Buffett entra na contramão do trem ESG

CVM deu aval à regra da B3 que pede pelo menos uma mulher e um integrante de “comunidade subrepresentada” no conselho ou na diretoria

 Nelson Niero – Valor – 03/08/2023

Uma semana antes da tradicional assembleia anual dos acionistas da Berkshire Hathaway, do investidor Warren Buffett, o jornalista Roger Lowenstein escreveu um ensaio para o jornal “The New York Times” no qual discorre longamente sobre o que aquele que foi chamado de “oráculo de Omaha” pensa sobre a pressão crescente de fundos, governo e outros lobbies para que as empresas sejam “agentes de mudança social”.

Lowenstein, que escreveu a biografia “Warren Buffett: A Formação de um Capitalista Americano” (Nova Fronteira, 1997), começa o artigo dando as credenciais progressistas do investidor, que “doou milhões para organizações pró-aborto, levantou recursos para Barack Obama e Hillary Clinton e sempre pede mais impostos para os ricos”.

Provavelmente esse primeiro parágrafo foi o único que agradou o leitor médio do “NYT”, a bíblia da esquerda americana. Na sequência, o jornalista só tem críticas à pauta de interferência externa no sistema de governança das companhias com ações em bolsa para dar espaço aos chamados “stakeholders”, em detrimento dos acionistas que puseram seu capital no empreendimento. “Buffett é definitivamente contra a ortodoxia progressista nos conselhos de administração”, escreve Lowenstein.

Buffett é democrata, mas definitivamente não é “woke”. O termo ganhou as mídias durante os tumultos provocados pelo movimento “Black lives matter” e é usado genericamente para definir os “engajados” de esquerda na guerra cultural com a direita conservadora. Para estar no lado certo da história é preciso ser “woke”, algo como não ser “careta” nos anos 1960. (Foi nessa época que Buffett trocou os republicanos, partido do seu pai, congressista por quatro mandatos, pelos democratas, por causa do engajamento do partido na luta pelos direitos civis.)

Não demorou para começar a circular também o termo capitalismo “woke”, ativismo que junta questões climáticas, diversidade e governança empresarial, que atualmente faz morada na sigla onipresente ESG. O período da pandemia teve um papel relevante nessa consolidação do conceito de “capitalismo de stakeholder” (com forte empenho do Fórum Econômico Mundial, segundo o qual “o propósito de uma companhia é engajar todos seus stakeholders numa criação de valor compartilhada e sustentável”), porém o momento que marcou a ruptura veio antes, em agosto de 2019, quando o tradicional The Business Roundtable, associação de executivos, declarou ter deixado de acreditar que a principal função das companhias é dar retorno aos seus acionistas. “É como se o Partido Comunista dissesse que os trabalhadores não eram mais sua preocupação principal”, comparou Lowenstein.

O que a poderosa entidade de lobby fez, na prática, foi revogar a “lei” do economista americano Milton Friedman, desenvolvida no livro “Capitalismo e Liberdade” e exposta num famoso artigo também no “NYT”, em 1970. “Há uma e apenas uma responsabilidade social da empresa – usar seus recursos e se envolver em atividades destinadas a aumentar seus lucros, desde que permaneça dentro das regras do jogo, ou seja, participe de uma concorrência aberta e livre, sem fraudes.” O executivo, especialmente numa companhia com controle disperso, é um funcionário dos acionistas e deve usar seu tempo e os recursos da empresa para obter os melhores resultados para os seus patrões.

Ao desempenhar sua função com diligência, o executivo vai fazer com que a empresa sobreviva, cresça e distribua a riqueza que criou aos seus acionistas, funcionários, prestadores de serviços, fornecedores, fornecedores dos fornecedores e à burocracia estatal, esta sim obrigada a cuidar das questões sociais. Esse foi o circuito impresso da máquina que transformou os Estados Unidos na maior e a mais dinâmica economia do planeta e criou o ambiente que fez surgir empresas da garagem ao bilhão em alguns anos.

Não mais. O novo dogma imposto com grande ênfase por gestores e fundos de pensão “ativistas” que administram trilhões em recursos é que a as empresas têm que dar lucro – sim, porque os salários, honorários e impostos têm que vir de algum lugar -, mas também têm que salvar o mundo – delas mesmas, em alguns casos, como das demonizadas petrolíferas.

Mesmo assim, ainda falta combinar com os acionistas. O Calpers, maior fundo de pensão dos EUA, até tentou tirar Buffett da presidência do conselho da Berkshire e forçar a empresa a adotar pautas relacionadas a clima e diversidade. Os indivíduos que entregaram suas economias para Buffett administrar preferiram não arriscar e barraram a mudança.

A disputa pelo coração das empresas não só chegou ao Brasil, como já foi institucionalizada. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), regulador do mercado de capitais, deu aval à regra da B3 que pede – na modalidade “pratique ou explique” – pelo menos uma mulher e um integrante de “comunidade subrepresentada” – no conselho ou na diretoria. Segundo a bolsa, a medida “induz práticas que atenuam desigualdades presentes na sociedade brasileira”.

Como se diz no mercado de ações, é temerário ir contra o fluxo. É quase digno de meme que um nonagenário se disponha a ficar na frente dessa onda gigantesca. No entanto, poucos como ele têm o histórico e o estofo para ir contra a corrente. Como ele é um “contrarian” quando se trata de investimentos, está acostumado a remar rio acima e fugir da manada. E pode ter ainda algumas lições para ensinar aos reformadores do capitalismo.

Nelson Niero é editor de S.A. do Valor Econômico.

E-mail: nelson.niero@valor.com.br

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Empresas brasileiras perdem funcionários para companhias estrangeiras

Pesquisa feita com 81 organizações apontou que mais da metade recebeu, nos últimos dois anos, pedidos de demissão de profissionais que decidem trabalhar para o exterior em modelo remoto

Por Fernanda Gonçalves, Para o Valor 28/06/2023

Uma nova pesquisa descobriu que, nos últimos dois anos, 54% das empresas brasileiras perderam funcionários para companhias que atuam fora do país. No modelo em questão, o profissional continua vivendo no Brasil, mas trabalha em formato remoto para empresas estrangeiras.

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O estudo, obtido com exclusividade pelo Valor, foi realizado pela Think Work, plataforma de conhecimento sobre gestão de pessoas, em parceria com a Atlas, HR tech focada em contratações internacionais. Ao todo, foram ouvidas 81 organizações.

Dentro do grupo de empresas que relataram receber pedidos de demissão de funcionários que resolvem atuar para companhias de fora do Brasil, 41% afirmam que isso acontece com alguma frequência e 7% consideram a situação bastante comum.

Diante desse cenário, mais de 60% dos respondentes preveem problemas relacionados à falta de trabalhadores no próximo ano. Tatiana Sendin, CEO da Think Work, observa que o maior desafio está na área de tecnologia, já que empresas de diversos setores estão em busca de profissionais que as auxiliem na digitalização de processos e na inovação. “A contratação de brasileiros por organizações no exterior adiciona mais um desafio na tarefa do RH de atrair e manter os funcionários”, lembra.

O levantamento também descobriu que uma das soluções encontradas pelas empresas é, justamente, buscar ou contratar pessoas residentes em outros países. Assim, cerca de 27% das companhias têm feito esse movimento e outras 23% dizem estar considerando essa possibilidade. Ao mesmo tempo, para quase 10% dos respondentes da pesquisa, a expectativa é que, em dois anos, mais de 20% da força de trabalho seja encontrada no exterior.

