Inovação aplicada no setor de energia: onde estamos e para onde vamos?

O setor energético está caminhando em direção a métodos mais sustentáveis e a inovação tecnológica, especialmente impulsionada pelas startups de energia, desempenhará um papel central nesse cenário.

by Gustavo Caetano –  MIT Technology Review – abril 17, 2024

O setor de energia tem passado por mudanças significativas nos últimos anos, principalmente porque o mundo está sofrendo consequências incalculáveis devido à falta de cuidado das pessoas e empresas com o meio ambiente durante todos esses anos. Como exemplo, reforço o caso das enchentes causadas pelas chuvas torrenciais em muitas cidades brasileiras, mudanças climáticas, destruição da camada de ozônio, extinção de espécies, erosões, destruição de habitats, diminuição dos mananciais e alto nível de poluição.

Por isso, temas como tecnologia verde, sustentabilidade e ESG (Environmental, Social and Governance) vêm ganhando força e têm atraído a atenção da população em geral, principalmente de companhias de médio e grande porte e que atuam em diferentes segmentos, com o objetivo de criar soluções para diminuir o consumo de energia, reduzir a emissão de gases de efeito estufa, minimizar o desperdício e a poluição a fim de preservar os recursos naturais e a biodiversidade.

Segundo dados do relatório ESG Radar 2023, feito pela Infosys, multinacional de tecnologia da informação, os investimentos das empresas em ESG devem alcançar a marca de US$ 53 trilhões até o ano de 2025, ou seja, R$ 273 trilhões. O estudo teve a participação de 2.565 executivos e gerentes de companhias que faturam mais de US$ 500 milhões por ano em países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Nova Zelândia, Austrália, Índia e China. Para 61% dos entrevistados, investir em ESG garantiu uma melhora moderada nas organizações e 29% do total identificaram resultados positivos. Enquanto isso, 10% não sentiram diferença.

De acordo com a Aliança Global pelo Investimento Sustentável (GSIA), em 2022 o cenário era diferente, pois a soma de investimentos com questões relacionadas a ESG foi de US$ 35 trilhões, ou seja R$ 180 trilhões, o que pode representar um crescimento de 51% em três anos.

Já no âmbito nacional, 67% das companhias brasileiras já adotaram o ESG como pilar estratégico, segundo dados do estudo Tendências de RH 2023, feito pela Korn Ferry. O relatório, que foi elaborado entre junho e julho do ano passado, contou com a participação de 125 empresas da Argentina, 265 do Brasil, 117 participantes do Chile, 78 da Colômbia e 67 companhias do Peru. Com relação às prioridades de cada companhia, podemos destacar redução de emissões, investimentos em projetos filantrópicos, uso de energias renováveis e uso eficiente de recursos.

Outro levantamento feito pelo Information Services Group (ISG), empresa global de pesquisa e consultoria tecnológica, aponta que o Brasil foi o primeiro país a incluir padrões globais enviados pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) em seu quadro regulatório. Isso representa um avanço significativo, pois fez com que aumentasse o número de demandas por soluções sustentáveis.

IA aplicada no gerenciamento de energia inteligente e sustentável

A tecnologia passou a ser fundamental nesse processo, pois ela é capaz de analisar um volume alto de dados, reconhecer padrões, identificar tendências e aplicar práticas sustentáveis. Além disso, a Inteligência Artificial consegue ter uma estimativa sobre as emissões de carbono em diferentes cenários, com o uso de dispositivos conectados.

Outra vantagem é que a IA pode ser aplicada para tornar o gerenciamento de energia inteligente e sustentável. Isso porque ela coleta as informações em tempo real e dependendo do nível ajusta automaticamente o abastecimento de energia, melhorando o uso de fontes renováveis. Essa máxima incentiva cada vez mais a criação de novas empresas e, principalmente, startups utilizando soluções inovadoras e disruptivas.

De acordo com o relatório feito pela Liga Ventures, maior rede de inovação aberta da América Latina que conecta startups e grandes empresas para geração de negócios, com apoio estratégico da PwC Brasil, existem atualmente 241 startups de energia que estão ativas e utilizam diferentes tecnologias para otimizar e potencializar o setor energético.

Elas estão divididas em 11 categorias, como eficiência energética (18,67%); geração compartilhada (18,26%); data analytics (12,03%); gestão de consumo (10,79%); comercialização e financiamento de energia (9,54%); sustentabilidade (8,71%); e-mobilidade (7,88%); gestão de equipes e operações (4,98%); novos equipamentos (4,15%); baterias (2,49%) e inspeção por imagem (2,49%).

O levantamento traz também as tecnologias mais aplicadas e entre elas destacam-se Data Analytics (10%), Mercado Livre de Energia (9%), Big Data (7%), Machine Learning (7%) e Geolocalização (3%). Já referente ao público-alvo, o estudo mostra que 53% das startups têm como foco o mercado B2B.

Nesse cenário, podemos dizer que o setor elétrico está se desenvolvendo e trazendo novas possibilidades para a população em geral, principalmente porque ela tem funções altamente estratégicas para manter o funcionamento das cidades. Segundo um estudo da Clean Energy Latin America (CELA), até 2040 o armazenamento de energia deve aumentar 12,8% por ano no Brasil, com capacidade de 7,2 GW, movimentando cerca de US$ 12,5 bilhões/ano.

Modernização do segmento

Mas nem sempre o fornecimento de energia é feito de maneira justa, e por conta disso que é necessário que haja uma regulamentação eficaz e planejamentos mais assertivos.

Assim, o processo evolutivo do setor traz algumas vantagens, como uma maior transparência nos preços sugeridos; aumento da autonomia e flexibilidade; implemento de novas tecnologias; novas diretrizes regulatórias e normativas; melhora a segurança energética e proporciona liberdade ao consumidor.

Nesse caso, há quatro fatores que devem ser levados em consideração durante a modernização do segmento e que serão tendências para os próximos anos. O primeiro é a diversificação da matriz energética que ajuda a manter o fornecimento de energia, diminui a vulnerabilidade dos eventos climáticos extremos e reduz os gastos para as pessoas.

Conforme aponta o relatório Especial sobre Perspectivas Energéticas Mundiais para a Indústria de Petróleo e Gás, feito para o COP28, a matriz energética deve se tornar renovável até 2026, alcançando a taxa de 95% de fontes de energia renováveis.

Um exemplo disso é a energia solar, que vem ganhando espaço significativo no setor. Isso porque ela é uma das principais fontes de energia limpa, bem como altamente eficiente e econômica. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o mercado espera que haja um aumento de 9,3 GW na capacidade instalada de energia solar neste ano, o que elevaria a potência acumulada para 45,5 GW até dezembro.

Além disso, a previsão é que os investimentos provenientes da indústria fotovoltaica devem alcançar a marca de R$ 38,9 bilhões em 2024, com a possibilidade de abrir mais de 281,6 mil empregos e captar mais de R$ 11,7 bilhões aos cofres públicos extras.

Somente em janeiro deste ano, a energia solar alcançou 38 gigawatts (GW) de potência, representando cerca de 16,8% da matriz elétrica do Brasil. Já com relação à geração distribuída de energia, o valor acumulado chega a 26,3 GW e no segmento de geração centralizada atinge 11,7 GW de potência instalada.

Esses dados comprovam a sua alta capilaridade, a capacidade de crescimento exponencial e o quanto ela pode contribuir para o meio ambiente, tornando-o mais sustentável. Isso se dá ao fato de que a inovação está cada vez mais evidente neste setor.

Com isso, as cinco tendências tecnológicas que podem ser aplicadas são: célula Solar de Perovskita nos paineis solares, que aumenta a eficiência operacional, garante uma conversão energética que varia de 13% a 37% a mais e exige tecnologias menos complexas; os paineis fotovoltaicos orgânicos, que substituem os módulos fotovoltaicos convencionais de silício barateando os projetos, além de serem mais leves, com alta durabilidade, modernos também podem ser recicláveis; o módulo Fotovoltaico Ondulado consegue receber a incidência solar em diferentes ângulos; células de filme fino são maleáveis e com isso eles podem ser colocados locais mais flexíveis, diferentemente dos módulos fotovoltaicos que são pesados; e o armazenamento de energia gerada pelos módulos fotovoltaicos onde são usadas baterias de chumbo ácido.

Diante dessas tendências, podemos afirmar que a energia solar traz vantagens significativas para o setor como um todo, como, por exemplo, proporcionar maior autonomia na geração de energia; descarbonizar e reduzir a emissão de gases; incentivar o desenvolvimento tecnológico e diversificar a matriz elétrica. Por isso, essa tendência deve ficar cada vez mais fortalecida e passará a dominar essa área, como sendo uma inovação disruptiva e que traz resultados significativos para o segmento.

Outro fator que ajuda na modernização do setor elétrico é o Mercado Livre de Energia, que passou a ser acessível a partir de janeiro de 2024, para aproximadamente 100 mil pequenas e médias empresas que estão interligadas à rede de média e alta tensão. De acordo com dados da Associação Brasileira de Comercializadoras de Energia, ele conseguiu economizar R$ 41 bilhões nos gastos com energia elétrica em 2022.

Isso acontece porque, com esse novo momento, as pessoas têm o poder de escolher os fornecedores de energia elétrica que mais lhe agradam e que atendem às suas reais necessidades, diferentemente do que acontece nos dias de hoje onde os clientes são obrigados a usar apenas uma companhia regulamentada, tornando essa prática um monopólio.

Essa atividade traz novas possibilidades, já que os contratos podem ser redigidos nos termos que levam benefícios para ambos os lados e permitem mais flexibilidade nesses casos e preços mais competitivos, além de estimular ainda mais a inovação e o surgimento de novas startups.

O setor de energia está em constante evolução e com inúmeras possibilidades para trazer mais eficiência operacional, ganhos financeiros, aumento da capacidade aplicada e principalmente garantir que as práticas sustentáveis sejam adotadas no segmento e investindo em fonte de energia limpa e renovável, e por isso que a tecnologia tem um papel fundamental nisso e o segmento deve crescer de forma exponencial nos próximos anos. Mas, para isso, as empresas devem ficar atentas às novidades que vão surgir.

