A China não quer conquistar, apenas fazer negócios

9 de agosto de 2020 

Os alertas de Pompeo sobre um ‘império marítimo’ não acertam o alvo

Por Robert D. Kaplan

O secretário de Estado Mike Pompeo disse no dia 23 de julho que o objetivo do Exército de Libertação Popular da China não é proteger sua pátria, mas “expandir um império chinês”. No início do mês passado, ele alertou a China para não tratar o Mar da China Meridional “como seu império marítimo”.

Pompeo está realmente muito atrasado. A China, de uma forma ou de outra, é um império há milhares de anos. E sua atual encarnação imperial não é especificamente por causa de suas ações no Mar do Sul da China.

A competição entre as grandes potências sempre foi uma atividade imperial. Não é preciso ficar obcecado, como Pompeo parece estar fazendo, sobre a China ser um império. A verdadeira questão é: que tipo de império é a China?

É um império terrestre ou marítimo? É um império missionário como os EUA, que busca impor seus valores universais, ou outra coisa? Todas essas categorias pressagiam resultados diferentes na luta das grandes potências com a China. E as distinções são tão relevantes hoje quanto eram há séculos e milênios.

Impérios terrestres, como os dos mongóis e os da Rússia sob os czares, tendem a ser inseguros e agressivos, enfatizando o “hard power”. Isso porque as fronteiras terrestres são facilmente violadas, de modo que o poder imperial se sente perenemente inseguro. Impérios marítimos como os de Veneza, Grã-Bretanha e Estados Unidos desde que invadiram as Filipinas em 1898, em geral, tendem a enfatizar o comércio e, portanto, têm sido mais benignos, uma vez que os mares e oceanos oferecem melhor proteção natural, mesmo que os portos sejam abertos a influências cosmopolitas.

A China do século XXI apresenta um desafio único principalmente porque é um império terrestre e marítimo, devido a uma costa de 9.000 milhas ao longo de uma das rotas marítimas mais importantes do mundo e uma posição continental na Eurásia que faz fronteira com adversários históricos como a Índia e a Rússia.

A Iniciativa Belt and Road da China é melhor entendida como um projeto imperial. Por terra, estradas, ferrovias e oleodutos, a China se conectará através da Ásia Central pós-soviética ao Irã, onde ramais se estenderão à Europa e ao Oriente Médio.

Investimentos planejados nos países participantes da iniciativa One Belt, One Road da China

Investimentos planejados nos países participantes da iniciativa One Belt, One Road da ChinaPor via marítima, a China vem construindo e ajudando a financiar portos de última geração com aplicações comerciais e militares do Mar da China Meridional através do Oceano Índico e do Mar Vermelho até o Mediterrâneo oriental. Salientar que vários desses portos e projetos relacionados fazem pouco sentido econômico é ignorar seu significado geopolítico — e, portanto, imperial e mercantil. Onde os navios porta-contêineres forem, os navios de guerra os seguem.

Dada essa dupla natureza, a China será agressiva e cosmopolita. Assim, reprime povos subjugados, como os muçulmanos uigures, que ficam no caminho do Belt and Road em terra, enquanto envia aparelhos de consumo para a África e além com sua frota mercante e comercializa produtos vitais para a economia mundial, como a rede 5G da Huawei Technology Co.

Considerando que os EUA têm sido historicamente uma potência missionária em todo o mundo, fazendo proselitismo dos ideais de democracia e direitos humanos, a China não tem tais impulsos. Funcionará com regimes independentemente de seus valores, autoritários ou não — com o presidente russo Vladimir Putin ou a chanceler alemã, Angela Merkel, não importa. Assim, enquanto a China busca derrubar a hierarquia de poderes existente ao ultrapassar os EUA, por outro lado é um status quo imperium. Ao contrário dos EUA, que sempre buscou mudar as estruturas internas e os sistemas de valores dos países que classifica como autoritários, a China não busca mudanças nos arranjos domésticos de estados individuais.

A China se envolveu em projetos de desenvolvimento de portos com os repressores Mianmar e Paquistão, mas também com a Grécia e a Itália democráticas. A aliança da China com a Rússia pode ter mais a ver com a geopolítica do gás natural do que com o fato de que ambos os países são agora ditaduras.

A recém-revelada parceria estratégica e econômica de 25 anos entre a China e o Irã, potencialmente valendo centenas de bilhões de dólares, foi vista como uma aliança entre duas potências autoritárias. Mas o principal interesse da China é a localização vantajosa do Irã entre o Oriente Médio e a Ásia Central, sua abundância de petróleo e gás natural e sua população instruída de 83 milhões de consumidores em potencial. Se o Irã tivesse uma contra-revolução e se tornasse mais liberal, a China estaria igualmente interessada nessa relação estratégica.

A China é imoral internamente, mas amoral externamente. Repressão aos uigures e tibetanos, a repressão em Hong Kong, potencial agressão contra Taiwan — tudo isso está embutido na geografia imperial chinesa de povos não-han em torno do núcleo étnico han da China. Mas além das fronteiras reais e imaginárias da China, ela busca harmonia em vez de conflitos de valores. Isso não é tão egoísta quanto parece. Os chineses sabem que seu sistema de tributos imperiais entre meados do século 14 e meados do século 19 no Leste Asiático provou que a hegemonia pode ser mais estável e menos sangrenta do que o sistema de equilíbrio de poder da Europa.

Esse sistema de tributos “continha compromissos confiáveis ​​da China de não explorar estados secundários que aceitassem sua autoridade”, explica o cientista político da Universidade do Sul da Califórnia, David C. Kang. A China liderava, mas os estados secundários desfrutavam de “latitude substancial” em seus assuntos.

O povo chinês está bastante confortável com sua história e tradições imperiais, ao contrário do povo do Ocidente que hoje tanto nega quanto pede desculpas por eles. A China tem tudo a ver com status. Respeite a China e muito pode ser feito em termos de cooperação internacional.

Enquanto os americanos se preparam para a chamada Guerra Fria com a China, é importante não exagerar as intenções de Pequim. A China é implacável, mas não busca a conquista no sentido tradicional, além de seus próprios territórios e mares adjacentes. Procurará dominar e influenciar as economias estrangeiras, mas não as sociedades estrangeiras e a forma como se governam. A China não é uma potência revolucionária, apesar de seu apelido comunista.

No entanto, como a China se comporta em termos imperiais e mercantis, suas relações carecem da transparência e das normas jurídicas das democracias representativas. É por isso que o Belt and Road está evoluindo para um sistema sutilmente coercitivo de negociações opacas com o qual os muitos países ao longo de seu caminho, devido aos seus altos níveis de corrupção, acham bastante compatível.

A resposta a esse desafio não é meramente emular a China com a própria realpolitik sem sangue da América, como Pompeo e o presidente Donald Trump parecem querer, mas retornar ao realismo esclarecido da Guerra Fria e das décadas pós-Guerra Fria, nas quais os direitos humanos tiveram seu lugar entre outros interesses nacionais.

Lembre-se de que os americanos perderam seu zelo missionário em parte por causa das falhas em tentar impor a democracia ao Iraque e ao Afeganistão e, conseqüentemente, têm vivido com a reação. O pêndulo da política externa dos EUA oscilou de um extremo ao outro. Competir com os chineses em termos imperiais significa recuperar um idealismo temperado que permite ao mundo distinguir entre um Ocidente esclarecido e os senhores de Pequim.

Mais importante ainda, uma vez que a China tem uma visão para seu sistema imperial — Belt and Road — os EUA exigem sua própria visão de ordem internacional. Isso ocorre de maneira mais eficaz por meio de alianças econômicas, militares e de tendência democrática entre as nações. Um excelente exemplo é a Parceria Transpacífico (TPP), que Trump rasgou ao chegar à presidência em 2017. Competir com a China e nos diferenciar dos valores da China exige ressuscitar o TPP e construir sobre ele. Isso é algo que Joe Biden deve fazer se for eleito presidente.

A China tem seus limites. As ações de Pequim na ex-colônia britânica de Hong Kong foram provavelmente um fator para o Reino Unido fechar seu mercado para a rede 5G da Huawei. Com o passar do tempo, é provável que os europeus fiquem cada vez mais desiludidos com o histórico de direitos humanos da China. O soft power pode ser superestimado, mas é importante. Lição: o novo império da China é irresistível apenas se os EUA não oferecerem uma alternativa.

FONTE: Bloomberg

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Se não tem Parque, então é Rede Tecnológica

Por Evandro Milet

O sonho do Parque Tecnológico em Goiabeiras morreu, pelo menos até onde se consegue enxergar. Não foi possível contornar os problemas do local reservado pelo PDU, ao lado da Universidade Federal. Vamos então pensar em outra coisa para Vitória. 

