Eugenia liberal busca hackear formação psicopedagógica via manipulação genética para gerar indivíduos mais inteligentes
Álvaro Machado Dias – Folha – 26.jan.2025
Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da genética
A deportação em massa de estrangeiros pode trazer um problema extensamente discutido para a sociedade americana: carência de mão de obra barata. Washington diverge dos principais economistas do trabalho em relação a este ponto, pois aposta que o momento ChatGPT está prestes a acontecer na robótica e que estimular essa transição é mais vantajoso do que dar guarida a quadros pouco qualificados.
A orientação conecta-se ao fim das restrições à implantação indiscriminada da IA no país e ao efusivo apoio governamental ao projeto Stargate, que prevê US$ 500 bi de investimento em infraestrutura para a tecnologia neural.
Ela também se alinha à obsessão dos bilionários com a multiplicação de suas proles e as das outras famílias (sic) tipicamente americanas, forjando uma improvável aliança com os conservadores cristãos. A visão tecno-conservadora emergente é de um futuro em que máquinas fazem o trabalho braçal, enquanto americanos puro-sangue dominam a IA, erigida à infraestrutura global, assim revertendo o declínio da unipolaridade pela via oposta à da globalização —uma trama contraintuitiva, que vem passando ao largo de muitas análises.
O plano está todo calcado na capacidade intelectual diferenciada da nova geração americana, que é basicamente o mesmo que os chineses estão mirando, conforme escutei de diferentes lideranças tecnológicas dos dois países. Pois o que vem ganhando força nessa arena é a ideia de hackear a lenta e custosa formação psicopedagógica, por meio da manipulação genética de embriões para que se tornem indivíduos mais adaptáveis e inteligentes, o que vem sendo chamado de eugenia liberal.
Em 2018, He Jiankui editou o genoma dos gêmeos Lulu e Nada para lhes dar imunidade ao vírus da Aids. O procedimento envolveu uma modificação do gene CCR5 e rendeu um bafafá mundial, bem como muitas especulações sobre as consequências imprevistas da manobra. Das cinzas do escândalo, uma alternativa menos ruidosa despontou: o uso de escores poligênicos para a seleção de embriões na fertilização in vitro, com startups oferecendo o mapeamento do risco de doenças complexas, além de QI projetado, altura e outras características fenotípicas controversas sem a necessidade de modificar o DNA.
O procedimento usa algoritmos para correlacionar cadeias de genes a características complexas em grandes bases de dados e aplicar as conclusões na inferência do perfil genético dos diferentes embriões. As empresas alegam que a diferença chega a 6 pontos de QI, ao passo que os estudos apontam cerca de metade, além de decorrências que transcendem o traço em foco; e.g., aumento do risco de autismo e diminuição do de doenças psiquiátricas.
A despeito das incertezas e das evidentes ressalvas morais suscitadas, casais férteis estão optando pela reprodução assistida para utilizarem o procedimento, que vem recebendo apoio crescente da opinião pública. Pesquisa publicada na revista Science (2023) mostrou que 40% dos americanos utilizariam escores poligênicos para a seleção das características de seus filhos se pudessem.
Considerando que 80% eram contra em 2008 e que seu uso atual está alinhado à ideologia em ascensão, além de envolver uma nova via para o exercício do poder tecnológico, não há como negar que a tendência tem grandes chances de prosperar.
Bebês geneticamente modificados são tendência inevitável – 26/01/2025 – Álvaro Machado Dias – Folha
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