China está pronta para dominar as profundezas do mar e sua riqueza de metais raros

Com a mineração em águas profundas, país que já controla 95% do suprimento mundial de metais de terras raras planeja ampliar controle sobre setores emergentes, como o de energia limpa

Por Lily Kuo – Estadão/ The Washington Post – 20/10/2023 

KINGSTON – Quando o Dayang Hao, de 5,1 mil toneladas, um dos navios de expedição em águas profundas mais avançados da China, deixou o porto ao sul de Xangai há dois meses, uma faixa vermelha e branca — do tipo usado para divulgar exortações do Partido Comunista — lembrou a tripulação de sua missão: “Esforçar-se, explorar, contribuir”.

O Dayang Hao tinha como destino um trecho de 45,8 quilômetros quadrados do Oceano Pacífico, entre o Japão e o Havaí, onde a China tem direitos exclusivos de prospecção de rochas irregulares, do tamanho de bolas de golfe, que têm milhões de anos e valem trilhões de dólares.

Esse é o mais recente contrato da China, conquistado em 2019, para explorar “nódulos polimetálicos”, que são ricos em manganês, cobalto, níquel e cobre — metais necessários para tudo, desde carros elétricos até sistemas avançados de armas. Eles se encontram tentadoramente no fundo do oceano, apenas esperando para serem coletados.

Seja trabalhando nas profundezas do mar ou em terra, na sede do órgão regulador do fundo do mar das Nações Unidas, em Kingston, na Jamaica, Pequim está se esforçando para dar um salto no crescente setor de mineração em águas profundas.

A China já detém cinco das 30 licenças de exploração que a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês) concedeu até o momento — a maior de todos os países — e está em preparação para o início da mineração em águas profundas já em 2025. Quando isso acontecer, a China terá direitos exclusivos de escavar 148 quilômetros quadrados do leito marinho internacional — aproximadamente o tamanho do Reino Unido — ou 17% da área total atualmente licenciada pela ISA.

O fundo do oceano está se moldando para ser o próximo palco da competição mundial por recursos globais — e a China está pronta para dominá-lo. Acredita-se que o mar contenha mais metais raros do que a terra, que são essenciais para quase todos os produtos eletrônicos, produtos de energia limpa e chips de computador avançados. Com a corrida dos países para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a demanda por esses minerais deve disparar.

Quando a mineração em águas profundas começar, a China — que já controla 95% do suprimento mundial de metais de terras raras e produz três quartos de todas as baterias de íons de lítio — ampliará seu controle sobre os setores emergentes, como o de energia limpa. A mineração também dará a Pequim uma nova e poderosa ferramenta em sua crescente rivalidade com os Estados Unidos. Como um sinal de como esses recursos podem ser transformados em armas, em agosto a China começou a restringir as exportações de dois metais que são essenciais para os sistemas de defesa dos EUA.

“Se a China conseguir assumir a liderança na mineração do fundo do mar, ela realmente terá acesso a todos os minerais essenciais para a economia verde do século 21”, disse Carla Freeman, especialista sênior em China do Instituto da Paz dos Estados Unidos.

No caso dos nódulos polimetálicos, isso significa enviar veículos robóticos a até 5,4 mil metros de profundidade para o vasto e escuro fundo do mar, onde eles aspirarão lentamente cerca de 10 centímetros do leito marinho e, em seguida, bombearão o material para um navio.

A área marcada para mineração, embora represente menos de 1% do total do leito marinho internacional, ainda seria enorme. Os 30 contratos de exploração cobrem 869 mil quilômetros quadrados, mas estão concentrados em uma extensão do Pacífico chamada Zona Clarion-Clipperton. Com uma extensão de 4,9 mil quilômetros, ela é mais larga do que a área contígua dos Estados Unidos e contém até seis vezes mais cobalto e três vezes mais níquel do que todas as reservas terrestres.

Em sua busca para dominar esse setor, a China concentrou seus esforços na ISA, sediada em Kingston, em um prédio de pedra calcária com vista para o Mar do Caribe. Ao exercer influência em uma organização na qual é, de longe, o agente mais poderoso — os Estados Unidos não são membros da ISA — Pequim tem a chance de moldar as regras internacionais a seu favor.

Essa abordagem é fundamental para a tentativa de Xi Jinping de obter preeminência global. Líder mais forte da China em décadas, Xi está determinado a transformar a China em uma potência global que não esteja mais subordinada ao Ocidente, inclusive tornando-se uma potência marítima capaz de competir militarmente com os Estados Unidos.

Se você quiser se tornar uma potência global, terá que manter a segurança de suas rotas marítimas e de seus interesses. Portanto, tornar-se uma potência marítima é inevitável”, disse Zhu Feng, diretor executivo do Centro Chinês de Estudos Colaborativos do Mar do Sul da China na Universidade de Nanjing.

Os Estados Unidos fizeram pouco para responder aos movimentos da China em alto-mar. O país é apenas um observador na ISA, o que significa que corre o risco de ser deixado de lado à medida que as regras para esse futuro setor forem sendo estabelecidas. Ao contrário da China, as empresas americanas não têm nenhum contrato de exploração com a ISA, e os críticos dizem que Washington não tem um plano claro sobre como competir nesse novo setor.

“A lógica é que se não fizermos as regras, eles farão”, disse Isaac Kardon, autor de China’s Law of the Sea e membro sênior do Carnegie Endowment for International Peace.

“Essas são áreas de fronteira do direito internacional em que não há um regime óbvio, e são especialmente atraentes porque os EUA não estão lá”, disse ele. “É uma frente óbvia em qualquer que seja essa competição entre grandes potências.”

Abordagem ‘lenta e segura’

Eram quase 21h em uma noite de meados de julho quando Gou Haibo, alto e magro em um terno escuro, saiu de mais de seis horas de conversas a portas fechadas na sede da ISA.

O membro da delegação chinesa parou para fumar um cigarro em um jardim fora do salão principal, onde apresentaria o caso de seu país sobre a questão em pauta: como abrir o leito marinho internacional, que cobre mais da metade do planeta, para a mineração industrial.

A ISA está sob pressão para criar regras depois que a ilha de Nauru, no Pacífico, em parceria com a empresa canadense The Metals Company, acionou em 2021 uma disposição que exige que a organização permita a mineração dentro de dois anos, mesmo que um código regulatório não esteja em vigor.

Os países membros da ISA devem chegar a um acordo sobre um código final ou enfrentarão a possibilidade de a mineração continuar sem restrições. Por enquanto, a discussão sobre a “regra dos dois anos” foi adiada para o próximo ano. A China, de acordo com Gou, quer que as coisas andem mais rápido. Ele discordou da declaração do grupo, após dias de negociação, de que os países “pretendem” chegar a um acordo sobre um conjunto de regulamentações até o final de 2025.

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“A delegação chinesa ainda prefere o termo original — ‘compromete-se’”, disse Gou na reunião. Caso contrário, disse ele, “parece um pouco incerto o que faremos nos próximos meses ou nos próximos anos”.

A posição da China foi um exemplo da persistência com que seus diplomatas trabalham para serem ouvidos e para direcionar os procedimentos na ISA. Os delegados e ex-funcionários da ISA descrevem Pequim como exercendo uma influência discreta por meio de vários canais, inclusive organizando workshops e jantares regados a baijiu, o notoriamente forte licor chinês.

Sandor Mulsow, que ocupou cargos seniores na ISA de 2013 a 2019, disse que a China tem uma “agenda muito forte e de longo prazo”.”A China sempre trabalha de forma muito lenta e segura, e continua avançando”, disse ele.

A partir de 2021, a China se tornou o maior contribuinte para o orçamento administrativo da organização, informou a ISA. Pequim faz doações regulares para vários fundos da ISA e, em 2020, anunciou um centro de treinamento conjunto com a ISA na cidade portuária chinesa de Qingdao.

“É bastante claro que, quando a China fala, todos tendem a ouvir e tentam se acomodar”, disse Pradeep Singh, especialista em governança oceânica do Instituto de Pesquisa para Sustentabilidade na Alemanha, que participa das reuniões da ISA desde 2018.

Em julho, a delegação chinesa compareceu em peso. Ela incluiu representantes dos ministérios das relações exteriores e de recursos naturais do país, sua missão permanente na ISA e as três empresas estatais que controlam os cinco contratos de exploração do país.

Em um momento em que a participação ocidental no sistema da ONU está em declínio, acadêmicos e autoridades chinesas têm pressionado por um papel maior em organizações como a ISA — atendendo ao apelo de Xi para aumentar a influência internacional de Pequim. Na equipe de 52 membros da secretaria da ISA, que administra a organização, dois cargos são ocupados por cidadãos chineses. Uma comissão de assuntos jurídicos e um comitê de assuntos financeiros incluem um cidadão chinês cada um. Os especialistas indicados pela China estão sempre nesses órgãos, de acordo com o secretário geral Michael Lodge.

“Se você tiver pessoas nesses cargos, saberá tudo o que está acontecendo”, disse James McFarlane, chefe do Escritório de Recursos e Monitoramento Ambiental da ISA de 2009 a 2011.

Perguntado se a China exerce mais influência por causa de suas contribuições financeiras, Lodge disse: “Todo Estado participa na medida em que decide fazê-lo”.

O Ministério das Relações Exteriores da China, a Embaixada da China na Jamaica e as três empreiteiras chinesas não responderam aos diversos pedidos de entrevista. Os delegados presentes nas reuniões em Kingston se recusaram a falar oficialmente.

Mas especialistas que estão acompanhando de perto dizem que Pequim está sendo estratégica em sua abordagem. ”A China é provavelmente o país mais ativo da ISA”, disse Peter Dutton, professor de direito internacional da Faculdade de Guerra Naval dos EUA. ”Uma das coisas que os chineses estão fazendo de forma muito eficaz é se envolver na elaboração de regras e redigir regulamentos que possam favorecer seus interesses. Eles estão à nossa frente, e essa é uma área com a qual precisamos nos preocupar.”

Domínio da tecnologia e riscos ambientais

Para a China, a mineração em águas profundas nunca foi apenas uma questão de recursos naturais. Ela também tem a ver com a derrubada da ordem internacional tradicional dominada pelo Ocidente.

Nas décadas de 1960 e 1970, quando os pesquisadores perceberam a extensão da riqueza mineral do oceano, a questão sobre quem tem direito a esses recursos tornou-se ideológica.