“Isso vai exigir mudanças na maneira como as organizações atraem e contratam os funcionários, além de uma transformação cultural”, analisa Sendin. “Tanto o RH como os líderes devem estar abertos para a possibilidade de talentos globais, localizados não só em outras cidades, mas em outros países”.

Ela acredita que, para as empresas, essa é uma boa maneira de adicionar talentos diversos aos seus quadros. “Além dos conhecimentos técnicos, os funcionários estrangeiros trazem uma visão cultural e experiência de vida diferentes, o que pode contribuir com a estratégia de diversidade e com a transformação da cultura organizacional”, pontua.

Já para o profissional, Sendin explica que a principal vantagem reside em poder permanecer em seu país de origem, próximo aos familiares e, ao mesmo tempo, ter a oportunidade de conhecer outras culturas e ampliar sua empregabilidade ao se expor a ofertas de trabalho além do mercado local.

Além disso, ela destaca que o trabalhador muitas vezes tem a possibilidade de adaptar sua rotina de acordo com o horário de funcionamento da empresa. “Por exemplo, uma mãe ou um pai que vive na Europa e trabalha para uma empresa brasileira, com uma diferença de fuso horário de quatro ou cinco horas, pode dedicar as manhãs para cuidar dos filhos e começar a trabalhar depois do almoço, iniciando a jornada ainda pela manhã no Brasil”, detalha.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/06/28/empresas-brasileiras-perdem-funcionarios-para-companhias-estrangeiras.ghtml

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Saiba quais são os sete empregos que causam mais infelicidade, de acordo com Harvard

Estudo analisou mais de 700 profissionais desde 1938 e determinou que alguns fatores são capazes de diminuir ou aumentar a alegria no trabalho

Por Revista Época/La Nacion — 31/07/2023 

Universidade de Harvard conduziu um estudo desde 1983 com mais de 700 profissionais para descobrir quais fatores são capazes de aumentar ou diminuir a felicidade no trabalho Universidade de Harvard conduziu um estudo desde 1983 com mais de 700 profissionais para descobrir quais fatores são capazes de aumentar ou diminuir a felicidade no trabalho Freepik

Ao longo da vida, as pessoas procuram encontrar a felicidade, que pode estar nas relações pessoais e, em algumas ocasiões, até no trabalho. No entanto, um estudo de Harvard revelou que nem todos os empregos podem gerar este sentimento — e, em algumas ocasiões, podem até causar o extremo oposto.

Quais são os empregos que causam mais infelicidade?

Para descobrir este dado, a Universidade de Harvard conduziu um estudo de 85 anos, desde 1938, com mais de 700 profissionais de todo o mundo e os questionou sobre suas vidas profissionais a cada dois anos. O objetivo era determinar quais fatores são capazes de aumentar ou diminuir a felicidade no trabalho. Como resultado, descobriram que as profissões mais infelizes são, na maioria das vezes, as mais solitárias, nos quais os funcionários não têm a oportunidade de trabalhar com uma equipe.

O estudo conclui que o segredo para viver uma vida mais feliz, saudável e longa, não é dinheiro, sucesso profissional, exercícios ou uma dieta saudável – relacionamentos positivos são o que tornam as pessoas felizes ao longo de suas vidas. E isso também se aplica ao nosso trabalho.

Isso porque, segundo os pesquisadores, as tarefas solitárias fazem com que as horas de trabalho pareçam mais longas. A falta de interações sociais também afeta negativamente a saúde, situação que costuma se agravar, de acordo com o estudo, quando se adicionam rotações ou turnos noturnos.

Nesse sentido, a Universidade de Harvard estabeleceu que estes são os sete empregos que geram maior insatisfação nos trabalhadores:

  1. Entregadores
  2. Motoristas de caminhões de longa distância
  3. Guardas de segurança
  4. Trabalhos com horários noturnos, como vigilantes e porteiros
  5. Trabalhos remotos
  6. Atendimento ao cliente
  7. Comércio varejista

Na lista, há trabalhos que oferecem serviço ao cliente. Na pesquisa, é explicado que isso se deve às interações negativas, uma vez que é difícil lidar com pessoas impacientes ou com problemas constantes. É por isso que os funcionários costumam se sentir mais frustrados e estressados.

— Nós sabemos que pessoas em call centers estão comumente estressadas, principalmente porque elas ficam no telefone o dia todo com clientes frustrados e impacientes — disse Robert Waldinger, professor de psiquiatria da Harvard Medical School e diretor do Harvard Study Of Adult Development, um dos estudos mais antigos sobre felicidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, ao “CNBC Make It”.

Socializar faz bem para a saúde mental

A pesquisa também aborda a importância das relações interpessoais no trabalho, que podem ajudar a aliviar o sentimento de solidão, além do estresse que pode ser gerado por um dia cansativo. Além disso, reforça que o trabalho em equipe é necessário não apenas para a produtividade, mas também para o moral dos funcionários.

Waldinger ressalta que as expectativas do líder de uma equipe também são relevantes.

— Se você é incentivado a trabalhar em equipe, a construção de relações é facilitada. O mesmo não acontece se o esperado é que o funcionário trabalhe sempre sozinho ou que entre em competição com os colegas — afirmou o pesquisador, destacando que as relações no ambiente de trabalho devem ser levadas em consideração na hora de buscar um emprego, assim como se faz com outros benefícios.

Dicas para melhorar o ambiente de trabalho:

  • O desenvolvimento de vínculos com seus colegas de equipe pode ajudá-lo muito a trabalhar de forma mais inteligente e também a elevar seu moral.
  • Tente encontrar colegas de trabalho que compartilhem seus interesses. Forme um grupo ou clube com eles, como um clube do livro ou uma comunidade de jogos.
  • Não tenha medo de pedir ajuda ou orientação. Esteja pronto para ajudar os outros também.
  • Se possível, tente encontrar locais de trabalho onde a comunicação com seus colegas de equipe sobre assuntos não relacionados ao trabalho seja permitida.
  • Se o seu gerente ou a cultura do trabalho valorizar o trabalho em equipe, isso se tornará muito mais fácil.

– Relacionamentos positivos no trabalho levam a níveis mais baixos de estresse e a menos dias em que voltamos para casa chateados – explica o professor Waldinger.

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Como os oceanos viraram novos campos de batalha da tecnologia; leia o artigo da Economist

A Ucrânia repeliu a Frota Russa no Mar Negro; mas drones navais podem são ser suficientes para derrotar os russos

Por The Economist – 25/07/2023 |

“Frotas maiores vencem”, afirma o almirante James Parkin, diretor de desenvolvimento da Marinha britânica. Dentre 28 batalhas navais, afirma ele, todas exceto uma foi vencida pela frota maior. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, no ano passado, os russos tinham cerca de 20 navios de guerra no Mar Negro.

A Marinha ucraniana mal existia. No primeiro dia da guerra, os ucranianos afundaram a única fragata que possuíam — um cruzador enferrujado, da era soviética, no qual este correspondente embarcou a caminho de Odessa — para impedir que a embarcação caísse nas mãos dos russos. Mas a guerra no mar, assim como na terra, desmentiu expectativas. “Depois da guerra nós certamente escreveremos uma cartilha”, afirma o vice-almirante Oleksii Neizhpapa, comandante da Marinha ucraniana, “e a mandaremos para as academias militares da Otan”.

