“Home office” fortalece bolhas sociais

As empresas fariam bem de não abrir mão totalmente dos escritórios

Por Carlo Ratti — Para o Valor

31/07/2020  

No mês passado, o CEO do Twitter, Jack Dorsey, anunciou que a empresa iria autorizar seus funcionários, hoje trabalhando de casa, conforme os protocolos de distanciamento social, a continuar assim. Várias outras empresas – do Facebook ao fabricante francês de automóveis PSA – seguiram o mesmo caminho de manter muito mais empregados em casa quando a crise da covid-19 acabar. Será o escritório a próxima vítima da pandemia?

De certo modo, não é de hoje que se fala na morte do escritório. Na década de 1960, o futurista americano Melvin Webber (1920- 2006) previu que o mundo chegaria a uma “era pós-cidade”, na qual “será possível se instalar no topo de uma montanha e manter contato íntimo, em tempo real e realista com as empresas ou outros colaboradores”.

Resultados iniciais de uma pesquisa do MIT sugerem que, com o ‘home office’, laços fortes já existentes se fortalecem e os fracos ficam debilitados

Durante a explosão das “pontocom” no fim dos anos 1990, a ascensão das empresas de internet deixou esse futuro mais próximo do que nunca. Como a jornalista britânica Frances Cairncross cravou em 1997, a internet significou “a morte da distância”. Uma vez que a distância não faz diferença, por essa lógica os escritórios – e consequentemente as cidades – se tornam irrelevantes.

Pode parecer que nós estamos chegando a esse ponto. Dos apresentadores de programas de TV aos funcionários de escritório, tarefas que antes se pensava que necessitassem de um local de trabalho compartilhado são hoje realizadas de casa durante a pandemia. No entanto, qualquer um que já esteve em uma reunião de vídeo pelo Zoom sabe que, apesar dos avanços nas tecnologias de comunicação, de modo geral, se relacionar a distância com seus colegas ainda é mais difícil do que nos encontros presenciais.

O problema parece ir muito além de fusos horários ou interrupções de crianças. Como disse em 1973 o sociólogo Mark Granovetter, sociedades funcionais se baseiam não só em seus “laços fortes” (relações casuais). Onde os laços fortes tendem a formar redes densas e que se sobrepõem – em geral, nossos amigos próximos são amigos próximos uns dos outros -, os laços fracos nos conectam a um grupo maior e mais diversificado de pessoas.

Por unir círculos sociais diferentes, é mais provável que os laços fracos nos conectem a novas ideias e perspectivas, desafiando nossos preconceitos e cultivando a inovação e sua difusão. E ainda que os chats em vídeo ou as mídias sociais possam nos ajudar a manter nossos laços fortes, é improvável que eles produzam novos laços, e muito menos que nos conectem com tantas pessoas de fora dos nossos círculos sociais: baristas, colegas de viagem de trem, pessoas com quem nós trabalhamos diretamente ou não, e por aí vai.

Uma análise de dados de estudantes, professores e gestores do MIT durante a pandemia parece confirmar essa hipótese. Meus colegas e eu desenvolvemos dois modelos da mesma rede de comunicação – um mostrando as interações antes que o campus fechasse, e o outro mostrando as interações durante o fechamento.

Os resultados iniciais – que ainda vão precisar de validação e revisão por pares – indicam que as interações estão se estreitando, com as pessoas trocando mais mensagens com um grupo menor de contatos. Em resumo, os laços fortes já existentes estão se fortalecendo, enquanto os laços fracos estão se debilitando.

Talvez no futuro seja possível imitar o acaso físico e formar laços fracos on-line. Porém, por enquanto, as plataformas on-line parecem mal preparadas para fazer isso. Pelo contrário, na maioria das vezes elas filtram ativamente indivíduos desconhecidos ou ideias contrárias – uma função que já vinha alimentando as divisões políticas antes mesmo da pandemia. Como resultado, nossas bolhas sociais reforçadas pelo “lockdown” estão cada vez mais opacas.

Espaços físicos compartilhados parecem ser o único antídoto para essa fragmentação. Os escritórios, que facilitam interações mais profundas entre colegas distintos, podem ser um corretivo especialmente poderoso.

No entanto, parece improvável que a procura por espaços compartilhados vá voltar aos níveis pré-pandemia. Empresas como o Twitter, que não querem ver a produtividade cair, estarão ansiosas para cortar despesas gerais. Já quanto aos empregados, não é como se fosse muito difícil acostumar alguém a viver sem deslocamentos demorados, calendários corporativos apertados e roupas de trabalho desconfortáveis.

Isso ainda terá consequências mais amplas. Mesmo uma redução de 10% na procura por espaços para trabalhar poderia causar um desabamento nos preços de imóveis. Porém, ainda que isso signifique más notícias para empreiteiras, engenheiros, arquitetos e corretores, também poderia aliviar as pressões econômicas por trás da “gentrificação” urbana.

De qualquer modo, as empresas fariam bem de não abrir mão totalmente dos escritórios, em nome delas mesmas – ideias novas, inovadoras e colaborativas são essenciais para o sucesso – e para o bem-estar das sociedades nas quais elas atuam. Em vez disso, elas podem autorizar os funcionários a ficar mais tempo em casa e, ao mesmo tempo, adotar medidas para garantir que o tempo que as pessoas passam no escritório permita o estabelecimento de laços fracos.

Isso poderia se traduzir, por exemplo, em transformar as plantas tradicionais, pensadas para facilitar a execução solitária de tarefas, em espaços mais abertos e mais dinâmicos, que incentivem o assim chamado efeito refeitório. (Em nenhum outro lugar é mais fácil estabelecer laços fracos do que durante o almoço no refeitório.) Outras reformulações radicais podem vir depois, com os arquitetos encontrando maneiras de gerar circunstâncias favoráveis, como as que ocorrem por meio de espaços coreografados e “planejados para o evento”.

A crise da covid-19 está mostrando que nós temos as ferramentas para continuar conectados do alto de uma montanha – ou até mesmo da mesa da cozinha de casa. Nosso desafio atual é tirar proveito do espaço físico de modo a descer de nossos picos isolados com frequência. Isso quer dizer mirar no renascimento do escritório de modo a otimizar seu maior ativo: a capacidade de cultivar todos os laços que o unem. (Tradução de Fabrício Calado Moreira)

Carlo Ratti leciona no Massachusetts Institute of Technology, onde dirige o Senseable City Lab, e é cofundador do escritório internacional de arquitetura CRA-Carlo Ratti Associati. Ele é copresidente do Futuro Conselho Global das Cidades do Fórum Econômico Mundial.

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2020/07/31/carlo-ratti-home-office-fortalece-bolhas-sociais.ghtml

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Antifrágil – coisas que se beneficiam com o caos

por Evandro Milet

No seu livro anterior “A Lógica do Cisne Negro”, Nassim Taleb apresentou o problema do Cisne Negro(animal que se considerava inexistente até ser visto, pela primeira vez, inesperadamente, na Austrália, no século XVII) , como ele denominou a impossibilidade de calcular os riscos de importantes e raros acontecimentos e prever sua ocorrência. Um Cisne Negro é um evento com três características altamente improváveis: é imprevisível, ocasiona resultados impactantes e, após sua ocorrência, inventamos um meio de torná-lo menos aleatório e mais explicável. 

Taleb sustenta que a maior parte da história tem origem em acontecimentos do tipo Cisne Negro. Esses eventos nos fazem sentir como se pudéssemos tê-los previstos, pois são retrospectivamente explicáveis. Não percebemos sua importância por causa dessa ilusão de previsibilidade, e a nossa mente está ocupada em transformar a história em algo suave e linear, o que nos faz subestimar a aleatoriedade. 

São cisnes negros a derrubada das torres gêmeas, a crise financeira de 2008/9, um tsunami, o acidente nuclear de Fukushima, a pandemia do coronavírus, assim como no nosso caso, a morte de Tancredo Neves ou o desastre da Samarco em Mariana. Também acontecem cisnes negros para empresas, famílias ou instituições como um acidente de avião que mata a cúpula de uma empresa, uma mudança disruptiva de tecnologia, um concorrente inesperado ou um incêndio na sede.

Em função dessa imprevisibilidade, na sua publicação posterior ‘Antifrágil”, Taleb propõe que nossas abordagens atuais para predições, prognósticos e gerenciamento de riscos sejam mantidas apenas em nossa mente e procuremos eliminar a fragilidade das coisas para que os cisnes negros sejam absorvidos. Quando tentamos prever riscos, imaginamos o pior cenário já ocorrido, sem atentar para para que o pior cenário, quando ocorreu, superou o pior cenário anterior. 

Mas não existe uma palavra para designar exatamente o oposto de frágil. Taleb propõe chamá-lo de antifrágil. A antifragilidade não se resume à resiliência ou à robustez. O resiliente resiste a impactos e permanece o mesmo; o antifrágil fica melhor. Algumas coisas se beneficiam dos impactos; elas prosperam e crescem quando são expostas à volatilidade, ao acaso, à desordem e aos agentes estressores, e apreciam a aventura, o risco e a incerteza.

A antifragilidade é uma propriedade de todos aqueles sistemas naturais e complexos que sobreviveram, como a própria natureza. Privar esses sistemas de volatilidade, aleatoriedade e agentes estressores os prejudicará. Eles enfraquecerão, morrerão ou serão destruídos. Ele mostra que viemos fragilizando a economia, nossa saúde, a vida política, a educação e quase tudo, ao suprimir a aleatoriedade e a volatilidade. 

O conceito vale para pais superprotetores, para tomar remédios desnecessários, para valorizar ditaduras no lugar de democracias ou para o processo de inovação que depende mais da assunção agressiva de riscos e de tentativa e erro do que da educação formal, defende Taleb. Exalta os empreendedores que se arriscam e, mesmo fracassados, deveriam ser tratados como os soldados(não existe soldado fracassado). Critica a neomania, nossa ilusão de tentar prever o futuro, considerando os cisnes negros e o número de interações no sistema complexo em que vivemos, tendendo ao infinito e desmentindo sistematicamente nossas previsões.

Temos a ilusão que o mundo funciona graças ao planejamento, às pesquisas universitárias e ao financiamento burocrático, mas há provas convincentes, segundo ele, de que tudo isso é uma ilusão. 

A tecnologia é o resultado da antifragilidade, explorada por aqueles que assumem riscos e apreciam os erros, fazendo-os numerosos e pequenos, como preconizado no mundo das startups. Também na economia, é importante que cada empresa seja frágil para que a economia seja antifrágil, outra maneira de expressar a destruição criativa disseminada por Schumpeter. Não há estabilidade sem volatilidade, conclui Taleb.

Em paralelo ele introduz o conceito do fragilista, que confunde o desconhecido com o inexistente, que pensa que o que não vê não existe, ou o que não entende não existe. Fora da física e geralmente em domínios complexos, as razões por trás das coisas tendem a se tornar menos óbvias para nós, e ainda menos óbvias para o fragilista. 

Em suma, o fragilista é aquele que faz você envolver-se em políticas e ações, todas artificiais, nas quais os benefícios são pequenos e visíveis, e os efeitos colaterais são potencialmente graves e invisíveis. A essa atitude, ele contrapõe a opcionalidade, da sua experiência do mundo financeiro, onde pequenos riscos podem trazer grandes oportunidades, como forma de tornar-se antifrágil.

