Amazon trava batalha com Perplexity contra IA que faz compras sozinha

  • Gigante do ecommerce acusa startup de violar regras ao usar agente para comprar em nome de usuários
  • Dona do Comet fala em intimidação e diz que direitos devem ser os mesmos para os assistentes

Shirin Ghaffary e Matt Day – Folha/Bloomberg – 5.nov.2025

A Amazon enviou uma notificação judicial à Perplexity exigindo que a startup de busca com inteligência artificial proíba o Comet, seu agente de navegação na internet com IA, de fazer compras em nome dos usuários.

O gigante do ecommerce acusa a Perplexity de cometer fraude informática ao deixar de revelar quando seu agente de IA está realizando compras em nome de um usuário, em violação aos termos de uso da Amazon, segundo pessoas familiarizadas com a carta enviada na sexta-feira (31).

O documento também afirma que a ferramenta da Perplexity prejudicou a experiência de compra na Amazon e introduziu vulnerabilidades de privacidade, disseram essas pessoas, que falaram sob condição de anonimato para discutir assuntos internos.

No blog da empresa, a Perplexity disse que a Amazon está intimidando uma concorrente menor com um produto rival e argumentou que os usuários devem poder escolher o agente de sua preferência para realizar compras na plataforma.

“É uma tática de intimidação para assustar empresas inovadoras como a Perplexity e impedi-las de tornar a vida das pessoas melhor”, escreveu a startup.

O confronto entre Amazon e Perplexity oferece um vislumbre inicial de um debate crescente sobre como lidar com a proliferação de agentes de IA que executam tarefas cada vez mais complexas para os usuários, incluindo compras.

Assim como a OpenAI e a Alphabet (Google), a Perplexity tem buscado repensar o navegador da web em torno da IA, com o objetivo de automatizar mais ações para os usuários, como redigir emails e realizar pesquisas.

A Amazon também está desenvolvendo seus próprios agentes de IA, incluindo alguns capazes de fazer compras. Em abril, a empresa apresentou um recurso —ainda em teste— chamado Buy For Me (“Compre por mim”), projetado para permitir que os clientes comprem em sites de marcas dentro do aplicativo de compras da Amazon.

Outro assistente de IA, chamado Rufus, pode navegar no site da Amazon, recomendar produtos e colocá-los no carrinho. Mas grande parte da experimentação sobre como agentes podem interagir com a web tem sido feita por startups como a Perplexity, atualmente avaliada em US$ 20 bilhões.

“A Amazon é uma empresa da qual tiramos muita inspiração”, disse o CEO da Perplexity, Aravind Srinivas, em entrevista. “Mas não acho que seja bom para o cliente forçar as pessoas a usarem apenas o assistente deles —que talvez nem seja o melhor.”

Os termos de uso do site de varejo da Amazon proíbem “qualquer uso de mineração de dados, robôs ou ferramentas semelhantes de coleta e extração de dados”.

Em novembro de 2024, a Amazon pediu à Perplexity que parasse de usar agentes de IA capazes de fazer compras no site até que as duas empresas chegassem a um acordo sobre a prática, disseram as fontes. A startup cumpriu.

Mas, em agosto deste ano, a Perplexity começou a usar seu novo agente de navegação Comet, que havia feito login nas contas da Amazon dos usuários, dizia a carta. Desta vez, a Perplexity identificou seus agentes como um navegador Google Chrome, afirmou a Amazon. Quando a Perplexity se recusou a interromper o uso dos bots, a Amazon tentou bloqueá-los, mas a startup lançou uma nova versão do Comet para contornar a medida de segurança.

“Achamos que é algo bastante simples: aplicativos de terceiros que oferecem fazer compras em nome dos clientes de outras empresas devem atuar de forma transparente e respeitar a decisão dos provedores de serviço de participar ou não”, disse Lara Hendrickson, porta-voz da Amazon, em comunicado por email.

Ela acrescentou que outras empresas, incluindo serviços de entrega de comida e agências de viagens online, operam da mesma forma.

“Aplicações de terceiros com agentes, como o Comet da Perplexity, têm as mesmas obrigações, e pedimos repetidamente que a Perplexity removesse a Amazon da experiência do Comet, especialmente à luz da experiência de compra e atendimento ao cliente significativamente piorada que ele oferece”, acrescentou Hendrickson.

Em resposta à acusação da Amazon de que a Perplexity estaria disfarçando seus agentes, Srinivas disse que não vê necessidade de distinguir um usuário de um agente que ele autoriza a agir em seu nome. Ele argumentou que os agentes deveriam ter “os mesmos direitos e responsabilidades que um usuário humano real”. “Não é papel da Amazon supervisionar isso”, afirmou.

Nos últimos 18 meses, a Perplexity foi acusada por veículos de imprensa de usar seus conteúdos em resumos de notícias feitos por IA sem permissão e de comprar dados obtidos ilegalmente em sites de discussão do Reddit.

A Perplexity já afirmou que “lutará vigorosamente pelo direito dos usuários de acessar livre e justamente o conhecimento público”.

Srinivas disse que o Comet não está treinando nem coletando informações da Amazon com seu agente, apenas realizando ações necessárias para comprar em nome dos usuários. Em um post em resposta à notificação, a Perplexity também acusou a Amazon de tentar “eliminar os direitos dos usuários” para vender mais anúncios.

Agentes de compras podem, no futuro, representar uma ameaça significativa ao lucrativo negócio de publicidade da Amazon, que ganha a maior parte de seu dinheiro vendendo espaços de destaque em sua loja online, em resposta às pesquisas de produtos feitas por clientes. Se bots fizerem compras pelos consumidores, o valor desses anúncios tende a cair.

Amazon trava batalha com Perplexity por agente de IA – 05/11/2025 – Tec – Folha

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Como a inteligência artificial já está transformando a área de recursos humanos

O futuro do RH não está em trocar pessoas por algoritmos, mas em equipá-las com melhores ferramentas, plataformas e recursos

UPEKA BEE – Fast Company Brasil – 03-11-2025

Imagine começar em um novo emprego onde toda a sua integração pareça personalizada especialmente para você, com um assistente de IA guiando seu treinamento, apresentando seus colegas e verificando como está sua adaptação.

Esse nível de personalização no ambiente de trabalho não é apenas um conceito futurista: já está presente e avançando mais rápido do que muitos departamentos de RH preveem.

A inteligência artificial está transformando o RH. Em 2026, a IA não apenas vai assumir tarefas repetitivas, como também mudará de forma profunda a maneira como as empresas contratam, integram, desenvolvem e retêm talentos. O resultado será equipes de RH mais estratégicas, orientadas por dados e mais humanas do que nunca.

Depois de mais de uma década trabalhando com tecnologia para RH em pequenas empresas e startups, percebi que, quando aplicada com cuidado, a IA pode aumentar tanto a eficiência quanto a empatia. Usada de forma inteligente, ela libera lideranças de RH de burocracias e tarefas administrativas para que dediquem mais tempo às pessoas.

Veja também

Veja a seguir como a inteligência artificial deverá redesenhar o RH em 2026 e nos próximos anos:

1. Otimização de operações

A IA já está automatizando muitas das tarefas mais demoradas do RH, desde a gestão de benefícios até o atendimento de dúvidas de funcionários. O “Ask HR”, da IBM, por exemplo, está automatizando centenas de funções antes dedicadas a responder perguntas frequentes. Essa transformação permite que o RH concentre esforços em estratégia, cultura e engajamento.

Além disso, a IA está gerenciando softwares e sistemas que antes não se comunicavam entre si. Hoje existem cerca de 5,7 mil ferramentas de folha de pagamento e de RH que não se conversam e exigem alguém para administrá-las.

Essa gestão é ideal para automação, especialmente em fluxos de trabalho, onboarding e offboarding, compliance e auditorias, além de demandas urgentes de colaboradores.

Não se trata apenas de eficiência: conforme a automação avança, as empresas precisam garantir que a experiência humana não seja deixada para trás. A próxima geração de ferramentas de RH vai combinar agilidade com sensibilidade, usando IA para tornar interações mais fluidas e acolhedoras.

