Estado e desenvolvimento: Porto Digital e agronegócio

Porto Digital e agronegócio têm em comum desenvolvimento de novas tecnologias e cuidado no desenho da intervenção pública

Marcos Lisboa – Folha – 12.ago.2023    

Leia também https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/economia-verde-economia-do-espaco-economia-azul/

Existem exemplos no Brasil de combinação de políticas públicas, empreendedorismo privado e inovações tecnológicas que permitem aumentos recorrentes da produtividade, da renda das famílias e de crescimento econômico.

Esta coluna trata de duas experiências de sucesso: o Porto Digital do Recife e o agronegócio. Ambas têm em comum o desenvolvimento de novas tecnologias e o cuidado técnico no desenho da intervenção pública.

A forma da intervenção pública tem detalhes específicos em cada caso, revelando a necessidade da análise cuidadosa das características do setor e das condições de contorno.

No fim dos anos 1990, Recife tinha um excelente centro de formação em ciência da computação. Entretanto, a falta de empregos em tecnologia resultava na emigração de técnicos bem formados.

Surgiu a proposta de criar um polo de tecnologia, ou Ecossistema Local de Inovação (ELI), que incentivasse o empreendedorismo e a inovação em temas de ciência da computação.

Houve uma sugestão de implementar o ELI na Universidade Federal de Pernambuco, mas foi rapidamente rechaçada. A UFPE fica longe do centro, dificultando reter pessoas e atrair empresas, que preferem áreas mais densas, com vida cultural e oportunidades de encontros inesperados que resultem em ideias inovadoras.

Decidiu-se implementá-lo no bairro do Recife, região onde a cidade se iniciara, mas que se tornara uma área decadente com prédios históricos degradados. O projeto passou a ter um segundo objetivo: recuperar o centro antigo.

Foi criado o Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD), conduzido por um conselho de administração com 19 pessoas representando governo, universidades, empresas e outras representações da sociedade civil. As decisões são colegiadas, e a gestão é profissional.

O município aprovou a Lei do Porto Digital, que reduzia o ISS das empresas ali instaladas. A concessão dos benefícios é gerida por um comitê com representantes da prefeitura e do NGPD. O governo do estado concedeu R$ 30 milhões para restaurar três prédios históricos e financiar por algum tempo o NGPD.

Mais de duas décadas depois, os resultados impressionam. Prédios foram restaurados pelo NGPD, que hoje tem nos aluguéis uma importante fonte de recursos. A região foi revitalizada com a atração de empresas privadas, que restauraram ainda mais prédios.

As empresas embarcadas no Porto Digital já somam 365, faturando R$ 4,75 bilhões por ano e empregando mais de 17 mil pessoas. Existem sete instituições de C&T, incluindo o Cesar, órgão de referência na área, que fatura cerca de R$ 400 milhões por ano.

Das 10 maiores empresas do Porto Digital, 7 foram iniciadas ali. Recife tem cerca de 700 doutores em ciência da computação, sendo perto de 600 formados na UFPE, nota 7 na Capes, a maior possível. Não há restrição à ida de profissionais brasileiros para o exterior. É comum saírem do Brasil e voltarem anos depois, com mais experiência e conhecimento.

Recentemente, o Porto Digital, em parceria com universidades privadas, iniciou um programa de bolsas integrais para jovens que se formam em escolas públicas. São cerca de 600 bolsistas por ano, mais de 60% negros.

Recife tem a maior proporção por habitante de formandos em áreas que envolvem programação de computador no país, e esse número irá dobrar em três anos, transformando a demografia da região com pessoas que vieram das periferias da cidade.

A história do agronegócio tem resultados semelhantes, mas por meios bem distintos. No fim dos anos 1960, o Brasil tinha dificuldades na agricultura. Nossas exportações dependiam principalmente do café, cujas oscilações de preço no mercado internacional geravam volatilidade na taxa de câmbio, prejudicando os demais setores, inclusive a indústria.

O governo apoiou pesquisas para adaptar as culturas das zonas temperadas, como a soja, para o trópico brasileiro, além de desenvolver pessoas que pudessem resolver outros problemas, como a inadequação do solo para a agricultura no Centro-Oeste, por ser demasiadamente pobre em nutrientes e ácido.

A Embrapa financiou a formação de cerca de 2.000 técnicos em boas universidades, muitas fora do Brasil. Além disso, existiam pesquisadores competentes em universidades públicas, como Esalq, Viçosa e várias outras, assim como em centros privados e públicos de pesquisa.

Em paralelo, empreendedores migravam para o Centro-Oeste, buscando desenvolver a produção agrícola, experimentando novas abordagens, por vezes fracassando.

Os resultados do agronegócio nos últimos 50 anos são de tirar o fôlego. A sua produtividade cresceu cerca de 2,9% ao ano. Em média, os preços dos alimentos pesquisados pela Fipe-USP caíram em termos reais perto de 2% ao ano, barateando a oferta de alimentos para a população. Entre 1975 e 2022, a redução real acumulada dos preços passa de 60%.

O aumento de produtividade permitiu o crescimento e a diversificação das exportações, gerando um círculo virtuoso. A expansão da escala de produção induziu novos aumentos recorrentes de produtividade, inclusive para enfrentar a concorrência de outros países.

O Brasil foi o que mais aumentou a produtividade total dos fatores na agricultura entre os principais países produtores e exportadores nas últimas duas décadas. Tornamo-nos referência internacional na produção de soja ou em setores como papel e celulose.

A expansão do agronegócio incentivou o desenvolvimento de insumos e da indústria de equipamentos. Impressiona o aumento de novas empresas de tecnologia (agtech) em áreas como agricultura de precisão, automatização e robotização, biotecnologia, entre outras.

A renda por habitante do Centro-Oeste, mesmo sem Brasília, cresceu bem mais do que a do Sudeste no último meio século.

Em meados dos anos 1990, a renda média por habitante dos moradores do Maranhão era de R$ 335 por mês, apenas 35% da renda média do Brasil. A chegada da soja ao sul do estado permitiu que a renda média dos moradores da região crescesse 235% desde então, muito acima do que ocorreu na renda média do país e nas outras áreas do MA.

Existem diferenças nas políticas adotadas no Porto Digital e no agronegócio. Mas ambos os casos têm em comum mecanismos sofisticados para incentivar a inovação tecnológica e a formação de gente para resolver problemas e aumentar a produtividade.

Documentar as experiências bem-sucedidas pode contribuir para evitar repetir os erros tão frequentes no desenho da nossa típica política industrial, que distribui subsídios e proteções de roldão a empresas locais, como se isso fosse suficiente para garantir o desenvolvimento.

Aparentemente, aprendemos pouco com nossos muitos fracassos e somos desatentos aos detalhes dos ocasionais casos de sucesso.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-lisboa/2023/08/estado-e-desenvolvimento.shtml

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Febre do ChatGPT se espalha em escritórios nos EUA e dispara alerta

Para empresas de segurança, uso da tecnologia pode resultar em vazamentos de propriedade intelectual e estratégia

Richa Naidu Martin Coulter Jason Lange- Folha/Reuters 11.ago.2023

Muitos trabalhadores nos Estados Unidos estão recorrendo ao ChatGPT para ajudar em tarefas básicas, mostrou uma pesquisa Reuters/Ipsos, apesar dos temores que levaram empregadores como Microsoft e Google a restringir seu uso.

Empresas em todo o mundo estão avaliando a melhor forma de usar o ChatGPT, um programa de chatbot que usa IA generativa para manter conversas com usuários e responder a inúmeras solicitações. Empresas de segurança e outras companhias, porém, levantaram preocupações de que isso poderia resultar em vazamentos de propriedade intelectual e estratégia.

Cerca de 28% dos 2.625 entrevistados na pesquisa online sobre inteligência artificial (IA) entre 11 e 17 de julho disseram que usam regularmente o ChatGPT no trabalho, enquanto apenas 22% disseram que seus empregadores permitiam explicitamente tais ferramentas externas.

Cerca de 10% dos entrevistados disseram que seus chefes proibiram explicitamente ferramentas externas de inteligência artificial, enquanto cerca de 25% não sabiam se sua empresa permitia o uso da tecnologia.

“As pessoas não entendem como os dados são usados quando usam serviços de inteligência artificial generativos”, disse Ben King, vice-presidente de confiança do cliente na empresa de segurança corporativa Okta .

“Para as empresas, isso é crucial, porque os usuários não têm contrato com muitos programas –uma vez que são um serviço gratuito–, portanto, as empresas não vão correr o risco por meio de seu processo de avaliação usual”, disse King.

A OpenAI se recusou a comentar quando questionada sobre as implicações de funcionários individuais usando o ChatGPT, mas destacou uma publicação da empresa garantindo aos parceiros corporativos que seus dados não são usados para treinar o chatbot ainda mais, a menos que eles dessem permissão explícita para isso.

Quando as pessoas usam o Bard, do Google, o programa coleta dados como texto, localização e outras informações de uso. A empresa permite que os usuários excluam atividades anteriores de suas contas e solicitem que o conteúdo inserido na tecnologia seja removido. De propriedade da Alphabet, o Google se recusou a comentar quando solicitado a fornecer mais detalhes.

‘Tarefas inofensivas’

Um funcionário do Tinder disse que os empregados do aplicativo de relacionamento usaram o ChatGPT para “tarefas inofensivas”, como escrever e-mails, embora a empresa não o permita oficialmente.

“São e-mails regulares. Muito sem consequências, como fazer convites engraçados para eventos da equipe, e-mails de despedida quando alguém está saindo… Também usamos para pesquisas gerais”, disse o funcionário, que não quis ser identificado porque não era autorizado a falar com repórteres.