Dessa forma, ao longo do livro, Taleb procura mostrar como alcançar a antifragilidade com exemplos na medicina, na economia, nas famílias, no planejamento, nas finanças e na política.

Em um estilo muitas vezes demolidor e com tiradas divertidas, não alivia críticas à figuras conhecidas de todas as áreas. Leitura imperdível.

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Como você sabe se foi um ser humano que escreveu isso?

por Farhad Manjoo 

colunista de opinião NYT 29/07/2020 (tradução e adaptação por Evandro Milet)

As máquinas estão ganhando a capacidade de escrever e estão ficando terrivelmente boas nisso.

Eu realmente nunca me preocupei com o fato de os computadores estarem disputando o meu trabalho. Para dizer a verdade, muitas vezes eu rezo por isso. Quão melhor seria minha vida – quanto melhor seria a vida de meu editor, para não falar dos pobres leitores – se eu pudesse pedir a uma máquina onisciente que sugerisse a melhor maneira de iniciar esta coluna? Nunca me preocupei realmente que um computador possa tomar o meu trabalho, porque nunca parecia remotamente possível.  Um computador escrevendo uma coluna de jornal? Esse será “o” dia.

Bem, amigos, o dia está próximo. Este mês, o OpenAI, um laboratório de pesquisa de inteligência artificial com sede em São Francisco, começou a permitir acesso limitado a um software que é ao mesmo tempo incrível, assustador, humilhante e mais do que um pouco aterrorizante.

O novo software da OpenAI, chamado GPT-3, é de longe o mais poderoso “modelo de linguagem” já criado. Um modelo de linguagem é um sistema de inteligência artificial que foi treinado em uma enorme quantidade de textos; com muitos textos e bastante processamento a máquina começa a aprender conexões probabilísticas entre as palavras. Mais claramente: o GPT-3 pode ler e escrever. E nada mal.

Um software como GPT-3 pode ser extremamente útil. Máquinas que podem entender e responder a humanos em nosso próprio idioma podem criar assistentes digitais mais úteis, personagens de videogame mais realistas ou professores virtuais personalizados para o estilo de aprendizagem de cada aluno. Em vez de escrever código, um dia você vai poder criar software apenas dizendo às máquinas o que fazer.

A OpenAI concedeu a poucas centenas de desenvolvedores de software acesso ao GPT-3, e muitos vêm enchendo o Twitter nas últimas semanas com demonstrações de seus recursos surpreendentes, que variam do mundano ao sublime, até o possivelmente bastante perigoso.

Para perceber o perigo potencial, ajuda entender como o GPT-3 funciona. Os modelos de idiomas geralmente precisam ser treinados para usos específicos – um bot de serviço ao cliente usado por um varejista pode precisar ser ajustado com dados sobre produtos, enquanto um bot usado por uma companhia aérea precisaria aprender sobre voos. Mas o GPT-3 não precisa de muito treinamento extra. Dê ao GPT-3 um aviso em idioma natural – “Por meio deste eu renuncio” ou “Caro John, estou deixando você” – e o software preencherá o restante com texto assustadoramente próximo do que um humano produziria.

E não são respostas enlatadas. O GPT-3 é capaz de gerar prosa inteiramente original, coerente e, às vezes, até factual. E não apenas prosa – pode escrever poesia, diálogos, memes, código de computador e quem sabe mais o quê.

A flexibilidade do GPT-3 é um avanço importante. Matt Shumer, executivo-chefe de uma empresa chamada OthersideAI, está usando o GPT-3 para criar um serviço que responde ao e-mail em seu nome – você escreve a essência do que gostaria de dizer e o computador cria um email completo, diferenciado e educado com os pontos que você marcou.

Outra empresa, Latitude, está usando o GPT-3 para criar personagens realistas e interativos em jogos de aventura com texto. Funciona surpreendentemente bem – o software não é apenas coerente, mas também pode ser bastante criativo, surpreendente e até engraçado.

Porém, softwares como o GPT-3 aumentam a preocupação com o uso indevido assustador. Se os computadores puderem produzir grandes quantidades de texto humano, como poderemos distinguir humanos e máquinas? Em um trabalho de pesquisa detalhando o poder da GPT-3, seus criadores citam uma série de perigos, incluindo “desinformação, spam, phishing, redação de trabalhos acadêmicos fraudulentos e golpes em geral.

Existem outros problemas. Por ter sido treinado em textos encontrados on-line, é provável que o GPT-3 espelhe muitos preconceitos encontrados na sociedade. Como podemos garantir que o texto produzido não seja racista ou sexista? O GPT-3 também não é bom em diferenciar fatos da ficção. .

Para seu crédito, a OpenAI adotou muitas precauções. Por enquanto, a empresa está deixando apenas um pequeno número de pessoas usar o sistema e está examinando cada aplicativo produzido com ele. A empresa também proíbe o GPT-3 de se passar por humanos – ou seja, todo texto produzido pelo software deve divulgar que foi escrito por um bot. A OpenAI também convidou pesquisadores externos para estudar os vieses do sistema, na esperança de mitigá-los.

Essas precauções podem ser suficientes por enquanto. Mas o GPT-3 é tão bom em imitar a escrita humana que às vezes me dá calafrios. Daqui a pouco tempo, seu humilde correspondente poderá ser levado à aposentadoria por uma máquina – e talvez você até sinta minha falta quando eu partir.

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Aumento do uso de EPIs gera epidemia de lixo plástico pelo mundo

Aumento do uso de equipamentos de proteção contra o coronavírus gerou uma epidemia de lixo médico-hospitalar, que os governos não sabem como tratar

24/07/2020 Por Anna Gross — Financial Times, de Londres

Carmen Barrera pesca nas águas das Ilhas Canárias há quase uma década. Mas só nos últimos meses ela notou um grande número de luvas de borracha e outros itens de equipamentos de proteção individual (EPIs) que flutuam na água ou ficam presos em suas redes.

“Isso me preocupa muito”, disse Barrera ao “Financial Times”, de sua casa em Tenerife. “Desde que as pessoas começaram a usar luvas e máscaras, nós também começamos a vê-las no mar. O problema está em como as pessoas usam e descartam seu lixo.”

A produção de EPIs deu um salto nos últimos meses, pois prestadores de serviços de saúde têm comprado milhões de unidades para evitar a disseminação do coronavírus entre seus funcionários, e as pessoas passaram a usar máscaras e outros tipos de proteção para se resguardar melhor.

Mas, à medida que a emergência de saúde mundial passou a ocupar o centro das atenções, muitos acreditam que a luta para reduzir o lixo plástico foi deixada de lado por governos e consumidores.

“Os EPIs são a ponta de uma montanha de lixo plástico tóxico que ignoramos há anos”, disse Sian Sutherland, cofundador do A Plastic Planet, organização sem fins lucrativos que busca reduzir a dependência das pessoas do plástico.

Grande parte dos EPIs usados no mundo não é reutilizável e pode conter uma variedade de plásticos, de polipropileno e polietileno nas máscaras faciais e aventais até nitrilas, vinil e látex em luvas.

No entanto, há apenas algumas décadas quase todos os EPIs eram reutilizáveis, segundo Jodi Sherman, professora de Anestesiologia e Epidemiologia na Universidade de Yale. Ela explica que isso só mudou nos anos 1980, quando a indústria de equipamentos médicos descobriu o potencial lucrativo dos produtos descartáveis.

“Quanto mais coisas você joga fora, mais precisa comprar. Por isso, o fato de que as coisas não sejam duráveis é um modelo de negócios vantajoso”, disse Sherman.

Hoje, a vasta maioria dos EPIs é descartável, fabricada longe dos seus locais de uso e entregue no sistema “just in time”, para reduzir a necessidade de armazenamento e garantir que os suprimentos não passem da data de validade.

Pelas projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suprimento de EPIs precisaria aumentar em 40% ao mês para atender à demanda durante a pandemia, o que inclui uma estimativa de 89 milhões de máscaras, 76 milhões de pares de luvas e 1,6 milhão de óculos. A empresa de consultoria Frost & Sullivan previu que os Estados Unidos poderiam gerar o equivalente a um ano inteiro de resíduos médicos em apenas dois meses.

Mas só agora os governos começam a refletir sobre onde esses milhões de produtos vão acabar.

O Ministério da Saúde do Reino Unido admitiu que não é capaz de dizer como os 2 bilhões de unidades de EPIs que adquiriu serão descartados, mas informou que estava à procura de alternativas eficazes para os modelos não reutilizáveis.

Boa parte do lixo produzido na Europa é enviado para países como Indonésia e Turquia. Sutherland, do A Plastic Planet, chama isso de “o imperialismo do lixo”.

Em muitos países ocidentais os resíduos médicos perigosos costumam ser incinerados no local, para prevenir a transmissão de doenças infecciosas, num processo que pode liberar poluentes tóxicos.

“Fora queimá-los, não há nada que realmente possamos fazer. Eles foram projetado para serem descartados”, disse Sander Defruyt, chefe da equipe de plásticos da Ellen MacArthur Foundation, uma instituição de caridade.

Mas, conforme um número cada vez maior de pessoas comuns segue as orientações governamentais e usa equipamentos de proteção descartáveis, os EPIs também acabam nos fluxos de resíduos convencionais ou em centros de descarte a céu aberto.

De acordo com um relatório do World Wildlife Fund (WWF), mesmo que apenas 1% das máscaras seja descartado incorretamente, cerca de 10 milhões de unidades por mês acabarão no ambiente natural e poluirão rios e oceanos.

Para agravar o problema, as quarentenas por causa da covid-19 interromperam os sistemas de gestão de resíduos em todo o mundo e levaram a reduções drásticas no preço dos plásticos.

Mesmo antes da queda dos preços do petróleo neste ano, os preços dos plásticos mais comuns estavam nos seus níveis mais baixos em vários anos, em grande parte por causa do excesso de oferta. Os preços do polietileno de alta densidade despencaram quase pela metade desde o início de 2018, segundo a S&P Global Platts. Já os do polipropileno caíram em mais de um terço. E desde meados de 2019, o PET reciclado é mais caro do que seu equivalente bruto.

Nesse meio tempo, as políticas para restringir o uso de plásticos foram postas em compasso de espera. Vários governos adiaram a entrada em vigor de proibições de produtos descartáveis de plástico em meio aos temores em torno do contágio da covid-19, entre eles Reino Unido e Portugal.

Para especialistas, encontrar uma solução para o boom dos plásticos durante e após a pandemia exigirá um esforço conjunto de fabricantes e governos, para repensar e regular todo o ciclo de vida de produtos.

A Plastic Planet produz 1 milhão de máscaras protetoras sem plástico por semana, feitas de peças recicláveis e biodegradáveis, e as distribui por todo o mundo, inclusive em salões de beleza e restaurantes. 

Reutilizar os EPIs é outra opção. A professora Sherman, de Yale, diz que, no caso da maioria dos equipamentos médicos, não há evidências de que os pacientes estejam mais seguros com itens de uso único do que com reutilizáveis.

Como as ações dos governos e das empresas para cortar resíduos de EPIs foram limitadas nos últimos meses, ambientalistas afirmam que a busca por equipamentos recicláveis ou reutilizáveis é a melhor opção disponível para os consumidores que querem reduzir a sua pegada plástica.

