Um novo polo de tecnologia desponta na América do Sul, impulsionado por energia limpa e uma aposta ambiciosa em inovação

Isabelle Miranda – Money Times – 14 out 2025

O Paraguai quer se reinventar como potência tecnológica, atraindo big techs e startups com energia 100% limpa, impostos baixos e um novo ecossistema de inovação

O Paraguai pode parecer um protagonista improvável na corrida global por tecnologia, mas o país vizinho começa a chamar atenção de investidores e gigantes do setor. O motivo? Um recurso que o mundo inteiro deseja — e que o Brasil ainda não consegue oferecer na mesma escala: energia limpa, barata e abundante.

No comando dessa transformação está Gabriela Cibils, engenheira paraguaia formada em computação e neurociência pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. Após quase uma década no Vale do Silício, atuando em startups americanas, ela decidiu voltar ao país natal para ajudar a erguer um ecossistema de inovação do zero.

Hoje, Cibils é sócia da Cibersons, empresa de tecnologia e investimentos com sede em Assunção, e uma das vozes mais influentes do movimento que quer transformar o Paraguai em um hub tecnológico regional. “Depois de ver de perto o impacto da tecnologia no Vale do Silício, senti que era minha responsabilidade trazer essa mentalidade para casa”, afirmou.

Energia limpa e barata: o trunfo paraguaio

Enquanto muitos países sonham em desenvolver um setor de tecnologia competitivo, o Paraguai tem uma vantagem rara: quase 100% da sua energia vem de fontes hidrelétricas.

O coração dessa força está em Itaipu, uma das maiores usinas hidrelétricas do planeta, localizada na fronteira com o Brasil. O complexo gera cerca de 90% da eletricidade consumida no Paraguai e 10% da brasileira — o que torna o país um dos maiores exportadores de energia renovável do mundo.

Esse excedente energético reduz drasticamente os custos locais de eletricidade, os mais baixos da América do Sul — um atrativo poderoso para empresas que operam data centers e estruturas de inteligência artificial, setores de alto consumo energético.

“Para quem quer instalar um data center de IA, a energia hidrelétrica do Paraguai é um diferencial competitivo — ela é renovável, estável e constante, ao contrário da solar ou eólica”, explica o desenvolvedor de software Sebastián Ortiz-Chamorro, à BBC.

Governo quer atrair gigantes da tecnologia

O presidente Santiago Peña tem buscado aproximação com grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos, incluindo o Google e outras big techs, para discutir possíveis investimentos.

Segundo o ministro da Tecnologia e Comunicação, Gustavo Villate, o país reúne condições estratégicas: população jovem (idade média de 27 anos), energia limpa, impostos baixos e estabilidade econômica.

O governo está desenvolvendo um Parque Digital próximo ao aeroporto de Assunção, com investimento inicial estimado em US$ 20 milhões. O espaço abrigará empresas privadas, uma universidade de tecnologia em parceria com Taiwan e infraestrutura voltada a startups.

“O que queremos é um ecossistema integrado entre governo, empresas e universidades”, disse Villate disse à BBC. “Esse é o ponto-chave para atrair investidores estrangeiros.”

A formação de mão de obra é outro pilar da estratégia. De acordo com Vanessa Cañete, presidente da Câmara Paraguaia da Indústria de Software, o país vem ampliando programas de capacitação para engenheiros, programadores e desenvolvedores.

Cañete também é fundadora da ONG Girls Code, que oferece oficinas de programação e robótica para meninas e jovens mulheres. Desde 2017, mais de 1.000 alunas já participaram dos cursos.

Apesar do entusiasmo, os desafios persistem. Cibils reconhece que o país ainda enfrenta burocracia e lentidão contratual, fatores que podem afastar investidores acostumados a ambientes mais ágeis.

Mesmo assim, ela se mantém otimista: “Se colocarmos a inovação no centro e aproveitarmos os benefícios que já temos, o Paraguai pode se tornar uma superpotência tecnológica.”

Por Isabelle Miranda

Repórter

Jornalista com especialização em Gestão de Mídias Digitais. Atua como repórter nos portais de notícias Money Times e Seu Dinheiro.

isabelle.miranda@seudinheiro.com

Um novo polo de tecnologia desponta na América do Sul, impulsionado por energia limpa e uma aposta ambiciosa em inovação – Money Times

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5 lições inspiradoras das campeãs da inovação de 2025

Agora é momento certo para sua organização adaptar essas lições e dar mais passos em direção à transformação do negócio

Por Luiz Serafim – Época Negócios – 14/10/2025 

Escritor e músico, com experiência de 30 anos como líder de marketing, inovação e diretor de Comunicação da 3M

Prêmios de inovação trazem uma contribuição mais preciosa do que simplesmente anunciar um ranking de empresas inovadoras. Funcionam como um registro histórico do tempo presente, uma espécie de checkup da vitalidade empresarial, reunindo sinais de como a inovação está sendo desenvolvida, aplicada e percebida.

O Prêmio Valor Inovação Brasil é o mais prestigiado reconhecimento de inovação empresarial do Brasil, e sua 11ª edição aconteceu no último mês de agosto. Tive o privilégio de ser um dos 3 especialistas convidados a colaborar com as avaliações de 2025.

Convido os leitores a descobrirem como a inovação está sendo cultivada e priorizada pelo empresariado. Boa parte dos projetos atuais giram em torno de aplicações de IA para produtividade. Sinal dos tempos em que vivemos. Quase lembrei do álbum de 1994 do cantor Falcão chamado “O dinheiro não é tudo, mas é 100%”. Adaptando o mote para as atuais cozinhas da inovação, ficaria “A IA não é tudo, mas é quase 100%”.

Felizmente, ainda há espaço para inovações em produtos e serviços, modelos de negócio, desenhos organizacionais, captura de valor e experiência do cliente, sem ter a IA como única protagonista. Para a felicidade geral da nação e do planeta, a inovação não está sendo avaliada só em função de eficiência e digitalização, mas também pela adoção de práticas sustentáveis. Uma notícia reconfortante!

A premiação foi abrangente ao avaliar 264 organizações que atuam em 25 segmentos de mercado. Não dá para resumir num único artigo todas as boas práticas compartilhadas, mas selecionei as principais inspirações das 10 empresas mais inovadoras de 2025.

Ecossistemas de inovação

As campeãs brasileiras cultivam fortes relações com ecossistemas de inovação. A iniciativa Natura Campus, da líder do ranking, começou em 2009 e realizou 45 parcerias junto à comunidade científica em 2024. O Natura Startups, mais recente, reuniu 69 empresas com foco em biotecnologia e bioeconomia e realizou 73 projetos de inovação. Esse projeto foi responsável por grande parte dos 267 produtos lançados em 2024. Enquanto isso, o fundo Natura Ventures impulsionou a plataforma de serviços de beleza e bem-estar Bluma.

A Wayra, fundo de corporate venture capital da Vivo, foca nas startups brasileiras desde 2012. Seu investimento na Beegol gerou a implantação de um novo sistema de monitoramento nos modems instalados nas casas de mais de 7 milhões de clientes Vivo Fibra. Já a Vivo Ventures é o braço que investe em empresas maduras como a Klubi (consórcio), a Agrolend (fintech) e a Conexa (telemedicina).

