Este é o plano da Nvidia para dominar o mercado de chips para IA

A empresa quer se tornar uma plataforma do calibre do Google, Apple e Microsoft

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Mark Sullivan – Fast Company Brasil 26-03-2024 

A Nvidia agora lidera o mercado de chips para modelos de inteligência artificial. Suas ações triplicaram de valor nos últimos 12 meses.

Na semana passada, durante a conferência anual de desenvolvedores GTC, realizada em San Jose, na Califórnia, o CEO da empresa, Jensen Huang, foi recebido como uma verdadeira estrela do rock – não à toa, um dos participantes chamou o evento de “Woodstock da IA”.

Em seu discurso, Huang anunciou o lançamento de uma nova unidade de processamento gráfico (GPU) chamada Blackwell, que promete ser até 30 vezes mais rápida que sua antecessora, Hopper, e muito mais eficiente.

Este é um anúncio importante, já que a Nvidia precisa manter o pé no acelerador para continuar à frente de concorrentes como Intel, AMD, Cerberus e SambaNova.

Mas a mensagem mais importante da conferência diz respeito a como a empresa vai garantir sua posição dominante no campo da IA, mesmo quando seus chips deixarem de ser consideravelmente mais rápidos do que os de outros fabricantes.

Além do anúncio da Blackwell, Huang revelou um novo produto chamado NIM (Nvidia Inference Microservices), um pacote de modelos de inferência pré-treinados para acelerar a implantação de IA em grande escala.

Ele inclui interfaces de programação de aplicativos (APIs) para os modelos de linguagem mais populares, software para implantar modelos de código aberto, modelos pré-construídos e software para acessar e processar dados proprietários da empresa, além de links de software para aplicativos empresariais, como SAP e CrowdStrike, especializado em cibersegurança.

Em 2023, muitas empresas aprenderam da pior maneira que implementar modelos de IA é uma tarefa complicada, que requer muita infraestrutura e a presença de especialistas para

a Nvidia precisa manter o pé no acelerador para continuar à frente de concorrentes como Intel, AMD, Cerberus e SambaNova.

fazer tudo funcionar. O NIM surge como uma solução que reúne todos os principais componentes necessários e simplifica parte do processo técnico

Embora outras empresas, incluindo os principais provedores de serviços em nuvem, estejam dando passos nessa mesma direção, a Nvidia está focada em garantir que todos os componentes funcionem de forma fluida e eficiente com seu próprio hardware.

É uma estratégia muito parecida com a da Apple, que produz software e hardware e os integra de forma tão harmoniosa que eles extraem o melhor das funcionalidades um do outro.

A Nvidia não parece satisfeita em ser apenas uma fornecedora de chips. Ela quer ser uma empresa de tecnologia do mesmo calibre da Apple, Google e Meta. E tornar-se um grande player de plataforma é uma maneira comprovada de alcançar esse status.

SOBRE O AUTOR

Mark Sullivan é redator sênior da Fast Company e escreve sobre tecnologia emergente, política, inteligência artificial, grandes empresas.

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Com inteligência artificial, varejista de moda reduziu 30% do estoque em lojas e vendeu 12% mais

Leia artigo do CFO da Aramis para entender como a IA pode impactar profundamente o setor

“A importância do estoque está para o vendedor assim como a de cabides e araras na loja” (Aramis/Divulgação)

Menos pode ser mais? As aplicações da IA no segmento varejista mostram que sim.

Por Fabio Davidovici* Bússola – Exame – 26 de março de 2024 

A inteligência artificial não é nenhuma novidade. Todos os dias, especialistas se debruçam para compreender os avanços e novidades da tecnologia. Nada neste processo de aprendizado é exatamente novo para quem está envolvido na área digital e, no meu caso, no varejo. Mas ainda assim, existe algo nas múltiplas possibilidades que este instrumento permite – algumas ainda inexploradas – que geram grandes expectativas em todo o ecossistema varejista.

Segundo especialistas como Holger Harreis, sócio sênior da McKinsey, por exemplo, a IA Generativa deve resultar em um crescimento de até US$ 275 bilhões em lucros para os setores de vestuário, moda e luxo nos próximos cinco anos. Já a WGSN, autoridade global em tendências, acredita que a ferramenta tem o poder de reestruturar toda a cadeia de varejo de moda, desde o atendimento ao cliente até a cadeia de produção.

O fato é que, em um varejo que busca ir além da tradição do gut feeling, ou seja, da intuição arguta típica do setor, construir uma cultura baseada em dados e em tecnologia é um princípio básico. Mas não para por aí, as aplicações em operações, centros de distribuição, campanhas de marketing, entre outros caminhos, são infinitas e cada vez mais exploradas. Com exceção de uma: o estoque das lojas físicas.

A revolução no fundo da loja

Desde que acompanho o dia a dia de uma varejista de moda masculina, há quase dez anos, testemunho as diferentes usabilidades da inteligência artificial. Contudo, há um vespeiro nunca antes tocado: o estoque das lojas.

A importância do estoque está para o vendedor assim como a de cabides e araras na loja. Completamente fundamental e inegociável. O princípio é ter o máximo de estoque possível para evitar a experiência de levar o cliente até a loja e, ocasionalmente, não ter o produto que ele procura.

Imaginem, então, que a inteligência artificial chegasse com o poder de reduzir todos os estoques e, supostamente, otimizar as vendas? Parece bom demais para ser verdade. Mas é aí que mora, de fato, o poder da tecnologia. Quando digo, no início, que a inteligência artificial não é novidade, não estou me contradizendo com esse tópico agora apresentado. O ponto é como, agora, ela é capaz de mexer o impactar a companhia em todas as pontas.

Para exemplificar, na Aramis, empresa na qual sou CFO, reduzimos os itens nas prateleiras das lojas de cinco para quatro, além de uma redução de 30% nos itens permanentes. Isso significa que, desde 2020, oferecemos em nossas lojas menos produtos e, paradoxalmente, conseguimos vender 12% mais itens em volume.

Como isso acontece?

A solução aparentemente mágica é promovida pela startup israelense One Beat, que se define como uma plataforma de gestão de estoque. Com a ferramenta, ao invés de distribuir os produtos imediatamente para as lojas, a Aramis mantém parte deles nos centros de distribuição (CDs) e, quando necessário, reage rapidamente à sua demanda. Hoje, mesmo com menos itens nas lojas e mais nos CDs, a companhia conseguiu reduzir significativamente a ruptura de vendas.

A mentalidade de uso da inteligência artificial, machine learning e modelos de análise de big data é trabalhada de forma transversal aqui na nossa house of brands. Isso quer dizer que não trabalhamos a tecnologia como uma área isolada na companhia, mas integrada diretamente em todos os setores.

Essa tecnologia foi o pontapé para diversas iniciativas na empresa, menciono, entre elas, o uso de machine learning no planejamento de demanda.  Hoje, a Aramis projeta o número certo de SKUs para a próxima coleção de forma altamente granular, além de utilizar esses recursos para estudo do potencial de venda da marca por CEP do país.

Tendo em conta os KPIs promissores, reafirmo: a inteligência artificial não é novidade, mas isso não é demérito. Somando-se a coragem e inovação, a IA é capaz de desafiar o status quo.

* Fabio Davidovici é CFO da Aramis In

https://exame.com/bussola/com-inteligencia-artificial-varejista-de-moda-reduziu-30-do-estoque-em-lojas-mas-vendeu-12-mais

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Sam Altman está em projeto que quer “reprogramar” o corpo humano

Iniciativa de CEO da OpenAI começou em 2021 a um custo de US$ 180 milhões

Da Redação Exame –  26 de março de 2024 

Sam Altman é o rosto conhecido por trás da OpenAI, empresa que mostrou ao mundo o ChatGPT, o sistema de inteligência artificial mais famoso do mundo até o momento. O executivo, porém, não está apenas ligado a esse projeto.

Segundo o Business Insider, nos últimos três anos, Altman vem gastando discretamente uma quantidade considerável de tempo e dinheiro em um projeto ambicioso: tentar reprogramar o corpo humano.

Em 2021, ele iniciou um projeto paralelo de US$ 180 milhões. Chamado de Retro Biosciences, o objetivo da startup é “simples”: acrescentar 10 anos saudáveis e agradáveis ao final de nossas vidas. A Retro Biosciences fica a 48km ao sul da sede da OpenAI em São Francisco, onde o ChatGPT foi criado.