O funcionário disse que a empresa tem uma “regra sem ChatGPT”, mas que os funcionários ainda o usam de uma “forma genérica que não revela nada sobre o Tinder”.

O aplicativo disse que forneceu “orientação regular aos funcionários sobre as melhores práticas de segurança e dados”.

Em maio, a Samsung proibiu os funcionários mundialmente de usarem o ChatGPT e ferramentas semelhantes depois de descobrir que um funcionário carregou um código confidencial na plataforma.

A Reuters informou em junho que a Alphabet alertou os funcionários sobre como eles usam chatbots, incluindo o Bard, ao mesmo tempo em que comercializa o programa globalmente.

O Google disse que, embora o Bard possa fazer sugestões indesejadas de código, isso ajuda os programadores. A companhia também disse que pretende ser transparente sobre as limitações de sua tecnologia.

Cautela

Algumas empresas disseram à Reuters que estão adotando o ChatGPT e plataformas semelhantes, mas de olho na segurança.

“Começamos a testar e aprender sobre como a inteligência artificial pode aumentar a eficácia operacional”, disse um porta-voz da Coca-Cola em Atlanta, acrescentando que os dados permanecem dentro de seu firewall.

“Internamente, lançamos recentemente nossa versão corporativa do Coca-Cola ChatGPT para produtividade”, disse o porta-voz, acrescentando que a Coca-Cola planeja usar a IA para melhorar a eficácia e a produtividade de suas equipes.

Enquanto isso, a diretora financeira Dawn Allen, da Tate & Lyle, disse à Reuters que a fabricante global de ingredientes estava testando o ChatGPT, tendo “encontrado uma maneira de usá-lo de maneira segura”.

“Temos equipes diferentes decidindo como querem usá-lo por meio de uma série de experimentos”, disse.

Mesmo assim, em algumas empresas, funcionários dizem que não conseguem acessar a plataforma nos computadores.

“Está completamente proibido na rede do escritório, como se não funcionasse”, disse um empregado da Procter & Gamble, que preferiu manter o anonimato por não estar autorizado a falar com a imprensa.

A P&G se recusou a comentar. A Reuters não conseguiu confirmar de forma independente se os funcionários da companhia não conseguiam usar o chatbot.

Paul Lewis, diretor de segurança da informação da empresa de segurança cibernética Nominet, disse que as empresas estavam certas em serem cautelosas.

“Todo mundo obtém o benefício dessa capacidade aumentada, mas a informação não é completamente segura e pode ser projetada para fora”, disse ele, citando “prompts maliciosos” que podem ser usados para fazer com que os chatbots divulguem informações.

“A proibição total ainda não é garantida, mas precisamos agir com cuidado”, disse Lew

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2023/08/febre-do-chatgpt-se-espalha-no-local-de-trabalho-nos-eua-e-dispara-alerta.shtml

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Hidrogênio verde, vetor para reindustrialização no Brasil

Brasil poderá ter uma nova matriz elétrica inteira até 2040 destinada à produção do H2V

Por Ramos, Gannoum e Koloszuk – Valor – 27/07/2023

A viabilidade do Brasil na produção do hidrogênio verde (H2V) mais competitivo do mundo o coloca em uma perspectiva bem favorável de se tornar o maior fornecedor global do combustível e da molécula para mercados europeus, asiáticos, norte-americanos, mas também para o mercado local. E mais: pode estabelecer um caminho perene de reindustrialização,possibilitando a atração de novas fábricas, mais capital estrangeiro, novas oportunidades de negócios e novas tecnologias. Este fator se deve fortemente à quantidade de recursos renováveis que o país possui para produzir eletricidade, com destaque para as fontes eólica e solar.

O hidrogênio verde tem o potencial de representar entre 12% e 22% de toda a demanda de energia no planeta até 2050. Segundo estudo da consultoria Mckinsey, o Brasil poderá ter uma nova matriz elétrica inteira até 2040 destinada à produção do H2V. Isso significa um total de US$ 200 bilhões em novos investimentos no período, destinado à geração de eletricidade, novas linhas de transmissão e mais unidades fabris do combustível e de estruturas associadas, incluindo terminais portuários, dutos e armazenagem.

O país apresenta os melhores potenciais do planeta para geração de energia solar e eólica. Somadas, essas duas fontes respondem por cerca de 30% da matriz elétrica nacional, com 30 GW e 27 GW de capacidade instalada, respectivamente. E serão as fontes que responderam em maior grau em termos de oferta para os próximos 20 ou 30 anos.

Vetor energético, molécula e combustível primário, limpo e versátil, o hidrogênio verde tem o potencial de se tornar eixo estratégico na transição energética e descarbonização dos setores produtivos em geral, de diversos segmentos, inclusive em termos geopolíticos. Trata-se de um processo extremamente sustentável, que pode ser utilizado em diversas aplicações, eliminando de processos industriais – e de seus produtos – as emissões de gases de efeito estufa ou outros poluentes.

No contexto das mudanças climáticas, o hidrogênio verde apresenta-se, portanto, com uma importante tecnologia na direção da descarbonização de variados setores, tais como na indústria, como fonte de energia na forma de molécula para produção de fertilizantes e aço, para fornecer calor e energia elétrica e, mais especialmente, como matéria-prima em processos químicos, no transporte pesado, como combustível de aeronaves, navios e caminhões, além de aplicações no próprio setor elétrico, para armazenamento do combustível em baterias na geração de energia elétrica.

A indústria de cimento internacional, por exemplo, é uma das manufaturas mais poluentes, sendo responsável por 7% das emissões totais de CO2 geradas pela atividade humana no mundo. E o hidrogênio verde pode ser utilizado para reduzir significativamente suas emissões. Também será essencial no setor siderúrgico, que ocupa o primeiro lugar nas emissões de CO2 entre as indústrias pesadas no mundo, e o segundo maior consumidor de energia. E, na produção de fertilizantes nitrogenados verdes, pode reduzir em até 100% nas emissões de carbono no processo produtivo, trazendo benefícios importantes para o nosso agronegócio: segurança alimentar – uma vez que importamos 96% dos nossos fertilizantes nitrogenados, um diferencial ambiental relevante, em linha com o Acordo de Paris e com metas de net-zero, além de ser competitivo com os preços dos fertilizantes fósseis que importamos de países como a Rússia.

Embora apresente uma grande potencialidade, é fundamental o posicionamento assertivo do Brasil como um dos principais produtores do H2V, de forma sólida e rápida, tendo em vista o rápido movimento da economia global em torno do tema. Do lado da demanda, os países europeus, principalmente, estão se movimentando para encontrar soluções de descarbonização dos seus processos produtivos, buscando novas cadeias de fornecimento, o Brasil é naturalmente o principal candidato.

Do lado da oferta, na América Latina, o Chile já se adiantou, com fortes políticas para a energia renovável e para o hidrogênio. Os EUA, com o Inflaction Reduction Action (IRA), apresentaram um pacote de cerca de US$ 400 bilhões para uma política industrial a partir da energia, pagando US$ 3 por Kg de hidrogênio sob a forma de incentivos. Falta por aqui um aparato legal-regulatório que apresente as principais diretrizes para a produção do hidrogênio e a criação de mecanismos de incentivos, adaptados às condições brasileiras, uma vez que é sabido que o estado não tem recursos para fazer jus a pacotes de recursos, como ocorre nos países desenvolvidos.

Devido a sua vantagem comparativa do recurso natural e os ganhos de escala para a produção de energia renovável de forma competitiva, se faz necessária a priorização dessas fontes para produção do hidrogênio verde, uma vez que todo o racional para o crescimento desse setor é a descarbonização. Outro ponto importante é o mapeamento e estudo da competitividade da cadeia de valor do H2V, inclusive como forma de identificar oportunidades e gargalos para o Brasil no âmbito de políticas públicas e incentivos.

O mundo avança em termos de políticas, com pelo menos 36 países que já tendo definidos planos para o desenvolvimento e uso do hidrogênio verde. No Brasil, a produção do hidrogênio e da amônia verde já é uma realidade, já temos plantas inauguradas e outras a serem inauguradas e implantadas, além de vários projetos com MOUs (memorandos de entendimento) assinados, que abrangem estados no Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil. O interesse dessas empresas é na produção de H2V nos portos, onde há potencial demanda por esse combustível in loco e acesso à energia renovável competitiva, além da logística disponível para exportação a outros mercados. Mas também projetos no interior do País para consumo pela indústria local.

Com o hidrogênio verde brasileiro, o País pode vivenciar um ciclo nunca visto de ampliação do setor produtivo, desta vez com alta tecnologia para a promoção do desenvolvimento sustentável, social e econômico que promovam a transição energética tanto no âmbito nacional quanto em nível global. Entretanto, se faz absolutamente necessário e urgente transformar esta potencialidade em realidade, ou, do contrário, perderemos o bonde da reindustrialização.

Camila Ramos é CEO da consultoria CELA – Clean Energia Latin America

Elbia Gannoum é presidente da Abeeólica

Ronaldo Koloszuk é presidente da Absolar e diretor da Fiesp

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/hidrogenio-verde-vetor-para-reindustrializacao-no-brasil.ghtml

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Egomídia: a ascensão dos influenciadores

Vantagens competitivas do marketing de influência são enormes

Ronaldo Lemos* – Folha – 6.ago.2023 

A competição que as mídias e marcas tradicionais enfrentam não se resume só às plataformas. Ela abrange também os influenciadores. Se antes o ecossistema das mídias era dominado por canais ou marcas, hoje assistimos à consolidação da “me-media” ou “egomídia”, cujo centro é o “eu”. Esse é um fenômeno global que não está só na superfície. 

