Hora da verdade: empresas contam as conquistas e os desafios da implementação da IA

Empresas começam a ter a real dimensão do potencial da IA em seus negócios

Daniel Salles – Exame – 29 de abril de 2024 

Passado o frisson inicial da Inteligência Artificial (IA), ela continua na ordem do dia das grandes empresas. A diferença, agora, é que muitas delas podem falar sobre o assunto com propriedade — e resultados concretos. De acordo com um relatório da ­McKinsey, 55% das companhias utilizavam a IA (incluindo a IA generativa) em pelo menos uma unidade ou função de negócio em 2023 — no ano anterior eram 50% e, em 2017, 20%.

Que a adoção dessas inovações está se traduzindo em ganhos de eficiência e, consequentemente, em faturamentos maiores, não há dúvida. Um dos mais completos estudos a respeito desse tema, o Artificial Intelligence Index Report 2024, elaborado pela Universidade Stanford, constatou que, no ano passado, a inteligência artificial foi mencionada nos Estados Unidos em 394 teleconferências de apresentação de resultados financeiros. Em 2022, ela havia sido citada em 266 reuniões do tipo (o universo esmiuçado corresponde a quase 80% das empresas listadas no ranking Fortune 500).

“Chegamos a um ponto em que a IA preditiva, aquela que a Netflix utiliza, por exemplo, para indicar séries ou filmes levando em conta os padrões de uso de cada usuário, já foi incorporada por praticamente todas as empresas”, acredita Daniel Hoe, vice-presidente de field marketing da Salesforce na América Latina. “Agora, muitas estão tentando encontrar formas de incorporar a inteligência artificial generativa, que traz uma série de outras vantagens, mas impõe novos desafios.”

PicPay: a automação responsável pelo atendimento já resolve mais de 50% das demandas (Rogério Cassimiro/Divulgação)

Einstein 1

A IA, todo mundo sabe, está vinculada a grandes modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês). É o caso do badalado ChatGPT e da plataforma de IA integrada ao CRM criada pela Salesforce, o ­Einstein 1. “O potencial da IA generativa para alavancar os negócios é tremendo”, Hoe acrescenta. “Só haverá risco se ela retiver os dados disponibilizados pelas companhias.” Daí a vantagem do ­Salesforce Data Cloud, que impede exatamente isso.

Ao rememorar a adoção da IA generativa pelo PicPay, Anderson Chamon, um dos fundadores, diz o seguinte: “Nunca tivemos medo de encarar novas tecnologias, mas quando a companhia era menor era mais fácil”.

A empresa está com 35 milhões de usuários ativos e registrou E$ 37 milhões  de lucro líquido em 2023, o primeiro ano em que não ficou no vermelho. Quando a OpenAI apresentou ao mundo a primeira versão do ChatGPT, em novembro de 2022, a plataforma de pagamentos ficou em polvorosa. “Logo nos primeiros minutos, todo mundo na empresa dizia: ‘precisamos adotar essa tecnologia quanto antes’”, recorda Chamon.

Oito meses depois, o PicPay deu adeus ao antigo chatbot de atendimento que se valia de uma árvore de decisões, algo tão moderno hoje em dia quanto o fax. No lugar, a companhia colocou uma automação dotada da mesma tecnologia do ChatGPT.

Em março deste ano, a ferramenta foi atualizada para dar conta de 100% dos casos — optou-se por uma liberação gradual, para garantir a efetividade dos atendimentos. Mais de 50% das demandas, atualmente, são resolvidas sem que nenhum funcionário de carne e osso entre em cena.

“Até o atendimento humano foi aprimorado pela IA, pois as solicitações agora chegam aos atendentes bem mais refinadas”, informa o cofundador. “De maneira geral, ela turbina a resolutividade do setor de atendimento de maneira contínua, a cada nova solicitação que se vê obrigada a resolver; afinal, a automação é aprimorada.”

Em breve, a do PicPay poderá ser acionada por comando de voz, o que deverá ampliar seu alcance. “Uma coisa é o cliente pedir, digitando, para a IA calcular quanto ele gastou no último mês, o que já é possível”, diz Chamon. “Outra coisa é fazer isso só com a voz.”

No PicPay, a IA também revolucionou o dia a dia dos desenvolvedores de códigos, que registraram um salto de produtividade. Na visão do cofundador, no entanto, ela ainda mal começou a dizer a que veio. “Acredito que chegaremos a um ponto no qual as automações farão até sugestões de aplicações financeiras, ampliando o acesso das camadas mais baixas ao mundo dos investimentos”, diz o executivo. “E imagino um futuro no qual as IAs vão conversar entre si. É o que possibilitará, por exemplo, que a automação do meu banco cancele a assinatura de um streaming que não estou usando e que está prejudicando minhas finanças.”

Empréstimos mais justos

Fundado por Carlos Benitez, o BMP atua no segmento de banking as a service (BaaS). Em resumo, a companhia permite que empresas de diferentes segmentos, como lojas de roupas e supermercados, ofereçam serviços financeiros aos próprios clientes.

A história do BMP com a inteligência artificial começou há cerca de um ano para agilizar as reuniões internas. “Sou avesso a modinhas”, afirma Benitez, ao resumir o pé atrás com o qual encarou o advento da IA generativa.

Hoje ela é considerada uma ferramenta crucial para o BMP, principalmente quando o assunto é análise de crédito. “No passado, a liberação estava vinculada ao histórico bancário dos clientes e ao perfil deles”, recorda o CEO da companhia.

“Privilegiava-se quem não morava em áreas de risco, por exemplo, e recorria-se ao score de crédito, que um ­bureau como o Serasa calcula de forma muito genérica.” O problema dessa abordagem? “Como não tínhamos como enxergar a real capacidade de pagamento dos clientes, muitos deles acabavam recebendo negativas”, explica o executivo.

Para encurtar: a análise de crédito passou para as mãos da IA. Ao analisar 1,5 milhão de estabelecimentos comerciais de pequeno e médio porte, por exemplo, ela constatou que a maioria tem dificuldades para pagar parcelas de empréstimos cobrados mensalmente.

Daí a solução encontrada: debitar um pequeno percentual todo dia. “Nenhum banco gosta de inadimplência”, registra Benitez. “Às vezes, é melhor emprestar menos dinheiro para evitar que os bens dos clientes sejam tomados no futuro.”

Se antes a instituição se debruçava humanamente a cada seis meses sobre sua base de dados para criar regras de concessão mais efetivas, hoje a IA faz tudo isso por conta própria — e diariamente. No caso de micro e pequenas empresas, o índice de liberação de crédito subiu de 42% para 53%.

“Nosso custo com análise de crédito despencou, o que tornou o BMP mais competitivo”, comemora o CEO. Ele continua com o pé atrás com a IA generativa, mas só em relação à segurança dos dados sensíveis. “Ela é muito propícia para ataques hackers”, acredita. “Daí o tanto que investimos em cibersegurança.”

Um salto em produtividade

Vários estudos sobre o impacto da IA no trabalho publicados no ano passado sugerem que ela permite que os funcionários concluam­ tarefas mais rapidamente e melhorem a qualidade da produção. Uma pesquisa da Harvard Business School constatou que consultores com acesso ao GPT-4 aumentaram a produtividade em 12,2% — a velocidade de execução subiu 25,1%, e a qualidade, 40%.

Já um estudo do National Bureau of Economic Research concluiu que agentes de call center que utilizaram IA atenderam 14,2% mais chamadas por hora do que aqueles que não fizeram uso dela. Algumas pesquisas também demonstraram o potencial da IA para diminuir a lacuna de habilidades entre trabalhadores de baixa e alta qualificação. E outras alertaram para o risco de que o uso da IA sem supervisão adequada pode levar a uma diminuição no desempenho.

Colaborador desmotivado?

Uma das primeiras ferramentas de IA implantadas pela Globant, especializada em reinventar negócios por meio de soluções tecnológicas inovadoras, leva o nome de ­StarMeUp. Utilizada há cerca de dez anos, ajuda a disseminar a cultura corporativa entre os funcionários e a contornar o desengajamento por meio da gamificação.

“Quando a automação percebe que determinado colaborador está desmotivado ou inclinado a mudar de empresa, ela aciona o gestor dele para que este proponha um café ou tome outro tipo de providência”, explica Carlos Morais, diretor-executivo da Globant no Brasil.

Outra ferramenta do gênero se encarrega de apontar os funcionários mais capacitados — e com perfil mais recomendado — para assumir eventuais novas vagas. “Ela faz um balanço entre o histórico de entregas e skills variados”, resume Morais. Um dos departamentos­ da Globant que mais se beneficiaram da inteligência artificial foi o dos programadores.“Muitos deles se comportam, hoje em dia, mais como pensadores do que como codificadores”, diz o diretor-executivo. “Isso porque eles não precisam mais gastar tempo com a chamada programação prévia.” Resultado: a Globant passou a desenvolver projetos em velocidade seis vezes maior.

IA contra a depressão infantil

A automação também virou o diferencial de muitos dos projetos elaborados para os clientes. “De cada quatro que entregamos, três têm algum componente de IA”, registra o mandachuva da operação brasileira. Para a ­Janssen, ela desenvolveu um aplicativo que consegue detectar a depressão infantil com uma taxa de precisão de 97% — um dos segredos, também nesse caso, é a gamificação, que ajuda a reter o público-alvo.

Para os parques da Disney, a Globant criou uma solução para impulsionar as vendas dos retratos dos visitantes tirados por fotógrafos profissionais e câmeras fixas, posicionadas em pontos estratégicos. O público, muitas vezes, é clicado sem perceber. Graças ao reconhecimento facial e à inteligência artificial, as imagens são oferecidas aos visitantes por meio do aplicativo oficial dos parques.

Mais produtividade

Referência de indústria química e têxtil, a Rhodia, uma empresa do grupo Solvay, é outra que soube direcionar a inteligência artificial para o desenvolvimento de produtos. Agora, novas soluções de solubilização só começam a ser testadas em laboratório depois que a companhia, por meio de machine learning, define quais são as três opções com maior potencial de êxito.

“Com isso, diminuí­mos o tempo em laboratório e a quantidade de reagentes utilizados no processo de desenvolvimento, o que é benéfico também para o meio ambiente”, diz Daniela Manique, CEO do grupo na América Latina. A meta da empresa, por sinal, é diminuir o uso de matéria-prima em 10% até 2025.

Onde a IA tem feito enorme diferença é no processo de manutenção preventiva da fábrica. Antigamente, isso significava 45 dias seguidos de interrupções das atividades por completo a cada cinco anos. A demora se devia à hercúlea tarefa de inspecionar reatores que equivalem a prédios de dez andares. “Precisávamos abri-los só para descobrir que estava tudo em ordem”, recorda Manique.

E cada interrupção dessas, que depois passou a ser feita de três em três anos, se traduzia em um prejuízo entre 2 milhões e 3 milhões de euros. Atualmente, a manutenção preditiva está a cargo de uma IA que se vale de sensores instalados na fábrica de cima a baixo — as interrupções ficaram no passado. Resultado: de dois anos para cá, os custos com manutenção diminuíram 20%.

