O fim dos dinossauros analógicos: o vírus asteroide

por Evandro Milet

A transformação digital já atingia vários setores da economia quando caiu o asteroide da pandemia, provocando turbulências e quebradeira em muitos deles. Porém, assim como os dinossauros teriam sido extintos pela queda de um asteroide, permitindo que milhões de anos depois a raça humana se desenvolvesse, também esse novo asteroide minúsculo, um vírus, promove a extinção de outros dinossauros e permite o surgimento de um novo mundo. De repente, a justiça, lenta no mundo digital, permite audiências à distância, despachos por Zoom e defesas feitas remotamente até no STF, que já se reune por aplicativo. Até o Congresso Nacional promove sessões remotas, sem necessidade de aviões, hotéis e carros oficiais.

A telemedicina, antes travada pelo corporativismo médico, foi liberada pela falta de opção desses mesmos médicos de atender uma população que tem medo de ir ao consultório. A possibilidade de acesso de locais remotos aos melhores centros de saúde justifica toda mudança em prol de uma igualdade mínima de atendimento. Muitos procedimentos médicos podem ser feitos com a supervisão local de um médico de outra especialidade, ou mesmo por um enfermeiro, ou, em casos mais simples, diretamente com o paciente para uma primeira orientação. 

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Como combater a Fadiga de Zoom(Zoom fatigue)

por Evandro Milet

Coitado do Zoom. Saiu na frente como aplicativo para reuniões e acabou pegando o apelido para o stress eventualmente provocado por várias reuniões durante o dia. Mas ganhou muito. Seu valor de mercado ultrapassou a soma do valor de várias companhias aéreas, o que não é vantagem considerando que as viagens de avião tiveram queda da ordem de 90% em quase todo o mundo. Mas a vantagem do pioneirismo durou pouco, as gigantes trilionárias Microsoft com o Teams e Google com Meet , aproveitando seu acesso ao mundo corporativo, já estão em campo com competência, dividindo esse novo mercado de home office.

Muita gente está considerando que houve um aumento de produtividade na nova situação. Como não há deslocamentos físicos e nem necessidade de se arrumar(reuniões de pijama aos montes), além de outras distrações no escritório, saídas para almoço e bate papos sobre abobrinhas, consegue-se fazer um número maior de reuniões durante um dia de trabalho. 

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Inteligência artificial poderá prever, e até evitar, novas pandemias, prevê Kai-fu Lee

por Sérgio Matsuura

Com cada vez mais dados, sistemas inteligentes poderão perceber anomalias precocemente, afirmou o especialista

 Mesmo com todos os avanços tecnológicos que temos hoje, o mundo não foi capaz de prever, ou evitar, o avanço do novo coronavírus, que já matou mais de 350 mil pessoas. Mas é provável que esta seja a última pandemia, graças à inteligência artificial. Esta é a opinião do presidente e diretor executivo da Sinovation Ventures e ex-presidente do Google China, Kai-fu Lee, que participou na noite desta quarta-feira de um painel com o diretor executivo da Globo Ventures, Roberto Marinho Neto, em evento promovido pelo movimento Brazil at Silicon Valley.

— Eu acho que no longo prazo a prevenção de pandemias será possível com a inteligência artificial — afirmou Lee. — Nós usaremos roupas inteligentes, conhecidas como wearables, que produzirão dados e os enviarão para a nuvem onde será possível perceber anomalias precocemente. Assim, espero que a próxima pandemia possa ser prevista e evitada.

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Sonho (muito) grande: multinacionais brasileiras

por Evandro Milet

É mais fácil segurar um louco que empurrar um burro, diz Beto Sicupira, resumindo uma das estratégias de lidar com pessoas do trio formado com Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles e retratado no best seller de negócios “Sonho Grande” da jornalista Cristiane Correa. Estima-se que, desde que o Banco Garantia, origem do grupo, foi fundado em 1971, de 200 a 300 pessoas que trabalharam nos diversos negócios do trio ganharam mais de 10 milhões de dólares cada.

O sucesso é inquestionável. Marcas nacionais e depois globais foram sendo sucessivamente incorporadas, incluindo Lojas Americanas, ALL, Brahma, Antartica depois Ambev, depois Inbev, Budweiser, Burger King e Heinz, já em uma parceria espantosa com o mega investidor Warren Buffet.