É o capítulo mais recente do processo de mudança radical das mídias, com consequências estruturais. Mais gente quer consumir conteúdo de pessoas e menos de empresas ou marcas. No final do ano passado mais de 75% das marcas tinham um orçamento dedicado a pagar influenciadores, conforme artigo da Harvard Business Review. 

Além disso, o fenômeno tem desdobramentos econômicos, com influenciadores lançando seus próprios produtos e marcas. Nos EUA há influenciadores que lançaram marcas bem-sucedidas de café, moda, cosméticos, delivery e assim por diante. As vantagens competitivas do marketing de influência são enormes. Por exemplo, baixo custo de aquisição de novos clientes e de conversão de vendas junto a seguidores fiéis. 

Além disso, como os influenciadores usam seu próprio conteúdo para vender, ganham em eficiência e velocidade. São também multiplataforma, espalhando sua presença por várias redes e canais diferentes. 

Possuem também uma vantagem pouco discutida: não se sujeitam a praticamente nenhuma regulamentação, regra, ou normas éticas. Podem comunicar de forma agressiva (ou abusiva) e inclusive vender produtos duvidosos ou prejudiciais que não teriam trânsito em mídias tradicionais. Em outras palavras, não há um CONAR dos influenciadores. Ou melhor, não havia. 

Nos EUA a Comissão Federal de Comércio refez no início de julho as diretrizes aplicáveis aos influenciadores, tornando-as mais restritivas. A Inglaterra seguiu o mesmo caminho, e criou regras mais duras desde março. Já na União Europeia praticamente todos os países estão avançando na aprovação de leis e códigos de conduta aplicáveis aos influenciadores. A França é o destaque. Mesmo em meio a uma polarização política profunda, o país aprovou consensualmente no dia 9 de junho uma nova legislação para regular a atuação dos influenciadores (apelidados pejorativamente no país de “infuvoleurs”, mistura de influenciador com ladrão em francês). 

A lei é abrangente e clara. Define como influenciador quem “mobiliza sua notoriedade de forma onerosa para promover bens, serviços ou mensagens políticas”. Proíbe a divulgação de várias atividades por meio de marketing de influência. Por exemplo, procedimentos estéticos, incluindo cirurgia plástica, produtos falsificados, produtos com nicotina, apostas e jogos de azar em plataformas que possam ser acessadas por crianças. Nesse caso, as plataformas precisam estar inscritas e certificadas pelo governo francês. As penas para o descumprimento são de 2 anos de prisão e multa de 300 mil euros (cerca de R$ 1,6 milhão). 

Além disso, os influenciadores precisam seguir o Código de Defesa do Consumidor e de Propriedade Industrial, dentre outras diretrizes estabelecidas pela própria lei. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Carregando… No Brasil não há legislação específica sobre o tema. Ele também ficou ausente do texto da chamada Lei das Fake News, atualmente no Congresso. Mesmo assim, o judiciário brasileiro está em pé de guerra contra vários influenciadores. 

Não são poucos os casos com pedidos de suspensão de contas de influenciadores. Para evitar casuísmos, melhor seria que as regras para decisões como essas estivessem bem-estabelecidas e fossem claras, como outros países vêm fazendo.

 Já era – Comunicação só no modelo de broadcast (“one-to-many”) 

Já é – A utopia do modelo “many-to-many” 

Já vem – Comunicação no modelo “influencer-to-many” 

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

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Por que Brasil é um dos protagonistas do novo boom de petróleo na América Latina

  • Cecilia Barría –  BBC News Mundo – 6 agosto 2023

Embora possa parecer uma contradição, em meio à crise das mudanças climáticas, a produção mundial de petróleo aumentará nesta década, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

Os especialistas projetam que nos próximos anos o mercado internacional continuará demandando uma maior quantidade de petróleo bruto, embora antes do final desta década a tendência deva seja invertida, à medida em que as energias renováveis ​​ganham espaço sobre os combustíveis fósseis.

Enquanto isso não acontecer, o ouro negro continuará girando os motores da economia internacional.

Nesse contexto, a AIE estima que a produção mundial de petróleo aumentará em 5,8 milhões de barris por dia até 2028 — e cerca de um quarto dessa oferta adicional virá da América Latina.

Quem serão os protagonistas desse novo boom? Brasil, Guiana e, em menor escala, Argentina, três países que lideram um novo capítulo na produção de petróleo da região.

Deve ficar para trás a era dominada por nações como Venezuela, México, Equador e Colômbia que, por motivos diversos, reduzirão a oferta de petróleo bruto no mercado internacional nos próximos cinco anos, segundo a AIE.

“É muito difícil para esses países reverter seu declínio”, disse à BBC News Mundo Francisco Monaldi, diretor do Programa Latino-Americano de Energia do Instituto Baker Institute, na Universidade Rice (nos Estados Unidos).

Brasil: líder em petróleo da região

Juntos, Guiana e Brasil serão os principais protagonistas do boom petrolífero latino-americano.

A história do Brasil está ligada às descobertas subaquáticas.

Sob três quilômetros de água e mais cinco de rocha e sal, o país extrai a fonte de combustível de um dos maiores campos de petróleo do mundo.

A descoberta dessas jazidas do pré-sal mudou o destino do país, fazendo com que se tornasse o maior produtor de petróleo da América Latina em 2017, superando o México, que na época detinha a liderança.

A Venezuela, que durante anos foi o ícone do petróleo na região, estava em um momento de uma crise tão profunda que sua produção havia entrado em colapso.

Assim, nos últimos seis anos, o Brasil não parou de aumentar sua produção de petróleo até atingir 2,2 milhões de barris em 2022, o que lhe permitiu se tornar o oitavo maior produtor do mundo.

Mas não se trata apenas da quantidade de barris por dia que cada país produz. Tanto o Brasil quanto a Guiana produzem petróleo bruto de forma mais eficiente e lucrativa que outros países.

E quanto aos efeitos poluentes desse combustível fóssil, que é uma das principais causas da crise climática que o mundo vive, os dois países emitem uma quantidade menor de CO2 por barril produzido em relação à média mundial, argumenta Monaldi.

Como muitos países se comprometeram a reduzir seu nível de emissões, é possível que no futuro esse tipo de óleo tenha uma demanda maior no mercado.

Guiana, um país pobre que será rico

Com cerca de 800 mil habitantes, a Guiana é um dos menores e mais pobres países da América do Sul. Ou pelo menos era assim até 2015, quando a gigante norte-americana ExxonMobil descobriu a primeira de suas reservas comprovadas de petróleo bruto, estimadas em cerca de 11 bilhões de barris, nas profundezas do Oceano Atlântico.

Aproveitando a forte demanda por petróleo que haverá nesta década, a produção da Guiana está em aceleração e acredita-se que até 2028 possa chegar a 1,2 milhão de barris por dia.

Se as projeções se concretizarem, “a Guiana vai se tornar o país que mais produz barris por habitante no mundo, superando o Kuwait”, explica Monaldi.

Nesse cenário, a Guiana passaria de um país pobre a um país rico (considerando a riqueza per capita), dado o aumento espetacular de seu Produto Interno Bruto (PIB) — que no ano passado subiu 57,8% e este ano está previsto para 37,2 %.

Como será distribuída essa nova riqueza da Guiana? Isso é algo incerto até agora. O governo afirmou que tentará evitar os erros cometidos por outros países petrolíferos no passado, embora com tanta riqueza jorrando do fundo do mar não seja fácil controlar o destino dos recursos gerados.

Argentina

Em terceiro lugar está a Argentina, que apesar de ter uma inflação superior a 100% ao ano e uma crise crônica de endividamento, sua produção de petróleo (e gás) tem crescido nos últimos anos.

No centro desse desenvolvimento está o Vaca Muerta, um gigantesco campo localizado no noroeste do país que possui a segunda maior reserva do mundo em gás de xisto e o quarto maior em óleo de xisto.

Ambos os recursos são extraídos em formato “não convencional”, como se chama os hidrocarbonetos que devem ser extraídos da rocha geradora pela técnica do fracking (ou fratura hidráulica).

As projeções para o desenvolvimento da indústria do petróleo argentina são positivas.

A AIE espera que a produção chegue a 700 mil barris por dia este ano e algumas estimativas sugerem que pode chegar a 1 milhão de barris por dia até o final desta década, segundo a consultoria Rystad Energy.

No entanto, após 2030, as projeções apontam para um declínio porque a produção de petróleo convencional deverá continuar caindo e a produção de xisto não deverá ser suficiente para compensar.

Se o cenário previsto se concretizar, o grande salto do comércio de petróleo duraria alguns anos, até chegar a níveis mais baixos de produção.

Também é preciso levar em conta, dizem os especialistas, que a produção não convencional precisa de grandes investimentos de longo prazo. Isso exige garantia de estabilidade nas políticas do setor, algo que na Argentina é difícil de prever.

Ficando pra trás

Os líderes históricos da produção de petróleo na região ficaram para trás.

No México, a produção atingiu o pico em 2004 e, desde então, caiu pela metade.

Para tentar melhorar a situação, o governo de Andrés Manuel López Obrador tentou promover o desenvolvimento da Pemex, a estatal petrolífera, mas até agora não conseguiu os resultados esperados.

Embora o governo tenha dado à empresa milhões de dólares em incentivos fiscais e outras ajudas financeiras, a Pemex não conseguiu se recuperar.