O ponto de inflexão ocorreu em 14 de abril de 2022, quando a Ucrânia afundou o cruzador russo Moskva, a maior perda naval desde a Guerra das Malvinas, em 1982. A Frota Russa no Mar Negro se afastou prontamente da costa e atualmente se localiza em posições entre 180 quilômetros e 280 quilômetros distantes da costa ucraniana, afirma o almirante Neizhpapa. Isso baixou a ameaça de um ataque anfíbio contra Odessa: obstáculos antitanques que bloqueavam estradas foram retirados, e soldados rumaram para outras partes do front — o que abriu caminho para o acordo de julho no qual a Rússia concordou em permitir que a Ucrânia continue importando grãos. Isso ajuda não apenas a Ucrânia, que tinha 70% das exportações anteriores à guerra atravessando o Mar Negro, mas também países importadores de grãos no Sul Global.

A operação que afundou o Moskva não teve nada de revolucionária. “Para mim, isso mostra a importância de se ter mísseis em terra para combater navios, minas submarinas e boa inteligência”, afirma Niklas Granholm, da Agência Sueca de Pesquisa em Defesa (FOI), “instalados simultaneamente em um conceito operacional coerente”. A sorte desempenhou um papel: condições atmosféricas podem ter permitido aos radares ucranianos enxergar excepcionalmente mais longe. Assim como a inépcia russa. Da mesma forma que suas massivas perdas de tanques se deveram a táticas ruins, não à mudança tecnológica que tornou sua blindagem obsoleta, portanto o caso do Moskva é uma lição sobre a importância de se fazer o básico corretamente.

Ser atingido é uma coisa; não conseguir combater o incêndio subsequente é outra. “Controle de danos segue sendo uma métrica crítica à qual padrões navais profissionais devem atender”, conclui Alessio Patalano, da King’s College London. “No dia do afundamento, colegas do Exército me confrontaram: será mesmo este o fim do argumento pela construção de grandes navios de guerra?”, recorda-se o comandante da Marinha norueguesa, Rune Andersen. “Eu disse, ‘Não, é o fim da era dos navios com 40 anos de idade não modernizados sem tripulações treinadas’.” Uma embarcação de guerra mais nova, com melhores defesas antiaéreas e uma tripulação mais sagaz poderia ter resistido aos mísseis ucranianos.

A contenda naval encontra-se em um impasse. A Ucrânia conquistou um bloqueio do acesso marítimo nas proximidades de sua costa, impedindo os navios russos de se aproximar. Mas os aviões militares russos voam livremente, evitando que embarcações de guerra ucranianas deixem os portos. O resultado é uma “zona cinzenta” de 25 mil quilômetros quadrados no noroeste do Mar Negro, na qual nenhum dos lados pode “mover-se livremente”, afirma o almirante Neizhpapa.

A Frota Russa no Mar Negro se posiciona em relativa segurança, impondo um bloqueio distante e disparando com frequência mísseis de cruzeiro Kalibr contra a Ucrânia. Kiev tem dados de inteligência claros a respeito da movimentação da frota graças aos americanos e aos britânicos, que colocam o foco em dados produzidos por satélites e aeronaves de vigilância. Mas faltam aos ucranianos mísseis com alcance suficiente para atingir o que eles têm capacidade de enxergar. Isso os tem forçado a apelar para outros meios.

Uma característica impressionante desta guerra tem sido o uso da Ucrânia de embarcações de superfície não tripuladas (ESNTs), essencialmente drones navais, para atingir territórios controlados pelos russos. Os barcos não tripulados foram acionados em outubro e novembro, juntamente drones aéreos, para atacar Sevastopol, o quartel-general da Frota Russa no Mar Negro e o entreposto petrolífero de Novorossiisk, um porto russo. Outros ataques se seguiram, incluindo um tiro aparentemente bem-sucedido contra um barco-espião próximo ao Bósforo, em 24 de maio. Esses eventos reeditam uma longa tradição de guerra naval.

Rebeldes houthi, apoiados pelo Irã, usaram uma ESNT para atacar uma fragata saudita em 2017. Os EUA testam barcos-drone desde os anos 40. Mas a eletrônica moderna, as ferramentas poderosas de inteligência artificial e as comunicações via satélite onipresentes — no caso da Ucrânia por meio da Starlink — tornaram possíveis ESNTs compactos, menos detectáveis por radares e que possuem capacidade de navegar longas distâncias e encontrar alvos. A Ucrânia não tem capacidade de enfrentar a Frota Russa no Mar Negro de igual para igual. Mas é capaz de danificar seus portos e prejudicar sua logística.

“Drones são elementos muito importantes da nossa guerra neste momento”, afirmou o almirante Neizhpapa. “A guerra do futuro será a guerra dos drones.” Ele acrescenta que a Ucrânia está aprendendo com a prática. “Nenhum outro país tem mais experiência no uso de drones navais.” Resta saber se isso será suficiente para romper o bloqueio russo. Um ataque contra Sevastopol em março parece ter sido repelido, com o uso de uma ESNT bloqueada por uma explosão e outros dois barcos-drone destruídos por fogo de metralhadoras. Nem todas as ESNT romperão linhas. Mas a tecnologia está se provando útil em outra frente, mais obscura, da guerra naval.

Gasodutos

Em 26 de setembro de 2022, explosões arrebentaram os gasodutos Nord Stream 1 e 2, entre Rússia e Alemanha, no Mar Báltico. A responsabilidade pelos ataques segue desconhecida. Mas os incidentes sublinharam a vulnerabilidade da infraestrutura submarina a sabotagens. A vigilância da Rússia sobre tubulações e cabos submarinos remonta a décadas, é fornida de recursos e cresce em intensidade, de acordo com autoridades de segurança americanas e europeias.

Em abril, um documentário escandinavo revelou detalhes a respeito de uma frota de embarcações russas disfarçadas de barcos de pesca ou pesquisa que opera no Mar do Norte. Um desses navios, o Almirante Vladimirski, foi detectado nas proximidades de sete fazendas eólicas nas águas das costas britânica e holandesa numa mesma viagem. Quando jornalistas se aproximaram, foram recebidos por homens armados e mascarados.

Proteger cada centímetro de cabos ou tubulações é impossível, reconhecem autoridades navais. Mas drones são parte da resposta. Após os ataques contra os gasodutos Nord Stream, os governos europeus quiseram se preparar para possíveis ameaças. O almirante Andersen afirma que a Noruega conversou com empresas privadas que trabalham em atividades no exterior como extração e processamento de petróleo e gás. “Nós descobrimos uma indústria com um enorme senso de responsabilidade e disposição para contribuir.”

Dentro de dias ele obteve 600 drones submarinos avançados, uns operados remotamente e outros autônomos. Trabalhando com Reino Unido, Dinamarca, Alemanha e Países Baixos, os equipamentos escanearam “cada centímetro” dos gasodutos instalados em 9 mil quilômetros quadrados de leito marinho, para depois monitorar cabos de energia e dados. O projeto mostrou como a tecnologia, que antes se movia do mundo militar para o civil, poderá agora mover-se na direção oposta. Em 15 de fevereiro, a Otan estabeleceu uma nova célula de coordenação submarina crucial para encorajar esse tipo de cooperação em defesa.