Para atingir esse objetivo, Altman se uniu a Joe Betts-LaCroix, cientista, biofísico e formado em Harvard, MIT e Caltech – ele desenvolveu o menor computador pessoal do mundo. Betts-LaCroix tem uma organização sem fins lucrativos, a Health Extension Foundation, que promove estudos sobre a “biologia profunda” para a longevidade humana.

Uma das linhas de pesquisa é um processo que mantém nossas células saudáveis e ágeis por mais tempo – seria uma possível solução “rápida” para o envelhecimento. No momento, o mais próximo que temos de um comprimido para melhorar a eficiência celular é a rapamicina ou a metformina. 

Outro programa trabalhado pela Retro Biosciences é fazer com que as células antigas se tornem jovens novamente, “reprogramando-as” para um estado ligeiramente mais jovem usando os quatro conhecidos Fatores Yamanaka  pesquisador japonês de células-tronco Shinya Yamanaka ganhou um Prêmio Nobel em 2012 por descobrir que isso pode ser feito). Porém, experimentalmente, tem sido difícil realizar esse tipo de remodelagem de uma forma que não cause câncer ou outros problemas de saúde.

Nesse caso, Betts-LaCroix imagina começar extraindo células das orelhas ou das articulações dos joelhos das pessoas, reprogramando-as parcialmente para “tirar um pouco da idade delas” e, em seguida, inserindo-as de volta nas pessoas quando forem consideradas seguras para o tratamento.

E finalmente temos uma pesquisa feita em camundongos diluindo seu plasma sanguíneo com solução salina – parece funcionar melhor do que simplesmente dar sangue novo a camundongos velhos.

Em camundongos idosos que foram submetidos à diluição do plasma, uma grande variedade de problemas relacionados à idade melhorou.

O procedimento reduz a inflamação, melhora a saúde dos músculos e do fígado, e estimula a formação de células cerebrais. Pesquisas incipientes em pessoas, incluindo algumas em andamento na Retro, sugerem que a técnica também pode funcionar para humanos.

https://exame.com/inteligencia-artificial/sam-altman-esta-em-projeto-que-quer-reprogramar-o-corpo-humano

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GE obtém aprovação nos EUA para tecnologia médica de startup brasileira: tomografia remota

Por Rennan Setti – O Globo – 25/03/2024 

Máquina de medicina diagnóstica

Máquina de medicina diagnóstica — Foto: Divulgação

A GE HealthCare, gigante que vale R$ 200 bilhões na Nasdaq e é uma das maiores fabricantes de tomógrafos no mundo, obteve aprovação regulatória nos EUA para uma tecnologia brasileira.

A companhia obteve o aval da FDA (Food and Drug Administration), que fiscaliza alimentos e remédios naquele país, para o nCommand Lite. Trata-se de um sistema desenvolvido pela IONIC Health, startup de São José dos Campos (SP), que permite a operação remota de tomógrafos e equipamentos similares, independentemente do seu fabricante.

A tecnologia permite contornar a escassez de mão de obra para operação dos aparelhos, que valem milhões e são cruciais para diagnósticos médicos. No ano passado, a GE havia assinado acordo exclusivo de distribuição global da tecnologia brasileira.

“Nosso objetivo é fornecer soluções de operações remotas que ampliem o acesso dos pacientes a cuidados, especialmente àqueles que necessitam de atenção especializada à distância. Reconhecemos também a importância de disponibilizar a expertise de especialistas em diversos locais físicos para compartilhamento de conhecimento e treinamento, bem como a necessidade de integrar equipamentos de vários fornecedores e modalidades. Por isso, era essencial expandir nosso portfólio com a inclusão da tecnologia nCommand Lite da IONIC Health”, disse, em nota, Rekha Ranganathan, vice-presidente sênior e gerente geral de Plataformas de Imagem e Soluções Digitais da GE HealthCare.

A coluna contou a história da IONIC Health em novembro do ano passado. Segundo o cofundador e CEO, José Leovigildo Coelho, o contrato com a GE permitirá seu acesso a 20 novos mercados do mundo.

No fim do ano passado, a solução da IONIC estava plugada a 400 máquinas pelo Brasil, cujo parque de aparelhos total supera 8 mil unidades. Metade dos 20 principais grupos de saúde brasileiros é cliente, entre eles Dasa e Hapvida. O time da startup tem 150 pessoas, e a fábrica fica no parque tecnológico de São José dos Campos.

https://oglobo.globo.com/blogs/capital/post/2024/03/ge-obtem-aprovacao-nos-eua-para-tecnologia-medica-de-startup-brasileira-tomografia-remota.ghtml

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Agora é favela: o pujante mercado empreendedor de R$ 200 bilhões de reais

O povo pediu e o IBGE decretou: o censo voltará a usar o termo “favela”. E o que essa palavra, escondida por décadas, revela? As favelas brasileiras movimentam um mercado de 202 bilhões de reais e dão lições de empreendedorismo

Por Rodrigo Caetano e Marina Filippe – Exame –  22 de março de 2024 

Um bom caminho para conhecer as favelas, esses territórios urbanos altamente adensados e caóticos, parte da paisagem de toda metrópole brasileira, é conhecer seus artistas. Anitta, a artista brasileira mais bem-sucedida internacionalmente, é de favela, e tem uma carreira que mistura clipes para lá de sensuais com palestras em Harvard. Sua ascensão conta mais do que uma história de superação pessoal. É a história de como o Brasil, ou a parte do país que tem poder econômico, não percebeu a formação de uma legião de pessoas consumidoras, empreendedoras e criativas. Um mergulho nas letras dos raps dos Racionais MCs, dos funks de MC Lipi, MC Cabelinho, Orochi, entre outros, mostra esse processo. No início, os temas eram violência, crime, carência. Em 1997, por exemplo, Mano Brown, líder do Racionais MCs, escreveu a música Capítulo 4, Versículo 3, que dizia: “Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal por menos de 1 real, minha chance era pouca”. Recentemente, entraram a ostentação, marcas, carros, sexo e romance. “Obrigado, meu Deus, a favela venceu”, cantou MC Kevin em 2021, acompanhado do DJ Negret.

É a celebração do potencial de um Brasil repleto de desafios, sim, mas de empreendedorismo pujante. São mais de 16 milhões de pessoas, 11 milhões de eleitores, contingente que formaria o quarto maior estado brasileiro e um colégio eleitoral superior ao da cidade de São Paulo, o maior do país em termos municipais. Essas pessoas consomem 202 bilhões de reais por ano, segundo o Data Favela, instituto de pesquisa ligado à Central Única das Favelas (Cufa). O valor é expressivo, porém representa mais um represamento do que uma potência em plena expansão. Para Renato ­Meirelles, fundador do Data Favela e presidente do Instituto Locomotiva, empresa de pesquisas, é possível dobrar, ou mesmo triplicar, esse consumo com intervenções básicas de infraestrutura e educação.

Para Celso Athayde, um dos fundadores da Cufa, ONG presente em metade das 11.403 favelas do Brasil (dados do IBGE), o tamanho, a importância e a complexidade das favelas justificam a criação de um setor econômico próprio, o Quarto Setor. “O governo, Primeiro Setor, nunca resolveu o problema porque não olha para as favelas. As empresas e o mercado, Segundo Setor, não têm capacidade­ de resolver o problema porque não conhecem as favelas. E as ONGs, Terceiro Setor, têm uma mentalidade antimercado, que limita a possibilidade de crescimento”, afirma Athayde. “Por que só o asfalto tem o direito de ganhar dinheiro? O morador de favela precisa entender que ele também pode consumir, investir e empreender com o que produz.”

Na última década, o número de favelas dobrou no Brasil, aumento que coincide com o crescimento da insegurança alimentar e com uma renitente dificuldade do Brasil de crescer de acordo com seu potencial econômico. Quase 20 milhões de pessoas no Brasil passam fome, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Durante a pandemia, 70% dos moradores de favela declararam não ter dinheiro para comprar comida. Essa realidade de carência e pobreza contrasta com a dinâmica urbana das favelas, sempre próximas aos grandes centros de produção, que proporciona ao morador oportunidades de trabalho e empreendedorismo apesar das dificuldades.