Barrera, a pescadora, acredita que todos devem trabalhar juntos para que o mundo vire a maré do lixo plástico. “Populações e governos são os únicos que podem parar isso”, disse ela. “Precisamos optar por produtos mais ecológicos e sustentáveis e proibir o uso de plásticos descartáveis.”

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Esse algoritmo de Inteligência artificial não substitui médicos – melhora-os

Tom Simonite 17/07/2020 Wired – Tradução Evandro Milet

Um sistema de inteligência artificial superou os médicos ao detectar lesões na pele. Os resultados estão mudando a forma como uma escola treina dermatologistas.

O DERMATOLOGISTA HARALD KITTLER conta com mais de uma década de experiência  ensinando aos alunos da Universidade Médica de Viena como diagnosticar lesões na pele. Suas aulas neste outono incluirão uma dica que ele aprendeu apenas recentemente de uma fonte incomum: um algoritmo de inteligência artificial.

Essa lição teve origem em um concurso que Kittler ajudou a organizar, mostrando que os algoritmos de análise de imagem poderiam superar os especialistas humanos no diagnóstico de algumas manchas na pele. Depois de digerir 10.000 imagens rotuladas pelos médicos, os sistemas puderam distinguir entre diferentes tipos de lesões cancerígenas e benignas em novas imagens. Uma categoria em que superaram a precisão humana foi para manchas escamosas conhecidas como queratoses actínicas pigmentadas. A engenharia reversa, um algoritmo treinado da mesma forma para avaliar como chegou a suas conclusões, mostrou que, ao diagnosticar essas lesões, o sistema prestou mais atenção do que o habitual à pele ao redor de uma mancha.

Kittler ficou inicialmente surpreso, mas chegou a ver sabedoria nesse padrão. O algoritmo pode detectar a exposição ao sol na pele circundante, um fator conhecido nessas lesões. Em janeiro, ele e seus colegas pediram a uma turma de estudantes de medicina do quarto ano que pensassem como o algoritmo e procurassem por danos causados pelo sol.

A precisão dos estudantes no diagnóstico de queratoses actínicas pigmentadas melhorou em mais de um terço em um teste em que eles tiveram que identificar vários tipos de lesões de pele. “A maioria das pessoas pensa que a IA age em um mundo diferente que não pode ser entendido pelos seres humanos”, diz Kittler. “Nosso pequeno experimento mostra que a IA pode ampliar nosso ponto de vista e nos ajudar a fazer novas conexões”.

O experimento vienense foi parte de um estudo mais amplo realizado por Kittler e mais de uma dúzia de outros explorando como os médicos podem colaborar com sistemas de IA que analisam imagens médicas. Desde 2017, uma série de estudos descobriu que os modelos de aprendizado de máquina superam os dermatologistas em competições frente a frente. Isso inspirou especulações de que os especialistas em pele podem ser totalmente substituídos por uma geração do AutoDerm 3000s

“As chances dessas coisas nos substituírem são muito baixas, infelizmente. A colaboração é o único caminho a seguir.

Philipp Tschandl, professor assistente de dermatologia da Universidade Médica de Viena que trabalhou no novo estudo com Kittler e outros, diz que é hora de reformular a conversa: e se algoritmos e médicos fossem colegas e não concorrentes?

Os especialistas em pele planejam tratamentos, sintetizam dados díspares sobre um paciente e constroem relacionamentos além de observar as verrugas, diz ele. Os computadores não estão perto de conseguir fazer tudo isso. “As chances dessas coisas nos substituírem são muito baixas, infelizmente”, diz ele. “A colaboração é o único caminho a seguir.”

Operadores de oficinas de pintura, armazéns e centrais de atendimento chegaram à mesma conclusão. Em vez de substituir os humanos, eles empregam máquinas ao lado das pessoas, para torná-las mais eficientes. As razões decorrem não apenas do sentimentalismo, mas porque muitas tarefas cotidianas são complexas demais para a tecnologia existente lidar sozinha.

Com isso em mente, os pesquisadores de dermatologia testaram três maneiras pelas quais os médicos poderiam obter ajuda de um algoritmo de análise de imagem que superava os seres humanos no diagnóstico de lesões na pele. Eles treinaram o sistema com milhares de imagens de sete tipos de lesões de pele rotuladas por dermatologistas, incluindo melanomas malignos e verrugas benignas.

Um dos projetos para colocar o poder desse algoritmo nas mãos de um médico mostrou uma lista de diagnósticos classificados por probabilidade quando o médico examinou uma nova imagem de uma lesão na pele. Outro exibia apenas uma probabilidade de que a lesão fosse maligna, mais próxima da visão de um sistema que poderia substituir um médico. Um terceiro recuperou imagens previamente diagnosticadas que o algoritmo julgava semelhantes, para fornecer ao médico alguns pontos de referência.

Testes com mais de 300 médicos descobriram que eles eram mais precisos ao usar a lista classificada de diagnósticos. Sua taxa de acerto subiu 13 pontos percentuais. As outras duas abordagens não melhoraram a precisão dos médicos. E nem todos os médicos obtiveram o mesmo benefício.

Médicos menos experientes, como residentes, mudavam seu diagnóstico com base nos conselhos de IA com mais frequência e costumavam ter razão em fazê-lo. Médicos com muita experiência, como dermatologistas certificados, mudavam seus diagnósticos com base no resultado do software com muito menos frequência. Esses médicos experientes se beneficiaram apenas quando relataram menos confiança, e mesmo assim o benefício foi marginal.

Tschandl diz que isso sugere que as ferramentas de dermatologia da IA podem ser mais bem direcionadas como assistentes de especialistas em treinamento ou de médicos de clínica geral que não trabalham intensivamente na área. “Se você faz isso há mais de 10 anos, não precisa usá-lo ou não deveria, porque isso pode levar você a coisas erradas”, diz ele. Em alguns casos, médicos experientes negaram um diagnóstico correto trocando incorretamente quando o algoritmo estava errado. 

Essas descobertas e o experimento na aula de dermatologia de Kittler mostram como os pesquisadores podem desenvolver a IA que acrescenta em vez de eliminar os médicos. Sancy Leachman, especialista em melanoma e professora de dermatologia da Oregon Health & Science University, espera ver mais desses estudos – e não, ela diz, porque teme ser substituída.

“Não se trata de quem faz o trabalho, humano ou máquina”, diz ela. “A questão é como você usa com sucesso o melhor dos dois mundos para obter os melhores resultados”. A IA que ajuda os clínicos gerais a pegar mais melanomas ou outros cânceres de pele pode salvar muitas vidas, diz ela, porque os cânceres de pele são altamente tratáveis se detectados precocemente. Leachman acrescenta que provavelmente será mais fácil convencer os médicos a adotar a tecnologia projetada para aprimorar e desenvolver seu trabalho do que substituí-lo.

O novo estudo também incluiu um experimento que destaca os perigos potenciais de adotar essa tecnologia. Ele testou o que aconteceu quando os médicos trabalharam com uma versão do algoritmo preparada para dar conselhos incorretos, simulando software defeituoso. Clínicos de todos os níveis de experiência mostraram-se vulneráveis a serem enganados.

“Minha esperança era que os médicos fossem firmes, mas vimos a confiança que eles tinham no modelo de IA voltada contra eles”, diz Tschandl. Ele não sabe ao certo quais são as respostas, mas diz que trabalhos futuros sobre IA médica precisam considerar como ajudar os médicos a decidir quando desconfiar do que o computador lhes diz.

https://www.wired.com/story/algorithm-doesnt-replace-doctors-makes-them-better/

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Bioeconomia – Caminhos para o Brasil no Pós-Pandemia

Paulo Hartung

Paulo Hartung é economista, presidente-executivo da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), membro do Conselho do Todos Pela Educação, ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018)

A Covid-19 vem há meses dizimando milhares de vidas e arrastando economias ao redor do planeta para o abismo da recessão. A rapidez do contágio e a letalidade foram surpreendentes, mas essa era uma catástrofe anunciada, ainda que não soubéssemos antever seu gatilho explosivo.

O mundo já dava sinais de que era preciso reinventar nossa relação com a natureza. Entre esses alertas estão as mudanças climáticas e suas graves consequências para a agricultura e a vida urbana, a extinção de espécies animais, a poluição extrema dos rios e o sofrimento de animais marinhos em mares invadidos pelo lixo.

Alertas ignorados, catástrofe efetivada. A pandemia é a crise mais desafiadora já enfrentada pelas atuais gerações. No Brasil, ainda fomos impactados em um período de fragilidades econômica e social, com dívida elevada e desemprego em alta.

E, se já não bastasse esse cenário de tragédia, cujos elementos se potencializam em seus efeitos nefastos, a falta de liderança fez com que o País não se preparasse da maneira adequada, desperdiçando o tempo que tinha até que a pandemia se instalasse por aqui. Isso sem falar na troca e até ausência de ministros em meio a este momento devastador.

O momento é grave. É impositivo que tratemos do emergencial, que é salvar vidas humanas, manter os empregos e assegurar continuidade à atividade econômica. Mas, além de fôlego para enfrentarmos nossas urgências, precisamos olhar para frente e mirar o futuro pós-pandemia. É necessário conjugar esforços para que o Brasil tenha tração para a retomada.

Neste caminho, não há atalhos. É necessário cumprir uma agenda urgente. A reforma tributária e a modernização do Estado são imprescindíveis. A digitalização plena dos procedimentos governamentais se mostrou inadiável diante da incapacidade de se efetivar a ajuda emergencial nesta pandemia. Conhecer e conectar-se com os cidadãos, desburocratizar processos… Enfim, é preciso tornar as máquinas governativas contemporâneas do século XXI.

Um avanço importante foi a aprovação pelo Senado do novo marco regulatório do saneamento básico, que dará segurança jurídica e atrairá investimentos do setor privado. Já há movimentação de investidores de olho no aporte necessário, que gira em torno de R$500 bilhões e R$700 bilhões para atingir a meta de universalização de água e esgoto tratados no Brasil até 2033. Além de ser um tema crucial, devido aos vergonhosos déficits sanitários e ambientais que atingem milhões de brasileiros, o assunto ganha relevância pelo gigantesco potencial de geração de emprego e renda. Ainda faltam etapas, mas foi um grande passo, após anos de discussão.

O fosso da desigualdade socioeconômica igualmente exige e merece atenção absolutamente prioritária. Educação de qualidade acessível a todos e unificação de políticas de inclusão social produtiva, contemplando um programa unificado de transferência de renda focado nos pobres, são ações decisivas nesta frente.

Para além dessa agenda estruturante, historicamente adiada, mas que se tornou ainda mais impositiva por causa deste presente dramático, também precisamos estar atentos às demandas e oportunidades que se colocam pela contingência atual, tendo em vista uma reflexão sobre qual mundo queremos legar para as gerações futuras.

Um dos caminhos é a bioeconomia

O mundo, neste momento, passa por um grande debate sobre como se dará a recuperação da economia no pós-crise e aponta um caminho convergente e muito suscetível a um natural protagonismo brasileiro, a bioeconomia.