Com mais de US$ 100 bilhões (cerca de R$490 bilhões) em dívidas, a Pemex é a empresa de petróleo mais endividada do mundo.

“Além de ser uma empresa com fins comerciais, ela também opera com fins políticos”, diz Diego Rivera, pesquisador associado do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. “A produção parou.”

Por sua vez, a PDVSA, empresa estatal venezuelana, teve uma forte queda, intimamente ligada à profunda crise econômica e política que afeta o país.

A produção de petróleo venezuelano, a maior parte pesada e densa, despencou de 3,4 milhões de barris por dia em 1998 para 700 mil na atualidade.

“O que está acontecendo na Venezuela é uma queda brutal que pode ser explicada por motivos que vão da negligência à corrupção”, destaca Rivera.

Enquanto isso, no caso do Equador, projeções de especialistas apontam para uma queda dos atuais 460 mil barris por dia para 370 mil em 2028.

Esse declínio atingiria duramente o país porque sua economia depende das receitas do petróleo mais do que qualquer outro país da América Latina.

Enquanto isso, a Colômbia está se movendo em outra direção. O governo do presidente Gustavo Petro pretende avançar na transição energética do país, reduzindo gradativamente a produção de petróleo.

Recentemente, foram concedidas licenças para projetos de energia renovável na província de La Guajira, com a expectativa de que a energia limpa produzida por aquela região forneça toda a eletricidade que o país necessita.

A ideia é que esse tipo de projeto permita compensar a queda nas exportações de petróleo sem prejudicar a economia, mas alguns especialistas estão bastante céticos sobre a possibilidade dessa meta ser alcançada nos próximos anos.

O que vai acontecer na próxima década

Por enquanto, não se sabe com que rapidez avançará a transição energética na região e até que ponto o mundo demandará petróleo a partir da próxima década.

“Mas há muitos fatores que não podem ser controlados”, alerta Rivera, como, por exemplo, a invasão da Ucrânia pela Rússia ou pandemias.

“O que temos certeza é que a transição energética será confusa, complicada e com muita volatilidade”, acrescenta.

Mas, se as projeções da AIE para 2028 forem cumpridas, faltam poucos anos para que o pico de demanda termine, dando lugar a um novo cenário na produção mundial de energia.

Para o período 2030-2050, o destino da América Latina estará intimamente ligado ao que ocorrer com a demanda dos mercados internacionais.

Se o mundo atingir a meta de zero emissões líquidas até 2050, “a região vai se sair muito mal”, diz Monaldi.

Mas se formos ao outro extremo, ao cenário previsto pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em que há um platô na demanda em vez de queda, “a América Latina se sairia muito bem, porque é a região com mais recursos petrolíferos do mundo, depois do Oriente Médio”, diz o especialista.

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Estúdios de Hollywood precisam agir agora ou a IA vai tomar o seu lugar

Atores e roteiristas temem ser substituídos por inteligência artificial. Mas os estúdios também deveriam estar preocupados

Michael Grothaus Fast Company Brasil 05-08-2023 

Uma das muitas preocupações legítimas dos atores e roteiristas em greve é que Hollywood possa substituí-los por IA. Os estúdios já propuseram escanear os rostos dos figurantes, pagar-lhes apenas uma vez e usar suas imagens em projetos futuros para sempre, sem qualquer tipo de remuneração adicional (atualmente, eles recebem entre US$ 100 e US$ 200 por dia de gravação).

Também se recusaram a negociar com os roteiristas sobre o uso de IA para escrever filmes e séries. Essa recusa levou muitos dos grevistas a temerem que Hollywood possa usar a inteligência artificial como uma ferramenta para reduzir custos (algo que a indústria do entretenimento está buscando ativamente). Humanos precisam ser pagos; a IA não.

Mas esse plano poderia, inadvertidamente, levar os próprios estúdios à ruína. Por quê? Porque até a década de 2030, é provável que a inteligência artificial os tenha tornado obsoletos.

HISTÓRIAS GERADAS POR IA

Lembra quando você era criança e, antes de dormir, queria ouvir uma história? Sua mãe, pai ou babá então inventava uma na hora. É o que a IA será capaz de fazer no futuro. Mas, muito além de apenas histórias curtas em áudio, ela poderá gerar filmes inteiros sob medida.

Esses filmes terão uma variedade de personagens, temas, tramas e trilhas sonoras emocionantes – tudo gerado por inteligência artificial, mas com a aparência de produções de Hollywood.

A grande diferença é que esse conteúdo não será produzido em estúdio. A IA não precisa deles, só precisa de si mesma. E poderá oferecer ao público algo que Hollywood não pode: filmes adaptados aos gostos individuais de cada pessoa.

A verdade é que os atores e roteiristas não estão lutando apenas pelo seu próprio futuro, mas também pelo dos estúdios.

Imagine ter um voo de oito horas pela frente e poder pedir à IA em seu tablet para gerar uma trilogia de espionagem exatamente com essa duração, ambientada em, digamos, Tóquio, a cidade para onde você está viajando.

Agora imagine, além de tudo, poder se ver no papel principal. A inteligência artificial será capaz de gerar um longa como esse com a mesma facilidade com que pais inventam uma história de ninar para seus filhos.

Em um mundo no qual qualquer um pode ter acesso ao filme que imaginar diretamente em seu smartphone, tablet ou smart TV, por que os investidores colocariam dinheiro em produções pelas quais as pessoas precisam ser convencidas a pagar para assistir? Os estúdios logo ficariam obsoletos.

Vale ressaltar que não sou o único que pensa assim. A atriz, escritora e diretora Justine Bateman publicou uma thread interessante no Twitter em maio com previsões semelhantes. E ela pode falar sobre o tema melhor que ninguém, já que, além de ter uma carreira consolidada em Hollywood, também é programadora e possui formação em ciência da computação.

Se você está lendo este artigo e acha tudo isso um absurdo, talvez não esteja prestando atenção suficiente na velocidade com que a IA generativa está evoluindo. Veja o tuíte abaixo, que mostra o progresso impressionante do Midjourney. Em apenas 15 meses, suas imagens passaram de estranhas até chegar ao ponto de serem quase indistinguíveis de fotografias reais.

Agora, observe como modelos que geram textos, como o ChatGPT, estão cada vez melhores. A versão 3.5 foi lançada no final de novembro de 2022. A 4.0, apenas três meses e meio depois, em março de 2023. As diferenças em termos da complexidade das histórias que cada versão pode gerar são surpreendentes.

O ChatGPT 3.5 produzia textos rudimentares, que não se comparavam às histórias escritas por humanos. Porém, como apontado pelo “Search Engine Journal”, a nova versão é capaz de gerar textos usando dialetos regionais e suas histórias apresentam enredos, personagens e narrativas mais coesas.

até a década de 2030, é provável que a inteligência artificial tenha tornado os estúdios obsoletos.

A próxima etapa é combinar essas duas tecnologias, como pesquisadores e empresas já estão fazendo. Em breve, teremos um sistema de IA capaz de produzir filmes roteirizados sob demanda. E essas tecnologias serão exponencialmente melhores em questão de meses. Imagine como estarão daqui a alguns anos.

“Ainda assim”, podem dizer os produtores, “os estúdios poderiam usar a inteligência artificial apenas para substituir roteiristas e atores. Jamais criariam uma IA generativa que qualquer um pudesse usar para gerar filmes com a mesma qualidade de produções hollywoodianas.”

A questão é que os estúdios não são os únicos que podem criá-la. Alguma gigante da tecnologia ou nova startup certamente o fará. Convenhamos, se você acredita que a Amazon se recusaria a lançar um Fire TV Stick com capacidade de gerar conteúdos personalizados, talvez não conheça tão bem assim a empresa de Jeff Bezos. Sem dúvida, seria um grande sucesso.

O Vale do Silício nunca teve problema em eliminar indústrias ultrapassadas, e o próximo alvo será Hollywood.

É importante lembrar que os escritores estão tão vulneráveis quanto os estúdios. Falo isso com propriedade, pois também sou escritor. Depois de estudar cinema no final dos anos 1990, mudei meu foco para jornalismo e literatura para ter mais controle sobre o processo de contar histórias.

As novas gerações podem deixar de notar as diferenças entre histórias humanas e aquelas inteiramente geradas por IA.

Há cerca de seis anos, comecei a me interessar por IA generativa, principalmente por causa dos deepfakes. Escrevi um livro de não-ficção sobre a tecnologia, e meu mais recente romance, “Beautiful Shining People” (Pessoas Sorridentes e Belas), será lançado nos Estados Unidos em outubro. Nesta obra, exploro como a IA mudará nossa sociedade e nossas relações, para melhor e para pior, nas próximas décadas.

Depois de pesquisar muito e escrever esses dois livros, estou cada vez mais convencido de que, em um futuro próximo, o Kindle será capaz de gerar livros de ficção sob demanda, adaptados aos gostos individuais do leitor, incluindo enredo, cenário e quantidade de páginas.

OS ESTÚDIOS PRECISAM AGIR, E RÁPIDO

Como, então, os estúdios podem evitar a obsolescência em um mundo impulsionado pela IA? Na verdade, não tenho certeza se isso será possível. Mas, se eles têm alguma esperança de sobreviver, precisam agir o quanto antes.

Leia também sobre a evolução dos drones : https://es360.com.br/coluna-inovacao/post/cavalos-e-fogos-vao-ficando-pelo-caminho-com-a-inovacao/

Primeiramente, terão que aceitar as demandas dos roteiristas e atores quanto ao uso da IA e encontrar formas de garantir que eles não serão substituídos. Em seguida, precisarão trabalhar com esses profissionais para fazer o que fazem de melhor: criar uma nova narrativa.