*Gustavo Caetano é fundador da SambaTech

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‘O bot vai atender você agora’: a inteligência artificial médica com rosto humano está chegando

Avatares e chatbots capazes de transmitir conselhos médicos podem transformar os sistemas de saúde; mas abusos da tecnologia e qualidade das informações ainda preocupam

Por The Economist – 16/04/2024 

Quando lhe perguntei sobre o futuro dos avatares de inteligência artificial na medicina, Nova se mostrou otimista – e não sem razão. Como “embaixadora de marca” da Soul Machines – que tem sede em Auckland, centro da indústria de efeitos visuais da Nova Zelândia – seu trabalho é destacar as experiências “personalizadas e interativas” que esses avatares vão proporcionar em consultas virtuais e reabilitações pós-operatórias. Ao explicar tudo isso na nossa conversa online, ela me olha nos olhos, reage ao que digo fazendo sim com a cabeça e abrindo sorrisos de aprovação. Ao ouvir que eu não estou me sentindo muito bem desde minha última refeição, ela diz “Oh, não!” com cara de preocupada e sugere chá de gengibre ou algum medicamento vendido sem receita. A fita azul que ela usa no ombro direito, ela me conta, é um “símbolo da minha existência como pessoa digital e da minha conexão com a Soul Machines, a empresa que me criou”.

Greg Cross, chefe de Nova na Soul Machines, diz que a capacidade de conversação de Nova vem de dez anos de pesquisa em uma modelagem cognitiva que procura capturar funções como aprendizagem e resposta emocional. O rosto dela transmite essas respostas por meio de um software que descende daquele usado em personagens de filmes gerados por computador.

Parte do que ela diz vem de uma versão do ChatGPT da Openai, sistema alimentado por um grande modelo de linguagem (LLM, na sigla em inglês). Cross acredita que esses avatares vão ser um jeito cada vez mais importante de as empresas se comunicarem com as pessoas – e que eles se revelarão irresistivelmente úteis para os sistemas de saúde, onde a necessidade de algo como o toque humano cada vez mais supera a disponibilidade de humanos com formação para proporcionar esse toque profissionalmente.

Diga onde dói

Faz tempo que as pessoas adoram fazer perguntas sobre saúde na internet. O mecanismo de busca do Google lida com cerca de 1 bilhão delas por dia. Instituições de caridade médicas, grupos de pacientes, empresas farmacêuticas e prestadores de cuidados de saúde disponibilizam toneladas de informações, mas isso não é nem de longe garantia de que as pessoas que consultam o “Dr. Google” vão sair bem informadas.

O interesse em evidências confiáveis levou ao desenvolvimento de chatbots personalizados, projetados para explicar questões de saúde pública aos pacientes e ajudá-los a descobrir o que seus sintomas podem significar. Florence foi criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Google e Amazon Web Services durante a pandemia de covid-19 para combater as notícias falsas e a desinformação. Desde então, sua base de conhecimento se expandiu e hoje abrange tabagismo, saúde mental e alimentação saudável. Mas ela não chega a ser um exemplo de bom papo.

A empresa alemã Ada Health oferece um chatbot de verificação de sintomas que consulta um banco de dados cuidadosamente estruturado com milhares de informações rigorosamente selecionadas por médicos. O bot usa as respostas do paciente para gerar uma sequência de perguntas e, em seguida, apresenta uma lista de possíveis diagnósticos, com a probabilidade de cada um. Lançado em 2016, tem 13 milhões de usuários, cerca de um terço deles na Índia, Ásia e África.

O “mecanismo de raciocínio probabilístico” central da Ada não é tão complexo quanto os LLMs lançados recentemente. E é um pouco trabalhoso de usar. Mas também é confiável – nada de alucinações – e, o que é crucial, “explicável”: quando a Ada calcula as probabilidades dos diagnósticos, é possível descobrir exatamente como ela as calculou. Essa confiabilidade e explicabilidade permitiram que ela obtivesse aprovação regulatória como dispositivo médico na Alemanha e em muitos outros países.

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Qualquer pessoa que tente conseguir aprovação para um sistema parecido com o ChatGPT, baseado em LLMs, vai enfrentar enormes obstáculos devido à origem de seus dados, à confiabilidade e reprodutibilidade de suas respostas e à explicabilidade de seu processo. Como indaga Hugh Harvey, da Hardian Health: “Se as perguntas são essencialmente infinitas e as respostas são essencialmente infinitas, como provar que é seguro?”.

Isso não significa que os LLMs não tenham nada a dizer sobre saúde. Muito pelo contrário. A internet está repleta de afirmações sobre a capacidade do ChatGPT de diagnosticar problemas médicos desconcertantes, analisar exames de sangue ou descobrir porque um especialista está pedindo certos exames. Como os enormes conjuntos de informações com os quais são treinados incluem textos médicos, os LLMs conseguem responder de forma convincente a perguntas médicas bastante complicadas, mesmo que não tenham sido deliberadamente treinados para isso.

Em 2023, pesquisadores avaliaram que o desempenho do ChatGPT no exame de Licenciamento Médico dos Estados Unidos era equivalente ao de um estudante do terceiro ano de medicina. Um software se sair tão bem assim teria sido mais ou menos impensável cinco anos atrás.

Em um estudo recente, uma versão do ChatGPT baseada no GPT4, o maior modelo da Openai aberto a acesso público, superou as respostas dadas por candidatos humanos em uma prova do conselho de neurologia. Mesmo quando o modelo deu respostas erradas, foi com muita confiança – o que é ruim para um dispositivo médico, mas não incomum entre os clínicos.

Dada essa facilidade, não há dúvida de que os conselhos médicos que as pessoas recebem dos LLMs possam ser precisos e adequados. Mas isso não significa que vai ser sempre assim: alguns dos conselhos provavelmente estarão errados e serão perigosos. Os desafios regulatórios implícitos na opacidade dos LLMs levaram muitos a concluir que hoje é impossível regular esses modelos de IA para áreas onde os erros possam ser letais, como o diagnóstico.

Alguns profissionais do setor estão procurando meios intermediários pelos quais alguns de seus atributos possam ser aplicados com segurança em outros tipos de trabalho.

Claire Novorol, fundadora da Ada Health, diz que o ponto forte dos LLMs é sua capacidade de utilizar a fala cotidiana: isso lhes permite obter mais informações dos pacientes do que um questionário comum. Esta é uma das razões pelas quais ela e seus colegas estão tentando ampliar a abordagem probabilística da Ada com um LLM. Quando aplicado no contexto certo, diz ela, suas capacidades possibilitam avaliações melhores, mais amplas e mais granulares dos sintomas e das necessidades de saúde. Uma técnica que eles e outros estão experimentando é a “geração aumentada por recuperação”, que permite aos LLMs extrair respostas de uma fonte verificada de dados externos.

Outra abordagem é utilizar LLMs que recorrem a fontes médicas verificadas como conselheiros para profissionais de saúde, e não para o público em geral.

O Google desenvolveu um LLM que foi aprimorado com dados médicos para fornecer suporte no diagnóstico de casos difíceis. A Hippocratic AI, uma startup do Vale do Silício, se dedica à construção de novos LLMs específicos para a área da saúde. A empresa diz que supera o GPT4 em todos os exames médicos e testes de certificação, e recentemente arrecadou mais 50 milhões de dólares – apesar de destacar em seu website a crença inequívoca de que “hoje os LLMs não são suficientemente seguros para o diagnóstico clínico”.

Os investidores parecem ver seus planos para dar apoio a profissionais e fornecer aconselhamento a pacientes como bastante promissores por si só, ou como um caminho para algo melhor.

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É meio embaraçoso

Existe também um certo otimismo em torno dos relacionamentos que as pessoas criam com os LLMs. Essas conexões podem ser úteis no tratamento de doenças de longa duração ou no apoio psicológico para alguns problemas de saúde mental.

Na Nigéria, a empresa de assistência médica mDoc criou um serviço para celulares alimentado pelo ChatGPT para oferecer aconselhamento em saúde a pessoas que vivem com doenças crônicas, como diabetes ou pressão alta.

Nenhum desses sistemas oferece a empatia de um interlocutor humano. Mas pelo menos um estudo descobriu que pessoas que fizeram perguntas sobre saúde preferiram as respostas do ChatGPT às dos profissionais licenciados, tanto pela qualidade quanto pela empatia.

Relatos sobre as relações que algumas pessoas estabelecem com serviços de IA como o Replika, um chatbot feito pela Luka, de São Francisco, permitem imaginar um futuro em que os bots de amizade vão convergir com os de saúde. Os chatbots originalmente criados para relacionamentos que depois receberam uma capacidade adicional de fornecer conselhos de saúde podem competir com os chatbots criados para a medicina, cujos designers estão melhorando suas habilidades sociais.

Existem também algumas qualidades humanas das quais os sistemas de IA podem se livrar. Uma delas é o julgamento moral. Quando se trata de saúde sexual, as pessoas muitas vezes não procuram ajuda porque preferem evitar a conversa que possibilitaria essa ajuda.

Caroline Govathson, pesquisadora da Universidade Wits, na África do Sul, vem fazendo testes com um chatbot para melhorar a precisão das avaliações de risco de HIV. Ela descobriu que as pessoas parecem achar mais fácil revelar seu histórico sexual a um chatbot do que a um enfermeiro humano.

Alain Labrique, diretor de saúde digital e inovação da OMS, vê nas próximas versões de Florence “a oportunidade de criar uma interface realista, onde você poderia reduzir ainda mais a barreira para as pessoas que procuram informações, sejam adolescentes em busca de orientação sobre sexo seguro e planejamento familiar, ou pessoas querendo saber mais sobre doenças respiratórias”.