A lógica da desigualdade é cruel. As favelas movimentam mais de 200 bilhões de reais em consumo porque, como diz Athayde, produzem para isso. E, como todo brasileiro, o morador de favela paga impostos —no caso dos mais pobres, 21,2% da renda, segundo dados da Instituição Fiscal Independente do Senado, percentual três vezes maior do que o incidido sobre a renda dos mais ricos. Mas, diferentemente de outros brasileiros, quem mora em favela não usufrui da infraestrutura e dos serviços públicos por habitar áreas ilegais. Não há transporte, saneamento, e a segurança é falha. A invisibilidade dessa população, no entanto, vem diminuindo. Em parte, graças ao sucesso de muitos artistas oriundos da favela. E porque os números deixam claro que favela não é só carência, é potência. Ao descrever o estado de abandono da favela em Homem na Estrada, de 1993, Mano Brown cantou: “Até o IBGE passou aqui e nunca mais voltou”. Neste ano, após uma consulta pública e debates com líderes das comunidades, o IBGE decidiu abandonar o termo “aglomerado subnormal” e passar a se referir às favelas pelo seu nome de fato: favela.

A força da mulher empreendedora

O IBGE volta a jogar luz em 16.000 favelas, onde 56% dos moradores se consideram empreendedores, percentual muito acima da média nacional. É o caso de Gabriela Valente, fundadora da Escola da Diarista. Por 50 anos, sua mãe trabalhou como empregada doméstica para a mesma família, em Porto Alegre. Seu esforço garantiu a estabilidade financeira e o incentivo para a menina estudar. Gabriela completou o ensino fundamental em um colégio particular, graças a uma bolsa, e o médio em escola técnica. A realidade das empregadas domésticas, categoria com quase 6 milhões de profissionais no Brasil e que somente em 2013 teve os direitos trabalhistas equiparados às demais, não dá margem para uma fase de estudos mais alongada dos dependentes. Gabriela começou a trabalhar cedo, ainda mais depois de dar à luz Mônica, sua primeira filha e irmã do Bernardo, aos 20 anos.

Hoje, aos 40 anos, Gabriela enxerga a mãe como uma referência. Em 2019, as lembranças da infância trouxeram o vislumbre de uma oportunidade. Fazendo contas, percebeu que, se trabalhasse três vezes na semana como diarista, ganharia cerca de 1.000 reais mensais, o mesmo que recebia como recepcionista em uma clínica de estética, por seis dias na semana. Gabriela conhecia os pormenores da profissão. Aprendeu com a mãe a fazer uma limpeza organizada, atenta a detalhes, profissional. “Minha ideia era apresentar algo novo e estudei como melhorar o serviço, os melhores produtos para cada superfície etc. Ali, eu entendi que não é um trabalho para qualquer pessoa”, afirma.

Em meio à transição de carreira, veio a pandemia. “Fiquei dois meses e meio parada”, conta. Como se diz no jargão corporativo, para toda crise existe uma oportunidade. Gabriela associou seus serviços à promoção da saúde e do bem-estar. Criou protocolos, como o uso de panos de cores diferentes, uma forma de evitar a contaminação cruzada. Desenvolveu metodologias para aumentar a produtividade, incluindo técnicas de ergonomia, o que permite cobrir áreas maiores no mesmo dia. Também se formalizou como microempreendedora individual e criou sua marca: Gabi Valente Soluções. O conhecimento adquirido ainda deu origem à Escola da Diarista, programa de treinamento profissional que já formou 75 mulheres. Gabriela também passou pela Escola de Negócios da Favela (ENF), empresa de educação que tem como parceiros a CUFA, na frente social, e a Fundação Dom Cabral, na frente educacional. A ENF oferece trilhas customizadas de conteúdos para moradores de favela acelerarem seus negócios (a reportagem apresenta outros três alunos da escola: Bê Paiva, Janaína Cristina e Diego Rocha). 

A força de trabalho feminina representa o grande potencial das favelas. Dados da Cufa mostram que 70% dos moradores de favela são mulheres. Delas, 71% são pretas ou pardas. E quase metade das famílias é chefiada por uma matriarca. As mulheres são a maioria entre os pequenos empresários, 60%, segundo o Data Favela. Para elas, empreender, muitas vezes, é uma questão de sobrevivência. Números do Instituto Locomotiva mostram que mais da metade das empreendedoras começou seu negócio por necessidade e 40% por oportunidade. No perfil médio, essa mulher é jovem, negra, com estudo até o ensino médio, e sete em cada dez têm filhos. Para 92%, o negócio é muito importante, e elas fazem de tudo para mantê-lo funcionando.

“Empoderamento, no fundo, é dinheiro no bolso”, afirma Mayara Lyra, cofundadora da Gerando Falcões e responsável pelo projeto Asmara. No final do ano passado, a ONG cocriada por Edu Lyra, um dos grandes nomes do empreendedorismo na base da pirâmide, anunciou o lançamento de uma empresa de venda direta, sob consultoria da Accenture. A Asmara (assim mesmo, no singular) já conta com cerca de 600 vendedoras, e pretende chegar a 25.000 em dois anos. A ideia é simples e complexa ao mesmo tempo. A partir do Bazar da Gerando Falcões, a empresa vai organizar sacolas com produtos diversos, que serão distribuídas às vendedoras e comercializadas na vizinhança, de modo semelhante ao que fazem companhias como Boticário, Natura, Tupperware etc.

O objetivo do negócio é retirar essas mulheres da vulnerabilidade social de forma permanente, sem depender de filantropia e, ainda, gerando dinheiro para empresas parceiras. Em sua simples complexidade, o projeto se apodera do conceito de microcrédito, notabilizado pelo economista e banqueiro bengali Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, para financiar a distribuição das sacolas. As vendedoras não pagam nada pelos produtos e devolvem o que não foi comercializado.

Carliene da Silva Ferreira, de 33 anos, é uma das vendedoras e, atualmente, coordena a ONG Decolar, na Favela dos Sonhos, em Ferraz de Vasconcelos, São Paulo. Ela veio da Bahia em busca de trabalho com seus três filhos. “Sou mãe solo”, afirma. Na pandemia, passou a juntar caixinhas de sucos para fazer uma renda extra. Assim conheceu a Gerando Falcões. “A maioria das mães aqui é solo e não tem onde deixar os filhos, por isso não consegue trabalho. Na Asmara, elas podem cuidar dos filhos e vender.” Tão importante quanto a renda é a rede de apoio. Algumas das mães do projeto estavam em depressão, diz ela, não tinham com quem conversar. E muitas sofreram violência doméstica. “Eu era muito dependente de homem”, afirma Janara dos Santos Lima, também vendedora da Asmara. “Sendo Mara, posso comprar algumas coisas para meus filhos.” Mãe de quatro crianças, a mais nova de 2 e o mais velho de 14 anos, ela conta que hoje é mais dona de si, e não vê a necessidade de ter um companheiro para se sustentar.

Crédito escasso

São muitas as dificuldades de empreender nas favelas, mas nada se compara à falta de crédito. Um levantamento apresentado no ano passado na Expo Favela, evento criado por Celso Athayde para reunir morro e asfalto, mostrou que, entre os entrevistados, apenas 1% relatou não ter enfrentado dificuldade em obter financiamentos. Já 66% disseram ser desafiante e 33% nem sequer tentaram. O preconceito é um agravante. Sérgio All, criado em Valo Velho, no extremo sul da capital paulista, já havia vencido as adversidades sociais quando deparou com o problema. Dono de uma agência de publicidade com mais de 30 funcionários, tentou um empréstimo para expandir o negócio. Negado várias vezes, percebeu o motivo: All é um homem negro.

Há sete anos, ele e sua sócia, Fernanda Ribeiro, abriram o próprio banco, a Conta Black, que espera chegar a 100.000 clientes ainda neste ano. Fernanda foi a única a estudar em uma família de sete mulheres. Trabalhou em grandes empresas até perceber que as oportunidades, para uma mulher preta, seriam restritas no mercado corporativo. Decidiu empreender. Em 2022, em Nova York, a fintech anunciou uma parceria com a Genial Investimentos. Um ano depois, no mesmo local, comunicou que buscava uma captação de 100 milhões de reais. “No último ano, aprimoramos o produto e lançamos a Conta Black 2.0, na qual o cliente pode fazer investimentos a partir de 10 reais. Agora, estamos focados na ampliação do acesso ao crédito para facilitar a vida das pessoas negras e periféricas”, diz Fernanda, CEO da Conta Black.