Há iniciativas inovadoras acontecendo, com repercussões imobiliárias em várias partes da cidade. A criação do MCI – Mobilização Capixaba pela Inovação e do Vale da Moqueca, para englobar as iniciativas inovadoras do Estado, oferecem a oportunidade de se pensar de outras maneiras para um projeto que coloque a capital em destaque no mundo da inovação. 

Em vez de um parque tecnológico único, vamos pensar em uma rede, em locais com vocações distintas. Afinal, Vitória é uma cidade pequena com 93km²( sem querer comparar, o Vale do Silício tem 121 km²)  e poderia se transformar toda em um grande parque tecnológico em rede, onde cada nó atrairia negócios com vocações distintas em inovação.

Podemos ter até um circuito físico, começando pela ponta de Tubarão como primeiro nó da rede, abrigando o Centro de Inteligência Artificial da Vale e o iNO.VC da Arcelor Mittal. Seguindo para Goiabeiras teremos, pelo menos, o Centro de Inovação(CI) da Prefeitura com vocação a ser definida. Se abrigar a Tecvitória, para uma solução definitiva, como já foi pensado, seria ótimo. A região toda, dos dois lados da Fernando Ferrari, com CI, Ufes, Multivix, Fucape, Secti, Fapes e o prédio da antiga Xerox com aceleradora, compõe um segundo e poderoso nó da rede. 

Descendo pela Reta da Penha, o terceiro nó acontece no prédio da Findes, excelente iniciativa com o FindesLab, um hub de inovação unindo grandes empresas e startups, além do comando do Senai no prédio. Logo adiante está a aceleradora Azys e, em seguida, a sede da Petrobras que tem tudo para compor também esse nó, como centro de comando da inovação em petróleo e gás.

Desviando para a Leitão da Silva, no complexo do saudoso Itamaraty Hall, se instala a sede da Picpay, nascida na Tecvitória(faz com a Wine a dupla de startups capixabas de maior sucesso). Sozinha já seria o quarto nó, mas é natural que seja um chamariz para outras empresas se instalarem por perto. 

Descendo para a Enseada do Suá, vamos encontrar o Sebrae, ator indispensável na rede de inovação, em uma área nobre do quinto nó, onde estão a Wine, a EDP, a ISH e o novo hub Base27, a vertical de inovação da construção civil. Do outro lado da avenida o Lab digital da Águia Branca e a nova sede da UVV reforçam o nó. A região tem alto padrão para atrair empresas de ponta, afinal parque tecnológico não é só para startups.

Seguindo para o Centro, na Avenida Beira Mar, passamos pelo sexto nó, o novo Instituto Senai de Tecnologia para eficiência operacional, o laboratório de inovação da indústria, equipado com tudo da indústria 4.0. 

Adiante, o Centro, com a vocação para sétimo nó, com seus imóveis baratos para startups iniciantes, o incipiente centro de economia criativa do Sebrae, o Labges, para inovação no serviço público, o Bandes com seus fundos para inovação e, na volta, a fábrica de Jucutuquara com a nova incubadora do Ifes e o próprio Campus Vitória. Uma perna da rede nesse ponto conectaria a aceleradora Brooder e a Faesa na Avenida Vitória.

Entrando por Jucutuquara chegamos ao oitavo nó da rede em Maruípe, no centro de biotecnologia da Ufes com o Laboratório para o Agronegócio com o Incaper e uma forte atuação nacional em biossegurança. 

Algum urbanista criativo poderia sugerir uma Ciclovia da Inovação ou Circuito da Inovação, conectando esses pontos e dando um traçado físico para essa rede. E a Prefeitura poderia colocar placas indicativas dos nós da rede, fortalecendo e dando um destaque para o setor. Seria a primeira cidade do país toda envolvida em uma rede de inovação. Sem dúvida matéria de pauta para a imprensa nacional do setor e fator para subir o reconhecimento  da cidade como centro inovador. Melhor ainda se a rede se estendesse para toda a região metropolitana. 

Para substituir o conceito de parque físico integrado deveria haver uma governança articulada, um projeto comum, fontes de financiamento, locais de eventos e divulgação ampla no Espírito Santo e fora do Estado. No mais, é fortalecer os nós e sonhar, que é barato.

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Google impulsiona e-commerce para competir com Amazon

Companhia anunciou o fim das tarifas para os varejistas que anunciam na plataforma Google Shopping, nos Estados Unidos

24 de julho de 2020 

O Google lançou nesta quinta-feira, 23, uma iniciativa para fazer frente à Amazon na disputa pela atenção dos consumidores de marketplaces. A proposta da companhia é se tornar, nos Estados Unidos, a primeira plataforma a qual as pessoas recorrem quando querem pesquisar um produto ou uma marca na internet.

O Google declarou que irá eliminar as taxas cobradas aos varejistas ao permitir que os usuários comprem produtos online diretamente no Google Shopping. Esse movimento é um dos mais recentes feitos pela empresa para se mostrar mais atrativa (e mais barata) aos varejistas e anunciantes que desejam expor seus produtos e ofertas no buscador.

Embora seja o número 1 em termos de busca em todo o mundo, o Google quer ampliar sua participação na rotina dos consumidores dos Estados Unidos. De acordo com pesquisa feita no ano passado pela Civic Science, metade dos estadunidenses declaram que, que quando começam a buscar algum produto ou serviço na internet, consultam primeiramente à plataforma da Amazon. Nessa pesquisa, apenas 22% das pessoas declarou que o Google é o seu ponto de partida na hora de pesquisar itens de compras.

Embora o Google Shopping já exista há alguns anos, apenas recentemente a companhia começou a tomar medidas para tornar a ferramenta mais atrativa aos anunciantes. Até então, para listar seus produtos na plataforma que permitia a compra direta, os anunciantes tinham que pagar taxas que, algumas vezes, alcançavam até 12% do valor do produto. Agora, a companhia abre mão dessas cobranças e já começa a listar produtos de forma gratuita.

Em termos de volume, no entanto, o Google Shopping ainda está muito longe de alcançar as dimensões da Amazon. A plataforma de compras do buscador tinha 3700 lojas cadastradas no final de 2019 – algo bem distante dos mais de 3 milhões de vendedores ativos cadastrados na Amazon na época, segundo dados da Marketplace Pulse.

Essa iniciativa do Google em impulsionar os negócios no Google Shopping acontece em um momento em que a Amazon começa a ser questionada justamente pelas taxas cobradas dos anunciantes e empresas que negociam em sua plataforma. Até 40% de cada dólar em vendas gerado pelos anunciantes da Amazon pode ficar com a plataforma, seja com a cobrança de taxas de armazenamento ou para impulsionar as empresas no marketplaces.

De acordo com Bill Ready, presidente do Google Commerce, a empresa está empenhada em acelerar a divisão de vendas online por conta do aumento da demanda gerada com a pandeia da Covid-19, que fez com que muitas empresas tivessem apenas a internet como um canal para levar seus produtos e serviços aos consumidores. Os usuários do Google já possuem, inclusive, ferramentas e filtros para selecionar comércios e pontos de venda locais e em suas proximidades ao fazer buscas.

Ready não comentou diretamente a respeito da concorrência com a Amazon, mas declarou que a proposta do Google é tornar os negócios online mais fáceis e mais rentáveis para os vendedores. A empresa também anunciou uma integração com a Shopify Inc. e com a PayPal Holdings Inc para ajudar seus anunciantes a gerenciarem os estoques e comercializá-los diretamente no Google.

Com informações do Advertising Age

https://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2020/07/24/google-impulsiona-e-commerce-para-competir-com-amazon.html

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Como sobreviver ao futuro do varejo – os superpredadores

Covid-19 é um evento que ocorre uma vez no século que erradicará muitas espécies do varejo e acelerará o crescimento e a evolução de superpredadores como Amazon, Alibaba, Walmart e JD.com. 

Apenas os mais aptos sobreviverão.

A covid-19 vai alimentar o rápido crescimento e evolução de varejistas superpredadores como Amazon, Alibaba, Walmart e JD.com.

Por Doug Stephens 28 DE JULHO DE 2020(Tradução Evandro Milet)

Filmes sobre o futuro muitas vezes apresentam o mundo que nos espera como uma distopia sombria dominada por um punhado de megacorporações malévolas, controlando grande parte da vida do consumidor na Terra. Omni Consumer Products de Robocop,  Weyland-Yutani de Alien ou a Tyrell Corporation, produtora de replicantes de Blade Runner, são apenas alguns exemplos de tais magacorporações futuristas. Em um cenário de varejo pós-pandêmico, essas empresas não residirão mais apenas em romances ou filmes. Eles se tornarão uma realidade.