Dito isto, o Dr. Labrique e outros estão preocupados com os abusos da tecnologia: a ideia do que uma IA sofisticada poderia fazer para espalhar a desinformação sobre saúde pública, diz ele, não o “deixa dormir à noite”.

Além das preocupações com a qualidade da informação que sai, há também preocupações sobre o que pode acontecer com a informação que entra, tanto em termos de garantir que os dados de treinamento sejam devidamente anonimizados, quanto de assegurar que as conversas com chatbots permaneçam confidenciais. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

https://www.estadao.com.br/saude/o-bot-vai-atender-voce-agora-a-inteligencia-artificial-medica-com-rosto-humano-esta-chegando

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China se torna estaleiro do mundo e se capacita para ampliar poderio militar

Mais da metade da produção comercial da construção naval de todo o mundo veio de docas chinesas em 2023, enquanto estaleiros ocidentais encolheram

Por Niharika Mandhana — Valor/Dow Jones Newswires – 11/03/2024

A China emergiu como uma potência global ao se transformar no chão de fábrica do mundo. Agora, ela está ampliando esse poder, e seu poderio militar, com outro notável feito industrial: está se tornando o estaleiro do mundo.

Mais da metade da produção comercial mundial da construção naval veio da China no ano passado – fazendo dela a maior fabricante de navios por uma ampla margem. Os outrora prolíficos estaleiros do Ocidente, que ajudaram a forjar impérios, ampliar o comércio e vencer guerras, encolheram. A Europa responde por apenas 5% da produção mundial, enquanto os EUA hoje contribuem com quase nada. A maior parte do que a China não fabrica vem da Coreia do Sul e do Japão.

“A escala [da construção naval chinesa] é difícil de compreender”, diz Thomas Shugart, pesquisador sênior adjunto do Center for a New American Security cujos estudos se concentram na competição marítima. “O grau com que ela supera a construção naval americana é simplesmente inacreditável.”

Esse império da construção naval é um símbolo da transformação histórica da China, de uma nação continental voltada para dentro, em potência marítima. Mas é mais do que isso. É um trunfo estratégico fundamental para Pequim, enquanto o líder chinês Xi Jinping tenta reformular a ordem mundial em tempos de paz e se preparar para prevalecer sobre nações rivais em tempos de guerra.

As gigantescas empresas chinesas de construção naval que fabricam navios para o mundo são muitas vezes as mesmas que fabricam navios de guerra para a Marinha da China. Seus estaleiros estão prosperando, com contratos de muitos bilhões de dólares sendo firmados não só para navios de guerra, mas também para navios de transporte de contêineres, navios petroleiros e graneleiros para companhias marítimas da China, do Ocidente e até de Taiwan.

Com suas carteiras de pedidos cheias pelos próximos anos, os estaleiros cresceram, formaram grupos enormes de trabalhadores e construíram grandes cadeias de fornecimento.

Os planejadores militares da China aproveitaram tudo isso para criar a maior Marinha do mundo em número de cascos – uma força central nas maiores ambições de Xi de projetar poder internacionalmente, protegendo as rotas marítimas que ligam a China ao mundo e absorvendo Taiwan.

A outrora vigorosa indústria da construção naval dos EUA encolheu. Ela não produz mais um número significativo de navios comerciais oceânicos. Vários estaleiros têm apenas um grande cliente, a Marinha americana, e esses estaleiros frequentemente enfrentam acúmulos de pedidos, escassez de funcionários e fornecedores, e custos excessivos.

A maior diferença entre as bases industriais de construção naval chinesa e americana é que “a China se beneficia de uma carga de trabalho enorme na construção naval”, disse o almirante Thomas Anderson a uma subcomissão do Congresso em maio, quando era o oficial executivo do programa para navios da Marinha dos EUA. Enquanto isso, disse ele, os EUA em grande medida agem sozinho, arcando com todos os custos dos navios e da infraestrutura associada.

“É evidente que a indústria da construção naval comercial da China proporciona a eles uma vantagem enorme quando se trata da capacidade de construção naval”, afirmou ele.

Em um conflito prolongado, os estaleiros da China dariam à sua Marinha uma vantagem significativa. Dimensionados para produzir em ritmo de guerra, eles conseguiriam acelerar rapidamente a produção, substituir navios perdidos e reparar os danificados. Essa é uma capacidade que os estaleiros americanos levaram para a luta durante a 2ª Guerra, construindo embarcações para os aliados mais rapidamente do que os submarinos alemães conseguiam afundá-las.

Hoje, os estaleiros dos EUA estão lutando para dar conta da demanda em tempos de paz. Submarinos estão parados por atrasos na manutenção e a fabricação de novos está com a agenda atrasada. A Marinha, por exemplo, espera dois novos submarinos da classe Virgínia por ano, mas está recebendo as embarcações a uma taxa de 1,4, segundo uma autoridade do Departamento de Defesa afirmou no ano passado.

Não há mão de obra qualificada suficiente, as docas secas são escassas e no caso de alguns componentes críticos, apenas um punhado de vendedores ainda está de pé.

Segundo estrategistas americanos, isso é particularmente problemático diante do que o conflito na Ucrânia vem mostrando: as guerras podem durar muito tempo e para lutá-las é preciso ter uma indústria. As fábricas de armamentos dos EUA vêm lutando para acompanhar os campos de batalha na Ucrânia. Seus fabricantes de munições – e estaleiros – não estão prontos para uma guerra com a China.

Se os EUA interviessem em um conflito envolvendo Taiwan, as forças americanas teriam de impedir que os navios chineses chegassem à ilha e descarregassem equipamentos e milhares de soldados. Cada lado tentaria tirar do tabuleiro o maior número possível de embarcações para evitar que esses navios disparassem seus mísseis.

Em tal cenário, os dois lados teriam de colocar rapidamente seus navios danificados de volta ao jogo – reparados, prontos para entrar novamente em combate e capazes de usar seu poder de fogo. Os EUA teriam problemas para ampliar a construção naval e reparar instalações no meio de uma guerra, principalmente porque os trabalhadores dos estaleiros navais modernos precisam ser treinados.

A China não teria esses problemas. Sua vantagem é visível em uma ilha perto de Xangai, na foz do Rio Amarelo. Dois estaleiros imensos estão agora localizados na ilha, conhecida como Changxing, concentrando um grande poder de construção de navios em um lugar só.

A ilha de Changxing está sendo transformada em uma colossal “base de construção naval”, escreveu o Center for Strategic and International Studies (CSIS) em um relatório divulgado em maio. A construção começou com a realocação do estaleiro de Jiangnan, que ficava na região central de Xangai, para a ilha entre 2005 e 2008. A isso seguiu-se a transferência de um segundo estaleiro, o de Hudong Zhonghua, que ainda está em curso.

Os estaleiros pertencem a subsidiárias da China State Shipbuilding Corporation, uma gigante estatal cujos clientes vão da Marinha chinesa a companhias marítimas estrangeiras. A gigante marítima francesa CMA CGM assinou no ano passado um contrato de US$ 3 bilhões com ela para 16 navios de transporte de contêineres, após encomendar 22 navios dois anos antes. A companhia de navegação taiwanesa Evergreen Marine também tem grandes contratos com ela.

Imagens de satélite de maio obtidas junto à Maxar Technologies mostram as enormes instalações de Jiangnan. Cerca de duas dúzias de navios podem ser vistos em seu movimentado pátio. Alguns são novos; outros parecem estar sendo modernizados ou em reparos. Há o que parecem ser navios de transporte de contêineres, destroyers e o terceiro navio porta-aviões da China, conhecido como Type 003.

Docas secas e galpões que recebem investimentos são as docas secas e galpões usados para fazer navios militares”

— Matthew Funaiole

“Onde costumávamos ver uma certa divisão entre o lado comercial das coisas e o militar, essas linhas parecem cada vez mais misturadas”, diz Matthew Funaiole, um pesquisador sênior do China Power Project do CSIS, que segue de perto os desenvolvimentos na construção naval chinesa.

As imagens de satélite de Jiangnan analisadas pelo CSIS nos últimos anos capturaram um navio da Evergreen atracado ao lado de três navios de guerra chineses e, em outro caso, o verde identificável de um casco Evergreen próximo do porta-aviões chinês. Uma doca seca usada pelo porta-aviões foi anteriormente ocupada por um navio de transporte de contêineres que está sendo construído para a CMA CGM, segundo mostra a análise do CSIS, sugerindo que recursos estão sendo compartilhados entre o lado comercial e o militar das operações.

Quando companhias estrangeiras dão dinheiro para o estaleiro chinês, uma parte desses recursos muito provavelmente é reinvestida no estaleiro, afirma Funaiole. “Se os embarcadouros e as docas secas e galpões de montagem que recebem investimentos são também os embarcadouros, docas secas e galpões de montagem que são usados para produzir embarcações militares, como você escreve isso?”

Para Shugart, do Center for a New American Security, o resultado é o seguinte: “Todos esses países que estão comprando navios da China estão pagando a eles para a construção dos estaleiros de que eles precisam para reparar sua frota em uma guerra”, disse ele, acrescentando que “é difícil assistir a isso”.

A SMA CGM não respondeu a um pedido para comentários. A Evergreen disse que suas embarcações estão sendo construídas pelo departamento comercial da China State Shipbuilding Corporation, que segundo ela é separado do departamento militar da companhia. Os contratos de construção naval da Evergreen são de natureza puramente comercial e civil, disse a empresa.

A força de batalha da Marinha da China possui 370 navios, mais do que a Marinha dos EUA. Esse número deverá aumentar para 435 até 2030. Seus estaleiros estão construindndo navios de guerra cada vez mais sofisticados, como o grande e bem-equipado combatente de superfície da classe Renhai. Eles também construíram a maior guarda costeira e frota pesqueira do mundo, além de uma ampla marinha mercante – aumentando o poder marítimo da China.