Fundada em 1863, a Solvay decidiu, no ano passado, se dividir em duas. A que herdou o nome do grupo está encarregada da maioria dos produtos tradicionais, como solventes e sílica. A outra metade, que ganhou o nome de Syensqo, vai atuar nos segmentos de hidrogênio verde, compostos termoplásticos e baterias para veículos elétricos.

Com a divisão, o braço verde-amarelo da Solvay passou a representar 21% do faturamento da companhia — a divisão americana, para efeito de comparação, responde por 18%. “Acredito que a inteligência artificial vai ajudar a tornar nossa produção cada vez mais eficiente e segura”, conclui Manique.


Números globais comprovam: a IA veio para ficar

25,2 bilhões de dólares foram gastos pela iniciativa privada com IA generativa em 2023. Trata-se de um volume quase nove vezes maior que o de 2022

95,9 bilhões de dólares foram investidos em IA pela iniciativa privada em 2023, o que representa uma queda de 7,2% em relação a 2022

99 novas startups de IA generativa surgiram no ano passado. Foram 56 em 2022 e 31 em 2019

191 milhões de dólares foram gastos pelo Google com o desenvolvimento do Gemini Ultra. O GPT-4, da OpenAI, demandou 78 milhões de dólares

https://exame.com/revista-exame/a-hora-da-verdade

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O cemitério de fábricas de automóveis a combustão na China

Fabricantes como BYD, Tesla e Li Auto estão cortando os preços para vender seus carros elétricos; para veículos movidos a gasolina, o excedente de fábricas é ainda pior

Por Keith Bradsher – Estadão/(The New York Times) – 25/04/2024 

Nos arredores de Chongqing, a maior cidade do oeste da China, há um enorme símbolo do excesso de fábricas de automóveis no país. É um complexo de edifícios cinzentos, com quase um quilômetro quadrado de tamanho. Os milhares de funcionários que costumavam trabalhar lá se mudaram. Suas docas de carga carmesim estão fechadas.

A instalação, uma antiga fábrica de montagem e de motores, era uma joint venture de uma empresa chinesa e da Hyundai, a gigante sul-coreana. O complexo foi inaugurado em 2017 com robôs e outros equipamentos para fabricar carros movidos a gasolina. A Hyundai vendeu o campus no final do ano passado por uma fração dos US$ 1,1 bilhão necessários para construí-lo e equipá-lo. A grama não cortada no local já está na altura dos joelhos.

“Tudo era altamente automatizado, mas agora está desolado”, disse Zhou Zhehui, 24 anos, que trabalha para uma montadora chinesa rival, a Chang’an, e cujo apartamento tem vista para o antigo complexo da Hyundai.

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A China tem mais de 100 fábricas com capacidade para construir cerca de 40 milhões de carros com motor de combustão interna por ano. Isso é aproximadamente o dobro do número de carros que as pessoas na China querem comprar, e as vendas desses carros estão caindo rapidamente à medida que os veículos elétricos se tornam mais populares.

No mês passado, pela primeira vez, as vendas de carros elétricos a bateria e híbridos plug-in a gasolina e elétricos superaram as de carros a gasolina nas 35 maiores cidades da China.

Dezenas de fábricas de veículos movidos a gasolina mal estão funcionando ou já foram desativadas.

O setor automobilístico do país está próximo do início de uma transição de veículos elétricos que deve durar anos e, por fim, reivindicar muitas dessas fábricas. A forma como a China administrará essa longa mudança influenciará seu crescimento econômico futuro, já que o setor automotivo é tão grande e pode transformar sua força de trabalho.

Os riscos também são grandes para o resto do mundo.

A China, o maior mercado de automóveis do mundo, tornou-se o maior exportador no ano passado, ultrapassando o Japão e a Alemanha. As vendas de automóveis da China no exterior estão explodindo.

Três quartos dos carros exportados pela China são modelos movidos a gasolina que o mercado interno não precisa mais, disse Bill Russo, consultor de carros elétricos em Xangai. Essas exportações ameaçam achatar os produtores em outros lugares.

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Ao mesmo tempo, as empresas de veículos elétricos da China ainda estão investindo pesadamente em novas fábricas. Espera-se que a BYD e outras montadoras apresentem mais modelos elétricos na abertura do salão do automóvel de Pequim, na quinta-feira.

As vendas de carros elétricos na China ainda estão crescendo. Mas o ritmo de crescimento caiu pela metade desde o verão passado, já que os gastos dos consumidores na China diminuíram devido a uma crise no mercado imobiliário.

“Há uma tendência de desaceleração, especialmente para veículos elétricos puros”, disse Cui Dongshu, secretário geral da Associação de Carros de Passageiros da China.

A China também tem excesso de capacidade na fabricação de veículos elétricos, embora menos do que nos carros movidos a gasolina. O corte de preços dos veículos elétricos é comum. A Li Auto, uma fabricante chinesa em rápido crescimento, reduziu seus preços na segunda-feira. A Tesla fez o mesmo um dia antes e, na terça-feira, informou uma grande queda nos lucros durante os três primeiros meses deste ano. A BYD, líder do setor na China, fez cortes de preços em fevereiro. A Volkswagen e a General Motors também reduziram os preços dos veículos elétricos na China este ano.

Os fabricantes de automóveis com fábricas próximas à costa da China estão exportando carros movidos a gasolina. Mas muitas das fábricas ameaçadas estão em cidades no interior do país, como Chongqing, onde os altos custos de transporte para o litoral tornam a exportação muito cara.

Quase todos os carros elétricos da China são montados em fábricas recém-construídas, que se qualificam para receber subsídios de governos municipais e bancos estatais. É mais barato para os fabricantes de automóveis construir novas fábricas do que converter as existentes. O resultado tem sido um enorme excesso de capacidade.

“A indústria automobilística chinesa está passando por uma revolução”, disse John Zeng, diretor de previsões para a Ásia da GlobalData Automotive. “A antiga capacidade de combustão interna está morrendo.”

As vendas de carros movidos a gasolina despencaram para 17,7 milhões no ano passado, de 28,3 milhões em 2017, ano em que a Hyundai abriu seu complexo em Chongqing. Essa queda é equivalente a todo o mercado de automóveis da União Europeia no ano passado, ou a toda a produção anual de carros e caminhões leves dos Estados Unidos.

As vendas da Hyundai na China caíram 69% desde 2017. A empresa colocou a fábrica à venda no verão passado, mas nenhuma outra montadora a quis. A Hyundai acabou vendendo o terreno, os prédios e grande parte do equipamento para uma empresa de desenvolvimento municipal em Chongqing por apenas US$ 224 milhões.

A empresa municipal disse este ano, enquanto buscava um seguro para o local, que não tinha um novo inquilino.

Outras montadoras multinacionais reduziram a produção na China. A Ford Motor tem três fábricas em Chongqing que estão funcionando com uma pequena fração de sua capacidade nos últimos cinco anos.

A Hyundai é uma das poucas montadoras, principalmente estrangeiras, que interromperam totalmente a produção em alguns locais, embora a empresa ainda tenha três fábricas na China.

“Não parece haver um esforço conjunto para fechar o excesso de capacidade, mas mais uma mudança de propriedade estrangeira para propriedade chinesa”, disse Michael Dunne, ex-presidente da General Motors Indonésia.

A referência de longa data é que as fábricas de automóveis devem operar com 80% da capacidade, ou mais, para serem eficientes e ganharem dinheiro. Porém, com a abertura de novas fábricas de carros elétricos e o fechamento de poucas fábricas mais antigas, a utilização da capacidade em todo o setor caiu para 65% nos primeiros três meses deste ano, em comparação com 75% no ano passado e 80% ou mais antes da pandemia de covid-19, de acordo com o National Bureau of Statistics da China.

Sem um grande surto de exportações no ano passado, o setor teria operado ainda mais abaixo da capacidade total.

Os fabricantes chineses, muitos deles de propriedade parcial ou total dos governos municipais, têm se mostrado relutantes em reduzir a produção e cortar empregos. A Chang’an, uma montadora estatal, tem uma fábrica a apenas 20 minutos de caminhada pelas ruas ladeadas de buganvílias cor-de-rosa do antigo complexo da Hyundai. Os muitos hectares de estacionamento da fábrica estavam completamente cheios de carros não vendidos no domingo.

As cidades que são particularmente dependentes da produção de carros movidos a gasolina, como Chongqing, enfrentam um dilema de empregos. A montagem de veículos elétricos exige um número consideravelmente menor de trabalhadores do que a fabricação de carros movidos a gasolina, pois os E.V. têm muito menos componentes.

Os trabalhadores com sólida formação técnica, especialmente em robótica, podem encontrar emprego com facilidade e rapidez se forem demitidos, disseram os trabalhadores do setor automotivo em Chongqing em entrevistas. Mas os trabalhadores semiqualificados – inclusive os mais velhos e que não fizeram cursos de treinamento para desenvolver suas habilidades – agora estão tendo mais dificuldade para conseguir trabalho.

Zhou disse que, quando se candidatou ao emprego em Chang’an, “a competição era acirrada”.

Ainda assim, é extremamente difícil encontrar ex-trabalhadores da Hyundai desempregados em Chongqing atualmente, mesmo na vizinhança da antiga fábrica.

A maioria dos trabalhadores de fábricas na China são migrantes que cresceram em áreas rurais e têm poucos vínculos com as comunidades onde os carros movidos a gasolina foram construídos. Portanto, eles podem se mudar facilmente para outras cidades ou setores quando perdem o emprego.

No entanto, um tom sombrio paira sobre o setor automobilístico em Chongqing, à medida que a demanda diminui e os trabalhadores menos qualificados têm menos oportunidades de receber o pagamento de horas extras. A sinalização da Hyundai ainda é visível em muitos lugares de sua antiga fábrica, mas uma grande sombra no portão da frente mostra onde um slogan otimista costumava ser pendurado: “New Thinking, New Possibilities” (Novo pensamento, novas possibilidades).

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA

https://www.estadao.com.br/economia/excesso-fabricas-automoveis-nao-utilizadas-china

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Quando a educação encontra a inovação

Apesar de estar na sala de aula a grande demanda e o grande desejo de ver melhorias, nem sempre é na classe que a inovação acontece


Leo Gmeiner – Fast Company Brasil – 25-03-2024 

Quando pensamos em inovação na educação, imediatamente pensamos na sala de aula. Apesar de estar lá a grande demanda e o grande desejo de ver melhorias, nem sempre é na classe que a inovação acontece.

Neste artigo, vamos falar de inovação educacional nos mais diferentes aspectos, passando pelo pedagógico, claro, mas também pela gestão e por operações, por exemplo. Ao final, espero que esse conteúdo sirva de visão para a instituição em que você atua ou para levar para a escola em que suas crianças estudam.

Nos últimos anos, alguns países têm se destacado nesse tema, como a Finlândia, que proporciona ambiente menos formal e colaborativo, com individualização do ensino; Singapura, que adota muita tecnologia e focou na formação de professores para entregar uma educação melhor aos seus alunos; Nova Zelândia, que tem foco na aprendizagem centrada no aluno e na incorporação da cultura Maori no currículo escolar; e os Estados Unidos, que usam, há tempos, a aprendizagem baseada em projetos, ao lado da personalização do aprendizado e da tecnologia para sala de aula, para citar alguns.