Estigma e violência

Acesso a crédito é um dos últimos estágios para destravar o potencial de empresários e empresárias que costumam ter histórias de dificuldades. Em muitos casos, sobretudo para as mulheres, até de violência. Na infância, Rosângela Almeida, de 51 anos, por exemplo, presenciou um ato de violência doméstica contra sua mãe, que ficou com sequelas. O episódio precipitou a entrada de Rosângela e sua irmã na vida adulta. “Ficamos jogadas na favela. Tentei uma vaga na escola e a professora disse que meu lugar não era ali, mas, sim, no lixo”, lembra Rosângela, ou Rose, como prefere. Aos 12 anos, passou a cuidar de um bebê para ganhar uns trocados. A mãe da criança costumava deixar bilhetes para ela, mas, analfabeta, de nada adiantava. Comovida, a patroa ajudou com a matrícula na escola. “Eu ficava com o menino de manhã e estudava à tarde”, conta. A vida melhorara, mas o trauma da rejeição era forte. Rose se sentia deslocada do mundo, não gostava do seu corpo, do seu cabelo. Era como se não pertencesse. Na tentativa de melhorar a autoimagem, buscou nas plantas, talvez o único recurso abundante de que dispunha, maneiras de hidratar os cabelos e a pele. Sem saber, estava iniciando um negócio.

Hoje, ela comanda a Rose Almeida Cosméticos Naturais, uma pequena fabricante de produtos de beleza, como máscaras de colágeno, sabonetes e cremes. Sua renda, que chega a 6.000 reais por mês, vem exclusivamente do empreendimento. A ideia surgiu em 2019, após uma consulta no dermatologista. “O médico disse que minha pele estava muito boa para uma mulher de 45 anos. Quando expliquei que usava máscaras de colágeno de fabricação própria, ele me incentivou a vender para outras mulheres”, diz. Apesar do sucesso, o estigma de ser um produto desenvolvido na favela, por uma mulher negra, persiste. “Uma clínica de cosméticos de Belo Horizonte usou meus produtos por um tempo. Mas a dona do local não queria que os clientes soubessem de onde vinham, da minha pele negra e da minha classe. Queria que pensassem ser algo importado”, afirma.

Criatividade e inovação

Na infância no Recife, Benício Paiva, o Bê, costumava brincar sozinho. “Me isolava muito por não me identificar com as brincadeiras das meninas”, lembra. Bê é um homem trans, de 44 anos. Pensou ser homossexual aos 12 e, aos 22, mudou para São Paulo em busca de trabalho e liberdade de expressão. “Na adolescência, escondia o corpo com roupas largas porque não queria ser visto e desejado como mulher, não me via assim”, lembra. Quando a expressão “identidade de gênero” ganhou repercussão na mídia, ele finalmente compreendeu o que se passava. Há três anos, iniciou o acompanhamento psicológico e a terapia hormonal.

Bê se orgulha de ser um homem trans afroindígena. Na capital paulista, trabalhou em restaurantes renomados, entre eles Nakombi e Capim Santo, da chef Morena Leite, que o ajudou a ter um momento “eureca” que mudaria sua vida. Bê adorava o pão de capim-santo do restaurante. Um dia, ouviu a chef chamar a iguaria de “pão saborizado”. Era o toque de mar­keting que faltava para fazer decolar a sua grande inovação: a farinha de tapioca “saborizada”. A ideia ele deve às suas raízes. Quando criança, via a mãe juntar sobras de comida para alimentar ele e os irmãos. Um dia, com a mãe fora e enquanto cuidava dos gêmeos, cinco anos mais novos, resolveu unir a tapioca com um pouquinho de cuscuz que sobrara na panela. O resultado foi um disquinho colorido e muito saboroso, que virou um hit entre os conhecidos. “O pessoal ia em casa e pedia: ‘Faz aquela tapioca colorida’.” Até ele conhecer o pão saborizado, foi assim que chamou sua invenção.

Em São Paulo, como todo bom nordestino, Bê sempre tinha uma cuscuzeira à mão. E apresentou suas tapiocas coloridas aos amigos. Sucesso. O empurrão que faltava veio da mãe. “Por que não vende as suas tapiocas, meu filho?”, questionou a matriarca. Um fogão portátil, um botijão de gás pequeno e duas frigideiras deram início ao negócio. Hoje, Bê é dono da Tupiocas, lanchonete especializada em tapiocas saborizadas, que também realiza eventos corporativos com seu food truck e vende a famosa farinha colorida em embalagens seladas.

O crescimento das favelas

No sertão do Ceará, onde nasceu Chica Rosa em 1956, não havia luz ou água encanada. Aos 7 anos, ela aprendeu a bordar. Em 1982, mudou-se para Brasília. Mais tarde, depois de seus dois filhos nascerem, Chica se transferiu para uma ocupação, hoje parte da Região Administrativa (RA) Samambaia. O governo do Distrito Federal iniciara um projeto de urbanização no local, anteriormente ocupado por chácaras produtoras de hortaliças e flores. As primeiras famílias foram assentadas em 1985, ainda sem infraestrutura básica. Preocupada com o fluxo de trabalhadores chegando a Brasília, a administração estadual acelerou a transferência de famílias, dando continuidade a um processo caótico de expansão de Samambaia. A RA concentra, atualmente, 8% da população do DF.

Desde os anos 1980, as favelas cresceram territorialmente o equivalente a 106.000 campos de futebol no Brasil, de acordo com dados do ­MapBiomas, organização que analisa as mudanças no uso do solo. Essa expansão se deu sob a negligência do Estado, ou mesmo a partir de intervenções diretas dos governos municipais e estaduais, em projetos que exigiam grandes deslocamentos de pessoas.

Chica começou a mudar de vida em 1989, quando se reuniu com mulheres que faziam bordado, crochê e outros artesanatos, e criou a Associação Artesanato Moda e Tradição, um coletivo de mulheres especializadas em criar moda com lacres de latas de refrigerante. Pelas mãos dessas mulheres, os lacres se transformam em quimonos e bolsas. A inovação e o cuidado na produção chamaram a atenção de marcas internacionais, como é o caso da Escama Studio, que revende o quimono nos Estados Unidos por 379 dólares, algo em torno de 1.900 reais. No Brasil, a peça custa 360 reais. Chica faz questão de ressaltar o impacto ambiental do empreendimento. “Quando meus filhos nasceram, a gente morria de frio em Brasília, e hoje morre de calor. O pessoal está pensando em como vai cuidar do planeta, mas não apoia as soluções”, lamenta.

A moda também mudou a vida de Diego Rocha, de 27 anos, que teve “uma infância comum para um garoto de favela”. Aos 8 anos, sonhava em ser jogador de futebol. Aos 18, percebeu que o sonho seria substituído pela necessidade e passou a trabalhar como office boy. “Em 2017 eu estava frustrado de conseguir apenas sobreviver e comecei a escrever em um caderno o que eu queria para mim.” Dali saiu a ideia de uma marca de roupas inspirada nos clipes da MTV.

Para iniciar o negócio, Rocha estudou microempreendedorismo e, com 240 reais, investiu em telas e em quatro camisetas para estamparia. “Eu acreditei tanto no meu sonho que, no mesmo dia, abri um CNPJ. Quatro meses depois saí do meu emprego.” Nascia, em 2017, a King D., marca com três objetivos: identificação histórica, mostrar a qualidade do produto de favela e gerar protagonismo para as pessoas. “Tem muito talento na favela que não aparece na história das marcas famosas, mas é quem está na linha de produção”, afirma Diego.