Recentemente, o príncipe Charles, do Reino Unido, afirmou que o coronavírus trouxe uma oportunidade para reiniciarmos a economia, de modo a devolver à natureza aquilo que ela nos dá. Angela Merkel, chanceler alemã, destacou que irá investir trilhões para recuperar a economia em uma direção verde. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que é necessário reconstruir uma economia forte e que proteja o meio ambiente.

O Green Deal, ou Plano Verde, pactuado pela União Europeia, propõe ambiciosamente chegar à neutralidade de carbono até 2050. O bloco também lançou o selo verde para priorizar investimentos em atividades sustentáveis, com os objetivos de reduzir mudanças climáticas, utilizar recursos hídricos sustentavelmente, incentivar a economia circular, proteger e restaurar a biodiversidade e prevenir e controlar a poluição.

O mercado de carbono é mais um exemplo. A criação desse mercado, em caráter global, é uma das premissas do Acordo de Paris, do qual o Brasil é signatário. Além dessa negociação, há várias iniciativas para alguma forma de precificação de carbono, incluindo União Europeia, China e o estado norte-americano da Califórnia. Essas ações movimentaram US$ 82 bilhões em 2018. No Brasil, existe um estudo em andamento, PMR – Partnership for Market Readiness, numa parceria entre o Ministério da Economia e o Banco Mundial.

O caminho está ficando claro e a sustentabilidade será tema fundamental nas relações internacionais no pós-pandemia. Segundo a OCDE, a contribuição mundial da biotecnologia, entre saúde, indústria e produção primária, será na ordem de US$ 1 trilhão ao ano.

No Brasil, temos uma riqueza ambiental quase sem paralelo, com diferentes tipos de vegetação, clima e solo. Como bem opinou Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo  (USP), o potencial não está no que a gente vê, mas no que a gente ainda não conhece. E o Brasil, país com maior biodiversidade do mundo e com 66% de seu território coberto por mata nativa, é uma mina de ouro para o desenvolvimento sustentável.

Cabe a nós, sem levar a discussão para o lado ideológico, saber transformar essa potencialidade em oportunidades de gerar empregos, produtos de valor agregado, com origem ambientalmente correta, procedência e qualidade, que trarão divisas ao País e levarão renda a comunidades afastadas dos grandes centros.

Amazônia, riqueza natural e humana

A floresta em pé tem um valor que ainda desconhecemos por completo. Além de todo o serviço ambiental prestado ao planeta, como captação de CO2, regime de chuvas, conservação da biodiversidade, entre tantos outros benefícios, há incontáveis potencialidades que se transformam em riquezas, sem agressão à natureza. Mas, é preciso visão, estudo e políticas públicas que estimulem.

Países como a Finlândia e Holanda, que investem fortemente em biotecnologia, avançam em ciência, geração de novos empregos, renda e diversificação de sua atividade econômica. Não à toa, são apontados como referências. O governo finlandês, por exemplo, tem em sua estratégia chegar aos 100 bilhões de euros em negócios decorrentes da bioeconomia até 2050.

No Brasil, temos um ativo em mãos chamado Amazônia. Na região, vivem cerca de 25 milhões de pessoas que, se incentivadas e capacitadas, poderiam produzir a partir da floresta. Isto garantiria renda para milhares de famílias, muitas delas que vivem abaixo da linha da pobreza, estimularia investimentos na região, inclusive em pesquisas, agregaria valor aos produtos, pois já sairiam com a chancela de origem ambientalmente correta e protegeria a natureza, uma vez que o manejo seria feito da maneira adequada.

Com a chegada da Covid-19 e o consequente aumento do desemprego, o estímulo à bioeconomia torna-se um elemento ainda mais importante para a região – conservação aliada à produtividade, renda e movimentação na atividade econômica.

A integração sustentável entre ser humano e floresta é a forma mais direta de proteger o meio ambiente. Além do cuidado, a presença de pessoas trabalhando legalmente intimida ações criminosas, como desmatamento, queimadas, tráfico de animais, entre outras atitudes que ali acontecem por falta de fiscalização.

O futuro é agora. As empresas estão de olho e aportando capital em sustentabilidade, que já não é mais um pilar isolado, mas uma transversalidade na estratégia das companhias. Recentemente, a Natura, que também tem forte atuação na Amazônia, anunciou a destinação de R$ 800 milhões para seu plano de sustentabilidade. A Unilever investirá 1 bilhão de euros em um fundo dedicado a programas de mudanças climáticas e redução de emissões de gases de efeito estufa até 2039. Estes são movimentos arrojados, globais, que demonstram que apostar em uma economia verde, em que o meio ambiente não será mais esgotado, mas sim respeitado, é estar do lado certo da história.

Há espelhos dentro do próprio Brasil

Talvez um dos mais conhecidos e clássicos exemplos brasileiros de sucesso em bioeconomia seja o biocombustível, no qual o País é pioneiro. O etanol nacional é referência para o mundo. Segundo a Unica – União da Indústria de Cana-de-Açúcar –, o Brasil é o segundo maior produtor global e atingiu safra recorde em 2019/2020, com 35,58 bilhões de litros produzidos, dos quais 33,96 bilhões de litros vêm da cana-de-açúcar, e o restante do milho. De acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), 18% dos combustíveis consumidos aqui já são renováveis.

E já há avanços. A Raízen materializou o etanol de segunda geração, tornando-se uma das poucas empresas do mundo a produzi-lo estavelmente em escala comercial, em Piracicaba (SP). Chamado de etanol 2G, este é um combustível obtido pela fermentação controlada e posterior destilação de resíduos vegetais, como o bagaço da cana-de-açúcar. Esse novo processo de produção de etanol consegue reduzir a formação de dejetos e aumenta a eficiência da empresa.

O RenovaBio, uma política pública criada para incentivar biocombustíveis de qualquer tipo, tem uma boa base, que é incentivar a descarbonização, certificar a produção dos biocombustíveis e gerar créditos de carbono (CBIOs). No entanto, o programa ainda precisa deslanchar.

Outro exemplo de que se é possível conservar, produzir, gerar renda e trazer divisas ao País com produtos ambientalmente corretos é o setor de árvores cultivadas.

Presente principalmente no interior dos Estados, essa agroindústria leva desenvolvimento a regiões antes socialmente deprimidas, movimentando as áreas em que atua. Atualmente, são mais de mil municípios sob zona de influência do setor e 3,8 milhões de empregos diretos e indiretos, além do efeito renda.

O setor, que possui 7,8 milhões de hectares de florestas cultivadas para fins industriais, comumente atua em regiões antes degradadas pela ação humana. Ao longo dos anos, o investimento em capacitação, tecnologia e ciência, além de alavancar a produtividade, permitiu melhorias no manejo, que contribuem para fertilidade do solo, aumento de disponibilidade hídrica, entre outros serviços ambientais prestados pelas árvores cultivadas. Elas ainda são responsáveis pelo estoque médio de 1,7 bilhão de CO2eq, absorvendo mais CO2 do que toda a indústria produz em um ano.

O processo fabril desse segmento também é cuidadosamente pensado para reduzir seus impactos. No uso de água, por exemplo, a indústria de celulose reduziu a captação em 88% desde 1970. Além disso, deste total, 80% dos recursos hídricos retornam ao seu ponto de origem tratados, muitas vezes em condições melhores do que quando captados, e 19,7% vão para a atmosfera por meio da evaporação. Ou seja, apenas 0,3% fica no produto. Já na questão energética, as fábricas são responsáveis pela geração de 73% de toda energia que consomem, muitas delas, inclusive, com capacidade de venda do excedente para a rede.

O resultado desta equação são produtos renováveis, recicláveis e biodegradáveis, presentes no dia a dia de todos, como papel, filtro para café, fraldas infantis e de idosos, pisos laminados e móveis formados por painéis de madeira (MDF e MDP). Até mesmo no combate à Covid-19 seus produtos se mostraram fundamentais como embalagens de papel, que fizeram alimentos e medicamentos chegarem seguros para todos; papel higiênico, papel toalha e lenços para higiene; assim como EPIs de saúde, a exemplo das máscaras cirúrgicas. Todos eles, com carbono estocado também.

Além disso, a indústria investe muito em pesquisa e tecnologia para novos usos e substituição de materiais de origem fóssil. Viscose a partir da celulose solúvel para tecido já é uma realidade. Em breve, uma nova fibra têxtil a partir da celulose microfibrilada, até então chamada de Staple Fiber, chegará ao mercado para revolucionar o segmento. Bio-óleos, biocombustíveis, nanocelulose e nanocristais, que podem ser utilizados na indústria de alimentos, automobilística, de cosméticos e medicamentos, são outros exemplos.

Soma-se a tudo isso, os 5,6 milhões de hectares que o setor conserva entre Reservas Legais (RLs), Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs), uma área que é maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. Aqui, nessas áreas conservadas de matas nativas, são mais 2,5 milhões de CO2eq estocados. Trata-se de uma indústria que cuida do processo produtivo e preserva acima do que a lei prevê. Nesse sentido, também auxilia o Brasil a cumprir suas metas em acordos internacionais, como o Acordo de Paris.

Florestas e reputação

Desde a Rio 92, o País trabalhou para reverter a imagem das décadas de 1970 e 1980 e construir uma reputação ambiental internacional de muito respeito. Mas, os últimos acontecimentos têm arranhado a imagem do Brasil. Não só as queimadas de 2019 ou o aumento do desmatamento, mas também determinados posicionamentos oficiais, falas inoportunas ou fora de contexto prejudicam até mesmo acordos internacionais. O parlamento holandês, por exemplo, mostrou-se contra o acordo UE-Mercosul devido à política ambiental brasileira.

A realidade é que o Brasil tem se comunicado mal nos últimos anos. Construímos um sólido Código Florestal, que, pela primeira, vez colocou na mesma mesa academia, setor privado, poder público e sociedade civil. Dali nasceu uma das mais rígidas legislações ambientais do mundo.

Temos um agronegócio comprometido com o meio ambiente, que compreende a importância da natureza para sua produção, investe em tecnologia e ciência para fazer mais com menos, busca soluções para defensivos agrícolas biológicos, produzindo itens essenciais e alimentos que abastecem os brasileiros e o mundo.

A sociedade é cada vez mais consciente e cobra de seus governantes políticas públicas para preservar o meio ambiente. Em 2019, vimos jovens nas ruas se manifestando para que atitudes fossem tomadas contra as mudanças climáticas. É o futuro instando as atuais gerações para que encontrem o rumo correto.

Precisamos ter a capacidade de demonstrar isso ao mundo. Vamos contar nossa história para que, por exemplo, os europeus compreendam que a sociedade brasileira cultiva valores comuns, partilha com eles valores idênticos e que luta pelas mesmas causas. Precisamos narrar nossa trajetória de uma nação capaz, preocupada com nossa biodiversidade, nossas riquezas naturais, que mira um futuro sustentável, em que homem e natureza conviverão em harmonia.

Enfim, temos muito a fazer. Mas, seja para cuidar da travessia da pandemia, com olhar prioritário ao cuidado com a vida e a produção, seja para executar concomitantemente uma agenda essencial de desenvolvimento socioeconômico, com vistas ao hoje e ao amanhã, é preciso que a liderança nacional assuma seu papel.