Vale dizer que inovação não necessariamente usa tecnologia, mas é qualquer melhoria em produtos, serviços e processos. E é o que acontece na Alpha School, em Austin, no Texas, que foi fundada por MacKenzie Price há 10 anos.

Lá, a educação – dependendo da faixa etária dos estudantes – é por projetos que envolvem as diversas disciplinas. Mas o que me chamou mesmo a atenção é que eles têm apenas duas horas de aula por dia. Isso mesmo! Duas horas para obter o mesmo conhecimento do período letivo integral, sem nenhum prejuízo nos resultados.

Ao contrário, no tempo restante, além do desenvolvimento dos projetos, os estudantes têm a chance de lapidar suas competências socioemocionais, melhorando as chances de terem mais sucesso no mercado de trabalho e na vida pessoal. Aqui no Brasil, a Lumiar segue a mesma linha, gerando interesse de outros atores no modelo também.

Em Pequim, o The Future School Program vai em um caminho semelhante, no que diz respeito aos projetos. Desde 2011, challenge-based learning (CBL) foi adotado e o formato de aula tradicional, com palestras de um professor, deixou de existir, dando lugar ao ensino e aprendizagem individuais, fazendo ótimo uso do poder da tecnologia.

E, já que estamos falando de tecnologia, temos visto algumas iniciativas interessantes e outras verdadeiramente impactantes acontecerem.

Há cerca de 10 anos, realidade aumentada estava arranhando a superfície da inovação nas escolas. Um pouco depois, a realidade virtual bateu na porta, seguida da realidade mista, que combina ambas e que vimos com mais clareza com o lançamento do Apple Vision Pro.

inovação não necessariamente usa tecnologia, mas é qualquer melhoria em produtos, serviços e processos.

Mas, apesar do potencial de melhorar a aprendizagem – especialmente em conjunto com a personalização do ensino –, essas tecnologias têm custos que ainda inviabilizam sua adoção em escala.

Quem já usa esses ambientes imersivos, no entanto, aprecia a possibilidade de, por exemplo, aprender sobre uma determinada cultura por meio de viagens pedagógicas virtuais ou ver, em três dimensões, a molécula da água flutuando em frente aos olhos.

Por outro lado, quem produz essas tecnologias acredita que deixarão de ser interessantes, para alcançar o impacto que merecem, nos próximos dois anos.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL APLICADA À EDUCAÇÃO

Ao falar em impacto na educação, impossível não pensar em inteligência artificial e em todas as suas aplicações em sala de aula. Na verdade, ela potencializa abordagens que já encontraram seu espaço, como a gamificação, que estimula os estudantes – como faz o Duolingo. Bem aplicada, a IA pode até dizer como eles se sentem emocionalmente, como faz a brasileira U4Hero.

A IA pode ainda dar novo impulso à tão desejada personalização do ensino – que tem o poder de melhorar o desempenho de cada estudante, ao entender como cada um aprende –, como faz a também brasileira Blox, por exemplo.

a análise de dados é mais uma tendência crucial que pode permitir, entre outras coisas, entender o jeito de cada um aprender.

Mas não é “só isso” que a inteligência artificial faz. Ela é capaz de muito mais, mas tem de ser usada de forma bem estratégica, para não correr o risco de reduzirmos o pensamento crítico dos nossos jovens.

Algumas aplicações possíveis são, por exemplo, analisar objetivos e características de estudantes adultos de idiomas e usar a IA para ajudar os professores a traçar as melhores estratégias para o desenvolvimento integral e mais rápido dessas pessoas, como tem feito, de forma ainda experimental, a Wort Idiomas.

Ou ajudar educadores a traçar planos de aula muitas vezes individualizados, a partir da compreensão da experiência de colegas e dos melhores resultados, o que tem sido feito no próprio ChatGPT. Ou, ainda, como faz a hispano-italiana Learn with Leo, para tutorar, em praticamente qualquer idioma, os estudantes em suas tarefas e estudos.

Um uso prático em sala de aula que me encanta muito foi quando professores, na contramão do pensamento regular, ao invés de banir o ChatGPT abraçaram a inovação, um ano atrás (o que é quase a eternidade para inteligência artificial), e passaram a analisar como os alunos pediam as informações à IA e, principalmente, como verificavam a veracidade e acurácia desse conteúdo.

Isso para citar somente algumas iniciativas. Tem muito mais por aí e muito, muito mais por vir.

Só para não terminar com a óbvia IA, a análise de dados é mais uma tendência crucial que pode permitir, entre outras coisas, entender, como nunca havia sido possível, o jeito de cada um aprender, as dificuldades peculiares, entender padrões e dar escala à educação de qualidade e efetiva – junto com a computação em nuvem – para que ela alcance até quem está onde não estamos acostumados a olhar.


SOBRE O AUTOR

Leo Gmeiner é pai de três e empreendedor há 20 anos, com quatro empresas diferentes ao longo desse período, sendo a mais recente a School Guardian, startup no segmento de educação, com presença no Brasil e em outros sete países.


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IA exigirá mais energia do mundo e renováveis não devem atender à demanda

Nos EUA, onde fica a maioria das centrais de dados, sua participação no consumo geral de eletricidade pode crescer de 4% em 2022 para 6% em 2026, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE)

Por Ed Ballard – Valor/Dow Jones – 27/04/2024 

A eletricidade de fontes renováveis cresce rapidamente. O problema é que ela não consegue acompanhar a demanda cada vez maior por energia.

Nos Estados Unidos, o novo fator que impulsiona esse crescimento é a inteligência artificial (IA), que consome muita energia. A demanda já vinha crescendo em razão da necessidade de alimentar veículos elétricos, bombas de calor e outros dispositivos projetados para reduzir o uso de combustíveis fósseis.

Nos países em desenvolvimento, o boom é impulsionado pela industrialização e por equipamentos básicos, como lâmpadas e aparelhos de ar-condicionado. Isso significa mais uso de combustíveis fósseis, entre eles o carvão, o maior responsável pelas emissões de gases de efeito-estufa.

“A realidade é que podemos continuar a acrescentar energias renováveis até a exaustão e isso não será suficiente”, disse Sumant Sinha, executivo-chefe da ReNew, uma das maiores empresas de energia renovável da Índia.

As emissões do setor energético dos EUA diminuem à medida que o gás natural e as energias renováveis suplantam o carvão. Mas a eletricidade renovável que é sugada pelos novos impulsionadores da demanda não pode ser usada para limpar setores poluentes, como o dos transportes e a indústria.

As fábricas que produzem microchips, veículos elétricos e baterias alimentam o crescimento da demanda. Esse movimento dá poucos sinais de desaceleração. A Samsung mais do que dobrará seu investimento em semicondutores no Texas, para US$ 44 bilhões, segundo noticiou o “Wall Street Journal” este mês.

O elemento imprevisível é a inteligência artificial, que usa mais energia do que a computação convencional.

Dados precisos sobre o consumo de energia da inteligência artificial são exíguos e ainda não está claro como essa tecnologia evoluirá. Mas um artigo de 2023 do cientista de dados Alex de Vries estimou que os servidores de IA em todo o mundo poderiam usar tanta energia quanto uma economia de médio porte, como a das Filipinas ou a da Suécia, até 2027.

Nos EUA, onde fica a maioria das centrais de dados, sua participação no consumo geral de eletricidade pode crescer de 4% em 2022 para 6% em 2026, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

Até 2030, a inteligência artificial pode aumentar a demanda de gás natural nos EUA em 8%, de acordo com a empresa de pesquisa Thunder Said Energy, e com geradores de reserva que queimarão mais diesel também.

“Acho que vamos precisar de cada punhadinho de energia renovável e gás natural que for possível conseguir”, disse Murray Auchincloss, executivo-chefe da grande empresa de petróleo BP, sobre o crescimento da IA em uma teleconferência de resultados recente.

Na Ásia, as energias renováveis não conseguem acompanhar o ritmo. A China instalou mais painéis solares no ano passado do que os EUA em toda a sua história, e a Índia planeja mais do que triplicar suas fontes de energias renováveis nos próximos seis anos. Mas esse crescimento não tem acompanhado o ritmo da demanda, e o carvão é usado para cobrir a diferença.

Para Lauri Myllyvirta, membro do Asia Society Policy Institute, a China, com seu grande desenvolvimento no ano passado, ultrapassou um patamar importante — o crescimento das energias renováveis superou o crescimento de longo prazo da demanda por energia.

Mas 2023 foi um ano incomum. De um lado, Pequim tentou estimular a economia por meio das exportações, o que levou o setor manufatureiro a consumir mais eletricidade. De outro, uma onda de calor significou um uso mais intenso de aparelhos de ar condicionado. A demanda por energia permaneceu um passo à frente das energias renováveis.

Todo mundo está de olho na China porque ela está tentando resolver o problema da confiabilidade das energias renováveis com a renovação de sua rede e o uso de baterias e energia hidrelétrica. O objetivo é tornar-se verde e ao mesmo tempo manter os preços da energia baixos.

“Se a China for bem-sucedida, isso poderá ser reproduzido em outros mercados, como a Índia e o Sudeste Asiático”, disse Alex Whitworth, chefe de pesquisa de energia da Wood Mackenzie para a região Ásia-Pacífico.

A Índia sintetiza esse desafio. O crescimento da demanda por energia tem sido de mais de 8% ao ano e superado o do Produto Interno Bruto (PIB), à medida que a atividade industrial explode.

Centenas de milhões de indianos cujas casas foram ligadas à rede elétrica neste século também estão comprando eletrodomésticos. A AIE avalia que até 2050 o consumo de energia dos aparelhos de ar condicionado indianos poderá ser superior ao de todo o consumo atual da África.

A ofensiva do governo para desenvolver energia renovável faz parte de um esforço mais amplo para acompanhar a demanda. Segundo o Global Energy Monitor, a Índia tem 30 gigawatts de usinas a carvão em construção e outras mais em fase de preparação.

O transporte de carvão para as centrais elétricas tem estressado a infraestrutura da Índia. No ano passado, o governo disse ter a perspectiva de até 2030 acrescentar 100 mil vagões às já congestionadas ferrovias do país — um quarto do estoque atual — só para carvão.

Para desacelerar a corrida pelo carvão, o governo precisaria convencer investidores privados a financiarem melhorias na rede e cultivar um setor manufatureiro verde para competir com a riqueza criada pelo carvão, na avaliação de Karthik Ganesan, especialista em mercado de energia da organização sem fins lucrativos Council on Energy, Environment and Water.

“Se alguém esperava que o carvão da Índia atingiria o pico antes de meados de 2030, provavelmente não estava sendo realista”, disse.