Quando finalmente emergirmos da pandemia de coronavírus, o mundo do varejo será um lugar muito diferente. Os ossos dispersos de pequenas e médias empresas, marcas tradicionais problemáticas, esquemas de distribuição em dificuldades e varejistas e proprietários de shopping centers quebrados estarão espalhados pela paisagem.

Covid-19 é o equivalente comercial do impacto de um meteoro: um evento único em um século que mudará a composição química da atmosfera da indústria. O resultado será uma erradicação completa de muitas espécies de varejo, adaptação frenética de outras e o rápido crescimento e evolução de poucas. Uma nova classe de predadores emergirá: uma espécie de varejista geneticamente modificada inteiramente nova que enfrenta poucas ameaças. Na natureza, eles são chamados de superpredadores. No varejo, eles são chamados de Amazon, Alibaba, Walmart e JD.com. 

A ascensão dos varejistas superpredadores

Como grupo, suas receitas anuais chegam a aproximadamente US$ 1 trilhão. Suas contagens de clientes ativos coletivos chegam à casa dos bilhões. Eles não conhecem fronteiras geográficas, temporais ou de categorias. Pequenas flutuações nos preços de suas ações em um determinado dia podem igualar ou exceder o valor total de mercado de empresas como a Ford Motor Company.

Embora fatal para muitos varejistas, Covid-19 foi e continuará a ser um gotejamento de esteróides metabólicos na veia para esses superpredadores. Como espécie, todos eles sairão desta crise maiores, mais fortes e com mais poder do que nunca. Enquanto muitos varejistas perderam os sentidos com quedas de receita de até 80%, esses gigantes divulgaram resultados que merecem uma dupla olhada.

A evolução, entretanto, é uma faca de dois gumes. Como acontece com qualquer predador que atinge o topo da cadeia alimentar, seu tamanho crescente prova uma vantagem e um obstáculo para seu domínio contínuo. Seus metabolismos descomunais requerem presas cada vez maiores e mais ricas em nutrientes. 

Isso não quer dizer que não existam algumas fontes óbvias de receita e lucros reforçados atualmente à sua frente. A penetração em novos mercados em crescimento, como Índia, América Latina e África Subsaariana, oferece novos e ricos campos de caça. Há também um foco maior em programas de filiação e assinatura, prendendo os clientes em sistemas contínuos de reposição automática para compras domésticas regulares de rotina. O aumento da participação da moda e, especialmente, dos mercados de luxo tem potencial, especialmente para a Amazon, que até agora era vista como pária pelas marcas de luxo. 

As plataformas de mídia e música, bem como receitas de publicidade, oferecem oportunidades significativas para crescimento e expansão contínuos. 

Além disso, o aumento da implantação da robótica, como disse o fundador da Amazon, Jeff Bezos, vacina suas cadeias de suprimentos contra crises futuras e elimina ainda mais custos humanos e questões trabalhistas de suas operações de back-end.

Mas nem mesmo essas categorias e tecnologias oferecerão valor nutricional suficiente para sustentar o tipo de ganhos de-cair-o-queixo que os investidores esperam desses gigantes quando o Covid-19 se tornar uma lembrança – o que pode levar anos. Portanto, para alimentar seu crescimento contínuo, esses superpredadores precisarão encontrar fontes de alimento inteiramente novas com conteúdo calórico mais alto – muito mais alto do que pode ser alcançado meramente vendendo mais tênis de corrida, eletrônicos e utensílios domésticos.

Esta notícia deve ser motivo de preocupação para todas as empresas, mas deve ser particularmente preocupante para os titulares de setores que têm sido governados em grande parte por oligopólios fechados, como os setores bancário, de seguros, saúde, educação e transporte. Esses setores têm sido tradicionalmente reticentes em se autodestruir,  mas a Covid-19 lançou uma luz brilhante sobre suas respectivas vulnerabilidades. E com isso os superpredadores estão cercando suas presas.

Seis anos atrás, Ant Financial do Alibaba não existia. Hoje, a afiliada, que no mês passado foi rebatizada como Ant Group em meio ao escrutínio dos reguladores chineses, é avaliada em mais do que a Goldman Sachs com uma avaliação de US$ 150 bilhões, o que significa que se fosse retirada do Alibaba, ficaria como um dos 15 maiores bancos do mundo. A Ant também oferece cartões de crédito, empréstimos e gestão de patrimônio. E se isso não fosse impressionante o suficiente, o Antfund Yu’e Bao é agora o maior fundo do mercado financeiro do mundo, com mais de US$ 250 bilhões.

O Alibaba não é o único predador que se aventura no setor bancário e de pagamentos. Em 2019, a Amazon havia construído, comprado ou tomado emprestado pelo menos 16 produtos e plataformas fintech diferentes, juntando-os para impulsionar o crescimento de seu ecossistema. Ela também tem sido ativo no fornecimento de empréstimos aos seus parceiros comerciais e fornecendo condições de pagamento aos clientes, tudo em um esforço para atender aos seus próprios fins: mais comerciantes e mais clientes com mais dinheiro para gastar com mais comerciantes. 

Depois, há o setor de seguros. Por meio do Amazon Protect, a empresa já oferece seguro para bens de consumo que vão de eletrônicos a eletrodomésticos. Não há razão para acreditar que, à medida que a Amazon expande ainda mais o domínio de suas ofertas em casas, itens de luxo, automóveis e outras compras importantes, ela também não buscará a receita de seguro que vem com eles. E não está sozinho.

Em 2018, a JD.com recebeu a aprovação para um investimento de 30 por cento na Allianz China, tornando-se o segundo maior acionista da Allianz. Apenas um ano antes, o parceiro investidor da JD.com, Tencent, fez uma entrada semelhante no mercado, comprando uma participação majoritária na Weimin Insurance Agency e recebendo a aprovação para vender produtos de seguro pela rede digital da Tencent.

Esses superpredadores também estão chegando para serviços de expedição e entrega. O presidente da FedEx, Frederick Smith, disse durante uma entrevista em março de 2017: “Bem, vamos ver se entendemos as definições; Amazon é um varejista, nós somos uma empresa de transporte. Então, o que isso significa é que dispomos de uma quantidade enorme de hubs, facilidades de classificação, voos, rotas de caminhões e assim por diante. Amazon é sobre você vir à loja deles. ” Ele continuou, “A Amazon não entrega muitos de seus próprios pacotes”. Basta dizer que seus comentários não envelheceram bem. 

Nos anos que se seguiram, quase como se para irritar Smith pessoalmente, a Amazon expandiu sua pegada logística, aumentou sua frota de caminhões próprios, alugou jatos de carga e aumentou seu programa de entrega Amazon Flex, uma espécie de Uber para entrega de encomendas. Pouco mais de dois anos depois, quando ficou claro que a Amazon não era mais um cliente, mas um concorrente, a FedEx anunciou que estava encerrando seu contrato de entrega terrestre com a Amazon. O que poucos perceberam na época é que a Amazon já estava entregando 50% de seus próprios pacotes aos consumidores. A FedEx estava morta. Eles simplesmente não perceberam ainda.

Este ano, a Amazon deu um passo à frente, adquirindo a empresa de transporte autônomo Zoox por US$ 1,2 bilhão e revelando planos para uma empresa de táxi autônoma. Não pode haver dúvida de que tal empreendimento também incluiria o advento de veículos de entrega autônomos que reduziriam drasticamente as despesas de última milha da Amazon. Como acontece com a maioria das coisas da Amazon, espero que eles aperfeiçoem a ciência e a tecnologia de remessa a um ponto que, como a Amazon Web Services, seja oferecida como um serviço a outras empresas, gerando mais um fluxo de receita de vários bilhões de dólares.

A saúde também está na ordem do dia. A Covid-19 impulsionou muitos de nós para o mundo da saúde digital com nova velocidade. Como disse o escritor do The New York Times Benjamin Mueller: “Em questão de dias, uma revolução na telemedicina chegou às portas dos médicos de atenção primária na Europa e nos Estados Unidos. As visitas virtuais, a princípio uma questão de segurança, são agora uma peça central dos planos dos médicos de família para tratar as doenças cotidianas e problemas não detectados que eles alertam que podem acabar custando vidas adicionais se as pessoas não receberem atendimento imediato. 

”O mercado global de saúde é estimado em aproximadamente US$ 10 trilhões e terá uma taxa de crescimento anual de 8,9 por cento para quase US $ 11.908,9 bilhões em 2022, de acordo com um relatório de mercado recente. Só nos Estados Unidos, os gastos com saúde chegam a quase US $ 4 trilhões. Enquanto isso, o mercado global de ePharmacy foi avaliado em US$ 49,7 bilhões em 2018 e deve chegar a US$ 177,8 bilhões em 2026. E tanto a Amazon quanto o Walmart estão salivando com a oportunidade. 