É preciso também que todas as institucionalidades, os setores produtivos, todas as cidadãs e cidadãos se engajem, no âmbito de suas possibilidade e deveres, para manter o Brasil de pé e com olhar firme no horizonte. Afinal, é sabido que toda crise tem começo, meio e fim.

Mas, se não atuarmos em sintonia e comunhão a favor de propósitos nacionais maiores, chegaremos ao pós-pandemia de joelhos, sufocando demandas e oportunidades de uma nação potencialmente gigante, mas que ainda está muito aquém do que poderia ser, especialmente por questões estruturais que não podemos mais suportar, dramaticamente agravadas por este momento trágico. É tempo de agir. Nosso presente e nosso futuro não podem mais esperar.

Caminhos para o Brasil no Pós-Pandemia

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A Revolução da Transformação Digital

por Evandro Milet – uma versão reduzida desse artigo foi publicada no Jornal A Gazeta

Na primeira revolução industrial, as fontes fixas de energia, primeiro as rodas d’água e depois o carvão, definiam a localização, o formato, o tamanho, a capacidade, o projeto das fábricas e os métodos de trabalho. A eletrificação no final do século XIX mudou tudo, mas as fábricas demoraram a perceber a extensão das mudanças. Coube às novas startups de geração de energia elétrica da época pregar a inovação e até emprestar motores elétricos para demonstrar as novas tecnologias.

O mesmo acontece agora com a transformação digital(TD) que tem a ver com estratégia, reimaginação e reinvenção do core business e não só com automação, robôs, IA ou IoT. O conceito é mais amplo que Indústria 4.0 e se aplica não só em empresas, mas também em governos, com as adaptações específicas de termos.

A TD exige uma visão holística da estratégia de negócios em 5 domínios: clientes, competição, dados, inovação e valor, bem retratadas no livro Transformação Digital de David L. Rogers.

No primeiro domínio o importante era atingir, com um produto e comunicação o máximo de clientes possível. As ferramentas digitais mudaram como os clientes descobrem, avaliam, compram e usam os produtos, se influenciando em redes que constroem e destroem marcas e reputações. O marketing digital criou uma gama enorme de ferramentas para captar e fidelizar os clientes.

O segundo domínio da TD é a competição. Fronteiras setoriais fluidas trazem concorrentes de outros setores, obrigam concorrentes a cooperar, a desintermediação faz parceiros de longa data virarem concorrentes e as plataformas criam um modelo de negócios novo aproximando empresas e clientes. Mas surgem também novas formas de intermediação como, por exemplo, a parceria do Google com órgãos de imprensa para divulgação de reportagens.

O terceiro domínio são os dados que eram parte dos processos de negócios – fabricação, operações, vendas e marketing, e usados para previsões, avaliações e tomadas de decisões. As fontes se multiplicaram, com as mídias sociais, os dispositivos móveis e os sensores gerando uma enxurrada de dados, permitindo novas previsões, um conhecimento profundo dos clientes, a descoberta de padrões inesperados e novas fontes de valor. Novas profissões, como cientistas e engenheiros de dados, são criadas para organizar e aproveitar essa nova fonte de valor.

O quarto domínio é a inovação, onde a grande novidade é a possibilidade de experimentação rápida usada não só pelas startups, que permitem feedback do mercado desde o início do processo de inovação e sempre, em inovação constante. Também a inovação aberta, onde as empresas vão buscar externamente soluções para suas dores e desafios, cresceu e se espalhou como tendência.

O quinto domínio é a proposta de valor, antes duradoura ou quase constante e agora tendo que mudar sempre para acompanhar as mudanças rápidas dos próprios clientes, assediados por novos concorrentes, vindos muitas vezes de outros setores.

Enfim, a nova realidade: ou a empresa faz sua transformação digital, nos seus vários domínios, ou estará fora do mercado, como tem sistematicamente acontecido no mundo empresarial. 

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Quarenteners: as startups lançadas em meio ao isolamento social

De app que recomenda filmes a serviço que ajuda a economizar na conta de luz, novas empresas ‘abrem as portas’ com trabalho remoto e conectadas com novas tendências de comportamento e mercado

22/07/2020  Por Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo

Elas não sabem o que é escritório físico, parede colorida ou mesa de pingue-pongue. Começaram a operar a distância, com trabalho remoto, usando a nuvem, as videochamadas e apostando nas tendências de comportamento de um mundo que ninguém sabe como funciona direito. Em meio às incertezas do período de isolamento social, uma geração de startups – as “quarenteners” – está “abrindo suas portas” e conquistando seus primeiros clientes. De um app que recomenda filmes para quem decidiu ficar em casa a um serviço que ajuda a economizar na conta de luz, essas empresas já nascem adaptadas a hábitos que, seja pela crise econômica ou sanitária, podem se tornar padrões nos próximos tempos. 

Algumas delas foram inclusive fundadas a partir da segunda quinzena de março, quando a pandemia do coronavírus fez uma parte dos brasileiros ficarem em casa. É o caso da Chippu (“dica”, em japonês), que dá dicas de filmes e animes para quem não sabe o que assistir em meio ao tédio da quarentena. “Muita gente gasta meia hora só tentando escolher um filme na Netflix. Podemos resolver isso com algoritmo e curadoria, dando dicas em alguns segundos”, diz o jornalista Thiago Romariz, que se uniu a dois amigos para lançar o serviço. Só que não presencialmente. 

De Curitiba, ele executou a parte editorial e de conteúdo do app, enquanto os dois sócios, em Brasília, programavam o aplicativo, lançado no final de maio. “Era um projeto que eu tinha há uns dois anos. Quando começou a quarentena, vi que o problema das pessoas em escolher o que assistir aumentou. Aí resolvi ir pra cima”, conta ele. Em dois meses, o serviço já tem mais de 100 mil usuários e 1 milhão de dicas dadas. “A gente não esperava que fosse tão bem, tivemos até problema de servidor no começo. Mas o timing foi mais importante que a execução”, afirma. 

Além do sucesso em downloads, a empresa também já conseguiu parcerias comerciais com empresas como Telecine e James Delivery. Para os próximos meses, os planos são ambiciosos: até o final do ano, o app da Chippu ganhará versões em inglês e espanhol, para entrar nos EUA e no mercado latino. “Escolher o que assistir é um problema universal, então vamos aproveitar a oportunidade”, diz o empreendedor, que já lidera uma equipe de dez pessoas e negocia uma próxima rodada de aportes com investidores brasileiros e americanos. 

Recomeço

Algumas das quarenteners vem de veteranos do ecossistema brasileiro. Fundador do iFood, Michel Eberhardt vendeu sua parte no app de delivery há alguns anos. Passou um tempo estudando e decidiu que era hora de recomeçar no início de 2019, quando criou a 2be Live, startup que é dona de um sistema para educação a distância. “Nossa ideia era criar um sistema para professores particulares darem aulas para alunos em qualquer parte do mundo, com plataforma já traduzida e preparada para educação. No máximo, para 20, 30 alunos”, afirma o executivo, que fundou a empresa ao lado de Antonio Curi, ex-Qualcomm e Electronics Arts. “O nosso plano era lançar o serviço em abril. Aí veio o coronavírus e passarmos a ser requisitados por escolas inteiras de uma vez só.” 

Segundo Eberhardt, o diferencial da 2be Live é que ela foi pensado desde o início para servir para educação – ao contrário de plataformas de gigantes de tecnologia, que adaptaram produtos corporativos para o universo das escolas. Entre as funções, há a possibilidade de alunos e professores desenharem na tela e a de fazer quizzes durante aula, bem como uma playlist de atividades pré-determinadas. O plano mais barato da empresa custa R$ 99 ao mês e aumenta conforme a quantidade de horas de aula e de alunos conectados. 

Além de atender o Brasil, a startup também está de olho no mercado internacional – já tem clientes nos EUA e um representante no Canadá; em breve, ganhará uma nova executiva na Europa. “Muitas faculdades já decidiram que vão ficar online no próximo ano letivo, mas ainda não sabem o que fazer, então podemos ajudar”, diz o executivo, que comanda uma equipe de quatro pessoas, numa conexão entre São Paulo e San Diego, onde mora Curi. 

Questão de hábito

Se para a 2be Live as videochamadas são uma forma de comunicação interna e um mercado, para a recifense Hent elas se transformaram em uma oportunidade de acessar novos clientes. Criada no final de 2019 e com operações ativas desde março, a empresa é dona de um software que faz gestão para loteamentos residenciais, facilitando a cobrança desse tipo de empreendimento imobiliário. 

“Uma boa parte dos nossos clientes é ‘raiz’. Normalmente, eles pediriam que a gente viajasse até a cidade deles para uma reunião”, diz o presidente executivo Leo Pinho, que em 2015 vendeu sua primeira empresa, a Kaplen, para o Itaú. “Com a pandemia, eles começaram a topar falar por videoconferência. Para nós, a quarentena ajudou porque mudou os hábitos dos clientes.”

Além de começar a operar na pandemia, a empresa também está crescendo seu time durante a quarentena – hoje, tem sete pessoas e deve contratar mais quatro nos próximos meses. As contratações estão sendo bancadas com recursos de uma rodada recente de aportes, avaliada em R$ 5 milhões e liderada pelos fundos Canary e Norte Capital, além de investidores-anjo como Brian Requarth, cofundador do VivaReal. Antes disso, a Hent passou pela aceleração da Y Combinator (de Rappi e Airbnb), no Vale do Silício. Até o final do ano, a empresa espera administrar 45 mil lotes e também entrar em um novo pilar de negócios: crédito, tanto para os loteadores quanto para os clientes. 

Luz

Companheira de fundo da Hent, a startup Clarke recebeu seu primeiro aporte da Canary em janeiro e lançou seu primeiro aplicativo em junho. Sua meta? Ajudar as pessoas a lidar melhor com sua própria de conta de luz, identificando gastos, parcelando a tarifa ou identificando serviços que podem reduzir custos – como a indicação de serviços de instalação de energia solar. A companhia, liderada pelo engenheiro Pedro Rio, também ajuda clientes corporativos a lidarem com os gastos de energia – mostrando, por exemplo, se eles podem gastar menos ao adotar a tarifa branca, com precificação em faixas horárias, do que a tarifa normal. 

“Usamos inteligência artificial pra identificar tendências de gastos e analisar a conta de luz. No futuro, queremos ser uma solução única para energia, até ajudando as empresas a usar energia limpa e barata”, diz Rio, que hoje tem cerca de 80 clientes. Essa visão de futuro depende, no entanto, de mudanças regulatórias, como a criação de um mercado livre de energia – em prática nos EUA, por exemplo, esse sistema permite que o consumidor escolha de qual tipo de usina deseja comprar a força que abastece sua casa. 

Antes disso, porém, a empresa, que tem 9 funcionários, enxerga boas oportunidades para os próximos meses. “Somos feitos para os tempos de crise, porque podemos ajudar as empresas a cortarem custos”, diz Rio. Para ele, é um paradigma que as startups criadas agora vão ter de enxergar. 

Tempos de crise

Quem também acredita nisso é Flávia Coelho, criadora da Mobees – startup carioca que quer ajudar motoristas de aplicativo a ter uma renda extra colocando telas de LED no topos dos carros, para exibição de publicidade. “O setor de mídia fora de casa (out of home, no jargão do termo) sempre teve muito problema para gerar números confiáveis, mas podemos fazer isso com tecnologia”, explica ela, que, junto a dois sócios, criou um sistema capaz de medir quantas pessoas estão na rua sendo expostas aos anúncios. 