Enquanto isso, a expectativa é de que a Marinha dos EUA permanecerá do mesm tamanho ou encolherá nos próximos anos, em relação aos atuais 292 cascos, aposentando mais navios do que colocando em operação, antes de ela voltar a crescer novamente. A frota de apoio logístico e de transporte marítimo que ajuda os militares está envelhecendo.

A Marinha dos EUA possui plataformas superiores às da China, como um grande número de porta-aviões. Mas estrategistas navais afirmam cada vez mais que o tamanho da frota também é importante – quanto maior, melhor.

Carlos Del Toro, o secretário da Marinha dos EUA, diz que está se empenhando na construção naval. Ele comandou uma revisão das causas dos problemas da construção naval nos EUA e está buscando recomendações para uma base industrial de construção naval que “forneça as capacidades de combate de que os nossos combatentes precisam, em um cronograma que seja relevante”, segundo a Marinha.

Em outubro, ele visitou um estaleiro particular não muito distante de San Francisco. A área abrigou um dos mais movimentados estaleiros durante a Segunda Guerra Mundial – um símbolo dos dias de glória da construção naval americana, assim como a ilha de Changxing representa o poderia da China na construção naval hoje. O Mare Island Naval Shipyard construiu 17 submarinos nucleares nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra, antes de ser fechado na metade dos anos 90.

“A história demonstra um padrão claro: nenhuma grande potência naval existiu sem ser também uma potência marítima comercial dominante, englobando tanto a construção naval como o transporte marítimo global”, disse Del Toro no fim do ano passado. (Tradução de Mario Zamarian)

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2024/03/11/china-se-torna-estaleiro-do-mundo-e-se-capacita-para-ampliar-poderio-militar.ghtml

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“Vontade diabólica”. Musk e os loucos que quebram tudo para mudar o mundo 

Guilherme Pacheco – Brazil Journal – 14 de abril de 2024

Três anos atrás, Elon Musk foi ao Saturday Night Live e fez a seguinte piada, “Eu reinventei os carros elétricos e estou enviando pessoas para Marte num foguete espaçonave. Você achava que eu também seria um cara tranquilo e normal?” 

Na excepcional biografia de Musk, escrita por Walter Isaacson – o biógrafo de Steve Jobs, Benjamin Franklin e Leonardo da Vinci – vêm à mente as figuras de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Apesar de não haver esta referência em suas 656 páginas, o autor não resiste à (óbvia) comparação em entrevistas logo após a publicação do livro. 

Musk nunca foi um típico CEO, um cargo que exerce apenas por considerar o único caminho para forjar uma cultura que questiona cada detalhe, controla com mão de ferro o design e a engenharia dos produtos e imprime um ritmo alucinante de trabalho. 

Musk já fumou maconha na frente das câmeras, desafiou Mark Zuckerberg para uma luta num ringue e está frequentemente em disputa com governos dado o seu desprezo por regulações e uma defesa da liberdade de expressão (quase) absoluta. A atual disputa com Alexandre de Moraes é apenas mais um capítulo de um histórico de polêmicas que o projeta sob os holofotes, onde gosta de estar. 

O respeitável Dr. Jekyll é o Musk empreendedor genial, de energia inesgotável, com conhecimento profundo dos menores detalhes de cada negócio e capaz de realizar feitos incríveis como criar duas companhias que mudaram o mundo. Por outro lado, Musk também é impulsivo — por vezes temerário – atormentado, cruel, de personalidade oscilante e também capaz fazer coisas imorais e brutais, como o Mr. Hyde. 

Quando um usuário do X perguntou se Elon era bipolar, ele respondeu que sim. Isaacson relata que “Musk passou por períodos em que oscilava entre depressão, estupor, vertigem e energia maníaca. Ele ficava num péssimo humor, que o levava a transes catatônicos e a uma paralisia depressiva. Então, como se um interruptor tivesse sido ligado, ele ficava tonto e repetia esquetes antigos de Monty Python que incluíam jeitos esquisitos de andar e debates malucos, e aí explodia numa risada vacilante.” 

Todos lutamos contra os nossos monstros internos, mas os de Elon frequentemente ganham as batalhas. Como ensinou Freud: a loucura é, sobretudo, uma questão de grau. 

Isaacson teve um raro privilégio para um biógrafo: acompanhou o biografado por três anos em viagens e reuniões, com acesso irrestrito a pessoas e espaços, e sem que Elon tivesse acesso ao produto final antes de sua publicação. O resultado é um ângulo singular para uma biografia brutalmente sincera. 

Nascido em Pretória, na África do Sul, Elon teve uma estrutura familiar precária, um pai abusivo e uma adolescência sofrida. Possivelmente como fuga de uma dura realidade, mergulhou fundo na leitura, especialmente de ficção científica. Foi marcado profundamente por ​​O Mochileiro das Galáxias e aprendeu a programar sozinho, encontrando refúgio num mundo binário. 

Emigrou para o Canadá com sua mãe trabalhando em subempregos e a família toda dividindo um apartamento (alugado) de um quarto. Nesta época, trabalhou numa serralheria e numa fazenda. Mais tarde entrou na faculdade e conseguiu uma transferência para estudar na Universidade da Pensilvânia, onde se graduou em economia e física em 1997. Foi aceito para um PhD em Stanford, mas declinou dois dias depois para empreender no Silicon Valley. 

Aos 31 anos Elon já havia vendido uma startup, a Zip2 e fundido outra – a X.com – com um concorrente, dando origem ao Paypal. Com mais de US$ 100 milhões no bolso, apostou tudo para fundar a SpaceX naquele mesmo ano. Dois anos depois, comprou uma participação majoritária na Tesla, uma startup cujo carro elétrico estava só na prancheta. 

Stefan Zweig disse que alguns empreendedores têm uma “vontade diabólica” de realizar, como Cyrus Field, que lançou o primeiro cabo de telégrafo transoceânico, uma epopéia que começou em 1857 e foi acompanhada de perto por todo o mundo em três tentativas épicas ao longo de uma década. 

Field se lançou neste desafio sem ter qualquer expertise no segmento, sem tecnologia disponível para tal fim e contra as previsões de todos os grandes físicos da época. A distância a ser coberta era 100 vezes maior que a do maior cabo da época, que conectava a Europa continental ao Reino Unido. 

Em sua primeira tentativa, a Atlantic Telegraph Company, fundada por Field, usou todo o estoque de cobre da Inglaterra, levou um ano apenas para enrolar os cabos na polia do HMS Agamemnon, um dos maiores navios da época, cedido pelo governo britânico. 

Na sua partida, a expedição contou com a presença de 10.000 populares em terra e uma procissão festiva de 1.800 embarcações no mar. Ao narrar brilhantemente essa história no livro Momentos decisivos da humanidade, Zweig diz que apenas uma vontade diabólica permite a alguém perseguir desafios tão grandes e com tamanha persistência, mesmo diante de dificuldades aparentemente intransponíveis. 

Considerado um empreendedor-herói nos dois lados do Atlântico, Field enriqueceu com a operação do cabo transoceânico. Mas seu posterior envolvimento em investimentos controversos e um estilo de vida extravagante o levaram a perder tudo e viver seus últimos anos recluso em sua pequena cidade natal, possivelmente engolido por seus monstros. 

Nos jornais de Nova York circulavam rumores de que estaria insano, o que seus familiares negaram. 

Musk tem a vontade diabólica dos grandes realizadores que movem o mundo. A partir de uma startup conseguiu emplacar o carro elétrico em escala industrial, iniciativa então recém-abandonada pela Ford. O resto é história. 

Lançou foguetes, questionando toda a indústria aeroespacial e desafiando os protocolos de uma maneira que beirava a irresponsabilidade. O objetivo era aprender rápido com as explosões esperadas, corrigir e lançar novas versões dos foguetes até acertar. 

Acertou. Hoje é o maior transportador de carga para o espaço – a uma fração do custo da era do ônibus espacial da NASA – e o maior lançador de satélites do planeta, sem falar que a ISS (a estação espacial internacional) depende dele para levar e trazer astronautas e suprimentos. 

Mas Elon também é frágil como o menino que viveu em Pretória. 

Às vésperas do lançamento do terceiro foguete da SpaceX, que havia consumido todo o caixa da empresa, o fundador estava tendo mais uma de suas recorrentes crises de estômago, a ponto de quase vomitar enquanto todos faziam a contagem regressiva. (Ninguém sabe o que verdadeiramente se passa por trás dos grandes feitos e o preço emocional que se paga por eles.) 

Num de seus momentos mais difíceis, Elon viu a Tesla e a SpaceX na iminência de quebrar e implorou por dinheiro aos amigos para pagar a folha da Tesla. A família da noiva, sem grandes posses, ofereceu a hipoteca de sua própria casa para ajudar. Ainda estava recém divorciado, com cinco filhos (hoje são onze) e sem residência fixa, um problema recorrente na sua vida. 

A tensão o fazia ter terror noturno: acordava e passava madrugadas no banheiro, gritando e vomitando. 

Elon parece estar sempre em busca do reconhecimento que não teve do pai, e pauta sua vida por isso. Tem uma necessidade permanente de provar seu valor e de estar sob os holofotes, e para isso toma riscos desmedidos e se envolve permanentemente em polêmicas e dramas. 

O tema de seu aniversário de 42 anos foi steampunk japonês, um subgênero da ficção científica. Elon estava vestido de guerreiro Samurai e, depois de aceitar que um atirador de facas vendado acertasse um balão de festa em sua virilha, o clímax foi uma demonstração de sumô onde um campeão de 160 quilos convidou Elon para “lutar.” 

Ao perceber que o lutador estava apenas brincando com ele, como esperado, Elon decide surpreendê-lo e (deslealmente) derrubá-lo, aplicando um golpe de judô com toda sua força apenas para se mostrar aos amigos. 

O resultado para Musk foi o comprometimento permanente de dois discos intervertebrais na base do pescoço. Desde então, já fez três cirurgias sem sucesso e convive com fortes dores a ponto de realizar reuniões deitado no chão com gelo na base do pescoço. 