O Einstein Hospital Israelista participa da rede Emprapii, nutre parceria com o Ministério da Saúde, tem um laboratório de design, um centro de inovação e tecnologia (CITS), o fundo de investimento Arava e a aceleradora Eretz.bio, que aposta atualmente em 42 startups.

O Grupo Boticário tem parcerias com USP, MIT, Einstein, Senai, CESAR, Embrapii e diversas startups, contando com programas de aceleração e aportes do fundo GBV. Na CNH Industrial, parcerias com PUC-PR, Unicamp, Agricef e startups como SaveFarm e Bem Agro impulsionam o desenvolvimento de tecnologias para o campo e construção civil.

Uso de tecnologias emergentes

Tecnologia sempre é um dos maiores vetores de transformação, e as organizações mais inovadoras priorizam essa dimensão em suas estratégias. Vice-líder do ranking 2025, o Einstein vem investindo em IA, genômica, telemedicina e plataformas digitais para transformar a experiência do paciente e ampliar o acesso à saúde. Desde 2016, tem uma área de Big Data e Analytics; seus esforços em IA disponibilizam 120 algoritmos para melhorar a gestão hospitalar.

Os drones e plataformas digitais da Eletrobrás auxiliam na manutenção de linhas de transmissão e na previsão de eventos climáticos extremos. Na Embraer, a plataforma SmartPlanning, baseada em IA, otimiza a gestão de materiais e estoques, enquanto o projeto eVTOL — veículo elétrico de decolagem vertical — tocado pela spin-off Eve Air pensa a mobilidade aérea urbana com tecnologias de ponta.

A Vivo explora digital twins, IA para otimização de rede e monitoramento proativo de modems; a WEG integra sensores e IA para manutenção preditiva de máquinas; a CNH investe em conectividade rural com a Starlink, e em plataformas digitais como o FieldOps, que integram IA para gestão de frotas; a Energisa usa algoritmos para prever padrões irregulares de consumo e o momento de fazer a manutenção e substituição de equipamentos.

Recursos para inovação

A consolidação de equipes, recursos financeiros, processos e laboratórios de inovação permite transformar oportunidades em soluções tangíveis. A Embraer investe 5% do seu faturamento em P&D, tem mais de 800 patentes registradas e trouxe como destaque para essa edição seu “laboratório voador” — a Plataforma Demonstradora de Novas Tecnologias (PDNT) —, um exemplo de como testar tecnologias emergentes, como propulsão híbrida, materiais avançados e pilotagem autônoma com agilidade e segurança.

O Boticário, além de contar com 400 profissionais em P&D, fez saltar de 200 para 3 mil o número de funcionários na área de TI, evidenciando um redesenho organizacional ambicioso para transformar a organização em uma beauty tech.

A Weg investe cerca de 2,8% da receita operacional líquida em P&D; a Eletrobrás centralizou a operação de monitoramento de ativos e dados climáticos em um único centro, reunindo meteorologistas, cientistas de dados e profissionais de operação para otimizar a gestão de suas hidrelétricas e linhas de transmissão, enquanto a Petrobras tem mil pesquisadores atuando em 116 laboratórios no seu centro de pesquisas (Cenpes).

Inovação sustentável

As líderes do ranking nacional entendem que inovação e sustentabilidade caminham juntas. Na Natura, a criação da plataforma Amazônia 5.0 — integrando tecnologias ômicas, machine learning e bioinformática — levou à descoberta de 46 bioingredientes com origem na sociobiodiversidade regional, colaborando para preservar mais de 2 milhões de hectares.

A Petrobras aloca o montante de US$ 1 bilhão para projetos de “baixo carbono”, englobando pesquisas de fontes de energia renovável como biodiesel, biometano, etanol, eólica, solar e hidrogênio, além de captura e armazenamento de carbono.

A CNH aplica tecnologia em seus equipamentos pulverizadores, reduzindo em mais de 80% o uso de herbicidas, além de trabalhar no desenvolvimento de máquinas movidas a etanol. A WEG desenvolve motores industriais mais eficientes, focando em eficiência energética e redução de emissões. Já a Energisa estuda as possibilidades de serviço alinhadadas ao avanço de fontes variáveis de energia.

E o Grupo Boticário traz um sopro novo e necessário, aplicando inovação e tecnologia voltadas à diversidade e inclusão: a empresa criou o primeiro “batom inteligente” que, junto com os pincéis acessíveis da marca Make B, refletem a responsabilidade social no negócio.

Inovação guiada por propósito e cultura

Empresas maduras em inovação apostam na evolução constante de sua cultura, derrubando barreiras, investindo em aprendizagem, colaboração e mentalidade de crescimento. Como o Boticário, a Embraer envolve mais de 20 mil funcionários nos processos de inovação por meio do programa “Embaixadores da Inovação”.

Já a Vivo aposta no programa Shapers, que atua como catalisador de novos negócios e soluções digitais, mostrando que propósito e cultura caminham lado a lado na construção de ambientes propícios à inovação.

Na WEG, a empresa estimula todos os colaboradores a contribuírem com ideias, conectando ganhos de lucros à participação nos resultados. A companhia criou também um programa para formar profissionais capacitados a desenvolver soluções com IA, além de investir em programas de intercâmbio com fábricas de outros países.

Resultados e impacto

Em um ambiente de negócios com atenção geral redobrada para a geração de resultados pela inovação, as campeãs de 2025 têm uma visão pragmática que prioriza programas estratégicos, mensuráveis, capazes de contribuir para seu presente e futuro.

No Boticário, 27% das vendas totais de 2024 vieram de produtos lançados nos últimos 12 meses, com a média de 5 mil novos itens introduzidos anualmente. A WEG obteve 55% de seu faturamento com produtos lançados nos últimos cinco anos, e alcança reduções significativas de custo com projetos da industria 4.0.

A Vivo transformou novos negócios digitais em 11% da receita, com projetos que vão de serviços B2B a soluções para o consumidor final, gerando R$ 130 milhões via startups conectadas. Estes resultados comprovam que a inovação, quando alinhada a propósito, estrutura, tecnologia e parcerias, cria impacto real.

Como sempre defendo como professor, palestrante e consultor, Inovação é fruto de um sistema influenciado por múltiplos ingredientes. Nesse artigo, compartilhei algumas das inspirações das Top 10 empresas mais inovadoras do Prêmio Valor Inovação Brasil 2025: estratégia; recursos alinhados; conexão com ecossistemas; desenvolvimento de tecnologias; cultura em constante evolução; visão sustentável e foco em resultados.

Agora é momento certo para sua organização adaptar essas lições e dar mais passos em direção à transformação do negócio. Mãos à obra!

5 lições inspiradoras das campeãs da inovação de 2025 | O Poder da Inovação | Época NEGÓCIOS

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O colapso da economia do conteúdo na internet

  • Mudança de buscadores para ‘respondedores’ transforma economia da internet e valoriza conteúdos de nicho
  • Equipes em Hollywood caem enquanto geradores de vídeo como Sora 2 produzem conteúdo profissional

Ronaldo Lemos – Folha – 12.out.2025 

O jornal WSJ relatou há pouco a crise de Hollywood, umas das indústrias até então mais pujantes do planeta. A ocupação dos estúdios de gravação ficava estável em 95% nas últimas décadas. Nos últimos meses caiu para 62%. O mesmo vale para a procura por figurinistas, animadores, cenaristas, câmeras etc.