2. Onboarding personalizado

Os primeiros 90 dias são decisivos para retenção de funcionários e produtividade. Sistemas de integração baseados em IA já conseguem personalizar cada etapa – das apresentações aos colegas até os planos de treinamento e check-ins – considerando função, habilidades e perfil comportamental.

Em vez de uma jornada padronizada, novos contratados passam a vivenciar uma experiência individual desde o primeiro dia. Automação e personalização aceleram a adaptação e fortalecem o senso de pertencimento.

3. Coaching digital e suporte contínuo

Treinamento e orientação costumavam ser privilégios de executivos. Agora, ferramentas de coaching digital e chatbots confidenciais integrados ao Slack ou ao Teams democratizam esse apoio.

Esses sistemas fornecem feedback colaborativo, monitoram engajamento e oferecem um espaço seguro e constante de acolhimento. Assim, aprendizado e desenvolvimento passam a ser permanentes e acessíveis a todos.

4. Mais resultados com equipes enxutas

No mundo das startups, muitos fundadores estão escalando funções de RH antes mesmo de contratar líderes experientes. Com plataformas de IA auxiliando em recrutamento, compliance e engajamento, equipes reduzidas conseguem administrar demandas complexas.

Muitos ainda perdem tempo demais com tarefas manuais – controle de cadastros, papéis de contratação, verificação de folha de pagamento. Com ferramentas de IA, as empresas podem focar no crescimento enquanto o software garante que cada detalhe seja executado corretamente. Isso devolve tempo aos fundadores e transforma o RH em um problema resolvido.

Esse novo modelo de “RH enxuto” permite que startups se concentrem em estratégia e evolução do ambiente de trabalho, mostrando que tecnologia e IA democratizam o acesso a um RH de qualidade, em vez de substituí-lo.

O PAPEL DA IA NO RH

Os melhores sistemas de IA jamais vão substituir a sensibilidade e a criatividade dos profissionais de RH. A função deles é ampliar essas habilidades.

A abordagem “humanos no processo” assegura que a tecnologia complemente, e não substitua, o julgamento humano. Com essa parceria, o RH constrói ambientes mais eficientes, resilientes e conectados.

O futuro do RH não está em trocar pessoas por algoritmos, mas em equipá-las com melhores ferramentas, plataformas e recursos. A IA vai cuidar do repetitivo para que humanos se concentrem no que realmente importa: confiança, relacionamento e cultura organizacional.

A verdadeira promessa da IA no RH não é reduzir a humanidade, mas fortalecê-la.


SOBRE A AUTORA

Upeka Bee é fundadora e CEO da fornecedora de serviços para recursos humanos DianaHR, que oferece uma plataforma de RH-as-a-Service para pequenas e médias empresas.

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Laboratório da Alphabet, do Google, e prefeitura do Rio firmam parceria para testar IA em gestão urbana

Projetos vão usar tecnologia para revisar a rede elétrica, ampliar conectividade, acelerar o licenciamento urbano e rastrear resíduos. Objetivo é impulsionar projeto da cidade como polo de inovação

Por Carolina Nalin — O Globo – 03/11/2025 

Projeto da Rio AI City, na região do Parque Olímpico, no Rio, e que pretende ser o maior “hub” de data centers da América Latina. A iniciativa tem previsão de aporte inicial de R$ 5 bilhõesProjeto da Rio AI City, na região do Parque Olímpico, no Rio, e que pretende ser o maior “hub” de data centers da América Latina. A iniciativa  tem previsão de aporte inicial de R$ 5 bilhões — Foto: Divulgação 

No rol de esforços para tornar a cidade do Rio o maior polo de inteligência artificial (IA) da América Latina, a prefeitura anunciou nesta segunda-feira uma parceria com a Moonshot Factory, braço de inovação da Alphabet, dona do Google. A colaboração prevê quatro iniciativas – duas delas já mais maduras – que aplicarão IA nos setores de energia elétrica, telecomunicações, planejamento urbano e gestão de resíduos.

A parceria foi celebrada nesta segunda-feira em evento ligado à Cúpula Mundial de Prefeitos no Porto Maravalley, hub de tecnologia e inovação da cidade, no bairro do Santo Cristo. O acordo envolve troca de tecnologia e conhecimento. Os termos do contrato e os valores envolvidos não foram divulgados.

‘Google Maps’ da rede elétrica

Entre os quatro projetos que chegam ao Rio, o que despertou o interesse inicial da prefeitura e deu origem à parceria é o Tapestry, uma espécie de “Google Maps” da rede elétrica urbana, como explicou Astro Teller, CEO da Moonshot Factory, em entrevista ao GLOBO. A plataforma usa IA e visão computacional para mapear toda a rede, identificando, por exemplo, postes e equipamentos que precisam de manutenção ou atualização.

No Rio, a ideia é que a plataforma ajude a preparar a cidade para o aumento da demanda de energia previsto pelo projeto “Rio AI City”, ao lado do Parque Olímpico, onde os data centers que serão construídos devem usar a infraestrutura de cabos de alta velocidade remanescente dos Jogos de 2016. A previsão é que, quando totalmente pronto, o Rio AI City consuma tanta eletricidade quanto toda a cidade hoje.

Ter um mapa detalhado da rede parece algo básico, mas não é trivial, explica Teller. A rede elétrica é uma das mais antigas e caras em operação no mundo, e veio sendo construída ao longo dos últimos cem anos. O Tapestry oferece, portanto, uma visibilidade maior da rede. Uma espécie de “Google Maps da rede elétrica”, diz o executivo.

— Vamos fazer isso no Rio para apoiar a visão do prefeito de uma “cidade de IA” do futuro, porque se a rede elétrica não estiver pronta, data centers não podem chegar para dar suporte a essa visão. (…) O primeiro passo será trabalhar com muitos parceiros locais e montar um plano — diz Teller, que calcula “alguns trimestres” até que o projeto apresente efeitos práticos.

Outro projeto, também mais maduro dentro das inovações do laboratório da Alphabet, é o Taara, uma caixa que usa feixes de luz invisíveis ao olho humano para transmitir internet em alta velocidade. Quase como o canal de transmissão de fibra óptica, só que sem fio. Pela luz, as informações são transmitidas a uma velocidade de até 20 gigabits por segundo, a distâncias de até 20 quilômetros.

Mais internet em escolas públicas e hospitais

No Rio, a tecnologia será usada para implantar 22 links que vão conectar escolas, hospitais e postos de saúde municipais. Será a primeira cidade a receber a internet por feixe de luz da Taara em formato de rede em malha (mesh network), que permite redirecionar o tráfego se um dos enlaces cair, deixando a rede mais estável e resiliente.

A prefeitura também planeja usar um caminhão equipado com uma dessas unidades. Assim, em caso de emergência ou desastre natural, é possível levar o dispositivo para qualquer ponto da cidade. Basta apontar a unidade para uma rede para ter internet banda larga em segundos.

— Como é algo rápido de instalar, o tempo não é o problema — afirma Teller — Acho que ainda haverá algum planejamento sobre quais hospitais e escolas a cidade vai priorizar. A Taara vai trabalhar nisso. (…) Eu diria que vai levar pelo menos dois ou três trimestres, até o próximo ano, para isso ser implementado, mas acho que veremos os resultados já no ano que vem — avalia.

Licenciamento urbano mais rápido e lixo ‘inteligente’

O terceiro projeto chama-se “Anori”, um software criado para simplificar e acelerar processos de construção e licenciamento urbano. A plataforma reúne incorporadoras, arquitetos e prefeitura em um mesmo sistema para reduzir o tempo e o custo do planejamento de empreendimentos residenciais e comerciais.

No Rio, a ferramenta será usada para acelerar o processo de licenciamento urbano. A meta é reduzir o tempo de análise de um projeto e aprovação de meses para minutos, além de usar os dados da Anori para prever cenários de crescimento urbano e atrair novos investimentos para a cidade.

É a primeira vez que o Moonshot Factory fecha uma parceria envolvendo vários projetos de uma só vez com uma cidade no mundo. O Rio será, inclusive, a primeira cidade fora dos Estados Unidos a receber o projeto “Materra”, voltado à redução do desperdício e à economia circular.