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As grandes empresas de tecnologia vão dominar tudo

por Evandro Milet

Em meio à maior crise econômica, as gigantes de tecnologia nos Estados Unidos, já conhecidas pela sigla FAMGA, Facebook, Amazon, Microsoft, Google e Apple, cada uma chegando ou ultrapassando o trilhão de dólares em valor de mercado, impressionam pela força e vitalidade. Enquanto empresas de outros setores pedem socorro aos governos e administram demissões em massa, a Amazon anunciou 175 000 contratações só em março e espera lucrar mais de 6,5 bilhões no primeiro semestre do ano. Facebook, Apple e Microsoft também apresentaram uma saúde financeira notável em plena pandemia. 

E o que fazem com todo o caixa gerado por lucros extraordinários? Investem para dominar grandes setores da economia. Saúde, educação, defesa, finanças e até atribuições de governo. Enquanto governos discutem até a possibilidade de dividir algumas dessas grandes, frente ao enorme poder que dispõem, à semelhança do que foi feito com o petróleo no início do século 20, elas ampliam seu escopo de atuação. Na educação à distância, Google e Microsoft disputam o mercado mundial, que promete uma expansão sem volta com a pandemia.

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Folclore corporativo: as empresas, suas histórias e lendas

por Evandro Milet

Um leão novo chegou ao Zoológico da cidade e foi colocado na mesma jaula do leão velho. Durante as visitas o leão novo rugia imponente atraindo o público enquanto o leão velho dormia cansado em um canto. Na hora do almoço o leão velho recebia do tratador um suculento pedaço de carne enquanto o leão novo, revoltado, tinha que se contentar com um cacho de bananas. A cena se repetiu algumas vezes até que, inconformado, o leão novo questionou o tratador que explicou: – Quando você entrou aqui só havia vaga para um leão e aí tivemos de lhe classificar como macaco.

Essa história me lembra longas discussões sobre desvios de função e quadro de vagas limitado numa longa série de imbróglios burocráticos que acontecem em órgãos públicos. Outras figuras burocráticas como os grupos de trabalho e os comitês são alvo permanente de chacota, como naquela máxima de que um camelo é um cavalo que foi projetado por um comitê ou que uma reunião consiste de um grupo de pessoas que sozinhas nada podem fazer, mas juntas decidem que nada pode ser feito. 

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As cidades resilientes no pós-pandemia

Por Amanda Péchy

Chega de aperto: a revolução no cotidiano das cidades que reabrem

Conceitos como prioridade a ciclistas e pedestres, distância nos parques e casas bem ventiladas vieram para ficar 

Por volta de 1486, quando a Europa era castigada por surtos recorrentes de peste bubônica, Leonardo Da Vinci esboçou o projeto de uma cidade às margens do Rio Ticino, no norte da Itália, com ruas largas, banhadas por luz natural e monitoramento do ciclo hidrológico para conter inundações. Avançada demais para a época renascentista, como muitas de suas ideias, a proposta ganharia nova forma já nos tempos modernos, quando finalmente os governantes perceberam que só metrópoles limpas e saudáveis romperiam a sequência de epidemias mortais. Grandes reformas nos séculos XIX e XX resultaram no traçado amplo das avenidas parisienses, que inspiraram o prefeito carioca Pereira Passos e o sanitarista Oswaldo Cruz a replicar o modelo no Rio de Janeiro. São mostras de como a história das cidades se confunde com a das epidemias, e não será diferente com a Covid-19, o novo flagelo da humanidade.

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Por onde será a saída para a economia?

Por Evandro Milet

 A pandemia tem provocado turbulências em todos os setores da economia. Mesmo os que se safam economicamente enfrentam problemas de logística, de mudança para o mundo digital, de gestão de home office ou de empregados com covid-19. 

Supermercados viram as vendas aumentarem inicialmente mas enfrentam problemas de atraso de entrega pela sobrecarga não prevista e pela deficiência do e-commerce precário. No setor de saúde as farmácias mantiveram vendas, mas os hospitais, mesmo os de referência, têm problemas. Com 45% a menos de receita, o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, cortou em 25% o salário e a jornada de trabalho de 33% dos seus 15 mil funcionários. Antes da pandemia, o Einstein fazia até 140 cirurgias por dia e agora não chegou ainda à metade desse número. O setor de medicina diagnóstica também sofre. As pessoas estão com medo e adiando consultas e exames. Até o fim de abril, o setor contabilizava queda de 70% nos exames de imagem. Nos laboratórios clínicos, o atendimento tinha caído, em média, 60% se comparado ao movimento registrado no mesmo período de 2019. 