Em um de seus movimentos mais decisivos no espaço, a Amazon fez parceria com o JPMorgan e a Berkshire Hathaway para fornecer um novo programa de saúde para seus 1,2 milhão de funcionários. O empreendimento, apelidado de Haven, visa diretamente a muitas das deficiências há muito reconhecidas no sistema de saúde americano, como custos crescentes, processos administrativos onerosos e uma tendência para o tratamento de doenças, em vez de promover a saúde.

Se isso não bastasse, a aquisição da PillPack por US $ 1 bilhão pela Amazon concedeu-lhe licenças de farmácia em todos os 50 estados dos EUA. O investimento maciço e contínuo da empresa em alimentos fornece uma ligação natural com saúde e bem-estar e suas localizações físicas – como Whole Foods – fornecem destinos no local para futuras clínicas médicas em mercados de alta renda.

O Walmart está ajudando na matança. Em junho de 2020, o Walmart anunciou que estava adquirindo tecnologia e propriedade intelectual da CareZone, uma start-up que se concentra em ajudar as pessoas a administrar vários medicamentos. A abordagem multifacetada da empresa em farmácias e clínicas de saúde a torna, na estimativa do Morgan Stanley, “um gigante adormecido de se observar” no setor de saúde.

O Alibaba também quer uma fatia em seguro saúde. A empresa oferece atualmente serviços de saúde por meio do Ant Financial, que, quase imediatamente após seu lançamento, atraiu 65 milhões de usuários com o objetivo de, eventualmente, obter 300 milhões de usuários – ou apenas a população da América – em um plano de saúde. Isso o tornaria maior do que qualquer outra entidade seguradora.

A educação também está em vista. A Covid-19 forçou centenas de milhões de alunos em todo o mundo a usar plataformas de aprendizagem online, muitas das quais foram montadas de forma rápida e imperfeita por faculdades e universidades. Muitas instituições estabelecidas e os próprios educadores resistiram à atração da educação online, citando preocupações acadêmicas, mas seria ingênuo acreditar que a relutância também não está ligada ao medo de mensalidades perdidas.

O mercado educacional chinês está estimado em 453,8 bilhões de yuans ou US$ 65 bilhões em 2020, de acordo com um relatório da iiMedia. A Tencent, a principal plataforma social da China e proprietária de 18% da JD.com, está se preparando para participar do que chama de “Educação Inteligente”, uma plataforma educacional completa para K-12, escolas vocacionais e alunos de educação continuada que a empresa aclama como “uma educação mais justa, personalizada e inteligente”. Com mais de 1 bilhão de usuários ativos, a penetração de programas como o Smart Education pode ser impressionante.

Da mesma forma, o Alibaba tem sua própria participação no mercado de educação. Atualmente, oferece Banagbangda, que significa “Ajude-me a responder”, um aplicativo de ajuda para o dever de casa. Além disso, Youku da Alibaba, que lançou recentemente uma plataforma de vídeo, lançou também uma plataforma doméstica de ensino. Isso, em combinação com a ferramenta de colaboração online DingTalk da empresa, posiciona-a para ser um player no crescente mercado de educação da China.

Quebrá-los?

No mundo pré-pandêmico, abundam as investigações antitruste. Mas a pandemia tornou esses predadores do ápice uma tábua de salvação verdadeiramente indispensável para seus clientes, seus comerciantes e, em última instância, para suas respectivas economias nacionais. Dado que o fogo político é geralmente um produto do sentimento do eleitor, é razoável supor que essas empresas serão tratadas com luvas de pelica, pelo menos no curto prazo. Eles se tornarão indispensáveis demais. Além disso, os governos, muitos deles no caos, têm peixes maiores para fritar.

O resultado desta janela de oportunidade única permitirá uma penetração quase inextricável dessas empresas na vida dos consumidores globais. Da mesma forma que esquecemos o quanto dependemos da eletricidade até que haja uma queda de energia, esses supervarejistas se tornarão os serviços essenciais que abastecem nossa vida de consumidor. Isso não apenas impulsionará seu crescimento a novos patamares, mas também permitirá que esses mega marketplaces estabeleçam uma base segura nessas categorias novas e exponencialmente mais lucrativas. É essa penetração em categorias altamente lucrativas que colocará essas marcas em posição de usar seus mercados de produtos menos como uma fonte de receita e lucro e mais como um instrumento puramente destinado a adquirir mais clientes – migalhas de pão que trazem um fluxo constante de compradores, que, uma vez convertidos, podem viver grande parte de suas vidas dentro dos ecossistemas que essas marcas oferecem.

Esses varejistas de ponta se tornarão os serviços essenciais que abastecem nossa vida de consumidor.

Torna-se muito fácil imaginar uma situação futura onde você receberá uma cobrança mensal por tudo, desde a comida em sua geladeira e os sapatos em seus pés até o seguro da sua casa e o custo das aulas particulares de seu filho, tudo fornecido por uma empresa. E isso significará um desastre, não apenas para muitos varejistas, mas para qualquer empresa que vende qualquer coisa para seres humanos na Terra. Tendo se incorporado a tantos aspectos da vida do consumidor, eles formarão uma cerca de arame farpado de valor em torno de seus clientes que se torna quase impenetrável. O resultado será um domínio quase total da intermediação em todos os mercados e categorias.

SOBREVIVENDO A GIGANTES PREDADORES

Então, onde isso deixa todo mundo? Como as empresas sobreviverão nas sombras cada vez maiores desses gigantes? Embora possa parecer uma sentença de morte para varejistas concorrentes, não precisa ser. Dito isso, para aqueles que residem entre esses superpredadores, será necessário repensar radicalmente seu posicionamento competitivo e o valor que eles oferecem ao mercado.

Um bom lugar para começar é reconhecendo que, além do tributo humano e econômico exigido pela Covid-19, a pandemia também atuou como um túnel do tempo(wormhole) empurrando quase toda a sociedade da era industrial para a digital. Trabalho, educação, entretenimento, comunicação e até as próprias experiências sociais tiveram que evoluir rapidamente e se adaptar a um mundo fisicamente distanciado. Claro, é uma mudança que estava em andamento antes da pandemia, mas o vírus arrancou o esparadrapo. Cruzamos a exclusão digital e queimamos a ponte que nos trouxe até aqui.

A mídia é a loja, a loja é a mídia

Se ainda não estava ficando óbvio, a Covid-19 finalmente induziu o setor de varejo a ver que as lojas físicas não são apenas um meio impraticável e caro de distribuição de produtos, mas também são incrivelmente vulneráveis a interrupções. Interrupções cada vez mais frequentes causadas por distúrbios sociais, mudanças climáticas e, é claro, pandemias representam problemas potenciais para as lojas físicas no futuro. Em um mundo onde nossos iPhones estão abertos 24 horas por dia, 7 dias por semana, a disponibilidade e o acesso inerentemente limitados oferecidos pelas lojas físicas os tornam cada vez mais inconvenientes.

Mas, para ser claro, isso de forma alguma nega o valor das lojas físicas como locais de reunião da comunidade, centros de cultura de marca e playgrounds de experiências. No entanto, é hora de parar de considerá-los um meio eficaz de distribuição de produtos. As lojas devem se concentrar mais na distribuição de experiências e menos na distribuição de mercadorias. Porque os dois estão trocando rapidamente de papéis.

Na mente dos consumidores de hoje, “a loja” na verdade começa com experiências de mídia. TikTok é a loja. Instagram é a loja. YouTube, minha televisão e console de jogos ou um desfile de moda virtual no meu celular – tudo isso está se tornando rapidamente a loja. 

Os superpredadores já aceitaram essa realidade ao incorporar comércio, finanças, entretenimento e logística simplificada em cada experiência de mídia hospedada em suas plataformas. Na verdade, para esses gigantes, a mídia não se tornou apenas a loja, é um ponto de transação mais eficiente, contextual e eficaz. Em 2016, Jack Ma chamou isso de “o novo varejo”. 

Enquanto isso, as marcas inteligentes também despertaram para a ideia de que as lojas físicas podem ser um meio incrivelmente eficaz de conquistar novos clientes e promover as vendas online, especialmente considerando o custo disparado da publicidade digital. As lojas físicas também podem ser um centro extremamente econômico para entrega no última milha, independentemente de como o comprador opte por comprar.

Se você não pode atender seus clientes por meio de todos os pontos de contato de mídia, você está saindo fora do mercado.