Com um equipamento menor que uma geladeira, o Materra usa IA para identificar, a nível molecular, os materiais que compõem o lixo e assim direcioná-los para o tipo correto de reciclagem. No Rio, o projeto será implementado em parceria com a Comlurb, com o objetivo de elevar a taxa de reciclagem da cidade de 1,4% para 35% até 2030 e 80% até 2050.

Funciona assim: o dispositivo analisa os resíduos em uma esteira de triagem e identifica, em segundos, os diferentes tipos de materiais. A partir daí, os materiais podem ser separados de forma robótica e transformados novamente em matéria-prima por processos químicos, térmicos, mecânicos ou biológicos. Em outras palavras, um saquinho feito de petróleo pode ser convertido de volta em petróleo.

— Se a matéria-prima usada pra produzi-lo puder ser reconstruída, o que hoje é lixo e ocupa espaço passa a gerar receita pra cidade. Acho que há uma visão de que isso se torne uma parte importante de como o Rio vai funcionar, e de como o Rio se tornará não só uma cidade de IA, mas uma cidade de IA sustentável — diz Teller.

Laboratório da Alphabet, do Google, e prefeitura do Rio firmam parceria para testar IA em gestão urbana

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Donos de gigante farmacêutica doam fortuna e constroem cidade da tecnologia e da educação no Paraná

Casal de empresários quer oferecer tecnologia e educação para que outras pessoas também superem o ciclo de pobreza

Por Renée Pereira e Carlos Eduardo Valim – Estadão – 31/10/2025 

Quando Luiz Donaduzzi nasceu, em janeiro de 1955, em Jaguari (RS), seu pai, Aldemar, enxergou no filho a oportunidade de realizar o que a vida até então lhe negara e, sobretudo, de romper o ciclo de pobreza que marcava a família — descendente de imigrantes europeus chegados ao Brasil entre 1860 e 1870. A escola e o estudo se tornaram quase um mantra para o patriarca, que fez da educação uma promessa e um propósito: transformar o menino em um homem de sucesso.

Não foram poucos os desafios e os percalços no caminho, mas Aldemar cumpriu sua palavra. Luiz estudou, formou-se e construiu uma trajetória que o consagrou como um grande empresário — um homem que, hoje, também tem seus próprios mantras. Um deles é devolver à sociedade parte do que conquistou, ajudando famílias de baixa renda a oferecer educação a seus filhos.

Formado em farmácia e bioquímica pela Universidade Estadual de Maringá e doutor em Biotecnologia pelo Instituto Politécnico de Lorraine de Nancy, Donaduzzi criou uma das maiores empresas do setor farmacêutico brasileiro. Hoje, a Prati-Donaduzzi, fundada em 1993, é a maior produtora de medicamentos genéricos do País, em volume produzido, e vale cerca de R$ 8 bilhões.

Carmen e Luiz Donaduzzi no projeto Biopark, que tem objetivo de criar uma cidade tecnológica e de inovação no Paraná Foto: Divulgação/Biopark

Para você

“Fizemos fortuna. Seria escandaloso ter todo esse dinheiro e deixar tudo para os filhos”, diz Donaduzzi. A ideologia e a decisão de doar parte da fortuna sempre foi compartilhada pela mulher, Carmen, com quem teve dois filhos. Ela era irmã de um colega de classe de Luiz na época em que ele estudava em um ginásio agrícola.

Carmen chegou a se declarar para Luiz aos 15 anos em uma carta, mas não foi correspondida. Tempos mais tarde eles se reencontraram, namoraram e se casaram, em 1976. Após concluir a faculdade, os dois foram fazer pós-graduação na França, onde nasceu o primeiro filho. De volta ao Brasil, decidiram criar um negócio próprio e tudo começou com a venda de chás.

A ideia veio após uma breve pesquisa em uma farmácia em Pernambuco, onde estavam morando. Ali Luiz concluiu que os chás poderiam ter grande demanda no inverno chuvoso do Estado. “No dia seguinte, foi ao mercado e comprou chás a granel, grampo, grampeador e saquinhos plásticos. O casal começaria pelo mais simples possível”, segundo um trecho do livro Pressa de Futuro, escrito por Rogério Godinho, que conta a trajetória de Donaduzzi e sua mulher.

O próximo passo era produzir algum tipo de medicamento. Carmen estudou livros, enciclopédias, e o primeiro produto a ser feito pelo casal foi a pasta d’água, usada para tratar queimaduras, assaduras e irritações de pele. Depois vieram algumas cápsulas feitas manualmente — e com muito esforço de Carmen e Luiz.

Após muitas idas e vindas, de volta ao Sul, o casal deu início à construção da Prati-Donaduzzi. Naquela época, o governo do Paraná dava incentivos para empresas que quisessem investir e gerar empregos na região. A cidade escolhida foi Toledo. Ali, a farmacêutica começou a produzir medicamentos quase que de forma artesanal, sem máquinas — as primeiras que chegaram à fábrica eram usadas e tiveram de passar por consertos e adaptações.

Hoje a Prati-Donaduzzi tem capacidade para produzir 17 bilhões de doses por ano e conta com uma equipe de mais de 5 mil profissionais. A empresa fechou o ano de 2024 com faturamento de R$ 2,4 bilhões, e a expectativa é de, em 2027, chegar a R$ 4 bilhões — uma receita mais de 10 vezes superior à de 2013.

Em 2016, o casal Donaduzzi decidiu profissionalizar a gestão da empresa e entregou o comando para Eder Fernando Maffissoni, que era o diretor de Marketing da companhia. Hoje Donaduzzi está no conselho de administração. “Vou lá, fico por duas horas, aprovo as compras e os investimentos e confio no trabalho dos executivos”, diz ele.

Após deixar a presidência da empresa, então com 61 anos, o empresário passou a ter mais tempo para pensar em outras iniciativas. Mas ele não queria ter mais um negócio para ganhar dinheiro. Seu objetivo era criar algo que pudesse ajudar a vida das pessoas, diz.

“A empresa vale em torno de R$ 8 bilhões, e quem fez isso não fomos nós. Foram os trabalhadores”, diz ele. O casal não tem o objetivo de vender, ter sócio ou abrir o capital da companhia. “Seria como vender as crianças”, diz Donaduzzi.

Cidade tecnológica

Atualmente, o cotidiano deles envolve outras iniciativas. A principal consiste em gastar boa parte da fortuna acumulada na criação do Biopark, uma espécie de cidade tecnológica e voltada para a educação, de 5 milhões de metros quadrados (m²), localizada a 10 quilômetros de Toledo, onde fica a Prati-Donaduzzi. Para desenvolver o projeto, o casal criou uma associação para transferir parte da fortuna e investir no ensino, empreendedorismo e inovação. Isso tudo dentro do Biopark.

A ideia, conforme o livro que relata a vida dos Donaduzzi, era criar um projeto como o de Sophia Antipolis (um parque tecnológico localizado a noroeste de Antibes e sudoeste de Nice, no sul da França), uma região que em 1969 havia sido capaz de atrair grandes corporações com a estratégia de estimular a inovação. “Décadas depois, a região empregava mais de 40 mil pessoas em pesquisa científica de ponta.”

No futuro, a minicidade dos Donaduzzi poderá abrigar 75 mil pessoas, incluindo parte dos profissionais da farmacêutica e suas famílias. O casal afirma já ter investido R$ 402 milhões no projeto e diz que ainda deve colocar mais R$ 400 milhões.

O ensino no Brasil remonta à Revolução Industrial, ao estilo das casernas e prisões. Nós pedimos para a prefeitura a lista de crianças consideradas problemas, para trazermos para nossa escola.

Carmen Donaduzzi

Isso envolve residências para as famílias que terão crianças estudando no local, um hospital comunitário, doado para a Universidade Federal do Paraná, e faculdade. Hoje as moradias são cedidas como benefício aos estudantes bolsistas do Biopark que atendem a uma série de requisitos. Há também algumas unidades onde moram colaboradores da indústria. “Queremos tudo assim. Vamos estar mortos em 10 anos”, brinca Luiz.

O coração do empreendimento é desenvolver uma educação de qualidade, desde a infância até o ensino superior. A origem da iniciativa foi perceber que as crianças-problema do ensino tradicional eram apenas malconduzidas e que poderiam ter alto desempenho e fazer a diferença na sociedade. A escola é gratuita para os alunos selecionados, assim como os outros estabelecimentos do Biopark.