Musk tem de forma exacerbada e (quase) doentia características comuns a muitos empreendedores de sucesso: o poder de articular uma visão e atrair pessoas talentosas para segui-la de forma quase messiânica, um inconformismo manifestado pela rejeição das “coisas como elas são,” um foco obsessivo na resolução dos problemas e uma intensidade de trabalho alucinante. 

Quem empreende sabe que a liderança precisa ser exercida em todos os níveis, a batalha se vence nos detalhes (você não conhece nada de sua empresa se não a conhece profundamente) e na intensidade do trabalho. Musk leva isso com maestria e chama a si mesmo de “nano manager” por se envolver nos mínimos detalhes. Pergunte a ele sobre um detalhe de engenharia de um motor da Tesla ou de um foguete da SpaceX e você receberá um minucioso tutorial, transmitindo a segurança de um líder visionário que sabe exatamente o que está fazendo. 

Elon se move por grandes missões e não faz plano de negócios, inicia o negócio e depois busca um caminho de viabilizá-lo financeiramente. Na SpaceX, trata-se de permitir que os humanos vivam em outros planetas. Tudo o que realiza antes (como lançar uma rede de mais de 5 mil satélites oferecendo internet em qualquer canto do planeta, a Starlink) é um mero objetivo intermediário para viabilizar sua visão. Embarcou no Twitter acreditando estar lutando pela liberdade de expressão, algo que se mostrou bem mais complexo que seu habitat natural de zeros e uns. 

Uma outra característica é estabelecer prazos irreais – sem combinar com ninguém — como forma de pressionar e motivar o time a alcançar sua visão. O carro completamente autônomo da Tesla foi prometido para até 2017 mas não está funcional até hoje, apesar dos notáveis avanços especialmente nos últimos anos quando mudou a abordagem para o uso intensivo de inteligência artificial. 

Por outro lado, existe o Elon Musk que demite de forma cruel um jovem engenheiro, que era seu grande fã, em uma de suas vistorias na linha de produção da Tesla, pelo simples fato de não conseguir responder a perguntas técnicas, talvez pelo nervosismo que ele mesmo gera em seus interlocutores. A grande maioria dos funcionários evita o contato visual para escapar da sua fúria e crueldade. 

Musk também tem o péssimo hábito de apontar culpados publicamente (e, muitas vezes, equivocadamente), humilhando seus funcionários. Musk diz ter síndrome de Asperger, o que o impediria de ter empatia, mas entende isso como uma vantagem no mundo dos negócios, pois acredita que qualquer afetividade na relação profissional impede que se obtenha o máximo dela. Em suas palavras: “querer ser amigo de todo mundo faz com que você se importe mais com as emoções das pessoas na sua frente do que com o sucesso do empreendimento como um todo.” 

Elon desafia a todos, faz tudo a sua maneira e está sempre disposto a ir às últimas consequências para provar seu ponto. Logo após a aquisição do Twitter, hoje o X, ele promoveu a demissão de 75% do pessoal – sem prejudicar a continuidade nem disponibilidade do serviço – e revirou todas as pedras. Em uma reunião, em um 22 de dezembro, decidiu mover 5.200 racks de servidores de um datacenter baseado em Sacramento, Califórnia, para o de Portland para economizar 100 milhões de dólares por ano. 

O time estimou que o projeto levaria de 6 a 9 meses. Elon, indignado, deu duas semanas para executarem, caso contrário todos seriam demitidos, ameaça que faz usualmente. No dia seguinte, Elon decolou seu avião rumo a Austin para passar o Natal com a família. No meio do voo, atormentado, Elon pede a seu piloto que mude a rota para Sacramento. 

Ao chegar no aeroporto da cidade, coloca seu segurança na direção, sua esposa no seu colo e aperta o resto do time no banco de trás de um Corolla alugado rumo ao datacenter. Depois de uma luta para obterem acesso numa visita inesperada e inusitada, Elon chega até as máquinas do “X” e decide começar a mudança imediatamente, cortando os fios com um canivete do primeiro dos 5200 racks de 1 tonelada e empurrando pelos corredores. Assim é Elon Musk. 

Michael Marks era um experiente e bem sucedido investidor da Tesla que Musk convidou para ser o seu CEO, o que não funcionou por muito tempo. Marks foi perguntado por Isaacson sobre a relação entre o comportamento de Musk e seu sucesso como empreendedor: “Se o preço que o mundo paga por esse tipo de realização é ter um imbecil completo por trás disso, bem, provavelmente é um preço que vale a pena pagar,” disse ele. 

Elon tem a força para mover o mundo adiante, mas está permanentemente lutando contra seu monstro interno que teima em vir à tona e o faz reproduzir a crueldade do seu pai que tanto repugna e chora ao lembrar. As consequências são nefastas para si mesmo e para aqueles que estão ao seu redor. 

O sucesso e a glória podem ofuscar essa montanha de sofrimento, mas ela é tão real quanto os méritos do empreendedor. Sua loucura é indissociável de sua genialidade e é o preço que todos pagamos, alguns mais outros menos, pelos avanços que ele traz ao mundo. Quantos outros gênios já não brindaram o mundo com a sua obra e nos espantaram com a sua loucura? Elon Musk é mais um desses. 

Guilherme Pacheco é empreendedor e investidor em tecnologia, foi co-fundador do Bondfaro, da Mosaico e da Tessera Ventures.

Leia mais em https://braziljournal.com/vontade-diabolica-musk-e-os-loucos-que-quebram-tudo-para-mudar-o-mundo/?utm_source=Brazil+Journal&utm_campaign=0330d3b61b-ladobepisodio1-temp2-14042024-1-_COPY_02&utm_medium=email&utm_term=0_850f0f7afd-0330d3b61b-427667149 .

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Microsoft e OpenAI estão desenvolvendo supercomputador de meio trilhão de reais

Stargate, computador baseado em fusão nuclear, seria usado para alimentar inteligência artificial da OpenAI

Por Henrique Sampaio – Estadão – 01/04/2024 

A Microsoft e a startup OpenAI, fabricante do chatGPT, estão planejando construir um supercomputador de inteligência artificial chamado Stargate em conjunto com um data center, no valor de US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 505 bilhões), segundo o site The Information. Com lançamento previsto para 2028, o projeto serviria para alimentar a inteligência artificial da OpenAI e suprir sua demanda crescente de processamento.

O empreendimento, que, segundo o site, seria financiado pela Microsoft, custaria 100 vezes mais que alguns dos maiores centros de dados existentes no mundo.

As fontes do The Information, que dizem ter conversado com Sam Altman, CEO da OpenIA, e visto estimativas de custos da Microsoft, afirmam que o Stargate seria a etapa final das cinco fases previstas para o projeto. No momento, as empresas estariam na metade da terceira fase.

Embora o computador tenha potencial para ultrapassar muitas vezes o poder de computação atual fornecido pela Microsoft à OpenAI, seu gasto energético também seria maior, exigindo vários gigawatts. Cada 1 GW é equivalente ao consumo de energia de aproximadamente 500 mil residências.

Leia também

Em maio de 2023, após investir cerca de US$ 13 bilhões na OpenAI, a Microsoft fechou um acordo com a Helion Energy, empresa de fusão nuclear. As companhias vêm estudando o uso da energia nuclear para alimentar seus data centers desde o ano passado.

O valor exorbitante do projeto seria justificado não apenas pelos investimentos em energia de fusão nuclear mas também na obtenção dos chips dos servidores. Altman já afirmou em janeiro seu interesse em desenvolver uma linha proprietária de chips de para contornar o atual domínio da Nvidia no mercado de GPUs voltadas à IA.

A Microsoft e a OpenAI não comentaram. Contudo, a companhia conhecida pelo Windows afirmou ao Business Insider que está “sempre planejando as próximas inovações de infraestrutura necessárias para continuar levando adiante a capacidade de IA”.

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CNPq diz que governo pretende investir R$ 1 bilhão para repatriar mil cientistas

Ao todo, estima-se que 35 mil pesquisadores brasileiros estejam no exterior; programa terá duração de três anos

Ana Bottallo – Folha – 12.abr.2024 

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende investir R$ 1 bilhão para repatriar cerca de mil cientistas brasileiros residentes no exterior, afirmou à Folha o presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Ricardo Galvão.

Conforme estimativa preliminar do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), ao qual o órgão é vinculado, há hoje 35 mil pesquisadores brasileiros com mestrado e doutorado vivendo fora do país.

A ideia é fazer com que esses pesquisadores tenham incentivos financeiros para retornar e se fixar no Brasil, reduzindo a “fuga de cérebros” —quando cientistas que fazem sua formação acadêmica no país, parcial ou integralmente, se estabelecem em outras nações e, com isso, o conhecimento não é revertido em avanço científico e tecnológico para o país de origem.

“Em relação à diáspora, eu não gosto de chamar de ‘fuga de cérebros’ porque o cérebro está na cabeça da pessoa, mas nós fizemos um levantamento muito preliminar e chegamos na ordem de 35 mil brasileiros [fazendo pesquisa fora]”, disse Galvão. “Nós lançamos uma proposta ao FNDCT e gostaríamos de atraí-los de volta ou, aqueles que não vierem, que tenham um canal de colaboração com o Brasil.”

O FNDCT (Fundo Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico) é responsável por estabelecer os fundos setoriais do Orçamento federal. A expectativa é que R$ 400 milhões sejam liberados neste ano e o restante, até 2026.

O dinheiro, de acordo com o CNPq, será investido ao longo de três anos pelo conselho e pela agência Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) em duas chamadas lançadas simultaneamente. Por enquanto não há, porém, data para o lançamento dessas chamadas, afirmou o CNPq.

O projeto, batizado de Programa Conhecimento Brasil, prevê que os pesquisadores recebam bolsas especiais para se fixar em universidades e institutos no país –em um valor de R$ 13 mil mensais, equivalente ao salário de um professor-adjunto em universidades federais– e verba de até R$ 400 mil para criação de laboratórios.