Por enquanto, as telas de LED estão rodando em 100 carros no Rio de Janeiro – são duas telas por carro, que exibem anúncios rotativamente de acordo com a demanda dos clientes, em uma lista que já inclui nomes como Descomplica, Unimed Rio e Motorola. “Podemos exibir uma campanha dependendo da rua, da temperatura e até mesmo da hora do dia”, explica Flávia. 

Segundo ela, mais de 10 mil motoristas estão na fila de espera da empresa, que paga R$ 1 mil para os condutores rodarem por aí com seu sistema. Apesar de já ter captado recursos – em um aporte de R$ 5 milhões –, a empresa espera passar pouco tempo rodando no vermelho, até pelo momento difícil da economia. “Não queremos ser uma empresa que consome recursos do caixa por meses a fio, não faz sentido”, diz Flávia. 

Pinho, da Hent, vai na mesma linha. “Nascemos na crise e mesmo se as coisas melhorarem, vamos continuar assim. O desejo de toda startup é ser unicórnio, mas nós vamos ser o camelo”, diz, fazendo referência a um termo que também ganhou popularidade no setor durante a quarentena. “Afinal, o camelo consegue suportar condições adversas, caminhar pelo deserto e sobreviver. É o que queremos fazer.” 

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O que o e-commerce chinês pode revelar sobre o comércio eletrônico brasileiro

Em 2003, quando a epidemia da SARS eclodiu na China, o e-commerce deu um grande salto e mudou para sempre o modo de consumo da população. Um estudo do Itaú BBA, revelado com exclusividade ao NeoFeed, traça esse paralelo e os possíveis efeitos do coronavírus para o setor no Brasil

Moacir Drska •17/07/20 

Com boa parte das pessoas confinadas em casa, o e-commerce brasileiro vem experimentando taxas chinesas de crescimento. Segundo a Ebit Nielsen, já nas primeiras semanas da Covid-19, entre 17 de março e 27 de abril, a receita do setor avançou 48,3% no País, ante igual período de 2019.

No rastro do salto expressivo nos cliques, há quem entenda que a pandemia vai acelerar a consolidação dos carrinhos de compra virtuais como uma via de consumo de alto tráfego no Brasil. E para avaliar as perspectivas desse cenário, o Itaú BBA produziu uma nova edição do estudo “The Covid-19 Series”.

O relatório, adiantado com exclusividade ao NeoFeed, parte da possível influência da epidemia de SARS, em 2003, no avanço substancial do comércio eletrônico da China para traçar paralelos com o contexto atual e o futuro do e-commerce no Brasil, a partir do novo coronavírus.

Para Enrico Trotta, analista de tecnologia do Itaú BBA, a SARS pode ter sido o pontapé para o e-commerce chinês. “Mas não foi o fator determinante para o avanço do setor que, na época, era incipiente no país”, diz. “No pós-pandemia, outras questões foram muito mais decisivas.”

Essa constatação inicial poderia frear as expectativas de um crescimento exponencial para o setor no Brasil nos próximos anos, sob o impulso da Covid-19. Mas a comparação dos estágios de desenvolvimento dos dois países nesses respectivos períodos traz, na realidade, uma boa projeção para o e-commerce local.

“O Brasil está muito mais preparado do que a China estava na época”, observa Thiago Macruz, analista de varejo do Itaú BBA. “Então, sem sombras de dúvidas, essa pandemia pode ser um vento de cauda importante para a aceleração definitiva do comércio eletrônico no País.”

A pesquisa destaca cinco componentes que foram fundamentais na consolidação da China como uma referência global no segmento. E analisa a maturidade do Brasil em cada um desses tópicos. Em todos eles, apesar dos desafios, o País tem um cenário bem mais favorável que aquele observado no mercado chinês, em 2003.

O primeiro ponto em que o Brasil está à frente é a penetração da internet entre a população, na casa de 70,2%. O índice é maior mesmo na comparação com a fatia atual dos chineses, de 59,35%. Em contrapartida, o País tem a maior carga tributária em conexões fixas de banda larga do mundo, segundo a União Internacional de Telecomunicações, o que limita o acesso de mais brasileiros ao serviço.

O custo também pesa no bolso dos brasileiros em outra frente que ajuda a explicar o avanço chinês: a penetração dos smartphones. “Os chineses praticamente pularam a fase do PC em casa e foram direto para o smartphone”, diz Trotta, sobre o país, no qual 55,3% dos habitantes têm aparelhos desse tipo.

Com essa transição, a participação das compras via smartphone no e-commerce chinês saltou de 1,5%, em 2011, para 61,7%, em 2018. “Essa presença elevada do mobile-commerce é fundamental, pois impulsiona as melhorias na experiência de compra”, afirma Trotta.

A fatia brasileira do mobile commerce no e-commerce é de 43,1%, enquanto a penetração dos smartphones está na casa de 40%

Aqui, mesmo com índices menos expressivos, o Brasil ganha de lavada no paralelo traçado com a China de 17 anos atrás, já que esses dispositivos nem existiam. A fatia local do mobile commerce no e-commerce é de 43,1%, enquanto a penetração dos smartphones está na casa de 40%.

Alta velocidade

Nesse jogo, porém, o principal desafio do Brasil na visão dos analistas é a questão da infraestrutura e da logística. A China começou a superar esse gargalo, de fato, a partir de 2008, quando passou a investir pesado em sua rede ferroviária e nos trens de alta velocidade. O maior salto dessa estratégia veio no ano seguinte, com um aumento de 50% dos aportes na área.

Até então, as compras do e-commerce estavam restritas aos grandes centros urbanos, como Pequim. Hoje, o país tem uma rede de 139 mil quilômetros, o que ajudou a desbravar novas fronteiras para o segmento.

Com a estratégia, o e-commerce da China conseguiu reduzir o tempo de entrega para o prazo médio de um dia, além de diminuir os custos nesse processo. Também com dimensões continentais, o Brasil, por sua vez, tem uma malha ferroviária de 29,1 mil quilômetros. E o prazo médio para que encomenda chegue até o consumidor é de 11 dias.

Na China, o tempo médio de entrega de um produto é de um dia. No Brasil, o prazo é, em média, de 11 dias

“O governo chinês foi muito importante para resolver essa fricção”, ressalta Trotta. “Aqui, até pela situação fiscal do Estado não dá para esperar grandes investimentos. O caminho para destravar essa questão virá da iniciativa privada.”

Se não há perspectiva de solução a partir do Estado, o mercado brasileiro começa a enxergar a evolução de alternativas propostas pelas próprias empresas de comércio eletrônico para superar essas lacunas no País.

Nessa direção, o analista Thiago Macruz destaca duas vias: as estratégias multicanal e as ofertas no modelo de fulfillment, no qual um varejista oferece aos lojistas parceiros de seu marketplace serviços que vão desde a coleta e o armazenamento até o empacotamento e a entrega dos produtos aos clientes.

“O Magazine Luiza tem sido extremamente eficiente ao usar suas lojas para melhorar o serviço, o tempo de entrega, a assertividade e reduzir o custo”, diz Macruz, sobre o primeiro formato. “Já o Mercado Livre conseguiu atingir uma marca expressiva, de 20% de penetração no fulfillment.”

As diferenças entre o papel estatal dos dois países também envolvem os outros dois fatores apontados no estudo como responsáveis pelo desenvolvimento do e-commerce na China: os superapps e os pagamentos digitais.

“O governo chinês foi o grande patrocinador das empresas que consolidaram esse formato”, diz Trotta, sobre as duas companhias locais que dominam amplamente esses mercados, Alibaba, com serviços com o Alipay, e a Tencent, com o WeChat. “No Brasil, dificilmente esse modelo será replicado, porque o mercado é mais livre e aberto a competição, o que, no fim do dia, é mais benéfico.”

Macruz reforça essa visão: “Se você é um pequeno varejo na China, precisa se associar a essas duas plataformas, ou não cresce. E fica obrigado a pagar as taxas que elas definem”, afirma. “No Brasil, só em marketplaces, por exemplo, temos cinco ou seis players estabelecidos e competindo de forma franca.”

Ele destaca outra questão que também deve estimular a competição e, ao mesmo tempo, impulsionar o e-commerce local. “O PIX, do Banco Central, vai tornar o pagamento digital uma alternativa muito mais interessante e consistente no País”, observa Macruz.

Valorização

Se o cenário é favorável para a competição e o crescimento mais acelerado do segmento nos próximos anos, no curto prazo, as empresas brasileiras puramente de e-commerce ou com forte operações nesse campo listadas em bolsa já estão capturando bons indicadores com a pandemia.

A valorização das ações dessas companhias no acumulado de 2020 é um bom termômetro. A alta da B2W no período foi de 77,77%; seguida pelo Magazine Luiza, com 69,1%; e pelo Mercado Livre, com 66,4%. Completam a relação a Via Varejo, com 65,53% e a Lojas Americanas, com 51,44%.

Para os analistas do Itaú BBA, todas elas estão sabendo, em diferentes níveis, surfar na onda da digitalização. A B2W, por exemplo, com o acréscimo acelerado de novos parceiros em seu marketplace, o aumento na recorrência de compra a partir do impulso a categorias como alimentos e o desenvolvimento dos esforços multicanais em parceria com a Lojas Americanas.

“O Magazine Luiza e a Via Varejo são players de varejo físico e e-commerce tradicional se aventurando, com bons números, no marketplace”, diz Macruz, que destaca ainda o tráfego orgânico “gigantesco” do Mercado Livre. “E é a empresa com maior penetração em serviços de fintech, com o Mercado Pago. E quem está mais próximo de construir um ecossistema.”

A valorização das ações das companhias do setor no acumulado de 2020 é um bom termômetro. A alta da B2W no período, por exemplo, foi de 77,77%

As boas perspectivas do e-commerce não estão restritas a quem está no mercado de capitais. Nessa seara, duas empresas são apontadas entre as que avançaram nesse período de crise e podem ganhar ainda mais escala: iFood e Rappi.

Na avaliação dos analistas, as duas, no entanto, escolheram caminhos distintos. Enquanto o iFood decidiu se concentrar mais em dar tração ao seu negócio principal, o delivery de comida, a Rappi está ampliando sua oferta em diversas categorias, em direção à consolidação do modelo de superapp.

“A estratégia do iFood está muito mais em linha com os superapps asiáticos, de crescer primeiro em uma vertical e, depois, aproveitar sua base de usuários para expandir”, diz Trotta. “É uma escolha muito menos intensiva em queima de caixa e mais eficiente que a Rappi.”

Ele ressalta, porém, que a dupla deve ganhar, em breve, a concorrência pesada do Facebook. “Eles vêm reforçando a ideia de integrar o Facebook com o Instagram, o WhatsApp e ofertas de e-commerce e de pagamento”, diz. “Se a empresa, de fato, entrar nessa briga, ela supera qualquer outro player no Brasil.”

Mesmo sob esse cenário, Macruz entende, por sua vez, que é cedo para eleger quem mais se beneficiará no jogo do e-commerce brasileiro. “O mercado vai ter crescimento para todas essas empresas”, diz. “Temos muito avanço nos próximos anos antes de nos preocuparmos em escolher quem será o vencedor.”