Os países ricos, como os Estados Unidos, queriam operar por ordem de chegada, enquanto a China, um país em desenvolvimento, ficou do lado das nações do sul global e disse que os espólios deveriam ser compartilhados. O lado da China venceu, e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), acordada em 1982, foi ratificada pela maioria dos países. Os Estados Unidos reconhecem a convenção, mas não a ratificaram, em parte devido à oposição às suas disposições sobre mineração no fundo do mar.

De acordo com a convenção, a ISA foi criada em 1994 e encarregada de supervisionar a mineração em águas profundas. Os críticos dos EUA afirmam que a adesão ao tratado prejudicaria a soberania dos EUA em alto-mar ao transferir o poder para a ISA.

A China foi um dos primeiros países a enviar uma missão permanente para a ISA. O jornal oficial do Partido Comunista Chinês declarou a UNCLOS uma vitória contra a “hegemonia marítima”, enquanto o chefe da Administração Oceânica Estatal da China a chamou de “formação de uma nova ordem marítima internacional”.

A China entrou na corrida do mar profundo e passou as últimas décadas investindo cada vez mais em tecnologia e equipamentos, alcançando seus rivais ocidentais — que estavam muito à frente — e, em algumas áreas, superando-os.

Em 2001, a primeira empresa de mineração em águas profundas do país, a China Ocean Mineral Resources Research and Development Association (Associação de Pesquisa e Desenvolvimento de Recursos Minerais Oceânicos da China), ou COMRA, obteve a primeira licença da China para explorar nódulos polimetálicos.

Atualmente, a China abriga pelo menos 12 instituições dedicadas à pesquisa em águas profundas — uma delas, um amplo campus em Wuxi, província de Jiangsu, planeja contratar 4 mil pessoas até 2025. Dezenas de faculdades surgiram para se concentrar em ciências marinhas.

Em um discurso em 2016, Xi falou sobre acessar os “tesouros” do oceano e ordenou que seu país “dominasse as principais tecnologias para entrar no fundo do mar”.

O cerne do debate sobre a mineração em águas profundas é se isso pode ser feito de uma forma que não prejudique os ecossistemas e as espécies oceânicas. Os cientistas afirmam que esse tipo de atividade no fundo do mar destruirá uma biblioteca de informações importantes para descobertas médicas, compreensão das origens da vida e outros avanços. Os ambientalistas dizem que a mineração em águas profundas perturbará o maior sumidouro natural de carbono do mundo, que absorve um terço do dióxido de carbono gerado em terra. As plataformas de mineração, o maquinário e os navios de transporte aumentarão o ruído e a poluição que prejudicam a vida marinha.

Além dos nódulos polimetálicos, dois outros tipos de depósitos estão sendo considerados para mineração oceânica — sulfetos polimetálicos, encontrados em fontes hidrotermais, e crostas de cobalto ricas em metal, que se encontram em camadas endurecidas ao longo de montanhas submarinas. Ambos serão ainda mais difíceis de minerar.

Os ambientalistas também se preocupam com o fato de que o histórico da China de privilegiar o setor em detrimento do meio ambiente levará a regulamentações diluídas. Os moradores e as autoridades do sudeste da China ainda estão lutando contra a poluição generalizada do solo e da água causada por um boom na mineração de metais de terras raras a partir da década de 1990.

Durante a sessão de três semanas em julho, os delegados chineses aconselharam a ISA a ser “prudente” na aplicação de punições financeiras às empreiteiras que violarem as regras. A delegação se opôs à criação de uma comissão independente para garantir que as empresas sigam as normas ambientais.

Durante toda a última semana da reunião, a China bloqueou sozinha o debate sobre a proteção marítima, incluindo a discussão de uma moratória sobre a mineração em alto-mar, uma proposta que agora é apoiada por 22 países preocupados com os danos ambientais.

As autoridades chinesas costumam dizer que a preservação ambiental deve ser equilibrada com a necessidade de desenvolvimento — uma abordagem que preocupa outros delegados. ”Se você equilibrar essas questões, não será eficaz. É um mandato da UNCLOS”, disse Gina Guillen-Grillo, chefe da delegação da Costa Rica, citando o Artigo 145 da UNCLOS, que diz que os países devem garantir “proteção efetiva do ambiente marinho contra efeitos nocivos”.

“É preciso cumpri-lo e, depois de cumpri-lo, você pode minerar”, disse ela. “Não é como se você pudesse minerar um pouco e cumprir um pouco.”

Mas os defensores dizem que a mineração em águas profundas é o único setor do mundo a ser regulamentado antes de existir e que é necessário para os carros elétricos e outras tecnologias que ajudarão a evitar desastres climáticos.

Empreiteiras como a The Metals Company — a única empresa a testar um sistema completo de mineração em águas profundas na zona de Clarion-Clipperton — estão à frente na corrida tecnológica, mas as empresas chinesas estão se aproximando.

“Elas estão começando a ganhar impulso”, disse Gerard Barron, CEO da The Metals Company, referindo-se às três empresas chinesas que controlam as reivindicações de exploração da China. ”Estamos vendo, certamente, um aumento na atividade. Elas agora têm orçamentos substanciais que não tinham há dois anos.”

Em 2021, a COMRA da China testou um sistema para coletar nódulos polimetálicos a uma profundidade de 1,28 mil metros nos mares do leste e do sul da China.

“Quando se trata de escrever regras internacionais para águas profundas, a voz da China está ficando mais forte”, escreveu Liu Feng, então chefe da COMRA, em um artigo de 2021.

A China agora está se posicionando como um líder pronto para ensinar outros países sobre o mar. Seus submersíveis produzidos internamente são capazes de mergulhar mais de 10,6 mil metros até o fundo da Fossa das Marianas, o ponto mais profundo da Terra.

“Agora que temos esse equipamento, podemos recuperar o tempo perdido”, disse em uma entrevista Wang Pinxian, um geólogo marinho chinês que liderou alguns dos primeiros programas de águas profundas da China. “A China pode ser seu próprio mestre e pode receber e trabalhar com pessoas de países em desenvolvimento.”

Tecnologia com aplicações militares

Enquanto o Dayang Hao fazia a prospecção de nódulos polimetálicos nos últimos meses, a Beijing Pioneer Hi-Tech Development — a empreiteira chinesa que controla essa área de reivindicação — testava um sistema de pesquisa de alta precisão que pode operar em profundidades de mais de 5,8 mil metros. A embarcação tinha estudantes do Quênia, Argentina, Nigéria e Malásia a bordo, onde estudavam o oceano e brincavam de cabo de guerra, de acordo com a mídia estatal.

Essas descrições benignas desmentem o que os pesquisadores dizem ser o outro objetivo claro do programa de águas profundas da China: desenvolver vantagens militares no oceano.

A pesquisa necessária para se preparar para a mineração em alto-mar — medir a acústica ou a temperatura das correntes, mapear a topografia e desenvolver equipamentos que possam operar sob alta pressão e com baixa visibilidade — é a mesma necessária para a guerra submarina.

“Quando eles enviam submersíveis, os planejadores por trás disso estão pensando em minerais, mas também em como aproveitar as profundezas do mar para obter vantagens militares, não apenas na guerra antissubmarina, mas também para seus submarinos”, disse Alexander Gray, ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, atualmente no Conselho Americano de Política Externa.

A China também sinalizou que está pensando dessa forma. A lei de segurança nacional da China agora inclui o fundo do mar internacional como uma área onde os ativos e interesses chineses devem ser protegidos. A Comissão Militar Central da China, que supervisiona as forças armadas do país, identificou o fundo do mar como um novo campo de batalha.

Acadêmicos chineses destacaram a importância dos nódulos polimetálicos para equipamentos militares e aeroespaciais, enquanto o Exército de Libertação Popular da China observou as oportunidades do mar profundo para a guerra moderna em um artigo de 2022.

Há conexões estreitas entre os setores acadêmico, comercial e militar da China, e vários dos mais ambiciosos projetos de mineração em águas profundas do país foram financiados por programas de pesquisa militar. A China Minmetals, uma das empreiteiras que controla as licenças de exploração em águas profundas da China, realizou testes de mineração no âmbito do Programa 863, uma iniciativa do governo para desenvolver tecnologia de ponta para a segurança nacional.

Esses vínculos estreitos tornam difícil saber quando os navios chineses de pesquisa em águas profundas estão coletando dados para fins científicos ou militares.

De acordo com os dados de rastreamento de navios coletados pela Global Fishing Watch e pelo Benioff Ocean Science Laboratory da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, os navios chineses de pesquisa em alto-mar, incluindo o Dayang Hao, aventuraram-se nos últimos anos nas zonas econômicas exclusivas das Filipinas, Malásia, Japão, Taiwan, Palau e Estados Unidos.

Um desses navios, o Kexue, realizou pesquisas durante 20 dias em julho e agosto de 2022 perto do Scarborough Shoal, uma das áreas mais contestadas no Mar do Sul da China e local de um confronto contínuo entre a China e as Filipinas, que reivindicam o atol. O Dayang Hao também parece ter realizado um levantamento do leito oceânico nas zonas econômicas exclusivas das Filipinas e da Malásia, perto das disputadas Ilhas Spratly. De acordo com a lei internacional, é ilegal realizar pesquisas comerciais ou científicas na zona econômica exclusiva de outro país sem permissão.

Harrison Prétat, diretor associado da Iniciativa de Transparência Marítima da Ásia no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que a vasta frota de navios de pesquisa da China poderia estar coletando informações para os militares chineses. ”É muito provável que muitas dessas pesquisas sejam científicas e militares, ou comerciais e militares”, disse Prétat.

No final de 2021, uma embarcação irmã do Dayang Hao, o Dayang Yihao, estava explorando a Zona Clarion-Clipperton como parte de uma expedição de quatro meses da China Minmetals quando, de repente, se afastou da área de reivindicação da China, indo direto para o norte. Ele cruzou a zona econômica exclusiva dos EUA perto do Havaí, onde viajou por cinco dias, traçando um loop ao sul de Honolulu, antes de retornar à sua área de reivindicação. O Departamento de Estado não recebeu nenhuma solicitação da China para realizar pesquisas científicas na zona dos EUA nessas datas, disse um porta-voz.