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Os países surpreendentes nos quais felicidade está aumentando entre os jovens

Com seu PIB em crescimento, moradores da Europa central e oriental agora percebem que têm iguais chances de serem felizes

Lindsey Galloway – Folha/BBC Travel – 22.abr.2024 

Foi publicada em março de 2024 a edição anual do Relatório Mundial da Felicidade. Os países escandinavos, como a Finlândia, Dinamarca, Islândia e Suécia, continuam no topo da lista. Até aí, nenhuma surpresa. Mas um novo grupo de países tem subido no ranking da felicidade, de forma silenciosa, mas constante. A pesquisa indica que, nos últimos três anos, países da Europa central e oriental ultrapassaram alguns dos seus vizinhos da Europa ocidental, em termos de felicidade geral. 

Em 2024, a República Checa e a Lituânia atingiram pela primeira vez o top 20. Elas estão em 18º e 19º lugar, respectivamente, seguidas de perto pela Eslovênia, em 21º. Em termos de comparação, o Reino Unido é o 20º colocado, a Alemanha vem em 24º, a Espanha em 36º e a Itália, em 41º. O Brasil ocupa a 44ª posição. 

O mais interessante é que, em muitos desses países, o avanço pode ser diretamente atribuído ao aumento da felicidade dos moradores mais jovens. A Lituânia, por exemplo, ocupa o primeiro lugar entre a Felicidade dos Jovens do mesmo relatório, avaliada entre pessoas com menos de 30 anos de idade. A Sérvia ocupa a 3ª posição, a Romênia vem em 8º, a República Checa é a 10ª e a Eslovênia ocupa o 15º lugar. O Brasil é o 60º da lista. 

Os números da Europa central e oriental não surpreendem os moradores locais, nem as pessoas que viajam frequentemente para aquela região. “Existem mais empregos decentes no país, de forma que [agora] os jovens não estão se mudando para trabalhar em outros lugares da Europa”, afirma Tim Leffel, autor do livro The World’s Cheapest Destinations (“Os destinos mais baratos do mundo”, em tradução livre). “Na primeira vez em que visitei a Romênia e a Bulgária, uma década atrás, algumas aldeias estavam repletas de idosos”, ele conta. “Agora, você vê muito mais mistura entre as idades. Quando os jovens permanecem, aumenta a esperança de todos no futuro.” 

Com seu PIB per capita em franco crescimento desde o início dos anos 2000, muitos moradores da Europa central e oriental agora percebem que têm iguais chances de serem felizes —o que é um importante indicador do bem-estar em geral. De fato, o relatório concluiu que a desigualdade do bem-estar tem efeito ainda maior sobre a felicidade geral do que a desigualdade de renda. 

Além do crescimento econômico, esses países estão investindo em infraestrutura, promovendo cenários culturais vibrantes e capitalizando sua estonteante beleza natural —desde as dunas de areia formadas pelo mar no istmo da Curlândia, que se estende pela Lituânia e pela Rússia, até a biodiversidade dos montes Cárpatos, na Romênia. 

O resultado é uma sensação palpável de otimismo e entusiasmo entre os moradores locais. Para entender melhor esse novo senso de felicidade, conversamos com moradores e viajantes recentes sobre suas experiências em alguns desses países e descobrimos onde os visitantes podem desfrutar sua própria experiência dessa sensação. 

Lituânia 

Ocupando o 19º lugar no índice geral e a primeira posição entre os moradores com menos de 30 anos de idade, a Lituânia observou notáveis melhorias da qualidade de vida nas últimas décadas, segundo seus moradores. “A maioria das pessoas da Lituânia se sente muito feliz, especialmente as gerações mais jovens”, afirma a lituana Jurga Rubinovaite, fundadora e CEO (diretora-executiva) do blog de viagens Full Suitcase

“Mesmo com a guerra na Ucrânia e os comentários constantes no noticiário sobre a crescente possibilidade de expansão da guerra para os Estados bálticos, as pessoas parecem estar apreciando e aproveitando a vida como nunca antes”, ela conta. Ela atribui esta sensação ao fato de que as pessoas são livres para estudar, trabalhar e viajar para onde quiserem desde 1990, quando a Lituânia conseguiu a independência da União Soviética. “Minha mãe sempre diz, ‘minha vida nunca foi tão boa quanto agora'”, conta Rubinovaite. 

“As gerações mais novas nunca souberam o que era a vida antes que a Lituânia recuperasse a independência, mas todos eles conhecem as histórias dos seus pais e avós. Acho que esta é uma das razões por que as pessoas estão mais felizes agora, porque elas reconhecem o que elas têm, mais do que nunca.” 

Ela também menciona as políticas de maternidade e paternidade do país, que estão entre as mais longas do planeta (até 126 dias remunerados para as mães e 30 dias para os pais), além de grandes redes familiares para ajudar a cuidar das crianças. Raminta Lilaitė-Sbalbi, moradora da Lituânia, encontra sua felicidade no vibrante cenário cultural da capital lituana, Vilnius. Ela gosta particularmente da proximidade da natureza, do seu espírito comunitário inclusivo e das oportunidades de expressão criativa e crescimento pessoal. Lilaitė-Sbalbi indica eventos culturais importantes, como o Festival Lituano da Música, que faz parte do Patrimônio Mundial da Unesco e comemora seu 100º aniversário este ano, entre junho e julho.

 “É uma oportunidade de presenciar, uma vez a cada quatro anos, um enorme concerto com centenas de corais e milhares de pessoas cantando juntas em um enorme palco ao ar livre”, explica ela. “O festival tem profunda importância para todos nós, devido ao seu papel na preservação da identidade nacional lituana durante os tempos da ocupação soviética. Por isso, ele foi chamado de ‘revolução do canto'”. 

A proximidade do país com a natureza também oferece um claro caminho para a felicidade, com melhor equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho. “Os lituanos adoram sair ao ar livre”, afirma Rubinovaite. “Eles aproveitam todas as oportunidades que têm para sair da cidade e visitar as florestas, os lagos e seu belo litoral.” Lilaitė-Sbalbi recomenda aos visitantes conhecer as trilhas de caminhada perto de Vilnius, como a Trilha Verde Strėva

“Seu morro das fontes [abriga nascentes que] não congelam nem mesmo no inverno e há uma plantação de orquídeas lituanas em um pequeno morro”, ela conta. Lilaitė-Sbalbi também indica a Trilha Natural Karmazinai, um local fascinante de ritos pagãos e antigos cemitérios. 

Romênia 

Embora ocupe apenas a 32ª posição geral, a Romênia observou um dos maiores saltos do mundo em termos de felicidade na última década. O país ocupava o 90º lugar no Relatório Mundial da Felicidade de 2013. E, também aqui, o salto foi impulsionado principalmente pelos jovens, que colocaram a Romênia na oitava posição entre as pessoas com menos de 30 anos de idade. 

Especialistas atribuem este otimismo ao aumento da liberdade e das oportunidades. Em março de 2024, a Bulgária e a Romênia se tornaram os mais novos Estados membros da área Schengen da União Europeia, que garante o livre movimento de cidadãos e visitantes sem controles nas fronteiras. A Romênia também recebeu grandes investimentos em infraestrutura, que melhoraram a qualidade de vida dos seus moradores e visitantes. 

“As principais autoestradas e todas as cidades que você visitar —até lugares pequenos, como [a cidade de] Targu Mures— parecem estar em construção”, afirma Daniel Herszberg, fundador do website Travel Insighter. Com um orçamento de infraestrutura já aprovado de 17 bilhões de euros (cerca de R$ 95 bilhões) para o período 2021-2027, a Romênia vem sistematicamente implementando melhorias, incluindo a construção de 1,7 mil quilômetros de estradas, em velocidade muito maior do que o esperado originalmente

Mesmo em meio à modernidade do progresso, as tradições romenas ainda atraem moradores e visitantes. “A Romênia se orgulha da sua rica diversidade cultural, desde os saxões e os sículos [e outras minorias húngaras] até as culturas romenas e romanis”, explica Alexandra Nima, atual moradora do país. 

“A Transilvânia, especificamente, é um lugar que vale a pena considerar se você estiver em busca de ambientes acessíveis, calmos e bucólicos, repletos de arte e belas vistas.” Herszberg concorda. Ele sugere viajar de carro pela Transilvânia para observar o melhor daquela região. Comece por Cluj-Napoca, a segunda cidade mais populosa do país, para conhecer seus castelos medievais —incluindo o Castelo Bonțida Bánffy, conhecido como o “Versalhes da Transilvânia”, 30 km ao norte da cidade. 

Em seguida, siga para o sul por 270 km, até a pequena cidade de Brasov, rodeada pelos montes Cárpatos. Lá, você pode conhecer suas muralhas saxônias medievais e a dinâmica cultura das suas cafeterias. 

República Checa 

Ocupando o 18º lugar na felicidade geral e a 10ª posição entre os menores de 30 anos, a República Checa vivencia um ressurgimento da sua comunidade e cultura nos últimos anos, que causou o aumento dos seus níveis de felicidade. “Os apartamentos e outras moradias costumam ser menores por aqui, o que aumenta a importância do acesso aos ‘espaços terceirizados’, como parques, bares e cafés”, afirma Michael Rozenblit, fundador do site de viagens The World Was Here First

Ele mora na capital checa, Praga, há dois anos. “Quando o dia de trabalho termina, você vê famílias, casais e grupos de amigos descendo para os espaços verdes da cidade, como se fossem para um quintal comunitário”, ele conta. E, mesmo no tempo frio, Rozenblit afirma que o convívio em bares e cafés é essencial para a cultura checa. Este equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal é apoiado pelas políticas governamentais, que incluem dias de férias garantidos por lei, assistência médica abrangente e licença-maternidade e paternidade. 

“A maior parte dos programas de benefícios aos empregados inclui acesso a esportes, atividades físicas e até regalias, como massagens e bem-estar”, explica a norte-americana Mariko Amekodommo, que agora mora em Praga, onde conduz seu próprio negócio de culinária, Mariko Presents. “As pessoas são muito felizes aqui porque têm um ótimo padrão de vida.” Amekodommo e Leffel recomendam ao visitante que se aventure fora de Praga, para ter a verdadeira sensação da cultura e da paisagem local. 

“Uma pequena viagem de 30 minutos de trem para fora da cidade pode levar você a belos castelos, um monastério criado com ossos humanos e à natureza intocada”, afirma Amekodommo. “Uma caminhada de 15 minutos a partir do centro da cidade pode levar você a um ambiente mais tranquilo, entre moradores locais.” Leffel visitou recentemente as regiões checas de Plzeň e do Triângulo dos Spas. 

Ele recomenda aos viajantes visitar cidades pequenas, como Olomouc, Brno e Plzeň. “Elas oferecem uma visão diferente da forma de viver na República Checa”, segundo ele. Particularmente para os amantes da cerveja, não pode faltar uma visita à cervejaria Pilsner Urquell, em Plzeň. Para Leffel, “é uma peregrinação, como visitar Bordeaux [França] para um amante dos vinhos ou uma viagem para a Etiópia, para um amante do café”. 