Consistentemente, a favela vai conquistando espaços antes impensáveis. Filha de uma catadora de recicláveis e criada em Guaianazes, zona leste de São Paulo, Janaína Cristina Lopes, de 28 anos, conheceu Paris aos 17 anos, convocada para representar o Brasil no campeonato mundial de ginástica olímpica. O esporte ela conheceu em uma igreja no Carrão, outro bairro do leste paulistano. Aos 19, morou por quase dois anos em Dublin, na Irlanda, onde soube da possibilidade de ter uma cidadania estrangeira. Ao descobrir que seu avô era português, buscou informações sobre o processo. Esse conhecimento se transformou em negócio, com a Seja do Mundo, consultoria especializada em processos de cidadania. Seu público não é de favela, mas seus funcionários são. “Minha missão é a expansão e o impacto na vida de 1 milhão de pessoas”, afirma Janaína. Neste ano, a meta é faturar 1,2 milhão de reais. Janaínas, Fernandas e Gabrielas são a concretização de uma previsão feita na década de 1950 por Tom Jobim: “O morro não tem vez / Mas se derem vez ao morro / Toda cidade vai cantar / Morro pede passagem / Morro quer se mostrar”.

Créditos

Rodrigo Caetano

Editor ESG

Trabalhou como repórter e editor nas principais publicações de negócios do país. Venceu os prêmios Petrobras e Citi Journalistic Excellence. Atualmente, lidera a editoria ESG da Exame e apresenta o podcast ESG de A a Z.

Marina Filippe

Repórter de ESG

Mestre em Ciência da Comunicação pela USP. Na EXAME, desde 2016, escreveu em negócios, gestão e sustentabilidade. Foi finalista dos prêmios de Jornalismo Inclusivo e Comunique-se, e reconhecida entre os Mais Admirados da Imprensa.

https://exame.com/revista-exame/agora-e-favela

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Projetos tentam transferir mente humana para mundo digital

Ideia é gerar avatar, com base em dados que retratam personalidade, para se comunicar com quem já morreu

Samuel Fernandes – Folha –  23.mar.2024 

Era final de 2019 quando Justin Harrison sofreu um acidente de moto em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ele sobreviveu. Seis semanas mais tarde, porém, veio a notícia de que sua mãe estava com câncer. Seis semanas após essa descoberta, um amigo dele morreu vítima de um acidente de moto. E, seis semanas depois dessa perda, começou a pandemia de Covid-19. “Como você pode imaginar, de repente, a morte estava em toda parte do meu rosto”, conta Harrison. Ele trabalhava, naquela época, com a produção de documentários e percebeu que queria registrar a vida da sua mãe antes que pudesse ocorrer uma tragédia –ela morreu em outubro de 2022 por causa do tumor. 

Mas Harrison não queria somente capturar a história da sua mãe, seu desejo era continuar interagindo com ela de algum modo mesmo que ela morresse. “Eu procurei se alguém tinha um programa que eu pudesse pegar as histórias dela e as nossas conversas e criar algo digital com o qual eu ainda pudesse me comunicar”, continua. 

Harrison, no entanto, não achou nada desse tipo. Foi aí que começou a montar seu próprio projeto, ainda em 2020. Ele entrou em contato com conhecidos que trabalhavam no ramo de tecnologia a fim de entender o que precisava ser feito para tirar a ideia do papel. Em meio a diferentes possibilidades, uma chamou sua atenção. Era óbvio que seria necessário coletar dados da pessoa que seria simulada, no caso, sua mãe, porém um dos conselhos que recebeu foi de não focar só a quantidade de dados mas também a qualidade. A ideia, então, não seria pegar dados genéricos da personalidade de alguém que deseja criar um avatar digital, mas a interação que ela tem com um indivíduo ou com um grupo pequeno de pessoas. 

Como funciona a criação de versões digitais da YOV

  • 1° passo Áudios, textos e outros materiais de uma pessoa real são adicionados em um site
  • 2° passo O sistema processa essas informações e cria uma pessoa digital baseada nas interações presentes nos materiais
  • 3° passo A pessoa que contratou o serviço pode então interagir com a versão digital criada

E foi assim que nasceu a YOV, empresa fundada por Harrison. Atualmente, a companhia conta com cinco funcionários —nenhum deles recebe salário por causa do momento preliminar que o negócio se encontra. O fundador ainda procura formas de financiar a empreitada, mas não deseja um parceiro comercial que demande um aumento significativo no valor da assinatura do serviço –no momento, é possível utilizar o sistema por três dias gratuitos e então se paga US$ 19,99 (cerca de R$ 100) por mês. Há 900 pessoas cadastradas no sistema, porém Harrison não revela quantas efitivamente geraram versões digitais de outras pessoas. 

Uma hipótese a ser testada 

Também nos Estados Unidos, existe a Terasem Movement Foundation, uma organização sem fins lucrativos fundada em 2004 que busca testar se é possível transferir uma consciência humana para o ambiente digital. A ideia pode ser um tanto estranha a princípio. Bruce Duncan, diretor-executivo do projeto desde 2006, até ri quando a reportagem diz que o objetivo do projeto soa um pouco como ficção científica. “Só um pouco?”, pergunta ele depois das risadas. 

Duncan explica que, por muito tempo, o trabalho gerava reações de desinteresse por parte da comunidade acadêmica. “Quase ninguém na academia falava sobre isso e, se você falasse com cientistas, eles simplesmente diriam ‘bem, isso é legal e você é louco’ e iriam embora.” Com o tempo, a tecnologia avançou, e o interesse por pesquisas envolvendo inteligência artificial (IA) cresceu. O projeto do Terasem Movement até já foi tema de um artigo publicado no periódico científico International Journal of Machine Consciousness. O texto é assinado por Martine Rothblatt, uma das fundadoras do projeto. 

Para atingir o objetivo da iniciativa, existem diferentes etapas. A primeira é coletar dados que retratam a personalidade de alguém. Hoje, cerca de 65 mil pessoas já colocaram diferentes materiais, como áudios e vídeos, no sistema digital da fundação, que só suporta arquivos em inglês. Esses dados são processados e interpretados seguindo o modelo Big Five, método que mensura os cinco traços predominantes na personalidade de alguém. 

Agora, nós não podemos dizer que temos uma mente clonada 

Bruce Duncan diretor-executivo 

Mas, antes de testar se uma IA pode simular a personalidade de um ser humano, é necessário treiná-la. E é nessa fase que o projeto se encontra por meio de um robô chamado Bina48, que se baseia na personalidade de Bina Rothblatt, a outra fundadora do projeto. Dados pessoais de Rothblatt foram coletados, e entrevistas bibliográficas foram feitas com ela. Então, essas informações foram incorporadas à IA para treiná-la e aprimorá-la. Se a IA ficar preparada, o que, nas estimativas de Duncan, pode ocorrer entre 5 e 8 anos, então se passa à próxima etapa: os testes. 

O plano é que especialistas, como psicólogos, e pessoas comuns tenham contato com a pessoa real que formou o arquivo digital e com a simulação realizada pela IA. Com essas análises, será possível averiguar se realmente existe alguma equivalência entre as duas. 

Caso isso aconteça, Duncan diz acreditar que novas questões devem surgir e, consequentemente, novos estudos. “Eu esperaria que houvesse muitas questões que valem a pena serem perseguidas para refinar, repetir e examinar as condições subjacentes que estão presentes em uma simulação suficientemente boa.” Após isso, quem sabe, será possível transferir a consciência de alguém para computadores que podem operar a personalidade dessa pessoa mesmo se ela já tiver morrido. Esse plano é de interesse da organização para o futuro, mas o foco agora é aprimorar a IA e aplicar os testes de equivalência nos próximos anos. E, por enquanto, não tem como afirmar se isso dará certo. “Agora, nós não podemos dizer que temos uma mente clonada”, resume Duncan. 

Como funcionará a criação de versões digitais da Terasem Movement

  • 1° passo Áudios, textos e outros materiais de uma das fundadoras do projeto foram coletados
  • 2° passo Uma IA está sendo treinada para performar esses dados e simular a pessoa real
  • 3° passo Depois de pronta, a IA será testada para averiguar sua eficácia em simular um ser humano
  • 4° passo Se obter sucesso, a IA poderá ser usada no futuro para replicar diferentes mentes humanas

É possível? 

Vitor Calegaro, professor adjunto do departamento de neuropsiquiatria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), estuda o tema de personalidade humana relacionada a traumas e resiliência. Ele explica que, pelo menos hoje, a ideia de uma IA simular totalmente a personalidade de alguém é algo distante de acontecer. Por outro lado, simular padrões focalizados de comportamento de alguém é algo mais factível. Isso porque a personalidade de alguém é produto de uma interação de sistemas psicofísicos –ou seja, mentais, mas também biológicos. “Dependendo de como é a genética de uma pessoa, a biologia dela, tudo isso vai mudar um padrão de respostas que compõem as características individuais”, explica Calegaro. Sem contar com essas informações biológicas, como é o caso de computadores, processar completamente o que compõe uma pessoa é improvável. 