O desvio teria dado aos pesquisadores a chance de entender a topografia do fundo do mar ao redor do Havaí, ou as condições das operações navais e como os submarinos entram e saem. ”Os EUA ficariam preocupados se alguma embarcação estatal estivesse próxima”, disse Thomas Shugart, ex-oficial de guerra de submarinos da Marinha dos EUA e membro sênior adjunto do Center for a New American Security. Esses movimentos são uma preocupação para ambos os países — e uma preocupação que só se tornará mais urgente à medida que a mineração em águas profundas se tornar uma realidade.

“Para a China, à medida que se torna uma potência marítima”, disse Zhu, da Universidade de Nanjing, “como e se ela pode estabelecer um mecanismo para trabalhar com os Estados Unidos é definitivamente um problema difícil”.

https://www.estadao.com.br/economia/china-mineracao-aguas-profundas-riqueza-metais-raros/

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A avó do Vale do Silício

Por que Shockley escolheu o lugar? Porque em Palo Alto vivia May Shockley, sua mãe

Pedro Doria – O Globo – 20/10/2023 

Às vezes precisamos de histórias leves — ultimamente, elas se tornaram preciosas. Uma história sem política, ditadores ou ameaças à democracia. Esta até envolve semicondutores, mas nenhuma geopolítica. É uma história leve, de um filho e sua mãe. E também de por que o Vale do Silício fica onde fica. Essa resposta já foi dada muitas vezes, mas nunca de forma tão convincente. Tem muito pouco a ver com tecnologia e tudo a ver com Sigmund Freud. Quem descobriu a história — ou, ao menos, ligou os pontos que estavam na cara de todo mundo e ninguém tinha visto antes — foi o jornalista e escritor Malcolm Gladwell, na última edição de seu excelente podcast, Revisionist History.

O filho é um dos mais brilhantes físicos do século XX, William Shockley. Foi ele um dos três cientistas que descobriram o efeito transístor. Em essência, que semicondutores poderiam ser ligados e desligados usando eletricidade. Por isso recebeu apenas o Prêmio Nobel — foi uma das descobertas científicas fundamentais de todo o século.

Por volta de 1955, Shockley decidiu largar simultaneamente seu trabalho com o Departamento de Defesa americano e o emprego que tinha no Bell Labs, o mais prestigioso laboratório de desenvolvimento tecnológico dos Estados Unidos. Circulou o país convencendo alguns dos mais brilhantes físicos da área a se juntarem a ele para erguer uma empresa, a Shockley Semiconductor. Ele convenceu todo mundo que chamou. E escolheu para sede da companhia uma pequena cidade na Península de San Francisco chamada Mountain View.

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Era um lugar de todo improvável. É verdade que a cidadezinha, hoje sede do Google, fica ao lado de Palo Alto, onde está a Universidade Stanford. Mas Stanford não era a escola que é hoje, em constante disputa com Harvard pelo topo da lista das melhores universidades do país. Era uma boa universidade dentre muitas. Para qualquer um a quem se perguntasse, escolher Mountain View para sediar uma empresa de tecnologia era para lá de aleatório.

Shockley não era um homem fácil. Agressivo, paranoico. Com o passar do tempo, tornou-se um eugenista. Abertamente racista. A empresa havia começado fazia pouco quando dois de seus principais engenheiros, Gordon Moore e Robert Noyce, decidiram deixá-la. Mas, como já haviam comprado casas nas redondezas, decidiram fundar sua própria companhia também por ali. Batizaram-na Intel. Graças aos microchips da Intel, nasceram incontáveis empresas na região que planejavam fazer computadores pessoais.

O efeito transístor dos semicondutores permitia miniaturizar o cérebro de computadores que ocupavam salas inteiras. É por isso que eles foram parar no topo da mesa e, depois, no colo e, enfim, no bolso. Graças à Intel. Pois não haveria Intel se não fosse, antes, a Shockley. Por causa do sucesso daquela indústria, a Universidade Stanford acabou por atrair os melhores professores e os alunos mais capazes para alimentar aquele setor nascente da economia.

Por que Shockley escolheu o lugar? Porque em Palo Alto vivia May Shockley, sua mãe. Ele estava recém-divorciado, ela era viúva. E era uma mãe hiperprotetora. Freud puro. May aturava o físico racista e paranoico, genial, como ninguém mais.

O nome de Shockley não ficou na memória do Vale. Não se conta a história da indústria sem falar da Intel, claro. Ao falar da Intel, sempre se diz que Moore e Noyce vieram da Shockley. E que Shockley, o homem, foi um dos três que perceberam uma propriedade-chave de determinados materiais, permitindo que surgissem microprocessadores. Mas era desagradável demais, poucos gostavam dele. Virou nota de pé de página.

https://oglobo.globo.com/opiniao/pedro-doria/coluna/2023/10/a-avo-do-vale-do-silicio.ghtml

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Shein avança com produção no Brasil e chega a 336 fábricas parceiras em 12 Estados

Meta é atingir 2 mil parceiros até 2026, movimentando 100 mil empregos diretos e indiretos; empresa lança no País coleções plus size, fitness e underwear

Estadão – 19/10/2023 

A varejista Shein já atingiu o número de 336 fornecedores parceiros para a sua estratégia de produção local para atender o mercado brasileiro. Em maio, em resposta às críticas que recebeu dos concorrentes nacionais pela importação de produtos e ao plano depois abandonado do governo de taxar as remessas internacionais de encomendas abaixo dos US$ 50, a empresa fundada em 2012 pelo chinês Chris Xu e sediada em Cingapura assumiu o compromisso de ter 2 mil parceiros de manufatura no Brasil e investir R$ 750 milhões num período de três anos.

A meta envolve também, segundo a empresa, movimentar 100 mil empregos diretos e indiretos no País e ter 85% das vendas feitas no Brasil relacionadas a produtos de fabricação local até o fim de 2026. Com essa estratégia, a empresa está tornando o Brasil um dos seus três grandes centros de produção global, ao lado de China e Turquia. “Temos um objetivo ousado, de tornar o Brasil um ‘hub’ de exportações. O País tem um parque têxtil bom”, afirma a diretora de produção local da Shein, Fabiana Magalhães. A empresa opera em 150 países.

As 336 fábricas parceiras estão localizadas em 12 Estados: Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Ceará, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte. Até o momento, 213 dessas fábricas já operam no modelo de negócios da Shein, conhecido por trazer inovações no lançamento e testes de aceitação de cada peça, baseados em inteligência artificial.

Fabiana Magalhães, diretora de produção local da Shein no Brasil

Fabiana Magalhães, diretora de produção local da Shein no Brasil Foto: Divulgação Shein

“Somos uma empresa de tecnologia. A gente testa, comprova e alavanca a produção. Começamos com quantidade pequenas, de 50 a 200 peças, e nos baseamos em dados para produzir mais peças de cada modelo”, diz a executiva. “Muitos fornecedores querem aprender a atuar de forma inovadora, e fazer mais do mesmo não levá-los ao futuro.”

Segundo a estratégia da Shein, 100% dos fornecedores ficam com acesso a todos os dados da empresa, e conseguem acompanhar a evolução das vendas de cada peça. “Se uma peça é lançada e no primeiro dia vende duas unidades, e no terceiro já salta para 50, a fabricante pode já planejar um aumento da produção e pode sugerir para nós uma variação sobre o mesmo tema.”

Novas coleções

Desde que a produção local se iniciou, 4 mil modelos já foram criados. “No centro de toda a estratégia para o País está oferecer custo benefício, variedade, moda brasileira e inovação.”

Essa expansão da produção brasileira acontece no momento em que a Shein lança três novas coleções para o mercado local: plus size, fitness e underwear. Tudo isso considerando a modelagem para o corpo e os gostos brasileiros. “Toda a produção é baseada em dados, não no feeling. As novas categorias são com base no que o consumidor quer”, diz Fabiana.

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Cinco maiores bancos do país fecharam mais de 2,5 mil agências em 3 anos. E estão mudando as que ficaram

Digitalização acelerada de transações bancárias e a popularização dos smartphones torna os espaços físicos obsoletos em meio à concorrência crescente. As abertas estão ganhando novos usos

Por Letycia Cardoso — O Globo – 18/10/2023 

De um dia para o outro, as grandes filas nos balcões e caixas eletrônicos dos bancos para fazer saques, pagar contas ou resolver qualquer problema simples foram substituídas por um clique. Nos aplicativos das instituições financeiras, é possível desde abrir uma conta e pegar empréstimos até investir e pagar praticamente qualquer coisa com Pix.

A acelerada digitalização do setor bancário e o avanço dos smartphones estão tornando obsoletas as agências bancárias. Para cortar custos e enfrentar a concorrência acirrada pela chegada dos bancos digitais — que nascem sem uma agência sequer —, os bancos estão fechando suas operações físicas. As que ainda estão com as portas abertas, vêm ganhando novos layouts e funções.

Segundo um levantamento da Ável Investimentos, com base em dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal fecharam juntos 2.563 agências bancárias de 2020 a 2022. No primeiro trimestre deste ano, 256 unidades foram encerradas. O movimento acabou levando ao desemprego mais de 14 mil bancários, estima uma pesquisa da Dieese.

Embora alguns perfis de clientes, como idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, não estejam tão acostumadas a lidar com ferramentas tecnológicas, o Banco Central não estabelece um número mínimo de agências bancárias que as instituições financeiras tradicionais têm que manter em cada região. E os bancos tradicionais estão investindo cada vez mais na interface digital.

Mesmo o Banco do Brasil, que no ano passado abriu mais agências que fechou, já possui 93,1% das operações dos clientes realizadas por meio dos canais digitais.

No Bradesco, com 98% das transações digitais, um novo modelo de atendimento está transformando parte das agências em unidades de negócios. Isso inclui tanto alteração do tamanho do espaço físico ocupado até unificação de unidades que ficam próximas. Além disso, o banco está apostando em unidades do Bradesco Expresso, uma rede de pequenos correspondentes bancários com mais de 40 mil pontos que funcionam em horário ampliado, maior que o expediente tradicional das agências.

Em vez de fechar, o Santander vem transformado algumas agências em um tipo de estabelecimentos multiuso, muito diferente das agências convencionais. O novo modelo já está em 12 cidades do país. No espaço original da agência, saem balcões, mesas e estofados e entram uma cafeteria e um espaço de coworking aberto ao público, o WorkCafé. Uma unidade de atendimento com funcionários do banco é apenas uma das funções ali, ocupando uma parte limitada do espaço.