Profissionais de Los Angeles que trabalhavam sem parar agora esperam meses por outra oportunidade. Vários já consideram empregos em supermercados ou como motoristas.

As razões são várias. Uma é que Hollywood passou a priorizar poucas produções caras (blockbusters) em detrimento de um fluxo constante. Outra é a concorrência com o Netflix, que internacionalizou sua produção.

Mas o fator determinante que pode transformar Los Angeles em “Los Fantasmas” é a inteligência artificial. Geradores de vídeo como o Veo3 ou o Sora 2 conseguem produzir hoje conteúdo de qualidade profissional sem estúdios ou câmeras. O Sora 2 da OpenAI foi baixado por 1 milhão de pessoas em 5 dias (mesmo sendo acessível só por convite), superando a curva de adoção do ChatGPT.

Cada pessoa que baixa o aplicativo é um concorrente potencial dos estúdios. Vimos isso no Brasil com a Marisa Maiô. A apresentadora de TV criada com IA por Raony Phillips virou garota propaganda do Magalu, Tim, OLX e outras marcas. Raony cria os vídeos da apresentadora trabalhando sozinho em Maricá no Rio com o Veo3.

Mas o colapso é maior. O cataclisma está acontecendo mesmo na internet. Até agora, o motor econômico para criadores era ser indexado pelo Google. O buscador listava links, que por sua vez geravam tráfego para os criadores, que se remuneravam com os acessos.

Esse modelo caiu com a IA. Cada vez mais pessoas fazem buscas usando inteligência artificial. Buscas que retornam respostas prontas, que praticamente não geram tráfego nem cliques. Estamos mudando de um modelo de buscadores para um de “respondedores”.

Isso já acontece no próprio Google. Antes de apresentar a lista de links, o Google agora apresenta no topo uma resposta gerada por IA. Essa resposta geralmente é satisfatória para o usuário, que não clica em mais nada.

A repercussão é gigantesca e gera perdedores e vencedores. Os perdedores são aqueles que produzem conteúdo geral. Os vencedores, aqueles que criam conteúdos específicos, de nicho e granulares. Isso é visível comparando os valores recebidos pelo Reddit e pelo New York Times ao licenciar seu conteúdo para empresas de IA. Para cada dólar pago por um token (quantidade de informação) do New York Times, o Reddit recebeu 7 vezes mais.

A razão é que o Reddit tem conteúdos muito específicos, obscuros e nichados. As empresas de IA estão sedentas por especificidade. Nessa perspectiva, escrever críticas dos restaurantes de Araguari torna-se mais valioso do que avaliar os restaurantes mais badalados de São Paulo.

E claro, há também pactos fáusticos. Aparecer listado no Google significa aceitar que o conteúdo aberto na rede seja usado para treinar IA. Quem quiser impedir isso, bloqueando os robôs de IA, sai também da indexação nas buscas.

Essas transformações estão só no começo. Haverá próximos capítulos.

Já era – empresas de tecnologia criando principalmente software

Já é – empresas de tecnologia construindo infraestrutura física

Já vem – empresas de tecnologia virando empresas de energia

O colapso da economia do conteúdo na internet – 12/10/2025 – Ronaldo Lemos – Folha

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Energia das ondas se transforma em eletricidade no porto de Los Angeles

  • Projeto usa estruturas com remos para gerar energia elétrica com movimento do mar
  • Instalação teria capacidade para abastecer 60 mil residências

Romain Fonsegrives – Folha – 6.set.2025 

San Pedro (EUA) | AFP

Remos azuis flutuantes dançam sobre as ondas que banham um cais no porto de Los Angeles, nos EUA, convertendo silenciosamente a energia do mar em eletricidade utilizável.

Esta inovadora instalação poderia ser uma das chaves para acelerar a transição para o abandono dos combustíveis fósseis, necessária segundo os cientistas para que o mundo evite os piores efeitos das mudanças climáticas.

“O projeto é muito simples e fácil”, afirmou Inna Braverman, cofundadora da startup israelense Eco Wave Power.

Com uma aparência semelhante às teclas de um piano, os flutuadores sobem e descem com cada onda. Estão conectados a pistões hidráulicos que impulsionam um fluido biodegradável através de tubulações até um contêiner cheio de acumuladores, que se assemelham a grandes tanques de mergulho vermelhos.

Ao liberar a pressão, gira uma turbina que gera corrente elétrica.

Se este projeto piloto convencer as autoridades californianas, Braverman espera cobrir a totalidade dos 13 quilômetros do quebra-mar que protege o porto com centenas de flutuadores que, em conjunto, produziriam eletricidade suficiente para abastecer 60 mil residências da região.

Os defensores desta tecnologia afirmam que a energia undimotriz, isto é, a obtida do movimento das ondas do mar, é infinitamente renovável e sempre confiável.

Diferentemente da energia solar, que não produz nada à noite, ou da energia eólica, que depende do clima, o mar está sempre em movimento. E há muito mar.

TECNOLOGIA ROBUSTA

As ondas da costa oeste dos Estados Unidos poderiam, em teoria, abastecer 130 milhões de residências, ou fornecer cerca de um terço da eletricidade que é consumida anualmente no país, segundo o Departamento de Energia dos EUA.

No entanto, a energia undimotriz continua sendo a parente pobre de outras energias renováveis mais conhecidas e não foi comercializada com sucesso em grande escala.

A história do setor está cheia de naufrágios empresariais e projetos afundados pela brutalidade do alto mar.

Desenvolver dispositivos suficientemente robustos para suportar a fúria das ondas, ao mesmo tempo em que transmitem eletricidade através de cabos submarinos até a costa, tem se mostrado uma tarefa impossível até agora.

“99% dos competidores optou por instalá-los no meio do oceano, onde é extremamente caro e se estragam constantemente, o que impede que as iniciativas prosperem”, afirmou Braverman.

Com seu dispositivo retrátil montado no cais, esta empreendedora acredita ter encontrado a solução. “Quando as ondas são altas demais para o sistema, os flutuadores simplesmente sobem até que a tempestade passe, evitando assim danos”, comentou.

O design parece atraente a Krish Thiagarajan Sharman, professor de engenharia mecânica na Universidade de Massachusetts Amherst, cujo laboratório está testando diversos equipamentos de energia undimotriz.

“O calcanhar de Aquiles da energia undimotriz está nos custos de manutenção e inspeção”, avaliou Sharman. “Por isso faz muito sentido ter um dispositivo perto da costa, onde se possa caminhar sobre um quebra-mar e inspecioná-lo”, acrescentou o especialista, que não está associado ao empreendimento de Braverman.

DEMANDA DE ENERGIA POR IA

A cofundadora da startup responsável pelo projeto já identificou dezenas de locais nos Estados Unidos que seriam aptos para projetos similares.

Seu empreendimento é anterior ao governo do presidente republicano Donald Trump, mas mesmo antes que o clima político em Washington se voltasse contra as energias renováveis, a Eco Wave Power já tinha o olhar voltado para além dos Estados Unidos.

Em Israel, até 100 residências no porto de Jaffa receberam energia das ondas desde dezembro. Para 2026, espera-se que 1.000 residências no Porto, em Portugal, tenham conexão à internet. E também há instalações previstas em Taiwan e Índia.