Hollywood precisa lançar uma campanha o mais rápido possível para convencer o público de que histórias humanas – isto é, aquelas criadas por pessoas de verdade – são as únicas que valem a pena ser contadas e, sobretudo, pelas quais vale a pena pagar para assistir.

Isso não é apenas marketing; é algo que eu e todo escritor, roteirista e diretor que conheço acreditamos plenamente. Filmes, peças e livros são feitos para explorar a condição humana. Somente nós, seres humanos, sabemos como é sermos nós mesmos, como é viver, amar e sofrer.

Quando entendemos isso, nos tornamos mais conectados uns com os outros e nos sentimos mais compreendidos. É uma sensação incrível quando assistimos ou lemos algo criado por outra pessoa e de repente percebemos: “ah, quem criou isso teve os mesmos pensamentos que eu!”. Isso nos faz sentir menos sozinhos.

É por essa conexão emocional que o público estará disposto a pagar. Conteúdos gerados por inteligência artificial jamais poderiam nos tocar dessa forma, pois sabemos que ela não compartilha genuinamente nossos pensamentos, experiências ou dificuldades, independentemente do que cria.

Os filmes terão uma variedade de personagens, temas, tramas e trilhas sonoras emocionantes, tudo gerado por IA, mas com a aparência de produções de Hollywood.

Tudo o que a IA produz é uma imitação, que causa profunda estranheza nos espectadores – não apenas nos nossos sentidos, mas também na alma. Naturalmente, essa falta de conexão pode deixar de existir quando a IA se tornar consciente e tiver algo próprio a dizer, mas provavelmente estamos a pelo menos meio século disso.

Dito isso, devo admitir que essa percepção pode não parecer tão óbvia para as gerações futuras. Tenho 45 anos e tive contato com a arte antes da IA. Mas tenho a sensação de que as novas gerações podem se acostumar com conteúdos produzidos artificialmente. Com o tempo, podem deixar de notar as diferenças mais profundas e significativas entre histórias humanas e aquelas inteiramente geradas por IA.

Para elas, o que a inteligência artificial produz pode se tornar a norma, fazendo com que os filmes criados por seres humanos percam seu valor. Se este for o caso, por que não pedir que seu tablet gere um longa personalizado em vez de pagar para assistir uma produção de Hollywood?

A verdade é que os atores e roteiristas não estão lutando apenas pelo seu próprio futuro, mas também pelo dos estúdios. Por isso, é fundamental que cheguem a um acordo o quanto antes. Caso contrário, a IA provavelmente se encarregará de escrever um novo final para essa história. Um final sobre o qual os estúdios não terão nenhum controle.

O tempo está se esgotando.


SOBRE O AUTOR

Michael Grothaus é escritor, jornalista, ex-roteirista e autor do romance “Epiphany Jones”.

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Descoberto metal capaz de se regenerar – e é tão fantástico quanto parece

“Estamos procurando por uma ‘fonte da juventude’ para os metais”, dizem pesquisadores

Elissaveta M. Brandon – Fast Company Brasil  04-08-2023 

Primeiro foram os polímeros que se autorregeneravam. Depois veio o concreto capaz de se consertar sozinho. Agora temos metais capazes de se “curar” sem a ajuda de ninguém.

Uma equipe de cientistas no Laboratório Nacional de Sandia, no Novo México (EUA), recentemente observou uma folha rachada de platina se regenerar enquanto realizava pesquisas sobre fadiga de metais.

Em um minuto, a rachadura era visível sob um microscópio eletrônico; no próximo, ela havia desaparecido completamente e o metal parecia novo.

as primeiras aplicações poderiam ser para componentes que operam no vácuo do espaço.

O mesmo aconteceu com um pedaço de cobre, e os cientistas especulam que isso possa se aplicar a outros metais também. As descobertas foram publicadas na revista científica “Nature”.

A fadiga de metais ocorre quando eles são expostos a estresses repetidos, como movimentos ou cargas recorrentes, o que pode causar rachaduras microscópicas que pioram com o tempo.

“Quando as pessoas pensam em falha de material, geralmente imaginam algo explodindo ou quebrando. Mas, na maioria das vezes, é devido ao uso repetido”, diz Michael Demkowicz, professor de ciência e engenharia de materiais da Universidade do Texas e coautor do estudo. “Você senta na mesma cadeira de novo e de novo e, eventualmente, ela quebra.”

Demkowicz previu a autorregeneração de metais há uma década, com base em simulações por computador. Agora, a equipe tem evidências claras de que, sob condições específicas (ainda a serem definidas), alguns metais possuem a capacidade de se autorregenerar sem intervenção humana.

“Acredito que a chave será modificar a microestrutura para otimizar a autorregeneração”, diz Demkowicz. “Isso é uma tarefa complexa, com muitas variáveis, por isso acredito que levará tempo até que aplicações concretas sejam possíveis.”

SOLDAGEM A FRIO

No entanto, isso não significa que não haja nenhuma aplicação possível. Como o estudo foi realizado em um ambiente de vácuo, é difícil dizer se o metal se regeneraria em um ambiente com ar. Assim, as primeiras aplicações poderiam ser para componentes que operam no vácuo do espaço. “Já tivemos contatos de pessoas da NASA nos ligando”, diz o pesquisador.

Junções de solda como as encontradas na eletrônica, além de máquinas rotativas – como eixos ou rolamentos de motores ou geradores – também poderiam se beneficiar dessa característica, pois são os tipos de mecanismo mais propensos à fadiga de metais.

Solda a frio (Crédito: Reprodução/ YouTube)

A mesma tecnologia seria útil para evitar o colapso de pontes metálicas ou infraestruturas maiores? A escala torna difícil especular, mas, como Demkowicz aponta, uma grande rachadura começa com uma rachadura pequena, portanto, não está fora de questão.

Durante o estudo, os pesquisadores utilizaram uma máquina que puxava as extremidades de um pedaço de metal cerca de 200 vezes por segundo. Quando uma rachadura se formou, tinha alguns micrômetros de largura e 60 nanômetros de comprimento.

A fadiga de metais ocorre quando eles são expostos a estresses repetidos, o que pode causar rachaduras microscópicas que pioram com o tempo.

Cerca de 40 minutos após o início do experimento, a rachadura começou a desaparecer e um terço dela se regenerou, depois cresceu em uma direção diferente. “Essa é uma das razões pelas quais pudemos apresentar um caso convincente de que o metal realmente se regenerou. A rachadura desapareceu e depois surgiu em outro lugar.”

O que é particularmente interessante é que a rachadura desapareceu à temperatura ambiente. Os pesquisadores chamam isso de soldagem a frio, um processo muito usado nas indústrias aeroespacial e eletrônica, que não precisa de calor nem eletricidade para soldar metais.

A soldagem a frio acontece quando duas superfícies de metal se aproximam tanto uma da outra que os átomos nas extremidades se ligam para reconstituir uma superfície lisa. “É uma questão simples de átomos querendo se unir”, diz Demkowicz.

Pode levar mais 10 anos para que a descoberta encontre aplicações fora do laboratório. Mas, se e quando isso acontecer, levará a ciência dos materiais um passo mais perto da ficção científica.

“O efeito da fadiga em metais é como o do envelhecimento no corpo humano”, explica. “Então, você poderia dizer que estamos procurando uma fonte da juventude para os metais.”


SOBRE A AUTORA

Elissaveta Brandon é colaboradora da Fast Company.


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A extinção dos CEOs

Nos próximos anos, devido à inteligência artificial, CEOs serão reduzidos ao papel de curadores, motivadores e articuladores

Rodrigo Tavares – Folha – 26.jul.2023 

A empresa chinesa de games NetDragon, a produtora colombiana de rum Dictador e a portuguesa AIsthetic Apparel, que opera no setor têxtil, têm algo em comum: os CEOs foram substituídos por robôs virtuais desenvolvidos por inteligência artificial (IA).

O CEO da empresa americana de software Logikcull anunciou que a permuta será feita em 2024: “Eu realmente acredito que substituir-me por IA é a melhor decisão para a nossa empresa.”

A IA permite identificar padrões processando gigantescas quantidades de informações, analisar dados de forma mais precisa e economizar custos. Os novos robôs poderão ser programados e customizados de acordo com a cultura de cada empresa.

Para tomar uma decisão, um CEO humano apoia-se no seu próprio conhecimento e experiência. Conta também com a contribuição da sua equipe. Para situações especiais, pode contratar os serviços de uma consultoria especializada.

Por definição, decisões empresariais são o somatório do eventual valor que pode ser gerado por cada indivíduo, de acordo com a experiência corporativa de cada um, a formação técnica de cada um e o perfil sociomoral de cada um. É uma espécie de antropocentrismo corporativo. “Eu Sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim”, como no Livro do Apocalipse.

A IA derruba as limitações físicas e intelectuais da individualidade. Por que uma empresa precisa estar dependente apenas do conhecimento finito e da experiência particular de um conjunto limitado de pessoas? Com IA, a decisão não é tomada a partir das partes (o conhecimento individual), mas do todo.

Analisam-se automaticamente todos os dados de todas as empresas sobre todas as decisões para se conseguirem identificar vantagens, desvantagens e riscos. Qual o Valor Presente Líquido de uma nova área de negócios? Em determinado país, devemos crescer organicamente ou por intermédio de Fusões e Aquisições? A inteligência artificial processa tudo o que foi feito por todos os competidores no passado para recomendar opções estratégicas. Seria algo impossível de ser concretizado por seres humanos, por mais engenhosos que sejam.