O Itaú, que estima que 80% das transações de seus clientes sejam on-line, implementa um plano que pretende adaptar e modernizar toda a rede de atendimento até 2025. O banco diz que a ideia é que as agências tenham um novo formato, “numa configuração mais moderna e acolhedora”, voltada, por exemplo, para aconselhamento sobre investimentos e planejamento financeiro.

Victor Borba, assessor de investimentos e especialista de setor bancário da Ável, diz que a tendência não é exclusiva do setor. Ele observa que, além de ter se provado não ser necessário um grande espaço físico para prestar serviços e ganhar mais clientes, a estratégia digital pode ser mais fácil de melhorar resultados.

— Quem vai fisicamente ao banco é um número restrito de pessoas e, cada vez mais, os bancos vêm perdendo espaço na parte de investimento para as corretoras — avalia. — Então, ao invés de ter uma agência numa grande avenida, montar um quiosque dentro de um metrô, em que há grande circulação de pessoas, colocar café, assim como abrir a própria corretora são estratégias mais eficazes para expandir o marketshare (fatia de mercado).

Pablo Alencar, especialista da Valor Capital, explica que o custo de manutenção das agências físicas é muito elevado. Por isso, as instituições têm tomado decisões estratégicas, como manter um maior número de agências tradicionais em bairros onde há clientes de faixas etárias mais altas, que ainda gostam de ir pessoalmente às agências.

Os mais jovens tendem a preferir resolver quase tudo pelo celular, de forma autônoma. Por isso, os espaços físicos remanescente precisam oferecer algo a mais para atrair visitantes. É aí que os cafés, espaços com internet e outros benefícios passam a ser estratégicos.

Caixa na contramão

A Caixa, com tradição em financiamentos imobiliários e que tradicionalmente atende a muitos idosos aposentados e beneficiários de programas sociais, é o único banco convencional na contramão. Não tem planos de reconfigurar suas agências.

Segue abrindo unidades de atendimento em uma rede de atendimento que já é composta por 4,3 mil agências e postos de atendimento, 22,6 mil lotéricos e correspondentes CAIXA Aqui, dez agências-caminhão e duas agências-barco para regiões ribeirinhas.

— A Caixa é um caso peculiar porque, em geral, a pessoa quando quer realizar um financiamento imobiliário acaba preferindo ir presencialmente. Assim como o público de classe mais baixa, que prefere falar com o gerente antes de qualquer transação — diz Borba.

https://oglobo.globo.com/economia/financas/noticia/2023/10/18/cinco-maiores-bancos-do-pais-fecharam-mais-de-25-mil-agencias-em-3-anos-e-estao-mudando-as-que-ficaram.ghtml

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The Economist: O livre-comércio global ficou no passado?

Os governos estão descartando os princípios que enriqueceram o mundo em favor da ‘economia patriota’

The Economist – 08/10/2023 

Às vezes, em guerras e revoluções, mudanças fundamentais chegam fazendo estrondo. Com mais frequência, porém, elas chegam de mansinho – e assim é a coisa em relação ao que nós estamos chamado de “economia patriota”, uma ideologia protecionista, com altos subsídios e intervenções pesadas administradas por Estados ambiciosos. Cadeias de fornecimento frágeis, crescentes ameaças à segurança nacional, a transição energética e a crise no custo de vida têm exigido ações de governos – e por uma boa razão. Mas, quando nós juntamos isso tudo, fica claro quão sistematicamente o pressuposto dos livres mercados e governos limitados tem sido deixado ao léu.

Na opinião desta revista, trata-se de uma tendência alarmante. Nós fomos fundados em 1843 para advogar por, entre outras coisas, livre-comércio e um papel modesto dos governos. Hoje, esses valores liberais clássicos não apenas são impopulares, mas estão cada vez mais ausentes do debate político. Menos de oito anos atrás, o ex-presidente Barack Obama tentava colocar os Estados Unidos em um gigantesco acordo comercial no Pacífico. Hoje, quem argumenta favoravelmente ao livre-comércio em Washington é ridicularizado, rotulado como irremediavelmente ingênuo; e no mundo emergente é classificado como uma relíquia neocolonialista da era em que o Ocidente ainda sabia das coisas.

Nosso argumento é que a economia patriota se provará, em última instância, uma decepção. Ela diagnostica equivocadamente o que saiu errado, sobrecarrega o Estado com responsabilidades impossíveis de cumprir e frustrará um período de rápida mudança social e tecnológica. A boa notícia é que, eventualmente, ela destruirá a si mesma.

A ideia de que o protecionismo é a maneira de lidar com turbulências de livres mercados é central ao novo regime. O sucesso da China convenceu ocidentais da classe trabalhadora de que eles têm muito a perder com a livre circulação de mercadorias através das fronteiras. A pandemia de covid-19 fez as elites pensarem que os riscos devem diminuir nas cadeias globais de fornecimento, com frequência mudando a produção para países mais próximos. A ascensão da China sob o “capitalismo estatal”, com seu desrespeito ao comércio com base em regras e o desafio ao poder americano, foi adotada por economias ricas e emergentes como justificativa para intervenção.

Esse protecionismo caminha ao lado de gastos extras do governo. A indústria está devorando subsídios para impulsionar a transição energética e garantir o abastecimento de itens estratégicos. Vastas ajudas em dinheiro aos lares durante a pandemia elevaram as expectativas do Estado enquanto “porto seguro” contra os infortúnios da vida. Os governos espanhol e italiano estão até resgatando devedores que não conseguem arcar com os custos em elevação das hipotecas.

E, inevitavelmente, ajudas em dinheiro do Estado caminham ao lado de mais regulações. A vigilância antitruste se torna ativista. Agências reguladoras vigiam mercados nascentes, de games na nuvem a inteligência artificial. Já que o valor dos créditos de carbono ainda está baixo demais, os governos acabam microgerenciando a transição energética por decreto.

Essa combinação entre protecionismo, gastos e regulações tem um custo pesado. Para começar, trata de um diagnóstico equivocado. Concentrar e arcar com riscos é realmente função essencial dos governos. Mas não todos os riscos: para os mercados funcionarem, ações têm de ter consequências.

Em contraste à visão aceita, a covid e a guerra na Ucrânia mostraram que os mercados lidam com choques melhor do que planejadores. O comércio globalizado lidou com enormes oscilações na demanda do consumidor: o fluxo nos portos americanos em 2021 foi 11% mais alto que em 2019. Em 2022, a economia alemã repetiu o truque, sem sofrer nenhuma calamidade, conforme mudou rapidamente sua matriz energética do gás russo para outras fontes.

Em contraste, mercados como o de fornecimento de projéteis para a Ucrânia, dominados por Estados, ainda enfrentam dificuldades. Da mesma forma que as antigas reclamações a respeito do comércio com a China, que incrementou a renda real dos americanos, queixas a respeito da suposta fragilidade da globalização ergueram um castelo sobre um grão de verdade.

Outra falha na economia patriota é sobrecarregar o Estado. Governos estão perdendo completamente o comedimento quando o que precisam é cortar gastos com bem-estar social. Populações envelhecidas pesam em orçamentos com contas maiores de pensões e assistência de saúde. Taxas de juros subindo pioram tudo. Depois de uma crise no mercado de títulos em 2022, o governo de direita do Reino Unido está aumentando impostos em relação ao PIB mais do que qualquer outro mandato parlamentar na história do país.

Conforme as taxas dos títulos de longo prazo aumentam, a endividada Itália parece oscilar novamente. A crescente conta dos serviços de dívidas dos EUA provavelmente atingirá seu maior nível na história antes do fim desta década – o que comprova a fragilidade fiscal da nova era.

A falha menos visível, mas potencialmente mais custosa, é que a economia patriota é uma faca cega em um tempo de mudanças rápidas. As transições nas matrizes de energia e em inteligência artificial são grandes demais para qualquer governo planejar. Ninguém conhece a maneira mais barata de descarbonizar, nem os melhores usos da nova tecnologia. Ideias precisam ser testadas e canalizadas para os mercados, não governadas por agendas centralizadas. Regulações excessivas inibirão a inovação e, por aumentar os custos, tornarão a mudança mais lenta e dolorosa.

Apesar de suas falhas, será difícil conter a economia patriota. As pessoas gostam de gastar o dinheiro dos outros. Conforme orçamentos do governo aumentam, os interesses específicos que se alimentam deles crescerão em tamanho e influência. É mais difícil retirar proteções e ajudas do que concedê-las – particularmente a eleitores mais idosos, que contribuem menos para o crescimento econômico. Qualquer pessoa atenta ao arco da história dobrando-se na direção do progresso deveria lembrar que, um século atrás, a Argentina era rica como a Suíça.

Um plano para o caminho à frente

Mas a desilusão eventualmente se manifestará. Pode ser porque a extravagância fiscal se aconchegue com governos endividados. Talvez a ganância dos caçadores de subsídios fique difícil de esconder. Ou uma China em estagnação e repressiva pode deixar de cumprir a promessa da prosperidade comandada pelo Estado.

Quando a mudança vier, poderá ser surpreendentemente brusca – ao menos nas democracias. Nos anos 70, a maré virou a favor dos livres mercados quase tão rapidamente quanto virou contra eles hoje, ocasionando as eleições de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. A tarefa para os liberais clássicos é preparar-se para esse momento definindo um novo consenso que adapte suas ideias para um mundo mais perigoso, interconectado e fragmentado – o que não será fácil, especialmente em face à rivalidade entre EUA e China. Mas isso já foi feito no passado. E pensem na recompensa. / Tradução de Augusto Calil

https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-livre-comercio-global-passado/

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Baby boomers: geração que definiu a juventude ressignifica a maturidade

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Paula Englert – Fast Company Brasil – 05-10-2023 

Talvez a expressão “baby boomer” não seja capaz de sintetizar o poder de influência da geração que define. Distante da abordagem alfabética que demarca demografias mais jovens, o termo crava a origem desse recorte etário, falhando em dar espaço para interpretações identitárias mais conceituais e abstratas.