Também há a intenção de que os pesquisadores repatriados atuem em empresas. “Não adianta ter ciência sendo feita só em instituições de pesquisa, pois assim o país não avança. Precisamos de doutores em empresas que promovam a inovação e o desenvolvimento tecnológico com base no conhecimento científico moderno”, disse Galvão.

OUTROS PROGRAMAS

Além da repatriação de cientistas, o CNPq diz que busca promover a inserção de meninas e mulheres na ciência, em especial nas áreas conhecidas como STEM —sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

No início do ano, o conselho lançou um edital para bolsas de doutorado sanduíche no exterior e pós-doutorado no valor de R$ 6 milhões para pesquisadoras negras, indígenas, quilombolas e ciganas, regularmente matriculadas em cursos de doutorado reconhecidos pela Capes ou que tenham concluído programas de pós-graduação reconhecidos pela Capes em qualquer área de conhecimento.

Segundo o CNPq, foram recebidas 537 inscrições no edital. O resultado preliminar será divulgado no dia 30 deste mês. O intercâmbio terá início no segundo semestre deste ano.

Outra iniciativa, lançada em março, foi o programa Mulheres na Ciência, em parceria com o MCTI e o Ministério da Mulher.

Com recursos na casa de R$ 100 milhões, o edital tem como público-alvo meninas matriculadas no 8º e 9º ano do ensino básico em escolas públicas e em cursos de graduação nas áreas de ciências exatas, engenharias e computação. As propostas poderão ser apresentadas até o dia 29 deste mês. A expectativa é aplicar R$ 20 milhões já em 2024.

O incentivo vem de um reconhecimento de disparidade entre homens e mulheres bolsistas do órgão. Segundo levantamento, as mulheres bolsistas PQ, como são chamadas as bolsas de produtividade e pesquisa, estão estagnadas em 36% há 20 anos.

“Queremos começar na base, com bolsas de iniciação científica, porque não adianta aumentar o número de bolsas no final da carreira [para professoras], se não há demanda. Queremos estimular as mulheres a entrarem no campo das ciências exatas, engenharia e computação. Isso não é só uma questão de justiça social, mas porque a sociedade como um todo perde muito [sem mais mulheres e meninas na ciência]”, afirmou Galvão.

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2024/04/cnpq-diz-que-governo-tentara-repatriar-mil-cientistas-por-meio-de-programa.shtml

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Vixtra: Brasil lidera em produção de café, mas paga até 8 vezes mais na importação

Vixtra: Brasil lidera em produção de café, mas paga até 8x mais na importação

Quando se observa o valor do quilograma de café exportado e o do importado, a diferença chama a atenção: o produto importado apresenta um custo superior, refletindo um maior valor agregado (Crédito: Freepik)

Da redação – Isto é dinheiro – 01/09/2023

Um estudo realizado pela Vixtra, fintech de comércio exterior, com base em dados do Ministério da Economia, indica que o café, produto mais exportado pelo Brasil, é comprado por um valor até 8 vezes mais caro. Em 2022, por exemplo, o valor do quilograma exportado alcançou US$ 4,1, enquanto o do importado chegou a US$ 11,9, uma relação três vezes maior; em 2021, o Brasil exportou a US$ 2,67 e importou a US$ 11,49.

Somente no ano passado, o Brasil exportou US$ 9,2 bilhões em café, o que representa cerca de 3% do total das exportações nacionais. No que tange às importações, esse valor foi consideravelmente menor, totalizando US$ 120 milhões no decorrer do ano. Contudo, quando se observa o valor do quilograma de café exportado e o do importado, a diferença entre os valores chama a atenção: o produto importado apresenta um custo superior, refletindo um maior valor agregado.

Um dos casos mais discrepantes no período recente analisado aconteceu em 2019, quando o quilograma do café registrou o menor valor, de US$ 2,22 e a importação o maior valor, de US$ 18,41.

Para Leonardo Baltieri, co-CEO da Vixtra, o Brasil precisa investir fortemente nas empresas nacionais para promover a industrialização de sua cadeia produtiva visando maximizar resultados em seu comércio exterior. “Temos plenas condições de fortalecer ainda mais nosso comércio com a produção de bens de alto valor agregado. Mas para isso, é indispensável investimentos em pesquisa, em parceria com o setor privado e estímulo ao desenvolvimento tecnológico e industrial”, afirma.

Ainda de acordo com o levantamento, na relação comercial com outros países, com a Suíça, por exemplo, as exportações brasileiras de café em 2022 somaram US$ 10 milhões, enquanto as importações totalizaram US$ 74 milhões. Este quadro resultou em um déficit comercial com a Suíça de US$ 64 milhões. Em termos de peso, o Brasil exportou 2.500 toneladas e importou 2.400 toneladas.


https://istoedinheiro.com.br/vixtra-brasil-lidera-em-producao-de-cafe-mas-paga-ate-8-vezes-mais-na-importacao

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Como a Tesla, de Elon Musk, plantou na China as sementes de sua própria queda

Instalação de fábrica em Xangai foi fundamental para salvar montadora americana de crise, mas também ajudou a impulsionar a indústria chinesa de carros elétricos

Por O Globo/The New York Times – 10/04/2024 

Quando o bilionário americano Elon Musk instalou na China uma fábrica da Tesla, a fabricante de carros elétricos controlada por ele, fez uma aposta que garantiu à empresa peças e componentes mais baratos e operários qualificados, mas, ao mesmo tempo, pode ter criado a maior ameaça ao futuro de seus negócios, ou seja, a indústria chinesa de veículos elétricos.

A aposta salvou a Tesla. Da crise que vivia em meados dos anos 2010, a companhia se tornou a montadora mais valiosa do mundo após as cotações de suas ações dispararem, fazendo de Musk um dos homens mais ricos do planeta, conta a edição desta terça-feira, dia 9, do podcast The Daily, do jornal The New York Times.

Alguns anos antes de apresentar os primeiros carros produzidos na fábrica da China, com a Tesla à beira do fracasso, Musk havia apostado no gigante asiático em busca de peças baratas e trabalhadores capazes. Nos primeiros anos de atividade, a montadora americana enfrentava atrasos no desenvolvimento dos carros e desconfiança de investidores.

A China, por sua vez, precisava da Tesla como uma âncora para impulsionar sua incipiente indústria de veículos elétricos. Para os líderes chineses, uma fábrica da Tesla em solo doméstico era um prêmio.

Inicialmente, Musk parecia ter a vantagem na relação, garantindo concessões da China que raramente eram oferecidas a empresários estrangeiros, mas a Tesla agora está cada vez mais em apuros, perdendo sua vantagem sobre os concorrentes chineses no próprio mercado que ajudou a criar.

A mudança de direção da Tesla na China também amarrou Musk a Pequim de uma maneira que está sendo examinada pelas autoridades dos EUA.

Entrevistas com ex-funcionários da Tesla, diplomatas e técnicos de governo feitas pelo The New York Times revelam como Musk construiu uma relação simbiótica incomum com Pequim, lucrando com a generosidade do governo chinês enquanto recebia subsídios nos EUA.

Enquanto Musk explorava a construção da fábrica em Xangai, os líderes chineses concordaram com uma mudança crucial na política de regulamentações nacionais de emissões de gases do efeito estufa (GEE), após uma pressão política da Tesla que não foi relatada anteriormente.

Essa mudança beneficiou diretamente a montadora americana, trazendo centenas de milhões de dólares em lucros estimados à medida que a produção na China decolava, descobriu o The New York Times.

Musk também obteve acesso incomum a líderes de alto escalão do governo chinês. Ele trabalhou em estreita colaboração com o primeiro-ministro Li Qiang, quando ele era um importante oficial de Xangai. A fábrica chinesa da Tesla foi construída em velocidade recorde e sem um parceiro local, um feito inédito para uma empresa automobilística estrangeira na China.

O bilionário, que já insinuou que os trabalhadores americanos são preguiçosos, aproveitou a unidade chinesa para fugir de problemas com legislações trabalhistas.

Em Fremont, na Califórnia, a primeira fábrica da Tesla enfrentou problemas com autoridades e sindicatos por causa de questões trabalhistas. Na China, após a morte de um trabalhador da Tesla em Xangai no ano passado, um relatório citando lacunas de segurança foi retirado do ar.

Além disso, Musk obteve a política de emissões de GEEs. Modelada a partir de um programa da Califórnia que tem sido um benefício para a Tesla, a política concede créditos aos fabricantes de automóveis por produzir carros limpos – o Sistema de Negociação de Emissões (ETS, na sigla em inglês) da Califórnia, um dos maiores do mundo, rendeu à Tesla, de 2008 a 2023, US$ 3,7 bilhões, segundo o gabinete do governador local.

Para pressionar pela mudança regulatória, a Tesla se aliou a ambientalistas da Califórnia, que estavam tentando limpar os céus poluídos da China e viam na exportação do modelo de ETS a confirmação de seu sucesso. A China introduziu o seu ETS em 2017.

Todo esse movimento ajudou a tornar a Tesla a empresa de automóveis mais valiosa do mundo, mas o sucesso da montadora americana por lá também forçou as marcas locais a inovar.

A China está agora produzindo carros elétricos baratos, mas bem feitos, enquanto o líder chinês Xi Jinping visa transformar o país em uma “potência automobilística”.

Fabricantes de automóveis chineses como BYD e SAIC estão avançando na Europa, ameaçando fabricantes estabelecidos como Volkswagen, Renault e Stellantis – dona das marcas Fiat, Peugeot, Citröen e Jeep. As montadoras americanas, como Ford e General Motors (GM), também estão correndo para acompanhar o ritmo.

— Há “antes da Tesla e depois da Tesla” — disse Michael Dunne, consultor automotivo e ex-executivo da General Motors na Ásia, sobre o efeito da empresa na indústria chinesa. — A Tesla foi a faz-tudo.

Musk agora está andando na corda bamba. Ele soou o alarme sobre os rivais da China, mesmo permanecendo dependente do mercado e da cadeia de suprimentos chineses e repetindo os pontos de vista geopolíticos de Pequim.