Agressões são outra questão. O paradoxo é que os países que ajudam a Ucrânia a construir esses sistemas — com frequência sob sigilo profundo — e fornecem a Kiev dados de inteligência necessários para usá-los com eficácia, como mapas atualizados de interferências russa nas comunicações, são, eles próprios, tolhidos em sua capacidade de desenvolver essas mesmas tecnologias domesticamente. “As coisas que uma empresa britânica financiada com dinheiro de contribuintes britânicos e consistente com interesses britânicos pode fazer na Ucrânia eu não posso fazer dentro do Reino Unido porque leis de tempos de paz as proíbem”, lamenta-se o almirante Parkin.

Autoridades marítimas europeias não querem barcos-drone perdendo o curso e acabando em águas civis. Isso evita que Marinhas realizem treinamentos e experimentos tão ousados quanto poderiam. Pobre do ambicioso almirante. “Estamos num instante em que embarcações de superfície não tripuladas são equivalentes a um farol vermelho diante de um carro de corrida.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

https://www.estadao.com.br/internacional/como-os-oceanos-viraram-novos-campos-de-batalha-da-tecnologia-leia-o-artigo-da-economist/

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Finlândia, país mais feliz do mundo, indica banho gelado e carne de rena para ser feliz

Brasileira participa de curso de felicidade promovido pela nação nórdica, 1ª colocada no World Happiness Report, da ONU

Ivan Finotti – Folha – 29.jul.2023 

Carne de rena e banho gelado toda manhã. Ninguém disse que ser feliz é fácil, mas, de acordo com os finlandeses, encarar essas duas tarefas já é meio caminho andado.

Quem testou a receita foi a brasileira Laura Petrolino, uma das 14 pessoas de todo o mundo a participar do “Masterclass of Happiness” (aulas de felicidade), que a Finlândia promoveu em junho.

 Laura Petrolino no lago do resort onde foi realizado o curso de felicidade promovido pelo governo da Finlândia

Laura Petrolino no lago do resort onde foi realizado o curso de felicidade promovido pelo governo da Finlândia – jun.23/Arquivo Pessoal

Os finlandeses sabem do que estão falando: em março, o país foi eleito, pela sexta vez consecutiva, o mais feliz do mundo, segundo o World Happiness Report (relatório mundial da felicidade), da ONU.

De olho em dividir tanta alegria, e, claro, promover o turismo no país, a agência estatal Business Finland promoveu o curso do qual Laura participou. Além das aulas, toda a viagem foi paga pelo governo.

“Realmente aprendi formas de ser mais feliz no dia a dia”, diz Laura. “Mas há muitos aspectos da felicidade finlandesa que não temos como replicar. O fato de não haver corrupção é um deles.”

Lá fora

De fato, a “percepção de corrupção” é um dos sete indicadores usados pela ONU para listar os países no relatório. Os outros são PIB per capita, expectativa de vida saudável, liberdade, generosidade, apoio social e um questionário em que o instituto Gallup pergunta que nota, de 0 a 10, as pessoas dariam à sua vida.

O curso aconteceu no Kuru Resort, próximo à cidade de Rantasalmi, na região conhecida por seus 4.000 lagos. E a primeira tarefa do primeiro dia foi justamente o banho gelado. “Toda manhã, íamos pelo píer de madeira e pulávamos no lago. Na hora, é horrível. Mas após uns 40 segundos seu corpo fica anestesiado. O mergulho dura cinco minutos. Quando a gente saía, a toalha queimava no corpo”, conta a paulista, que emigrou há dois anos e meio para a Holanda para trabalhar como gerente de projetos de marketing.

“Sentia o corpo funcionando. O banho te deixa mais acordado, mais ativo e faz o sangue circular mais.”

Na aula “Natureza e Modo de Vida”, Laura fez trilhas pela floresta ao redor, coletando frutas e temperos, o que é permitido para a população em toda a Finlândia. Depois, conheceu um ermitão que vive a quilômetros da civilização, sem eletricidade ou gás, e que caça, pesca e colhe tudo o que come.

A segunda aula foi batizada de “Design e Cotidiano”. “Os finlandeses têm um design prático e funcional, com coisas pensadas para durar a vida inteira. Tudo é local. Fizemos um tapete de lã numa fazenda de ovelhas e aprendemos que os móveis são feitos apenas com madeira da região”, afirma Laura.

Participantes do curso de felicidade promovido pelo governo da Finlândia – Acervo Pessoal

“Saúde e Equilíbrio” foi o tema seguinte, no qual os finlandeses defenderam “confiança” como palavra-chave para encarar a felicidade. Em relação a si mesmos, eles usam “sisu” (autoconfiança e força interior), termo que também abarca, por exemplo, os vizinhos, as instituições e sua menor desigualdade social.

“A Finlândia não é um país consumista. Várias marcas de fast food e de roupas de grife não deram certo lá e fecharam suas lojas. Eles se vestem de forma básica: branco, preto, cinza e bege em todas as estações.”

“Alimentação e Bem-Estar” foi a última aula, na qual o chef Remi Trémouille apresentou a tal carne de rena. Nos seis dias em que a paulista passou lá, serviram rena ao menos quatro vezes para o grupo, grelhada ou no ravioli. Laura, vegetariana, não experimentou, o que segundo a receita finlandesa a deixou menos feliz.

“O chef nos ensinou a fazer canapés com rena fina e grelhada, além de uma pasta de ervilhas frescas, tudo com itens locais e temperos colhidos na floresta.” O restaurante do resort, o Solitary, aliás, só trabalha com ingredientes produzidos, pescados, caçados ou colhidos na área de 30 km ao redor.

Laura Petrolino no resort onde aconteceu o curso de felicidade – Acervo Pessoal

De volta à Holanda, Laura diz que tem aproveitado as dicas no dia a dia. “Passei a ser menos materialista, compro menos por impulso, pedalo, vou ao parque por dez minutos após um dia estressante, compro alimentos da estação e medito lembrando dos sentimentos que tinha naquele lago finlandês.”

Ela planeja voltar à Finlândia nas férias do ano que vem, desta vez com o namorado. E, claro, também incorporou a ducha gelada à sua rotina, todas as manhãs, por cinco minutos. “É até um pouco frustrante que o segredo da felicidade seja tão simples, né? Mas ela está aí, à disposição de todos.”

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O manual de instruções que falta à GenZ para desenvolver suas habilidades

Esta geração enfrentou obstáculos inéditos antes de entrar no mercado de trabalho. É nosso trabalho ajudá-los a preencher as lacunas


Ana Homayoun – Fast Company Brasil – 26-07-2023 | 

Até 2030, a geração Z representará um terço da força de trabalho, mas o caminho deles não será fácil. Afinal, a pandemia afetou a educação desses jovens que, ainda por cima, estão entrando em um ambiente de negócios em rápida mudança para atender às preocupações climáticas, tecnológicas e econômicas.

Embora sejam conhecidos por serem os primeiros “nativos digitais”, a geração mais instruída e a mais diversa racial e etnicamente, eles também são descritos por estigmas contraditórios: os mais endividados; os mais preocupados com dinheiro e estabilidade e “a geração mais solitária”.