Didático, ele nomeia os nascidos entre 1946 e 1964 apresentando um marco na história contemporânea: o aumento vertiginoso da taxa de natalidade presenciado no meio do século 20. Um momento onde o mundo, recém-saído de eras marcadas por revoluções e guerras, pode abrir espaço para um boom menos literal.

os boomers, antes protagonistas da juventude, hoje representam um novo papel: reinventam o conceito de maturidade. Esse sim, criado antes deles.

De fato, os baby boomers abriram alas para um novo contexto. Um lapso otimista, principalmente no mundo ocidental. Um hiato de relativa calmaria política e crescimento econômico. Algo que definitivamente não podemos afirmar sobre o zeitgeist vivido pelos X, Y e Z – e, muito provavelmente, sobre o panorama que se desenha para os Alpha.

Inaugurais, fazendo jus ao seu nome, construíram conceitos que perduram até hoje, destruindo tantos outros que abandonamos enquanto sociedade.

O desmantelamento de algumas estruturas, capitaneado por movimentos da contracultura dos anos 1960, são um símbolo do desbravamento dessa geração. Questionando, deixaram um legado maior do que a sua própria intenção: o conceito de juventude.

O “jovem” como conhecemos hoje não era uma convenção presente até então. Ávido e transviado como o James Dean de 1955, se tornou um personagem novo no elenco arquetípico global. Um roteiro reprisado, com ajustes, até hoje.

Agora, presenciamos o que pode ser o maior redesenho da nossa estrutura geracional até então: os boomers, antes protagonistas da juventude, hoje representam um novo papel: reinventam o conceito de maturidade. Esse sim, criado antes deles. Mas no qual relutam em se encaixar. Não era para menos, já que nasceram com vocação para explodir o imposto.

A antiga classificação da “terceira idade” está descompassada com quem chega hoje nos seus 60, 70, 80. Vemos este fato frequentemente nos estudos comportamentais liderados pela Box1824. A miopia está em um mercado programado para recortes que não representam mais o presente.

Acompanhando a queda da natalidade e o aumento da expectativa de uma vida cada vez mais ativa e criativa, os boomers combatem estigmas com sua simples presença. Se vivemos cada vez mais e melhor, três quartos de século neste mundo ainda permitem muitos começos e recomeços. Espaço para planejar e sonhar sonhos ainda distantes.

Inaugurais, fazendo jus ao seu nome, os boomers construíram conceitos que perduram até hoje, destruindo tantos outros que abandonamos enquanto sociedade.

Chegam aos 60 anos com muita vida para viver. Ficar velho significa tornar-se obsoleto. E obsolescência é ausência de vida, de relevância, de presença. Nada disso se determina pela idade, e sim pela forma que vivemos.

Estes são os estigmas que vão se esvaindo enquanto os baby boomers chegam a sua etapa madura. Adentram esta fase interessantes e interessados, vivos como poucos, com tempo e experiência para ressignificar a sua existência, inaugurando novas formas de morar, de se relacionar, de aprender, de ser belo, saudável e de recomeçar.

Mais uma vez, com o pioneirismo típico de eternos revolucionários, os até então conhecidos pelo seu nascimento agora refazem a sua história. Inauguram um novo polo de influência.

Descentralizam o Z-centrismo de uma sociedade obcecada pelos vinte e poucos, tornando-se um polo exportador de comportamento. De inspiração. Forçam marcas e organizações a se reprogramarem, atendendo demandas consumidoras, sociais e afetivas antes silenciadas ou ignoradas.

Nossos conceitos são desafiados na mesma velocidade que as pirâmides demográficas se redesenham. Chegou a hora de honrar esse topo, mais potente que nunca.


SOBRE A AUTORA

Paula Englert

Paula Englert é CEO da Box1824, empresa focada em desenhar estratégias de negócio baseadas em visões de futuro. Apaixonada por decodificar o comportamento humano, seu foco nos últimos anos tem sido estruturar um grupo de empresas que auxiliem corporações nas suas estratégias de negócio, impacto positivo, caminhos de construção de aspiracionalidade e relevância. Tem mais de 20 anos de experiência no mercado nacional e internacional e é formada em Comunicação Social, com pós-graduação em Psicologia de Grupos e Especialização em Sociologia. Já participou como palestrante ou painelista em eventos como SXSW, Web Summit Rio, MaxMídia, entre outros.

https://fastcompanybrasil.com/colunista/paula-englert/

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Inteligência artificial aumenta perigo de postar fotos de filhos nas redes

Recursos que fazem reconhecimento facial podem ser usados por criminosos e abusadores

Kashmir Hill  Folha/New York Times – 15.out.2023

Nova York | The New York Times Existem dois tipos de comportamentos distintos de pais no TikTok: aqueles que quebram ovos na cabeça de seus filhos para rir e aqueles que estão desesperadamente tentando garantir que a internet não saiba quem são seus filhos. Para a estrela do TikTok que posta sob o nome de Kodye Elyse, uma experiência desconfortável online a fez parar de incluir seus três filhos em suas redes sociais. Um vídeo que ela postou em 2020 de sua filha pequena dançando atraiu milhões de visualizações e comentários assustadores de homens estranhos. (Ela solicitou que o The New York Times não publicasse seu nome completo porque ela e seus filhos já foram alvos de pessoas que revelaram suas identificações na internet no passado.) 

Lucy e Mike Fitzgerald evitam postar fotos das filhas nas redes sociais – Whitney Curtis/The New York Times “É como se fosse (o filme) “O Show de Truman” na internet”, disse Elyse, 35, que tem 4 milhões de seguidores no TikTok e posta sobre seu trabalho como tatuadora e suas experiências como mãe solteira. “Você nunca sabe quem está olhando.” Após essa experiência, ela apagou as imagens de seus filhos da internet. Ela rastreou todas as suas contas online, em sites como Facebook e Pinterest, e as excluiu ou as tornou privadas. Desde então, ela se juntou ao barulhento grupo de TikTokers que incentiva os pais a não postarem sobre seus filhos publicamente

Mas, no mês passado, ela descobriu que seus esforços não foram totalmente bem-sucedidos. Kodye Elyse usou o PimEyes, um mecanismo de busca que encontra fotos de uma pessoa na internet em segundos usando a tecnologia de reconhecimento facial. Quando ela enviou uma foto de seu filho de 7 anos, os resultados incluíram uma imagem dele que ela nunca havia visto. Ela precisava de uma assinatura de US$ 29,99 (R$ 152,59) para ver de onde a imagem tinha vindo. 

 Seu ex-marido tinha levado seu filho a um jogo de futebol, e eles estavam ao fundo de uma fotografia em um site de notícias, sentados na primeira fileira de assentos atrás do gol. Ela percebeu que não seria capaz de fazer com que o site de notícias apagasse a foto, mas preencheu um pedido de exclusão no PimEyes para remover a imagem de seu filho para que ela não aparecesse se outras pessoas procurassem por seu rosto. 

  1. Criança vira adulta em vídeo, em alerta para risco de postar fotos nas redes; assista
  2. Quais os limites e riscos de expor crianças na internet
  3. Exibir filhos na internet coloca em xeque direitos da criança e expõe seus dados a terceiros
  4. Apenas 2 em cada 10 pais usam ferramentas para controlar filhos na internet
  5. Seis em cada dez pais relatam que filhos já foram vítimas de violação na internet

Ela também encontrou uma foto de sua filha quando era criança, agora com 9 anos, sendo usada para promover um acampamento de verão que ela havia frequentado. Ela pediu ao acampamento para remover a foto, o que eles fizeram. “Acho que todo mundo deveria verificar isso”, disse ela. “É uma boa maneira de saber que ninguém está reutilizando as imagens de seus filhos.

“Cuidado com o “sharenting” 

Até que ponto os pais devem postar sobre seus filhos online tem sido discutido e examinado a um grau tão intenso que tem o seu próprio termo: “sharenting”. Historicamente, a principal crítica aos pais que compartilham demais online tem sido a invasão da privacidade de seus filhos, mas os avanços em tecnologias baseadas em inteligência artificial apresentam novas maneiras para pessoas mal-intencionadas apropriarem-se indevidamente de conteúdo online de crianças. Entre os riscos novos estão golpes com o uso de tecnologia “deepfake”, que imitam vozes de crianças, e a possibilidade de um estranho descobrir o nome e o endereço de uma menor de idade apenas pesquisando sua foto. 

Amanda Lenhart, chefe de pesquisa da Common Sense Media, uma organização sem fins lucrativos que oferece conselhos de mídia para pais, destacou uma recente campanha de serviço público da Deutsche Telekom (operadora de telecomunicações da Alemanha) que propagava o compartilhamento mais cuidadoso dos dados das crianças. O vídeo apresentava uma atriz interpretando uma menina de 9 anos chamada Ella, cujos pais fictícios eram indiscretos ao postar fotos e vídeos dela online. A tecnologia deepfake gerou uma versão digitalmente envelhecida de Ella que foi usada para chantagear seus pais fictícios, dizendo-lhes que sua identidade foi roubada, sua voz foi duplicada para enganá-los pensando que ela foi sequestrada e uma foto nua de sua infância foi vendida.

Lenhart chamou o vídeo de “exagerado”, mas afirmou que mostrava que “na verdade, essa tecnologia é realmente muito boa” para qualquer fim. As pessoas já estão recebendo ligações de golpistas imitando entes queridos em perigo usando versões de suas vozes criadas com ferramentas de IA. Jennifer DeStefano, uma mãe que mora no estado de Arizona (EUA), recebeu uma ligação este ano de alguém que afirmava ter sequestrado sua filha de 15 anos. “Eu atendi o telefone ‘Alô’; do outro lado estava nossa filha Briana soluçando e chorando dizendo: ‘Mãe'”, relatou a mãe em depoimento no Congresso no fim do semestre passado. DeStefano estava negociando para pagar aos sequestradores US$ 50 mil quando descobriu que sua filha estava em casa “descansando em segurança na cama”. 

O que um rosto revela 

Fotos e vídeos obscuros online podem ser vinculados ao rosto de alguém com tecnologia de reconhecimento facial, que tem se tornado mais poderosa e precisa nos últimos anos. Fotos tiradas em uma escola, uma creche, uma festa de aniversário ou um parquinho podem aparecer em uma busca. (Uma escola ou creche deve apresentar um termo de consentimento e deixar o responsável à vontade para negar) “Quando uma criança é mais nova, os pais têm mais controle sobre sua imagem”, disse Debbie Reynolds, consultora de privacidade de dados e tecnologias emergentes. “Mas as crianças crescem. Elas têm amigos. Elas vão a festas. As escolas tiram fotos”, destacou. 