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Apocalipse causado por coronavírus pode tornar o trabalho mais criativo e afetuoso

É melhor tirar proveito da pandemia para redesenhar nossa sociedade, diz Domenico De Masi

26.jun.2020 Domenico De Masi – Sociólogo italiano, é autor dos livros “Ócio Criativo” e “O Futuro do Trabalho”

[RESUMO] Imposto a milhões de pessoas em todo o mundo em decorrência da pandemia, modelo de home office pode significar o início de uma reorganização do trabalho e, de forma mais ampla, de nosso modelo sociopolítico, garantindo mais autonomia e criatividade para trabalhadores, mais produtividade para as empresas e um desenvolvimento mais igualitário da coletividade.

CISNE NEGRO, CISNE BRANCO

Em grego clássico, a palavra apocalipse não significa apenas destruição, mas também revelação de coisas ocultas. O que este apocalipse me revelou? Antes de tudo, revelou-me uma nova diferença entre os economistas e os sociólogos.

Quando não sabem explicar o inexplicável, os economistas recorrem à literatura. Adam Smith pegou emprestado de Shakespeare a ideia de “mão invisível” para creditar o equilíbrio do mercado. Nassim Nicholas Taleb tomou o cisne negro de Juvenal para explicar os eventos imprevisíveis, e os economistas roubaram sua ideia. 

O colapso de 1929 foi um cisne negro, assim como o de 2008, e, sobretudo, a Covid-19, mesmo que Taleb o negue.

Para os sociólogos, ao contrário, a pandemia atual representa um cisne branco, previsível e previsto, que veio confirmar as hipóteses muitas vezes propostas pela Escola de Frankfurt e pelo Clube de Roma, por Noam Chomsky, Zygmunt Bauman, Serge Latouche e por muitos outros que atribuem à sociologia a tarefa de assediar, criticar os regulamentos vigentes e indicar, para além desses, outros melhores.

Ainda em 2007, quando Taleb publicava “A Lógica do Cisne Negro”, Dominique Belpomme, um dos maiores especialistas em saúde ambiental do mundo, escrevia que há cinco cenários possíveis para o nosso desaparecimento: “o suicídio violento do planeta, por exemplo, uma guerra atômica; o aparecimento de doenças graves, como uma pandemia infecciosa ou uma esterilização, que levaria a um declínio demográfico irreversível; o esgotamento dos recursos naturais; a destruição da biodiversidade e, finalmente, as mudanças extremas em nosso meio ambiente, como o desaparecimento do ozônio estratosférico e o agravamento do efeito estufa”.

Neste ano bíblico de 2020, não felizes em experimentar uma pandemia infecciosa furiosa, continuamos indiferentes, visto que ainda destruímos a biodiversidade, esgotamos os recursos naturais, provocamos o desaparecimento do ozônio e agravamos o efeito estufa.

Diante do cataclismo histórico do coronavírus, tão assimétrico em relação à pequenez do morcego chinês que o desencadeou, o escritor italiano Sandro Veronesi insinuou que a Covid-19 não é um vírus, mas um anticorpo da natureza, que a natureza, destruída pelo homem, libertou contra o homem que a devasta. Em outras palavras, o verdadeiro vírus que a Terra pretende apagar de seu rosto seria justamente o homem, pois é ele quem reduz os rios a fossas, desmatando as florestas, queimando a Amazônia, poluindo o ar, aquecendo o planeta e ameaçando imprudentemente seu equilíbrio.

SEDE DE COCA-COLA

O comunismo sabia distribuir riqueza, porém não sabia produzi-la, enquanto o capitalismo sabe produzi-la, mas é incapaz de distribuí-la. No ano passado, o PIB do nosso planeta, para cuja produção contribuíram bilhões de trabalhadores, cresceu 3%. No entanto, 85% dessa imensa riqueza extra foi parar no bolso de apenas 1.200 pessoas.

Segundo a revista Forbes, as oito pessoas mais ricas do mundo têm a mesma riqueza de metade da humanidade, o que corresponde a 3,6 bilhões de pessoas.

Essa desproporção é provocada por um modelo socioeconômico neoliberal no qual a economia emprega a política para seus próprios interesses. O rabo das finanças move o cão da economia, as agências de classificação abrem caminhos para as finanças.

E esse moedor de carne tritura, reduzindo-os a resíduos humanos, todos aqueles que se tornam supérfluos para seu funcionamento ou que obstruem sua marcha insensata em direção a uma meta econômica que se desloca incansavelmente para frente, como uma miragem.

Segundo o sociólogo francês Serge Latouche, tal dinâmica é causada pela ação inteligentemente combinada de cinco fatores: a publicidade que nos leva aos consumos desnecessários, manipulando nossas necessidades; os bancos que nos levam ao endividamento para satisfazê-los; as dívidas que nos forçam a trabalhar mais para pagá-las; a vaidade que nos leva a ostentar coisas compradas como símbolo de status; a obsolescência dos bens, tornada intencionalmente mais rápida para acelerar a dinâmica do mercado.

É graças a essa paranoia induzida que são alcançados os resultados paradoxais: ter sede, agora, significa ter sede de Coca-Cola; depois de termos inventado um material indestrutível como o plástico, usamo-lo para objetos de uso único; uma pequena minoria da população mundial enriquece fazendo com que as classes menos favorecidas e as gerações futuras paguem o preço pela destruição do ecossistema.

Para escaparmos dessas garras, Ivan Illich, fundador do Centro Intercultural de Documentação em Cuernavaca, México, sugeriu que aprendêssemos com a sabedoria do caracol, o qual ele nos oferece como metáfora.

O caracol constrói sua concha adicionando pacientemente, uma após a outra, espirais cada vez mais largas. Alcançado um certo ponto, ele instintivamente percebe que, se desse uma única volta, a concha se tornaria tão pesada que superaria a força física necessária para carregá-la.

Então, o caracol inverte a marcha e começa a construir espirais cada vez mais estreitas, dando à sua concha a bela forma que é conhecida por nós. A pandemia produzida pelo coronavírus se projeta como uma imensa narrativa planetária dessa metáfora.

DESENVOLVIMENTO SEM TRABALHO

Abaixo e dentro da díade produção-consumo, há o trabalho que confere valor a ambos. Ao longo de todos os milênios da sociedade rural, prever tarefas cansativas e trabalhar para os outros eram consideradas condições desonrosas.

Segundo Aristóteles, “só é perfeito o cidadão livre das tarefas necessárias, as quais são feitas por escravos, artesãos e trabalhadores”. Cícero acrescenta: “A condição salarial é sempre sórdida e indigna de um homem livre”.

Locke, Smith, Marx e, em seguida, a sociedade industrial, que durou de meados do século 18 a meados do século 20, colocaram, pela primeira vez na história da humanidade, o trabalho livre no centro do sistema social, tornando-o motor da economia e a própria essência do homem.

Mas, em 1958, a filósofa alemã Hannah Arendt se questionava: “O que acontece em uma sociedade fundada no trabalho quando o trabalho vem a faltar?”.

Antes da pandemia, os empregos entravam em colapso de tempos em tempos, abruptamente, devido aos ciclos depressivos da economia, mas também diminuíam constantemente, porque o homem, desde sempre, tentava descarregar seu cansaço nas máquinas: rápidas, precisas, que não entram em greve e não precisam de pausas.

Durante os 200 anos da sociedade industrial, as máquinas mecânicas e eletromecânicas substituíram uma parte considerável do trabalho dos operários. A partir do período do pós-guerra, a sociedade pós-industrial começou a substituir trabalhadores por robôs e funcionários por computadores.

Por fim, a inteligência artificial está substituindo grande parte do trabalho que acolhe as atividades criativas. Em outras palavras, antes da pandemia, aprendíamos a produzir cada vez mais bens e serviços com cada vez menos trabalho humano, ou seja, aprendíamos a resolver o problema econômico.

Essa era a situação do trabalho e da produção nos últimos meses de 2019. Na era pré-histórica, que remonta a quatro meses atrás, discutia-se esse fenômeno, que chamamos de “jobless growth” (crescimento sem emprego) e que muitos economistas insistiram em negar, afirmando, contra todas as evidências, que as novas tecnologias criariam mais trabalho do que destruiriam.

No entanto, o mais inteligente deles, John Maynard Keynes, com uma perspicácia humanística e sociológica, antes mesmo que econômica, já havia escrito, em 1930, que “o desemprego devido à descoberta de instrumentos poupadores de mão de obra avança com ritmo mais rápido que a nossa capacidade de encontrar novos empregos para a mesma mão de obra. Mas essa é apenas uma fase de desequilíbrio transitória. De fato, visto em perspectiva, isso significa que a humanidade está resolvendo seu problema econômico”.

À espera de que tudo possa ser concentrado nas máquinas, “o pouco trabalho que resta ainda é distribuído entre o maior número possível de pessoas. Turnos de três horas e semana de 15 horas de trabalho podem manter o problema sob controle por um bom período”. Em suma, trabalhar pouco, para que todos possam trabalhar.

Nesse ponto, “pela primeira vez desde sua criação, o homem se encontrará diante de seu maior e mais constante problema: como usar o tempo livre que a ciência e o juro composto terão retirado dele, para que possa viver bem, agradavelmente e com sabedoria”.

De 1930 até hoje, o progresso tecnológico abriu caminho para as máquinas! Como se sabe, de acordo com a Lei de Moore, o poder de um microprocessador dobra a cada 18 meses. Hoje. um chip é cerca de 70 bilhões de vezes mais potente de que quando foi inventado, e em dez anos será centenas de bilhões de vezes mais potente que hoje.

O século 21 será marcado pela engenharia genética com a qual conseguiremos vencer muitas doenças, pela inteligência artificial com a qual poderemos substituir muito trabalho intelectual, pelas nanotecnologias com as quais os objetos se relacionarão entre si e conosco, a partir de impressoras 3D com as quais poderemos produzir muitos objetos em casa.Whatsapp

No entanto, por mais intrusivas que sejam, as tecnologias jamais serão capazes de despojar o homem das atividades criativas, estéticas, éticas, colaborativas, críticas e de resolução de problemas.

“SMART WORKING”

Tomemos o caso da Itália: há 130 anos, havia apenas 40 milhões de italianos, e apenas em um ano trabalharam 70 bilhões de horas —principalmente em serviços físicos, realizados por trabalhadores que manipulavam matérias-primas usando fornos imensos e linhas de montagem.

Hoje 60 milhões de italianos trabalham 40 bilhões de horas e, no entanto, produzem infinitamente mais. Além disso, hoje o trabalho é principalmente intelectual, realizado por empregados, funcionários, empresários e profissionais que manipulam informações, usando um minúsculo laptop. Algo semelhante também aconteceu no Brasil.

Graças à internet, as informações podem ser transferidas de um extremo a outro do planeta em tempo real e a custos insignificantes. A internet completou 50 anos, a web, 30, o Instagram, apenas dez. Uma geração de “digitais” cresceu com eles, substituindo a geração de “analógicos”, e a “nuvem” informática transformou o mundo inteiro em um único agora: podemos teleaprender, telenegociar, teledivertir, teleamar.