“O ensino no Brasil remonta à Revolução Industrial, ao estilo das casernas e prisões”, diz Carmen. “Nós pedimos para a prefeitura a lista de crianças consideradas problemas, para trazermos para nossa escola.”

Eles são estimulados a participar de uma incubadora infantil de invenções, que já construiu coisas que vão de pequenos foguetes e cadeiras de rodas elétricas até a formas de acabar com o cascudinho do frango, uma praga que afeta a produção agrícola. “A mudança no ensino não vai vir dos insiders dessa área, mas sim com os outsiders”, defende Luiz. “E a inteligência artificial vai chegar como um tsunami.”

Os Donaduzzis doaram parte do terreno para receber um campus da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e construíram um espaço para ter outro campus da UFPR. Também trouxe o Clube de Ciências, o projeto para crianças e adolescentes entre 8 e 17 anos, que surgiu ainda dentro da Prati-Donaduzzi.

Para outros alunos, foi construído um colégio, e no futuro deve ter ainda uma creche. Por fim, há uma faculdade, a Biopark Educação, que promove cursos de ciência e tecnologia, engenharia de biotecnologia, farmácia, administração de empresas, tecnologia, ciência de dados, engenharia de software, inteligência artificial, psicologia e pedagogia.

“Queremos transformá-la numa universidade, em sete ou oito anos. Para isso, ainda precisaremos ter mais cursos, como os de engenharia e pedagogia”, afirma Carmen.

Os filhos do casal estão no empreendimento: Victor Donaduzzi, formado em química, é diretor comercial do Biopark e Sara Donaduzzi, que cursou psicologia, atua na parte de RH do Biopark. O trabalho do casal de empresários é para que os filhos continuem a perpetuar o mantra que começou com Aldemar Donaduzzi: levar educação e conhecimento a um número cada vez maior de crianças.

Donos de gigante farmacêutica doam fortuna e constroem cidade da tecnologia e da educação no Paraná – Estadão

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Como será o trabalho na nova era da ‘IA agêntica’

Evolução da inteligência artificial generativa deve gerar novos desafios profissionais

Por Fernanda Gonçalves — Valor – 23/10/2025 

A nova era do trabalho exigirá menos execução e mais discernimento. Ao assumir tarefas repetitivas e complexas, a inteligência artificial irá redefinir o papel do humano no trabalho e potencializar o seu valor, já que as pessoas poderão se concentrar em interpretar informações, tomar decisões e inovar. Esse foi o consenso formado entre executivos e especialistas durante o Oracle AI World, evento que reuniu 16 mil pessoas de 152 países entre os dias 13 e 16 de outubro em Las Vegas, nos Estados Unidos.

“A IA muda tudo”, principal tema do encontro, marca o novo posicionamento adotado pela própria Oracle. Antes vista como um banco de dados tradicional, a gigante de tecnologia se apresenta agora como uma plataforma de nuvem e inteligência artificial orquestrada por um modelo de IA multimodal, capaz de entender, processar e gerar diferentes tipos de dados ao mesmo tempo.

Yvette Cameron, vice-presidente sênior de gestão de capital humano e marketing da Oracle, afirmou que estamos entrando na “era da IA agêntica”. “É aqui que a IA não apenas cria, mas age. Até então, vínhamos usando a IA generativa, que realmente nos ajudou a trabalhar mais rápido e de forma mais inteligente. Mas a IA agêntica vai muito mais longe, pois entende os objetivos, aprende com o contexto e age em nosso nome para que possamos ser liberados para nos concentrarmos no que realmente importa. Não se trata de substituir o potencial humano, mas de acelerá-lo”, destacou.

No entanto, segundo a especialista, os principais desafios permanecem. “Ainda precisamos desenvolver habilidades, contratar pessoas e desenvolver nossos líderes. Mas na era da IA agêntica, a complexidade, as expectativas e o ritmo da mudança são significativamente afetados porque ela é capaz de antecipar o que vem a seguir”, explica.

Uma das principais ferramentas dessa nova era são os “agentes de IA”, sistemas que funcionam como assistentes especializados para a execução de tarefas específicas. Em recursos humanos, por exemplo, eles podem enviar mensagens de acordo com o perfil do funcionário, atuar como coaches de carreira conectando habilidades, metas e aprendizado, ajudar líderes a gerenciar equipes, alinhar decisões e definir orçamentos, recomendar a função mais adequada para o perfil do profissional, identificar competências e lacunas de habilidades na força de trabalho, avaliar desempenhos, além de otimizar o recrutamento e auxiliar nas contratações.

Agentes de IA da área de saúde, por sua vez, podem fazer revisões de prontuários, dar suporte à decisão, prever riscos e sugerir cuidados preventivos. Enquanto isso, no direito, um agente investigador de crimes financeiros pode coletar e analisar evidências, formar narrativas e recomendar uma decisão ao profissional da área.

“Pessoas que trabalham em call centers podem resolver problemas em tempo real em vez de registrar solicitações e esperar dias por uma resposta. Se você é um líder financeiro, consegue identificar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos números. No RH, passa a ter insights instantâneos e automação que permitem que você se concentre na estratégia, na criatividade e no cuidado com o seu pessoal”, exemplifica Mike Sicilia, CEO da Oracle.

Durante o encontro, foram apresentados casos de uso reais que já estão sendo colocados em prática em diferentes áreas. Dawn Tittensor, vice-presidente de transformação digital da Wood PLC, empresa global de consultoria e engenharia que opera em 60 países, contou que, antes da adoção da tecnologia, trabalhava com dezenas de sistemas de RH para gerir seus 36 mil funcionários ao redor do globo. “Tínhamos muitas maneiras de trabalhar, com processos diferentes, e era muito difícil reunir os dados e relatórios de todos os nossos funcionários”, recorda.

Ao unificar os sistemas e adotar a IA, o trabalho passou a fluir, os profissionais ganharam mais autonomia e o tempo de contratação, que durava em média 45 dias, caiu para 21 dias. “Os agentes ajudam nossos funcionários e gerentes a encontrar as respostas que procuram e os orientam no fluxo de trabalho. As pessoas não precisam mais enviar um e-mail para o RH, entrar em contato com fornecedores e aguardar uma resposta. Elas entram no aplicativo, recebem a orientação sobre o que precisam e podem se concentrar novamente em atividades que agregam real valor ao seu trabalho”, relata.

Ravi Simhambhatla, chief digital and innovation officer do Avis Budget Group, de aluguel de veículos, faz uma analogia: “os dados são o novo petróleo, e a IA é o facilitador que faz esse petróleo ganhar vida”. Na sua visão, a tecnologia permite que os funcionários se tornem solucionadores de problemas em vez de coletores de informações.

Ele diz que a IA ajudou a tornar as compras mais eficientes na sua companhia. “Nossos técnicos precisam encomendar peças de carros. Não quero que eles tenham que pensar em qual peça pedir, para qual carro, e procurar o melhor preço. A IA faz isso por eles”, pontua. “Já para as empresas, ela devolve a mercadoria mais importante e que não temos controle: o tempo. Hoje, algo que levava cinco horas, é feito em dois minutos.”

Os dados são o novo petróleo, e a IA é o facilitador que faz esse petróleo ganhar vida”

— Ravi Simhambhatla

No setor de serviços e hospitalidade, a IA é capaz de “trazer o humano para frente”, segundo Ty Breland, CHRO e vice-presidente executivo de serviços de operações globais da rede de hotelaria Marriott International. Por meio da IA e de um sistema unificado, a empresa está simplificando o processo manual de check-ins e reservas. “Os atendentes agora gastam menos tempo digitando e mais tempo conversando e cuidando das pessoas”, comenta. “Por muito tempo, quando falávamos sobre eficiência, a ideia era: ‘como fazer mais com menos?’. Agora, com a IA, podemos fazer menos, mas ter mais impacto.”

Para entender onde os investimentos deveriam ser direcionados, Breland revelou que decidiu ouvir os próprios funcionários. “Perguntamos para eles: ‘qual é a parte mais dolorosa do seu trabalho? Quais partes do processo estão te atrasando? Se pudéssemos modificar algumas coisas para simplificar e, ao mesmo tempo, enriquecer o seu papel, o que seria?’. Começamos por aí e, quando passamos a implantar as soluções, isso se tornou algo contagioso. Eles realmente queriam mais. Estão adotando, compartilhando com seus colegas e realmente colocando as ferramentas para funcionar”, conta.