Reynolds recomenda que os pais pesquisem online pelos rostos de seus filhos usando um serviço como PimEyes ou FaceCheck.ID. Se não gostarem do que encontrarem, eles devem tentar fazer com que os sites nos quais a foto foi postada a removam, disse ela. (Alguns irão, mas outros —como sites de notícias—podem não fazê-lo.) 

Em uma pesquisa de 2020 do Pew Research, mais de 80% dos pais relataram compartilhar fotos, vídeos e informações sobre seus filhos em sites de rede social. Especialistas não conseguiram dizer quantos pais estão compartilhando essas imagens apenas em contas privadas em vez de publicamente, mas disseram que o compartilhamento privado era uma prática cada vez mais comum. Embora um mecanismo público de busca facial seja uma ferramenta potencialmente útil para um pai, ele também pode ser usado para fins nefastos. 

“Uma ferramenta como o PimEyes pode ser —e provavelmente é— usada tão facilmente por um perseguidor quanto por um pai preocupado”, disse o pesquisador de privacidade Bill Fitzgerald, que também expressou preocupação com pais autoritários que a usam para monitorar as atividades de seus filhos adolescentes. O proprietário do PimEyes, Giorgi Gobronidze, disse que mais de 200 contas foram desativadas no site por pesquisas inadequadas de rostos de crianças. 

Um mecanismo de reconhecimento facial semelhante, Clearview AI, cujo uso é limitado às forças policiais, foi utilizado para identificar vítimas em fotos de abuso sexual infantil. Gobronidze explicou que o PimEyes também foi o recurso adotado por organizações de direitos humanos para ajudar crianças. Mas ele está preocupado o suficiente com possíveis usuários que são predadores de crianças e alega que o PimEyes está trabalhando em um recurso para bloquear pesquisas de rostos que parecem pertencer a menores de idade. Por sua vez, o consultor Bill Fitzgerald está preocupado que os pais que usam a ferramenta para procurar seus próprios filhos possam estar ajudando inadvertidamente o algoritmo do PimEyes a melhorar seu reconhecimento desses menores. 

Antropóloga cultural e diretora do Connected Learning Lab da Universidade da Califórnia, Mimi Ito afirmou que a tecnologia de reconhecimento facial tornou o compartilhamento online de fotos de crianças, que normalmente é alegre, mais desafiador. “Há uma crescente consciência de que, com a IA, não temos realmente controle sobre todos os dados que estamos espalhando no ecossistema das redes sociais”, disse. 

Zuckerberg e Snowden escondem rostos de filhos 

Lucy e Mike Fitzgerald, dançarinos profissionais de dança de salão em Saint Louis, nos EUA, mantêm uma presença ativa nas redes sociais para divulgar seu negócio e se abstêm de postar imagens online de suas filhas, de 3 e 5 anos, e pediram a amigos e familiares que respeitem a decisão. Eles acreditam que as crianças devem ter o direito de criar e controlar por si mesmas. Eles também se preocupam que suas imagens possam ser usadas de forma inadequada. “O fato de você poder roubar a foto de alguém em alguns cliques e depois usá-la para o que quiser é preocupante”, disse Lucy. 

“Eu entendo o apelo de postar fotos de seus filhos, mas, no final das contas, não queremos que sejam eles que tenham que lidar com possíveis consequências não intencionais.” Ela e seu marido não são especialistas que foram “informados sobre o que está por vir no horizonte da tecnologia”, mas explicou que eles “tiveram uma sensação” anos atrás. “(achávamos que) haveria capacidades que não podemos prever agora que eventualmente serão problemáticas para nossos filhos”. 

Pais que são mais propensos a conhecer detalhes sobre o que está por vir no horizonte da tecnologia, como Edward Snowden, o contratante da Agência de Segurança Nacional que se tornou denunciante, e Mark Zuckerberg, o co-fundador do Facebook, escondem os rostos de seus filhos em postagens públicas de mídia social. Em postagens temáticas de feriados no Instagram, Zuckerberg usou o método desajeitado de emojis – postando um adesivo digital nas cabeças de seus filhos mais velhos – enquanto Snowden e sua esposa, Lindsay Mills, posaram artisticamente um de seus dois filhos atrás de um balão para obscurecer seu rosto. “Eu quero que meus filhos tenham a opção de se revelarem ao mundo, da forma que escolherem, quando estiverem prontos”, disse Mills. 

Um porta-voz de Zuckerberg se recusou a comentar ou explicar por que o rosto de seu bebê não recebeu o mesmo tratamento e se foi porque a tecnologia de reconhecimento facial não funciona muito bem em bebês. 

Privacidade e sucesso no futuro 

Muitos especialistas observaram que os adolescentes pensavam muito sobre como resolver suas identidades digitais e que alguns usavam pseudônimos online para evitar que os pais, professores e potenciais empregadores encontrassem suas contas. Mas se houver uma imagem pública nessa conta que mostre o rosto deles, ainda pode ser vinculada a eles por meio de um mecanismo de busca facial. 

“É muito difícil manter seu rosto fora da web”, disse Priya Kumar, professora assistente na Universidade da Pensilvânia, que estudou as implicações de privacidade do compartilhamento de informações pessoais online. Kumar sugere que os pais envolvam as crianças, por volta dos 4 anos de idade, no processo de postagem e conversem com elas sobre quais imagens são adequadas para compartilhar. 

Amy Webb, CEO da consultoria focada em tecnologia Future Today Institute, prometeu em um post no Slate há uma década não postar fotos pessoais ou informações de identificação de sua filha pequena online. Alguns leitores encararam isso como um desafio e encontraram uma foto da família que Webb inadvertidamente tornou pública, ilustrando o quão difícil pode ser manter uma criança fora da internet. Sua filha, agora adolescente, disse que gostava de ser um “fantasma online” e achava que isso a ajudaria profissionalmente. 

“Futuros empregadores ‘não vão encontrar absolutamente nada sobre mim porque eu não tenho nenhuma plataforma”, disse ela. “Isso vai me ajudar a ter sucesso no futuro.” Outros jovens que cresceram na era do compartilhamento online também disseram que eram gratos por terem pais que não postavam fotos deles publicamente na internet. Shreya Nallamothu, de 16 anos, é uma estudante cuja pesquisa sobre influenciadores infantis ajudou a promulgar uma nova lei estadual em Illinois, nos EUA, que exige que os pais reservem ganhos para seus filhos se estiverem apresentando-os em conteúdo online monetizado. 

Ela disse que era “muito grata” por seus pais não postarem “momentos super embaraçosos de mim nas redes sociais”. “Há pessoas na minha turma que são muito boas em encontrar o Facebook dos pais dos seus colegas e rolar a página”, explicou. Eles usam qualquer material embaraçoso para postagens de aniversário que desaparecem no Snapchat. Arielle Geismar, de 22 anos, estudante universitária e defensora da segurança digital em Washington, descreveu isso como um “privilégio crescer sem que uma identidade digital seja criada para você”. “As crianças são atualmente cobaias da tecnologia”, disse Geismar. “É nossa responsabilidade cuidar delas.” 

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FT: “Nação das startups” vai à guerra

Estima-se que 10% a 15% dos funcionários de empresas de tecnologia estejam entre os 360 mil reservistas convocados para o conflito, o que representa uma desestabilização no mercado de uma hora para outra

Por Ivan Levingston, Financial Times/Valor — 13/10/2023 

O CEO da startup de softwares Venn, Or Bokobza, mal conseguiu falar com os colegas de trabalho na última semana.

Como reservista de uma unidade de combate de elite das Forças Armadas israelenses, ele está na frente de batalha praticamente desde que o grupo terrorista Hamas lançou um ataque surpresa contra Israel no sábado.

“Estou fora, concentrado no que agora é o mais importante, que é a segurança de nosso país”, disse ao “Financial Times” em rápida ligação. “[Os colegas] ficam me dizendo: ‘Não se preocupe [com a empresa]”.

Bokobza, ao lado de cerca de 10 dos 90 funcionários da empresa, está entre os milhares de trabalhadores do setor de alta tecnologia israelense convocados na mobilização em massa do país para a guerra.

Fundadores e investidores de tecnologia israelenses estimam que entre 10% e 15% de suas equipes estão entre os 360 mil reservistas convocados, o que, para empresas relativamente pequenas, representa uma grande desestabilização de uma hora para outra.

Enquanto Israel se prepara para uma possível ofensiva terrestre em Gaza, a autodenominada “nação das Startups” se depara com o que será um teste sem precedentes.

Uma guerra muito longa pode afetar o próspero setor de tecnologia do país, um dos principais propulsores de sua economia, fonte de cerca de 15% de todos os empregos, de acordo com a agência de inovação de Israel. Essa força de trabalho está distribuída em centenas de startups e em importantes filiais de multinacionais como Intel e Microsoft.

Israel também atrai um alto volume de investimento em tecnologia do exterior. Em 2023, o país levantou um total de US$ 5,5 bilhões em capital de risco, em 320 contratos de investimento, mesmo com o setor no mundo como um todo estando em desaceleração, de acordo com a empresa de análises de mercado IVC. Investidores que queiram estabilidade podem achar difícil continuar apostando no país em meio a um conflito prolongado.

“Eu presumo que se isso continuar por alguns meses, pode haver certo impacto na produtividade, basicamente por causa das regras da física; você tem menos pessoas”, disse o CEO da empresa de cibersegurança Pentera, Amitai Ratzon.

Dovi Frances, sócio-fundador da empresa de capital de risco Group 11, disse que vários dos principais executivos de empresas que fazem parte de sua carteira de investimentos estão atualmente entre os reservistas convocados. As empresas do setor já estão se adaptando, já que a perspectiva de guerra há muito tempo faz parte da vida em Israel, segundo Frances e outros executivos do setor.

O CEO da startup de cibersegurança Armis, Yevgeny Dibrov, está precisando lidar com a saída de 20 membros da equipe.

A empresa, que tem oito anos de vida e 660 funcionários, logo entrou em modo de crise. Transferiu algumas operações e colocou a equipe restante em Israel em trabalho remoto, e está oferecendo apoio psicológico aos funcionários após o ataque do Hamas.