O enorme legado checo no setor da cerveja foi recentemente reconhecido internacionalmente. A cidade de Žatec foi inscrita na lista do Patrimônio Mundial da Unesco, devido à sua longa tradição de cultivo e processamento de lúpulo, um ingrediente essencial da fabricação de cerveja hoje em dia. Este texto foi publicado originalmente aqui

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2024/04/os-paises-surpreendentes-nos-quais-felicidade-esta-aumentando-entre-os-jovens.shtml

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O que faz um futurista, profissional que vem ganhando espaço nas empresas em busca de inovação

“Enquanto o planejamento tradicional faz projeções para curto e médio prazos, as análises de estudo de futuro fazem projeções e análises que se estendem por décadas”, explica especialista

Por Helena Carnieri , para o Valor – 01/05/2024

Em seu best-seller “Sapiens”, Yuval Noah Harari dedica vários capítulos à Revolução Agrícola, ocorrida entre 9000 AEC e 2000 AEC, conforme a região do planeta. Uma das transformações decorrentes desse processo foi o surgimento do conceito de planejamento, pois “os agricultores sempre precisam ter o futuro em mente e trabalhar em função dele”, escreve. Surgia assim uma preocupação que nunca mais abandonaria o ser humano.

Hoje, há quem faça disso uma profissão. Os futuristas atuam prioritariamente em áreas que envolvem inovação e planejamento de longo prazo. Podem trabalhar em empresas, governos e organizações sem fins lucrativos. Podem também ser pesquisadores e professores, mas sempre tendo em comum a busca de recursos que permitam desenhar cenários vindouros com um mínimo de confiabilidade.

Um exemplo é Amy Webb, CEO do Future Today Institute, que lança relatórios de tendências tecnológicas anualmente, o que fez na mais recente edição do evento SXSW, em março, em Austin, nos EUA. E o que ela abordou, entre outros insights, foi que a humanidade precisa abrir mão da divisão de gerações em letras — X, Y e Z — para se perceber conectada pela forte transformação tecnológica que está em curso.

“Nós somos a geração da transição. Todas as pessoas que estão vivas hoje fazem parte de uma grande transição, o que significa que a nossa sociedade será muito diferente quando essa transição estiver completa”, projeta Webb.

É de previsões que vivem esses profissionais, sempre com os olhos voltados para vários anos à frente. “As funções que eles realizam podem ser diversas, incluindo análise de tendências, cenários prospectivos, antecipação de riscos e oportunidades, inovação e desenvolvimento de produtos ou serviços, e eles podem ser consultores estratégicos sobre esses temas”, explica a doutora em gestão do conhecimento Adriana Karam, reitora do Centro Universitário UniOpet.

Se na academia os “estudos de futuro” lançam mão de áreas tão diferentes quanto a teoria de jogos, economia e psicologia, entre outros, nas empresas eles buscam entender as tendências do consumidor e antecipar mudanças de mercado, tecnologia e ambiente competitivo. “Isso permite aproveitar oportunidades e tendências emergentes e mesmo a gestão de riscos e mudanças regulatórias”, lembra a professora.

Não sobrevive a empresa que não planeja e projeta o futuro, e isso vale para todas as áreas. O setor automotivo, desde o surgimento dessas máquinas, é um exemplo de adaptação de olhos no futuro. Hoje, com a entrada no mercado de veículos elétricos, novos softwares, serviços de mobilidade diversos e a valorização da economia circular, trata-se de uma cadeia de produção que não pode se dar ao luxo de enxergar somente a curtas distâncias.

“A transição energética e as revoluções digitais, a transição da venda de veículos para a venda de serviços de mobilidade e a necessidade de tornar a indústria mais sustentável estão transformando profundamente o setor automotivo”, diz Ricardo Gondo, presidente da Renault do Brasil.

Na montadora, o papel de “futurista” não se restringe a um departamento. “O processo de inovação ocorre de forma sistêmica. Por exemplo, a área de ‘market customer intelligence’ realiza constantemente pesquisas voltadas para o futuro, identificação de tendências econômicas, de produto, e hábitos do consumidor. Os resultados são compartilhados em comitês transversais com colaboradores de diversas áreas, e a partir daí se inicia o processo de aperfeiçoamento ou desenvolvimento de um novo produto”, detalha o executivo.

Na seara dos eletrodomésticos, a Electrolux comemora o feito de ter lançado o primeiro aspirador de pó robô do mundo, em 2001, produto que hoje está cada vez mais popular. Para continuar na vanguarda, passou a se planejar tendo como horizonte de cinco a dez anos à frente.

“Estamos adotando uma abordagem de ‘future thinking’ que nos permite não apenas analisar as tendências atuais, mas, também, antecipar e compreender as necessidades futuras dos consumidores. Sob essa perspectiva, incorporamos uma visão empresarial que vai além do próximo ano”, explica a diretora de Design & Consumer Insights do Electrolux Group América Latina, Clarissa Biolchini. “Esse processo orienta nossos esforços de criação, garantindo que estejamos preparados para as demandas e expectativas futuras.”

Prever tendências envolve entender os diferentes perfis de consumo: enquanto alguns desejam manter o contato com a natureza, com apelo para trabalhos manuais e artesanais, outros se encantam com automação máxima, como cortinas que se abrem com um botão na sala de casa.

E a inteligência artificial vem com tudo para dentro dos lares suprir essa demanda. “Em uma linha de refrigeradores, implementamos tecnologias para melhorar a preservação de alimentos, reforçando nosso compromisso com a sustentabilidade e o consumo consciente. Outro recurso é a gaveta que ajusta automaticamente a temperatura para garantir a conservação ideal de cada alimento, promovendo uma maior eficiência no armazenamento”, exemplifica a designer de eletrodomésticos da Electrolux.

“Ainda quando falamos de inteligência artificial, vemos a tendência nascente do consumidor em poder controlar os eletrodomésticos a distância — dentro e fora de casa —, algo que vínhamos trazendo e agora tem ganhado força. Exemplo disso são os ar-condicionados que podem ser ligados a distância para quando o usuário chegar em casa já ter os ambientes climatizados.”

Mas projetar produtos para lançamento futuro não é seara do planejamento estratégico puro e simples? É importante lembrar que o futurismo difere nas ferramentas e abordagens e ainda no horizonte de tempo considerado. “Enquanto o planejamento tradicional faz projeções para curto e médio prazos [de três a cinco anos], as análises de estudo de futuro fazem projeções e análises que se estendem por décadas”, explica a professora Adriana Karam.

Como projetar algo com segurança quando as mudanças são tão rápidas? “Estamos em um momento similar aos primeiros estágios da revolução dos computadores, quando cada terminal custava uma fortuna e ocupava um prédio inteiro”, compara o CEO da BigDataCorp, Thoran Rodrigues. Ele enumera outros avanços que devem ocorrer no futuro próximo, como a “computação espacial”, também conhecida como realidade virtual e realidade aumentada.

“A entrada da Apple nesse mercado, com o Vision Pro, sinaliza uma nova percepção da importância desse espaço para o futuro da computação, e o potencial de transformação é gigantesco. Imagine interagir com a inteligência artificial através de interfaces naturais, como gestos, voz ou mesmo o pensamento”, sugere. Thoran cita ainda a tendência para a próxima década de “sensorização de pessoas”: desde sensores flexíveis incluídos em roupas e acessórios até o implante de chips no cérebro.

Em meio a tantas mudanças esperadas para esse futuro próximo, as empresas buscam incessantemente dados que permitam a identificação de tendências econômicas, de produto e de hábitos do consumidor. Para isso, podem usar informações como a migração demográfica e outros aspectos socioeconômicos da população em geral.

No caso da Electrolux, são realizados estudos de segmentação, hábitos e atitudes. “São painéis de domicílio e ferramentas de escuta social [monitoramento de termos ligados à marca] que nos fornecem uma visão completa do comportamento do consumidor em cada categoria”, explica Biolchini.

Outro recurso da indústria como um todo é a análise e projeção de curvas de inovação. Trata-se de um modelo teórico que busca prever como uma determinada novidade será adotada ao longo do tempo pelas pessoas.

Para isso, uma das ferramentas é a divisão da população em cinco grupos, com base em sua disposição para adotar novas ideias, produtos ou tecnologias, do mais afoito em usar novidades até os retardatários — que são praticamente obrigados a adotá-las para continuar vivendo em sociedade. Para cada grupo, são necessárias estratégias diferentes de comunicação e vendas.

Mas inovar, na indústria, não diz respeito somente a produtos novos, e sim também aos processos industriais. E na indústria 4.0 cresce o papel da automação e do uso do metaverso no dia a dia. Na Renault do Brasil, isso se traduz em mais de 700 robôs; tecnologias como os “gêmeos digitais”, que são representações de objetos físicos nas linhas de produção. De acordo com Gondo, “isso permite a análise de dados em tempo real, com o objetivo de alavancar a performance e melhorar a qualidade”.

E nem só de tecnologia vivem as tendências, mas também de soluções até bem simples. Pensando na adesão de parcela do mercado consumidor a práticas sustentáveis como a compra de produtos usados, embalagens reutilizáveis, alimentos orgânicos, entre várias outras tendências, a fabricante de embalagens em papelão Mazurky, de Mauá (SP), criou uma cestinha de compras em papelão em que é possível aplicar anúncios publicitários.

“Para poder atender às necessidades dos novos padrões de consumo e expandir os nichos, é necessário que a indústria também acompanhe isso e se reinvente, pois há uma demanda que nem o próprio mercado sabe que tem e que, até agora, ninguém era capaz de absorver”, aponta o diretor Eduardo Mazurkyewistz.

Por outro lado, a tecnologia é base para tudo: para aplicar os anúncios na cesta de compras em papelão, foi necessário trazer uma impressora 3D da Espanha ainda não disponível no Brasil.

Para quem deseja se aprofundar e quem sabe atuar na área do futurismo, existem cursos gratuitos como o ministrado por Marcelo Clemente no Instituto Politécnico de Ensino a Distância (iPED). Ele lembra que “futurismo não é achismo nem previsão — é um conjunto de metodologias pautadas na ciência e procura antever possibilidades nas áreas científicas a partir de sinais, evidências e dados”.

A palestrante Martha Gabriel é pesquisadora do tema e futurista pelo IFTF (Institute For The Future). Ela brinca que suas palestras trazem “spoilers dos efeitos a curto prazo do digital para as pessoas e empresas”. “Na última década, percebi que as pessoas estavam com dificuldade de planejamento, porque precisam dos estudos de futuro que permitem traçar cenários mais amplos”, explica em um de seus vídeos.

Ela sugere três habilidades para cada um de nós ter em mente se quisermos lidar bem com as transformações futuras — tendo como meta um futuro “supersmart”, num cenário em que o humano coopera de forma saudável com as máquinas. São eles: pensamento crítico, que envolve o ceticismo; convivência com pessoas de pensamento diferente, uso da lógica e argumentação; e ainda estar abertos à adaptação, com agilidade e capacidade de se emocionar.

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2024/05/01/o-que-faz-um-futurista-profissional-que-vem-ganhando-espaco-nas-empresas-em-busca-de-inovacao.ghtml

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Profissões do futuro: quais são os 10 cargos que mais vão crescer nos próximos 5 anos

Relatório do Fórum Econômico Mundial sobre o Futuro do Trabalho revela que a disrupção dos mercado se a adoção de novas tecnologias já estão transformando completamente as profissões

Alberto Cataldi – Head de Conteúdo e Partner na Startse. –  3 mai 2023

Mais de 20 anos de experiência na coordenação e produção de conteúdo editorial e para marcas. Fala sobre estratégia, inovação, tecnologia e comunicação.