O bilionário alertou em janeiro que, a menos que as marcas automobilísticas chinesas fossem bloqueadas por barreiras comerciais, elas “praticamente demoliriam a maioria das outras empresas automobilísticas do mundo”. O preço das ações da Tesla despencou após vendas lentas na China, fazendo Musk perder o título de homem mais rico do mundo.

A montadora americana está tão enraizada na China que Musk não pode se desvincular facilmente, caso queira. Os carros da Tesla custam significativamente menos para serem fabricados em Xangai do que em outros lugares, uma economia-chave quando a empresa está em uma guerra de preços com seus concorrentes.

No Congresso americano, os legisladores estão estudando seus laços com a China e como ele equilibra a Tesla com seus outros empreendimentos. A SpaceX, outra empresa que ele possui, tem contratos lucrativos com as forças armadas dos EUA e detém quase total controle da internet via satélite do mundo através de sua rede Starlink.

Musk também é dono da plataforma de mídia social X, anteriormente Twitter, que a China usou para campanhas de desinformação.

— Elon Musk tem uma exposição financeira profunda à China, incluindo sua fábrica em Xangai — disse o senador Mark Warner, democrata da Virgínia, que preside o Comitê de Inteligência do Senado.

Na China, não está claro se o governo tentou exercer pressão sobre Musk, mas as autoridades locais têm alavancas que poderiam puxar. No ano passado, várias localidades chinesas proibiram carros da Tesla em áreas sensíveis, levando a empresa a enfatizar que todos os dados chineses são mantidos localmente.

Em fevereiro, depois que o Departamento de Comércio dos EUA anunciou uma investigação sobre a retenção de dados pelos veículos elétricos chineses, o Global Times, um jornal do Partido Comunista da China, alertou que os consumidores chineses poderiam retaliar contra a Tesla.

Tesla, SpaceX e Musk não responderam a uma lista detalhada de perguntas do The New York Times. Durante um evento do jornal em novembro, Musk disse que “todas as empresas automobilísticas” dependem em parte do mercado chinês. Ele também descartou preocupações sobre SpaceX e Starlink, dizendo que não operam na China e que suas empresas não devem ser confundidas.

Por outro lado, em uma conversa online com dois membros do Congresso americano em julho do ano passado, ele foi mais direto. O bilionário reconheceu ter “alguns interesses pessoais” na China e se descreveu como “um pouco pró-China”.

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2024/04/10/como-a-tesla-plantou-na-china-as-sementes-de-sua-propria-queda.ghtml

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Sprint final – A corrida contra as mudanças climáticas 

A corrida contra as mudanças climáticas chega à reta final, e os países querem triplicar os investimentos em energias renováveis. Nesse esforço trilionário, o Brasil tem tudo para receber parte considerável dos recursos — principalmente se fizer a lição de casa

Rodrigo Caetano – Exame – 25 de janeiro de 2024 

Em 2015, o mundo investiu 1,3 trilhão de dólares em energia fóssil e pouco mais de 1 trilhão de dólares em fontes renováveis, de acordo com dados da Agência Internacional de Energia (IEA). Naquele ano, em dezembro, ao final da 21a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, a COP21, os quase 200 países-membros assinaram um compromisso para conter as emissões de gases de efeito estufa e combater o aquecimento global, que ficou mundialmente conhecido como Acordo de Paris, em alusão ao local de realização da COP. Nunca mais os investimentos em energia fóssil superaram os investimentos em energia renovável.

Desde o Acordo de Paris, o mundo passou pelo Brexit, na Europa; pela eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos; Jair Bolsonaro assumiu o comando da maior democracia latino-americana e priorizou uma agenda de desmonte de estruturas ambientais; houve uma pandemia, que bagunçou a economia e a logística mundiais; e o russo Vladimir Putin, contrariado em seus interesses, lançou uma ofensiva contra a Ucrânia, levando os europeus a reviverem o medo da guerra após quase 80 anos. Em todos esses episódios, a transição energética foi colocada em dúvida, e a pergunta “seria o fim dos esforços para conter as mudanças climáticas?” se fez presente em cada ano de campanha por uma economia de baixo carbono. Nada disso, no entanto, abalou a onda de renovação energética. No ano passado, o volume de investimentos foi de 1,7 trilhão de dólares em renováveis, ante pouco mais de 1 trilhão de dólares em fósseis, também de acordo com a IEA.

Os cães ladram, e a caravana passa, diria o colunista social Ibrahim Sued. Mas há um pequeno detalhe nesse frenesi de transição para uma economia sem petróleo que faz todo esse comprometimento financeiro parecer uma enorme construção de castelos de areia nas praias artificiais de Balneário Camboriú: o ritmo é insuficiente para fazer o mundo cumprir as metas estabelecidas no Acordo de Paris. “O que está acontecendo é muito simples do ponto de vista científico”, explica o cientista climático Paulo Artaxo, um dos mais citados pelo mundo. “Não é mais possível estabilizar a temperatura em 2 graus Celsius; com as emissões que temos hoje, o planeta vai se aquecer entre 2,5 e 3 graus; e, para a maior parte dos países do Acordo de Paris, a meta de ser ‘net zero’ não é alcançável.”

Na corrida pela descarbonização global, a cada volta a equipe renovável tira um pouquinho da diferença da equipe fóssil, porém a distância segue enorme e o desempenho do oponente, ainda que não evolua, permanece praticamente estável. Os investimentos em petróleo, carvão e derivados, exceto pelos dois anos mais agudos da pandemia (2020-2021), nunca são menores do que 1 trilhão de dólares. A esperança de um sprint final nessa maratona que possa alterar o resultado, agora, recai sobre um novo acordo firmado em uma COP, desta vez na 28a edição da conferência, realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O documento final da COP28 traz, pela primeira vez em quase três décadas, menção aos combustíveis fósseis — e não são elogiosas. Os países-membros concordaram em estabelecer um plano faseado de saída dos combustíveis fósseis, além de triplicar o volume de geração de energia renovável até o final desta década. O acordo foi considerado histórico.

Investimentos recordes

Há poucas dúvidas sobre a chegada de um tsunami de investimentos em renováveis. A projeção da IEA é que, nos próximos cinco anos, se instale mais capacidade de geração limpa do que a soma de todos os anos desde a construção da primeira geradora comercial de energia renovável, há mais de 100 anos. Antes mesmo da conclusão da COP28, a agência já previa um acréscimo de 2,5 vezes na capacidade global, pouco abaixo da meta estabelecida em Dubai. Duas fontes, especificamente, dominarão 95% desse volume: solar e eólica. Neste ano, as duas já devem ultrapassar a hidrelétrica globalmente (no Brasil, ainda não). Em 2025, o carvão perderá, depois de mais de um século, o posto de maior fonte de energia global para as renováveis. As usinas solares e eólicas superarão as nucleares em entrega no ano seguinte, e, em 2028, 42% de toda eletricidade no mundo virá de fontes limpas, de acordo com as estimativas da Agência Internacional de Energia.

Em termos de investimentos, os cálculos variam muito. Há alguns anos que diferentes previsões estabelecem uma necessidade anual de investimentos para fazer a transição energética num intervalo entre 1 trilhão e 7 trilhões de dólares anuais. De concreto, com base nos dados do ano passado e nos cenários mais realistas, pode-se esperar um patamar mínimo de 2 trilhões de dólares para os próximos anos, sendo o Brasil o destino de uma décima parte disso. O governo brasileiro espera um volume considerável de investimentos, e tem recebido sinais de que é para ficar otimista. Mas negociar a entrada de tamanho volume de dinheiro é uma tarefa cheia de riscos, e os perigos, como se sabe, moram nos detalhes.

“A maioria dos países assinou um compromisso de descarbonização, e ninguém faz uma coisa dessas com a intenção de não cumprir”, disse à EXAME, durante a COP28, Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, que esteve em Dubai representando a Abag, associação ligada ao agronegócio. “O problema é que não há um modelo ou uma entidade capaz de organizar esses esforços, então cada país faz do seu jeito. Isso gera o risco de transformar algo positivo para o planeta e para a economia em motivo para o estabelecimento de barreiras comerciais, que às vezes são necessárias; e às vezes, não.”

Nessa geopolítica da transição, os grupos de afinidades vão sendo formados, e o Brasil, por uma série de motivos, é um jogador cobiçado. Em meados de janeiro, Helaina Matza, coordenadora especial do programa de parcerias em infraestrutura dos Estados Unidos (PGI), esteve no Brasil para uma série de encontros com empresas, investidores e governo — além de uma conversa com a EXAME. Sua missão é preparar o cenário para a entrada de dinheiro privado, majoritariamente, no setor de infraestrutura brasileiro, com grande enfoque em energia. “O Brasil tem grandes vantagens competitivas em se tratando de energia renovável”, disse Matza.

Essas vantagens são de ordem natural, pelo país concentrar algumas das melhores áreas de vento e de sol do planeta para a produção de energia limpa; e de ordem econômica. A diplomata americana ressalta que, embora a exportação de energia seja um negócio interessantíssimo do ponto de vista do investidor, a capacidade interna de absorver parte relevante da produção é um aspecto central na definição do volume de recursos que serão alocados em cada região. Nesse ponto, o país tem a seu favor a indústria siderúrgica e a mineradora. Se o mundo quiser realmente cumprir as metas do Acordo de Paris, ou pelo menos chegar perto delas, terá de atacar os maiores poluidores, ou seja, a chamada “velha economia”.