“Somos capazes de nos ajustar a isso, essa é basicamente a realidade”, disse Dibrov.

Os funcionários “podem trabalhar na segurança de suas casas e ficar perto de abrigos e salas seguras, então sob esse ponto de vista, acredito que a covid realmente nos ajudou a nos preparar”, disse Gili Raanan, fundador empresa de capital de risco Cyberstarts.

Alguns executivos ressaltaram que muitas startups israelenses têm altos executivos e grupos de marketing e vendas trabalhando nos Estados Unidos. “As empresas sabem como dar continuidade aos negócios e sabem como trabalhar nessas situações. Essa é uma das forças”, disse Shmuel Chafets, presidente da empresa de capital de risco Target Global.

Em outros casos, as startups vêm direcionando sua competência tecnológica para o esforço de guerra, uma vez que o setor israelense de cibersegurança, entre os melhores do mundo, emergiu das Forças Armadas e do setor de inteligência de Israel.

Nadav Zafrir, ex-comandante da unidade de elite israelense “8200”, da chamada inteligência de sinais, e hoje sócio-gerente da empresa de investimento Team8, disse que sua companhia está trabalhando no uso de várias tecnologias, como ciência de dados, para apoiar o governo nos esforços para localizar reféns israelenses.

“Nosso ciclo de inovação não parou, estamos pesquisando diferentes áreas”, disse Zafrir. “Todas elas são incrivelmente relevantes para este momento.”

Empresas maiores de tecnologia também observam a situação com atenção. A Intel, uma das maiores multinacionais em Israel, com 13 mil funcionários, informou estar “monitorando de perto a situação em Israel e tomando medidas para proteger e apoiar” sua equipe.

Até quinta-feira, mais de 300 empresas de capital de risco haviam assinado uma declaração de apoio a Israel, destacando que o país “tem sido um parceiro constante para o ecossistema global de inovação, fomentando avanços tecnológicos pioneiros e a inovação das startups”. A declaração foi assinada por alguns dos maiores nomes americanos do setor, como Bessemer Venture Partners, GGV Capital e Insight Partners, muitos dos quais têm investido em empresas israelenses ao longo dos anos. Outras empresas, como Sequoia Capital e General Catalyst, também anunciaram doações.

Executivos das startups enfatizam que, independentemente do impacto em suas empresas, o esforço de guerra de Israel está em primeiro lugar. Frances, do Group 11, disse que sua empresa vem organizando doações de dinheiro, comida e equipamentos, voos para reservistas no exterior voltarem a Israel e até um envio de 50 mil sacas de café para a linha de frente.

Bokobza, da Venn, disse que tem acesso apenas esporádico a seu telefone, e que quando o verificou recentemente, tinha mais de 100 mensagens de apoio. “Minha única esperança é que nossos clientes, parceiros e clientes em todo o mundo saibam que estamos aqui para ficar”, disse. (Colaboraram Richard Waters, George Hammond e Camilla Hodgson, de San Francisco). (Tradução de Sabino Ahumada)

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/10/13/ft-nao-das-startups-vai-guerra.ghtml

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Espírito Santo do Pinhal: cidade do interior de SP troca o café pelo vinho e vive ‘corrida do ouro’

Movimento foi iniciado com chegada da vinícola Guaspari, em 2001; hoje o município já é reconhecido pelo enoturismo e possui nove vinícolas em funcionamento, além de vários outros projetos

Por Wesley Gonsalves- Estadão – 04/10/2023 

A pequena cidade de Espírito Santo do Pinhal, a 190 km da capital paulista, construiu, em mais de 100 anos, a sua economia em volta do café – como outros inúmeros municípios do Brasil. Essa realidade, porém, está sendo alterada com a chegada de uma nova cultura na região – as uvas para produção de vinhos.

Se no passado, as terras pinhalenses abrigavam grandes fazendas cafeicultoras, agora, o rico terroir – o conjunto de características do solo para o cultivo de uma cultura – da região da Serra da Mantiqueira se transformou no “point” de imensos parreirais, dando lugar às uvas e passando do bom e velho “cafezinho” matinal para taças de cristal regadas a vinhos premiados mundo afora.

Com uma forte influência da imigração italiana na região, que dominou a produção de café por décadas, Espírito Santo do Pinhal viu a viticultura transformar a sua economia local. A cidade está deixando para trás o passado de exportadora de commodity para se transformar num ponto do enoturismo no País.

O que marca essa virada de chave na história de Espírito Santo do Pinhal foi a chegada da Vinícola Guaspari, em 2001, após membros da família Brito – tradicional no agronegócio- adquirirem uma área antes utilizada para o plantio do café. Primeira a investir na plantação de videiras e na vinificação, a empresa capitaneou um movimento que hoje atrai dezenas de outros empreendimentos para a região.

Esse mergulho no universo dos vinhos já começa aparecer em números de investimentos direcionados ao pequeno município de pouco mais de 40 mil habitantes, que vive uma espécie de “corrida do ouro”, com empresários em busca de terras férteis para plantação de videiras e outros negócios.

Um levantamento feito pela prefeitura local, a pedido do Estadão, mapeou cerca de R$ 500 milhões em investimentos ligados ao setor de turismo, como novas vinícolas, wine bars, hotéis, restaurantes, entre outros estabelecimentos que já se encontram em algum estágio de implementação do negócio na cidade.

O professor de viticultura do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), Fábio Lenk, explica que, diferentemente de outras cidades conhecidas pela produção de vinho, como São Roque e Jundiaí, que tem produções focadas nas uvas de mesa, Pinhal conseguiu se destacar por ter boas condições para o desenvolvimento das uvas de inverno, algo “herdado” da sua prévia cafeicultura. “Onde se faz um bom café também se faz um bom vinho”, diz Lenk.

Segundo o especialista, com o sucesso das primeiras empreitadas ligadas ao vinho, outros empresários sem experiência na viticultura começaram a se interessar pela região, comprando terras antes ocupadas apenas pelo café e passando a usá-las para as uvas. “São empresários da soja, da cana, da tecnologia, dos bancos, pessoas que acabaram sendo atraídas pelo negócio do vinho e muito pela expansão do enoturismo”, afirma.

Da xícara à taça

Mas, como uma cidade que passou tanto tempo exportando um único fruto muda “do café para o vinho”? A diretora de turismo de Espírito Santo do Pinhal, Loriane Salvi, conta que a mudança de plano do município teve início em 2014, quando a administração local decidiu investir para se transformar de um polo exportador de commodity para uma região turística, apostando no crescimento do enoturismo.

Para essa nova fase, a chegada da Guaspari foi fundamental. “A Vinícola Guaspari é o projeto âncora da cidade”, diz. “O turismo estava adormecido por aqui, algo que foi revivido com a cultura do vinho trazida por eles”

A história da Vinícola Guaspari começa em 2001, quando membros da família Brito adquiriram as primeiras terras na cidade. Cinco anos mais tarde, em 2006, foram plantadas as primeiras videiras. Com o resultado da extração da primeira leva, ainda artesanal, a família se surpreendeu com a qualidade do vinho gerado na região e decidiu dar início a um projeto mais ambicioso, de transformar a propriedade em uma grande produtora de vinhos. Atualmente, são 60 hectares de vinhedos plantados na propriedade e uma estimativa de engarrafar cerca de 150 mil garrafas de vinho nos próximos anos.

Solo, clima e tecnologia

A diretora executiva da vinícola, Fabrizia Zucherato, conta que a qualidade do vinho local está ligada à junção de fatores biológicos, climáticos e um pouco de inovação. O primeiro fator é o “terroir da região”, que são as características biológicas do solo pinhalense, às margens da Serra da Mantiqueira, de terras graníticas, profundas e altamente drenadas. O segundo diz respeito à amplitude térmica na cidade, que registra, no inverno, dias quentes e noites frescas, um tipo de clima comum no verão europeu, em grandes regiões produtoras de vinho, como Itália e França. “Essa amplitude é ideal para a maturação das uvas, que faz a concentração dos açúcares”, diz Fabrizia, que é engenheira agrônoma. “Isso, junto da tecnologia, gera um bom vinho.”

Segundo a diretora executiva da Vinícola Guaspari, a expectativa é chegar a 150 mil garrafas envazadas por safra nos próximos anos

Segundo a diretora executiva da Vinícola Guaspari, a expectativa é chegar a 150 mil garrafas envazadas por safra nos próximos anos Foto: Tiago Queiroz

E, por último, tem a questão de inovação: a empresa usa uma tecnologia desenvolvida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), conhecida como “dupla poda” das videiras. A grosso modo, nesse método, a primeira “poda” dos galhos da videira serve para evitar que ela gere frutos no verão -quando há maior quantidade de chuvas, o que dilui os açúcares da fruta. Dessa forma, a planta é “enganada”, e os sabores das uvas ficam concentrados para a segunda poda, entre maio e junho, feita no período de temperaturas mais baixas.

Desde que foi iniciada a produção de vinhos da vinícola, os rótulos da marca já garantiram algumas premiações internacionais, como na Decanter World Wine Awards. Isso logo atraiu olhares de novos apaixonados pelo vinho, que começaram a investir nas terras de Espírito Santo do Pinhal. Na Guaspari, uma garrafa de vinho produzida na região pode custar de “meros” R$ 150 a até R$ 800, a depender do tipo da uva, tempo de engarrafamento e outras questões técnicas.

De acordo com a administração local, atualmente o município possui 28 projetos de vinícola em andamento, das quais nove deles já estão em fase de operação. Vale ressaltar, que, apesar do crescimento dos negócios ligados ao vinho, o número de produtores de café ainda é predominante na cidade: são, atualmente, cerca de 950 produtores de cafés especiais cadastrados.

Um desses novos negócios é a Vinícola Amana, formada por um grupo de 40 investidores de todo o Brasil e também do exterior. Já no período de envasamento das primeiras safras, a expectativa da companhia é alcançar a meta de 120 mil garrafas de vinho nos próximos anos.

Dores do crescimento

Como diversas cidades que passam pelo processo de crescimento, em meio ao boom do enoturismo, Espírito Santo do Pinhal também enfrenta algumas das “dores do crescimento”, como falta de mão de obra qualificada, insumos para a vinificação e estrutura para expansão dos negócios.