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A mãe da invenção: o vulcão e a bicicleta

Por que as crises globais são a mãe da invenção

Em 1815, uma erupção vulcânica causou estragos em todo o mundo. Mas isso levou ao nascimento da bicicleta.

A erupção em abril de 1815 do Monte Tambora, um vulcão no que é hoje a Indonésia, foi uma das maiores da história. Uma vasta nuvem de poeira e cinzas se espalhou pelo mundo, bloqueando o sol e reduzindo as temperaturas globais. Na China, o tempo frio matou árvores, plantações e búfalos. Na América do Norte, uma “névoa seca” avermelhou o sol e houve uma nevasca no verão em Nova York. Houve tumultos e saques na Europa quando as colheitas fracassaram. Os preços dos alimentos dispararam e dezenas de milhares de pessoas morreram de fome e doenças. Os cavalos passavam fome ou eram abatidos, pois o alto preço da aveia obrigava as pessoas a escolher entre alimentar seus animais ou a si mesmas.

Essa última situação levou Karl von Drais, um inventor alemão, a conceber uma máquina de transporte pessoal para substituir o cavalo: uma engenhoca de madeira de duas rodas que ele chamou de Laufmaschine (literalmente, “máquina de corrida”). Sentado em uma sela, Drais a impulsionou, plantando os pés no chão e empurrando a cada poucos metros, enquanto o dirigia usando um leme. Um passeio de demonstração, no qual ele viajou 64 quilômetros em quatro horas, mostrou que era tão rápido quanto um cavalo trotador e podia ser alimentado por seu cavaleiro sem muito esforço. A parte complicada era mantê-la equilibrada enquanto planava, o que exigiu alguma prática.

A invenção de Drais não substituiu o cavalo: o tempo voltou ao normal, levando a uma colheita abundante em 1817. Mesmo assim, os entusiastas continuaram a melhorar seu design. A adição crucial de pedais ocorreu na França na década de 1860. Outros refinamentos incluíram freios melhores, uma estrutura de aço, rodas leves de metal e uma corrente para acioná-los. No final da década de 1880, esses elementos foram combinados em um design reconhecidamente moderno: a bicicleta.

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Quem é o dono da vacina?

por Evandro Milet

Em geral, uma vacina leva ao menos de 12 a 18 meses para ficar pronta, mas as farmacêuticas tentam iniciar a produção ainda em 2020. Em mais de uma ocasião, o governo do presidente Donald Trump sugeriu que, apesar de disposto a compartilhar seu conhecimento científico, priorizaria a produção de doses para a população americana. 

O governo dos Estados Unidos assinou um contrato com um grupo farmacêutico de Paris, o Sanofi, para garantir que tenha prioridade na produção de futuras vacinas. Esse acordo provocou indignação na França, forçando a empresa a esclarecer que essa prioridade seria dada apenas para doses de vacinas produzidas em fábricas que o grupo possui nos Estados Unidos. 

O governo americano foi rápido para assegurar acordos de abastecimento com produtores de vacinas. Ele também deu US$ 483 milhões para Moderna acelerar a produção de sua potencial vacina e está apoiando pesquisas da Johnson & Johnson (J&J) . 

E vai investir US$ 1,2 bilhão na farmacêutica AstraZeneca para assegurar o fornecimento de uma potencial vacina que poderá estar disponível já no início de outubro. Pelo acordo, o governo irá bancar um teste da vacina em 30 mil pessoas nos Estados Unidos a partir de meados de julho, além de acelerar a produção de pelo menos 300 milhões de doses de vacina. 

Também o governo britânico informou que vai pagar 65,5 milhões de libras para a AstraZeneca para assegurar 100 milhões de doses para sua população, com 30 milhões de doses disponíveis já em setembro.

A AstraZeneca informou que está em negociações com vários outros governos, assim como entidades internacionais sem fins lucrativos.

 A aplicação em massa da vacina vai liberar as economias dos países que primeiro imunizarem a sua população.  Como ficamos nós brasileiros? No fim da fila?

A vacina será de propriedade das empresas que as desenvolverem e por isso cobrarão caro ou será de propriedade pública? Se não tiverem o lucro que esperam elas se empenharão para encontrar outra em situação semelhante no futuro?