E teletrabalhar. Tudo o que precisamos é de um smartphone para operar remotamente onde for mais cômodo para nós, conectados telematicamente com chefes, colegas, colaboradores, clientes e fornecedores.

A história do “smart working” representa um caso emblemático da relação entre organizações e inovações. Antes da pandemia, todo o mundo fazia teletrabalho, mas só informalmente. Era apenas necessário pôr a orelha à escuta, quando se estava no trem, no avião, na rua ou em um local público para ouvir pessoas que, em seus celulares, conversavam sobre trabalho, consultavam-se, davam ou recebiam ordens.

Talvez não soubessem, mas estavam fazendo smart working. No nível formal e contratual, no entanto, as gerências das empresas resistiam obstinadamente à introdução do trabalho ágil, e os sindicatos, coniventes, não lutaram para obtê-lo.

Entretanto, as vantagens teriam sido muitas e notáveis. Para os trabalhadores, a possibilidade de autorregular tempos, locais e ritmos ​​aumentaria com a autonomia; a separação entre trabalho e vida teria sido reduzida; as condições de trabalho e a gestão da vida familiar e social teriam melhorado; tempo, cansaço, despesa e riscos de deslocamento seriam economizados.

Para as empresas, a produtividade teria aumentado de 15% a 20% e, ao mesmo tempo, o absenteísmo, a rotatividade, o microconflito, as despesas com imóveis e serviços teriam diminuído.

Para a coletividade, o deslocamento, a poluição e os gastos com manutenção de estradas teriam sido reduzidos; as áreas superlotadas teriam sido descongestionadas; empregos teriam sido levados para regiões periféricas, isoladas ou sem perspectivas; o trabalho seria estendido para donas de casa e inválidos.

Na Itália, no Brasil, em todo o mundo, antes do início da pandemia, apenas pouquíssimos trabalhadores operavam remotamente. Depois, em uma semana, sob o chicote do coronavírus, o número de “smart workers” (trabalhadores inteligentes) ultrapassou 200 milhões. Já em 2 de fevereiro, o Daily Herald, de Chicago, publicou um longo artigo com o título: “O coronavírus compele ao mais vasto experimento de teletrabalho no mundo”.

Acima de 200 milhões de trabalhadores, há pelo menos 20 milhões de chefes que, devido a uma resistência obtusa às mudanças e de acordo com sua concepção arcaica de poder, dificultaram o smart working, roubando, por muitos anos, de seus colaboradores uma vida mais equilibrada, de suas cidades, uma convivência mais limpa, de suas empresas, uma maior produtividade.

Uma vez cessada a pandemia, esses mesmos 20 milhões de chefes irão conspirar, de todas as formas, para trazerem os funcionários de volta para a empresa, com o objetivo de restaurar completamente seu poder mórbido.

TRABALHO ONÍVORO

Durante os últimos dois séculos, tanto na Itália como no Brasil, trabalhamos cada vez menos, mas, graças à tecnologia e à globalização, produzimos cada vez mais.

Neste ano, devido à pandemia, a produção e o consumo pararam simultaneamente. Como se por magia, mesmo em regiões distantes do contágio, milhões de pessoas que antes viviam quase apenas para produzir e consumir foram subitamente forçadas pela angústia e pelos decretos de lei a parar.

Muitas não conseguiram parar. Sua existência se identificava de maneira muito consubstancial com o trabalho. Nem mesmo o medo da morte as impediu de abandonar fábricas ou escritórios —algumas, para não sucumbirem à concorrência; outras, por horror à inércia; outras ainda, por um sentido calvinista de dever. E, também, aquelas forçadas pelos empregadores e pela fome.

Nas regiões italianas mais ricas e afetadas pela pandemia, as vítimas não foram cremadas em tempo, mas a dois passos dos hospitais e dos cemitérios empresas produtoras de armas insistiam em não interromper a produção desses instrumentos de morte.

Milhares de empresas foram as últimas a fechar e, imediatamente depois, seus lobbies começaram a pressionar para reabrirem o mais rápido possível. Foi assim que começou o cabo de guerra: de um lado, virologistas e sindicatos optaram pela prudência em nome da saúde; do outro, os empreendedores tentavam reabrir as empresas em nome da economia. No final, os empresários venceram.

COMO CHUVA DE GRANIZO NA COLHEITA

A queda vertical e repentina da demanda e da oferta esfriou os mercados, bloqueando a marcha triunfante do PIB mundial, acostumado a crescer de 3 a 5% ao ano.

Na Itália, neste ano, a taxa de déficit em relação ao PIB chegará a 10%, em comparação aos 2,2% estimados antes do coronavírus, e a dívida chegará de 155% a 160% do PIB. No Brasil, não acredito que será melhor.

Muitas pequenas e médias empresas, que já estavam nos limites da manutenção antes da pandemia, agora correm risco de extinção. Milhões de trabalhadores, que até então viviam de redes informais e familiares, agora estão desprovidos de paraquedas.

O desemprego atribuível à longa onda de progresso tecnológico —incorporada, de 2008 em diante, à curta onda da crise econômica— explodiu, com a súbita chegada da Covid-19, na Itália, no Brasil e também nos Estados Unidos.

Segundo a Oxfam, haverá meio bilhão a mais de pessoas pobres no mundo e um retrocesso de 30 anos na luta contra a pobreza absoluta. Na Itália, em três meses, os pobres passaram de 5 milhões para 10 milhões.

Com a produção e o consumo entrando em colapso simultaneamente, em apenas dois meses todos ficamos mais pobres, como camponeses que perderam a colheita para a chuva de granizo, e por mais que possam blasfemar contra Deus ou contra o Diabo, ninguém jamais lhes devolverá a colheita.

Muitas vezes ouvimos a comparação da pandemia do novo coronavírus com uma guerra, mas a guerra destrói homens e coisas, enquanto a pandemia deixa as coisas ilesas e mais espaço para os sobreviventes.

Em relação há 75 anos, quando a Segunda Guerra Mundial terminou, nós, italianos, não tivemos que reconstruir as fábricas: bastou reabri-las. Embora, porém, a libertação do fascismo e da guerra tenha levado a um desejo entusiasta de reconstrução das casas, das fábricas e da economia por meio do sacrifício.

Hoje, todos —empresários, trabalhadores, desempregados, sindicatos— de repente se tornaram keynesianos e invocam subsídios, anistias, prazos, auxílios e amortecedores dos governos nacionais e europeu, que, entretanto, também se tornaram mais pobres.

A ÚLTIMA ESPIRAL

Com sua linguagem lúgubre, a Covid-19 nos alertou que, antes da pandemia, havíamos alcançado a última e maior espiral do caracol: se ousarmos construir uma ainda maior, insistindo nos mesmos erros, seremos esmagados sob nossa própria construção.

Portanto, aconselhou-nos a redesenhar nosso modelo sociopolítico e, antes de tudo, o trabalho que representa seu elemento fundamental e que deve ser libertado de todas as incrustações paradoxais acumuladas nos 200 anos de gloriosa, porém imperfeita, história industrial.

Isso implica uma revolução estrutural e cultural. A estrutural deve começar modificando a Constituição, que não pode mais alavancar o trabalho, a partir do momento que ele cobre apenas um décimo de nossas vidas. Portanto, a democracia não pode ser fundada apenas nesse décimo.

Em uma sociedade em que, para a maioria dos cidadãos, o trabalho está destinado a perder quantidade e centralidade, ao lado dele emergem outros pilares do sistema democrático, todos inscritos na esfera do não trabalho, que inclui formação, introspecção, amizade, amor, diversão, beleza e convívio.

Também inclui um modelo de família em que os idosos não são alojados nos hospícios, como acontece nas áreas mais ricas da Itália —e, no caso de uma pandemia, metade deles não deve ser imolada pelo egoísmo dos filhos, possuídos pelo demônio do trabalho.

Se hoje os pais trabalham dez horas por dia e, também por esse motivo, os filhos permanecem desempregados, é necessário também redistribuir igualmente, com o pouco trabalho que resta, riquezas, poderes, conhecimentos, oportunidades e proteções.

Se o trabalho não for redistribuído, mesmo recorrendo à escamoteação dos contratos de solidariedade, um número crescente de desempregados e de Neet (termo em inglês para jovens fora do mercado) será forçado a consumir sem produzir. A consequência disso será uma estagnação econômica e um aumento ininterrupto dos conflitos sociais.

A natureza intermitente do trabalho, inerente à sua natureza pós-industrial, torna necessário preencher as fases de vazio ocupacional com uma renda universal razoável, enquanto será necessário garantir, a qualquer pessoa que trabalhe, um salário mínimo constantemente atualizado com base no aumento da produtividade.

Essa revolução estrutural deve ser acompanhada por uma cultural que possa partir precisamente das recomendações que Keynes deu a seus netos, nossos contemporâneos: “Precisamos ter a coragem de atribuir à motivação ‘dinheiro’ o seu verdadeiro valor. O amor ao dinheiro como posse, e distinto do amor ao dinheiro como meio para desfrutar os prazeres da vida, será reconhecido por aquilo que é: uma paixão mórbida, um pouco repulsiva, uma daquelas tendências meio-criminais e meio-patológicas que geralmente são transmitidas com um calafrio ao especialista de doenças mentais”.

Depois, devemos condenar a ganância com a qual todas as agências de socialização —a família, a escola, a mídia— se esforçam para focar a educação dos jovens apenas no trabalho, e não voltada à vida inteira.

Até agora, o trabalho, valorizando principalmente a força física e a esfera racional das pessoas, criou um mundo competitivo, todo masculino, separado da esfera dos amigos e da família.

A partir de agora, será necessário recompor profissão e vida, valorizando com o “smart working” a desestruturação espaço-temporal do trabalho; encorajando a irrupção da emoção, da fantasia e da afetividade na esfera produtiva; garantindo uma igualdade de gênero concreta, um respeito seguro às diversidades, um crescimento cultural dos indivíduos e de toda a comunidade para cuja administração o município, a escola e as empresas contribuem.

Empreendedores e empresários, propensos a se trancar nas empresas, devem ser incentivados à exploração do contexto social, orientados a conjugar o trabalho com a vida, motivados a cultivar a ética e a estética.

A partir momento que a delegação do trabalho às máquinas e à inteligência artificial oferecer ao homem atividades cada vez mais criativas, na organização do trabalho será necessário concentrar-se na motivação muito mais que no controle, na autonomia e não na burocracia, no mérito e não em alianças, na liderança participativa e não autoritária, na emulação de solidariedade e não na competitividade sem sentido.

O coronavírus é uma terrível calamidade; inútil dizer que teria sido infinitamente melhor se jamais tivesse aparecido. Porém, visto que está causando danos, é melhor tirar proveito deles para mudar algo em direção ao significado e à organização do trabalho.

No entanto, os que conduziam as danças, quando entramos no túnel, são os mesmos que as conduzirão, quando sairmos dele. Isso torna improvável qualquer renascimento.

Em um muro de Madrid, cidade também violentada pela pandemia, uma mão guiada pelo otimismo da vontade escreveu: “No volveremos a la normalidad porque la normalidad era el problema”. Mas nada nos assegura que não voltaremos.


Tradução de Davi Pessoa.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/06/apocalipse-causado-por-coronavirus-pode-tornar-o-trabalho-mais-criativo-e-afetuoso.shtml

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