Cerca de 4 bilhões de documentos são trocados mundialmente todos os dias em função do comércio exterior, revela André Barros, CEO da plataforma brasileira de logística internacional eComex. “Normalmente, seres humanos são responsáveis por recepcionar esses documentos e digitar as informações nos sistemas”, detalha. “Nós criamos um agente de IA que recebe os documentos, identifica, transforma as informações em dados estruturados e os processa automaticamente no sistema.”

Barros explica que, para poder confiar nos agentes de IA, é preciso monitorar e gerenciar as atividades deles. “Quem faz isso são as mesmas pessoas que foram liberadas daquele trabalho pesado e repetitivo de digitar faturas e documentos nos sistemas. Por isso, nós acreditamos que estamos passando muito mais por uma transformação humana do que por uma transformação digital”, elabora.

Calvin Butler, CEO da Exelon, empresa de fornecimento de energia que atende cerca de 10 milhões de clientes nos EUA, compartilha que o seu maior desafio foi conseguir convencer funcionários que trabalham na empresa há 30 ou 40 anos a utilizar a IA. “Eu posso ter toda essa tecnologia, mas se as pessoas não souberem como usá-la e não toparem, nada feito”, diz.

Ele recorda quando trabalhadores que faziam leituras de medidores de energia foram substituídas pela tecnologia e comenta que algo semelhante deve acontecer na era da IA. “Treinamos novamente todos esses profissionaise agora eles estão fazendo trabalhos dentro da organização que antes não tinham ideia de como fazer”, relata.

Já no setor público, a IA tem sido utilizada para trazer ganhos de velocidade na análise de processos da Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo. Uma plataforma treinada com dados jurídicos gera resumos personalizados de petições e auxilia na elaboração de decisões judiciais. Também há um assistente que permite que os promotores usem linguagem natural para interagir com processos digitais, ajudando-os a recuperar documentos, localizar valores monetários ou pesquisar decisões passadas. “Existem muitos processos que ainda dependem somente de análise humana. A IA não vai substituir, mas pode facilitar, acelerar e diminuir o risco de erros”, avalia Bento Bueno, vice-presidente de setor público para a Oracle América Latina.

“Uma série de empresas está gastando grandes fortunas treinando modelos de IA. É o maior e mais rápido negócio da história da humanidade, maior até do que a Revolução Industrial”, declarou Larry Ellison, presidente do conselho e CTO da Oracle, ao abrir sua palestra no palco principal da conferência.

Ellison aproveitou a apresentação para compartilhar sua visão de futuro: “um mundo totalmente novo surgirá quando começarmos a usar esses notáveis cérebros eletrônicos para resolver os problemas mais difíceis e duradouros da humanidade”, assinalou.

Entre os usos práticos da IA citados pelo fundador da Oracle estão o diagnóstico precoce de câncer e a realização de cirurgias mais precisas. “A tecnologia nos ajudará a resolver problemas que não poderíamos resolver sozinhos. Isso nos tornará melhores cientistas, engenheiros, professores, chefs e médicos”, disse.

“Os robôs de IA são cirurgiões muito melhores do que os melhores médicos. Não porque eles são mais inteligentes do que nós, mas porque eles têm melhor coordenação entre olho e mão, e não precisam de um microscópio para ver onde termina o câncer e começa o tecido saudável”, apontou como exemplo.

Ele ainda destacou a capacidade de processamento de informações da tecnologia. “Os modelos de IA raciocinam muito rapidamente, podem lidar com muitos dados e obter respostas as quais nunca chegamos. Eles fazem deduções, inferem, calculam, têm estratégia e regras. Simulam e usam as mesmas técnicas de raciocínio que os humanos usam, mas pensam muito mais rápido do que nós ou resolvem problemas realmente complicados que não podemos resolver de forma alguma”, detalhou.

Seguindo as previsões de Ellison, Leandro Vieira, vice-presidente de IA e tech para a América Latina da Oracle, afirmou em entrevista ao Valor durante o evento que o design organizacional deve mudar completamente nos próximos anos. “Hoje, é como se cada organização fosse um quebra-cabeça. E cada área da empresa é uma peça desse quebra-cabeça”, explica. “Agora, vamos sair desse modelo de quebra-cabeça e imaginar que a IA são círculos. O ser humano vai ser a cola entre esses círculos, se tornando um interlocutor e conectando o que a IA faz ao que não faz. O recrutador, por exemplo, vai deixar a execução de lado para assumir uma visão mais analítica dos processos”, diz.

Apesar do clima de otimismo, especialistas divergem sobre quando exatamente poderemos ver esse futuro se concretizando. Vieira arrisca um palpite: “veremos uma grande mudança acontecendo nos próximos três a cinco anos”, aposta. (A jornalista viajou a convite da Oracle)

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O Século de Schumpeter

Como mostra Thomas K. McCraw em O Profeta da Inovação, Schumpeter foi um dos primeiros economistas a compreender que o dinamismo do capitalismo nasce de dentro

Por Evandro Milet – Portal ES360 –  26/10/2025

Joseph Schumpeter. Foto: Reprodução

O Prêmio Nobel de Economia concedido a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt reconhece oficialmente aquilo que Joseph Schumpeter anteviu há quase um século: o capitalismo sobrevive não pela estabilidade, mas pela mudança constante. As teorias premiadas sobre o crescimento econômico sustentado pela inovação e pela “destruição criativa” são, em essência, o prolongamento contemporâneo do pensamento schumpeteriano.

Como mostra Thomas K. McCraw em O Profeta da Inovação, Schumpeter foi um dos primeiros economistas a compreender que o dinamismo do capitalismo nasce de dentro, e não de forças externas. O sistema, dizia ele, vive de “perturbação”. Seu verdadeiro equilíbrio é o desequilíbrio permanente. Cada nova invenção, cada avanço tecnológico, substitui empresas, setores e hábitos antigos — um processo doloroso, mas essencial ao progresso.

Essa visão contrasta radicalmente com o pessimismo marxista. Marx via no capitalismo um mecanismo de exploração e crescente miséria; Schumpeter enxergava nele o motor da prosperidade. Admitia a desigualdade de resultados, mas acreditava que a inovação elevava, “em virtude do seu próprio mecanismo”, o padrão de vida das massas. Para ele, o empreendedor — e não o capitalista passivo — era o verdadeiro protagonista da história econômica.

Em Marx, a sociedade capitalista contém apenas duas classes: os capitalistas que detêm e controlam os meios de produção, e os proletários, que não podem fazê-lo. Muitos proletários abriram negócios e também tornaram-se capitalistas. Marx não foi capaz de “distinguir o empreendedor do capitalista”. Essa distorção persiste até hoje: ou é patrão ou trabalhador.

Na visão de Schumpeter, Marx viu com mais clareza que qualquer outro o dinamismo da máquina capitalista. Se não estivesse tão obcecado com a luta de classes e a exploração das massas, sua influência em outros analistas teria sido muito maior.

Schumpeter defendia a igualdade de oportunidades, mas também sustentava que o resultado da desigualdade de esforço eram merecidos. Considerava a disparidade de rendas não só inevitável na sociedade capitalista como eficaz no estímulo à inovação.

Escreveria o próprio Schumpeter em 1946, no início de seu longo artigo sobre o capitalismo para a Enciclopédia Britânica: ”Uma sociedade pode ser considerada capitalista quando confia seu processo econômico à orientação dos homens de negócio. Pode-se considerar que isso implica em primeiro lugar, a propriedade privada dos meios de produção[…] em segundo, a produção para o lucro privado, ou seja, a produção pela iniciativa privada em proveito privado”. Ele acrescentava que um terceiro elemento é “tão essencial para o funcionamento do sistema capitalista” que não pode deixar de ser adicionado aos outros dois. Esse elemento é a criação do crédito. Derivado da palavra latina credo – “Eu creio” – , o crédito representa uma aposta num futuro melhor.