Braverman sonha com projetos de 20 megawatts (MW), uma capacidade para oferecer eletricidade a preços competitivos com a energia eólica. E, segundo afirmou, as instalações não prejudicarão a fauna local.

“O impacto ambiental é zero. Nos conectamos a estruturas artificiais existentes, que já alteram o meio ambiente”, comentou.

Promessas como esta repercutem na Califórnia, onde a Comissão de Energia destacou em um relatório recente o potencial da energia undimotriz para ajudar o estado a alcançar a neutralidade de carbono até 2045.

“A quantidade de energia que consumimos não para de aumentar com a era da inteligência artificial (IA) e os data centers”, afirmou Jenny Krusoe, fundadora da AltaSea, uma organização que ajudou a financiar o projeto.

“Portanto, quanto mais rápido pudermos estender esta tecnologia à costa, melhor para a Califórnia”, disse.

Energia das ondas se transforma em eletricidade nos EUA – 06/09/2025 – Mercado – Folha

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Letramento em IA: o novo desafio da educação brasileira

Enquanto países como Japão, China e Estônia já formam estudantes para pensar com IA, o Brasil tenta reagir a um fenômeno que já ocupa as salas de aula, mas ainda está em discussão no MEC

CAMILA DE LIRA –  Fast Company Brasil – 11-10-2025 

A inteligência artificial entrou nas escolas brasileiras sem pedir licença e segue sem direção no currículo pedagógico nacional. 

Sete em cada dez estudantes do ensino médio já recorrem a ferramentas generativas para fazer trabalhos e pesquisas, segundo o Comitê Gestor da Internet (CGI-Br).

Mais da metade dos professores também usa as ferramentas para preparar aulas ou corrigir provas, de acordo com a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (na sigla em inglês, Talis), pesquisa coordenada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Enquanto isso, o Ministério da Educação (MEC) ainda está em conversas iniciais para criar um referencial nacional sobre uso ético da IA na educação. 

Veja também

A ausência de políticas públicas e de formação docente faz com que o uso da tecnologia cresça sem critérios éticos ou propósito pedagógico. 

Esse é o cenário ideal para o uso “pasteurizado” da tecnologia, avalia o educador, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e head do Proz Educação (empresa focada em ensino técnico e profissionalizante), Luciano Meira.

“Todo mundo faz redação com IA, o professor corrige com IA também. As IAs ficam conversando, ninguém desenvolve pensamento crítico, nem capacidade de aprendizagem”, afirma.

REMODELAR A ESCOLA É REVISAR O PRÓPRIO PROPÓSITO DO ENSINO.

Nos últimos 12 meses, Japão, China e Estônia aprovaram políticas nacionais que tratam o uso da inteligência artificial como parte do processo de aprendizagem, e não apenas como ferramenta auxiliar. 

Na China, o plano lançado em agosto de 2025 tornou a disciplina de IA obrigatória no currículo básico, conectando o ensino da tecnologia à resolução de problemas e à consciência social.

Na Estônia, país que lidera o ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) na Europa – com 510 pontos em matemática, 511 em leitura e 526 em ciências –, o programa AI Leap 2025 vai treinar três mil professores e oferecer experiências práticas com IA generativa a 20 mil alunos.

Não se trata de usar o ChatGPT ou a Anthropic, ou o mais novo aplicativo de correção de redações, mas sim de promover um conhecimento que será cada vez mais necessário nos próximos anos: o letramento em IA.

A-B-C-IA: LETRAMENTO EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O termo letramento em inteligência artificial ainda é novo no Brasil, mas já aparece como prioridade em relatórios internacionais.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) define o conceito como o desenvolvimento de competências humanas, éticas, técnicas e criativas – uma combinação que permite compreender como a IA pensa, quais limites carrega e de que forma suas decisões moldam o mundo.

Não se trata de ensinar a usar ferramentas, mas de preparar cidadãos capazes de pensar criticamente sobre elas. Segundo a pesquisa TIC Educação 2024, do Comitê Gestor da Internet (CGI.br), apenas 19% dos alunos brasileiros afirmam ter conversado com professores sobre o uso de aplicações de IA em atividades escolares e só 33% receberam orientações sobre como identificar erros ou vieses em conteúdos gerados pelas ferramentas.

Para o pesquisador, educador e escritor Rafael Irio, o letramento em IA é justamente esse processo anterior ao uso da tecnologia. “É como dar uma Ferrari a um jovem de 17 anos sem carteira de motorista. O letramento é dar a carteira de motorista para o jovem usar essa ferramenta poderosa. É a oportunidade de entender impactos e limites antes de `dirigir`.”

Ele reforça que alfabetizar em IA é ensinar o porquê e como usar, não apenas qual usar. “O letramento não é incentivo, é proteção”, afirma. “Significa reconhecer quando a IA substitui o pensamento e quando amplia.”

Essa visão ecoa na Carta de Recomendação para o Uso de IA na Educação, publicada este ano pelo Educa+IA, da Universidade de São Paulo. Criado em 2023, o grupo propõe diretrizes para o uso ético da tecnologia nas escolas, com foco em formação crítica, transparência de dados e supervisão humana.

I-ALFABETIZAÇÃO PARA PROFESSORES

Se o letramento em IA é uma nova forma de alfabetização, ele precisa começar pelos professores – os mais de 2,3 milhões de educadores brasileiros que estão na linha de frente da aprendizagem. São eles que ajudam a traduzir o mundo para os alunos e agora precisam aprender a dialogar com tecnologias que também ensinam.

“Não é que os professores resistam à tecnologia – eles não sabem o que fazer. Quando a formação é adequada, eles se encantam, porque veem sentido e resultados”, afirma Luciano Meira.

NÃO SE TRATA DE ENSINAR A USAR FERRAMENTAS DE IA, MAS DE PREPARAR CIDADÃOS CAPAZES DE PENSAR CRITICAMENTE SOBRE ELAS.

A i-alfabetização dos docentes faz parte do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, lançado em 2021, que até agora não saiu do papel. Há esforços pontuais, como o iAgora, da Universidade de Brasília (UnB), que oferece cursos introdutórios sobre IA para professores.

Mas o cenário nacional ainda é dominado por microcursos das próprias big techs, como Google, Microsoft e OpenAI. São formações que ensinam a usar os aplicativos das próprias empresas, sem discutir os impactos cognitivos, sociais ou éticos.

“Precisamos de um MEC muito atuante, muito forte. Precisa muito mais do que palestras”, diz Meira. Para ele, a IA promete remodelar a escola como a conhecemos. Isso exige repensar o papel do professor como mediador de pensamento, não apenas como executor de tarefas.

UMA NOVA ESCOLA, PARA NOVAS COMPETÊNCIAS

Muito da inteligência artificial ainda é território desconhecido. Os países que já incluíram o ensino da tecnologia no currículo mostram que a discussão não é (e nunca foi) sobre máquinas, mas sobre aprofundar as competências humanas. O desafio não está em dominar códigos, e sim em reaprender a pensar, argumentar e criar em diálogo com sistemas inteligentes.

No Japão, as diretrizes publicadas em dezembro de 2024 orientam escolas a aplicar IA de forma centrada no humano, incentivando o pensamento crítico e a ética digital. Elas já são a segunda versão do documento. Em 2023, o governo japonês havia publicado diretiva proibindo alunos de usarem sistemas de IA generativa.