Para os empregadores, é importante saber o que os especialistas dizem sobre os obstáculos que a geração Z tem enfrentado nos últimos anos. Muitos estão entrando no mercado de trabalho sem algumas habilidades críticas, muitas vezes invisíveis, para interagir com colegas e lidar com a vida profissional. Uma situação que pode levar à frustração e ao esgotamento não apenas para eles, mas também para seus chefes e colegas de trabalho.

O que os empregadores podem fazer?

1. Reconheça as lacunas e tente compensá-las 

“A maioria das lacunas dessa geração tem a ver com o que chamo de ‘habilidades de poder’, muitas vezes chamadas de

aqueles que não enxergam chances de serem promovidos rapidamente abandonam o barco.

soft skills – a capacidade de conversar, de fazer contato visual, de apertar as mãos ou de partilhar uma refeição em uma mesa com várias pessoas. São tipos de comportamento considerados indicativos de uma sociedade que é social”, diz Kaye Monk-Morgan, presidente e CEO do Kansas Leadership Center, que passou mais de 25 anos trabalhando com estudantes universitários.

Depois que a formação universitária e os estágios foram alterados pela pandemia, muitos membros da geração Z tiveram pouquíssima experiência de trabalho no escritório. Trabalhar de casa os privou da chance de solucionar problemas na prática e de trabalhar em equipe em tempo real. Isso atrapalhou o desenvolvimento de habilidades de autodefesa, observa ela.

Como os GenZs viram suas rotinas diárias serem completamente alteradas durante seus principais anos de desenvolvimento, eles agora precisam de mais tempo, mais estrutura e maior suporte para criar estratégias de fluxo de trabalho, gerenciar distrações e desenvolver o “profissionalismo” que as gerações mais velhas consideram básico.

2. Comunique-se, comunique-se e depois… Comunique-se um pouco mais

Explicar como seu escritório funciona é essencial, diz Robin Blanchette, CEO e fundador da Norton Creative, agência de publicidade que tem 26 funcionários, 10 dos quais são da geração Z.

“Percebi que muitos carecem de habilidades tradicionais de redação e envio de e-mail. Não é que não saibam escrever, eles não necessariamente sabem para quem encaminhar, que pessoas copiar na lista de destinatários ou mesmo para quem enviar um e-mail”, diz Blanchette.

É importante pedir aos funcionários que acompanhem os recém-chegados em procedimentos importantes. Conforme os GenZs forem dominando esses processos, os veteranos devem procurar oportunidades para orientar os novos membros da equipe, para que eles possam gerenciar as expectativas e os sentimentos de incerteza, além de incentivá-los a sinalizar quando precisarem de alguma ajuda extra.

3. Seja empático com os objetivos de carreira deles

Entenda que o crescimento desejado e a trajetória de liderança podem ou não corresponder às suas habilidades, mas eles querem subir rapidamente e podem querer mudar de emprego para chegar lá.

Depois que a formação universitária e os estágios foram alterados pela pandemia, muitos membros da geração Z tiveram pouquíssima experiência de trabalho no escritório.

Cecilia Montalvo, por exemplo, se formou na faculdade em 2019 e trabalha como coordenadora de diversidade, equidade e inclusão na indústria do entretenimento desde então. Mas agora ela já está de olho no próximo movimento, e tem seus objetivos.

“Estou em um momento da minha carreira em que tento pensar e planejar o que é importante para mim e o que quero obter do meu trabalho. Nos próximos cinco a 10 anos, adoraria me tornar uma sócia de uma empresa de RH”, diz ela.

Mas alguns membros dessa geração são ansiosos e parecem querer ser promovidos mesmo que ainda não tenham qualificação ou capacidade de liderança, diz Monk-Morgan.

“Eles têm essa ideia de que podem fazer qualquer coisa. E de que querem estar no comando dentro de três anos, ou dentro de cinco anos.” Ela percebeu que aqueles que não enxergam chances de serem promovidos rapidamente abandonam o barco.

4. Ensine os benefícios de construir redes no trabalho

Montalvo admite que não sabia como os relacionamentos no trabalho poderiam ser importantes até que viu seu chefe buscar apoio em relacionamentos estabelecidos com colegas para lidar com situações emergenciais. “Não sabia que essa seria uma habilidade que eu precisaria desenvolver profissionalmente”, diz ela.

Agora, ela enxerga os projetos de trabalho como uma forma de descobrir como atuar em equipe. “Como podemos descobrir quais pontos fortes podem ser usados? Como podemos realmente construir uma equipe que trabalha em conjunto?”

5. Encare os desafios da geração Z como uma oportunidade de todos crescerem juntos

Toda geração teve que superar algo algo difícil, diz Blanchette, lembrando como os membros da geração X foram chamados de preguiçosos e os millennials, de difíceis. “Acho que grande parte dessas características advém do simples fato de que eles têm apenas 21 ou 22 anos.”

É bom que os veteranos acompanhem os recém-chegados em procedimentos importantes.

Ela sugere reformular as habilidades perdidas desta geração como uma oportunidade de reexaminar as políticas de gerenciamento e os procedimentos de treinamento para beneficiar a todos.

“Aceitamos muito facilmente essa ideia de que os alunos não estão preparados porque a universidade não fez o trabalho dela. Mas a realidade é que essa é a geração com a qual estamos trabalhando hoje”, diz Monk-Morgan, aproveitando seu tempo em um ambiente universitário e como chefe de um centro de liderança.

As regras que eles conheciam da escola deixaram de valer e um novo conjunto foi estabelecido. Agora, eles não sabem como se virar. Seus colegas mais experientes têm o dever moral de ajudar a orientá-los e de aprender com eles ao longo do caminho.


SOBRE A AUTORA

Ana Homayoun é educadora, escritora e conselheira acadêmica.


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Como a inteligência artificial pode mudar o foco das escolas? Veja o que diz a Unesco

Relatório mundial afirma que IA pode se ocupar de tarefas repetitivas, mas também há o risco de desestimular a reflexão do estudante

Por Renata Cafardo – Estadão – 26/07/2023 

A inteligência artificial pode se ocupar de tarefas repetitivas e facilitar a busca de informações na educação e isso faria com que as escolas se preocupassem em estimular habilidades importantes como pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas. Mas, ao mesmo tempo, a IA também pode, ao dar respostas rápidas, fazer com que o estudante deixe de refletir e de buscar soluções sozinho. Essa é uma das discussões que aparece no Relatório Global de Monitoramento da Educação 2023 da Unesco, divulgado nesta quarta-feira, 26, intitulado “A tecnologia na educação, uma ferramenta a serviço de quem?”

A IA também foi abordada durante o evento de apresentação do documento no Uruguai, do qual participaram ministros da Educação de vários países e outras autoridades internacionais. “A inteligência artificial vai substituir o docente? Não”, disse o diretor de Direitos Humanos para América Latina e Caribe do Banco Mundial, Jaime Saavedra, durante o evento.

Celular em sala de aula: quais países já proíbem e como isso afeta a aprendizagem?

“Mas o professor pode usá-la para ter informações mais fáceis, consumindo menos tempo, pode fazer exercícios mais interessantes para os alunos, e ter tempo para se dedicar ao que a tecnologia não faz, que é investir na criatividade, na reflexão, no pensamento”, completou. Segundo ele, a tecnologia pode acelerar os processos de aprendizagem. “Mas precisamos olhar para o fator humano, para os professores.”

