provocou muitos debates internos, disse Hendrickson.

“Ao olhar para a Ucrânia, uma linha de frente de tropas – esses são seus alvos”, disse Hendrickson. “Se estivermos olhando para Gaza do ponto de vista israelense, estaremos bombardeando uma cidade. É totalmente diferente.”

Ela e sua equipe discutem as salvaguardas que podem ser implementadas caso seus produtos sejam revendidos e abusados posteriormente, intencionalmente ou não. “Eu sempre digo à minha equipe que espero que todos nós estejamos um pouco desconfortáveis.”

Enquanto isso, Dey Meyer e seus co-organizadores da hackathon estão concentrados em criar um canal de jovens talentos. Sua organização, a Apollo Defense, tem como objetivo direcionar os estudantes de graduação para a criação de suas próprias startups de tecnologia de defesa ou para trabalhar em uma delas.

“Esse profundo senso de incerteza sobre o futuro (que os jovens têm) pode ser moldado”, disse Dey Meyer. “Nós temos o poder de moldar esse futuro. E a maneira como moldamos esse futuro é construindo o melhor arsenal possível para garantir que a guerra nunca aconteça.”

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA

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