A moral da história é que, se você não pode atender seus clientes por meio de todos os pontos de contato da mídia, você está indo para a falência. Se suas lojas físicas não estiverem criando experiências de mídia física e impressões de marca extremamente positivas e memoráveis, você irá fechar as portas. E se você não puder entrelaçar com eficácia esses dois, mídia e loja, juntos de uma forma que remova o atrito de compra e agregue valor de experiência radical para os clientes, você vai quebrar.

https://www.businessoffashion.com/amp/articles/opinion/future-of-retail-doug-stephens-amazon-alibaba-walmart-jd-com?__twitter_impression=true

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Brasil pode ganhar R$ 2,8 trilhões com ‘economia verde’, diz estudo

Segundo relatório, até 2030 País poderia incorporar uma Argentina a suas riquezas, além de criar mais 2 milhões de postos de trabalho

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020

O movimento de recuperação da economia, após o abalo provocado pela pandemia de covid-19, pode gerar 2 milhões de empregos e adicionar R$ 2,8 trilhões ao PIB brasileiro, além de ajudar o País a se tornar mais resiliente às mudanças climáticas, caso os investimentos forem direcionados para uma economia mais verde. Isso representaria um crescimento de 38% em relação ao PIB de 2019, que foi de R$ 7,3 trilhões – é como incorporar uma Argentina aos recursos do Brasil.

É a realidade que revela o estudo Uma Nova Economia para uma Nova Era, desenvolvido pelo WRI Brasil, com a UFRJ, ex-ministros de finanças do Brasil e executivos do Banco Mundial. O trabalho faz parte da iniciativa global New Climate Economy, que busca apontar caminhos que aliem o desenvolvimento econômico com o combate ao aquecimento global. 

A expectativa é que as mudanças climáticas causem impactos ainda mais severos do que o novo coronavírus. Por isso, vários países estão estudando formas de adotar medidas que tragam ganhos econômicos e climáticos. A construção de uma economia mais eficiente e resiliente teria essa capacidade.

O trabalho focou estratégias que poderiam ser adotadas em três setores estratégicos da economia brasileira: infraestrutura, indústria e agronegócio. Em infraestrutura, a ideia é desenvolver “projetos de qualidade” – como define o estudo – e que não prejudiquem o meio ambiente. Elas podem se valer, por exemplo, dos próprios recursos da natureza e de soluções renováveis, como a energia solar.

“Uma infraestrutura de qualidade reduz os custos e impactos da degradação ambiental e permite maior resiliência a eventos extremos cada vez mais intensos e frequentes”, aponta o relatório.

“Em qualquer crise, investir em infraestrutura é em geral o plano A para a recuperação de emprego. Mas o Brasil está há 30 anos tentando fazer isso. O País vai precisar atrair investimento privado, internacional, mas como vai fazer isso sem um ‘selo’ de desenvolvimento sustentável, sem garantir que uma determinada obra não vai ter conflito socioambiental”, disse ao Estadão Carolina Genin, diretora de Clima do WRI Brasil e coordenadora do estudo. 

Na indústria, a proposta é inovar a partir de tecnologias sustentáveis que reduzam o consumo de combustíveis fósseis, os principais responsáveis, globalmente, pelo aquecimento do planeta.

Na agricultura, a direção é o aumento da eficiência a partir de um uso mais eficiente do solo, reduzindo, por exemplo, a pressão sobre a Amazônia. Uma nova e importante frente de investimento é a recuperação de 12 milhões de hectares de pastagens degradadas. O cálculo é que o setor poderia ganhar R$ 19 bilhões em produtividade agrícola até 2030. 

Todas as ações propostas juntas poderiam promover, de acordo com a pesquisa, uma redução de 42% nas emissões de gases de efeito estufa do Brasil até 2025, em relação a 2005.

Sem ruptura

O trabalho também levou em conta que já existe no País uma série de políticas que, uma vez implementadas, podem abrir o caminho para a economia verde. “Mostramos claramente que, se o Brasil optar pela transição para uma economia de baixo carbono (ou seja, que emite menos gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global), para uma recuperação verde, esse não será um processo disruptivo”, afirma Carolina. “Não vai prejudicar os principais setores da economia. Ao contrário, vai torná-los mais produtivos e eficientes do que hoje”, complementou. 

“Existe uma janela de oportunidade que se fecha em alguns meses. Os planos de recuperação vão obrigar os países a botar muito dinheiro nisso. Se a gente ‘casar’ com a tecnologia errada, isso vai ficar pelos próximos 30 anos. É preciso pensar nos melhores planos para não usar esses recursos de modo equivocado”, afirma. 

Ela cita, como exemplo, investimentos em transporte. “Se vamos pensar em ter mais ônibus, que sejam elétricos. É uma questão ambiental, mas é também uma discussão para tornar a economia mais competitiva”, diz.

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-pode-ganhar-r-2-8-trilhoes-com-economia-verde-diz-estudo,70003397572

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Coronavírus: ‘Estamos diante de ameaça de extinção e as pessoas nem mesmo sabem disso’, afirma sociólogo Jeremy Rifkin

Juan M. Zafra

The Conversation* 14 maio 2020

O sociólogo americano Jeremy Rifkin, que se define como ativista em favor de uma transformação radical do sistema baseado no petróleo e outros combustíveis fósseis, passou décadas exigindo uma mudança da sociedade industrial para mais modelos sustentáveis.

Rifkin é consultor de governos e empresas em todo o mundo.

Ele escreveu mais de 20 livros dedicados a propor fórmulas que garantam nossa sobrevivência no planeta, em equilíbrio com o meio ambiente e também com nossa própria espécie.

The Conversation – Em sua opinião, qual o impacto da pandemia da covid-19 no caminho para a terceira revolução industrial?

Jeremy Rifkin – Não podemos dizer que isso nos pegou de surpresa. Tudo o que está acontecendo conosco decorre das mudanças climáticas, sobre as quais os pesquisadores e eu estamos alertando há muito tempo.

Tivemos outras pandemias nos últimos anos e foram emitidos avisos de que algo muito sério poderia acontecer. A atividade humana gerou essas pandemias porque alteramos o ciclo da água e o ecossistema que fazem o equilíbrio no planeta.

Desastres naturais — pandemias, incêndios, furacões, inundações — continuarão porque a temperatura na Terra continua subindo e porque arruinamos o solo.

Há dois fatores que não podemos deixar de considerar: as mudanças climáticas causam movimentos da população humana e de outras espécies. A segunda é que as vidas animal e a humana estão se aproximando todos os dias como consequência da emergência climática e, portanto, seus vírus viajam juntos.

The Conversation – Esta é uma boa oportunidade para aprender lições e agir, não acha?

Rifkin – Nada voltará ao normal novamente. Este é um sinal de alerta em todo o planeta. O que temos que fazer agora é construir as infraestruturas que nos permitam viver de uma maneira diferente.

Devemos assumir que estamos em uma nova era. Caso contrário, haverá mais pandemias e desastres naturais. Estamos diante de uma ameaça de extinção.

The Conversation – Você trabalha, estará trabalhando nesses dias, com governos e instituições ao redor do mundo. Não parece haver consenso sobre o futuro imediato.

Rifkin – A primeira coisa que devemos fazer é ter um relacionamento diferente com o planeta. Cada comunidade deve assumir a responsabilidade de como estabelecer esse relacionamento em sua esfera mais próxima.

E sim, temos que começar a revolução em direção ao Green New Deal global [proposta que estimula os Estados Unidos a alcançarem o nível zero de emissões líquidas dos gases do efeito estufa, além de outras metas], um modelo digital de emissão zero; temos que desenvolver novas atividades, criar novos empregos, para reduzir o risco de novos desastres.

A globalização acabou, devemos pensar em termos de glocalização. Esta é a crise de nossa civilização, mas não podemos continuar pensando na globalização como hoje, pois são necessárias soluções glocais para desenvolver infraestruturas de energia, comunicação, transporte e logística…

The Conversation – Você acha que durante esta crise, ou mesmo quando a tensão diminuir, governos e empresas tomarão medidas nessa direção?

Rifkin – Não. A Coreia do Sul está combatendo a pandemia com tecnologia. Outros países estão fazendo o mesmo. Mas não estamos mudando nosso modo de vida.

Precisamos de uma nova visão, uma visão diferente do futuro, e os líderes nos principais países não têm essa visão. São as novas gerações que podem realmente agir.

The Conversation – Você propõe uma mudança radical na maneira de ser e ser no mundo. Por onde começamos?

Rifkin – Temos que começar com a maneira como organizamos nossa economia, nossa sociedade, nossos governos; por mudar a maneira de estar neste planeta.

A nossa é a civilização dos combustíveis fósseis. Nos últimos 200 anos, foi baseada na exploração da Terra.

O solo permaneceu intacto até começarmos a cavar as fundações da terra para transformá-la em gás, petróleo e carvão. E nós pensamos que a Terra permaneceria lá sempre, intacta.