Contrariamente à crença inicial de que a inteligência artificial só iria substituir tarefas repetitivas e rotineiras baseadas em regras, um estudo demonstrou que posições no topo da gestão corporativa, que demandam altos níveis educacionais, poderão ser significativamente reconfiguradas ou eliminadas por IA.

O primeiro passo talvez seja a automatização de várias tarefas administrativas e financeiras como a produção de orçamentos, acompanhamento do desempenho da empresa, gerenciamento de agenda, envio de emails ou revisão do desempenho financeiro. O ChatGPT Plus também já possui uma ferramenta que analisa dados, cria gráficos e executa cálculos complexos.

Desvendando IA

Em breve, a IA auxiliará CEOs a prever tendências de mercado futuras, comportamento do cliente e riscos potenciais, permitindo que tomem medidas proativas. Algoritmos de IA poderão otimizar a gestão financeira, prevendo orçamentos, identificando oportunidades de economia de custos e gerenciando riscos financeiros.

A IA poderá aprimorar a eficiência da cadeia de suprimentos, reduzindo despesas e otimizando processos logísticos. Com o tempo, a IA como a conhecemos hoje irá evoluir para Inteligência Artificial Geral (AGI, na sigla em inglês), a partir da qual as máquinas irão exercer tarefas intelectuais de forma autônoma, ampliando as capacidades humanas. Nessa altura, irá reforçar-se a predominância de um CAIO (Chief AI Officer) relativamente a um CEO.

Porém, a IA não conseguirá substituir integralmente os CEOs. Há um elemento humano, consubstanciado, por exemplo, em negociações de contratos, avaliações e motivação de funcionários, alocações de capital ou comunicação pública, que apenas um ser humano pode realizar eficazmente. Mas cada CEO contará com um CAIO do seu lado.

Nas religiões cristã e judaica, acredita-se em anjos da guarda, um ser espiritual designado para velar pelo bem-estar e orientação espiritual de um indivíduo. Na religião dos negócios, o anjo da guarda irá chamar-se inteligência artificial. A Inflection.ai e a Bunch já disponibilizam assistentes pessoais que auxiliam na tomada de decisões difíceis e criativas.

A redução do papel do CEO permitirá também a eliminação dos preconceitos inatos que cada indivíduo imprime às suas decisões, o controle mais eficaz da corrupção e o encolhimento significativo de despesas salariais. De acordo com o Economic Policy Institute, nos EUA, um CEO de uma grande empresa recebe em média US$ 28 milhões anualmente ou 399 vezes mais do que o salário médio dos funcionários.

Outra grande vantagem da IA comparativamente a um humano é que não está sujeita a flutuações de produtividade e pode operar 24 horas por dia, sete dias por semana, sem precisar de pausas, permitindo a constante otimização de recursos.

Os CEOs serão escolhidos pelas suas qualificações éticas, psicológicas, comunicacionais e capacidade de liderança –muito menos pelo seu valor técnico ou científico. Exercerão, sobretudo, o papel de curadores, motivadores e articuladores.

As escolas de negócios terão necessariamente de se adaptar para conseguirem sobreviver. O ensino voltado para maximizar as habilidades lógicas individuais será gradualmente substituído pela integração de IA nos currículos e pela formação em ciências humanas e em ética dos profissionais de finanças, administração e economia.

Naturalmente que esta transformação não será imune a adversidades, principalmente legais e regulatórias. Levará tempo para consumidores e legisladores acreditarem plenamente na durabilidade e estabilidade da inteligência artificial. Atualmente, o Direito Societário e a Teoria Geral dos Contratos estão alicerçados na ideia de que atos jurídicos são exercidos por indivíduos com responsabilidade civil. Poderão, no futuro, Chief AI Officers assinar contratos?

Há outros desafios. A artificialização da inteligência poderá levar também ao apreguiçamento de seres humanos. Por que estudar ou trabalhar quando nenhum conhecimento adquirido está aparentemente à altura de um chatbot? Quem terá capacidade para auditar e corroborar a qualidade da informação provida por IA? Quando é que a IA irá remunerar os geradores de dados e informações das quais se alimenta? Como garantir que a tecnologia seja inclusiva e capture as necessidades de comunidades menos elitizadas? Como regular os avanços da IA além das cartas de princípios e códigos de conduta ética? A IA não tem de ser a solução para todos os nossos imbróglios sociais e profissionais.

A semana passada, o improvável Vladimir Putin perguntou ao CEO do Sberbank, o maior banco russo, num encontro com dezenas de empresários no Kremlin, se ele poderia ser substituído por IA. “A IA é absolutamente o futuro, está a par do poder atômico ou militar de um país” disse o sorridente presidente russo. O banqueiro reagiu com outro sorriso.

A inteligência artificial identifica no mínimo duas dezenas de tipos de sorrisos. O do banqueiro foi um “sorriso de resposta ouvinte” que usamos para mostrar que estamos prestando atenção no que está sendo dito. O de Putin aparentou ser um “sorriso sarcástico” que denota cinismo ou apreço pela desgraça alheia. E você? Quando pensa em inteligência artificial qual é o seu sorriso?

Rodrigo Tavares

Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-tavares/2023/07/a-extincao-dos-ceos.shtml

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Mais inteligente não é quem pensa mais rápido, mostra estudo

Quem tem inteligência maior resolve logo problemas fáceis, mas perde velocidade mental nos mais complexos

Folha/Deutsche Welle – 4.ago.2023 

Definir a inteligência continua sendo um desafio para a ciência, apesar de séculos de pesquisas. Muitos duvidam da validez dos métodos para medi-la, como os testes de QI, e a irrefreável ascensão da inteligência artificial (IA) problematiza ainda mais o conceito.

No entanto, uma noção tem persistido: que os graus mais elevados de inteligência humana estariam associados a um processamento mais rápido da informação –o que se denomina velocidade mental.

Um estudo publicado na revista Nature Communication, contudo, coloca em questão também essa hipótese tão difundida: seus três autores demonstraram que quem é mais inteligente demora mais a resolver problemas complexos, por ser menos propenso a tirar conclusões precipitadas.

No contexto do Projeto Conectoma Humano, Michael Schirner e Petra Ritter, da Charité – Universitätsmedizin Berlin, e Gustavo Deco, da Universidade de Pompeu Fabra, em Barcelona, submeteram 1.176 indivíduos a um teste de raciocínio, analisando em seguida a relação entre o desempenho e os tempos de reação.

Ficou demonstrado que, embora solucionassem mais rápido os problemas mais fáceis, os participantes com pontuações de inteligência mais altas demoravam mais a resolver os mais difíceis, por dedicarem mais tempo para decifrar determinados aspectos, antes de chegar a uma solução.

Coordenando dados sensórios e decisões

O estudo sobre “como a estrutura de rede configura a tomada de decisões para computação de inspiração biológica” sugeriu, ainda, que inteligência implica uma maior sincronia entre os lóbulos frontal e parietal do cérebro. O lóbulo frontal desempenha papel importante na atenção e na tomada de decisões, enquanto o parietal recolhe informação sensorial.

Os cientistas geraram modelos personalizados das redes cerebrais de 650 dos participantes. Para tal, combinaram os dados individuais de conectividade, obtidos através de rastreamento cerebral, com modelos genéricos de circuitos neuronais para a tomada de decisões.

O cotejamento revelou que quem demorava mais para resolver tarefas difíceis apresentava mais conectividade fronto-parietal em estado de repouso, além de uma maior sincronia entre ambas as regiões.

Isso contraria a suposição comum de que uma maior inteligência implique um cérebro mais rápido. Em circunstâncias mais complexas, é necessário um equilíbrio entre velocidade e precisão, permitindo tomar decisões mais acertadas.

Assim, enquanto o processamento mais rápido e automático é adequado para decidir sobre tarefas simples, um raciocínio mais lento e laborioso, favorecendo a compreensão gradual da informação relevante, pode ser mais eficaz na solução de questões mais complexas.

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/08/mais-inteligente-nao-e-quem-pensa-mais-rapido-mostra-estudo.shtml

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Elon Musk acumula poder global com sucesso da Starlink e preocupa governos em todo o mundo

Bilionário se tornou o poder dominante na tecnologia de internet por satélite

Por Adam Satariano, Scott Reinhard, Cade Metz, Sheera Frenkel e Malika Khurana

Estadão/NYT 03/08/2023 

THE NEW YORK TIMES – Em 17 de março, o general americano Mark A. Milley e o general Valeri Zaluzhni, líder das Forças Armadas da Ucrânia, entraram em uma chamada para discutir a invasão da Rússia à Ucrânia. Na linha segura, os dois líderes militares conversaram sobre sistemas de defesa aérea, avaliações de campo de batalha em tempo real e compartilharam informações de inteligência sobre as perdas militares da Rússia.

Eles também falaram sobre Elon Musk.

O general Zaluzhni falou sobre a Starlink, a tecnologia de internet via satélite feita pela empresa de foguetes de Musk, a SpaceX. O comandante ucraniano afirmou que as decisões de campo de batalha da Ucrânia dependiam do uso contínuo da Starlink para comunicações – ele queria garantir o acesso e discutir como cobrir o custo do serviço.

O general Zaluzhni também perguntou se os Estados Unidos tinham uma avaliação de Musk, que tem interesses comerciais diversificados e posição política obscura – os oficiais americanos não deram resposta.

Musk, que lidera SpaceX, Tesla e Twitter, tornou-se o nome mais dominante no setor aeroespacial ao acumular poder sobre o campo a internet por satélite. No entanto, diante de pouca regulamentação e supervisão, além do estilo errático, tem preocupado cada vez mais militares e líderes políticos em todo o mundo – uma das coisas que assusta é que o bilionário às vezes exerce sua autoridade de maneiras imprevisíveis.