Agora, os professores são orientados a discutir como a IA gera textos, imagens e vídeos, a identificar erros, vieses e informações falsas, e a avaliar quando o uso é apropriado ou não.

As ferramentas generativas, como o ChatGPT, podem ser utilizadas em atividades supervisionadas: por exemplo, comparar uma redação produzida por IA com outra escrita por um colega, para analisar argumentação e estilo. A proposta japonesa é formar alunos que saibam ler criticamente o que a tecnologia produz.

No currículo chinês, aprovado em agosto deste ano, a ideia é que as crianças produzam novos sistemas de IA. Assim como no Japão, o ensino é faseado, exigindo diferentes competências em cada idade.

É PRECISO REPENSAR O PAPEL DO PROFESSOR COMO MEDIADOR DE PENSAMENTO, NÃO APENAS COMO EXECUTOR DE TAREFAS.

As crianças mais novas aprendem lógica e reconhecimento de padrões; os alunos do ensino fundamental exploram raciocínio algorítmico; e os adolescentes avançam para temas como machine learning, privacidade e impacto social da automação.

O objetivo não é colocar crianças para conversar com chatbots – o que apresenta riscos para os pequenos –, mas formar uma compreensão progressiva sobre como a tecnologia pensa e como afeta a sociedade. 

Na Estônia, o contato com a IA começa mais tarde. Segundo o pesquisador e advogado Ronaldo Lemos, as ferramentas de IA só são introduzidas a partir dos 14 anos. Antes disso, o foco está no desenvolvimento humano e emocional. A IA entra em cena quando os estudantes já têm repertório para discutir ética, autoria e intencionalidade.

ENSINAR A PENSAR

Essas iniciativas mostram que a IA não substitui a escola, ela redesenha o que significa aprender. Como defende Luciano Meira, incorporar a IA ao ensino exige ensinar pensamento crítico, colaboração e argumentação, competências raras na formação pedagógica brasileira.

“A gente precisa ensinar pensamento crítico, mas ninguém ensina a argumentar. Não existe uma disciplina sobre processos argumentativos em nenhum curso de pedagogia que eu conheço”, afirma.

Remodelar a escola, nesse contexto, não é trocar livros por tablets ou substituir tarefas por prompts. É revisar o próprio propósito do ensino, transformando a aula em um espaço de investigação, diálogo e criação compartilhada.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para negócios.

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IA escancara a criatividade automatizada e adaptada às demandas do mercado

Por Paulo Silvestre – Estadão – 09/10/2025 

Tilly Norwood, “atriz” criada totalmente por inteligência artificial – Foto: reprodução

Como costumo dizer, uma das coisas mais interessantes de pesquisar a inteligência artificial é que ela me leva a analisar as sutilezas e complexidades do ser humano. E à medida que novas aplicações dessa tecnologia são lançadas, surgem questionamentos sobre, por exemplo, até onde ela pode substituir nossas habilidades com vantagens, e quando isso pode se tornar um risco.

Por exemplo, no dia 27 de setembro, o estúdio inglês Particle6 anunciou Tilly Norwood, uma “atriz” totalmente digital, durante o Festival de Cinema de Zurique. A novidade esquentou o debate sobre a troca de profissionais humanos por robôs e até onde essa tecnologia pode ser efetivamente criativa.

O sindicato dos atores de Hollywood condenou a iniciativa, afirmando que “a criatividade é e deve permanecer centrada no humano”. A crítica é ética, porque o modelo que gerou Tilly foi treinado com performances de atores reais, sem consentimento ou remuneração, e existencial, porque ela representa a substituição simbólica e econômica de artistas por simulacros digitais, capazes de encenar emoções sem jamais tê-las vivido.

A criadora de Tilly, a produtora holandesa Eline Van der Velden, explicou que a personagem foi concebida para provocar reflexão. Ainda assim, a reação de Hollywood mostra o incômodo com a fronteira da própria noção de criatividade, que a tecnologia parece disposta a atravessar.

O historiador americano Samuel Franklin, pesquisador da Universidade de Tecnologia de Delft (Holanda) e autor de “The Cult of Creativity” (2023, ainda não lançado em português), observa que, a partir do século XX, a criatividade foi sendo moldada como valor dentro das corporações modernas. De dom raro, tornou-se um ativo estratégico, mensurável e explorável.

Surgiu o mito do “gênio empreendedor”, aquele indivíduo que, com intuição e ousadia, muda o mundo de dentro de uma startup. O Vale do Silício tornou-se o altar desse culto, onde o sucesso econômico se confunde com inovação criativa e onde algoritmos se tornam instrumentos da imaginação.

Paradoxalmente, ao transformar a criatividade em mantra corporativo e cultural, ela perde substância. O discurso de “pensar fora da caixa” serve para manter as pessoas dentro dela, produtivas e previsíveis. Criatividade virou produto, e assim passou a ser otimizada e, agora com a IA, automatizada.

A própria educação reflete esse esvaziamento quando propõe formar pessoas criativas sem ensinar fundamentos, estimular reflexão estética, pensamento crítico ou cultura. O resultado disso são bons executores de ideias alheias.

É aí que o debate em torno da IA esquenta. Franklin propõe que não se deve questionar se a IA é criativa, mas se ela pode ser sábia e honesta. Uma máquina pode simular originalidade, mas não discernimento. A sabedoria envolve julgamento, empatia e consciência, qualidades intrinsecamente humanas.

Tilly Norwood não ameaça, portanto, apenas atores, mas o próprio sentido de criação. Ela põe à prova nossa tolerância com o simulacro e representa o ápice do culto à eficiência estética, sem imperfeições tipicamente nossas.

A forte oposição à “atriz” denuncia como o fascínio tecnológico pode ignorar direitos de artistas reais, reproduzindo um modelo excludente e explorador. No limite, o culto ao progresso ameaça a experiência humana que o torna possível.

Esse caso vai muito além de uma curiosidade tecnológica, escancarando as contradições do culto à criatividade. Ela representa o estágio final da criatividade automatizada, sem autoria, sem subjetividade, mas perfeitamente adaptada às demandas de entretenimento, eficiência e lucro. É a vitória do conceito de criatividade como produto replicável, não como experiência singular

Opinião por Paulo Silvestre

É doutorando em inteligência artificial e mestre em reputação digital pela PUC-SP. Articulista do Estadão, atua como consultor e palestrante de IA, experiência do cliente e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP. Foi executivo do Estadão, Samsung, AOL, Saraiva e Editora Abril, e é LinkedIn Top Voice desde 2016.

IA escancara a criatividade automatizada e adaptada às demandas do mercado – Estadão

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O plano da China para dominar o mundo e se tornar uma superpotência industrial

Donald Trump não está conseguindo impedir a ascensão da China; participação do país nos contêineres de exportação globais é superior a 36%, embora a nação represente cerca de um quinto do PIB mundial

Por Estadão/The Economist – 27/09/2025

O poder industrial da China é difícil de capturar em números. O país responde por mais de 30% da produção global, ou mais do que os Estados Unidos, Alemanha, Japão e Coreia do Sul juntos. Esse número subestima o crescente medo que os produtos fabricados na China inspiram em concorrentes e governos estrangeiros.