Criamos uma civilização inteira baseada no uso de fósseis. Usamos tantos recursos que agora estamos recorrendo ao capital fundiário, em vez de obter benefícios dele.

Estamos usando uma terra e meia quando só temos uma. Perdemos 60% da superfície do solo do planeta. Isso desapareceu e levará milhares de anos para recuperá-lo.

The Conversation – O que você diria para aqueles que acreditam que é melhor viver o momento, o aqui e agora, e esperam que no futuro outros venham para consertá-lo?

Rifkin – Estamos realmente diante das mudanças climáticas, mas também há tempo de mudá-las.

As mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global e pelas emissões de CO₂ alteram o ciclo da água na Terra.

Nós somos o planeta da água, nosso ecossistema emergiu e evoluiu ao longo de milhões de anos graças à água. O ciclo dela nos permite viver e se desenvolver.

E aqui está o problema: para cada grau de temperatura que aumenta como consequência das emissões de gases de efeito estufa, a atmosfera absorve 7% a mais de precipitação do solo e esse aquecimento os força a cair mais rápido, mais concentrado e causando mais desastres naturais relacionados à água.

Por exemplo, grandes nevascas no inverno, inundações na primavera em todo o mundo, secas e incêndios durante o verão e furacões e tufões no outono varrendo nossas costas.

As consequências vão piorando com o tempo.

Estamos diante da sexta extinção e as pessoas nem sabem disso. Os cientistas dizem que metade dos habitats e animais da Terra desaparecerão em oito décadas.

Essa é a posição em que estamos. Estamos de frente com uma potencial extinção da natureza para a qual não estamos preparados.

The Conversation – Qual é a gravidade dessa emergência global? Quanto tempo resta?

Rifkin – Não sei. Faço parte desse movimento de mudança desde a década de 1970 e acho que o tempo de que precisávamos passou.

Nunca voltaremos onde estávamos, à boa temperatura, a um clima adequado…

A mudança climática estará conosco por milhares e milhares de anos; a questão é: podemos, como espécie, ser resilientes e nos adaptar a ambientes totalmente diferentes e que nossos companheiros na Terra também possam ter a oportunidade de se adaptar?

Se você me perguntar quanto tempo levará para mudarmos para uma economia limpa, nossos cientistas na cúpula europeia sobre mudança climática em 2018 disseram que ainda temos 12 anos. Já é menos que nos resta para transformar completamente a civilização e começar essa mudança.

A Segunda Revolução Industrial, que causou mudanças climáticas, está morrendo. E isso se deve ao baixo custo da energia solar, que é mais lucrativa que o carvão, o petróleo, o gás e a energia nuclear.

Estamos caminhando para uma Terceira Revolução Industrial.

The Conversation – É possível uma mudança de tendência global sem os Estados Unidos do nosso lado?

Rifkin – A União Europeia e a China se uniram para trabalhar juntas e os Estados Unidos estão avançando porque os Estados estão desenvolvendo a infraestrutura necessária para alcançá-los.

Não se esqueça que somos uma república federal. O governo federal apenas cria as leis, os regulamentos, os padrões, os incentivos; na Europa, acontece o mesmo: seus Estados-membros criaram as infraestruturas.

O que acontece nos Estados Unidos é que prestamos muita atenção no Trump, mas dos 50 Estados, 29 desenvolveram planos para o desenvolvimento de energia renovável e estão integrando a energia solar.

No ano passado, na Conferência Europeia de Emergência Climática, as cidades americanas declararam uma emergência climática e agora estão lançando seu Green New Deal.

Muitas mudanças estão acontecendo nos Estados Unidos. Se tivéssemos uma Casa Branca diferente seria ótimo, mas, ainda assim, esta Terceira Revolução Industrial está surgindo na UE e na China e já começou na Califórnia, no Estado de Nova York e em parte do Texas.

The Conversation – Quais são os componentes básicos dessas mudanças que são tão relevantes em diferentes regiões do mundo?

Rifkin – A nova Revolução Industrial traz consigo novos meios de comunicação, energia, transporte e logística.

A revolução comunicativa é a internet, assim como foram a imprensa e o telégrafo na Primeira Revolução Industrial no século 19 no Reino Unido ou o telefone, rádio e televisão na segunda revolução no século 20 nos Estados Unidos.

Hoje, temos mais de 4 bilhões de pessoas conectadas e em breve teremos todos os seres humanos conectados à internet; todo mundo está conectado agora.

Em um período como o que estamos vivendo, as tecnologias nos permitem integrar um grande número de pessoas em uma nova estrutura de relações econômicas.

A internet do conhecimento é combinada com a internet da energia e a internet da mobilidade.

Essas três internets criam a infraestrutura da Terceira Revolução Industrial. Essas três Internet convergirão e se desenvolverão em uma infraestrutura de internet das coisas que reconfigurará a maneira como todas as atividades são gerenciadas no século 21.

The Conversation – Qual o papel dos novos agentes econômicos na formação desse novo modelo econômico e social?

Rifkin – Estamos criando uma nova era chamada glocalização.

A tecnologia de emissão zero desta terceira revolução será tão barata que nos permitirá criar nossas próprias cooperativas e nossos próprios negócios, tanto física quanto virtualmente.

Grandes empresas desaparecerão. Algumas delas continuarão, mas terão que trabalhar com pequenas e médias empresas com as quais estarão conectadas em todo o mundo. Essas grandes empresas serão provedores de rede e trabalharão juntas em vez de competir entre si.

Na primeira e na segunda revolução, as infraestruturas foram feitas para serem centralizadas, privadas. No entanto, a terceira revolução possui infraestruturas inteligentes para unir o mundo de maneira distribuída e glocal, com redes abertas.

The Conversation – Como a superpopulação afeta a sustentabilidade do planeta no modelo industrial?

Rifkin – Somos 7 bilhões de pessoas e chegaremos a 9 bilhões em breve. Essa progressão, no entanto, vai acabar.

As razões para isso têm a ver com o papel das mulheres e sua relação com a energia.

Na antiguidade, as mulheres eram escravas, eram as fornecedoras de energia, tinham que manter a água e o fogo.

A chegada de eletricidade está intimamente relacionada aos movimentos sufragistas nos Estados Unidos; libertou as jovens, que puderam ir para a escola e puderam continuar seus estudos até a universidade.

Quando as mulheres se tornaram mais autônomas, livres, mais independentes, houve menos nascimentos.

The Conversation – Você não parece otimista, e ainda assim seus livros são um guia para um futuro sustentável. Temos ou não temos um futuro melhor à vista?

Rifkin – Todas as minhas esperanças estão depositadas na geração millenial. A geração dos millenials saiu das salas de aula para expressar sua inquietude.

Milhões e milhões deles exigem a declaração de uma emergência climática e pedem um Green New Deal.

O interessante é que isso não é como nenhum outro protesto na história, e houve muitos, mas este é diferente: move a esperança, é a primeira revolta planetária do ser humano em toda a história em que duas gerações foram vistas como espécies em perigo.

Essa geração se propõe a eliminar todos os limites e fronteiras, preconceitos, tudo o que nos separa. Ela começa a se ver como uma espécie em extinção e tenta preservar as demais criaturas do planeta.

Esta é provavelmente a transformação mais importante da consciência humana na história.

Juan M. Zafra é professor associado do Departamento de Jornalismo e Comunicação 

* A versão original desta entrevista foi publicada na edição 113 da Revista Telos, pela Fundação Telefônica, e pode ser lida aqui. (https://telos.fundaciontelefonica.com/portada-telos-113-jeremy-rifkin-todas-mis-esperanzas-estan-depositadas-en-la-generacion-milenial/)

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52657148?SThisFB

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O formigueiro digital devora todos os negócios

por Evandro Milet

O mundo digital está rapidamente engolindo todos os negócios, todas as profissões e todos os processos em uma velocidade avassaladora. Milhares de startups, como formigas, vão destruindo as bases das empresas tradicionais como fintechs, retailtechs, agritechs, insuretechs, edtechs, healthtechs, construtechs, enfim qualquercoisatech mudando a lógica dos negócios, resolvendo dores dos clientes que se vingam do descaso histórico dos prestadores de serviços. Com seu modo de gestão acelerado, entre MVPs e pivotagens, dão várias cambalhotas nos mercados no mesmo tempo em que empresas tradicionais fazem seus lentos movimentos de SWOT e balanced scorecards.

Grandes empresas tentam acompanhar o ritmo alucinante montando seus laboratórios internos de inovação, ambientes maker, aceleradoras, participando de hubs, promovendo hackatons e startups weekends ou comprando startups promissoras próximas ao seu negócio como corporate ventures. O processo de mudança exige dessas grandes empresas novas formas de gestão com menos níveis hierárquicos, menos burocracia interna, enxugamento de processos e digitalização de tudo. Muda a forma de vender com e-commerce e marketplaces, muda o marketing para digital, muda a produção com internet das coisas, muda a relação com clientes com big data e analytics e muda o perfil dos talentos que querem autonomia e propósito. Exige de fato uma transformação digital de todo o negócio.

Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na operação, ganha importância o papel estratégico dos Conselhos de Administração(CA) na gestão de riscos, o maior deles: o desaparecimento; na gestão dos talentos que já não se prendem às empresas e na estratégia de transformação digital com seus novos indicadores que pedem experimentação e agilidade, que não faziam parte dos KPIs tradicionais.

Alguns CA têm perfis exclusivamente técnicos e operacionais e outros têm perfis majoritariamente financeiros. Não resolvem mais. O CA deve mesclar experiências distintas, alguns com visão financeira e outros com ênfase em tecnologia e mercado e com a alma digital.

Drucker dizia com razão que a cultura come a estratégia no café da manhã. Implica na necessidade de implantar uma cultura de inovação na empresa, com um propósito, ética e liberdade que atraiam os talentos transformadores que querem muito mais que salários ou ambientes descolados. Essa base cultural é fundamental para fazer movimentos estratégicos rápidos e vencedores e enfrentar a horda fustigante das techs que atacam por todos os lados, devorando negócios e mercados, como já fizeram com os táxis, hotéis, música, filmes, livrarias e agências de turismo. Quando será a sua vez?

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Avaliada em US$ 1,88 trilhão, Apple supera o PIB do Brasil

O mercado financeiro espera que, nesse ritmo, a empresa de Cupertino possa ser a primeira a romper a marca dos US$ 2 trilhões em valor de mercado

Por Agência Estado

6 ago 2020 

A Apple, maior empresa de capital aberto do mundo, agora é também mais valiosa do que o Brasil. Desde terça-feira, a gigante ultrapassou a marca de US$ 1,88 trilhão em valor de mercado. Em comparação, o Produto Interno Bruto do País foi de US$ 1,84 trilhão em 2019, o nono no ranking internacional, segundo o Banco Mundial.

Especialistas ouvidos pelo Estadão entendem que o resultado ilustra como a pandemia impulsionou empresas de tecnologia. “Existe toda uma cadeia de tecnologia que cresceu neste ano, como empresas de nuvem, de e-commerce e de interface de usuário”, diz Francine Balbina, analista de fundos internacionais da Spiti, do grupo XP Investimentos.

A empresa de Cupertino, portanto, é apenas a ponta da lança. “A Apple é sempre um ótimo termômetro de como está o setor de tecnologia”, diz Francine.

O último balanço, que reflete o desempenho durante a pior fase da pandemia do novo coronavírus, surpreendeu investidores e fez as ações se valorizarem 14% desde então – o papel fechou ontem a US$ 440.

Recorde à vista

O mercado financeiro espera que, nesse ritmo, a empresa de Cupertino possa ser a primeira a romper a marca dos US$ 2 trilhões em valor de mercado.

“O valor de US$ 2 trilhões vai ser atingido nas próximas semanas, já que o último trimestre fiscal da Apple entrou para a história e foi um fator de virada para os investidores”, disseram ao Estadão os analistas Daniel Ives e Strecker Backe, da consultoria financeira Wedbush.

Em relatório, Ives e Backe notam que as vendas de um eventual iPhone 12 com tecnologia 5G devem impulsionar ainda mais ações da empresa, que podem chegar a US$ 475 cada, segundo eles.

Adriano Cantreva, sócio da gestora Portofino Investimentos, acredita que esse bom momento do setor de tecnologia nas bolsas mundiais não tem data para acabar, mesmo com um possível arrefecimento da pandemia.

“As empresa de tecnologia têm muito em que crescer. Se continuarem trabalhando como têm trabalhado, o céu é o limite”, diz.

Apple se aproxima de US$ 2 trilhões e ação atinge marco no S&P 500

Com valorização de 49% neste ano, a ação da Apple supera todas as empresas dos EUA com valor de mercado acima de US$ 300 bilhões, exceto a Amazon.com

Por Bloomberg Brasil

6 ago 2020

O mundo ficou boquiaberto há dois anos, quando o valor de mercado da Apple superou US$ 1 trilhão pela primeira vez. Mas o feito foi menos digno de nota quando visto de outra perspectiva: tamanho relativo.

Isso porque, mesmo com um preço de 13 dígitos, o lugar da Apple entre seus pares em agosto de 2018 não era sem precedentes – havia crescido, mas o mercado como um todo também. Como resultado, seu peso no S&P 500 ainda era comparável aos titãs do passado em seu auge, como Exxon Mobil e IBM.

Quase US$ 900 bilhões em valor de mercado depois, isso começa a mudar: o peso da Apple no mercado acionário entrou em território desconhecido. O preço da ação mais do que dobrou desde agosto do ano passado. Com isso, o peso no S&P 500 ultrapassou o da IBM em 1985 e se tornou o maior em 40 anos.

“Estamos neste mercado em que os vencedores vão ganhar – e vão ganhar muito”, disse Kim Forrest, diretor de investimentos da Bokeh Capital Partners.

Com 6,5%, a participação da fabricante do iPhone no S&P 500 superou o recorde de 6,4% que a IBM tinha há 35 anos, segundo dados compilados pela S&P Dow Jones Indices e pela Bloomberg. O valor de mercado total da Apple é de US$ 1,875 trilhão, cerca de 7% distante de US$ 2 trilhões.

O avanço reflete a força de uma empresa que poucos conseguem se igualar em um ano de pandemia. Com valorização de 49% neste ano, a ação da Apple supera todas as empresas dos EUA com valor de mercado acima de US$ 300 bilhões, exceto a Amazon.com. O rali das ações se acelerou após a receita trimestral da empresa ter esmagado as previsões de Wall Street.

Alguns analistas já projetam valor de mercado de US $ 2 trilhões para a Apple. Tom Forte, da D.A. Davidson & Co., prevê que a ação subirá para US$ 480 no próximo ano, um preço-alvo que representa ganho de 9,4% em relação aos níveis atuais e implica valor de mercado de US$ 2,05 trilhões.

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Como o Rio sofreu com epidemia de gripe espanhola em 1918, mas sobreviveu para pular um carnaval inesquecível

Por William Helal Filho 01/04/2020 O Globo

“Morrer na cama era um privilégio abusivo e aristocrático, que ninguém tinha. O sujeito morria nos lugares mais impróprios, insuspeitados – na varanda, na janela, no botequim. Normalmente, o agonizante pode imaginar a reação dos parentes, amigos e desafetos. Na ‘espanhola’ não havia reação nenhuma. Muitos caíam, rente ao meio-fio, com a cara enfiada no ralo. E ficavam, lá, estendidos, como se fossem não mortos, mas bêbados. Ninguém os chorava, ninguém. Nenhum vira-latas vinha lambê-los. Era como se o cadáver não tivesse pai, nem mãe, nem vizinho, e nem, ao menos, o inimigo”.

O parágrafo acima é trecho de uma crônica de Nelson Rodrigues, publicada no GLOBO em 26 de fevereiro de 1971, na qual o dramaturgo, então colunista deste jornal, escreve sobre a terrível epidemia de gripe espanhola, que, em 1918, matou mais de 14 mil moradores do Rio e até 40 milhões de pessoas no mundo. Naquele mesmo texto, o escritor, que tinha 6 anos na época do surto, resgata também o carnaval de 1919. Segundo ele, após superar a pandemia, a cidade caiu na farra e se tornou “irreconhecível” nos quatro dias de folia. “É preciso observar que o carnaval da espanhola foi de um erotismo absurdo”, descreve o autor, morto em 1980, aos 68 anos.

Mais de cem anos depois da calamidade relembrada por Nelson, outra vez a cidade enfrenta uma epidemia de grandes proporções. Em meio ao recolhimento imposto pelo difícil combate ao coronavírus, talvez sirva de algum conforto ao carioca pensar que passamos por aquela situação e sobrevivemos com fôlego para pular o carnaval seguinte. Mesmo depois de tanta tristeza.

Repletos de cenas assustadoras, os vários relatos do colunista sobre a gripe espanhola são comumente usados por historiadores para ilustrar um capítulo pouco estudado da nossa história. Em seu artigo “O carnaval, a peste e a espanhola”, o pesquisador Ricardo Augusto dos Anjos, da Casa de Oswaldo Cruz, baseia-se em documentos, entrevistas e trechos de crônicas do dramaturgo e de outros memorialistas, como Pedro Nava, para contar que o Rio, na época a capital do Brasil, ficou imerso num inferno. Mas renasceu.