O documento, que reúne evidências de pesquisas do mundo todo, expõe os benefícios da tecnologia na educação, mas faz também uma leitura crítica do uso não regulado e não moderado por educadores. É a primeira vez que o relatório anual da Unesco, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a educação, discute a tecnologia.

Segundo mostrou o Estadão, o documento indica que um em cada quatro países do mundo proíbe ou tem políticas sobre o uso do celular em sala de aula. Entre os que recentemente anunciaram a proibição estão Finlândia e Holanda.

Com relação à inteligência artificial, o relatório diz que é preciso que “haja mais evidências para entender se as ferramentas de inteligência artificial são capazes de mudar a forma pela qual os estudantes aprendem, para além do nível artificial de correção de erros”. Mas que ao simplificar o processo de obter respostas, “essas ferramentas poderiam exercer um impacto negativo na motivação do estudante de conduzir pesquisas independentes e achar soluções.”

A Unesco alerta ainda que a IA pode aumentar a desigualdade na educação se não souber considerar as diferentes formas e tempos de aprender.

Por outro lado, o texto diz que a inteligência artificial pode ajudar na identificação de plágio e de outras maneiras de burlar regras em trabalhos escritos de estudantes. A Unesco menciona que a inteligência artificial tem sido aplicada a jogos de aprendizagem imersiva, como aplicativos como Duolingo, de aprendizagem de línguas. E que ela pode ajudar a identificar quando os alunos não estão engajados na aprendizagem.

O texto fala ainda que ferramentas como o Chat GPT têm sido rapidamente adotadas por estudantes – cerca de 1 bilhão de pessoas por mês entram na plataforma. “Seus criadores acreditam que a inteligência artificial vai aumentar a eficácia dessas ferramentas de tal forma que seu uso pode se tornar generalizado, personalizando ainda mais a aprendizagem e reduzindo o tempo que os professores gastam em tarefas como correção e cálculo de notas, além de preparação de aulas”, diz o relatório.

Além disso, se “tarefas repetitivas forem cada vez mais automatizadas e mais empregos exigirem habilidades de pensamento mais importantes” as escolas serão pressionadas a desenvolver cada vez mais a reflexão em seus alunos. O trabalho dos professores também pode ser mudado caso a “tutoria inteligente” da AI se ocupe de algumas tarefas.

A questão, segundo a Unesco, é se a IA vai ser o ponto de virada na educação, que vem sendo discutido há anos desde que a tecnologia passou a ser inserida nas escolas. Para a organização, a inteligência artificial não pode substituir totalmente os professores, mas, sim, dar mais responsabilidade a eles “para ajudar a sociedade a navegar por este momento crítico”. O relatório completa que é preciso “eliminar os riscos de seu uso indiscriminado, por meio de regulamentação relacionada à ética, responsabilidade e segurança”.

“A inteligência artificial já é usada por milhões de estudantes no mundo, é importante desenhar políticas e pensar em monitoramento com a participação de alunos e professores”, disse o diretor geral do relatório na Unesco, Manos Antoninis.

Kristina Kallas, ministra da Educação da Estônia, um dos sistemas de ensino com melhor desempenho em exames internacionais, participou da apresentação da Unesco por meio de vídeo. Para ela, as competências digitais precisam ter como foco a inclusão de todos os estudantes. “A digitalização não pode ser um objetivo por si, ela precisa simplificar o processo de aprendizagem”, completou

https://www.estadao.com.br/educacao/como-a-inteligencia-artificial-pode-mudar-o-foco-das-escolas-veja-o-que-diz-a-unesco/

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Veículos elétricos e hidrogênio verde devem atrair R$ 2,2 trilhões ao País para energia renovável

Demanda por energia no Brasil irá aumentar por fatores como o crescimento do PIB, a eletrificação de setores como a indústria e a produção de hidrogênio verde

Por Denise Luna – Estadão – 20/07/2023 

RIO – Com o avanço da eletrificação da frota de veículos e da produção de hidrogênio no País, a demanda extra por energia deve exigir investimentos de R$ 2,2 trilhões até 2050. Esse é o montante estimado para instalar cerca de 540 gigawatts (GW) de energia renovável, como solar e eólica, segundo levantamento do Portal Solar, empresa franqueadora de projetos fotovoltaicos.

O estudo foi feito com base no cruzamento de dados oficiais e projeções de entidades setoriais, órgãos de governo e institutos internacionais. De acordo com o trabalho, a transição energética da atual frota de veículos circulantes do Brasil traria uma demanda adicional de 403 terawatts-hora/ano (TWh/ano), um volume que se aproxima da capacidade total de geração de energia elétrica do Sistema Interligado Nacional (SIN). Ou seja, seria necessário acrescentar 270 GW de capacidade instalada.

Além disso, a demanda por energia no País irá aumentar por uma série de outros fatores, como o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a eletrificação de outros setores, como a indústria, e a produção de hidrogênio verde.

De acordo com Luiz Piauhylino Filho, da Secretaria de Hidrogênio Verde (SHV) do Instituto Nacional de Energia Limpa (INEL), a Europa, por exemplo, precisará instalar 3.350 GW de energia renovável para tornar viável a eletrificação e produção de hidrogênio verde, necessárias para atingir a meta de descarbonização até 2050. Mas o continente europeu só tem capacidade de instalar 20% desse total e o restante terá de ser importado.

Segundo relatório do Portal Solar, se o Brasil quiser atender 10% dessa demanda, teria que instalar 268 GW adicionais de projetos renováveis para a produção de hidrogênio verde e seus derivados nos próximos 27 anos. Este cenário desconsidera a necessidade de investimento para servir ao mercado doméstico — em particular o transporte de carga por caminhões, a siderurgia e outros usos energéticos industriais.

Para o presidente do Portal Solar, Rodolfo Meyer, nesse cenário, embora outras fontes devam crescer para acompanhar a nova onda de demanda por energia no País, a solar fotovoltaica se configura como uma das mais competitivas e atrativas. Isso porque houve nos últimos anos uma queda expressiva no preço dos equipamentos fotovoltaicos, melhora na geração por metro quadrado das placas solares e baixo custo da geração descentralizada.

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/veiculos-eletricos-hidrogenio-verde-investimento-energia-renovavel/

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Como a IA está revolucionando a forma de trabalhar

Serviços profissionais, incluindo o escopo de advogados e consultores, e programação já usam a nova tecnologia em tarefas rotineiras

Sarah O’Connor, Christopher Grimes e Cristina Criddle — Valor/Financial Times 29/06/2023

Uma revolução que libertará os trabalhadores de tarefas extenuantes ou uma destruidora de milhões de empregos? As novas capacidades da inteligência artificial (IA) têm despertado ao mesmo tempo enorme entusiasmo sobre a produtividade no trabalho e terríveis sinais de alerta para os trabalhadores. O “Financial Times” selecionou dois setores que estão entre os primeiros a adotar a tecnologia para analisar como ela está sendo usada no trabalho cotidiano.

Tem sido um ano estranho para advogados como Alex Shandro e Karishma Brahmbhatt. Por todos os lados, economistas, tecnólogos e jornalistas têm feito previsões sobre o que os novos avanços em IA poderiam significar para a chamada área de serviços profissionais. Manchetes advertindo que “a IA está chegando para os advogados” estão em todos os lugares.