Carlos Alberto Sardenberg, jornalista de O Globo fez um bom resumo:  Mas, afinal

Quem é o dono da vacina?

O acesso às doses exigirá um amplo esforço global, num ambiente de colaboração entre empresas, governos e instituições internacionais

Coluna Carlos Alberto Sardenberg jornal O Globo 21/05/2020 

No início deste ano, a companhia farmacêutica Moderna, com sede em Cambridge, nos EUA, tinha um valor de mercado em torno de US$ 7 bilhões. No início desta semana, bateu US$ 30 bilhões depois de ter informado que obtivera resultados positivos em testes com humanos para a vacina contra o novo coronavírus. Dois dias depois, esse valor caiu uns US$ 2 bilhões, quando cientistas e autoridades sanitárias levantaram algumas questões.

A principal: o teste havia sido limitado a poucas pessoas e ainda na fase 1. Mas a companhia já tinha autorização do governo americano para iniciar a fase 2, com milhares de testes. Estará pronta, se tudo der certo, depois de uma fase 3, lá pelo final deste ano ou início de 2021. Esperanças. Mas, de todo modo, a companhia já adiantou planos de levantar no mercado um aporte de US$ 1,2 bilhão.

A empresa recebeu ajuda do governo americano – algo como 500 milhões de dólares – mas é privada, com ações diluídas em bolsa.

Diversas outras companhias privadas estão trabalhando na vacina antiCovid-19. Há também laboratórios ligados a governos ou a universidades, mas é grande a possibilidade de que empresas privadas cheguem antes aos melhores resultados. E diferentes: as empresas estão desenvolvendo tecnologias diversas — por exemplo, ou enfraquecendo o vírus ou usando partes dele.

Na verdade, a melhor expectativa entre cientistas e autoridades sanitárias é a seguinte: que várias farmacêuticas, cada uma no seu caminho, cheguem a, digamos, quatro ou cinco tipos de vacinas.

Uma primeira razão é econômica. Encontrada a fórmula, será preciso produzir algo como 5 bilhões de doses ou o dobro disso, se forem necessárias duas doses para a imunização completa. Já há empresas reservando instalações para isso, mas o esforço será monumental.

E mais: as companhias privadas terão a patente — o segredo da fórmula — e obviamente terão que ser remuneradas por isso. Dirão: mas isso é uma insensibilidade, uma crueldade; com centenas de milhares de pessoas morrendo, vai-se proteger o lucro dos acionistas?

Imaginemos que não. As patentes são tornadas públicas e as vacinas já produzidas, confiscadas.

Daqui a alguns anos, aparece outra mutação desse coronavírus — qual companhia vai torrar dinheiro na busca de uma vacina ou de um remédio?

Por outro lado, deixada a coisa por conta do mercado, sem nenhuma intervenção, sabemos o que vai acontecer: os mais ricos serão os primeiros a ter acesso às primeiras vacinas, a preços de rico. Depois, o conhecimento vai se espalhando, surgem outras fórmulas, depois de algum tempo, os genéricos e o medicamento vai alcançando as classes médias. Quanto tempo levaria até alcançar os pobres?

Por isso, cientistas, autoridades sanitárias, empresários, governos e instituições internacionais estão procurando soluções intermediárias. Na OMS, surgiram propostas para que as patentes descobertas sejam de propriedade social, mundial.

É generoso, mas não resolve o problema de remunerar as pesquisas — as atuais e as que serão necessárias no futuro. Bill Gates falou em montar um consórcio de bilionários e grandes empresas que comprariam as vacinas e as distribuiriam nas regiões mais pobres.

Por outro lado, governos também precisarão comprar, mas com preços relativos, como já se faz com medicamentos de controle do HIV. Países mais ricos pagam mais, outros pagam menos.

E os ricos, as pessoas ricas, onde quer que se encontrem, vão pagar do seu bolso ou de seus caros planos de saúde. Aliás, vai ser outra briga: entre os planos e as seguradoras versus os fabricantes — também como já ocorre hoje.

O importante é ter regras e negociações razoáveis, de tal modo a combinar os interesses — melhor, as necessidades das pessoas — e os estímulos para que as empresas formem e contratem os quadros capazes de descobrir essas maravilhas da tecnologia.

Será preciso um amplo esforço global, num ambiente de colaboração entre empresas, governos e instituições internacionais. Acho que, por necessidade, voltaremos a prezar a globalização e a eficiência dos mercados.

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