Os produtos chineses são baratos e estão ficando mais baratos, porque as empresas locais são eficientes e estão presas em uma guerra de preços doméstica épica. Após quase três anos de quedas contínuas nos preços de fábrica, muitas empresas estão perdendo dinheiro e desesperadas para vender em mercados estrangeiros, onde as margens são maiores. O crescimento das exportações chinesas é impressionante quando medido em valor. É positivamente fantástico quando medido em volume.

Pouco antes da pandemia de covid-19, um terço de todos os contêineres que transportavam exportações ao redor do mundo continham coisas montadas, cultivadas ou processadas na China. Hoje, a participação do país nos contêineres de exportação globais é superior a 36%, embora a nação represente cerca de um quinto do PIB mundial. Um chefe de negócios estrangeiros na China prevê um acerto de contas: “Chegará um momento em que a China e o mundo simplesmente não poderão absorver mais produtos chineses, e acho que esse ponto está se aproximando.”

Governo de SP tira do papel sonho centenário da Baixada Santista: o primeiro túnel imerso do Brasil

Enquanto isso, mercados valiosos na China estão sendo isolados. Novas regras limitam as importações de chips de computador, dispositivos médicos e muito mais, já que o Partido Comunista prioriza a segurança econômica e nacional acima do crescimento de curto prazo. Embora as exportações para os Estados Unidos tenham despencado, afetadas pelas tarifas em constante mudança do presidente Donald Trump, o superávit comercial geral da China está a caminho de ultrapassar US$ 1 trilhão este ano, com embarques recordes para a África, Ásia, Europa e América Latina.

De Brasília a Berlim e Bangkok, políticos ouvem apelos para proteger as indústrias estabelecidas da concorrência chinesa. No entanto, muitos desses mesmos políticos querem que investidores chineses os ajudem a construir as indústrias do futuro, abrindo fábricas para produzir baterias, por exemplo. Isso limita seu desejo de confrontar a China.

A China sabe que tem muitas fábricas deficitárias. O líder supremo, Xi Jinping, preocupa-se em voz alta com a concorrência “desordenada”, já que os fabricantes cortam preços para sobreviver. Os governos locais foram instruídos a parar de sustentar empresas condenadas. As autoridades lançaram esquemas para promover a demanda interna, e o consumo aumentou.

A produção industrial aumentou em um ritmo mais rápido do que a demanda interna. Como resultado, a sobra de produção precisou ser escoada para fora do país, ou seja, as exportações cresceram para “absorver” esse excedente. Mais importante ainda, Xi continua a elogiar a manufatura como fonte de poder econômico e geopolítico. Nas palavras de um economista chinês, os líderes de seu país e a maioria dos cidadãos acreditam que “a participação da China no total mundial da manufatura é adequada” e pode, de fato, crescer.

A portas fechadas, chefes do partido e tecnocratas trabalham arduamente no próximo plano quinquenal da China, abrangendo o período de 2026 a 2030. As previsões sugerem que o plano incluirá esforços redobrados para se tornar uma “potência científica e tecnológica” e um foco na inovação “disruptiva” feita na China para combater “a contenção e a repressão do Ocidente liderado pelos EUA “.

As autoridades não cedem quando líderes europeus e outros líderes estrangeiros viajam a Pequim para pedir que suas empresas sejam tratadas de forma mais justa ou que a China reequilibre sua economia. Em vez disso, diz um diplomata ocidental, os anfitriões chineses combinam palavras de simpatia sobre as intimidações de Trump com ameaças de represálias, caso os governos estrangeiros restrinjam o fluxo de produtos chineses.

Quando solicitados a parar de fornecer peças de drones usados pela Rússia para matar ucranianos, eles negam. Os líderes da China parecem “extraordinariamente encorajados”, relata o diplomata. Eles acreditam que estão vencendo batalhas importantes contra Trump, se não toda a guerra comercial.

Leia as últimas edições da The Economist

Até agosto, Sarah Beran era uma diplomata americana sênior, especializada em China. Ela teme que tanto os Estados Unidos quanto a China estejam “excessivamente confiantes” em relação à guerra comercial. A China tem motivos para estar satisfeita. Em contraste com o passado, incluindo durante o primeiro mandato de Trump, o segundo governo americano não está exigindo mudanças estruturais no modelo econômico chinês.

“Não há um esforço conjunto para lidar com o excesso de capacidade ou nivelar o campo de atuação para as empresas americanas”, diz ela. Desta vez, os negociadores americanos estão mais focados em “coisas importantes para o presidente”. Isso inclui a venda de soja e aviões da Boeing e a criação de uma versão exclusiva para os Estados Unidos do TikTok, um aplicativo de mídia social chinês, talvez licenciando sua tecnologia subjacente para investidores americanos.

Beran, agora na consultoria Macro Advisory Partners, acredita que a China ficou surpresa quando sua medida para restringir as exportações de minerais raros e ímãs permanentes se mostrou “extremamente bem-sucedida”, causando pânico entre os fabricantes em todo o mundo. Por outro lado, a China deveria se preocupar com o fato de que suas ações levarão os países a buscar fontes diversificadas de insumos vitais, sugere ela.

A seguir, fábricas chinesas de robôs com inteligência artificial

A China está confiante em sua influência sobre os Estados Unidos. Essa arrogância é difícil de aceitar para os parceiros comerciais. Mas sua intransigência tem raízes ainda mais profundas. Os governantes chineses gostam de seu plano para dominar os setores estratégicos da manufatura global e não desejam mudar.

Os chineses reformistas compartilham dos temores dos estrangeiros de que essa iniciativa industrial seja insustentável. Mas os líderes do partido veem a adoção por Trump de políticas industriais ao estilo chinês, incluindo exigências do governo por participações em empresas líderes, como um endosso à sua própria abordagem.

Da mesma forma, eles se sentem justificados em sua obsessão pela autossuficiência. Sua desconfiança em relação aos Estados Unidos é agora quase total, após as tentativas de Trump de sufocar o acesso da China às tecnologias americanas, intercaladas com campanhas para vender mais dessas tecnologias à China.

Os Estados Unidos “cometeram um grande erro”, diz o economista chinês. Isso “acordou a China”, mas não impediu o país de desenvolver indústrias líderes mundiais. Trump chegou ao poder prometendo um boom industrial para a eternidade. Seria estranho se ele tivesse sucesso, mas na China…

The Economist: O plano da China para dominar o mundo e se tornar uma superpotência industrial – Estadão

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A maioria dos ‘superidosos’ compartilha uma única qualidade, aponta estudo

Após 25 anos de pesquisa sobre esse grupo notável, uma característica se destaca

Dana G. Smith – Estadão/The New York Times – 18/08/2025

Ralph Rehbock, de 91 anos e sobrevivente do Holocausto, tem uma agenda cheia. Na primeira sexta-feira de cada mês, ele se reúne com um grupo de homens mais velhos em uma sinagoga nos arredores de Chicago para o encontro do MEL: Men Enjoying Leisure (“Homens que aproveitam o lazer”, em tradução livre). Todas as sextas à tarde, ele se apresenta com os Meltones, o grupo de canto do clube, interpretando clássicos das décadas de 1930 e 1940. E, ao longo dos anos, Ralph já compartilhou sua história de fuga da Alemanha nazista com milhares de estudantes, por meio de seu trabalho no Illinois Holocaust Museum & Education Center.