O mais recente relatório do Fórum Econômico Mundial revela como as novas tecnologias e inovações estão transformando as oportunidades de trabalho no mercado. A pesquisa mostra quais são as profissões que estão em crescimento mais acelerado e que tem mais potencial para os próximos 5 anos.

Segundo a organização, disrupção é a palavra que melhor define o que está acontecendo com o mercado de trabalho global, levando a uma mudança de 23% dos empregos em todo o mundo. Essa transição pode ser positiva, com crescimento de oportunidades, ou negativa, com o fim de algumas especialidades. Em ambos os casos, elas são inevitáveis (entenda mais adiante).

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Quais são os fatores que levam a mudanças nas profissões?

De acordo com relatório do Fórum Econômico Mundial, cinco principais fatores são responsáveis pela disrupção do mercado de trabalho na atualidade e pelos próximos 5 anos. São eles:

1 – Crescimento de adoção de novas tecnologias

Para 86% das empresas, este é o principal fator transformando o perfil das carreiras e a maneira como elas operam. A adoção de tecnologias como a Inteligência Artificial por parte da sociedade tem acelerado a adaptação das pessoas e marcas.

2 – Ampliação do acesso digital

Como resultado do fator anterior, as empresas percebem novas oportunidades de mercado e investem cada vez mais em profissionais que saibam tirar proveito e liderar iniciativas lucrativas. Para 86% das companhias pesquisadas, este fator foi considerado importante.

3 – Aplicação mais ampla de padrões ESG

Em 81% das empresas pesquisadas, as novas referências de responsabilidade Ambiental, Social e de Governança (ESG) estão ganhando importância e devem guiar as decisões pelos próximos 5 anos.

4 – Alto custo de vida dos clientes

O crescimento do custo de vida nos mercados globais tem impactado as decisões de compra dos consumidores e, consequentemente, obrigado as empresas a se adaptarem a esta nova realidade. Esta resposta foi dada por 75% das empresas.

5 – Desaceleração do crescimento da economia global

O que foi percebido como um efeito pandêmico a partir de 2020 foi se consolidando como uma tendência de longo prazo nos mercados globais. Com isso, 73% das empresas enxergam um cenário de redução de investimentos pelos próximos 5 anos, com alta necessidade de adaptação por parte das companhias e dos profissionais.

Como estão as mudanças no mercado de trabalho?

Após a pandemia causar grande instabilidade nos mercados e relações profissionais, o relatório do Fórum Econômico Mundial mostra que seguiremos por um período onde a adaptabilidade e a rapidez ditarão o futuro do trabalho, mas com um olhar atento à responsabilidade ambiental e social. A entidade aponta uma mudança de perfil de 23% das profissões existentes, ou seja, mais de um quarto dos profissionais hoje disponíveis no mercado passarão por mudanças drásticas em sua forma de trabalho pelos próximos 5 anos.

Em grande parte, as mudanças serão aceleradas pela adoção de tecnologias como Inteligência Artificial, Machine Learning, análise de dados, automação e robótica, que irão potencializar o trabalho de profissionais ou, em alguns casos, substituir completamente posições.

Importante entender que a automação terá um papel fundamental na vida de qualquer profissional pelos próximos anos. E não apenas na indústria, onde a ideia de um robô assumir o papel de um trabalhador humano parece mais comum. A adoção de softwares de automação deve se tornar cada vez mais comuns em rotinas de escritório, na edução e no setor de serviços.

Quais são as profissões que mais estão crescendo?

Com base na pesquisa feita com empresas de todo mundo e a análise de macrotendências de mercado, essas são as profissões que mais vão crescer nos próximos 5 anos, de acordo com o Fórum Econômico Mundial:

  1. Especialista em Inteligência Artificial e Machine Learning
  2. Especialista em Sustentabilidade (ESG)
  3. Analista de Inteligência de Negócio (BI)
  4. Analista de Segurança da Informação (cibersegurança)
  5. Engenheiro de Fintech
  6. Cientista e Analista de Dados
  7. Engenheiro de Robótica
  8. Engenheiro de Eletrotecnologia
  9. Operador de Equipamentos Agrícolas
  10. Especialista em Transformação Digital

Sobre o relatório

O relatório do Futuro do Trabalho é feito pelo Fórum Econômico Mundial desde 2016 e publicado a cada dois anos. Ele se tornou referência global nas análises de mercado e, entre outras coisas, mapeou o avanço da Quarta Revolução Industrial e mostrou o efeito da disrupção em diversos mercados.

Na edição 2023, o relatório foi feito a partir de uma pesquisa mundial com 803 empresas, que coletivamente contratam mais de 11,3 milhões de pessoas em 27 tipos de indústria e 45 economias diferentes. 

Por que importa?

O relatório do Fórum Econômico Mundial reforça com dados aquilo que muitos já percebem no dia a dia de suas empresas: o perfil dos profissionais que têm mais importância no mercado está mudando rapidamente. Buscar o lifelong learning não basta se esse aprendizado constante não estiver alinhado às necessidades atuais, cada vez mais ditadas pelo avanço tecnológico, pela nova realidade econômica e pela importância do impacto ambiental e social. Agora mais do que nunca, é importante se atualizar com frequência e se adaptar rapidamente, desenvolvendo talentos que possam impactar sua rotina profissional agora

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2024/04/emprego-melhor-nao-muda-mal-humor-de-boa-parte-do-pais.shtml

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Inteligência artificial aprende a fazer mecanismos capazes de editar DNA humano

Tecnologia de startup dos EUA pode levar a modificadores genéticos mais ágeis e poderosos

Cade Metz – Folha/ The New York Times – 28.abr.2024

Tecnologias de inteligência artificial generativa podem escrever poesia e programas de computador. Agora, uma nova tecnologia de IA está gerando projetos para mecanismos biológicos microscópicos capazes de editar seu DNA, apontando para um futuro em que cientistas poderão combater doenças com ainda mais precisão e rapidez do que hoje.

Descrita em um artigo publicado na última segunda (22) pela startup Profluent, de Berkeley, Califórnia, a tecnologia baseia-se nos mesmos métodos que impulsionam o ChatGPT. A empresa deverá apresentar o texto no próximo mês na reunião anual da Sociedade Americana de Terapia Gênica e Celular.

Assim como o ChatGPT aprende a gerar linguagem analisando artigos da Wikipedia, livros e registros de conversas, a tecnologia da Profluent cria editores de genes após analisar enormes quantidades de dados biológicos, incluindo mecanismos microscópicos que os cientistas utilizam para editar o DNA humano.

Esses editores de genes são baseados em métodos vencedores do prêmio Nobel envolvendo mecanismos biológicos chamados Crispr. A tecnologia baseada em Crispr está mudando a forma como os cientistas estudam e combatem doenças, fornecendo uma maneira de alterar genes que causam condições hereditárias, como anemia falciforme e cegueira.

Anteriormente, os métodos Crispr usavam mecanismos encontrados na natureza —material biológico obtido de bactérias que permite a esses organismos microscópicos combater germes.

“Eles nunca existiram na Terra”, disse James Fraser, professor e presidente do departamento de bioengenharia e ciências terapêuticas da Universidade da Califórnia, São Francisco, que leu a pesquisa da Profluent. “O sistema aprendeu com a natureza para criá-los, mas eles são novos.”

A esperança é que a tecnologia eventualmente produza editores de genes que sejam mais ágeis e mais poderosos do que aqueles que foram aprimorados ao longo de bilhões de anos de evolução.

Na segunda (22), a Profluent também disse que usou um desses editores de genes gerados por IA para editar o DNA humano e que estava disponibilizando este editor, chamado OpenCRISPR-1. Isso faz com que indivíduos, laboratórios acadêmicos e empresas experimentem a tecnologia gratuitamente.

Pesquisadores de IA frequentemente disponibilizam o software que impulsiona seus sistemas de IA, porque isso permite que outros construam sobre seu trabalho e acelerem o desenvolvimento de novas tecnologias. Mas é menos comum que laboratórios biológicos e empresas farmacêuticas disponibilizem invenções como o OpenCRISPR-1.

Embora a Profluent esteja disponibilizando os editores de genes gerados por sua tecnologia de IA, ela não disponibilizará a própria tecnologia IA.

O projeto faz parte de um esforço mais amplo para construir tecnologias de IA que possam melhorar os cuidados médicos. Cientistas da Universidade de Washington, por exemplo, estão usando os métodos por trás de chatbots como o ChatGPT, da OpenAI, e geradores de imagens como o Midjourney para criar proteínas inteiramente novas —as moléculas microscópicas que impulsionam toda a vida humana— enquanto trabalham para acelerar o desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos.

(O New York Times processou a OpenAI e sua parceira, Microsoft, por violação de direitos autorais envolvendo sistemas de inteligência artificial que geram texto.)

As tecnologias de IA generativa são impulsionadas pelo que os cientistas chamam de rede neural, um sistema matemático que aprende habilidades analisando vastas quantidades de dados. O criador de imagens Midjourney, por exemplo, é sustentado por uma rede neural que analisou milhões de imagens digitais e as legendas que descrevem cada uma dessas imagens. O sistema aprendeu a reconhecer as conexões entre as imagens e as palavras. Então, quando você pede uma imagem de um rinoceronte pulando da ponte Golden Gate, ele sabe o que fazer.

A tecnologia da Profluent é impulsionada por um modelo de IA semelhante que aprende a partir de sequências de aminoácidos e ácidos nucleicos —os compostos químicos que definem os mecanismos biológicos microscópicos que os cientistas usam para editar genes. Essencialmente, ela analisa o comportamento dos editores de genes Crispr retirados da natureza e aprende a gerar editores de genes totalmente novos.

“Esses modelos de IA aprendem a partir de sequências —sejam elas sequências de caracteres, palavras, código de computador ou aminoácidos”, disse Ali Madani, CEO da Profluent, um pesquisador que anteriormente trabalhou no laboratório de IA da gigante de software Salesforce.

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A Profluent ainda não submeteu esses editores de genes sintéticos a testes clínicos, então não está claro se eles podem igualar ou superar o desempenho do Crispr. Mas essa prova de conceito mostra que os modelos de IA podem produzir algo capaz de editar o genoma humano.

Ainda assim, é improvável afetar o sistema de saúde a curto prazo.

Fyodor Urnov, pioneiro em edição de genes e diretor científico do Instituto de Genômica Inovadora da Universidade da Califórnia, Berkeley, disse que os cientistas não têm escassez de editores de genes que ocorrem naturalmente que poderiam ser usados para combater doenças. O gargalo, segundo ele, é o custo de passar esses editores por estudos pré-clínicos, como segurança, fabricação e revisões regulatórias, antes que possam ser usados em pacientes.

Mas os sistemas de IA generativa frequentemente têm um enorme potencial porque tendem a melhorar rapidamente conforme aprendem com quantidades cada vez maiores de dados. Se a tecnologia, como a da Profluent, continuar a melhorar, poderá um dia permitir que os cientistas editem genes de maneiras muito mais precisas.