Além disso, certos traços de uma pessoa não podem ser categorizados completamente por modelos matemáticos. Sexualidade e amor são dois exemplos. Sem essas medidas, não é possível replicar essas características de alguém. Outro detalhe levantado pelo professor é relacionado a quão ambiciosa é a meta. Por exemplo, se o desejo é simular o estilo de interação de uma pessoa com outra, ou seja, algo mais focalizado, o nível de reprodução tende a ser mais fácil de ser atingido. Agora, se o objetivo é captar a personalidade de alguém em diferentes contextos sociais, alcançar essa meta tende a ser muito mais difícil. 

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2024/03/projetos-tentam-transferir-mente-humana-para-mundo-digital.shtml

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Por que vemos gênios e loucos de forma apaixonada?

O colunista Marcelo Cardoso explica como pessoas como Elon Musk ganham tanta audiência na sociedade

Por Marcelo Cardoso – Valor – 11/03/2024

É fundador e integrador da Chie, consultoria que dá suporte à evolução de indivíduos e organizações

O “poderoso excêntrico” é uma figura arquetípica muito presente em nosso imaginário cultural, que aparece nas nossas histórias desde sempre, de imperadores romanos a reis loucos medievais, das peças de Shakespeare aos personagens cômicos da “Sessão da Tarde”.

Essa representação está tão entranhada em nós, nos fascinando e indignando na mesma medida, que, de tempos em tempos, quando surge alguém de carne e osso que se assemelha a essas figuras, temos uma dificuldade enorme de separar o mito e a realidade, e reagimos de forma apaixonada – seja pela supervalorização dos seus feitos, seja pelo desprezo absoluto pela pessoa. Assim, perdemos de vista questões um pouco mais intrincadas que nos falam do mundo que possibilita esse tipo de fenômeno e sobre nós mesmos. Recomendo o equilíbrio entre pensamento crítico e empatia ao analisarmos esses indivíduos.

Provavelmente você se lembrou de Elon Musk. E de fato é ele quem eu tenho em mente para este texto.

Acabo de ler a sua biografia, escrito por Walter Isaacson, quem já escreveu antes sobre as vidas de Steve Jobs e Leonardo da Vinci. Todo o livro parece se sustentar nessa indissociação entre o caráter inovador brilhante e o monstro insensível, a começar pela citação inicial, atribuída ao próprio biografado: “para qualquer um que eu ofendi, eu só quero dizer que eu reinventei os carros elétricos, e estou mandando pessoas para Marte em um foguete. Você pensou que eu também seria um cara normal e tranquilo?”.

Isaacson reforçou essa perspectiva posteriormente em entrevistas, chegou a dizer que somente pessoas assim, destemidas e brutais, podem alcançar tamanho sucesso para chegar aonde ninguém chegou antes, e que, em oposição, àqueles mais ponderados e sensíveis cabe o papel de observador na história. O autor ainda sugere que alguns desses inovadores como Musk, Jobs e outros, têm paixão pela humanidade, mas desprezo pelo ser humano, e que o preço a pagar pelas inovações dessas pessoas seria lidar com as consequências das personalidades distorcidas e abusos que eles cometem.

Talvez seja impossível separar nessas pessoas o aspecto inovador e benéfico do aspecto sombrio de suas psiquês – de alguma forma, todos nós vivemos esse paradoxo, em que nossas potências nascem da tentativa de proteger um profundo vazio, um trauma ou senso de inadequação interna. Porém, tenho convicção de que é possível transformar os vícios de nossa personalidade em uma versão mais madura, integrada e funcional, sem perdermos nossas potencialidades que nos destacam.

Mas a questão que se levanta, então, por que essas pessoas não só se recusam a melhorar, como enaltecem e são celebradas por tais características destrutivas?

E a resposta prosaica é que, enquanto houver investidores ganhando com esse tipo de comportamento, os desvios de personalidade dessas pessoas serão tolerados e até incentivados. Até o ponto quando o comportamento deles coloca o negócio em risco, e então são afastados e descartados.

Como quase sempre, os lucros são maximizados e as consequências desastrosas para milhares de pessoas tornam-se um passivo para a sociedade, e até mesmo para o “excêntrico ex-gênio”, que se vê finalmente apartado de sua obra mas não de seus demônios. E provavelmente já será tarde demais para arrependimentos.

Talvez essas histórias sejam fascinantes para nós por serem uma metáfora da nossa sociedade, nesse constante desequilíbrio entre o exagero na busca pelo domínio do mundo externo, material e tecnológico e a aridez desleixada com o mundo interno, da falta de maturidade psíquica, ponderação e sensibilidade humana. É a história que vivemos como espécie.

Há uma outra história possível: em cada um de nós, e como sociedade, pode existir uma dança entre a constante investigação interna com a busca por realizações externas. Atualizando o mundo e a nós mesmos de forma ponderada, integrada e digna.

Precisamos começar a valorizar outras histórias e personagens.

Marcelo Cardoso é fundador da consultoria Chie e presidente do Instituto Integral Brasil

https://valor.globo.com/carreira/coluna/por-que-vemos-genios-e-loucos-de-forma-apaixonada.ghtml

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O poder do pedido – ou a força da cara de pau

Para Steve Jobs, pessoas que realizam têm a capacidade de pegar o telefone e ter a cara de pau de pedir alguma coisa

Aluizio Falcão Filho – Exame –  4 de março de 2024 

Muitos já viram um vídeo de Steve Jobs que circula nas redes sociais, contando uma história que também foi registrada na biografia escrita pelo jornalista Walter Isaacson. Nesta gravação, ele fala sobre o poder que um pedido pode ter (e a diferença que isso pode fazer em sua vida). “Eu nunca encontrei alguém que não quisesse me ajudar se eu pedisse ajuda”, diz Jobs. “Eu sempre liguei para as pessoas”.

Talvez você esteja matutando nessa hora: “Mas quem não ajudaria Steve Jobs?”. Um dos empresários mais geniais da história, ele seria atendido por qualquer pessoa do mundo, fã ou não da Apple e de outras iniciativas brilhantes, como a Pixar. Antes de mais nada, porém, leia o restante deste depoimento do criador do iPhone:

“Eu liguei para Bill Hewlett [o “H” da HP, empresa que fundou com David Packard] quando tinha doze anos de idade. Ele morava em Palo Alto e seu número ainda estava na lista telefônica. Ele atendeu o telefone e eu disse: ‘Oi, eu sou Steve Jobs, tenho doze anos, sou estudante do ensino fundamental e quero fazer um contador de frequências. Estava pensando se você não teria algumas peças sobrando que eu pudesse pegar’. Ele deu risada e me deu as peças para construir o contador de frequências e também me deu um emprego naquele verão na Hewlett-Packard, onde eu trabalhei na linha de produção. […] Eu nunca encontrei alguém que disse não ou desligasse o telefone quando ligava para pedir ajuda. Eu apenas perguntava”.

Para Jobs, o que separa as pessoas que sonham daquelas que realizam é a capacidade de agir, como pegar o telefone e ter a cara de pau de pedir alguma coisa. Obviamente, o discurso de quem faz esse tipo de coisa tem que ser tão ousado quanto a iniciativa em si. E, no caso da história contada por Jobs, o fato de ele ter apenas doze anos de idade fez boa parte do trabalho.

Ele manteve a audácia em seu caráter por muito tempo. Nos diários do artista plástico Andy Warhol, há uma passagem que descreve esse traço de personalidade do criador da Apple. Escrevi sobre isso em 17 de março de 2022. Vale a pena reler esse trecho:

A Netflix acaba de lançar uma minissérie sobre o artista Andy Warhol, baseada em seus diários. Uma determinada passagem fala sobre a noite de 9 de outubro de 1984. Era o aniversário do filho de John Lennon e de Yoko Ono, Sean, e Warhol tinha sido convidado, assim como o jornalista Walter Cronkite e o compositor John Cage. Lá pelas tantas, ele vê o aniversariante brincando com um computador da Apple ao lado de um rapaz que o ajudava a mexer na máquina.