Shandro e Brahmbhatt, entretanto, têm uma forma diferente de ver a questão – a da linha de frente. Como advogados da Allen & Overy (A&O) em Londres, eles já usam as novas ferramentas de IA generativa no dia a dia. Aproximadamente 3,5 mil funcionários da A&O têm acesso ao Harvey, plataforma de IA construída com base em uma versão dos modelos mais recentes da OpenAI que foi aprimorada para trabalhos jurídicos.

Shandro, especializado em propriedade intelectual comercial, diz ter usado o Harvey recentemente para se preparar para uma transação que envolvia direitos de propriedade no metaverso. “Quais são as normas da publicidade no Reino Unido que também poderiam valer para a realidade aumentada? Perguntei ao Harvey e obtive uma lista muito boa. Antes, eu teria pedido ao meu estagiário ou a um advogado júnior para pesquisar isso, e levaria muito mais tempo.”

Os profissionais precisam entender a ética do que estão fazendo”

— Rashik Parma

Da mesma forma, Brahmbatt diz que ela e seus auxiliares usam a tecnologia regularmente – embora com resultados ambíguos. “Na verdade, fiz a ele uma pergunta e ele inventou os casos completamente”, ri. “Se você o encarar com a ideia de que ‘vou ter que ler e checar tudo de qualquer maneira’, então é útil. Acho que ainda não é algo que você possa simplesmente pegar e usar sem cuidado.”

David Wakeling, chefe do grupo de inovação de mercados da A&O, diz que o quadro de funcionários adotou o Harvey com bastante rapidez desde que a banca de advocacia iniciou os testes em novembro, embora ainda não esteja sendo usado por todo mundo todos os dias. “Verifiquei ontem – cerca de 800 pessoas o usaram nas últimas 24 horas, e elas fizeram em média de três a quatro perguntas cada uma, em diferentes idiomas e grupos de especialidades”, diz.

De acordo com Wakeling, uma das questões mais importantes é evitar que os funcionários achem que a ferramenta é mais capaz do que realmente é. “Nós dizemos que o Harvey é como um adolescente de 13 anos muito confiante e articulado. Ele não sabe o que não sabe. Tem alguns conhecimentos fabulosos, mas incompletos. Você não confiaria em um adolescente de 13 anos para fazer sua declaração de imposto de renda.”

Em vez de uma caixa com “mágica” escrito na tampa, o escritório considera a tecnologia “um ganho de produtividade chato”. “Tem problemas, comete erros, está desatualizado. Mas tudo bem, porque estamos tentando economizar uma ou duas horas por semana para 3,5 mil pessoas.”

Em Londres, o jovem quadro de funcionários da PwC (a idade média é de cerca de 31 anos) também começou a usar novas ferramentas de IA, entre as quais o Harvey, em seu trabalho. Um sistema permite que eles insiram documentos – uma pilha de contratos legais ou de contratos sociais de uma empresa, por exemplo – e façam perguntas a respeito deles. As respostas, escritas fluentemente, vêm acompanhadas de notas sobre a fonte de origem, que remetem às partes exatas dos documentos das quais a IA tirou suas conclusões.

Euan Cameron, líder de IA da PwC no Reino Unido, diz que a maior diferença dessas novas ferramentas é que elas democratizam o acesso. “Antes, era como estar em um mundo movido a cavalos e ter um carro com motor de 1 litro, mas com controles como os de um Boeing 747. Você precisava de pessoas muito espertas e especializadas para fazê-lo funcionar. Agora, você tem ferramentas que podem ser integradas à barra lateral do Office 365 ou do Google Suite”. Ele alerta, no entanto, que é preciso ter “guard-rails” em torno disso”. Essas proteções incluem o “uso apenas como versão preliminar; a revisão por humanos; o uso apenas em casos com baixo custo de falha”.

O uso ainda está em seus primórdios, mas até agora as maiores economias de tempo para as firmas de serviços profissionais parecem estar nas tarefas que normalmente seriam atribuídas a funcionários iniciantes. Será que isso significa que bancas de advocacia e firmas de consultoria não precisarão mais dessas funções? E, caso positivo, quem treinará aqueles novatos que, algum dia, serão os experientes, e como?

Bivek Sharma, diretor de tecnologia do departamento tributário, jurídico e de pessoas da PwC, reitera que a empresa ainda vai querer – e precisar – treinar pessoas para que sejam “especialistas em determinados assuntos”, mas a maneira e a rapidez como fazem isso logo mudarão. “As expectativas a respeito delas aumentarão”, prevê.

Na área jurídica também há a dúvida se faria sentido economizar mão de obra humana, tendo em vista que muitas bancas cobram pela hora trabalhada dos advogados. Por essa lógica, no entanto, as empresas teriam continuado com aparelhos de fax e máquinas de escrever, argumenta Wakeling. “Isso vai chegar de qualquer forma, então estamos vendo como adotar isso de forma segura.”

Quanto aos temores de que a IA substituirá completamente uma série de profissões, como as de advogados e contadores, as pessoas que começaram a usar as ferramentas parecem tranquilas, por enquanto. Shandro fala sobre a arte de negociar um contrato, “cheia de contextos”, que depende tanto do “instinto” e da “experiência” quanto do conhecimento da lei.

Na KPMG, a chefe global de pessoas, Nhlamu Dlomu, está mais preocupada com a possibilidade de intensificação do trabalho. “O que pode nos ajudar a não cair nessa armadilha?”

Sharma, da PwC, faz a mesma previsão. “O que vai acontecer daqui a um ano é que nossos clientes vão esperar que apresentemos insights de alto valor em prazos muito mais curtos.

Os programadores têm se beneficiado da IA generativa para ganhar eficiência, usando ferramentas como o ChatGPT para ajudar a escrever softwares. Quando alimentados com instruções específicas, “chatbots” de IA generativa são capazes de sugerir linhas de código que os programadores podem rodar e testar. Especialistas em dados, contudo, advertem que ainda há limitações. “É muito útil e de fato acelera bastante as coisas, mas você precisa saber como seria uma resposta [correta] para que isso funcione”, diz Edward Rushton, cientista de dados e cofundador da consultoria Efficient Data Group.

Ele diz que há muito trabalho de tentativa e erro, portanto, é crucial entender como consertar o que a IA gerou. “[A tecnologia] simplesmente faz coisas erradas e inventa coisas. Inventará uma função que não existe, tudo parece perfeitamente plausível, mas não está correto e não funciona”, alerta.

Archana Vaidheeswaran, gerente de produtos de dados da organização sem fins lucrativos Women Who Code, usou o ChatGPT para criar uma extensão para o Google Chrome que ajuda falantes não nativos de inglês a traduzir textos e a ajustar o tom para um estilo de conversa mais natural. O chatbot da OpenAI criou as linhas de código para a interface do produto, a parte que os usuários podem ver e interagir, enquanto Vaidheeswaran escreveu a tecnologia de fundo. “O ChatGPT pode escrever algo muito específico, mas depois você precisa trabalhar nisso”, diz.

Matt Shumer, CEO da Otherside AI, startup que tem um produto para escrever e-mails, diz que sua equipe utiliza IA para auxiliar na programação, e boa parte das linhas de código da empresa foi feita com ela. “Tecnicamente não é um requisito, mas duvido que alguém que não estivesse usando fosse capaz de acompanhar o ritmo do restante da equipe.”