É essa crença que sustenta a coragem de quem arrisca em nome da novidade. Como McCraw destaca, Schumpeter via o empreendedor como um “revolucionário econômico”, movido não por ganância, mas por ambição criadora e desejo de deixar marca no mundo.

Ao situar a inovação como força vital do capitalismo, Schumpeter também redefiniu a própria ideia de concorrência. Ela não se dá apenas pelos preços, mas pela introdução de “novas mercadorias, novas tecnologias e novas formas de organização”. Esse conceito, que parece óbvio à luz da economia digital do século XXI, era revolucionário nos anos 1940.

É por isso que o Nobel deste ano soa como um tributo tardio. Mokyr, Aghion e Howitt deram forma matemática a uma intuição que Schumpeter desenvolveu com genialidade literária e histórica. A “teoria do crescimento endógeno” é, em muitos sentidos, a confirmação empírica da “destruição criativa” — um ciclo de nascimento e morte empresarial que mantém viva a engrenagem capitalista.

No mundo atual, em que a inovação tecnológica redefine indústrias inteiras em poucos anos, Schumpeter é mais atual do que nunca. Como escreve McCraw, “as ideias modernas sobre o capitalismo são, em grande medida, dele”. Sua influência atravessa a economia, a política e até a cultura de negócios, que passou a falar em “estratégia empresarial”, “estratégia corporativa” e “espírito empreendedor” nos termos que ele ajudou a criar ao estabelecer um paralelo entre as iniciativas corporativas e o comportamento militar. Foi uma das mais significativas ideias surgidas no pensamento econômico desde a década de 1940.

Hoje, no século XXI, muitos economistas acrescentam o empreendedorismo aos três fatores tradicionalmente contemplados na produção: terra, trabalho e capital. Esse acréscimo deve muito à obra de Schumpeter.

Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, já afirmou que “o século XXI será o século de Schumpeter”. O Nobel de 2025 parece confirmar essa previsão. A economia global, impulsionada por ciclos incessantes de inovação e destruição, continua a seguir o roteiro que o economista austríaco escreveu antes de todos: um sistema vibrante, criativo — e em permanente estado de desequilíbrio.

O Século de Schumpeter – ES360

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Como a IA generativa pode mudar a forma como pensamos e falamos

  • Uma análise apontou repercussões em habilidades cognitivas
  • Outra indicou efeitos negativos na tomada de decisões

Antonio Cerella – Folha/The Conversation – 19.out.2025

Professor adjunto, estudos sociais e políticos, Universidade de Nottingham Trent

Não há dúvida de que a inteligência artificial (IA) terá um impacto profundo em nossas economias, trabalho e estilo de vida. Mas será que essa tecnologia também poderá moldar a maneira como pensamos e falamos?

A IA pode ser usada para redigir redações e resolver problemas em meros segundos que, de outra forma, levariam minutos ou horas. Quando passamos a confiar excessivamente nessas ferramentas, é provável que deixemos de exercitar habilidades essenciais, como o pensamento crítico e nossa capacidade de usar a linguagem de forma criativa. Os precedentes das pesquisas em psicologia e neurociência sugerem que devemos levar essa possibilidade a sério.

Há vários precedentes para a tecnologia reconfigurar nossas mentes, em vez de apenas auxiliá-las. Pesquisas mostram que as pessoas que dependem de GPS tendem a perder parte de sua capacidade de formar mapas mentais.

Antes do advento da navegação por satélite, os motoristas de táxi de Londres memorizavam centenas de ruas. Como resultado, eles desenvolveram hipocampos aumentados. O hipocampo é a região do cérebro associada à memória espacial.

Em um de seus estudos mais marcantes, o psicólogo russo Lev Vygotsky examinou pacientes que sofriam de afasia, um distúrbio que prejudica a capacidade de entender ou produzir a fala.

Quando solicitados a dizer que “a neve é preta” ou a dizer o nome errado de uma cor, eles não conseguiam. Suas mentes resistiam a qualquer separação entre palavras e coisas. Vygotsky via isso como a perda de uma habilidade fundamental: usar a linguagem como um instrumento para pensar de forma criativa e ir além do que nos é dado.

Será que o excesso de confiança na IA pode gerar problemas semelhantes? Quando a linguagem vem pré-embalada em telas, feeds ou sistemas de IA, o vínculo entre o pensamento e a fala pode começar a enfraquecer.

Na educação, os alunos estão usando IA generativa para escrever redações, resumir livros e resolver problemas em segundos. Em uma cultura acadêmica já moldada pela competição, métricas de desempenho e resultados rápidos, essas ferramentas prometem eficiência ao custo da reflexão.

Muitos professores reconhecem aqueles alunos que produzem textos eloquentes e gramaticalmente impecáveis, mas revelam pouca compreensão do que escreveram. Isso representa a erosão silenciosa do pensamento como uma atividade criativa.

Soluções rápidas

Uma revisão sistemática, publicada em 2024, constatou que o excesso de confiança na IA afetou as habilidades cognitivas das pessoas, pois cada vez mais os indivíduos privilegiam soluções rápidas em detrimento das lentas.

Um estudo com 285 alunos de universidades no Paquistão e na China descobriu que o uso da IA afetava negativamente a tomada de decisões humanas e tornava as pessoas preguiçosas. Os pesquisadores disseram: “A IA executa tarefas repetitivas de forma automatizada e não permite que os humanos memorizem, usem habilidades mentais analíticas ou usem a cognição”.

Há também um extenso trabalho sobre o desgaste do idioma. Trata-se da perda de proficiência em um idioma que pode ser observada em cenários do mundo real. Por exemplo, as pessoas tendem a perder a proficiência em seu primeiro idioma quando se mudam para um ambiente onde se fala um idioma diferente. O neurolinguista Michel Paradis diz que “o desgaste é o resultado da falta de estímulo a longo prazo”.

O psicólogo Lev Vygotsky dizia acreditar que o pensamento e a linguagem coevoluíram. Eles não nasceram juntos, mas, por meio do desenvolvimento humano, fundiram-se no que ele chamou de pensamento verbal. De acordo com esse cenário, a linguagem não é um mero recipiente para ideias, mas é o próprio meio pelo qual as ideias tomam forma.

A criança começa com um mundo cheio de sensações, mas pobre em palavras. Por meio da linguagem, esse campo caótico torna-se inteligível. À medida que crescemos, nossa relação com a linguagem se aprofunda. A brincadeira se torna imaginação e a imaginação se torna pensamento abstrato. O adolescente aprende a traduzir emoções em conceitos, a refletir em vez de reagir.

Essa capacidade de abstração nos libera do imediatismo da experiência. Ela nos permite nos projetar no futuro, remodelar o mundo, lembrar e ter esperança.

Mas esse relacionamento frágil pode se deteriorar quando a linguagem é ditada em vez de descoberta. O resultado é uma cultura de imediatismo, dominada pela emoção sem compreensão, pela expressão sem reflexão. Os alunos, e cada vez mais todos nós, corremos o risco de nos tornarmos editores do que já foi dito, onde o futuro é construído apenas a partir de fragmentos reciclados dos dados de ontem.

As implicações vão além da educação. Quem controla a infraestrutura digital da linguagem também controla os limites da imaginação e do debate. Entregar a linguagem aos algoritmos é terceirizar não apenas a comunicação, mas também a soberania —o poder de definir o mundo que compartilhamos. As democracias dependem do trabalho lento de pensar por meio de palavras.

Quando esse trabalho é substituído pela fluência automatizada, a vida política corre o risco de se dissolver em slogans gerados por ninguém em particular. Isso não significa que a IA deva ser rejeitada. Para aqueles que já formaram uma relação profunda e reflexiva com a linguagem, essas ferramentas podem ser aliadas úteis —extensões do pensamento em vez de substitutas.

O que precisa ser defendido é a beleza conceitual da linguagem: a liberdade de construir significado por meio da própria busca por palavras. No entanto, defender essa liberdade exige mais do que conscientização, exige prática.