Warhol estava acompanhado do também artista Keith Haring, que ficou encantado com o programa de ilustração do computador (na época, a maioria dos PCs não tinha interface gráfica). Intrigado, se aproximou e viu que era um Macintosh. Warhol disse para o rapaz ao lado de Sean Lennon: “Macintosh? Tem um cara que me liga toda semana querendo me dar um aparelho desses”.

O jovem, então, respondeu e estendeu a mão: “Sou eu mesmo. Muito prazer, Steve Jobs”.

Esse expediente, convenhamos, é imprescindível para qualquer empreendedor ou executivo que se preze. Portanto, vamos parafrasear o poeta Vinícius de Moraes em seu poema “Receita de Mulher”, de 1959: os tímidos que me perdoem, mas a desfaçatez é fundamental.

https://exame.com/colunistas/money-report-aluizio-falcao-filho/o-poder-do-pedido-ou-a-forca-da-cara-de-pau

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Fórmula de Singapura é valorizar professor, diz especialista

Ng Pak Tee, autor de ‘Learning from Singapore’, descreve como o país chegou a líder do Pisa, avaliação global de educação

Nelson de Sá – Folha – 3.jan.2024 

Taipé

Realizado em 2022 e divulgado no início de dezembro, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) confirmou Singapura como líder do ranking de 81 países e regiões nas três matérias abrangidas, matemática, leitura e ciências. O Brasil foi o 65º em matemática, foco maior desta edição do exame aplicado desde 2000 para estudantes de 15 anos.

Autor do livro “Learning from Singapore”, aprendendo com Singapura, Ng Pak Tee aponta a valorização da educação e dos próprios professores, por razões históricas, e a busca permanente de aprimoramento do sistema de ensino como características significativas do país. Mas evita defender o sistema como modelo para outros países. “Ele não é perfeito, e nosso contexto é diferente.”

Desde que o país de 5,9 milhões de habitantes começou a chamar a atenção no Pisa, também há críticas, como o foco em exames de avaliação, que estimulam procurar aulas extras, pagas. Ng reconhece que Singapura era assim “no passado”, mas enfatiza as mudanças feitas, visando o bem-estar dos alunos e uma busca de “aprender com alegria”, como queria Confúcio.

Questionado sobre o que explicaria o desempenho também de Macau, Taiwan e Hong Kong, três outras regiões da chamada Grande China que aparecem logo abaixo de Singapura no último ranking do Pisa, Ng responde não conhecer a fundo, mas arrisca: “Meu palpite é que, de um modo geral, talvez a educação nesses lugares seja mais valorizada por toda a sociedade”.

Leia, a seguir, trechos editados da entrevista.



Como Singapura se tornou um exemplo em educação? Como começou?
Pessoalmente, eu não chamaria Singapura de um sistema educacional modelo ou um exemplo em educação, como você colocou. Ele não é perfeito, e nosso contexto e trajetória são diferentes dos outros. Em muitas áreas, como educação infantil, ainda está tentando alcançar e aprender com outros sistemas avançados. Se é por causa dos resultados do Pisa, então minha opinião é que o Pisa é uma boa referência, mas não é nosso boletim escolar. Estamos muito mais preocupados com a educação das crianças do que com os resultados do Pisa.

Suponho que a maneira mais fácil de entender seja começar por 1965, ano em que Singapura se tornou independente. O desafio naquela época era sobreviver. O país era pobre e havia um alto índice de desemprego, muitos singapurenses eram analfabetos. Havia uma atitude geral entre as pessoas daquela geração de que “vamos enviar nossos filhos para a escola para que tenham vidas melhores que as nossas”. A educação se tornou a esperança. Singapura é um país muito pequeno, sem recursos, sem petróleo, borracha ou terra para agricultura, exceto o povo. Valorizamos a educação, acho que esse foi o ponto de partida.

Qual é a característica mais significativa do sistema educacional hoje? E é viável reproduzi-la fora de Singapura?
Uma filosofia fundamental em Singapura é que, à medida que o tempo avança, são feitas mudanças para acompanhar. Independentemente de onde estiver em testes comparativos internacionais, vai sempre tentar melhorar a educação. Mas existem constantes atemporais que servem como faróis, para ajudar a navegar pelas águas da mudança de forma segura. Uma constante no sistema é que a educação é um investimento, não uma despesa. Não se pouparam recursos para a educação mesmo quando a economia foi duramente atingida, durante várias crises globais, para que as crianças não ficassem para trás.

O sr. acredita que o valor dado aos professores, em salários e na sua seleção e preparação, tem papel nisso?
Sim, em vários relatórios internacionais isso é citado como um fator chave para o alto desempenho educacional de Singapura. O ensino é uma profissão respeitada. Investe-se muito esforço e recurso no desenvolvimento profissional de líderes escolares e professores. Conseguimos recrutar professores do terço superior das suas turmas acadêmicas. O salário inicial é comparável a outras profissões, e existem diferentes caminhos de desenvolvimento e avanço na carreira. Entrevistamos cuidadosamente os candidatos para recrutar só aqueles que estão de fato interessados em ensinar. O governo cobre o custo para a formação de professores, e quando estagiários eles recebem salário. Todos os professores e líderes escolares são treinados no Instituto Nacional de Educação, onde eu trabalho. Tentamos preparar professores prontos para o futuro, que sejam adaptáveis à mudança, mas ancorados em princípios.

Essa valorização reflete a própria sociedade, a forma como ela enxerga os professores?
Sim, em termos gerais, a sociedade valoriza os professores, mas também são feitos esforços deliberados para cuidar e proteger a imagem da profissão. Por exemplo, existe um prêmio prestigioso que homenageia professores excepcionais, inspiradores e atenciosos, que o presidente de Singapura concede pessoalmente, e grandes anúncios são pintados na parte externa de ônibus, para lembrar ao público que a educação está “Moldando o futuro da nação”.

Em relação à posição de Singapura no Pisa, há críticas ao peso que é dado no país para aulas particulares e à educação muito voltada para os exames. Isso é verdade?
O bem-estar dos estudantes é atualmente um tema quente em Singapura. Na verdade, as escolas sempre se preocuparam, atividades extracurriculares e educação física sempre foram parte importante do ensino. Mais recentemente, têm sido feitos mais esforços em áreas como educação de caráter e cidadania, aprendizado social e bem-estar digital.

Nosso sistema no passado era bastante voltado para exames. O que se está fazendo agora é afastar do foco no resultado dos testes e concentrar na qualidade da aprendizagem. Foi reduzido o número de exames que os estudantes fazem nas escolas, mas, mais importante, estão sendo feitas mudanças na educação para apoiar uma infância ou adolescência saudável. Os estudantes passam parte do tempo na escola. O que se quer é garantir que eles realmente se beneficiem e aproveitem de seu tempo de aprendizado na escola. Isso é uma parte crucial do bem-estar dos estudantes, que as crianças desenvolvam o hábito de estudar com menos estresse na aprendizagem.

Você já escreveu que Confúcio, falando sobre aprender, perguntou: ‘não é uma alegria?’. É uma alegria, em Singapura? Está se tornando mais alegre?
Espero que sim. Foi reduzida a ênfase nas notas como medida de sucesso dos alunos. Nos exames de conclusão do ensino fundamental, para alunos com 12 anos, a medida estatística para classificar as notas dos alunos foi substituída por faixas de conquistas mais amplas. Ao fazer isso, a mensagem para os alunos e pais é que os exames ainda são importantes, mas não são a única coisa ou a coisa mais importante na vida. Não há necessidade de ficar tão ansioso para buscar o objetivo. Portanto, agora é preciso nos perguntar: é necessário fazer aulas particulares? O tempo pode ser utilizado para algo que leve a um desenvolvimento mais completo? É necessário estudar repetidamente só para os exames, tirando tempo de outras aplicações mais criativas do conhecimento? A prática não está errada, ela é necessária para a aprendizagem. Estamos preocupados com a prática excessiva, em detrimento do desenvolvimento holístico da criança.