Por outro lado, ele destaca a necessidade de contar com engenheiros experientes que avaliem e validem os resultados da IA e verifiquem as respostas corretas. “A IA transformou o papel dos programadores. Em vez de se concentrarem apenas na codificação manual, agora eles passam mais tempo definindo o problema, projetando a estrutura e orientando a IA a realizar o trabalho pesado”, diz.

A British Computing Society informa que as ferramentas de IA generativa, além de escreverem código, podem servir para analisar as que já foram feitas e procurar erros ou vulnerabilidades que poderiam ser explorados por hackers. A associação também ressalta a necessidade de os desenvolvedores revisarem de forma crítica as respostas dadas pela IA e de levarem em conta como os dados inseridos nos sistemas de IA generativa podem ser usados. “Os profissionais precisam entender o nível de competência necessário [quando usam a IA], porque estão assumindo uma grande responsabilidade”, diz Rashik Parmar, executivo-chefe da British Computing Society. “Eles precisam entender a ética do que estão fazendo e estar sujeitos a prestar contas caso algo dê errado”. (Tradução Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2023/06/29/como-a-ia-esta-revolucionando-a-forma-de-trabalhar.ghtml

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Bens de uso duplo, semicondutores e desglobalização

Dificultar a progressão da China na sofisticação da produção de semicondutores tornou-se peça central da política dos EUA

Otaviano Canuto – Folha – 24.jul.2023 

Membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não residente do Brookings Institution, professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University, professor afiliado na Universidade Politécnica Mohamed VI e principal do Center for Macroeconomics and Development em Washington. Foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp 

Em 2017, quando era um dos diretores-executivos do Banco Mundial, visitei em missão de trabalho a Faixa de Gaza, na Palestina. Um projeto de saneamento financiado pelo Banco para uma área residencial sujeita a enchentes de fezes quando chovia muito estava parado por proibição de entrada de tubos hidráulicos. Quando conversamos com a autoridade militar israelense responsável pelo bloqueio dos tubos, ele nos disse que o problema estava em sua possível dupla utilização, civil ou militar. Lembro disso ao ver as referências à segurança nacional em argumentos contra o comércio livre de bens de dupla utilização. 

Como abordamos aqui, a segurança nacional é o argumento mais poderoso contra a globalização irrestrita e impulsionada pelo mercado. É também o mais difícil de avaliar, pois não pode ser analisado diretamente por pesquisadores, analistas de mercado ou jornalistas –é preciso tomar o que dizem as fontes de inteligência de governos. O argumento encontrou apoio bipartidário nos Estados Unidos em relação à China. Um grave problema sempre pode vir caso uma interpretação ampla de “uso duplo” resulte na restrição de muitos bens e serviços –de até roupas ou de medicamentos usados pelos militares. Como o conceito tem o potencial de levar a restrições amplas e abrangentes em vários setores, há o risco de que estimule guerras econômicas sob a forma de retaliações. 

 A principal categoria visada até o momento é o setor de semicondutores. Os semicondutores são um componente integral de vários produtos de consumo, como carros e smartphones, mas também podem ser usados em bens de uso duplo, como aeronaves civis e militares. Além disso, são usados em supercomputação e inteligência artificial, áreas com implicações potenciais em termos de segurança nacional. A disputa no caso diz respeito aos segmentos mais avançados na indústria de semicondutores. Há que se distinguir entre semicondutores mais avançados com 3-14 nanômetros de tamanho e os chips mais simples e baratos acima de 14 nanômetros. 

Taiwan e Coreia do Sul têm um domínio da tecnologia de fabricação dos chips de ponta e ocupam perto de 50% do mercado mundial de semicondutores. Os Estados Unidos respondem por 12% do mercado global, mas suas empresas locais não produzem chips avançados em grande escala. Por outro lado, muitos estágios do processo de produção de semicondutores dependem de tecnologias originárias nos EUA, inclusive os equipamentos necessários para a produção dos chips mais avançados. 

No passado recente, a China ocupou larga parcela dos mercados de semicondutores baratos, com nanômetros mais altos. Pode-se ver no caso uma tentativa de repetição da trajetória na qual o país se utilizou bem da globalização para ascender nas escalas de valor adicionado –e consequentemente na escada da renda per capita. As dificuldades criadas pelos Estados Unidos no caso dos semicondutores consistem justamente em cortar o acesso a degraus da escada que estão no exterior. A China terá de construí-los ela própria. 

Em outubro de 2022, os Estados Unidos anunciaram amplos controles de exportação na indústria de semicondutores mirando na China. Os Estados Unidos não exportam muitos semicondutores diretamente para a China. No entanto, os controles de exportação visaram países terceiros, ou seja, não os próprios Estados Unidos ou a China, e sim países fabricantes de chips que usam software e/ou máquinas dos EUA em suas instalações de fabricação.

De acordo com as restrições, qualquer semicondutor fabricado com tecnologia americana para uso em supercomputação ou inteligência artificial apenas pode ser vendido para a China com uma licença de exportação emitida pelos Estados Unidos, licença essa difícil de obter. Dado que quase todos os semicondutores são produzidos usando tecnologia dos Estados Unidos, esta regra abrange efetivamente toda a indústria global. 

Os países terceiros estão submetidos à seguinte escolha: buscar as licenças de exportação exigidas pelos Estados Unidos ou deixar de usar tecnologia e equipamentos destes. Vem daí um uso crescente da frase “interdependência armada” para caracterizar como os Estados Unidos usaram a interdependência inerente ao comércio e às cadeias de suprimentos globais para forçar seus parceiros comerciais a se alinharem com sua guerra econômica contra a China. Além disso, seus cidadãos estão proibidos de trabalhar com produtores de chips chineses, a não ser com aprovação específica. 

Com estas medidas, os EUA procuram impedir que a China avance tecnologicamente usando o que já existe na fronteira no lado americano em setores cruciais para a segurança nacional. Uma interpretação alternativa das recentes restrições à exportação de semicondutores é que elas têm pouco a ver com a segurança nacional, mas visam conter o caminho de desenvolvimento econômico chinês através da absorção criativa de tecnologia disponível no exterior. Se assim for, as novas restrições marcam o fim de uma era do globalismo e da cooperação econômica e o início de outra guerra fria. 

Dado o caráter crítico assumido por semicondutores hoje em dia, suas versões avançadas e sua fabricação se tornaram uma espécie de substituto para armas e exércitos usados nas “guerras por procuração” durante a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética. Dificultar a progressão da China na sofisticação da produção de semicondutores tornou-se peça central da política dos EUA em relação ao país. 

Não deixou de ser notável também como o pacote fiscal de Biden dedicado a semicondutores facilmente recebeu suporte bipartidário no país. O caso dos semicondutores se encaixa como uma luva no que observamos ser uma reversão da globalização nos segmentos de alta tecnologia, considerados sensíveis do ponto de vista de segurança nacional, com custos ainda considerados justificáveis por autoridades governamentais. Como no caso dos tubos hidráulicos do projeto de saneamento na Faixa de Gaza, na Palestina, tudo vai depender de qual dos usos duplos é considerado prioritário. 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/por-que-economes-em-bom-portugues/2023/07/bens-de-uso-duplo-semicondutores-e-desglobalizacao.shtml

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