“Os cariocas morriam em casa, na rua, no trabalho, em qualquer lugar, e iam sendo recolhidos pelos funcionários da prefeitura. Estes jogavam os corpos nas carroças do serviço de limpeza pública. Os cadáveres eram empilhados. Conta-se que quando descobriam alguém dado como morto e ainda vivo, acabavam de matá-lo com as pás”, descreve Augusto dos Anjos, antes de continuar: “Não havendo pessoal suficiente para recolher e enterrar os mortos, foram utilizados os presidiários. Mesmo assim, o cenário de corpos amontoados pelos cemitérios ou abandonados pelas ruas desertas era desolador”.

– A situação foi mais grave nos subúrbios, onde as condições de moradia e de saúde eram piores. A população em bairros como o Méier ficou desassistida – comenta o pesquisador. – Da mesma forma, favelas como a Rocinha e Cidade de Deus, com altas taxas de tuberculose, podem sofrer muito com o coronavírus. Numa situação como essa, tanto no passado quanto hoje, é preciso olhar com bastante cuidado para esses lugares.

Estima-se que os primeiros casos de gripe espanhola surgiram num campo de treinamento de soldados no estado americano do Kansas, em março de 1918. Em poucos meses, a doença alcançou a Europa, que na época era o palco da Primeira Guerra Mundial (julho de 1914 a novembro de 1918). Os governos envolvidos no conflito censuravam notícias sobre a epidemia, para não abalar os ânimos das tropas. Como a Espanha estava neutra, seus jornais divulgavam livremente as informações sobre os “milhões de mortos” pela doença, o que criou a falsa impressão de que o vírus apareceu no país ibérico.

Com a guerra em sua reta final, os combatentes emersos das trincheiras voltavam para casa com a saúde em frangalhos e levando consigo essa violenta estirpe do vírus Influenza A do subtipo H1N1. Mais de 500 milhões de pessoas, 25% da população global na época, contraíram a enfermidade.

A doença chegou ao Brasil em setembro de 1918, a bordo do navio inglês Demerara, que desembarcou passageiros em Recife, Salvador e Rio. Em pouco mais de dois meses, 35 mil pessoas sucumbiram. O Rio viveu a pior situação. Foram mais de 14 mil mortos entre os 600 mil infectados, numa cidade de então 900 mil habitantes. Após um período de negação, quando o diretor geral de Saúde Pública, Carlos Seidl, minimizou a gravidade da gripe, as autoridades recomendaram ao povo a adoção de medidas parecidas com essas que vemos hoje: evitar aglomerações e cuidados com a higiene pessoal. Escolas, teatros e parques foram fechados.

– Em 1918, a biomedicina ainda estava se desenvolvendo, e as instituições de saúde eram precárias. Não havia os postos de atendimento, não havia o Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, o diretor geral de Saúde Pública declarou que aquela era uma influenza comum. Só que as pessoas adoeceram em curva exponencial – relata a médica e pesquisadora Dilene Nascimento. – Eram tantas mortes que não havia mais velórios, assim como está acontecendo hoje na Itália. Até para não haver aglomeração de pessoas. Para a família que perdeu uma pessoa querida, não cumprir o rito fúnebre é algo extremamente dramático.

Sem remédio para amenizar os sintomas, as pessoas apelavam para religião e o que mais houvesse às mãos. Os preços do limão e do frango dispararam, porque acreditava-se que esses produtos combatiam os sintomas. Usava-se muito também o quinino, alcalóide de funções antitérmicas que pode causar efeitos colaterais como distúrbios visuais e náuseas.

A situação ficou completamente fora de controle. No início de novembro, morriam cerca de 500 pessoas por dia. Aé o então presidente eleito do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves, padeceu por conta do vírus, confinado em seu apartamento na Rua Senador Vergueiro, no Flamengo, aos 72 anos. Aliás, tornou-se comum a população ironizar dizendo: “Quem não morreu na espanhola?”.

“De repente, passou a peste”, escreveu Nelson. “E então ninguém pensou mais nos mortos, enterrados nas valas, uns por cima dos outros”. De acordo com os documentos históricos, a epidemia perdeu força em dezembro. Com o tempo, uma euforia tomou conta da cidade. E aí, veio o carnaval de 1919. “Nunca se desejou tanto como nos quatro dias. Isto aqui se tornou a mais afrodisíaca das cidades”. Nos meses e anos seguintes, ficou muito conhecida a expressão “filhos da gripe”, para falar de bebês nascidos nove meses após aqueles quatro dias.

Os cariocas se entregaram a uma euforia inesquecível. De acordo com Ricardo dos Anjos, “os jornais documentam a alegria incomum que tomou conta da cidade. Os memorialistas qualificam o Carnaval de 1919 como um dos mais animados que o Rio teve: bailes, batalhas de confete e incontáveis blocos espalhados pelos bairros. Ao que parece, houve uma dramatização carnavalesca da situação que os vitimara. Tudo era motivo de alegria e riso”.

Nelson Rodrigues não economizou palavras para resgatar aquele período: “Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da Espanhola e tão humilhados e tão ofendidos que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias… Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: ‘Na minha casa não racha lenha. Na minha racha, na minha racha/ Na minha casa não há falta de água/ Na minha abunda’.

– Incontáveis blocos brincaram com os acontecimentos da gripe, sociedades carnavalescas também. Um carro alegórico desfilou com uma xícara imensa para simbolizar o “chá da meia-noite”, em referência a um boato que circulou durante a epidemia dizendo que, na Santa Casa da Misericórdia, as enfermeiras distribuíam um chá envenenado entre os doentes, para liberar leitos – afirma Ricardo Augusto dos Anjos. – As pessoas estavam celebrando a sobrevivência.

https://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/entenda-como-o-rio-sofreu-com-gripe-espanhola-em-1918-mas-sobreviveu-para-pular-um-carnaval-inesquecivel.html

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Os fuzis da desigualdade atrapalham o crescimento do país

por Evandro Milet(uma versão menor foi publicada hoje em A Gazeta)

Quando um adolescente portando um fuzil é morto pela polícia, muitos exigem que se troque a expressão “adolescente” por “bandido” – e realmente é um bandido. Afirmam que o policial deve ser condecorado, que a maioridade penal deve ser reduzida e a cadeia não precisa ter espaço adequado pois, quem não quiser isso, basta não cometer crime. 

Outros reagem questionando o que fizemos como nação para que adolescentes escolham essa opção de vida.

Um grande debate acontece atualmente no mundo sobre desigualdade e o seu impacto na economia e na sociedade. Há uma corrente que defende eliminar a pobreza, mas a desigualdade de renda seria natural pela diferenças entre as pessoas. Não é bem assim. É realmente uma questão moral eliminar a pobreza. Mas deixar existir uma desigualdade imensa é ruim para o país. Provoca crises sociais e políticas que desestabilizam a própria democracia. 

Existem várias desigualdades. Há a desigualdade de oportunidades: as escolas para os pobres deveriam ser iguais às escolas para os ricos, e gratuitas portanto, pelo menos até o ensino médio. Isso já acontece em muitos países capitalistas, inclusive nos EUA(embora haja opções com escolas particulares). E há as desigualdades raciais e de gênero, em que a educação desempenha papel fundamental para a solução a longo prazo, embora exijam ações afirmativas de curto prazo.

Há desigualdade na oferta de serviços públicos como saúde e segurança, que deveriam ser gratuitos. E há outros serviços fundamentais que deveriam ser oferecidos, não gratuitos, mas em condições de preço e facilidade de acesso a todos como eletricidade, saneamento, transporte público e, mais recentemente, conexão à internet e, claro, a própria moradia.

Para isso o país deve ter sua economia bem administrada, sem inflação, sem corrupção, juros baixos, impostos razoáveis, facilidade de crédito, pouca burocracia, abertura comercial, justiça que funcione e todas as outras coisas que compõem um ambiente de negócios que aumente a produtividade e incentive os empresários para gerar riqueza. Com isso, haverá empregos ou trabalho e os serviços e os produtos serão oferecidos a preços razoáveis. 

As desigualdades de renda que persistirem dizem respeito às diferenças de talento, empenho, personalidade e espírito empreendedor. Mas essa desigualdade também não deveria ser extremada, porque afeta a capacidade de influir nas próprias políticas públicas e realimenta as desigualdades. Grupos desproporcionalmente muito fortes sequestram os recursos em benefício próprio de várias maneiras: ao eleger os políticos que preservam as desigualdades, ao influir nos orçamentos, ao priorizar serviços para os seus locais de moradia, ao conseguir subsídios e incentivos, ao perpetuar vantagens fiscais ou conseguir diferenciação na justiça.

Eliminando a pobreza e tratando adequadamente as desigualdades, não teríamos mais adolescentes com fuzis. 

É utopia? Precisamos de uma.

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