A aprendizagem ganha vida quando os alunos sentem que o que aprendem é útil e significativo em suas vidas e têm oportunidade de aplicar seus conhecimentos e habilidades em situações do mundo real. Recentemente, todas as escolas foram incentivadas e apoiadas a desenvolver um programa de aprendizagem aplicada para seus alunos. A abordagem ao bem-estar dos estudantes não é superprotegê-los de desafios. Enfatiza-se a educação holística para preparar os alunos com valores e habilidades para superar dificuldades e contratempos.

Como é a equidade no sistema escolar de Singapura? As crianças de famílias pobres têm acesso a boa educação?
O objetivo é um sistema escolar excelente para todas as crianças e jovens, não algumas escolas excelentes para alguns. A filosofia é que todas as escolas sejam boas, independentemente dos resultados acadêmicos. Que todas tenham bons líderes e professores, sejam ambientes seguros para as crianças. Se você ensina em uma escola de alto nível, isso não significa que é um professor melhor ou tem uma carreira mais brilhante. Na verdade, indicamos alguns de nossos melhores professores e diretores para as escolas menos privilegiadas, porque eles podem melhorar essas escolas. Independentemente do contexto familiar, as crianças podem ter acesso a uma boa educação. Todas as escolas importam, são lugares para as crianças aprenderem e construírem relacionamentos em um ambiente seguro.

Estão sendo desenvolvidos caminhos diferentes, para que alunos diferentes com aptidões diferentes possam encontrar satisfação à sua maneira. De certa forma, isso descreve a equidade em Singapura. Os resultados podem não ser todos iguais, mas são todos bons o suficiente como base para levar uma vida, criar uma família, ser um cidadão. Os diferentes caminhos também permitem que as crianças experimentem a alegria de aprender. Elas se envolvem, encontram significado e prazer, trabalham duro para alcançar. É a confluência de equidade, excelência e bem-estar.

Como foi a experiência com Covid-19 em Singapura?
Quando a Covid-19 atingiu, foi, é claro, uma crise. O impacto em vidas humanas, nos meios de subsistência e no estilo de vida foi tremendo. Durante o período de bloqueio, de abril a junho de 2020, quando o ensino em casa foi implementado em todo o país, os professores continuaram ensinando e aprendendo usando ferramentas online. Dada a mudança repentina naquela época, escolas, professores e alunos realmente se adaptaram. Os professores aprenderam a operar online, fizeram ligações para cuidar de seus alunos. Estes, é claro, tiveram que fazer muitos ajustes também, tiveram mais tempo de tela e menos socialização presencial, mas fizeram o seu melhor. O resultado foi que a aprendizagem continuou em Singapura, apesar da pandemia.

Pós-Covid, olhando para a frente, essas competências de ensino online abrem caminho para o avanço pedagógico. Os professores agora têm uma melhor compreensão dos benefícios e armadilhas das ferramentas tecnológicas. Estamos aproveitando o fato de que os professores agora estão mais competentes com elas para avançar em direção ao ensino híbrido. Algum ensino em casa regular, feito online, complementa as aulas presenciais. Durante esses períodos de ensino em casa, os alunos assumirão a responsabilidade por sua própria aprendizagem e se envolverão em alguns tópicos fora do currículo.



RAIO-X

Matemático pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, o singapurense Ng Pak Tee é professor do Instituto Nacional de Educação, da Universidade Tecnológica de Nanyang, faculdade que seleciona e prepara os professores do país. Publicou em 2017 o livro “Learning from Singapore: The Power of Paradoxes” (Routledge, 2017), em que aponta o efeito positivo de paradoxos no sistema educacional do país, como a convivência entre centralização e descentralização

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/01/formula-de-singapura-e-valorizar-professor-diz-especialista.shtml

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IAs que resolvem problemas: um passo a mais para a IA realmente inteligente

Novo modelo de IA do laboratório do Google pode aprender a jogar games a partir de instruções verbais de um treinador humano


Mark Sullivan – Fast Company Brasil – 19-03-2024 

Por anos, pesquisadores têm ensinado modelos de IA a jogar videogame como uma forma de prepará-los para executar tarefas específicas da vida cotidiana. Mas a DeepMind, subsidiária do Google focada em inteligência artificial, aumentou a aposta, lançando um modelo “generalista” capaz de aprender a navegar em uma variedade de ambientes virtuais.

O agente de IA, chamado SIMA (acrônimo de “Scalable Instructable Multiworld Agent”, ou agente multimundo ensinável e escalável), pode seguir instruções em linguagem natural para realizar diversas tarefas em mundos virtuais.

Ele aprendeu a minerar recursos, pilotar espaçonaves, fabricar capacetes e construir esculturas usando blocos. Todas essas ações foram realizadas utilizando um teclado e um mouse para controlar o personagem principal do jogo.

O sistema (composto por vários modelos) que alimenta o SIMA foi projetado para mapear com precisão a linguagem e imagens. A equipe de desenvolvimento treinou um modelo de vídeo para prever o que aconteceria se o agente realizasse uma ação específica. Em seguida, ajustou o sistema com base em dados 3D específicos do jogo.

Os pesquisadores da DeepMind querem dar passos em direção à construção de modelos e agentes de IA capazes de descobrir como realizar tarefas no mundo real. “Estamos interessados no comportamento do nosso agente em ambientes que ele nunca viu antes”, afirma Frederic Besse, engenheiro de pesquisa da empresa.

Entretanto, seu colega Tim Harley, que liderou o projeto, ressalta que é muito cedo para falar sobre as aplicações da tecnologia. “Ainda estamos tentando entender como isso funciona… como criar um agente verdadeiramente generalista.”

ROBÔS CAPAZES DE SOLUCIONAR PROBLEMAS

Assim como a DeepMind, a Covariant busca criar um cérebro de IA com a capacidade de aprender novas informações e reagir a problemas inesperados. Mas, em vez de treinar agentes para atuar em uma ampla gama de ambientes digitais, a empresa está focando em ambientes mais restritos, como chãos de fábrica e centros de distribuição.

Os clientes da Covarient estão espalhados por 15 países. Todos usam diferentes tipos de robôs para realizar diversas tarefas, desde selecionar verduras até empacotar produtos comprados online.

A variedade de itens e ações com os quais eles lidam é grande demais para ser replicada em um laboratório de treinamento, então os robôs precisam usar sua capacidade de intuição para manusear objetos que nunca viram, de formas que nunca fizeram antes.

Os robôs começam a desenvolver um instinto de resolução de problemas, assim como os humanos.

Enquanto realizam suas atividades diárias, eles também coletam dados valiosos de treinamento. Peter Chen, CEO da Covariant, compara isso a muitos tipos diferentes de corpos reportando a um mesmo cérebro.

A empresa, que é composta por um bom número de ex-membros da OpenAI, usou esses dados para treinar um novo modelo de base com oito bilhões de parâmetros, o RFM-1.

Os primeiros grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês) eram treinados apenas a partir de texto. Em 2024, estamos vendo o surgimento de modelos multimodais, capazes de processar imagens, áudios, vídeos e códigos. Mas a Covariant precisava de um que pudesse “pensar” usando um conjunto ainda mais amplo de tipos de dados.

O RFM-1 também entende o estado e a posição do robô e os movimentos que ele pode fazer. Todas essas informações são representadas como tokens no modelo, da mesma forma que dados de texto, imagem e vídeo.

Com todos diferentes tipos de tokens em um único espaço, ele é capaz de fazer coisas impressionantes. O modelo pode, por exemplo, combinar instruções de texto com observações de imagem para intuir a melhor maneira de pegar e mover um objeto.

Também pode gerar um vídeo mostrando o resultado de uma ação específica. Ou simular uma ação planejada com base nas leituras dos sensores do robô. Em essência, trata-se de dar aos robôs uma espécie de intuição geral para solucionar novos problemas e experiências para os quais não foram treinados.

Dessa forma, eles podem continuar trabalhando sem a necessidade de serem desligados para receber treinamento adicional sobre como lidar com um cenário específico. Os robôs começam a desenvolver um instinto de resolução de problemas, assim como os humanos.

A diferença é que ainda podem realizar a mesma ação duas mil vezes por dia, a uma velocidade muito superior à nossa – e nunca ficam entediados.


SOBRE O AUTOR

Mark Sullivan é redator sênior da Fast Company e escreve sobre tecnologia emergente, política, inteligência artificial, grandes empres… saiba mais


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