No plano americano também está contemplada a evolução social das regiões investidas. Matza ressalta que o modelo a ser construído envolve as lideranças dos dois países e tem por objetivo facilitar o investimento privado, o que significa, numa generalização grosseira, reduzir riscos. Nesse sentido, a participação governamental se dará em três elementos da equação: juros subsidiados, capital a fundo perdido e políticas públicas. Os dois primeiros atuam diretamente no apetite de risco do investidor, e buscam potencializar os aportes. O terceiro visa direcionar esforços regulatórios e aplicar recursos públicos para infraestruturas de base, cuja ausência pode até não inviabilizar o sucesso comercial do empreendimento, mas limita o benefício econômico e social disponibilizado à população. Basicamente, é garantir que os projetos considerem o impacto nas comunidades locais e promovam o desenvolvimento sustentável.

Para algumas regiões brasileiras, esse posicionamento é música para os ouvidos. Em especial, o Nordeste. Há uma oportunidade, nessa transição energética, para o país corrigir injustiças históricas e reduzir gaps de desenvolvimento entre estados. Em se tratando de energias renováveis, o maior potencial de geração está concentrado em áreas mais pobres, como no Ceará. O estado vive, atualmente, uma euforia pela expectativa da chegada de bilhões em investimentos, graças a características naturais que sempre foram um entrave para o desenvolvimento: o excesso de vento, que prejudica a pesca, e o excesso de sol, que inviabiliza a agricultura. Elmano de Freitas, governador do Ceará, esteve na COP28 para vender o projeto de um polo de produção de hidrogênio verde, em fase avançada de implementação no Porto de Pecém.

O hidrogênio verde, no caso, é uma espécie de novo petróleo produzido a partir da quebra das moléculas da água com o uso de energia limpa. As propriedades do hidrogênio como combustível são conhecidas há muito tempo, porém sua produção exige uma quantidade descomunal de eletricidade, o que até pouco tempo atrás só era viável com o uso de fontes não renováveis. O barateamento da geração limpa, em especial a eólica, tornou possível a produção em escala de uma versão carbono neutro do combustível, hoje a maior aposta para substituir o petróleo em indústrias poluentes, como as de transporte pesado, mineração, siderurgia etc. Elmano de Freitas se gaba de ter, em seu litoral, “talvez a melhor condição para produção de energia de vento do mundo”. “Pelos estudos a que tive acesso, o nosso hidrogênio verde será produzido a um custo equivalente a 30% do que é produzido lá fora”, disse Freitas à EXAME.

Esse potencial chamou a atenção de europeus, que já se estabeleceram no estado. O Porto de Rotterdam, na Holanda, comprou uma participação relevante no Porto de Pecém, com o intuito de fazer dois hubs para hidrogênio verde, um de exportação, em terras brasileiras, e outro de importação, em terras holandesas. A ambição é ter o maior polo de combustível limpo da Europa, e abastecer todo o continente. Segundo o governo cearense, já foram comprometidos, por diversas empresas, 17 bilhões de dólares em projetos no porto. O tsunami está chegando.


Créditos

Rodrigo Caetano

Editor ESG

Trabalhou como repórter e editor nas principais publicações de negócios do país. Venceu os prêmios Petrobras e Citi Journalistic Excellence. Atualmente, lidera a editoria ESG da Exame e apresenta o podcast ESG de A a Z.

https://exame.com/revista-exame/sprint-final

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Supercomunicadores, o que está por trás desse superpoder?

Cientistas já realizaram todo o tipo de experimento a fim de entender por que umas pessoas são melhores do que outras nessa ciência que também é uma arte

Por Isabel Clemente – Valor – 04/04/2024 

Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

Você certamente conhece alguém com uma habilidade acima da média para estabelecer laços. Se estiver na dúvida, pense naquela amiga para quem você telefonaria a fim de desabafar porque sairá da conversa se sentindo melhor. Lembre daquele amigo que, incapaz de lhe dar um conselho que preste, fará você rir do problema pelo menos. Lembre de trocas de ideias das quais você saiu se sentindo inteligente. Resgate memórias de pessoas que se interessaram por sua história ainda que em breves encontros. Todas, em maior ou menor grau, te fizeram sentir importante.

O sentimento bom resulta da empatia. E empatia, essa facilidade para criar conexões emocionais, é o que torna umas pessoas melhores do que outras na arte de comunicar.

No recém-lançado “Supercommunicators: How to Unlock the Secret Language of Connection” (que eu traduziria assim: Supercomunicadores: Como acessar a linguagem secreta da conexão), o jornalista Charles Duhigg mergulha na neurociência e em diversas histórias para entender e revelar o papel dos vínculos que criamos para comunicar melhor.

Diversas pesquisas nos últimos anos vêm revelando o que acontece com as pessoas quando elas se entendem. Há uma sincronia de ondas cerebrais, batimentos cardíacos e até de frequência respiratória.

Ainda que você não tenha participado de nenhum estudo, já deve ter experimentado o arrepio de cantar em uníssono com uma multidão num show qualquer. Já deve ter entoado hinos ou gritos de guerra da arquibancada para torcer por seu time. A gente acha que tudo é vibração. E é mesmo. Em menor escala, é o que acontece na mente de pessoas num ambiente propício a trocas e conversas verdadeiras. É o que acontece na mente de pessoas que assistem ao mesmo filme e ouvem a mesma história, como já contei aqui.

Os supercomunicadores, Duhigg explica, conseguem atingir esse alinhamento de corações e mentes quando em contato com alguém ou grupo. “Essas pessoas são os amigos que todo mundo liga atrás de conselho; os colegas escolhidos para posições de liderança ou sempre bem-vindos nas conversas porque elas ficam mais divertidas com a participação deles”, escreve. “E tem algo sobre simultaneidade neural que nos ajuda a escutar mais de perto e a falar de forma mais clara”. E aqui entra a parte que interessa a todo mundo porque isso tem a ver com comunicar, o verbo que pauta nossa interação com o mundo.

A fim de entender por que umas pessoas são melhores do que outras nessa ciência que também é uma arte, cientistas já realizaram todo tipo de experimento. Num deles, conforme consta do livro, voluntários foram convidados a assistir a filmes curtos sem pé nem cabeça. Ou eram clipes tirados do meio de filmes, em idiomas estrangeiros, às vezes sem som ou legendas. Nenhuma explicação dada. O cérebro de todo mundo estava sendo monitorado e as reações foram disparatadas. Depois, separados em grupos, os voluntários deveriam debater sobre o que viram, tentando encontrar o enredo por trás das cenas complicadas. Havia atração sexual entre dois homens de determinada cena? Tinha uma pessoa irritada com a outra num outro clipe? Essa história termina bem ou mal? Ao assistirem aos mesmos clipes de novo, os participantes enfim apresentaram ondas cerebrais mais similares, como se a conversa tivesse alinhado os cérebros. Mas havia grupos com pessoas mais sintonizadas entre si do que outros.

Os pesquisadores descobriram que os grupos com lideranças fortes, que tomavam a iniciativa de puxar a conversa, definindo papéis e o rumo do debate, apresentaram as maiores discrepâncias. Na verdade, o grupo com o maior índice de sincronização contava com algumas pessoas especiais. Elas falavam pouco, mas faziam muitas perguntas. Eram rápidas em admitir as próprias falhas e riam de si mesmas e das piadas alheias. Não se destacavam por serem falantes demais ou mais espertas, mas, quando falavam, eram ouvidas.

De alguma forma, essas pessoas facilitavam a fala dos outros, ajustando suas emoções às emoções do grupo, num sinal de respeito instintivo e, o mais interessante, quase invisível para os demais participantes da experiência. Essas características foram identificadas no perfil dos supercomunicadores.

Procuro ler e aprender sobre comunicação não só por ser jornalista e viver disso, mas por saber que também tenho limitações nesse campo. Falhei com gente que amo e me senti incompreendida por quem, eu acreditava, jamais falharia comigo.

Duhigg explica que, muitas vezes, os conflitos nascem do simples fato de as pessoas entabularem diálogos em modos diferentes: uma quer desabafar, a outra está em busca de soluções. Uma queria abraço e a outra veio com conselhos não solicitados. A intenção é boa. O resultado, desastroso.

Outro comportamento típico que pode pôr tudo a perder numa conversa é a tentativa de controle. “Num conflito, seu instinto é tentar controlar qualquer coisa que você puder. Se eu conseguir que você enxergue os fatos, você vai concordar comigo. Se eu conseguir que você ouça meus argumentos, então vai ficar tudo bem”, disse Duhigg em conversa com Matt Abrahams no podcast Think Fast, Talk Smart. Dizer para alguém, por exemplo, que ela não precisa ficar chateada com o que quer que a esteja chateando é uma tentativa de controlar as emoções alheias. “Isso é tóxico, e quando as pessoas tentam controlar umas as outras, a conversa acaba.”

Muito mais efetivo – e sábio, eu diria – é controlar o que está a nosso alcance, sugere Duhigg. Pedir um tempo para responder. Sugerir momento melhor para falar. E limitar as fronteiras da conversa para um casal, por exemplo, não começar a discutir sobre a louça suja e terminar reclamando da sogra e de outras coisas que não estavam no início da conversa.

Os supercomunicadores, sugere o autor, escutam atentamente o que é dito e não dito, fazem as perguntas certas, reconhecem e espelham o humor alheio e são transparentes quanto aos próprios sentimentos. Dizendo assim, parece fácil. Mas é difícil à beça. “Tudo isso ao mesmo tempo pode ser até impossível”, escreve.

O caminho é longo, o aprendizado, difícil, mas não resta dúvida quanto ao papel das emoções na arte de comunicar com eficiência. As emoções amplificam as informações para o cérebro, argumenta a neurocientista Carla Tieppo, professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Funcionam quase como uma bola de cristal.

“A emoção é uma função que nos permite ver o que está por vir”, disse Tieppo, no recém-lançado podcast Revolução de Afetos. Da mesma forma que o olfato nos dá pistas de quem passou por um lugar ou está para chegar, compara. Por isso as histórias ganham cada vez mais atenção de quem já entendeu o quanto precisa se conectar com sua audiência a fim de transmitir suas mensagens. Lista de fatos e sequência de dados sozinhos não fazem milagres. Emoção faz.

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/supercomunicadores-o-que-esta-por-tras-desse-superpoder.ghtml

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