Conforme divulgado pela prefeitura, uma das principais demandas dos novos empreendimentos são os trabalhadores para o segmento de serviços, por conta da chegada de novos hotéis, bares e restaurantes. Para resolver o problema, o executivo municipal conta com algumas parcerias com entidades de formação profissional e também com as iniciativas particulares de cada companhia.

No caso da Guaspari, para dar conta da demanda pelos profissionais do atendimento do vinho, a companhia tem realizado projetos de formação interna, que vão desde cursos de atendimento ao cliente até aperfeiçoamento dos sommeliers da casa, com a mentoria de um especialista vindo de fora do País. “Nós não tínhamos essa tradição na cidade. Eu tenho gente que era rurícola e passou a trabalhar com atendimento ao público”, diz Fabrizia Zucherato. “O modelo mais sustentável é trazer esses profissionais direito da nossa cidade.”

Para Fábio Lenk, professor do IFSP, além das questões do atendimento, outra demanda considerada importante para o sucesso da nova empreitada de Espírito Santo do Pinhal é a capacidade local de processar toda a uva colhida na região, já que neste tipo de cultivo, diferentemente do tradicional café, não é possível armazenar por muito tempo os insumos. “Ter como processar toda a uva é fundamental para esse setor”, diz. “São problemas que ainda terão de ser resolvidos.”

https://digital.estadao.com.br/article/281998972105816

https://www.estadao.com.br/economia/negocios/espirito-santo-pinhal-cafe-vinhos-corrida-do-ouro/

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Gigantes da tecnologia estão engolindo startups de IA; entenda

Tecnologia exige enormes quantidades de poder de computação, levando essas pequenas empresas a buscar serviços com Microsoft, Google e Amazon

Por Gerrit De Vynck – Estadão/The Washington Post – 06/10/2023 

THE WASHINGTON POST – Em 2021, um grupo de engenheiros abandonou a OpenAI, preocupado com o fato de a empresa pioneira de inteligência artificial (IA) ter se concentrado demais em ganhar dinheiro. Em vez disso, eles formaram a Anthropic, uma corporação de benefício público dedicada a criar uma IA responsável.

Esta semana, os benfeitores da Anthropic se uniram a um parceiro corporativo surpreendente, anunciando um acordo com a Amazon no valor de até US$ 4 bilhões.

O acordo destaca como a necessidade insaciável de poder de computação da IA está empurrando até mesmo as startups mais anticorporativas para os braços das Big Techs. Antes de a Anthropic anunciar a Amazon como seu parceiro de nuvem “preferencial”, ela se gabava, em fevereiro, de ter um relacionamento semelhante com o Google (a postagem do blog da Anthropic em fevereiro não tem mais a palavra “preferencial”).

Os porta-vozes de ambas empresas disseram que o relacionamento entre o Google e a Anthropic não mudou.

O boom da IA é amplamente visto como a próxima revolução na tecnologia, com o potencial de catapultar uma nova onda de startups para a estratosfera do Vale do Silício. Mas, em vez de quebrar o domínio de uma década das Big Techs sobre a economia da Internet, o boom da IA até agora parece estar fazendo o jogo dessas gigantes.

Os armazéns de poderosos chips de computador das grandes empresas de tecnologia (os data centers) são necessários para treinar os complexos algoritmos por trás dos chatbots de IA, dando à Amazon, ao Google e à Microsoft uma imensa influência sobre o mercado. E, embora empresas iniciantes como a Anthropic possam ter criado uma tecnologia inovadora e poderosa, elas ainda precisam do dinheiro e dos recursos de computação em nuvem das Big Techs para fazê-la funcionar.

“Para criar IA em qualquer tipo de escala significativa, qualquer desenvolvedor terá dependências essenciais de recursos que estão concentrados em grande parte em apenas algumas empresas”, disse Sarah Myers West, diretora administrativa do AI Now Institute, que pesquisa os efeitos da IA na sociedade. “Não há realmente um caminho para sair disso.”

Cresce a demanda por IA generativa

O treinamento de sistemas de IA “generativos”, como chatbots e geradores de imagens, é extremamente caro. A tecnologia por trás deles precisa processar trilhões de palavras e imagens antes de poder produzir textos e imagens fotorrealistas semelhantes aos humanos a partir de comandos simples. Esse trabalho exige milhares de chips de computador especializados instalados em enormes data centers que consomem enormes quantidades de energia.

E a demanda só está aumentando. A Virgínia do Norte (a região mais importante do mundo para armazéns de computadores) aumentou em 20% sua capacidade total em 2022, de acordo com a empresa imobiliária CBRE. Ainda assim, as taxas de vacância nos data centers da região eram inferiores a 2% no início deste ano.

Em janeiro, a OpenAI, a startup que deu início ao boom da IA ao lançar o ChatGPT no ano passado, anunciou um acordo multibilionário semelhante com a Microsoft, dando à gigante da tecnologia acesso profundo à nova tecnologia e permitindo que ela lance um chatbot próprio.

O acordo da Anthropic com a Amazon não vincula as duas empresas tão intimamente, mas permite que os engenheiros da Amazon usem os modelos da Anthropic em seus produtos, disse a Amazon em um comunicado à imprensa anunciando o acordo.

A presidente da Comissão Federal de Comércio, Lina Khan, disse que a agência está observando atentamente os sinais de comportamento anticompetitivo. Em março, a FTC abriu uma investigação sobre os provedores de computação em nuvem, perguntando se os produtos de IA dependem do provedor de nuvem em que foram criados. Os órgãos reguladores de outros lugares também estão observando. Os escritórios da Nvidia, que fabrica os chips de computador e o software necessários para treinar grandes modelos de linguagem, foram invadidos na quarta-feira pelas autoridades francesas de concorrência, de acordo com o Wall Street Journal.

Precisamos estar muito atentos para garantir que esse não seja apenas mais um local para as grandes empresas se tornarem maiores e realmente esmagarem seus rivais

Lina Khan, presidente da Comissão Federal de Comércio dos EUA

“Precisamos estar muito atentos para garantir que esse não seja apenas mais um local para as grandes empresas se tornarem maiores e realmente esmagarem seus rivais”, disse Khan na Spring Antitrust Enforcers Summit, em março. “Quando temos esses momentos de transição tecnológica, vemos que as empresas estabelecidas às vezes precisam recorrer a táticas anticompetitivas para proteger seus fossos e seu domínio.”

Russell Wald, diretor de políticas do Institute for Human-Centered AI da Universidade de Stanford, EUA, disse que a concorrência existe, mas somente entre o pequeno grupo de participantes com acesso ao poder de computação. Wald, que organiza um programa para ensinar funcionários do Congresso sobre IA, teme que algumas propostas regulatórias possam piorar a situação: Por exemplo, segundo ele, exigir que as empresas tenham seus modelos de IA licenciados pelo governo poderia ajudar os grandes players e dificultar a concorrência de empresas iniciantes menores.

Alguns líderes empresariais não estão tão preocupados com o controle das Big Techs sobre o poder de computação, argumentando que o custo de execução dos modelos de IA inevitavelmente cairá à medida que a concorrência e a eficiência aumentarem.

“Vamos parar de forçar nosso progresso em IA”, disse Matt Calkins, executivo-chefe da Appian, uma empresa de software de capital aberto que está criando suas próprias ferramentas de IA. “Espero mais eficiência”.

Boom do ChatGPT

Quando o ChatGPT foi lançado em novembro de 2022, ele causou um choque no mundo da tecnologia. Especialistas em tecnologia especularam que o negócio de pesquisa do Google estava em apuros porque as pessoas podiam fazer perguntas ao ChatGPT em vez de pesquisá-las no Google.

As grandes empresas de tecnologia entraram em ação, movendo-se em uma velocidade que os observadores não viam há anos. O Google pediu aos funcionários que parassem de compartilhar suas pesquisas de IA com o público. A Microsoft lançou um novo chatbot, o Bing, que imediatamente expressou hostilidade em relação aos seus usuários, levantando questões sobre se ele estava pronto para o horário nobre.

Em setembro, uma enxurrada de anúncios do Google, da Microsoft, da Amazon e da OpenAI ilustrou o ritmo frenético da concorrência. O Google integrou seu chatbot Bard ao Gmail, ao Google Docs e a alguns de seus outros produtos; os usuários descobriram que a ferramenta comete erros básicos. A Amazon anunciou um novo modo de conversação para seus alto-falantes Alexa usando tecnologia de chatbot de ponta; em uma demonstração no palco, a ferramenta fez longas pausas entre as respostas.

Mas a capacidade de levar a tecnologia de IA aos clientes por meio de produtos existentes é uma vantagem fundamental, disse Myers West. O ChatGPT ganhou popularidade por meio do boca a boca, publicações em mídias sociais e cobertura de notícias, mas depois de apenas alguns meses já estava perdendo usuários, de acordo com um relatório da empresa de monitoramento de tráfego da Web SimilarWeb. As grandes empresas de tecnologia têm bilhões de usuários chegando até elas todos os dias.

“A propriedade do ecossistema é importante”, disse Myers West.

As parcerias com as grandes empresas de tecnologia geraram angústia entre alguns funcionários e pesquisadores de IA, disse Manoj Vekaria, engenheiro de software em Seattle, EUA. Laboratórios de IA como o OpenAI e o Anthropic podem alegar independência, disse ele, mas é difícil prever quanto tempo isso durará.

“E se a liderança mudar? E se a Amazon tiver um novo CEO? E se a Anthropic tiver um novo CEO?”, disse Vekaria. “Quando você aceita o dinheiro deles, está vendendo sua alma.”

Por enquanto, a Anthropic parece estar tentando manter suas opções em aberto. Em um comunicado anunciando o acordo com a Amazon, a Amazon disse que “a Anthropic planeja executar a maioria de suas cargas de trabalho na AWS”.

Mas, apesar de mudar seu status de “preferencial”, a Anthropic ainda está usando principalmente os servidores do Google, de acordo com uma pessoa familiarizada com a configuração de computação em nuvem da empresa, que falou sob condição de anonimato para discutir assuntos internos. / TRADUÇÃO POR ALICE LABATE

https://www.estadao.com.br/link/cultura-digital/gigantes-da-tecnologia-estao-engolindo-startups-de-ia-entenda/

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