Desde 2019, Musk tem enviado foguetes SpaceX ao espaço quase todas as semanas, que transportam dezenas de satélites do tamanho de um sofá. Os satélites se comunicam com terminais na Terra, para que possam transmitir internet de alta velocidade para quase todos os cantos do planeta. Hoje, mais de 4,5 mil satélites Starlink estão nos céus, representando mais de 50% de todos os satélites ativos no mundo – e eles já começaram a mudar a aparência do céu noturno, mesmo antes da conclusão dos planos de Musk de colocar em órbita até 42 mil satélites.

O poder do sistema de internet, que ajudou a aumentar o valor da SpaceX para quase US$ 140 bilhões, está apenas começando a causar impacto.

A Starlink é muitas vezes a única maneira de obter acesso à internet em zonas de guerra, áreas remotas e lugares atingidos por desastres naturais. É usado na Ucrânia para coordenar ataques de drones e coleta de informações de inteligência. Ativistas no Irã e na Turquia procuraram usar o serviço como uma defesa contra controles governamentais. O Departamento de Defesa dos EUA é um grande cliente da Starlink, enquanto outros militares, como no Japão, estão testando a tecnologia.

Mas o controle quase total de Musk sobre a internet por satélite gerou alarmes.

Personalidade inflamável

Enquanto Musk, 52, é aclamado como um inovador genial, ele tem poder para decidir desligar o acesso à internet Starlink para um cliente ou país inteiro – e ele tem a capacidade de alavancar informações sensíveis que o serviço coleta. Tais preocupações têm sido intensificadas porque nenhuma empresa ou governo se aproximou do que ele construiu.

Na Ucrânia, alguns medos se tornaram realidade. Musk restringiu o acesso à Starlink várias vezes durante a guerra. Em certo momento, ele negou o pedido do exército ucraniano para ligar a Starlink perto da Crimeia, o território controlado pela Rússia, afetando a estratégia do campo de batalha. No ano passado, ele sugeriu publicamente um “plano de paz” para a guerra que parecia alinhado com os interesses russos.

Em certos momentos, Musk ostentou abertamente as capacidades da Starlink. “Entre Tesla, Starlink e Twitter, eu posso ter mais dados econômicos globais em tempo real do que qualquer um”, ele tuitou em abril.

Musk não respondeu aos pedidos de comentários. A SpaceX se recusou a comentar.

Preocupados com a excessiva dependência da tecnologia de Musk, os oficiais ucranianos têm conversado com outros provedores de internet via satélite, embora tenham reconhecido que nenhum rivaliza com o alcance da Starlink.

“Starlink é de fato o sangue de toda a nossa infraestrutura de comunicação agora”, disse Mykhailo Fedorov, ministro digital da Ucrânia, em uma entrevista.

Pelo menos nove países – incluindo na Europa e no Oriente Médio – também falaram sobre a Starlink com funcionários americanos nos últimos 18 meses, com alguns questionando o poder de Musk sobre a tecnologia. Poucos países falarão publicamente sobre suas preocupações, por medo de alienar Musk, disseram oficiais de inteligência e cibersegurança informados sobre as conversas.

As autoridades americanas têm falado pouco publicamente sobre a Starlink, pois equilibram as prioridades domésticas e geopolíticas relacionadas a Musk, que criticou o presidente Biden, mas cuja tecnologia é inevitável.

O governo federal é um dos maiores clientes da SpaceX, usando seus foguetes para missões da NASA e lançando satélites de vigilância militar. Oficiais de alto escalão do Pentágono tentaram mediar questões envolvendo a Starlink, particularmente na Ucrânia. O Departamento de Defesa confirmou que possui contratos com a Starlink, mas se recusou a elaborar, citando “a natureza crítica desses sistemas”.

Outros governos estão cautelosos. Taiwan, que tem uma infraestrutura de internet que pode ser vulnerável em caso de uma invasão chinesa, reluta em usar o serviço em parte por causa dos laços comerciais de Musk com a China, disseram funcionários taiwaneses e americanos.

A China tem suas próprias preocupações. Musk disse no ano passado que Pequim buscava garantias de que ele não ligaria a Starlink dentro do país, onde a internet é controlada e censurada pelo estado. Em 2020, a China se registrou em um órgão internacional para lançar 13 mil satélites de internet próprios.

A União Europeia, em parte motivada por desconfianças sobre a Starlink e Musk, também destinou US$ 2,6 bilhões, no ano passado para construir uma constelação de satélites para uso civil e militar.

“Não se trata apenas de uma empresa, mas de uma pessoa”, disse Dmitri Alperovitch, um especialista em cibersegurança que cofundou a think tank Silverado Policy Accelerator e aconselhou governos sobre internet via satélite. “Você está completamente à mercê de seus caprichos e desejos.”

Alcançando os céus

Martin Sweeting, engenheiro britânico que fundou a empresa de design e fabricação de satélites Surrey Satellite Technology, foi incentivado por um associado de negócios em 2001 a se encontrar com um “cavalheiro que queria colocar uma estufa em Marte”. Era Musk.

Sweeting e Musk se encontraram logo depois para tomar café da manhã em uma conferência espacial no Colorado, onde o empreendedor de tecnologia criticou a NASA e falou sobre a construção de uma frota espacial privada.

“Ele era muito focado”, disse Sweeting, cuja empresa mais tarde recebeu um investimento de Musk e teve ele em seu conselho de diretores antes de ser vendida para a Airbus em 2009.

Musk também estava interessado em um campo emergente de pesquisa onde pequenos satélites são colocados no céu a várias centenas de quilômetros acima do nível do mar, uma área conhecida como “órbita terrestre baixa”, disse Sweeting.

O trabalho conjunto deles foi um dos primeiros exemplos do foco de Musk em uma tecnologia que ajudaria a sustentar a Starlink. Os satélites datados dos anos 1960 são tipicamente maiores – muitas vezes do tamanho de ônibus escolares – e localizados mais alto no espaço, em uma área conhecida como “órbita geoestacionária”, limitando suas capacidades de comunicação. Satélites menores podem orbitar em uma altitude mais baixa, permitindo que eles se conectem com terminais na Terra para transmitir serviço de internet de alta velocidade para locais distantes.

Muitos satélites pequenos são necessários para que isso funcione. Isso porque, à medida que um satélite se move acima de um terminal Starlink em terra, ele passa o sinal de internet para outro satélite atrás dele para manter um fluxo único e ininterrupto para os usuários abaixo.

Musk lançou seus primeiros satélites Starlink em 2019. Na época, a internet via satélite era vista como uma missão tola. Nos anos 90 e 2000, outras empresas perseguiram satélites de comunicação de baixa órbita com pouco sucesso devido ao custo e às dificuldades técnicas de colocá-los no espaço.

Mas Musk tinha uma vantagem. Os foguetes da SpaceX retornam à Terra após uma viagem ao espaço e são parcialmente reutilizáveis. Isso efetivamente deu a ele controle de um trem expresso para entregar constantemente satélites ao espaço, às vezes dezenas de cada vez.

Agora, quase todas as semanas, um foguete SpaceX carregado com satélites Starlink decola de um local na Califórnia ou na Flórida. Cada satélite é projetado para funcionar por cerca de três anos e meio. Há tantos em órbita que muitas vezes são confundidos com estrelas cadentes. Astrônomos documentaram como os dispositivos interferiram com telescópios de pesquisa e alertaram sobre o risco de colisões.

“O céu noturno é um dos shows mais gloriosos que a natureza apresenta e os humanos estão mudando isso para sempre”, disse Patrick Seitzer, um astrônomo da Universidade de Michigan que estuda detritos orbitais.

A Starlink oferece velocidades de download de internet normalmente em torno de 100 megabits por segundo, comparáveis a muitos serviços terrestres. A SpaceX geralmente cobra de cada cliente individual cerca de US$ 600 (R$ 1,4 mil para clientes brasileiros) por cada terminal que recebe uma conexão do espaço, mais uma taxa de serviço mensal de cerca de US$ 75 (R$ 184 para clientes brasileiros), com custos mais altos para empresas e governos. A empresa conhece a localização, movimento e altitude de cada terminal Starlink, disseram os especialistas.

O serviço, que estreou oficialmente em 2021 já está disponível em mais de 50 países, incluindo Estados Unidos, Japão, grande parte da Europa e partes da América Latina. Na África, onde o acesso à internet está atrás do resto do mundo, a Starlink está disponível na Nigéria, Moçambique e Ruanda, com mais de uma dúzia de outros países seguindo até o final de 2024, de acordo com o site da Starlink.

“Todo lugar na terra terá internet de alta largura de banda e baixa latência”, previu Musk no podcast Joe Rogan em 2020.

Militares, empresas de telecomunicações, companhias aéreas, linhas de cruzeiro e transportadoras marítimas têm recorrido à Starlink, que disse ter mais de 1,5 milhão de assinantes.

Os rivais têm lutado, embora a concorrência esteja crescendo. A britânica OneWeb foi tão atormentada por dificuldades financeiras que teve que ser resgatada pelo governo local e vendida para um grupo de investidores. A Amazon, fundada por Jeff Bezos, que possui a empresa de foguetes Blue Origin, planeja um concorrente da Starlink, o Project Kuiper, mas ainda não conseguiu colocar um satélite no espaço.