A esperança, disse Urnov, é que isso possa, a longo prazo, levar a um mundo onde medicamentos e tratamentos sejam adaptados às pessoas de forma mais rápida do que fazer hoje.

“Sonho com um mundo onde tenhamos Crispr sob demanda em questão de semanas”, disse ele.

Os cientistas há muito tempo alertam contra o uso do Crispr para aprimoramento humano, pois é uma tecnologia relativamente nova que poderia potencialmente ter efeitos colaterais indesejados, como desencadear câncer, e têm alertado contra usos antiéticos, como a modificação genética de embriões humanos.

Isso também é uma preocupação com os editores de genes sintéticos. Mas os cientistas têm acesso a tudo o que precisam para editar embriões.

“Um ator mal-intencionado, alguém que é antiético, não está preocupado se está usando um editor criado por IA ou não”, disse Fraser. “Eles simplesmente vão em frente e usam o que está disponível.”

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2024/04/inteligencia-artificial-aprende-a-fazer-mecanismos-capazes-de-editar-dna-humano.shtml

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Como usar a tecnologia com alunos ‘nativos digitais’ em sala de aula?

Escolas visam a ensinar crianças a fazerem uso mais consciente e aprofundado dos meios digitais, tornando-os protagonistas em vez de meros espectadores

Por Isabela Moya – Estadão – 28/04/2024 

Crianças em tablets, computadores, jogos e celulares – os pequenos no mundo digital já são uma realidade, e isso não é um movimento a ser combatido, mas ensinado, segundo especialistas em educação. A chave da questão parece ser mostrá-los como lidar com o uso de tecnologias e da internet de forma que eles aprendam a se “autorregular”, ao mesmo tempo em que são estabelecidas ferramentas de segurança e privacidade para protegê-los.

“O debate sobre tecnologia educacional deve sair do ‘se’ e evoluir para o ‘como’. Não podemos mais discutir se a tecnologia deve estar na escola, mas como isso deve acontecer”, diz a organização não-governamental (ONG) Todos Pela Educação, em documento sobre letramento digital.

Impedir crianças e adolescentes de usar as tecnologias digitais pode fazer com que eles não saibam como usá-la de forma saudável quando enfim tiverem acesso, além de deixar de prepará-los para o mercado de trabalho e para a vida social, cada vez mais conectados com o mundo digital.

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É preciso encontrar o equilíbrio – nem uso excessivo, e nem restrição – , segundo Paulo Blikstein, professor e diretor do Laboratório de Tecnologias de Aprendizagem Transformadora da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. “Isolar a criança dos dispositivos digitais não tem sentido hoje em dia, porque quando acabar o isolamento, ela vai estar em um mundo que é dominado por essas tecnologias, vai enfrentar o mundo sem saber como lidar com isso”, ele afirma.

“Por outro lado, achar que tecnologia é totalmente maravilhosa e deixar elas livres também não é bom nem para as crianças, nem para os adultos”, pondera.

“As crianças observam a família usando laptop, celular, tablets. E elas utilizam esses aparelhos”, constata Ana Paula Gaspar, professora especialista em tecnologia e inovação educacional e assessora de Tecnologia e Educação do Instituto Vera Cruz.

“É preciso apresentar a tecnologia como um fenômeno social. Assim como fazemos esforço em criar esforço em criar ambientes de leitura, músicas, museus, também defendemos que as questões digitais sejam apresentadas às crianças”.

A ideia de que a Geração Alpha é a de “nativos digitais” esconde o fato de que nascer em um meio não significa fazer bom uso dele, segundo a especialista. “Erroneamente, reproduzimos uma noção dos nativos digitais, em referência às crianças, como se elas tivessem nascido prontas. São nativas digitais, mas não alfabetizadas digitalmente. Não é porque estão imersas nessa cultura que estão prontas para lidar com ela”, ressalta.

Pensando nisso, escolas já têm inserido em seus currículos projetos para letramento digital. A Base Nacional Curricular Comum, que regula os currículos do ensino básico no Brasil, desde o ensino infantil até o ensino médio, prevê uma competência geral de “cultura digital”, que diz que o estudante deve ser educado para usos mais democráticos das tecnologias e para uma participação mais consciente na cultura.

“As escolas têm liberdade para decidir como fazer, se é numa disciplina isolada ou em projetos que atravessam os conteúdos. Mas [ter o letramento digital] é um direito, tem que ter, não é opcional”, afirma Gaspar.

No Colégio Magno/Magico de Oz, crianças do Ensino Infantil criaram um jogo para aprender as vogais em Braille

No Colégio Magno/Magico de Oz, crianças do Ensino Infantil criaram um jogo para aprender as vogais em Braille Foto: Colégio Magno/Divulgação

O Colégio Magno/Mágico de Oz, na zona sul de São Paulo, trabalha, na Educação Infantil, os conteúdos curriculares contextualizados nos temas dos projetos, que aplicam o letramento digital conforme surgem as necessidades dos estudantes.

Uma aula sobre alfabetização e direitos das crianças suscitou curiosidade em um aluno de 5 anos, da Educação Infantil, que perguntou como lêem e escrevem as crianças que não enxergam. Foi então que a professora decidiu realizar uma atividade com a sala para ensiná-los sobre o Braille, sistema de escrita e leitura tátil para as pessoas cegas ou com baixa visão feito por meio de pontos em relevo. “Eles aprenderam as vogais em Braille e criaram um jogo para ajudar crianças com problemas de visão a aprender a ler e escrever”, conta a professora de Tecnologia, Pensamento Computacional e Robótica da escola, Silvana Scavone.

Os alunos criaram o Jogo das Vogais em Braille, como foi chamado, a partir de um tabuleiro onde as crianças tocavam nas letras em Braille e ouviam o som da letra correspondente e uma palavra que começasse com a letra. Depois, programaram o jogo no Scratch, uma linguagem de programação de rápida aprendizagem. Então, gravaram os sons das letras e palavras e usaram um circuito eletrônico que, ligado ao computador, é capaz de transformar qualquer objeto em um botão touchpad.

“Nossa intenção com o letramento digital e pensamento computacional nem de longe é formar programadores. No caso dessa atividade das Vogais em Braille, o fato de alunos tão pequenos terem entendido de alguma forma que a tecnologia existe para facilitar e melhorar a vida das pessoas nos fez acreditar que estamos no caminho certo. Mais do que o produto final, tudo que acontece no processo é o que faz valer todo o aprendizado”, explica Scavone.

Crianças de 5 anos criaram o Jogo das Vogais em Braille, que foi selecionado para ser apresentado em uma conferência na Universidade de Columbia, em Nova York.

Crianças de 5 anos criaram o Jogo das Vogais em Braille, que foi selecionado para ser apresentado em uma conferência na Universidade de Columbia, em Nova York. Foto: Colégio Magno/Divulgação

Os conceitos de pensamento computacional são introduzidos de uma maneira divertida, explica a professora. Algumas vezes, até mesmo sem o uso do computador, através das atividades “desplugadas”.

Já o Colégio Rio Branco, na região central da capital paulista, investiu na conscientização dos estudantes do 5° ano do Ensino Fundamental em relação à fake news, ensinando-os a identificar notícias falsas. Os alunos usaram uma planilha com critérios de verificação das informações para classificar as notícias e, assim, criaram um gráfico indicando os critérios que mais trazem possibilidade de uma informação ser mentira. Por fim, as crianças fizeram cartazes digitais com dicas de combate a fake news.

O aluno de 10 anos, Fernando Kusabara, conta que, depois da aula, aprendeu a fazer o exercício sozinho, mesmo sem a planilha. “A gente aprendeu a fazer na nossa mente”, ele diz.

Sua colega, Lorena Basso, de 10 anos, relata que chegou a usar os conhecimentos aprendidos fora da escola, com a sua família. “Uma vez eu recebi uma notícia da minha avó e vi que não tinha estudos de apoio, link, autor ou data. Percebi que era uma notícia falsa e falei para ela. Ela ficou surpresa e disse que ia passar a conferir”, lembra a estudante.

O professor de Tecnologia Educacional da escola, Jorge Farias, que aplicou a atividade para os alunos, ressalta a importância para o desenvolvimento das habilidades de cognição e raciocínio lógico das crianças, além da formação social. “Treinamos não só o ferramental, que enriquece muito o portfólio deles, eles têm ferramentas para trabalhos, mas também a cidadania digital, aprendendo a entender o mundo virtual e o papel deles nesse mundo”, diz.

Além das fake news, a turma trabalhou o combate ao cyberbullying, a proteção de identidade virtual e o comportamento em jogos online.

Na visão do professor, o letramento digital aparelha os alunos com posturas que os protegem no meio digital. “Ensino a eles a criarem contas vinculadas a de seus pais, não falarem com estranhem, controlarem o tempo de tela, nunca usarem fotos do rosto”, exemplifica.

Tecnologia não é sinônimo de rede social

A tecnologia serve para ampliar o repertório de crianças e adolescentes, em uma época em que estão criando sua subjetividade a partir da relação com o outro, explica Gaspar. Mas isso não significa que as crianças devam frequentar redes sociais. Segundo a especialista, há um consenso global em diferentes disciplinas de que crianças não devem usar as redes, mas outros formatos digitais.

“Isso não impede de trazer para a discussão quais os pressupostos de uma rede social: diálogo, respeito, empatia, debate saudável. É possível trabalhar essas questões que preparam crianças para entrada na rede social na idade recomendada”, diz.

E com os adolescentes, é preciso continuar esse trabalho para que sejam capazes de se autorregular. “Os adolescentes são os primeiros que veem as agressões em redes sociais. Não há controle parental ou tecnologia que dê conta de descobrir essas questões [antes deles]”, afirma a em tecnologia educacional.

Não há, porém, um consenso que quantifique a quantidade de horas para um uso saudável seja das redes sociais ou de telas num geral. Os fatores decisivos são o tipo de conteúdo, o contexto em que está inserido e o objetivo de uso.

“Se está há duas horas em um jogo educativo ou programando, tudo bem, mas no TikTok, eu diria que já é demais”, afirma Blikstein.

Desafios no letramento digital

Desigualdade social e falta de infraestrutura, controle do uso excessivo de telas e formação de senso crítico. Essas são algumas das dificuldades enfrentadas pelos professores na hora de ensinarem seus alunos a se portarem no meio digital e a usarem as tecnologias a seu favor, de forma que se tornem criadores ativos.

Blikstein explica que existe um novo conceito de letramento digital, em que aprender a ser um “bom usuário” das ferramentas digitais já não é suficiente, é preciso entender o funcionamento por trás das tecnologias e ser um “produtor”.

“Mas em um País tão desigual quanto o Brasil, o problema é que para fazer isso precisa de equipamentos, professores capacitados, e o que vemos nas escolas é que, quando há o letramento digital, é só o básico, só ensinam a ser um usuário. Nas escolas de elite, aí sim ensinam a como serem produtores, tem espaço maker, aula de programação. Tem um grande investimento nisso, os pais cobram porque sabem que é importante”, diz o especialista.