Para resistir ao colapso do significado, devemos restaurar a linguagem à sua dimensão viva e corporal, o trabalho difícil e prazeroso de encontrar palavras para nossos pensamentos. Somente assim poderemos recuperar a liberdade de imaginar, deliberar e reinventar o futuro.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original

Como a IA generativa pode mudar a forma como pensamos – 19/10/2025 – Ciência – Folha

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No século 20, as nações disputavam petróleo. Hoje, brigam por cérebros

Na corrida por talentos em IA, os EUA estão desperdiçando sua grande vantagem

ENRIQUE DANS – Fast Company Brasil – 30-10-2025 

Na inteligência artificial, poder de computação e dados são importantes – mas as pessoas são ainda mais. Por trás de cada modelo inovador, de cada salto tecnológico e de cada “chatbot revolucionário”, há um grupo cada vez menor de cientistas, engenheiros e matemáticos capazes de criá-los. O verdadeiro limite para o avanço da IA na próxima década não está apenas no hardware – está no capital humano.

Em todo o mundo, uma corrida silenciosa está em curso por esse capital. As empresas mais avançadas em inteligência artificial – como OpenAI, Anthropic, DeepMind, Meta, Google e algumas na China – já não disputam apenas clientes ou GPUs. Elas estão competindo por cérebros.

Nos últimos dois anos, o padrão de contratações e aquisições dessas empresas começou a parecer um mapa geopolítico. A Anthropic e a OpenAI têm atraído equipes inteiras de pesquisa do Google e da Meta, oferecendo pacotes de remuneração que chegam à casa dos nove dígitos.

Apple e Amazon, que entraram mais tarde na corrida, estão comprando startups não pelos produtos, mas pelos engenheiros que as criaram. Da mesma forma, o capital de risco também mudou de foco: em vez de financiar ideias, agora investe no chamado “acqui-hiring”– a compra de talento humano antes que ele amadureça em outro lugar.

Diversas análises mostram que universidades de elite nos Estados Unidos – especialmente Stanford, Berkeley, Carnegie Mellon e MIT – continuam sendo as principais fontes de talentos para os laboratórios de ponta, reforçando uma concentração de conhecimento sem precedentes em poucas empresas e regiões.

Essa concentração pode acelerar o progresso no curto prazo, mas também aumenta a fragilidade do setor. Quando a inovação fica concentrada em um pequeno grupo de empresas, o ecossistema se torna monocultural: as mesmas suposições, estruturas éticas e motivações comerciais se repetem.

Como resultado, abordagens alternativas – como o raciocínio simbólico, os modelos híbridos e as arquiteturas descentralizadas – acabam perdendo espaço e financiamento.

A CORRIDA GLOBAL POR MENTES

Enquanto isso, países estão começando a tratar pesquisadores de inteligência artificial como antes tratavam físicos nucleares. O Reino Unido criou vistos especiais para atrair os melhores cientistas para seu órgão de pesquisa, o Frontier AI Taskforce. O Canadá, por meio do programa Global Talent Stream, passou a conceder autorizações de trabalho a engenheiros de IA em menos de duas semanas. Já a França está oferecendo incentivos fiscais e bolsas de pesquisa para empresas que instalem seus laboratórios em Paris ou Grenoble.

A China, por sua vez, diante das restrições de exportação de chips, passou a tratar a inteligência humana como um recurso estratégico. Suas principais universidades formam dezenas de milhares de especialistas em IA por ano, muitos deles treinados em modelos de código aberto desde que as limitações impostas por Washington entraram em vigor.

Em outras palavras: cérebros são os novos semicondutores.

Ironicamente, as empresas que mais se beneficiam do talento global são também as que o tornam escasso. Ao oferecer salários astronômicos e contratos de exclusividade, criam um campo gravitacional que atrai especialistas de universidades e startups.

As universidades – que sempre foram o berço da inovação em IA – estão perdendo pesquisadores para o setor privado em um ritmo inédito. O resultado é um vácuo de pesquisa: instituições públicas simplesmente não conseguem competir.

Essa concentração de mentes nas corporações traz outro custo: a homogeneidade intelectual. Quando as mesmas pessoas circulam entre as mesmas empresas e os mesmos investidores, a fronteira da IA se torna mais estreita, previsível e menos diversa.

As próximas grandes descobertas talvez nunca aconteçam – não por falta de poder computacional, mas porque a comunidade global de pesquisa foi treinada para pensar da mesma forma.

A concentração de talento também levanta questões éticas. Quando um pequeno grupo controla a maior parte do conhecimento mundial sobre IA, ele define quais problemas merecem ser resolvidos – e quais serão ignorados.

Essa tendência já é visível. Bilhões estão sendo investidos em modelos voltados à produtividade, marketing e previsões financeiras, enquanto projetos nas áreas de clima, educação e saúde continuam subfinanciados. A promessa de que a IA “beneficiará a humanidade” se torna vazia quando a própria humanidade não tem voz nesse processo.

Diversidade de pensamento, de origem e de localização não é um luxo moral – é um requisito básico para a resiliência. Sistemas homogêneos falham de formas igualmente homogêneas.

A solução não está apenas na regulação, nem exclusivamente no livre mercado. É preciso um novo contrato social para o talento – um que trate a inteligência humana como um recurso estratégico compartilhado, e não como propriedade privada.

No século 20, as nações disputavam petróleo. No século 21, disputam cérebros.


SOBRE O AUTOR

Enrique Dans leciona inovação na IE Business School desde 1990, hackeando a educação como consultor sênior de transformação digital na IE University e agora se dedicando ainda mais à Turing Dream.

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O que as 14 mil demissões da Amazon revelam sobre a nova era de cortes

  • Empresas citam ganhos de produtividade com IA em anúncios de redução de pessoal
  • Gigante do ecommerce se junta a Salesforce, Microsoft, UPS e Accenture na tendência

Taylor Telford,Danielle Abril,Federica Cocco – Folha/The Washington Post – 29.out.2025

A Amazon anunciou o corte de cerca de 14 mil cargos de sua força de trabalho nos escritórios, tornando-se a mais recente empresa a defender estruturas mais enxutas e hierarquias menores, apostando nas inovações impulsionadas pela inteligência artificial.

As demissões, há muito tempo sinalizadas, vão “remover camadas, aumentar o senso de responsabilidade e gerar ganhos de eficiência”, com o objetivo declarado de administrar a empresa “como a maior startup do mundo”, segundo uma postagem no blog da Amazon nesta terça-feira (28) assinada por Beth Galetti, vice-presidente sênior de experiência e tecnologia de pessoas.

A Amazon empregava 1,56 milhão de pessoas, incluindo trabalhadores de escritório e de centros de distribuição, no fim do ano passado. O fundador da Amazon, Jeff Bezos, é dono do Washington Post.

A empresa se junta a outras grandes corporações —como Salesforce, Microsoft e UPS— que vêm promovendo cortes amplos em suas equipes, muitas vezes apesar de apresentarem bom desempenho financeiro, enquanto profetizam sobre o potencial da IA de permitir inovação e aumento de lucros.

A onda de cortes coincide com a paralisação do governo americano, o que tem levado à escassez de dados justamente quando economistas e formuladores de políticas observam atentamente sinais de desaceleração nas contratações, aumento do desemprego e inflação persistente.

O número total de demissões fica bem abaixo do surto histórico de 2023. Até outubro, as empresas haviam cortado cerca de 98 mil empregos em aproximadamente 115 rodadas públicas de demissões.

Contudo, essas reduções vêm atingindo mais trabalhadores de uma só vez: uma média de mais de 850 funcionários por corte —o nível mais alto em pelo menos cinco anos— impulsionado, em parte, por reduções expressivas em grandes fabricantes de hardware como a Intel.

O anúncio da Amazon ocorre poucos dias antes da divulgação dos resultados financeiros da empresa, mas o CEO Andy Jassy já havia alertado os funcionários, em junho, que os cortes estavam a caminho, atribuindo as reduções às eficiências criadas pelo uso de IA.

Ele disse depois que planejava reduzir a burocracia, eliminando alguns níveis de gestão e “processos desnecessários” que estavam retardando a companhia.

Outros executivos repetiram os argumentos de Jassy ao anunciar suas próprias demissões, prevendo grandes ganhos com o uso de IA para tornar suas operações mais eficientes.

O Walmart, por exemplo, afirmou que planeja manter seu quadro de pouco mais de 2 milhões de trabalhadores nos próximos anos, enquanto transforma sua força de trabalho para a era da inteligência artificial.