Leigh Steinman, de 82 anos, passa grande parte do tempo desenvolvendo projetos de arte com as crianças que moram no seu bairro em Chicago e assistindo aos jogos do Cubs no Wrigley Field, a apenas um quarteirão de sua casa. Steinman trabalhou no estádio como segurança por 17 anos antes de se aposentar no início da pandemia (sua carreira anterior foi como redator publicitário). Mas ainda vai ao local três ou quatro vezes por semana no verão para encontrar ex-colegas e outros torcedores.

Ralph e Steinman são considerados “superidosos” — pessoas com 80 anos ou mais que têm a mesma capacidade de memória que alguém 20 a 30 anos mais jovem. Cientistas da Universidade Northwestern estudam esse grupo notável desde 2000, na esperança de descobrir como eles evitaram o declínio cognitivo típico do envelhecimento, bem como distúrbios de memória mais graves, como a doença de Alzheimer. Um novo artigo de revisão publicado recentemente resume um quarto de século dessas descobertas.

Os superidosos são um grupo diverso; não compartilham uma dieta mágica, um regime de exercícios ou um medicamento específico. Mas o que todos têm em comum é “a importância que dão aos relacionamentos sociais”, define Sandra Weintraub, professora de psiquiatria e ciências do comportamento na Faculdade de Medicina Feinberg, da Universidade Northwestern, que participa da pesquisa desde o início. “E, em termos de personalidade, tendem a ser mais extrovertidos.”

Isso não surpreende Ben Rein, neurocientista e autor do próximo livro Why Brains Need Friends: The Neuroscience of Social Connection (“Por que o cérebro precisa de amigos: a neurociência da conexão social”, em tradução livre).

“Pessoas que socializam mais são mais resistentes ao declínio cognitivo com o envelhecimento”, comenta Rein. E, segundo ele, elas “tendem a ter cérebros geralmente maiores”.

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Os pesquisadores acreditam que isso pode acontecer porque socializar ajuda a proteger contra a perda de volume cerebral que ocorre com a idade e o isolamento. A solidão, bastante comum em idosos, pode aumentar os níveis do hormônio do estresse, o cortisol, e, se ele permanecer elevado por longos períodos, pode causar inflamação crônica. Isso, por sua vez, é capaz de danificar células cerebrais e até aumentar o risco de demência.

Ao serem mais sociáveis na velhice, os superidosos podem evitar parte dessa atrofia. Uma análise incluída no novo artigo reforça essa ideia: o volume cerebral dos superidosos tende a se assemelhar mais ao de pessoas com 50 ou 60 anos do que ao de seus pares octogenários e nonagenários.

Outra diferença notável é que o cérebro dos superidosos tende a ter mais de um tipo especial de célula, chamado neurônio de von Economo, que parece ser importante para comportamentos sociais e é encontrado apenas em mamíferos altamente sociáveis — como primatas, elefantes, baleias e humanos.

Todos esses neurônios de von Economo “provavelmente ajudam a construir e manter conexões e redes sociais fortes e poderosas”, afirma Bill Seeley, professor de neurologia e patologia na Universidade da Califórnia, em San Francisco. E isso pode ter “um efeito de longo alcance no bem-estar e na saúde geral” dessas pessoas.

Mas, segundo Seeley, isso provavelmente é apenas uma parte de “um conjunto inteiro de vantagens neurobiológicas que as mantém em tão boa forma nessa fase da vida”.

Por exemplo, quase todos os octogenários apresentam sinais da doença de Alzheimer no cérebro (tenham ou não a condição), mas alguns superidosos apresentam poucos ou nenhum. Além disso, no cérebro dos superidosos, o funcionamento de um neuroquímico importante para a atenção e a memória é melhor preservado.

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Sofiya Milman, professora de medicina e genética na Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, estuda centenários saudáveis. Ela afirma que eles também tendem a ser extrovertidos e “ter uma visão positiva da vida”.

No entanto, há um dilema do tipo “ovo e galinha”. Uma pessoa com melhor funcionamento cognitivo pode ter mais disposição para sair e socializar do que alguém que sente sua memória enfraquecendo. “Se é a socialização que leva à manutenção de uma cognição melhor ou se é a cognição melhor que leva a mais socialização, acho que isso ainda está em aberto para debate”, reconhece Sofiya.

Infelizmente, forçar-se a ser mais sociável provavelmente não será suficiente para transformá-lo em um superidoso. Sandra diz que a habilidade quase sobrenatural dos superidosos provavelmente se deve à genética e à biologia, assim como aos comportamentos deles.

Mas, para Steinman, a importância de ver seus vizinhos e amigos no estádio é evidente. “Acho que a sociabilidade do Wrigley Field e do lugar onde moro, meu quarteirão, é o que me manteve firme todo esse tempo”, comenta

A maioria dos ‘superidosos’ compartilha uma única qualidade, aponta estudo – Estadão

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Talento é dinheiro, e o Brasil não investe

No século XXI, capital humano de alto talento é o ativo mais escasso e valioso

Por João Batista Oliveira – Valor – 01/10/2025 

Artigo no “New York Times” de 25 de setembro alertou que a decisão do governo Trump de taxar o visto de estrangeiros altamente qualificados pode levar empresas americanas a deixar o país. Recado dado: talento é dinheiro. Num mundo em que a vantagem competitiva depende de ciência e tecnologia, cada jovem de alto desempenho é um ativo raro — capaz de criar novas indústrias, sustentar clusters de inovação e multiplicar o PIB de uma nação. Em média, cada portador do visto H1-B gera US$ 800 mil em redução do déficit americano, segundo cálculos do Manhattan Institute.

Ajay Agarwal e colegas identificaram as estratégias mais refinadas para identificar talento de altíssimo nível. Eles acompanharam 37 mil participantes das Olimpíadas Internacionais de Matemática e Ciências desde 1959, as mais prestigiosas do mundo e mostraram que medalhistas de ouro da Olimpíada Internacional de Matemática — uma fração ínfima dos estudantes do planeta — respondem por cerca de 5% de todos os grandes prêmios científicos do mundo, como Nobel e Medalha Fields. Ou seja: há ouro de diferentes quilates e instrumentos eficazes para garimpar esse “ouro”.

Competições de física, química ou programação funcionam como verdadeiros radares, identificando jovens que depois lideram centros de pesquisa, fundam startups ou comandam empresas de tecnologia. Coreia do Sul, Israel e Cingapura transformaram essas competições em estratégia nacional: do pódio escolar saem programas especiais de treinamento, bolsas dirigidas e parcerias com universidades. O elo é claro — do pódio para os polos de inovação. Identificar talentos desde cedo é garantir participação de um país nos futuros centros de produção de riqueza global.

Talentos não surgem do nada. Campeões olímpicos não se formam nas Olimpíadas; apenas se revelam. Até chegar lá foram anos de investimento. Não é por acaso que certos países produzem mais desses jovens e outros conseguem atraí-los em maior intensidade.

O Brasil está fora desse jogo. Apenas 1% dos nossos estudantes superam 600 pontos em matemática no Pisa, contra 6% a 12% em países desenvolvidos. Não temos celeiros para produzi-los. E por isso também não temos “fuga de cérebros” poissequer os cultivamos. Perdemos, silenciosamente, a chance de transformar potenciais extraordinários em criatividade e valor econômico.