“Isso é preocupante porque estamos indo numa direção em que há uma pequena elite de crianças letradas digitalmente e a maioria que vive no mundo digital como meros usuários”, completa.

Mas a infraestrutura não é um impeditivo, afirmam Gaspar e Blikstein. Isso porque alguns conceitos que se aplicam ao mundo digital – como resolução de conflito, leitura crítica de mundo, respeito à diversidade e combate ao discurso de ódio, por exemplo – podem ser ensinados mesmo sem equipamentos. Para a prática, já existem ferramentas tecnológicas de baixo custo que podem ser adquiridas pelas escolas. E mesmo que não tenham acesso aos dispositivos em aula, crianças e adolescentes usam a internet e as ferramentas digitais fora dela.

Na sala de aula, chegar a um equilíbrio na exposição das crianças ao mundo virtual é uma dificuldade enfrentada por Farias. “Às vezes é muito difícil trazer os alunos de volta quando estão jogando. É preciso colocar limite e ensinar que há hora para jogar, hora para aprender e hora para fazer os dois juntos, aprender jogando”, relata o professor, que procura promover uma reflexão sobre os impactos nocivos que as tecnologias podem causar nas turmas em que leciona.

“Tentamos ensiná-los a ter autocontrole: ‘Quanto tempo estou usando [o dispositivo]? por que estou usando? Eu fiquei com a minha família? Fiz a lição de casa? Está me tornando uma pessoa melhor? Estou prejudicando alguém virtualmente’”, ensina o professor

Já para a coordenadora do Colégio Magno, Cláudia Tricate, “pensar em atividades inusitadas” para acompanhar a rapidez da geração atual tem sido um desafio. E para contornar isso, “a grande sacada”, ela diz, está nos adultos ouvirem as crianças.

“Temos que estar sempre acompanhando eles, as possibilidades das crianças são maiores que as nossas. Perceber o que elas se interessam, o que querem saber. Quando fazemos isso, surgem projetos muito legais”, diz.

A formação dos docentes também precisa ser uma prioridade, segundo os especialistas, pois são eles que induzem e mediam as atividades em sala de aula. Blikstein não nega a necessidade de formar os professores para um uso da tecnologia, mas afirma que, na realidade brasileira atual, essa abordagem tem se mostrado insuficiente.

“Com o tempo que os professores têm [para formação continuada] é impossível formá-los em tecnologia. Muitas mudam rápido, em dois anos já viram obsoletas. O modelo de inserir na formação do professor não tem funcionado, precisa mudar a abordagem”, argumenta.

Para isso, ele defende que a “solução viável” para o Brasil atualmente é a inserção de um professor para aulas de tecnologia, mas também responsável por ajudar os outros professores a implementarem tecnologias em suas disciplinas tradicionais.

Leia mais:

https://www.estadao.com.br/educacao/como-usar-a-tecnologia-com-alunos-nativos-digitais-em-sala-de-aula

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Arábia Saudita investe para ir além do petróleo e se tornar potência da IA

País aposta em grandes eventos, supercomputadores e pesquisa, colocando-se no meio da disputa entre EUA e China

Adam Satariano Paul Mozur – Folha/ The New York Times – 26.abr.2024 

Em uma manhã de segunda-feira no mês passado, executivos de tecnologia, engenheiros e representantes de vendas da Amazon, Google, TikTok e outras empresas enfrentaram um engarrafamento de três horas enquanto seus carros se arrastavam em direção a uma conferência gigantesca em um espaço de eventos no deserto, a 80 quilômetros de Riad, na Arábia Saudita. O atrativo: bilhões de dólares sauditas, com os quais o país busca construir uma indústria de tecnologia para complementar sua dominação no petróleo. “Para o Futuro”, dizia uma placa na chegada do evento, chamado Leap. 

Mais de 200 mil pessoas se reuniram na conferência, incluindo Adam Selipsky, CEO da divisão de computação em nuvem da Amazon, que anunciou um investimento de US$ 5,3 bilhões na Arábia Saudita para data centers e IA. Arvind Krishna, CEO da IBM, falou sobre o que um ministro do governo chamou de “amizade vitalícia” com o reino. Executivos da Huawei e dezenas de outras empresas fizeram discursos. Mais de US$ 10 bilhões em acordos foram fechados lá, de acordo com a agência de imprensa estatal da Arábia Saudita. “Este é um grande país”, disse Shou Chew, CEO do TikTok, durante a conferência, elogiando o crescimento do aplicativo no reino. “Esperamos investir ainda mais.” 

Todos no setor de tecnologia parecem querer fazer amizade com a Arábia Saudita, já que o reino mirou em se tornar um agente dominante em IA —e está investindo somas impressionantes para isso. 

A Arábia Saudita criou um fundo de US$ 100 bilhões este ano para investir em IA e outras tecnologias. Está em negociações com a Andreessen Horowitz, empresa de capital de risco do Vale do Silício, e outros investidores para injetar mais US$ 40 bilhões em empresas de IA. Em março, o governo disse que investiria US$ 1 bilhão em um acelerador de startups inspirado no Vale do Silício para atrair empreendedores de IA para o reino. As iniciativas facilmente superam a maioria dos investimentos de países grandes. A ofensiva de gastos decorre de um esforço geracional delineado em 2016 pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e conhecido como “Visão 2030”. A Arábia Saudita está correndo para diversificar sua economia rica em petróleo em áreas como tecnologia, turismo, cultura e esportes —investindo cerca de US$ 200 milhões por ano para o astro do futebol Cristiano Ronaldo e planejando um arranha-céu espelhado de 160 quilômetros no deserto. 

Para a indústria de tecnologia, a Arábia Saudita há muito tempo tem sido uma fonte de financiamento. Mas o reino agora está redirecionando sua riqueza petrolífera para construir uma indústria de tecnologia doméstica, exigindo que empresas internacionais estabeleçam raízes lá se quiserem seu dinheiro. Se o príncipe herdeiro Mohammed tiver sucesso, ele colocará a Arábia Saudita no meio de uma competição global crescente entre China, Estados Unidos e outros países, como França, que fizeram avanços em IA generativa. 

Combinados com os esforços de IA de seu vizinho, os Emirados Árabes Unidos, o plano da Arábia Saudita tem o potencial de criar um novo centro de poder na indústria global de tecnologia. 

 Em Washington, muitos se preocupam que os objetivos do reino e suas inclinações autoritárias possam ir contra os interesses dos EUA —por exemplo, se a Arábia Saudita acabar fornecendo poder computacional a pesquisadores e empresas chinesas. Neste mês, a Casa Branca intermediou um acordo para a Microsoft investir na G42, uma empresa de IA dos Emirados Árabes Unidos, que tinha como objetivo diminuir a influência da China. 

Para a China, a região do Golfo Pérsico oferece um grande mercado, acesso a investidores endinheirados e a chance de exercer influência em países tradicionalmente aliados aos Estados Unidos. Alguns líderes do setor já começaram a chegar. Jürgen Schmidhuber, um pioneiro em IA que agora lidera um programa de IA na principal universidade de pesquisa da Arábia Saudita, a King Abdullah University of Science and Technology, lembrou as raízes do reino séculos atrás como um centro de ciência e matemática. “Seria ótimo contribuir para um novo mundo e ressuscitar essa era de ouro”, disse ele. “Sim, custará dinheiro, mas há muito dinheiro neste país.” 

A universidade, conhecida como Kaust, tornou-se um local do confronto tecnológico EUA-China. Inspirada em universidades como Cal-Tech, a Kaust atraiu líderes estrangeiros em IA e forneceu recursos computacionais para construir um epicentro de pesquisa em IA. 

Para alcançar esse objetivo, a Kaust muitas vezes recorreu à China para recrutar estudantes e professores e estabelecer parcerias de pesquisa, alarmando autoridades dos EUA. De particular preocupação é a construção pela universidade de um dos supercomputadores mais rápidos da região, que necessita de milhares de microchips fabricados pela Nvidia, líder do setor. 

O pedido de chips da universidade, com um valor estimado de mais de US$ 100 milhões, está sendo retido para análise pelo governo dos EUA, que deve fornecer uma licença de exportação para a venda ser concluída. Schmidhuber está aguardando a conclusão do supercomputador, Shaheen 3, que é uma oportunidade para atrair mais talentos de ponta para o Golfo Pérsico e dar aos pesquisadores acesso a poder de computação frequentemente reservado para grandes empresas. “Nenhuma outra universidade terá algo semelhante”, disse ele. 

Alguns em Washington temem que o supercomputador possa fornecer aos pesquisadores de universidades chinesas acesso a recursos de computação de ponta que eles não teriam na China. Schmidhuber disse que o governo saudita está em última instância alinhado com os Estados Unidos. Assim como a tecnologia dos EUA ajudou a criar a indústria de petróleo da Arábia Saudita, ela desempenhará um papel crítico no desenvolvimento de IA. “Ninguém quer colocar isso em risco”, disse ele. 

A Arábia Saudita já foi vista como uma fonte de dinheiro sem muitas contrapartidas. Agora, ela adicionou condições aos seus acordos, exigindo que muitas empresas estabeleçam raízes no reino para participar do ganho financeiro. Isso foi evidente na Gaia, um acelerador de startups de IA, para o qual autoridades sauditas anunciaram US$ 1 bilhão em financiamento no mês passado. 

Cada startup no programa recebe uma bolsa no valor de cerca de US$ 40 mil em troca de passar pelo menos três meses em Riad, juntamente com um investimento potencial de US$ 100 mil. Os empreendedores são obrigados a registrar sua empresa no reino e gastar 50% do seu investimento na Arábia Saudita. Eles também recebem acesso a poder de computação da Amazon e do Google gratuitamente. Aproximadamente 50 startups —incluindo de Taiwan, Coreia do Sul, Suécia, Polônia e Estados Unidos— passaram pelo programa da Gaia desde o seu início, no ano passado. “Queremos atrair talentos e queremos que eles permaneçam”, disse Mohammed Almazyad, gerente de programa da Gaia. 

“Costumávamos depender muito do petróleo, e agora queremos diversificar.” Um dos maiores atrativos para as startups de IA é a chance de tornar o governo saudita, com fundos robustos, um cliente. Em uma reunião recente, Abdullah Alswaha, um ministro sênior de comunicações e tecnologia da informação, pediu às startups da Gaia que sugerissem o que poderiam fornecer para o governo saudita. Depois, muitas das empresas receberam mensagens apresentando-as a empresas estatais, disse Almazyad. 

Decidir estabelecer-se em Riad traz desafios. Há o calor, que ultrapassa os 40 graus no verão, bem como os ajustes de mudar para um país muçulmano profundamente religioso. Embora a Arábia Saudita tenha flexibilizado algumas restrições nos últimos anos, a liberdade de expressão permanece limitada e pessoas LGBTQ+ podem enfrentar acusações criminais. Almazyad disse que as diferenças culturais podem dificultar a contratação de talentos internacionais de IA. Mas ele alertou contra subestimar a determinação da Arábia Saudita. “Isso é apenas o começo”, disse. 

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2024/04/arabia-saudita-investe-para-ir-alem-do-petroleo-e-se-tornar-potencia-da-ia.shtml

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