Ao divulgar lucros recordes nesta terça-feira, a UPS reconheceu ter cortado cerca de 34 mil cargos operacionais neste ano, além de 14 mil posições gerenciais. A CEO Carol Tomé disse a investidores e analistas que a empresa está “preparada para operar o pico mais eficiente da nossa história”.

“Continuamos encontrando oportunidades para reduzir custos”, afirmou Tomé.

Essas tendências na gestão da força de trabalho apontam para um futuro desafiador para os trabalhadores considerados redundantes ou ultrapassados, disse John Challenger, diretor-executivo da consultoria Challenger, Gray & Christmas.

O número de desempregados de longo prazo vem subindo ao longo do ano, “o que geralmente indica que algumas pessoas estão ficando para trás”.

A Accenture citou diretamente a inteligência artificial ao demitir 11 mil funcionários em setembro, com a CEO Julie Sweet afirmando a investidores, em uma teleconferência de resultados, que os demitidos não poderiam ser requalificados para uma força de trabalho orientada por IA. Ao contrário de muitas outras, porém, a Accenture ainda planeja aumentar seu quadro no próximo ano, disse Sweet.

Em um memorando divulgado no início deste mês, o Goldman Sachs alertou que os funcionários devem esperar mais cortes, apesar dos lucros crescentes, enquanto o banco reduz custos e integra a IA em suas operações.

“Está cada vez mais claro que nossas metas de eficiência operacional precisam refletir os ganhos que virão dessas tecnologias transformadoras”, dizia o memorando, segundo reportagem da Bloomberg News.

O grupo de aviação alemão Lufthansa afirmou em setembro que cortará 4.000 cargos até 2030, enquanto revisa “quais atividades deixarão de ser necessárias no futuro”, observando que “mudanças profundas provocadas pela digitalização e pelo uso crescente da inteligência artificial levarão a uma maior eficiência em muitos setores e processos.”

A Salesforce também cortou cerca de 4.000 cargos em setembro, com o CEO Marc Benioff dizendo em entrevista ao podcast The Logan Bartlett Show que “precisa de menos cabeças”. Durante o verão, Benioff havia dito que a IA já realizava 50% do trabalho na empresa.

“Se as pessoas estão se tornando mais produtivas, você não precisa contratar mais gente”, disse o CEO da Airbnb, Brian Chesky, ao Wall Street Journal em uma matéria publicada nesta semana. Ele afirmou que a empresa planeja pouca contratação no futuro próximo, com a expectativa de que a IA permita que os funcionários atuais “realizem muito mais trabalho”.

Os principais concorrentes da Amazon na corrida pela liderança em IA e data centers também estão enxugando suas equipes.

Na semana passada, a Meta anunciou o corte de cerca de 600 pessoas de sua unidade de IA para competir melhor na corrida global de inteligência artificial.

A unidade, liderada pelo diretor de IA Alexandr Wang —que antes comandava a startup Scale AI —faz parte do laboratório de “superinteligência” da empresa, cujo objetivo é desenvolver sistemas mais inteligentes que os humanos.

A Meta investiu US$ 14,3 bilhões na Scale AI antes de contratar Wang, e desde então teria oferecido pacotes milionários para atrair talentos de IA de concorrentes.

O Google também teria feito cortes em várias de suas unidades neste ano como parte de reorganizações internas. Da mesma forma, a Microsoft demitiu milhares de funcionários enquanto continua investindo em suas ambições em IA.

Após as demissões, o CEO Satya Nadella disse em um memorando aos funcionários que a Microsoft está investindo mais “do que nunca”, que “o número total de empregados permanece relativamente inalterado” e, “ao mesmo tempo, passamos por demissões.”

Demissões da Amazon revelam uma nova era de cortes – 29/10/2025 – Mercado – Folha

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Um benefício inesperado das vacinas contra Covid-19: combater o câncer

Pesquisa sugere que os imunizantes de mRNA da Moderna e da Pfizer podem preparar o sistema imunológico para atacar o câncer

TAYLOR HATMAKER – Fast Company Brasil – 28-10-2025 

As vacinas personalizadas, que treinam o sistema imunológico para combater células cancerígenas específicas, têm mostrado resultados promissores. Mas talvez exista uma forma ainda mais eficaz de tratar o câncer – bem diante dos nossos olhos.

Segundo um novo estudo publicado na revista “Nature”, pacientes em tratamento para câncer de pele e de pulmão em estágio avançado que haviam recebido a vacina de mRNA da Moderna ou da Pfizer contra a Covid-19 apresentaram uma sobrevida maior.

Esses imunizantes utilizam a tecnologia do RNA mensageiro (mRNA), que instrui as células do corpo a produzir uma proteína semelhante à do vírus, desencadeando uma resposta imunológica que ensina o organismo a se proteger.

Uma equipe que pesquisava vacinas de mRNA personalizadas contra o câncer descobriu que sua eficácia estava relacionada não à personalização em si, mas à ampla resposta imunológica que elas provocavam. Isso levou os cientistas a investigar se as vacinas de mRNA já disponíveis poderiam gerar um efeito semelhante.

Eles analisaram os registros de quase mil pacientes com câncer avançado atendidos no MD Anderson Cancer Center, em Houston, no Texas, comparando os resultados entre aqueles que haviam recebido pelo menos uma dose da vacina da Pfizer ou Moderna e aqueles que não haviam sido vacinados. O resultado foi surpreendente: pacientes com câncer de pulmão vacinados viveram quase o dobro do tempo após o início do tratamento.

Pacientes com melanoma agressivo que também receberam um desses imunizantes tiveram uma melhora semelhante – e viveram tanto que a média de sobrevida não pôde ser determinada dentro do período do estudo. Já vacinas que não utilizam mRNA, como as da gripe, não apresentaram o mesmo benefício.

Os ganhos mais expressivos foram observados em pacientes que receberam a vacina até 100 dias antes de iniciar a imunoterapia conhecida como “checkpoint imunológico” e, curiosamente, entre aqueles cujos tumores tinham menos chances de responder bem ao tratamento. Os pesquisadores acreditam que a resposta imune provocada pelas vacinas de mRNA prepara o sistema imunológico para reagir melhor à terapia, estimulando as células T a atacar o câncer com mais intensidade. 

“A vacina de mRNA contra a Covid-19 funciona como um alarme que ativa o sistema imunológico em todo o corpo”, explicou Adam Grippin, coautor do estudo e oncologista do MD Anderson, à “Nature”. “Ficamos impressionados com os resultados que observamos nos pacientes.”

O FUTURO EM RISCO

As próximas pesquisas devem continuar explorando o potencial das vacinas de mRNA no tratamento do câncer – mas o caminho não será fácil. O financiamento científico nos Estados Unidos sofreu cortes severos durante o segundo governo de Donald Trump – e a situação é ainda mais crítica para as pesquisas com mRNA.

Em agosto, o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. anunciou o cancelamento do repasse de US$ 500 milhões em recursos federais destinados a pesquisas de vacinas de mRNA, prejudicando um dos campos mais promissores da medicina moderna – com potencial não apenas para o combate de futuras pandemias, mas também para o tratamento de doenças como o câncer e o HIV.

Em um vídeo justificando a decisão, Kennedy afirmou que a tecnologia de mRNA “traz mais riscos do que benefícios no caso de vírus respiratórios” e que o governo passaria a “investir em soluções que superem as limitações do mRNA.”

Durante a operação Warp Speed – o programa de desenvolvimento de vacinas criado no primeiro mandato de Trump e elogiado até por seus críticos –, o então presidente chegou a chamar a vacina de mRNA da Pfizer de “um milagre médico”. “Este é um dos maiores feitos científicos da história”, declarou na época.

Para especialistas de todo o mundo, interromper esse tipo de pesquisa seria um erro grave. “Não há qualquer benefício nisso”, diz Bill Hanage, professor de epidemiologia da Universidade de Harvard, sobre os cortes no desenvolvimento de vacinas de mRNA. “Há apenas prejuízos. No caso de uma nova pandemia, é como se tivéssemos que enfrentá-la com uma das mãos amarradas.”


SOBRE A AUTORA

Taylor Hatmaker é fotógrafa e jornalista especializada em mídia social, games e cultura digital.

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