A Olimpíada Brasileira de Matemática (OBMEP) é uma exceção notável. Criada em 2005, mobiliza anualmente mais de 18 milhões de alunos da rede pública. Pesquisas mostram que até uma menção honrosa aumenta a confiança dos participantes e de seus colegas. Mas falta a etapa anterior — a identificação precoce — e a seguinte — transformar entusiasmo em mecanismos de formação de elite. Sem continuidade, desperdiçamos o que deveria ser tratado como investimento estratégico.

O contraste internacional é evidente. Nos EUA, por exemplo, há processos para identificar alunos a partir dos 3 ou 4 anos de idade. Universidades disputam medalhistas como se fossem atletas. Empresas acompanham de perto essa cadeia e absorvem os melhores para pesquisa aplicada. Diversas províncias do Canadá fazem identificação universal no início da escolaridade, seguida de apoio sistemático a alunos de alto talento. Israel, China, Rússia e outros países adotam estratégias similares para identificar e promover indivíduos excepcionais, dentro do sistema escolar ou em escolas especializadas. Há um mercado internacional de procura dos que se destacam.

Identificar talentos desde cedo é garantir participação de um país nos futuros centros de produção de riqueza

Além de falta de cultura e de oportunidades para identificar talentos, corremos outros riscos. Um deles é o imediatismo — alunos talentosos são descobertos em olimpíadas — mas se contentam com ganhar uma bolsa de estudo numa escola privada apenas melhorzinha. Uma vez formados, esses poucos jovens de altíssimo talento desviam para carreiras mais rentáveis que a pesquisa científica. Em vez de ampliar a fronteira do conhecimento, muitos são atraídos para o mercado financeiro, empresas de tecnologia ou consultorias. É uma escolha racional individualmente, mas representa perda coletiva: cérebros escassos e preciosos se dedicam a aplicações de curto prazo. Para um país que já forma poucos, trata-se de desperdício inaceitável.

À falta de políticas públicas, sobrevivem iniciativas pontuais. Escolas como Farias Brito e Ari de Sá, no Ceará, ou o Instituto Lumen, em São José dos Campos, criaram ambientes seletivos de alto desempenho, à semelhança de escolas americanas que concentram finalistas da Olimpíada Internacional de Matemática. Funcionam como “viveiros de campeões”, criando pares de referência e acelerando a aprendizagem. Iniciativas como o as do Ismart, Instituto Ponte, Instituto Apontar procuram abrir brechas para identificar e tentar ajudar alunos carentes de alto talento. Mas não há política pública. Até hoje apenas um município brasileiro adotou diagnóstico universal de crianças como passo inicial para estabelecer uma política consistente para identificar e promover indivíduos de alto talento.

O caminho é conhecido: identificar cedo, oferecer apoio, criar oportunidades em ambientes desafiadores junto a outros colegas talentosos. Cada município pode adotar estratégias próprias, mas os passos essenciais são os mesmos: combinar testes padronizados com olimpíadas e avaliações nacionais, investir em tutoria, escolas de referência e parcerias com universidades. Não é elitismo, é reconhecer que alguns aprendem mais rápido e precisam de desafios à altura. Mantê-los em escolas ruins é decretar uma pena de morte intelectual.

A mensagem é simples. No século XXI, capital humano de alto talento é o ativo mais escasso e valioso. Países que entenderam isso criaram políticas de identificação precoce, escolas e programas seletivos e pontes diretas para universidades e empresas. O Brasil, se quiser romper a mediocridade, precisa fazer o mesmo. Caso contrário, seguirá à margem da economia do conhecimento — e pagará caro pelo talento não revelado, na inovação que não acontece, nas empresas que não surgem e na riqueza que não deixou de ser criada.

João Batista Araujo e Oliveira é presidente do Instituto IDados

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Ele ajudou a gerar 20.000 empregos no Nordeste. Agora, colhe os frutos dessa iniciativa

Pierre Lucena comanda um dos maiores polos de inovação do Brasil: o Porto Digital, em Recife; vinte anos depois, vive o melhor momento do ecossistema de inovação nordestino

Pierre Lucena, CEO do Porto Digital: “Ninguém quer roer o osso do começo” (Porto Digital/Divulgação)

Laura Pancini – Exame – 28 de agosto de 2025

“O sertão é o mundo”, diziaGuimarães Rosa. Embora a região ocupe um lugar central na história e na literatura nordestina, a realidade é muito mais complexa. O que antes era visto como sinônimo de secas e paisagens áridas, agora se transforma em um caldeirão fervente de inovação. Principalmente as capitais são palco de uma revolução tecnológica que passa a ganhar destaque dentro e fora do Brasil.

Um dos maiores exemplos é o Porto Digital (PE), hoje casa de quase 500 empresas. O hub de inovação já gerou mais de 20 mil empregos e aproximados R$ 6 bilhões em faturamento. Para chegar a esse ponto,foram necessários milhões de reais, parcerias com o governo e muita, mas muita carne de sol.

“Fomentar um ecossistema exige mais do que infraestrutura; é preciso que todos se movam em direção a uma cultura empreendedora”, diz o CEO Pierre Lucena.

O hub é um dos responsáveis pelo Rec‘n’Play, evento que convida toda a juventude pernambucana para conhecer (e viver) tecnologia nas ruas do Porto Digital. São dias de palestras, workshops, experiências interativas com tecnologias e uma feira de startups.

Recentemente, o Porto Digital anunciou o início das obras de um núcleo de empreendedorismo feito em parceria com o Governo do Estado de Pernambuco e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O projeto, intitulado de NERD (Núcleo de Empreendedorismo e Residência Digital) receberá um investimento de R$ 18 milhões e vai transformar um imóvel histórico da região em um espaço para fomentar inovação, conectar empresas e reter talentos.

Além de já estar presente na cidade de Aveiro, em Portugal, o Porto Digital também será responsável por gerir o novo hub de inteligência artificial de Goiás. Com investimento total de R$ 2 milhões, o programa vai selecionar as dez melhores startups de IA da região, e as inscrições estão abertas até 21 de setembro.

 Região da inovação

O fato é que o empreendedorismo nordestino explodiu — um crescimento de 3.497% no número de startups, tudo em menos de dez anos. Pela primeira vez na história, o Nordeste ultrapassou o Sul em número de startups em 2024, ficando atrás apenas do Sudeste.

O que vem por aí é um cenário em que o Nordeste não apenas faz história, mas também se torna protagonista do futuro das tecnologias emergentes no Brasil. Veja algumas reflexões de Lucena sobre o ecossistema da região:

EXAME: Um aprendizado?

Pierre Lucena: A inovação precisa de mais do que boas ideias: ela precisa de apoio constante que transforme a possibilidade de empreender em algo acessível a todos. Precisamos expandir isso para toda a população com a ajuda de políticas públicas,

e o Porto tem sido um campo de teste para isso.

Um desafio?

O “osso” do começo ninguém quer. Investir nas primeiras etapas de uma startup é assumir um risco enorme. A falta de tração e os protótipos iniciais fazem com que muitos investidores se afastem, mas é justamente nesse momento que a inovação está sendo moldada.

Um orgulho?

Durante muito tempo, o imaginário coletivo [do Nordeste] estava ligado a carreiras tradicionais. O que fizemos no Porto Digital foi abrir espaço para um novo imaginário, em que empreender se tornou viável.

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