Linha de vida no campo de batalha

Nenhum evento demonstrou mais o poder da Starlink – e a influência de Musk – do que a guerra na Ucrânia. Mais de 42 mil terminais Starlink estão em uso na Ucrânia pelo exército, hospitais, empresas e organizações de ajuda. Durante as campanhas de bombardeio russas no ano passado, que causaram apagões generalizados, as agências públicas da Ucrânia recorreram à Starlink para permanecerem online.

“Sem a Starlink, não podemos voar, não podemos nos comunicar”, disse um comandante adjunto ucraniano conhecido pelo apelido Zub, ou Dente, que falou sob condição de anonimato por razões de segurança.

A Starlink entrou na Ucrânia em fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu e um ataque cibernético – mais tarde atribuído à Rússia – derrubou um sistema de satélite operado pela empresa de comunicações de alta velocidade Viasat que estava sendo usado pelo exército ucraniano. Com as tropas e comandantes offline, Fedorov, o ministro digital, fez um apelo a Musk por ajuda.

Dentro de horas, Musk contatou Fedorov para dizer que a Starlink havia sido ativada na Ucrânia. Dias depois, chegaram os terminais Starlink.

A tecnologia – encontrada em florestas, campos, vilas e montada nos tetos de veículos militares – deu ao exército ucraniano uma grande vantagem sobre as forças russas. O sistema permitiu que as equipes de artilharia, comandantes e pilotos assistissem simultaneamente a filmagens de drones enquanto conversavam online. Os tempos de resposta para encontrar um alvo e atingi-lo foram reduzidos para cerca de um minuto, em comparação com quase 20 minutos, disseram os soldados.

“O enorme número de vidas que a Starlink ajudou a salvar pode ser medido aos milhares”, disse Fedorov. “Esta é uma das componentes fundamentais do nosso sucesso.”

Mas as preocupações entre os oficiais ucranianos e ocidentais em relação ao controle de Musk sobre a tecnologia aumentaram, chegando a um ponto crítico no outono passado, quando ele fez repetidos comentários sobre a guerra que levantaram questões sobre seu compromisso com o serviço da Starlink na Ucrânia.

Em setembro, em um evento privado sobre assuntos mundiais e de negócios em Aspen, Colorado, Musk propôs um plano de paz para a Ucrânia que incluía a Rússia anexando terras ucranianas. A proposta indignou muitos participantes. Por volta dessa época, surgiram questões sobre quem pagaria pelo serviço Starlink na Ucrânia. A SpaceX inicialmente cobriu alguns dos custos, com os Estados Unidos e outros aliados também fornecendo fundos.

No mesmo mês, a SpaceX disse ao Departamento de Defesa dos EUA que não poderia continuar o arranjo e pediu ao Pentágono para assumir o financiamento. A empresa estimou o custo em quase US$ 400 milhões ao longo de 12 meses, de acordo com uma carta da SpaceX relatada pela CNN, que foi verificada pelo The New York Times.

A administração Biden orientou um alto funcionário do Pentágono, Colin H. Kahl, a mediar. Em 7 de outubro, Kahl ligou para Musk, que expressou medo de que a Ucrânia usasse a Starlink não apenas para se defender, mas também para conduzir operações ofensivas para recuperar território tomado pela Rússia, o que poderia causar baixas militares russas significativas, disse um ex-funcionário da administração. Kahl disse a Musk que mais pessoas na Ucrânia sofreriam se a Starlink fosse desligada.

Musk, no entanto, desligou o acesso para alguns terminais Starlink na Ucrânia. No final do ano passado, cerca de 1,3 mil terminais Starlink comprados por meio de um fornecedor britânico pararam de funcionar no país depois que o governo ucraniano não pôde pagar a taxa mensal de US$ 2,5 mil por cada um.

O acesso à Starlink também flutuou dependendo dos movimentos da guerra. À medida que as linhas de batalha se deslocavam, Musk usou um processo chamado geofencing para restringir onde a Starlink estava disponível nas linhas de frente. A SpaceX usa dados de localização coletados por seu serviço para impor limites de geofencing.

Isso causou problemas. Quando as tropas ucranianas tentaram retomar cidades como Kherson em áreas controladas pelos russos, elas precisavam de acesso à internet para se comunicar. Fedorov e membros das forças armadas enviaram mensagens a Musk e aos funcionários da SpaceX pedindo para restaurar o serviço nas áreas onde o exército estava avançando.

Fedorov disse que a SpaceX respondeu “muito prontamente”.

Musk tinha outras linhas vermelhas que ele não cruzaria. Ele recusou o pedido da Ucrânia no ano passado para fornecer acesso Starlink perto da Crimeia, a península controlada pela Rússia, para que ela pudesse enviar um drone marítimo cheio de explosivos para navios russos ancorados no Mar Negro, disseram duas pessoas familiarizadas com as discussões. Musk mais tarde disse que a Starlink não poderia ser usada para ataques de drones de longo alcance.

Outras autoridades dos EUA se manifestaram. Em junho, o Secretário de Defesa Lloyd Austin aprovou um acordo do Pentágono para comprar de 400 a 500 novos terminais Starlink e serviços. O acordo dá ao Pentágono o controle para definir onde o sinal de internet da Starlink funciona dentro da Ucrânia para esses novos dispositivos realizarem “capacidades-chave e certas missões”. Isso parecia destinado a fornecer à Ucrânia terminais e serviços dedicados para realizar funções sensíveis sem medo de interrupção.

O comportamento de Musk dividiu os oficiais ucranianos. Mykhailo Podoliak, um assessor do presidente Volodimir Zelenski, disse no Twitter em fevereiro que a SpaceX precisava escolher um lado.

Mas Fedorov disse que perguntas sobre o compromisso de Musk eram injustas. Quando a Ucrânia estava sob pesado bombardeio e enfrentava grandes cortes de energia em novembro, Musk ajudou a acelerar a entrega de cerca de 10 mil terminais Starlink, disse ele.

“A SpaceX e Elon Musk mostraram por meio de seus atos de que lado realmente estão”, disse Fedorov.

De Taiwan à Europa

Em fevereiro, dois cabos de internet submarinos que corriam entre a ilha principal de Taiwan e as ilhas periféricas de Matsu foram cortados por navios chineses. O incidente interrompeu o acesso online em todo Matsu, intensificando as preocupações de que a infraestrutura de comunicações de Taiwan estava vulnerável.

Taiwan pareceria ser um lugar ideal para trazer a Starlink. Mas o território estava relutante – uma preocupação cada vez mais ecoada em outros lugares à medida que os governos pesam o poder da internet por satélite contra os riscos de trabalhar com Musk.

Funcionários taiwaneses haviam conversado com a SpaceX sobre a Starlink, disse Jason Hsu, um ex-legislador de Taiwan que assessora o governo em infraestrutura digital. Mas as conversas desaceleraram parcialmente por causa de “grandes preocupações” sobre Musk, cujos interesses financeiros estão ligados à China, disse ele. Com cerca de 50% dos novos carros Tesla estimados para serem fabricados em Xangai, Taiwan não confia que Musk fornecerá acesso à Starlink se Pequim pressionar para desligar o serviço, acrescentou ele.

“Nos preocupamos que, se encomendarmos dispositivos da Starlink, cairemos em algum tipo de armadilha”, disse Hsu, agora pesquisador sênior da Harvard Kennedy School em Taipei. “Elon tem grandes interesses comerciais na China.”

Quando uma delegação do congresso dos EUA visitou Taiwan em abril, o representante Michael McCaul do Texas, um republicano e presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, perguntou à presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, durante um almoço sobre a possibilidade de usar a Starlink. Tsai não se comprometeu. Assistentes do Congresso concluíram logo depois que o serviço não era uma opção viável para Taiwan devido aos laços de Musk com a China, disse a equipe do comitê.

A influência de Musk tem sido debatida em outros lugares. Na União Europeia, preocupações sobre o domínio da Starlink influenciaram o bloco de 27 nações a reservar 2,4 bilhões de euros no ano passado para uma constelação de satélites “soberana”, para ser lançada o mais rápido possível em 2027.

“O espaço se tornou um domínio altamente disputado onde a União Europeia deve salvaguardar seus interesses vitais”, disse Thierry Breton, o comissário europeu que supervisiona o projeto. “A UE não pode se dar ao luxo de depender de outros.”

Para atender às necessidades do governo, a SpaceX introduziu um serviço relacionado à Starlink no ano passado, o Starshield, que oferecia maior segurança para o manuseio de material classificado e processamento de dados sensíveis. A Starlink também enfrenta críticas de governos mais autoritários.

Quando os protestos anti-governo eclodiram no Irã no ano passado, Musk disponibilizou a Starlink lá para ajudar os ativistas a permanecerem online. O governo iraniano acusou a SpaceX de violar sua soberania.

A China reclamou este ano para um painel das Nações Unidas que a SpaceX estava colocando tantos satélites em órbita que impediria outros de acessar o espaço. Em fevereiro, a Turquia recusou a oferta de Musk de fornecer acesso Starlink após um grande terremoto, que grupos da sociedade civil viram como um esforço para evitar a disseminação de notícias desfavoráveis online.

“O governo estava com medo de que a Starlink não estivesse sob seu controle, e poderia representar uma ameaça”, disse Chérif El Kadhi, analista de políticas que monitora a Turquia para o Access Now, uma organização de direitos digitais.

O domínio de Musk no espaço é improvável que seja igualado tão cedo. Em maio, a Amazon se preparou para colocar seus dois primeiros satélites em órbita, mas o lançamento foi adiado após um problema ser descoberto nos testes de foguete.

Desde então, Musk enviou pelo menos mais 595 satélites Starlink para o espaço. /TRADUZIDO POR ALICE LABATE

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